Género, afectos e poderes: Representações sociais em crianças do ensino básico
Soares, Célia Cristina (2012), Género, afectos e poderes. Representações
sociais em crianças do ensino básico, Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian/
Fundação para a Ciência e Tecnologia, 298 páginas.
Clara Moura Lourenço
Em Género, afectos e poderes, Célia Cristina Soares propõe-nos acompanhar o seu
percurso de investigação que culminou com a apresentação da dissertação de
doutoramento com o mesmo título, defendida em Dezembro de 2008 no ISCTE. De
acordo com a autora, o texto que aqui nos apresenta corresponde grosso modo ao
texto da dissertação, mantendo "a sua estrutura original de modo a
reproduzir o percurso teórico empírico" que o motivou.
Para além de uma Introdução geral e de um Balanço Final, a obra está
estruturada em 3 partes que a autora identifica como correspondendo "aos
percursos teórico, conceptual e empírico da investigação." Cada uma das
partes, subdividida em capítulos, contém um pequeno texto de Apresentação do
conteúdo geral da secção e do resumo dos assuntos tratados em cada um dos
capítulos, orientando a leitura e a rápida identificação dos tópicos abordados.
Na Introdução geral da obra, a autora expõe algumas considerações sobre o
alargamento do universo social das crianças aquando da passagem do meio
familiar para o contexto escolar, salientando o papel que, de acordo com
autores de referência como Piaget e Sullivan, as relações entre grupos de pares
assumem na construção do conhecimento social. A construção de significados
sobre o conceito de amizade em contexto escolar permite observar a interação
entre as ideias e as práticas inerentes à vida social dos grupos de pares bem
como a influência que fatores associados à idade, sexo, atributos físicos e
intelectuais desempenham na sua regulação, justificando o objetivo da autora de
"articular as questões da Psicologia do Desenvolvimento com o domínio da
Psicologia Social."
A primeira parte, dedicada ao percurso teórico, está dividida em dois capítulos
que traçam o quadro de referência no qual se alicerça o objeto de investigação,
a saber o desenvolvimento da cognição sobre a vida social. No primeiro
capítulo, a autora analisa as abordagens que permitiram delinear e
contextualizar o problema, partindo da ideia de interdependência dos níveis
individual e social para a explicação do desenvolvimento do conhecimento social
das crianças. No segundo capítulo é apresentada a relação co constitutiva entre
indivíduo e social, discutindo os objetivos teóricos em articulação com os
objetivos temáticos da secção empírica da investigação.
Na segunda parte, dividida em quatro capítulos, a autora trata da definição
conceptual e enquadramento teórico dos objetos temáticos do trabalho, a saber,
amizade e rejeição, género, poder e liderança. O capítulo 1 contextualiza a
natureza das relações sociais entre pares e os seus efeitos nos processos de
desenvolvimento psicossocial, salientando a distinção entre cooperação e
constrangimento e o modo como essas duas estruturas relacionais influenciam o
pensamento das crianças. O capítulo 2 traça o panorama da investigação das três
últimas décadas sobre o tema da amizade, destacando algumas abordagens sobre o
desenvolvimento da cognição sobre as relações de amizade, confrontando as
perspetivas cognitivo-desenvolvimentistas com o paradigma das representações
sociais. O capítulo termina revendo as relações de rejeição e distância social
e discutindo "os principais aspetos emergentes das investigações sobre as
condições do estatuto social do rejeitado, no quadro das tradições
sociométricas e sociológicas." No capítulo 3, destaca-se a perspetiva
apresentada sobre "a evolução do conceito de género" nas Ciências
Sociais, examinando "a importância do nível de análise ideológico, das
questões de assimetria simbólica e ainda de alguns fatores estruturais
associados à regulação das relações sociais de género." O capítulo
termina com a contextualização "da dimensão de género na vida e no
pensamento social das crianças", observando por um lado "os efeitos
que os regimes de género da instituição escolar assumem nas relações sociais
entre pares" e por outro lado "as relações entre interação social,
representações e identidades de género" e suas implicações no
desenvolvimento psicossocial das crianças. O último capítulo desta secção é
dedicado à temática do poder, do ponto de vista formal e informal, analisada à
luz da Psicologia Organizacional. A autora refere-se à distinção entre poder e
autoridade, observando a importância dos códigos simbólicos de poder e
articulando a "dimensão de poder disciplinar com as relações de saber-
poder."
Na terceira parte, relativa ao percurso empírico da dissertação, a autora
apresenta três estudos empíricos em que assentam as conclusões do seu trabalho
de investigação. O primeiro estudo recai sobre as temáticas da amizade e da
rejeição, examinando "as representações sociais mobilizadas por raparigas
e rapazes do 1º e do 4º ano em torno dessas duas dimensões." Os segundo e
terceiro estudos têm por objeto abordagens metodológicas distintas da temática
do poder e da liderança e foram também desenvolvidos com crianças do 1º e do 4º
ano "de modo a examinar o desenvolvimento do pensamento social, de acordo
com o percurso escolar." Em cada um destes estudos, a perspetiva de
género assume um papel preponderante na reflexão teórica e na observação
empírica, fazendo a diferença relativamente a outros estudos já realizados. De
acordo com a autora, os resultados empíricos sublinham a natureza das
construções sociais do masculino e do feminino, bem como os padrões
intergeracionais dos grupos de rapazes e raparigas.
A obra, dedicada ao desenvolvimento de representações sobre as relações sociais
estabelecidas no contexto escolar, encerra com um Balanço Final onde se faz a
síntese dos três estudos que examinaram os discursos das crianças do 1º e do 4º
ano de escolaridade sobre as relações de amizade e rejeição, poder e liderança.
De modo global, conclui-se que "as representações emergentes em torno
dessas dimensões relacionais" revelam o impacto dos significados e das
dinâmicas de género no desenvolvimento do conhecimento social das crianças.
Célia Cristina Soares é perentória na afirmação de que a sua investigação não
deixa dúvidas quanto "à determinância que as representações e relações
sociais de género assumem no desenvolvimento psicossocial das crianças."
A autora salienta também o facto de que o seu trabalho "evidencia a
influência precoce destes processos simbólicos ao nível do pensamento e das
representações infantis " uma vez que, como também destaca, "as
crianças com 6 anos de idade já internalizaram a ordem social do feminino e do
masculino e participam ativamente na (re)construção desses modelos do senso
comum, apesar de a sua expressão ao nível discursivo estar ainda pouco
saliente."
Tratando-se de um trabalho que decorre de uma investigação com vista à obtenção
de um grau académico, a obra apresenta uma organização cuidada e um vastíssimo
leque de reflexões sobre as temáticas em apreço. Contudo, a opção por manter a
estrutura próxima da formalidade académica pode vir a prejudicar o ritmo de
leitura, sem, no entanto, pôr em causa a pertinência e atualidade do trabalho
apresentado.