Tarefas domésticas e género: representações de estudantes do ensino superior
Introdução
Em 1996 a Comissão Europeia (1996) sublinhava a premência de uma mudança
duradoura dos papéis parentais e das estruturas familiares com o objetivo de se
alcançar uma distribuição mais justa dos papéis e responsabilidades de mulheres
e de homens na sociedade. Nas últimas décadas a divisão familiar dos papéis de
género tem vindo a ser um tema alvo de crescente atenção visto que vivemos no
período histórico da refutação do modelo tradicional do homem provedor/mulher
doméstica. A crescente participação das mulheres no mercado de trabalho tem
gerado novos modelos de organização familiar que aos poucos se têm vindo a
introduzir, não obstante a relativa relutância social de abandonar o dito
modelo tradicional. Tal como Karin Wall destaca:
As relações familiares assentam hoje num modelo de família
«relacional» e democrática, centrada na descoberta do indivíduo e da
sua identidade no seio de um universo «privado» escolhido por ele.
[ ] Este modelo pressupõe pelo menos em termos subjetivos, a
generalização de atitudes igualitaristas em relação tanto ao trabalho
pago como ao trabalho não pago dentro da família (tarefas domésticas,
cuidados a pessoas doentes, etc.) (Wall, 2005: 2).
Contudo a realidade apresenta-se muito diferente e as grandes mudanças nas
últimas décadas em relação ao trabalho pago não tiveram equivalência ao nível
das práticas de trabalho não pago ou doméstico. Importante ressalvar que a
entrada das mulheres no mercado de trabalho apesar de ser um processo muito
expressivo e transversal, apresenta, a uma análise mais fina, significativas
diferenças ao nível da classe ou estrato social e também dos setores de
atividade ou grupos profissionais, razão pela qual continuamos a ter ainda hoje
uma forte segregação horizontal (Ferreira, 1999; Casaca, 2013). Podemos pois
dizer que o processo de análise das mutações dos papéis sociais de género é
complexo e que apenas a uma análise comparada se podem constatar nuancesmenos
óbvias. De acordo com Susana Villas-Boas (2011), a tendência geral é para
separar as esferas da vida e não associar a influência de uma esfera sobre as
outras. Ao pensar e tratar a esfera familiar, a esfera laboral e a esfera
pessoal/social separadamente, não só se mascaram desigualdades de género, como
se agravam e produzem novas desigualdades entre homens e mulheres.
Ingrid Robeyns (2003) considera que a dupla e tripla jornada de trabalho '
efeito da entrada da mulher na esfera laboral sem que deixasse de assumir a
responsabilidade principal na esfera familiar ' é a base da desigualdade de
género contemporânea visto que está profundamente relacionada com as
assimetrias na divisão do tempo e das responsabilidades entre homens e
mulheres, ou seja, apesar do aumento exponencial das horas de trabalho pago
realizado atualmente pelas mulheres, são elas que continuam a assegurar as
horas de trabalho não pago.
Assim, as diferenças entre mulheres e homens na distribuição do trabalho
doméstico, ditado por papéis de género, continuam a prevalecer e são uma das
principais causas da dificuldade contemporânea em alcançar uma maior igualdade
entre os sexos.
É desta problemática que surge o presente estudo, realizado no âmbito do
Projeto UBIgual ' Plano de Igualdade de Género da Universidade da Beira
Interior (UBI).
Divisão de trabalho doméstico em Portugal ' situação atual
O relatório «Gender Equality Index Report» do Instituto Europeu para a
Igualdade de Género (EIGE, 2013a; 2013b), que procura medir a nível europeu o
estado da igualdade de género depois de 50 anos de medidas para a sua promoção
mediante a combinação de vários indicadores com dados referentes a 2010, coloca
Portugal entre os países da Europa com piores resultados, sendo o índice
nacional 41.3 e o índice da EU-27 54.0, significando portanto que em Portugal
temos um índice consideravelmente mais baixo de igualdade de género do que a
média europeia. Para o presente artigo importa referir dois indicadores
específicos: a percentagem de mulheres e de homens com emprego que cozinham e
realizam trabalhos domésticos diariamente durante uma ou mais horas, e a
percentagem de homens e mulheres com emprego que dedicam diariamente uma ou
mais horas à educação e cuidado das crianças.
No que diz respeito ao primeiro indicador, 90.2% das mulheres empregadas
portuguesas gastam uma hora ou mais diariamente na cozinha e no trabalho
doméstico, ficando em primeiro lugar comparativamente às mulheres dos outros
países europeus (a média da EU-27 é de 77.1%). Os homens empregados portugueses
ocupam a décima terceira posição (19.7% percentagem inferior à EU-27, que é
24.1%) desse mesmo ranking.
No segundo indicador, que traduz o tempo dedicado a atividades de cuidar e
educar crianças, a percentagem das mulheres empregadas portuguesas que dedicam
uma hora ou mais tempo diariamente a essa tarefa é de 51.4% (EU-27, 41.1%),
ocupando o terceiro lugar das mulheres europeias que gastam mais tempo com
estas atividades. Já os homens empregados portugueses, com uma percentagem de
32.4% (EU-27, 24.9%), encontram-se em oitavo lugar.
Os relatórios da EIGE (2013a; 2013b) corroboram os resultados dos estudos
nacionais e chamam a atenção para que apesar de alterações positivas ao nível
da vivência da paternidade, em Portugal se continua a verificar uma disparidade
de género na divisão das tarefas domésticas, sendo este trabalho desempenhado
principalmente pelas mulheres (Torres et al., 2005; Schouten et al. 2012).
Divisão do trabalho doméstico e o papel socializador da família
Diferentes estudos demonstraram que a divisão de trabalho doméstico entre os
sexos é uma área em que as evoluções são lentas (Singly e Glaude, 1986; Zarca,
1990), em contraste com a rápida evolução das mulheres na esfera profissional.
Bernard Zarca (1990) propôs uma tipologia que divide as tarefas domésticas em
três grupos: a) o grupo de tarefas domésticas femininas que são
maioritariamente executadas por mulheres; b) o grupo de tarefas domésticas
masculinas que são cumpridas maioritariamente pelos homens; e entre esses dois
grupos situa-se o c) grupo que denomina de tarefas negociáveis ' tarefas que
continuam a ser realizadas sobretudo pelas mulheres, mas, nas quais, de um
terço até metade dos homens participa. Estas tarefas negociáveis são as que
mais evoluem de acordo com o modelo social dominante. O mesmo autor sugere que
cada um dos membros do casal tende a reproduzir, na sua vida conjugal, o papel
que tinha o progenitor do mesmo sexo que o seu, considerando, ainda, que as
transformações na vida familiar são mais afetadas por outras variáveis (e.g.,
nível de escolaridade e remuneração do casal, entre outras) do que pela
evolução social da divisão do trabalho doméstico. Dito de outro modo, o homem
parece desempenhar tarefas classicamente femininas e negociáveis quando a
mulher exerce uma atividade profissional fora do contexto familiar, quanto mais
alto é o salário da mulher em relação ao do marido e quando os níveis
educativos do casal são elevados. Outros estudos comprovam estes resultados,
por exemplo no estudo de Anália Torres et al.(2000) realizado com a população
portuguesa, verificou-se que na população com os níveis mais altos de instrução
os homens participam nas tarefas domésticas relativas à preparação das
refeições («preparar refeições», «pôr a mesa», «lavar a louça»), ou seja, nas
tarefas que Bernard Zarca (1990) identifica como «tarefas negociáveis». A
participação dos homens nas tarefas domésticas parece assim ter relação com a
posição social e com o capital cultural do agregado familiar.
Outro estudo nacional, realizado por Gabrielle Poeschl e Rui Serôdio (1998),
demonstra que o domínio específico da mulher na esfera familiar parece englobar
o trabalho doméstico e os cuidados com os filhos e filhas pequenas. Já o
domínio em que a participação dos cônjuges é mais igualitária é o do trabalho
de socialização e de partilha com as filhas e os filhos mais velhos, embora a
participação da mulher continue a predominar.
Estudos que se dedicam à análise do tempo dedicado às tarefas apontam uma
mudança na quantidade de trabalho de assistência realizado pelas mulheres na
esfera familiar, ou seja, que este tem vindo a diminuir (EIGE, 2013a, 2013b).
Contudo, isto acontece não porque os homens contribuam com mais trabalho de
assistência, mas porque objetivamente o agregado familiar dedica menos tempo a
estas tarefas (Crompton, 1997), e na verdade a carga remanescente de tratar e
cuidar continua desproporcionalmente da responsabilidade das mulheres (Walby,
1997). Karin Wall e Lígia Amâncio (2007) afirmam que a menor participação das
mulheres nas tarefas de casa se faz à custa do trabalho pago de outras pessoas
e que, muitas vezes, essa diminuição resulta da participação das filhas e das
empregadas domésticas, reproduzindo uma divisão feminina do trabalho doméstico.
Assim, é incontestável que existe uma mudança nas posições de homens e mulheres
na esfera familiar; contudo, esta mudança é uma mudança de permanência
(Bourdieu, 1999), ou seja, continuam a ser as mulheres a desempenhar o trabalho
doméstico mesmo que desempenhem estas tarefas como trabalho pago.
Robert Blood e Donald Wolfe (1989) asseguram que a repartição das tarefas está
relacionada com a visão estereotipada da mulher como principal responsável pelo
criar e cuidar. Esta visão estereotipada é transmitida sobre a forma de
representações sociais, que Denise Jodelet define como «uma forma de
conhecimento, socialmente elaborada e partilhada, com um objetivo prático e que
concorre para a construção de uma realidade comum a um coletivo» (Jodelet, 1989
citada por Oliveira e Amâncio, 2006: 605).
Impõe-se assim saber qual é o papel da família na transmissão das
representações sociais sobre a divisão do trabalho doméstico. Sandra
Jovchelovitch (1998) considera que a representação social é um qualquer saber,
mas sobretudo aqueles que se produzem no quotidiano, e que pertencem ao mundo
vivido, pelo que a família se afigura como um espaço privilegiado para a sua
transmissão visto ser a primeira instância socializadora. A família é
usualmente quem define o rumo inicial para o desenvolvimento de atitudes,
valores e identidade de uma criança antes de ele ou ela ter contacto com outras
instituições e/ou com outras influências (Cunningham, 2001a, 2001b; Fan e
Marini, 2000). Na generalidade, os principais modelos para as crianças são os
progenitores e as progenitoras, uma vez que são aqueles e aquelas cujos
comportamentos são mais visíveis e acessíveis à criança, quer pela proximidade
quer pelo teor afetivo da relação (relação afetivamente mais forte). De facto,
embora a criança não seja uma mera imitadora de modelos e vá, de alguma forma,
construindo ativamente a sua própria socialização, não podemos esquecer que, ao
observar o comportamento do pai e da mãe, na partilha das responsabilidades do
lar, ela aprende, inevitavelmente, inúmeras mensagens de género (Cunninghan,
2001b).
Do mesmo modo, Carole Beal (1994) afirma que na família, o ambiente social
tende a ser estruturado, de maneira distinta, para cada um dos indivíduos, fato
que condiciona a assunção de responsabilidades ao nível do trabalho doméstico.
Em geral, às raparigas são atribuídas tarefas típicas femininas, geralmente
executadas em casa, e aos rapazes tarefas de manutenção geralmente realizadas
por homens adultos e no exterior da casa (Cogle e Tasker, 1982; Lein, 1979;
Lynch, 1975; O'Neill, 1978; Osborne, 1979 e Vanek, 1980 citados por Hilton e
Haldeman, 1991; Beal, 1994; Vieira, 2006a, 2006b).
Assim, a divisão de tarefas em casa pode transmitir às filhas e aos filhos uma
panorâmica geral das principais funções que se espera que o homem e a mulher
desempenhem no lar (Basow citado por Vieira, 2006b) durante a vida adulta. Os
progenitores e as progenitoras são sempre influências dominantes nas crenças de
seus filhos adultos e das suas filhas adultas sobre a igualdade de género e há
evidências de que a transmissão intergeracional da ideologia de género tem
relação com a aprendizagem social (Cunningham, 2001a, 2001b; Fran e Marini,
2000; Carlston e Knoester, 2011).
Estudo Empírico
O propósito deste estudo é o de analisar quais as representações sociais de
género dos e das estudantes da UBI relativamente à realização de tarefas
domésticas e perceber se os e as jovens pensam reproduzir a organização
familiar da divisão das tarefas domésticas em que foram socializados e
socializadas. Assim, os resultados que se apresentam de seguida dizem respeito
a dois blocos de perguntas do inquérito aplicado, a saber: I. Tarefas
domésticas e família e II. Tarefas domésticas e representações sociais.
Descrição da Amostra
Este estudo realizou-se na Universidade da Beira Interior e abrangeu estudantes
do 1º ciclo e/ou licenciatura do ano letivo de 2009/2010, o que corresponde a
uma população de 3.790 pessoas inscritas. A fração da nossa amostra é de 10% o
que equivale a n= 378 casos.
Esta amostra é constituída por n = 172 estudantes femininas (45,5%) e n = 206
estudantes masculinos (54,5%), pertencentes a todas as faculdades da
instituição e aos seguintes cursos: Faculdade de Ciências (Química Industrial e
Biotecnologia), Faculdade de Engenharias (Engenharia Civil, Engenharia
Eletromecânica e Arquitetura), Faculdade de Ciências Sociais e Humanas
(Economia, Gestão e Sociologia), Faculdade de Artes e Letras (Design de Moda e
Design Multimédia e Ciências da Comunicação), Faculdade de Ciências da Saúde
(Medicina e Optometria ' Ciências da Visão). Sendo que a maioria dos e das
participantes são da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (33,3%) e da
Faculdade de Engenharias (33,1%). A média de idade da amostra é de 21 anos.
Instrumento
Foi aplicado um inquérito por questionário, dividido em duas partes. A primeira
parte é composta por perguntas de escolha múltipla, direcionadas para a
compreensão da organização familiar no que diz respeito à execução das tarefas
domésticas, com perguntas tais como: «quem executa a maioria das tarefas em
casa, o pai ou a mãe», e «se o tipo de organização familiar da divisão das
tarefas domésticas da família que formará no futuro irá ser o mesmo que o
praticado pela mãe e pelo pai». E uma segunda parte constituída por uma lista
de 24 tarefas domésticas que utiliza perguntas fechadas e específicas (ex.
«pagar as contas da casa»; «passar a ferro»; «cozinhar»), a serem classificadas
numa escala ordinal em que o respondente escolhe apenas um só item, a saber:
tarefas mais femininas, tarefas mais masculinas ou tarefas de ambos.
Procedimento de recolha de dados
Para a exequibilidade da recolha de dados no tempo disponível optou-se por
aplicar os questionários por administração direta, em contexto de aula, do dia
18 ao dia 31 de Maio de 2010. O tempo médio da participação de cada turma foi
de 30 minutos. Numa primeira fase explicou-se o estudo no âmbito do projeto
UBIgual, garantiu-se o anonimato explicando que as respostas seriam tratadas em
conjunto, solicitou-se que respondessem de acordo com o que pensavam, reforçou-
se que não existem respostas certas ou erradas e forneceram-se as instruções
necessárias para o preenchimento do questionário.
Para a análise dos dados que se apresenta em seguida utilizou-se o pacote
estatístico IBM SPSS Statisticsversão 19.0.
Resultados
I. Tarefas domésticas e família
Relativamente ao tipo de organização familiar da divisão de tarefas domésticas
apuramos que em 67% das famílias das e dos estudantes da UBI é a mãe quem faz a
maioria das tarefas, seguida de 32% em que as tarefas são divididas pelos/as
progenitores/as e 1% (que equivale a 5 casos) em que o pai faz a maioria das
tarefas (figura_1).
A participação das e dos estudantes na execução das tarefas domésticas em casa
varia entre o «ajuda frequentemente» 52%, «muito frequentemente» 32%,
«raramente» 16% e «nunca» 0,5%. A percentagem de raparigas que afirmam ajudar
as progenitoras e os progenitores no desempenho das tarefas domésticas é de
91%, superior à percentagem de rapazes que faz a mesma afirmação (77%). As
diferenças que se destacam entre a ajuda prestada pelos rapazes e pelas
raparigas verificam-se nos extremos, ou seja, no item «muito frequentemente»,
elas pontuam 44% e eles 21% e no item «raramente» eles pontuam 22% e elas 8%.
É importante neste ponto saber se é o pai ou a mãe quem recebe mais ajuda e a
resposta a essa questão por parte 66% das e dos estudantes foi de que «ajudam
ambos» no desempenho das suas tarefas, 24% «ajudam a mãe», 9% «ajudam o pai» e
2% «não sabe ou não responde». Analisando estes dados por sexo, verificamos que
59% das raparigas «ajudam ambos», 39% «ajuda mais a mãe» e apenas 1% «ajuda
mais o pai», e que 71% dos rapazes «ajudam ambos», 15% «ajuda mais o pai» e
10,7% «ajuda mais a mãe».
No que diz respeito ao modelo de divisão de tarefas que possivelmente adotarão
no futuro, a maioria (44,71%) refere que adotará um modelo que será
«semelhante», 6,98% «igual» e 12,79% «não sabe e não responde»; por seu lado
50% dos rapazes querem um modelo «semelhante à dos /as progenitores/as», 22,23%
um «oposto à dos/as progenitores/as», 9,32% «igual» e 18,45% «não sabe e não
responde».
Estes dados solicitam uma análise mais detalhada sobre qual é o modelo de
organização familiar de divisão de tarefas domésticas que os e as estudantes da
UBI não pretendem reproduzir e qual o modelo que desejam. Consultando a tabela
1 verifica-se que 44,27% das pessoas que vivem numa família em que a «mãe faz a
maioria das tarefas» afirmam que no futuro não seguirão este modelo.
Existe uma rejeição maior deste modelo por parte das raparigas (59,48%) do que
por parte dos rapazes (31,39%). O modelo que as e os estudantes afirmam
pretender seguir é o modelo em que as «tarefas são divididas entre ambos»,
70,39% diz que será «semelhante» e 17,65% «exatamente igual». Neste grupo,
64,81% das raparigas predizem que será «semelhante» e 20,37% «exatamente
igual», e 75,39% dos rapazes que será «semelhante» e 15,38% «exatamente igual».
II. Tarefas domésticas e representações sociais
Para compreender de que tipo de divisão de tarefas domésticas se está a falar,
procurámos compreender quais as representações sociais das tarefas domésticas
em função do género. Para encontrar consenso sobre a quem os e as estudantes da
UBI atribuem as tarefas domésticas, baseamo-nos no critério utilizado em
estudos sobre estereótipos de género (Rosenkrantz et al., 1968 e Doise e
Weinberger, 1972-1973, citados por Amâncio, 1994), que utilizam o critério de
obter pelo menos 75% de respostas positivas para uma forma de qualificação. Ou
seja, é considerado consenso sobre ser tarefa de mulher, de homem ou de ambos
se esta for atribuída por 75% da amostra (ver tabela_2). Deste modo, neste
estudo obteve-se consenso em treze tarefas domésticas. Destas, doze tarefas são
consensualmente atribuídas a ambos (homens e mulheres) e uma é atribuída ao
sexo masculino («bricolage», 77,72%). As doze tarefas atribuídas por consenso a
ambos distribuem-se da seguinte forma: i) por unanimidade todas as tarefas do
grupo das finanças, «pagar as contas de casa» (83,59%); «gerir dinheiro da
família» (81,22%); «pagar prestações» (80,69%), ii) no grupo das tarefas de
cuidar as crianças, é onde se encontram os con-sensos mais elevados, «brincar
com as/os filhas/os» (96,03%); «levar as/os filhas/os à escola» (95,50%);
«ajudar nos TPC dos/as filhos/as» (92,86%); «levar os/as filhos/as a atividades
de lazer» (90,45%); levar os/as filhos/as ao/à médico/a» (84,65%); «cuidar
crianças pequenas» (80,69%), iii) no grupo de tarefas de casaexiste consenso
sobre a tarefa de «cozinhar» (81,17%) e a tarefa de «lavar a loiça» (75,06%) e
por último iv) no grupo das comprasa tarefa «escolher equipamentos» (77.78%).
A análise realizada implicou ainda o cruzamento de cada uma das tarefas com a
variável sexo, e consequentemente a aplicação do teste Chi-Square, na procura
de diferenças significativas entre os sexos (tabela_3). No conjunto dos
resultados apurados apenas em quatro tarefas não se verificam diferenças
significativas entre as respostas das e dos estudantes. Duas respeitantes ao
grupo das tarefas de casa e duas ao grupo de cuidar das crianças, a saber:
«passar a ferro» em que a maior parte das mulheres e dos homens considera que é
tarefa de mulher; «limpar a casa» em que a maior parte das mulheres e dos
homens considera que é tarefa de ambos; «comprar roupa aos/às filhos/as» é uma
tarefa que atribuem a ambos e finalmente a tarefa «levar os/as filhos/as a
atividades de lazer» que é atribuída a ambos e regista a unanimidade mais
elevada entre os sexos.
Nas restantes vinte tarefas verificam-se diferenças significativas nas
respostas por sexo: as raparigas tendem a atribuir mais as tarefas a ambos do
que os rapazes e são eles quem mais atribuem tarefas diferenciadas a mulheres
ou a homens. É ainda de salientar outros resultados: mais de metade dos rapazes
atribuem as tarefas relacionadas com o carro e a «bricolage» aos homens, mais
de metade das raparigas atribuem como tarefa mais feminina «passar a ferro»;
«decorar a casa» e «comprar roupas aos/às filhos/as» e nenhuma das 378 pessoas
inquiridas atribuiu a tarefa «cuidar de crianças pequenas» aos homens, sendo
que a esmagadora maioria adjudicou a tarefa a ambos e aproximadamente 20%
responderam que é uma tarefa mais de mulher (esta atribuição é feita
maioritariamente por rapazes).
Por último, procurámos compreender qual a relação que existe entre a
organização familiar na divisão das tarefas e a atribuição das tarefas por
género. Por outras palavras, pretendemos saber se a ideia de que a tarefa é
feminina, masculina ou de ambos está relacionada com o modelo de divisão de
tarefas domésticas em que foram socializados e socializadas. Para tal,
calculámos para cada grupo de tarefas o número médio de atribuições femininas,
masculinas ou a ambos e comparámos segundo o sexo e o tipo de divisão de
tarefas na família dos e das inquiridas (tabela_4). Para esta análise
utilizámos os testes paramétricos (test te Anova) quando as variáveis cumpriam
os critérios de normalidade e homogeneidade da variância, e os testes não
paramétricos (Kruskall Wallise U de Mann Whitney).
Da comparação entre os sexos, verifica-se que as diferenças entre rapazes e
raparigas se encontram sobretudo nas famílias em que é a mãe que faz a maioria
das tarefas, confirmando uma desejabilidade de mudança para padrões mais
igualitários por parte das raparigas. Por outro lado, não se verificam
diferenças significativas nas atribuições que fazem as raparigas e rapazes de
famílias em que as tarefas domésticas são divididas entre o pai e a mãe.
Da análise intragrupo de raparigas e intragrupo de rapazes por grupos de
tarefas e tipo de organização familiar na divisão das tarefas domésticas,
verifica-se que no caso das raparigas não há diferenças significativas na
atribuição das tarefas e a organização familiar da divisão de tarefas. O que
indica que o tipo de organização familiar da divisão de tarefas não tem uma
influência significativa na atribuição da tarefa a um ou a outro sexo, por
parte das raparigas. É de destacar, porém, a exceção do grupo das compras, em
que as raparigas oriundas das famílias que dividem tarefas atribuem
significativamente mais as tarefas das compras a ambos e aquelas que provém de
famílias em que a mãe faz a maioria das tarefas atribuem significativamente
estas tarefas às mulheres.
No caso dos rapazes, o tipo de organização familiar da divisão de tarefas tem
uma influência significativa sobre a forma como atribuem as tarefas.
Nomeadamente, nos grupos das tarefas da casa, das compras e cuidar de crianças
os rapazes que atribuem estas tarefas como mais femininas provêm de famílias em
que a mãe faz a maior parte das tarefas domésticas, já os oriundos de famílias
em que as tarefas domésticas são divididas atribuem significativamente as
tarefas de casa a ambos. Nos grupos de tarefas relacionadas com as finanças e o
carro são expressivamente mais atribuídas a ambos por aqueles que provém de
famílias em que os e as progenitores/as dividem as tarefas do que por aqueles
que são de famílias em que a mãe faz a maioria das tarefas. Demonstrando que os
rapazes que provém de famílias em que os progenitores e as progenitoras dividem
as tarefas são mais igualitários na distribuição das tarefas e que os rapazes
socializados em famílias em que a mãe faz a maioria das tarefas apresentam uma
atribuição genderizada das tarefas domésticas.
Discussão dos resultados
O presente estudo tinha como objetivo compreender quais as representações
sociais das tarefas domésticas das alunas e dos alunos da UBI e em que medida
tencionam reproduzir a divisão de trabalho doméstico da sua família de origem
no núcleo familiar que no futuro estes e estas jovens irão formar. Procurava,
simultaneamente, compreender o efeito do tempo, especificamente da mudança
geracional, na alteração desta situação.
Dos resultados obtidos corroboramos várias conclusões de outros estudos de
género. Verificamos, por um lado, a disparidade de género na divisão destas
tarefas (Torres et al., 2005; Vieira, 2006; Schouten et al., 2012), já que a
organização familiar de pertença (das e dos participantes) que predomina é a
divisão de tarefas domésticas em que a mãe faz a maioria das tarefas. Por outro
lado, verificamos através dos resultados obtidos sobre a ajuda que estas e
estes estudantes prestam aos progenitores e às progenitoras no desempenho
destas tarefas, que a socialização primária destes e destas jovens é na maioria
diferenciada por sexo (Hilton e Haldeman, 1991; Beal, 1994; Vieira, 2006a,
2006b). E que esta socialização influenciará distribuição de tarefas domésticas
por género na futura organização familiar dos inquiridos e das inquiridas
(Cunningham, 2001a, 2001b; Fran e Marini, 2000; Carlson e Knoester, 2011),
visto que 53% afirmam ter a intenção de reproduzir o modelo de família de
pertença. Embora o modelo que mais pretendam reproduzir seja o modelo de
divisão de tarefas quando comparado com o modelo tradicional, a análise por
consensos das tarefas domésticas demonstra que apesar dos inquiridos e das
inquiridas atribuírem a maioria das tarefas a ambos (homens e mulheres), as
desigualdades de género na distribuição das mesmas e a presença de estereótipos
de género persistem. Sendo que as tarefas em que se atingiu maior consenso
sobre serem tarefas de homens e mulheres são as tarefas que Zarca identifica
como tarefas negociáveis (1990), o que pode significar que a atribuição a ambos
os sexos signifique afinal que seja uma tarefa desenvolvida maioritariamente
pela mulher e que a participação do homem seja apenas uma «ajuda».
Da relação entre a atribuição das tarefas domésticas e o tipo de organização
familiar na divisão das tarefas domésticas, verifica-se que as raparigas são
menos influenciadas pela organização de divisão de tarefas da família de
pertença na atribuição das tarefas do que os rapazes. E são elas quem mais
deseja um modelo diferenciado daquele em que foram socializadas, nomeadamente
quando são oriundas de famílias com uma divisão não igualitária. Por seu turno,
os rapazes socializados em famílias em que existe divisão de tarefas entre pai
e mãe, são mais igualitários na atribuição das tarefas do que rapazes que
provêm de famílias em que o modelo de divisão das tarefas domésticas é
tradicional.
Da realização deste estudo, compreende-se uma mudança geracional nas questões
de género, provavelmente consequente das mudanças na esfera laboral e do facto
das relações familiares serem cada vez mais democráticas (Wall, 2005). Todavia,
esta mudança está longe de ser a mudança social desejada, visto que se
comprovou que a distribuição do trabalho não pago continua a não ser
igualitária e que provavelmente continuará a não o ser nas futuras organizações
familia-res destes e destas jovens. Em nosso entender, este estudo sugere,
igualmente, um possível efeito positivo de disseminação da mensagem de
igualdade de género: as raparigas, enquanto primeiras agentes naquilo que é uma
participação mais igualitária de ambos os sexos na esfera doméstica, parecem
estar mais abertas à mudança quando convocada a partir de fora, pela ação da
sociedade civil na divulgação de um modelo social mais equilibrado mesmo quando
tal questiona o seu padrão familiar. Já os rapazes, interlocutores menos
diretos visto que tipicamente menos prejudicados na divisão tradicional de
papéis, são mais sensíveis à mensagem quando a mesma é veiculada pelo seu
modelo familiar já de si mais igualitário. O que nos leva a concluir que a
educação familiar tem um papel muito importante na transmissão de tarefas a
executar e funções a desempenhar por homens e mulheres, e na construção da
identidade de género dos e das jovens. Parece-nos, assim, que dar continuidade
ao questionamento do modelo tradicional da divisão das tarefas através da
educação familiar é um trilho importante para a promoção da igualdade de
oportunidades e direitos entre homens e mulheres (Vieira, 2006b), e que outros
agentes educativos têm igualmente um papel importante nesta missão, entre os
quais as instituições do ensino superior (Oliveira, Simões & Villas-Boas,
2011).