«O que eu faço tem valor»: discutindo o cuidado familiar e o reconhecimento
ESTUDOS E ENSAIOS
RESUMÉ
La manifeste importance des soins dans la vie quotidienne, n'est pas,
d'habitude, reconnue par la société. Les biographies de tout ceux qui prennent
soin des autres sont le reflet de cela: l'invisibilité sociale du travail de
prendre soin se répercute en nombreuses contraintes de leurs vies. Cela est
présent particulièrement dans les histoires des femmes soignantes. En partant
de l'histoire de vie de la femme soignante, ce texte nous montre le manque de
reconnaissance du rôle de soignant/e et tout ce qui cela représente dans leurs
vies. Le texte se concentre aussi sur l'importance et les limites de
l'utilisation de l'oralité comme source de connaissance et reconnaissance du
rôle du soignant.
Mots-clés: Soins, soignants, la reconnaissance, la non-reconnaissance,
histoires de vie.
Introdução
Historicamente, o cuidado às pessoas dependentes tem sido assegurado pelas
famílias em âmbito doméstico (Goodhead e McDonald, 2007). Embora absolutamente
necessário para garantir o bem-estar e a sobrevivência de muitas pessoas,
continua a carecer de valorização social. Um importante indicador deste não
reconhecimento é a ausência de trabalhos que olhem para quem cuida. Os/as
cuidadores/as percebem a invisibilidade do seu trabalho e afirmam a importância
social do seu papel (Alves, 2011). Uma desvalorização que é principalmente
sentida pelas mulheres, uma vez que os cuidados, embora se alimentem dos laços
familiares, se concretizam sobretudo pelo trabalho feminino (Hooyman e Gonyea,
1995; Goodhead e McDonald, 2007). E nesta questão os processos de socialização
continuam a ter um papel muito importante ao configurarem as mulheres como
cuidadoras, preparando-as para cuidar. A compreensão por parte de quem cuida de
que o cuidado carece de valorização social, torna o reconhecimento do papel
dos/as cuidadores/as uma questão incontornável para o estudo da prestação de
cuidado pela família.
Este artigo reflete sobre as representações e conceções que quem cuida tem
sobre o cuidado familiar e sua desvalorização a partir da história de vida2 de
Marília Oliveira 3. Uma narrativa que põe em evidência uma realidade que a
literatura feminista se tem esforçado por visibilizar: a persistência de uma
desigual partilha de tarefas entre sexos no cuidado aos familiares e os
impactos disso para quem cuida. Isto faz a experiência das mulheres neste
domínio diferente da dos homens, e torna importante ouvi-las sobre estas
questões.
Porque dar voz a mulheres como Marília passa por dar visibilidade às suas
entrevistas, este texto reflete também sobre a importância e os limites do uso
da narrativa oral como fonte de conhecimento e de reconhecimento. Sabe-se que
as pessoas comuns têm poucas oportunidades para contarem as suas histórias de
vida, daí a entrevista ser aqui problematizada como um meio que permite
conhecer uma realidade ainda desconhecida ' as vidas de quem cuida,
representações e conceções que têm sobre o cuidado e os impactos que a
desvalorização do trabalho de cuidar tem nas suas vidas ', ao mesmo tempo que
questionará até que ponto é que, através dela, se consegue avançar além da
produção de conhecimento e chegar ao reconhecimento do trabalho de cuidar ' o
que Marília deseja. No limite, procura questionar: será que dar voz é dar
reconhecimento?
O cuidado como competência das mulheres
É comummente entendido que o cuidado das pessoas dependentes deve ser
assegurado pelas mulheres enquanto uma extensão natural do trabalho doméstico,
surgindo no âmbito das relações de casamento e parentesco. As mulheres
continuam a ser preparadas para cuidarem dos «seus», nomeadamente quando esses
«seus» são «os seus» filhos e/ou «suas» filhas.
A associação entre mulheres e cuidado foi sempre muito comum. A dicotomia entre
sexos, enquanto tópico de análise, inicialmente não contribuiu para demonstrar
a desigual distribuição das tarefas de cuidado entre mulheres e homens, mesmo
no interior da teoria feminista. Ao destacar o género enquanto categoria
importante na divisão das tarefas do cuidado, mas, também, para a disposição de
cuidar, e pelo ambiente em que ocorre, alguns trabalhos acabaram por
materializá-lo numa atividade (tipicamente) feminina, como o contributo de
Carol Gilligan (Dressel e Clark, 1990). O modelo de cuidado de Gilligan baseou-
se na premissa de que mulheres e homens são diferentes, existindo uma distinção
fundamental entre o raciocínio moral masculino e feminino: as mulheres baseiam
o seu raciocínio moral dentro da noção de cuidado (care), enquanto os homens na
de justiça (Gilligan, 2003)4. Nas mulheres existe uma propensão para o cuidado
do outro e para um trabalho mais emocional. Por demonstrar isto, apesar de ser
uma proposta feminista, algumas (autoras) feministas rejeitaram este modelo que
consideravam reforçar o papel histórico de autossacrifício das mulheres e que
consistia numa visão parcial da realidade5. Outra crítica comum a este trabalho
é que ignorou a influência que os processos de socialização têm neste domínio.
É que as mulheres não são apenas quem assume mais frequentemente o papel de
cuidadoras; elas são, e continuam a ser, socializadas para assumirem esse papel
em algum momento das suas vidas, levando a que tanto homens como mulheres
esperem que sejam elas a cuidar (Brubaker e Brubaker, 1992).
Na socialização das mulheres, por oposição à dos homens, existe uma
predominante relacional para o cuidado dos outros. Ou seja, os processos de
socialização criam uma relação específica entre mulheres e cuidado, que fazem
que sejam elas quem se ocupa das questões da reprodução do quotidiano, das
quais faz parte o cuidado das pessoas mais vulneráveis. A socialização das
mulheres e dos homens tem sido construída tendo em vista a atuação em espaços
distintos: se para eles o espaço natural tem sido o espaço público, para elas o
domínio onde exercem o seu saber tem sido o domínio do privado, do espaço
doméstico e das relações de parentesco e proximidade. As repercussões desta
demarcação de espaços de ação têm sido várias: enquanto ao espaço público ficam
associadas as funções mais importantes da comunidade, atividades que merecem
valorização social e remuneração; o cuidado, enquanto circunscrito a um
ambiente fechado, não merece a nível simbólico o mesmo reconhecimento. E embora
hoje a socialização não demarque tão fortemente os espaços de atuação para cada
um dos sexos, e a socialização das mulheres comporte também o espaço público, a
verdade é que, no espaço doméstico e em sociedade, continua a existir uma
desvalorização simbólica do trabalho doméstico e do cuidado das pessoas
dependentes (Joaquim, 2000). Um dos aspetos que tem vindo a ser crucial para a
manutenção desta desvalorização social parece vir da resistência masculina e
também feminina a que os homens assumam essa função. A oposição masculina em
cuidar repercute-se em vários domínios da vida das próprias mulheres, com
«efeitos tanto na vida quotidiana da comunidade, na sua materialidade, como, a
nível simbólico, na sua marginalidade e desvalorização» (Joaquim, 2000: 194). A
crescente participação das mulheres na força de trabalho assalariada não foi
acompanhada por uma maior participação dos homens no trabalho doméstico. Assim,
embora parte ativa do mercado de trabalho formal, isso não significou que elas
tenham deixado de assumir as principais responsabilidades ao nível do trabalho
doméstico e do cuidado das pessoas dependentes (Torres et al., 2005; Wall e
Guerreiro, 2005).
O espaço doméstico permanece um elemento estruturante das relações sociais, no
sentido em que espaço público e privado continuam hoje a influenciar-se
mutuamente. Significando, na prática, que o trabalho de «criar e cuidar»
continua a ser entendido como uma competência familiar, a ser garantido pela
via informal pelo trabalho das mulheres, e o Estado pouco tem feito para torná-
lo uma questão (verdadeiramente) pública, mantendo-se à distância. No entanto,
a literatura feminista tem-se esforçado por contrariar esta tendência porque,
ao trazer para o espaço público a realidade vivida no espaço privado, tem
procurado visibilizar a experiência das mulheres nesse domínio (Hooyman e
Gonyea, 1995). Apesar desses esforços, a associação entre o cuidado e as
mulheres é ainda comum (Pulcini, 2012), o que resulta em implicações concretas
ao nível das práticas: «Na maioria dos casos, cuidadores familiares é um
eufemismo para um cuidador de primeira linha, geralmente mulher. A família
raramente partilha o cui-dado entre si.» (Hooyman e Gonyea, 1995: 3).
A maioria das tarefas que integram o trabalho de cuidar são asseguradas pelas
mulheres. Atividades essenciais para garantir o bem-estar e a sobrevivência de
muitas pessoas, mas que continuam a não ser valorizadas ' mesmo no interior das
relações primárias. Desvalorização que trespassa a esfera doméstica, que se
inscreve nas atitudes de todos/as e que tem invisibilizado quem cuida, como
Marília.
História(s) de cuidado, história(s) de (re)conhecimento (?)
As fontes orais representam exatamente uma ferramenta indispensável para dar
conta da experiência de grupos que têm ficado fora dos documentos escritos,
como as mulheres (Baillargeon, 1993). Partindo da recolha de histórias de vida,
a história oral surgiu como uma forma democrática de fazer história
(Baillargeon, 1993). O foco da História, salvo em épocas de crise, nunca foi a
história das «pessoas comuns». Pelo contrário, os grandes homens' foram os
seus protagonistas 6. A história oral veio mudar este paradigma, ao interessar-
se pelas pessoas comuns e anónimas (Thompson, 2006: 31).
O impacto desta mudança de paradigma foi grande (Thompson, 2006). A escuta e
recolha das narrativas orais trouxeram novos elementos sobre a história
familiar, possibilitando, ainda, que a subjetividade dos sujeitos fosse
considerada. As fontes orais permitem analisar quer os eventos, como o
significado que os sujeitos lhe atribuem: ouvem-se as pessoas sobre o modo como
vivenciam um dado acontecimento, como o entendem, pois parte-se do pressuposto
que as subjetividades conseguem revelar aspetos desconhecidos sobre eventos já
conhecidos, e isso possibilita dar visibilidade a áreas não visíveis da vida
diária das pessoas comuns. Aquilo em que as pessoas acreditam é observado como
um facto histórico (Portelli, 2006).
O conhecimento produzido através das histórias de vida e entrevistas em
profundidade começou assim a ser entendido como importante não só para a
produção de conhecimento académico, mas também para o ativismo e mudança
social. Ou seja, como podendo contribuir não só para que o conhecimento sobre
uma determinada área se desenvolva e avance, mas também para o empowermentdos
sujeitos conseguido através desse mesmo conhecimento (Armitage e Gluck, 2006:
75).
É indiscutível que a história oral permitiu uma mudança na forma de se fazer
história. Se pensarmos, especificamente, na história das mulheres é
inquestionável que ao abandonar as questões da história tradicional para propor
novas questões e pôr em causa o modo como a história tradicional (d)escrevia o
objeto, contribuiu para a recuperação da memória feminina (Armitage e Gluck,
2006: 53). A história oral aparece assim como «o palco principal para as
mulheres que não tiveram «[ ] e/ou que não têm acesso a canais de comunicação,
para que suas vozes sejam ouvidas» (Armitage e Gluck, 2006: 79).
A história oral e a história das mulheres têm mais em comum, que aquilo que à
primeira vista aparentam: pela vontade de fazer surgir uma memória sobre o
«outro» que tem ficado esquecido, ambas desafiam a memória existente. Mais,
elas tornam possível que as mulheres comuns saiam da sombra e protagonizem a
(sua) história.
Os/as diferentes autores/as acima citados/as, mostram a importância que as
fontes orais tiveram e têm para o conhecimento científico e também para os
próprios sujeitos ' na sua forma de empowerment. O percurso dentro de uma
disciplina como a História mostra que sem elas muitos/as protagonistas e
eventos continuariam apagados do registo histórico como se não tivessem
acontecido. A importância da recolha de entrevistas e histórias de vida na
construção do conhecimento torna-se assim inegável.
Se é verdade que sem as fontes orais muitos fenómenos continuariam
invisibilizados, em contexto de entrevista aquilo que se verifica é que, muitas
vezes, quando as pessoas aceitam contar as suas histórias procuram algo que se
encontra para além do simples relato de certos eventos das suas vidas e dar-se
a conhecer. No caso concreto dos/as cuidadores/as informais, procuram o
reconhecimento do seu papel. E, por isso, embora a entrevista possa dar a
conhecer a vida das pessoas comuns, como quem cuida, tenho dúvidas que ela
possa servir como forma de empowermentpara quem é entrevistado/a.
Ouvir quem cuida falar sobre a ausência de reconhecimento do seu papel deixa
claro que existem formas diferenciadas de sentir a desvalorização do trabalho
de cuidar e mostra que a procura e atribuição de reconhecimento é algo muito
complexo e que dificilmente se consegue alcançar através da partilha de
histórias, sobretudo quando pensamos qual a difusão e quais os públicos a que
vão chegar essas vozes. O alcance que um trabalho científico consegue atingir e
o público ao qual este consegue chegar dificilmente tornam possível que estas
vozes ecoem de modo a produzir mudanças concretas nas vidas de quem é
entrevistado/a.
Porque quem cuida percebe o seu trabalho de cuidar como não valorizado e afirma
a importância que o seu papel tem a nível social, com o objetivo de ver o que
faz reconhecido por outros ' família, comunidade e sociedade em geral ',
importa aprofundar a discussão sobre a luta pelo reconhecimento. Os principais
contributos teóricos de Axel Honneth e Nancy Fraser, autores/as que têm
trabalhado sobre este tema, serão discutidos de seguida.
O reconhecimento a partir de Honneth e Fraser
A questão da «luta por reconhecimento» tem sido bastante debatida por Honneth e
Fraser, resultando em contributos diferentes. Exatamente por essa diferença as
duas teorias são importantes para pensar esta questão.
É a partir dos modelos teóricos de Georg Friedrich Hegel e de Georg Herbert
Mead que Honneth irá sintetizar a sua teoria do reconhecimento. Para o autor, a
busca pelo reconhecimento acontece mediante lutas que são motivadas moralmente,
com o objetivo de estabelecer institucional e culturalmente formas ampliadas de
reconhecimento recíproco. Tendo por base isto, as categorias de relações
presentes na teoria Mead são redefinidas por Honneth em relações de «amor», de
«direito» e de «solidariedade» (Honneth, 2011: 131).
As primeiras são fundamentais para a estruturação da personalidade dos
sujeitos. Honneth, apoiando-se na psicanálise de Donald Winnicott, analisa as
relações entre mãe e filho, indicando que elas passam por uma transformação que
vai da fusão completa à dependência relativa. Nessa dinâmica, eles aprendem a
diferenciarem-se e verem-se como autónomos: ainda que dependentes, eles podem
sobreviver sozinhos. Disso advém a possibilidade de uma autoconfiança. Para
Honneth, em cada relação amorosa é atualizado o jogo dependência/autonomia
oriundo dessa fusão originária, dele dependendo a confiança básica do sujeito
em si mesmo e no mundo (Honneth, 2011).
Já as relações de direito pautam-se pelos princípios morais universalistas
construídos na modernidade. O sistema jurídico deve expressar interesses
universais de todos os membros da sociedade, não admitindo privilégios. Por
meio do direito, os sujeitos reconhecem-se reciprocamente como seres humanos
dotados de igualdade, que partilham as propriedades para a participação em uma
formação discursiva da vontade. As relações jurídicas geram o autorrespeito:
consciência de poder respeitar-se a si próprio, porque ele merece o respeito de
todos os outros.
A última dimensão do reconhecimento dá-se no domínio das relações de
solidariedade que propiciam algo além de um respeito universal. Para poderem
chegar a uma autorrelação plena, os sujeitos precisam não só de serem
reconhecidos ao nível das relações primárias e de direito, mas, também, de
sentirem uma estima social, só alcançável através de uma comunidade de valores,
onde encontram a valorização das suas diferenças.
Às três formas de reconhecimento, Honneth associa, respetivamente, três for-mas
de desrespeito: 1) aquelas que afetam a integridade corporal dos sujeitos e sua
autoconfiança básica; 2) a negação de direitos, que impossibilita o
autorrespeito, à medida que inflige ao sujeito o sentimento de não possuir o
statusde igualdade; e 3) a referência negativa ao valor de certos indivíduos e
grupos, o que afeta a autoestima dos sujeitos (Honneth, 2011: 177). Estas
formas de desrespeito impedem a realização dos indivíduos, estando na base das
lutas por reconhecimento. O desrespeito pode, assim, tornar-se num impulso
motivacional para lutas sociais, à medida que torna evidente que outros atores
impedem o reconhecimento. Os conflitos intersubjetivos por reconhecimento,
provados por situações desrespeitosas vivenciadas quotidianamente, são
fundamentais para o desenvolvimento moral da sociedade e dos indivíduos. A
concorrência individual pela valorização social acontece depois da
experimentação do desrespeito (o que pode acontecer a níveis diferenciados): é
perceção de que algo não está bem que provoca a ação.
O paradigma alternativo do reconhecimento de Fraser tem por referência o
trabalho de Honneth7. Para a autora, a justiça requer tanto a redistribuição
como o reconhecimento. Fraser procurou, assim, superar a ideia de que a
redistribuição busca diferenciação de um determinado grupo, enquanto o
reconhecimento se pauta por aquilo que é particular a cada grupo (Fraser,
2000;2005; 2006a).
Nesta perspetiva, o não-reconhecimento não é explicado em termos de depreciação
da identidade, mas como subordinação social. O que requer reconhecimento não é
a identidade específica do grupo, mas o statusdos seus membros individuais como
parceiros por completo na interação social (Fraser, 2006). Assim, a análise do
desrespeito adquire neste modelo teórico um objeto empiricamente palpável:
padrões institucionalizados de desvalorização cultural, que constroem certas
categorias de atores sociais como normativas e outras como inferiores. Estejam
tais padrões instituídos em leis formais ou em sentidos informais, o seu
resultado é a configuração de atores que são menos do que membros efetivos da
sociedade. A luta por reconhecimento procura, assim, a superação da
subordinação. Para isso acontecer é necessário que travem a sua luta pelo
reconhecimento em espaço público, no sentido em que só as lutas aí travadas
conseguem tornar visível o invisível e levar outros a considerá-las com o
objetivo de alterar alguns dos padrões existentes e as regras de convivência
entre os sujeitos.
Porque o modelo de Fraser evidencia a importância do espaço público na
superação da subordinação, ao mostrar ser crucial que as reivindicações por
reconhecimento tenham eco na esfera pública para que consigam produzir mudanças
de facto, ele interroga-nos de que modo é que Marília ' e outras mulheres como
ela ' consegue(m) chegar a esse espaço, no sentido em que a sua luta raramente
trespassa a esfera do privado. Já percebemos que as histórias de vida podem ser
o meio de dar a conhecer estas lutas. No entanto, e pensando no contributo de
Honneth, se a procura por reconhecimento assume diferentes for-mas e acontece
em diferentes níveis, qual é o papel da entrevista nessa busca?
Marília: uma vida em cuidado(s), uma história sem reconhecimento
Como vimos no ponto anterior, a procura por reconhecimento assume diferentes
formas e acontece em diferentes níveis. Para perceber a «luta» de Marília
torna-se necessário conhecer a sua história.
Marília, tem 52 anos, vive no distrito de Coimbra, é casada, tem três filhos,
está afastada do mercado de trabalho formal há mais de dez anos e é cuidadora
ao mesmo número de anos. Pelas exigências do cuidado ao filho Henrique, Marília
viu-se afastada do mercado de trabalho formal. No entanto, uma vez por semana,
durante 4 horas, ela presta serviços de limpeza doméstica a um vizinho,
recebendo de 80/mês, o único rendimento auferido. Marília cuida
quotidianamente, sem pausas, nem descanso, não partilhando os cuidados ao filho
Henri-que com mais ninguém. A sua história de vida é uma história que a partir
do diagnóstico da deficiência do filho se pauta exclusivamente pelos cuidados a
este. Apesar disso, na narrativa de Marília emergem alguns elementos
significativos e marcantes da sua vida anterior: a mãe, o seu primeiro
casamento, a violência vivida nesse contexto, e a experiência profissional como
cuidadora.
Quando pedi a Marília que me falasse do seu passado, procurava perceber se
existia uma relação entre a sua biografia pessoal e familiar e o modelo de cui-
dado praticado por si. A história desta mulher torna evidente a força do modelo
de cuidado apreendido na família de origem, com destaque para o papel da sua
mãe. Diz ela:
[ ] a minha mãe foi uma mãe solteira, e cuidou sempre de mim e do meu
irmão. (...) Ela foi o homem e a mulher e mãe ao mesmo tempo. Ela
cuidava de nós. ( ) Ela também me ajudou, isso é verdade. ( ) E por
isso lhe agradeço o que ela fez, que sempre foi boa mãe.
Marília descreve a sua mãe como uma «boa mãe»: alguém que, sozinha, criou,
ajudou e cuidou (sempre) dela e do irmão. Dentro das características que
definem uma «boa mãe» é indiscutível a centralidade do cuidado. Se pensarmos
que o modo como as pessoas vivem (n)a família não é indiferente à sua história
familiar e à sua socialização, não é difícil compreender que a experiência da
maternidade e o cuidado ao filho seja fortemente influenciado pelo modelo de
maternidade que tomou da sua mãe. Um modelo marcado pelo sacrifício e pela
abnegação de alguém que foi «homem, mulher e mãe», uma «mãe solteira», que
criou e educou os filhos sem ajuda de mais ninguém.
Em Marília irá reencontrar-se o mesmo sacrifício de si. Se no passado teve
outras experiências como cuidadora a nível profissional8, é a partir de 2000
que o cuidado se torna central na sua vida. Nesse ano fica desempregada e é
diagnosticada uma distrofia muscular de Duchenne ao filho 9. As suspeitas de
que algo não estava bem com Henrique confirmavam-se. Mas o que Marília não
esperava era que o diagnóstico sentenciasse que o filho aos poucos iria perder
todos os movimentos e tornar-se-ia completamente dependente. O diagnóstico
configurou-se numa sentença de vida para ambos, porque quanto mais a
dependência de Henri-que agravava, mais constante tinha que ser a presença de
Marília ao seu lado:
Porque há deficientes que fazem a vida deles. O Henrique,
infelizmente, tem o problema de não ter forças e vai perdendo-as. Com
a idade vai perder cada vez mais e precisar cada vez mais do nosso
apoio.
A narrativa desta mulher revela como aquele diagnóstico teve profundos impactos
na sua vida relacional e afetiva, no sentido em que o marido começou a culpá-la
pela deficiência do filho:
Ele começou a culpar-me a mim. Como a médica disse que era da minha
parte, aí começaram os problemas «Pois, a culpa é tua! O menino
nasceu assim por causa de ti. Eu nem te conhecia.». Aquelas coisas,
pronto. Começou logo ali [ ] Ele todos os dias, ele andava-me
sempre Até me estou a arrepiar! Mas foi verdade, não estou a mentir.
Foi assim que se passou e é assim que é. Ele é bom marido, ele é bom
pai, mas passei muito.
A culpa de gerar um filho com deficiência é-lhe imposta pelo marido e
constantemente lembrada. Apesar desta violência, Marília fala dele como um «bom
marido» e um «bom pai». Esta posição, à partida estranha, é esclarecida quando
fala do primeiro casamento:
Estive casada durante 16 anos. Só que esses 16 anos foram um martírio
para mim, passei muito. Ele batia-me. [...] Eu às vezes queria
dinheiro para a comida e não tinha e a minha mãe é que me auxiliava.
[...] E eu não podia refilar porque ele batia-me!
É por ter vivido um «martírio» que a união de hoje lhe parece menos má: o atual
companheiro não a deixa passar fome, nem aos filhos, nem a maltrata
fisicamente, e isso faz dele um «bom marido» e um «bom pai». A sua narrativa
não conta uma vida feliz e mais fácil no presente. A dureza continua a marcar o
quotidiano desta mulher: hoje o corpo não fica marcado pela violência, mas ela
aprendeu que as palavras têm outra maneira de ferir; hoje não há fome, mas o
dinheiro mal chega para pagar as despesas do agregado.
As dificuldades económicas foram um tema constante ao longo da sua entrevista
porque são parte da sua história passada, mas também presente. A entrevista de
Marília mostra como, num contexto de baixos rendimentos, ela e o marido acabam
por conceber as necessidades de Henrique como prioritárias, em relação às suas,
e como isso acaba por ter impactos consideráveis ao nível da sua autonomia,
qualidade de vida e saúde.
Eu também gosto de ter o meu dinheiro, sempre fui habituada a ter
dinheiro meu. (...) Agora não, estou dependente do meu marido. E eu
agora até estou a precisar [colocar uma prótese dentária]... [...]
Ando assim desde o ano passado. Esse dinheiro, que eu tinha, estava a
juntar para os meus dentes, mas porque primeiro está ele [filho], eu
tive que optar. Não ia pôr os dentes e ele ficava sem tabuleiro [para
escrever na cadeira de rodas].
As dificuldades de que ela nos fala agravaram-se quando, pela
impossibilidade em combinar o cuidado ao filho com o emprego, se viu
excluída do mercado de trabalho formal. É que num agregado doméstico
marcado pelas dificuldades abdicar de um salário, o de Marília, é
algo com consequências nefastas a diversos níveis.
Desempregada, Marília começou a estruturar o seu quotidiano em torno da
resposta às necessidades de apoio do filho, o que tornou difícil a conciliação
entre o papel de cuidadora com a atividade profissional, mesmo que seja em
part-time. A dependência de Henrique comprometeu-lhe a mobilidade física,
precisando de ajuda para todas as atividades diárias, apoio que lhe é garantido
pela mãe. Como frequenta o ensino público regular, a dependência da ajuda desta
também se verifica em horário escolar. O papel desempenhado por Marília na
integração escolar do filho revela como a família e a escola pensam o cuidado
como responsabilidade familiar. Diz ela:
A presidente da escola disse-me que não tinha ninguém para o tempo
inteiro [pessoal contratado para apoiar Henrique], e como sabia que
eu não trabalho perguntou se eu o podia acompanhar. Claro que eu
tinha que ficar com ele. Porque a DREC [Direção Regional de Educação
do Centro] não me tem que pagar, eu estou lá porque ele é meu filho!
A escola não só invoca as responsabilidades parentais de Marília para cumprir
as suas próprias responsabilidades, como ao recrutá-la porque «não trabalha»
desvaloriza o cuidado que esta presta a Henrique. Marília vê o cuidado como uma
responsabilidade parental, assumindo-o sem exigir renumeração. Mãe e escola
jamais compreendem o cuidado como uma responsabilidade coletiva e estatal.
Percebemos como uma instituição de ensino pública, perante uma pessoa
fragilizada, se demarca das suas obrigações, violando claramente a lei
portuguesa10. A relação de Marília com a escola é assim uma relação de poder
assimétrica, onde esta última produz ativamente o não reconhecimento.
O cuidado a Henrique é feito vinte e quatro horas por dia, sete dias por
semana, sem pausas, sem descanso. Apesar disso, este continua a ser
desvalorizado ao não ser considerado como «trabalho»:
Ainda me diziam que eu podia fazer um part time, mas como é que eu
podia fazer um part time? Até me diziam isto na Segurança Social do
Hospital, a Drª X, que é da Segurança Social do Hospital, e dizia-me
isto. Mas como é que eu posso? Quem é que vai com ele à fisioterapia
três vezes por semana? E dizia que eu podia ter uma ocupação, que a
Segurança Social me arranjava um sítio para trabalhar.
Como não tem um emprego, com horário a cumprir e um rendimento fixo ao final do
mês com que possa contribuir para a economia familiar, Marília é uma
«desocupada». Há claramente uma desvalorização da atividade informal de
cuidados aos outros.
Apanhei uma depressão por causa das críticas, das acusações que ele me fazia
[marido], e chamava-me moinante e que não queria trabalhar.
Refiro-me ao Decreto-lei nº 3/2008, de 7 de janeiro, alterado pela Lei nº 21/
2008, de 12 de maio.
O trabalho doméstico e os cuidados ao filho Henrique não são compreendidos como
um (verdadeiro) trabalho. Se as críticas do marido são diretas ao caracterizá-
la como «moinante», alguém que «não quer trabalhar», o modo como os serviços de
assistência social a aconselham a «ocupar-se», deixa transparecer a opinião
depreciativa que a condição desta mulher lhes suscita e a violência
institucional à qual a sujeitam.
Marília põe a descoberto a dureza de uma vida dedicada aos cuidados,
principalmente quando não se tem apoio, nem existe reconhecimento. Ela fala de
modo aberto das mudanças que isto configurou na sua vida, que foram na sua
maioria negativas ' o desemprego, a depressão, a deterioração do seu
relacionamento. Apesar disso, é interessante perceber o modo como ela superou a
depressão: valorizando o papel de cuidadora.
O meu filho é um homem que precisa de ajuda para isto e para aquilo,
e eu tenho que me agarrar a isso. [ ] tinha que me agarrar a alguma
coisa, e pensei desta forma e acho que pensei bem. E nunca mais fui
ao médico, deixei mesmo a medicação de raiz. E sinto-me bem. O que eu
faço tem valor.
No entanto, se hoje já reconhece o valor do seu papel, o marido continua a não
fazê-lo. Nas suas palavras:
Ele [marido] não me dá o valor que eu mereço! Eu acho que ele não me
dá o devido valor, o valor que eu mereço. Não é andar comigo ao colo,
nem me andar aos beijinhos, mas era dar-me o valor que eu mereço,
considerar aquilo que eu faço [...].
A compreensão do cuidado como algo de valor deu um novo sentido à vida de
Marília, e abriu lugar a uma reivindicação de reconhecimento pelo papel de
cuidadora. Uma luta que se restringe à esfera doméstica porque as condições
(económicas, sociais e culturais) que possui para levar essa luta a outros
níveis são escassas. Apesar disso, a sua narrativa deixa claro como seria
importante que todos/as os/as outros/as por si mencionados entendessem o
cuidado como algo de valor.
Reflexões finais
Quando escolhi trabalhar sobre a prestação de cuidado informal pela família,
procurava dar a conhecer o que são as vidas de quem cuida através das
biografias dos/as próprios/as. Na altura, acreditava que o meu trabalho poderia
contribuir para dar voz a um grupo, composto na sua maioria por mulheres, que
social-mente tem permanecido invisível apesar do trabalho de enorme importância
que garantem quotidianamente. Nesse contexto, escolhi a técnica de entrevista,
por acreditar que a melhor maneira de dar a conhecer a vida de quem cuida seria
dando a conhecer as suas histórias de vida. Durante o processo de escuta dessas
histórias, fui percebendo que mais que dar a conhecer o que fazem, estas
pessoas procuram sentir-se reconhecidas pelo trabalho de cuidar. Marília foi
uma das pessoas que comigo partilhou a sua história e que mostrou como a
questão do reconhecimento do papel do cuidador é tão importante para quem
cuida.
Num contexto onde o cuidado continua a ser pensado como responsabilidade
familiar e competência das mulheres, ouvi Marília. Escutá-la foi ouvir muito do
que são os discursos hegemónicos sobre o cuidado e o trabalho doméstico. A
resistência dela a esses discursos teve necessariamente que passar pela
aprendizagem do reconhecimento daquilo que faz.
A procura desse reconhecimento acontece de uma forma quase invisível para todos
nós. É que embora perceba a importância social do cuidado, como todos os outros
não o consideram do mesmo modo, ela percebe o seu trabalho desvalorizado e a
sua situação como injusta. Este sentimento de injustiça acaba por não ter
expressão fora da esfera do cuidado, nem do espaço da entrevista. E a
reivindicação pelo reconhecimento não tem, por isso, visibilidade social. Tal
mostra a necessidade de encontrar mecanismos que permitam colocar o
reconhecimento social da atividade dos/as cuidadores/as na esfera pública.
A desigual distribuição do trabalho de cuidar no interior da família, a
ausência de proteção social que proteja e enquadre quem cuida, e o isolamento
social pelas exigências do trabalho de cuidar, quando pensados à luz da teoria
de Honneth, permitem afirmar que a desvalorização do cuidado acontece nas
relações primárias, nas relações jurídicas, e na comunidade de valores, mas
também que nem em todas estas esferas o sentimento de desvalorização e a
procura por reconhecimento acontecem da mesma forma. Se Marília afirma
constantemente que «ninguém quer saber», na prática, o modo como sente e lida
com a depreciação, difere consoante o «ninguém» a que se refere: é do marido,
que lhe está mais próximo, que mais sente a falta de apoio e de reconhecimento
por aquilo que faz.
A narrativa do seu quotidiano mostra que estas denúncias têm pouca
probabilidade de terem eco fora do espaço doméstico, mesmo que os
destinatários, pela sua natureza, só se encontrem fora desse espaço. O modelo
de Fraser é interessante porque coloca ênfase na importância do espaço público
para alcançar a mudança. A esfera pública, assim pensada, aparece como o lugar
privilegiado para tornar visível o invisível, e fazer refletir sobre o que não
se conhece ' como as vidas de quem cuida.
A procura e atribuição de reconhecimento é assim uma questão bastante complexa:
nasce no espaço privado, mas tem dificuldades em o ultrapassar. A recolha de
histórias de vida permite conhecer mais sobre a realidade daquilo a que chamei
vidas de cuidado(s) (Alves, 2011). Ouvir Marília falar sobre a ausência de
reconhecimento do papel de cuidadora, deixa claro as diferentes formas que o
sentimento de desvalorização pode assumir e os diferentes modos como pode ser
construído e mostra como a procura e atribuição de reconhecimento é algo muito
complexo que implicará necessariamente a transição de histórias, pessoas e
vozes do espaço sombra da esfera doméstica para a esfera pública11.