Lideranças partilhadas: Percursos de literacia para a igualdade de género e
qualidade de vida
Múrias, Cláudia e Koning, Marijke de (Coord.) (2012), Lideranças partilhadas:
Percursos de literacia para a igualdade de género e qualidade de vida, Porto,
Fundação Cuidar O Futuro e Livpsic1, 330 páginas.
Eunice Macedo e Amélia Macedo
Instituto Paulo Freire de Portugal, CIIE-FPCEUP, Associação Espaços: Projetos
Alternativos de Mulheres e Homens / Instituto Paulo Freire de Portugal
Em partilha de lideranças, a responsabilidade autoral enriquece a obra com
distintos olhares de apropriação teórica e prática. Como lógica orientadora, a
passagem duma visão da liderança autocrática, duma história no masculino, como
enfatiza Luiza Cortesão, no prefácio, a uma liderança democrática
participativa, com o feminino. Helena Araújo, no posfácio, refere que o livro
releva as lideranças partilhadas, "liderança duma outra natureza"
que questiona e problematiza (p:324). Obra que vale a pena ler, organiza-se em
três partes: a primeira centra as raízes do projeto retratado, a segunda
interpela teoria e prática, e a terceira avalia, entre testemunhal e reflexiva.
Na introdução, Claudia Múrias e Marijke de Koning acentuam a "pluralidade
de vozes" e destacam argumentos.
O texto de Marijke de Koning substantiva a intervisão no projeto destacando-se
pela originalidade. Freiriana, em lugar nómada, antevê possibilidade e desafia-
nos a reencaminhar. Contrapondo afetos à liderança messiânica, propõe uma
racionalidade outra, como forma humana de saber2, subjetiva e comunicacional.
Afirma olhares femininos nos trajetos da FCF e explora aprendizagem pela
conversa com conscientização; um paradigma de liderança sustentado na amizade,
enquanto forma de luta3. Mostra caminhos, busca inovação social para
ultrapassar o vazio, como lugar já referenciado por Giles Lypovetsky nos anos
80, em A era do vazio.
Ine van Emmerik enraíza-se em genealogias feministas, como tradição
emancipatória4. Passa da visão linear a uma proposta de circularidade que
permite construir lideranças na reflexão sobre a experiência; cada pessoa,
sujeito em processo ' a palavramundo5 complementada com a leitura do mundo
interior. Articula Arendt e Maria de Lourdes Pintasilgo (MLP), no encontro
entre literacia e aprendizagem na condição humana ' percurso agido, em
renascimentos relacionais. Cruza aprendizagem pela conversa, na transição entre
ordem e surpresa. A máxima socrática, que faz nascer ideias, induzindo
respostas, é ressignificada no feminino, no reconhecimento autónomo do saber
pessoal.
Perguntar o que estamos mesmo a fazer é o desafio de Whitespace, intervision
and shared agency, da mesma autora. A intervisão dá forma à agência partilhada,
num contexto de ressignificação da profissionalidade, acentuação da tensão
entre autonomia e controlo e apelo ao currículo de vida oculto nos espaços em
branco da narrativa individual.
Jeannette Claessen situa comunicação autêntica, associando comunicare a crear
comunidad. Sustentando-se nas "palavras do coração" para exprimir
desejos e necessidades, reporta-nos à proposta de Maria Zambrano da tomada da
palavra do coração, na maiêutica para uma nova razão, sustentada nos afetos6.
Desenha-se uma forma de comunicação, em "conexão connosco mesmos/
as" e na escuta com reconhecimento. A criação de comunidades emerge de
experiências de arte comunitária.
Kerstin Jacobson inicia o segundo bloco com possibilidade. Sustentada na
moralidade cívica durkheimiana, vai além da análise dos mecanismos de
desigualdade e de exclusão social. Reflete sobre a Suécia contemporânea
"apesar da pluralidade de formas de vida" (p. 116), propósito que
parece associar diversidade e desvantagem. Além da relação com o estado,
cidadania suporta-se numa consciência cívica relacional com individuação.
Emerge solidariedade da autonomia.
Em Produzir conhecimento a partir das pessoas Teresa Toldy debate questões
caras ao movimento feminista, com Dona Haraway, Sandra Harding, bell hooks e
Chandra Mohanty. Argumenta pela autonomeação. O conhecimento é situado,
parcial, parcelar, incompleto e as/os sujeitos plurais. Que vozes se fazem
ouvir na produção de conhecimento? Conhecer a partir das pessoas avoca a
diversidade e complexidade de léxicos, mapas concetuais e vozes, que uma só
linguagem não pode comportar.
Num paradigma de incertezas, Hugo Monteiro interroga o "diálogo como
instância de troca e negociação de sentido" (p. 165), tendo em conta o
poder subjacente à legitimação de diferentes racionalidades. Afirma o papel da
implicação na produção de saber. Situa o projeto em justiça e democracia, como
Iris Young7. Explora autoridade e liderança, num quadro ético e político, com
MLP. Vê a autoridade produtiva relacional exterior ao sujeito como paradigma
mais útil a lideranças partilhadas. Cabe "fazer com que a realidade fale
nela, por ela e ( ) apesar dela" (p. 177).
Liliana Lopes explora o papel do/a trabalhador/a social na promoção da
qualidade de vida. A implicação de diversos/as agentes/atores, atinente a
interesses particulares, interage com outros níveis de regulação, na
"interpretação, apropriação e contextualização local das ideologias
políticas" (p. 183). Apela a um desenvolvimento humano sustentável, com
igualdade de género. Dá realce ao reconhecimento de si, à orientação ideológica
no trabalho social e às configurações intersubjetivas na construção de mudança
social responsável.
Cláudia Múrias e Raquel Ribeiro focam desigualdades, estereótipos e papéis de
género, em diversas esferas. O género interfere na liderança.
"Construindo a igualdade de género enquanto dimensão da qualidade de
vida" (p. 216) assume uma dimensão mais analítica e esperançosa. As
autoras suportam-se em MLP para enraizarem qualidade de vida com dimensões
subjetivas.
Aprender pela conversa: assim como e depois?, de Eunice Macedo e Amélia Macedo,
parte dum paradigma de intervisão, como amigas críticas aprendentes. Questiona
a aprendizagem pela conversa, pressupostos, procedimentos e potenciais impactos
nas vidas das pessoas e instituições. Cruza aprendizagem pela conversa8,
conscientização, voz e democracia inclusiva através da comunicação. Articula os
workshops observados com construção de literacias, asserção de voz, comunicação
e democracia, em transformação.
A terceira parte da obra, Ancorando experiências plurais começa com retalhos
sobre a exclusão das mulheres. António Nunes focaliza o contexto português, num
texto "despretensioso". Acentua como projetos como o que aqui se
reflete, contribuem para a desconstrução de clichés (sic) sobre as mulheres
construídos no Estado Novo. Defende a viabilidade duma ponte histórica pela
visibilização de percursos femininos de resistência.
A construção de lideranças num contexto de (in)diferença testemunha
transformação organizacional pela participação. Fátima Veiga preocupa-se com
exclusão social, num quadro de retrocesso legal, simbólico e histórico
"em termos de direitos adquiridos" (p. 254) centrado no reforço do
masculino. Contextualiza as representações acerca da utilidade social das
mulheres, que articula com o apoio da EAPN a pessoas em situações de
desfavorecimento. Como participante, reflete sobre tópicos, motivação,
dominância do feminino e metodologia.
Pela mão de Ionut Cosmin Nada, acedemos à dimensão mais humana do trabalho. Num
texto autobiográfico, este jovem romeno assume o olhar como imigrante acolhido
no seio de outro povo. Vê a sociedade portuguesa como possibilidade. Reflete
sobre a metodologia do projeto. Elabora sobre igualdade e partilha de
lideranças e o seu percurso de literacia. Examina lideranças partilhadas e
qualidade de vida. Na primeira pessoa, termina: "Ganhei ( ) uma
consciência outra tanto em relação aos temas tratados, como em relação às
minhas práticas e ações quotidianas" (p. 284). Que melhores resultados?
Filiada na Sementes de Futuro e jornalista, Filipa Júlio inspira na partilha
duma experiência distinta de outras ações ' a arte como meio e fim da expressão
pessoal. Permite realçar o potencial apropriativo do projeto. Uma efetiva
intertextualidade cobre imagens, texto escrito e voz a mensagem de
continuidade na máxima Transformamos, transformando-nos, cultivamos,
cultivando-nos, visando a sustentabilidade do projecto social" (p. 295).
O texto de Raquel Ribeiro e Claúdia Múrias discute o contributo do projeto.
Cruza dados percentuais e vozes. Aborda a metodologia. Evidencia a diversidade
das pessoas participantes, motivações, enriquecimento pessoal e mudança de
atitudes e práticas. Acentuando os efeitos transformadores do projeto, permite
a reflexão para futuro.
Helena Araújo, no posfácio, assume deixar-se seduzir por algumas das linhas do
livro. Acentua novos "registos duma linguagem que sublinha o que se
procura de novo" (p. 323).
Como avaliadoras externas, que dialogaram com o projeto, congratulamo-nos
também com o aval dado à equipa, quando questionadas quanto ao potencial valor
da obra para publicação.
Notas:
1A obra em análise foi produto do projeto Literacia para a Igualdade de Género
e Qualidade de Vida Lideranças Partilhadas, cujas avaliadoras externas foram
Eunice Macedo e Amélia Macedo, no âmbito da parceria entre a Fundação Cuidar O
Futuro e o Instituto Paulo Freire de Portugal. Detalhes sobre a obra podem ser
consultados no Relatório do Projeto.
2Fernanda Henriques apela a este conceito em "As teias da razão: A
racionalidade hermenêutica e o feminismo" na obra organizada por M. Luísa
Ribeiro Ferreira As teias que as mulheres tecem, de 2003.
3Ideia central ao texto de Valerie Hey, na ex aequo 7, de 2002.
4Categorização utilizada por Madeleine Arnot, em Gender voices in the
classroom, em 2006, distinguindo tradições no uso da voz.
5Paulo Freire estabelece, com este neologismo, a articulação inalienável entre
palavra e mundo.
6Andrea Peniche e Eunice Macedo exploram este tema, em 2004, na recensão duma
obra de Maria Zambrano, na ex aequo, 9.
7Na linha de Inclusion and democracy, de 2002.
8Expressão que traduz a denominação utilizada por Ann Baker, Patricia Jensen e
David Kolb em Conversation as experimental learning, de 2002.