As mulheres no conflito armado do Ruanda
Introdução
Este artigo tem por objectivo fazer uma análise ao conflito do Ruanda, desde o
seu início até ao genocídio de 1994 e ao período pós-genocídio, marcado pela
mobilização para o exílio de BaHutu, para campos de refugiados/as, no norte do
Zaire, actual República Democrática do Congo (RDC), onde se assistiu à
reorganização do ex-governo genocida no exílio, indagando sobre as experiências
e práticas das mulheres neste contexto de conflito político e armado no Ruanda.
Pretende-se descrever algumas das principais causas que levaram ao processo de
etnicização do poder político e à luta entre as elites Hutu e Tutsi pelo
domínio do Estado e que levaram à origem de um conflito que parece não ter fim
e que já provocou milhares de mortes e de deslocados/as e refugiados/as.
Assim, este artigo começa por contextualizar a origem da etnicização e da cisão
entre BaHutu e BaTutsi, com uma breve descrição das suas consequências no
conflito que culmina com o genocídio de 1994, introduzindo ainda acontecimentos
pós-genocídio, nomeadamente a organização dos campos de refugiados/ as. Esta
primeira parte é importante para introduzir o tema central a debater, As
Mulheres no Conflito do Ruanda, asseverando algumas questões e problemáticas,
quer no processo de etnicização, quer no conflito armado do Ruanda, quer nas
acepções limitadas do olhar das ciências sociais sobre as mulheres nos
conflitos armados.
A origem da etnicização e da cisão de hutus e tutsis e suas consequências para
o conflito, até ao genocídio de 1994 e pós genocídio
A cisão entre BaTutsi1 e BaHutu foi incentivada desde a época colonial. A
Bélgica, desde de 1926, era a potência tutelar do Ruanda e do Burundi e,
separadamente, tentou, com a estratégia de indirect rule, controlar
politicamente estes territórios, ou seja, determinou quem eram os chefes
tradicionais com mais poder e influência política e estabeleceu um aparelho de
estado nativo através da monarquia Tutsi a qual, com o apoio colonial,
conquistou outros pequenos reinos Hutu.
Para legitimar a atribuição do poder às elites BaTutsi desenvolveu-se uma série
de mitos históricos que justificaram a inferioridade dos/as BaHutu. Estes mitos
tinham como base discursos racistas legitimados através de premissas biológicas
e culturais. Progressivamente, estabeleceram-se diferenças e estereótipos que
foram delineando uma história e duas etnias ' a Hutu e a Tutsi ', uma que
dominaria e que seria superior à outra. A construção destas duas identidades
foi claramente fabricada e manipulada pela presença colonial. Os mitos
associados foram disseminados com a ajuda das missões religiosas católicas,
estabelecidas no Ruanda, através de visões e construções teóricas
evolucionistas e racistas, bem como pela elite Tutsi.
Ambos os grupos, Hutu e Tutsi partilhavam o território há vários
séculos. A história da expansão territorial e política do reino
Tutsi, desde o séc. XIV até finais do séc. XIX, caracteriza-se por
períodos de expansão violenta, com ocupação de reinos Hutus, ou
grupos linhageiros, através da guerra; por ocupação pacífica,
anexação de territórios por acordos com chefes Hutus; e igualmente
períodos de contracção, com os soberanos Tutsis a perderem espaço
territorial face ao avanço de senhores Hutus (Florêncio, 1995: 2).
Não é possível inferir distinções culturais entre os dois grupos, pois não há
cultos, cosmologias, ideias, práticas culturais ou diferenças linguísticas que
os distingam. As únicas diferenças que se podem apontar são ao nível da
organização do poder e das práticas decorrentes das elites ' dos reinantes ' e
das práticas que, consequentemente, se atribuem ao resto da população.
A Bélgica tentou legitimar as suas práticas de indirect rule exaltando uma
aptidão natural dos BaTutsi para governar ( ). Produziu-se um número
considerável de estudos para criar ou fortalecer o mito Tutsi. Os BaHutu foram
representados como inferiores, incapazes de dirigir conduzir assuntos públicos.
Estas teorias raciais foram disseminadas através da educação colonial e foram
rapidamente adoptadas pelas novas elites modernizadas. ( ) A Igreja Católica
Romana também representou um papel significativo. Muitas teorias raciais foram
construídas pelos missionários, que queriam usar as elites nos seus esforços de
cristianização (Gorus, 2000: 177).
No período pós segunda guerra mundial, começa a surgir um conjunto de ideias
políticas na Europa a favor da liberdade e da igualdade entre os povos e surge,
neste contexto, a esquerda católica. São alguns destes grupos católicos que, em
África, contribuem para o surgimento de movimentos pan-africanistas que
reclamavam o fim do colonialismo e a independência dos povos. No Ruanda, são as
missões católicas que, com a colaboração da administração belga, se tornam
agentes na construção e inversão da história étnica inventada anteriormente e
que colocam os/as BaHutu ' estimava-se serem 85% da população do Ruanda ' como
vítimas, durante séculos, da repressão e supremacia Tutsi e, portanto, como os/
as merecedores/as da independência, quer face aos brancos, quer face aos
BaTutsi no poder. Conspiram e procedem à alfabetização dos BaHutu, o que até a
esta altura estava reservada apenas aos/às BaTutsi, o que favoreceu a
emergência dos primeiros intelectuais BaHutu. Começa-se então a formar uma
consciência pan-africanista e anti-Tutsi que, em 1957, se consolida nos
partidos políticos: o Partido do Movimento de Emancipação dos Hutu (PARMEHUTU)
e a Associação para a Promoção Social das Massas (APROSOMA), apoiados pela
administração belga e sectores da Igreja. No Burundi, território ainda parte do
Ruanda, surge a UPRONA, partido formado por moderados BaHutu e BaTutsi de
sectores económicos e industriais sob influência da administração colonial e de
sectores da igreja.
A assistência belga aos partidos políticos Hutu criados recentemente
contribuiu para o extremismo e para uma polarização étnica na
política e na sociedade. Com a ajuda da Igreja, os partidos BaHutu
(principalmente o PARMEHUTU e o APROSOMA) desenvolveram uma ideologia
de injustiça social com base em linhagens étnicas, nas quais os
BaHutu eram considerados como a maioria sofredora da opressão
«feudal» reproduzida por uma raça «estrangeira» cuja elite governa o
país (Gorus, 2000: 178).
No período antes da independência, grupos motivados pelo PARMEHUTU e apoiados
pela administração colonial iniciam a luta contra o domínio Tutsi e pela
ascensão ao poder. Neste período houve massacres de BaTutsi e milhares de
homens, mulheres e crianças foram forçados/as ao exílio em países vizinhos ou
tornaram-se deslocados/as internos/as no Ruanda.
Após a independência do Ruanda em 1962, quem domina o poder do Estado é o
PARMEHUTU, que inicia um governo autoritário composto por uma elite Hutu do
sul, ilegaliza os partidos políticos oponentes, inclusive a UPRONA, e
privilegia económica e politicamente grupos BaHutu do sul. Mais uma vez, houve
massacres e mobilizações de grupos BaTutsi para fora do Ruanda, para o Burundi,
que neste período se torna independente sob o domínio Tutsi, mas sobretudo para
o Uganda. Estes/as deslocados/as constituem a primeira grande massa
populacional do Ruanda deslocada para o exílio.
As relações entre BaTutsi e BaHutu manter-se-iam relativamente calmas
até ao ano de 1973. ( ) Esta acalmia na relação entre os dois grupos
seria alterada violentamente em Março de 1973. Em resposta a
violentos confrontos ocorridos no Burundi, o governo Ruandês organiza
uma série de massacres de BaTutsi (Florêncio, 2000/2001: 48).
Estes confrontos que ocorreram no Burundi consistiram, segundo Fernando
Florêncio (1995: 3), no massacre de 100.000 camponeses/as Hutu, o que serviu de
justificação para as acções violentas do governo Ruandês Hutu.
Durante esta fase, grupos de militares BaHutu do norte organizam-se e
empreendem um golpe de estado implantando a II República sob um regime
autoritário de partido único pelo Movimento Republicano Nacional pelo
Desenvolvimento (MRND). O PARMEHUTU torna-se um partido político ilegal e,
desta vez, são os BaHutu do norte que saem favorecidos política e
economicamente. Em 1979 surge a União Nacional Ruandesa (RANU) que dá
posteriormente origem à Frente Patriótica Ruandesa (FPR), constituída por
exilados BaTutsi no Uganda que no fim de 1989 se juntam ao Exército Patriótico
Ruandês (RPA), o braço armado da FPR, composto na sua maioria por jovens
BaTutsi exilados de segunda geração, que foram combatentes das forças armadas
ugandesas.
Em 1990 o Ruanda sofre o primeiro ataque do RPA. Em 1991, o governo ruandês,
pressionado pela Organização das Nações Unidas (ONU), assinou um acordo de paz
com o RPA e abriu a organização política a um sistema multipartidário, para a
realização de eleições livres destinadas a favorecer um governo misto entre
BaTutsi e BaHutu. A ONU envia ainda uma força de paz, a UNAMIR, para controlar
e assegurar o cumprimento dos compromissos acordados entre o governo e o RPA
nos Acordos de Arucha, que nunca foram devidamente cumpridos.
Neste contexto, o governo Ruandês, controlado por uma elite Hutu, sob o domínio
do partido MRND, desencadeia um processo de propaganda com o intuito de criar o
ódio contra os/as BaTutsi. O objectivo era o de eliminar qualquer possibilidade
do governo poder vir a ser controlado por BaTutsi e/ou BaHutu moderados.
Este multipartidarismo não funcionou na prática e, ao invés, provocou a
radicalização de posições políticas extremistas pró-hutu, motivadas pelo medo
que o governo do MRND tinha de perder o poder absoluto que detinha. Formaram-
se milícias, as designadas Interahamwes, veiculadas pela Rádio Mille Colines
que transmitia propaganda extremista anti-Tutsi. Este processo alargou-se com
extrema facilidade pela população Hutu. Como escreve Florêncio (1995), a rádio
Mille Colines foi um dos principais meios de disseminação de ideias de índole
extremista e do ódio contra os BaTutsi, adormecido desde 1973, e que culmina na
incitação à morte destes últimos por civis BaHutu. Propagava acusações contra
os/as BaTutsi responsabilizando-os/as de todos os problemas sociais e
económicos vividos pelos/as BaHutu. A maioria da população enfrentava várias
dificuldades económico-sociais, que vieram a servir de motivo para convencer e
manipular as massas para a participação activa no que viria a ser o genocídio.
É importante referir que a organização social e política do Ruanda assentava
num sistema de administração regional que circunscrevia colinas, comunas e
províncias. Estas, sob domínio directo do regime foram, na altura, encarregues
de identificar, listar e mapear as terras e a população Tutsi nas suas regiões,
o que tornou mais fácil a identificação e localização daqueles/as a exterminar.
A 6 Abril de 1994, morrem o presidente do Ruanda e do Burundi, vítmas de um
atentado ao avião em que viajavam. A rádio Mille Colines aproveita o
acontecimento para divulgar a participação e responsabilidade Tutsi na morte do
presidente e acender o rastilho para as milícias iniciarem o genocídio. As
forças internacionais que estavam no terreno abandonaram o Ruanda e só a 4 de
Julho de 1994, com a entrada das forças da RPA em Kigali, acaba o genocídio que
durou 90 dias.
Após a «eliminação» de centenas de oponentes políticos e familiares,
as milícias iniciam o processo de eliminação dos Tutis existentes no
país, processo que um dirigente governamental apelidaria publicamente
de «solução final», à semelhança do holocausto judeu. (...) Encontrar
os Tutsis (ou através de listas já elaboradas, ou através de
denúncias de vizinhos, amigos, colegas, etc.), e matá-los onde quer
que se encontrassem: igrejas, escolas, casas, barreiras nas ruas,
etc. (...) Calcula-se que 750.000 Tutsis foram selvaticamente
massacrados, à granada, ou a golpes de catana, pois poucos
afortunados foram mortos a tiro (Florêncio, 1995: 5).
Após o genocídio de 1994, motivado pelo poder político e militar do governo
pró-Hutu, e com a entrada de capacetes azuis, que constituiram a «Operação
Turquoise», houve um grande número de pessoas, na sua maioria BaHutu, entre as
quais responsáveis e partes activas no genocídio, que saiu do Ruanda, dando
origem a campos de deslocados/as internos/as no Ruanda e a campos de
refugiados/as no Norte do Kivu, na RDC, em Goma e Bukavu, bem como no sul do
Kivu.
A existência e a organização destes campos tiveram consequências para a
continuidade do conflito no Ruanda e no Zaire, actual RDC. «Os fundamentos da
insurgência no noroeste foram estabelecidos em campos no ex-Zaire» (African
Rights, 1998: 29).
Nos campos de refugiados/as de Goma e Bukavu existia uma pluralidade de agentes
sociais, activos/as e passivos/as na origem e no conflito, entre os/as quais
dirigentes políticos do antigo aparelho de estado do governo genocida do
Ruanda, militares, para-militares, civis pertencentes às Interahamwes e
população civil. Estes campos eram inicialmente muito desorganizados e não
dispunham das infra-estruturas necessárias. Com a progressiva auto-organização
nestes campos, devido à falta de capacidade de controlo, quer político, quer
militar da ajuda internacional e humanitária, assiste-se, a partir de 1995, a
uma reorganização das/os refugiadas/os, que reproduz o sistema de organização
sócio-político anterior à migração forçada, apoiada pela ONU e dinamizada pelas
elites BaHutu ruandesas. É sob pressão destas elites BaHutu, pertencentes ao
ex-aparelho de estado ruandês, e através do sistema de comunas, que tinha por
objectivo regular e controlar a vida das pessoas no campo, que se procede a uma
reorganização das forças militares do ex-governo no exílio com o apoio e o
incentivo das organizações representantes da ONU. Estas forças, destinadas a
proteger os campos, sobretudo devido à falta de militares das forças e
projectos humanitários instalados no terreno, contribuem para a reconstrução de
todo o aparelho militar Hutu do ex-governo.
Nos três campos do norte do Kivu, o governo Hutu, expulso do Ruanda,
reorganiza-se no exílio. Com pouco controlo externo, os campos foram-se
autoorganizando e auto-regulando com base na estrutura da organização
territorial e política estabelecida no Ruanda antes do genocídio de 1994.
Desenvolve-se, então, uma estrutura social, já reproduzida no antigo território
de origem e que foi transferida para o campo mercê do exílio nos campos da
elite política e militar Hutu. Há uma reconstrução do aparelho político,
militar, educativo e religioso que vai ter um papel preponderante na contínua
disseminação do conflito no Ruanda e nos países vizinhos, principalmente no ex-
Zaire, actual RDC.
Os campos dividiam-se em três núcleos: o externo e o interno, constituídos por
população civil, que servem de escudo protector daquele que é o terceiro
núcleo, o mais interno, onde residem as estruturas políticas e militares. Assim
o estatuto social, político e económico difere entre os/as refugiados/as no
campo. Muitos/as são forçados/as por este aparelho político-militar no exílio a
permanecer nos campos e a não voltar para o Ruanda. «Os campos estavam
organizados em círculos concêntricos, com as camadas externas ocupadas por
refugiados/as «vulgares» que serviam de autênticos cinturões protectores aos
circulos mais internos, bastiões do poder militar e político Hutu» (Florêncio,
2000/01: 53).
A economia dos campos desenvolveu-se possibilitando às elites a obtenção de
lucros. Na realidade, a maior parte da população civil era constituída por
agricultores/ as e camponeses/as que ocuparam as terras circundantes aos campos
de refugiados/as para a produção agrícola, obrigando as populações locais a
deslocarem- se. Tal originou um excedente de produção, já que os campos tinham
acesso a produtos provenientes da ajuda humanitária, o que favoreceu a sua
comercialização, controlada pela elite política e militar, pois era esta quem
também controlavam a distribuição dos produtos de origem humanitária. Este
lucro possibilitou a compra de armas e o armamento das forças militares BaHutu
nos campos. Estas começaram a invadir o Ruanda sob o pretexto de destruir o
governo ruandês e recuperar o poder político do Estado. As regiões mais
afectadas foram as do nordeste do Ruanda, Gisenyi e Ruhengeri.
Para finalizar esta primeira parte, é pertinente considerar as consequências
deste conflito armado, mais especificamente as relacionadas com as migrações
forçadas, a que ao longo da história do Ruanda, foram sujeitas milhares de
pessoas. No período pós-genocídio assistiu-se à deslocação de milhares de
BaHutu obrigados/as ao exílio, o que deu origem a mais campos de refugiados/as,
onde a vida era extremamente precária, principalmente para os/as civis. Na
maioria dos casos perderam tudo o que tinham no seu local de vivência e a
insegurança a todos os níveis era flagrante.
Segundo Ebenezer Blavo (1999) a maioria dos problemas da vida no exílio, em
África, reside em adquirir o estatuto de refugiado/a e a autorização de
permanência e, nas situações de conflito armado, como neste caso específico, as
populações migrantes estabelecem-se em campos de refugiados/as. A autora
refere, também, os problemas que dizem respeito à protecção, assistência e
ajustamento, bem como os problemas específicos em grupos de refugiados/as mais
vulneráveis, como as famílias, as crianças, as mulheres e raparigas, os/as
idosos/as e os/as incapacitados/as, e os problemas relativos às necessidades
básicas das pessoas, como a alimentação, saúde, alojamento, educação, emprego e
liberdade de movimentação, autorização para viajar.
No contexto pós-genocídio, segundo Binaifer Nowrojee (1996), assistiu-se à
morte de milhares de refugiados/as BaHutu provocada por doenças, fome e falta
de água. Os/as BaHutu que foram forçados/as a fugir temem ser presos/as e
perseguidos/ as se voltarem ao Ruanda, além de que são ameaçados/as, pelo
exgoverno Hutu reorganizado no exílio, se pretenderem deixar os campos para
regressarem ao seu país.
Este conflito deflagrou por outros territórios, quer dentro, quer fora do
Ruanda. Neste artigo, concretizo uma análise até ao período pós-genocídio, mas
o conflito armado continuou e persiste.
O sistema patriarcal e as mulheres no conflito do Ruanda do genocídio de 1994
ao pós-genocídio
Ambos os grupos Tutsi e Hutu definem ao longo dos séculos uma organização
patriarcal e patrilinear. A identidade étnica e a propriedade são transmitidas
de pai para filho e as mulheres são consideradas subordinadas aos homens,
propriedade do pai, ou do irmão, ou do marido, sem direito à propriedade, nem
acesso à política e economia formais.
Dentro da sociedade ruandesa, as mulheres têm sido, tradicionalmente,
consideradas e tratadas como dependentes dos seus parentes
masculinos. Ao longo das suas vidas, espera-se que sejam controladas
e protegidas pelos seus pais, os seus maridos e os seus filhos.
Tradicionalmente, o papel de uma mulher ruandesa na sociedade centra-
se à volta da sua posição como esposa e mãe (Nowrojee, 1998).
Como confirmam muitos/as autores e autoras, as relações sociais e culturais no
Ruanda estabelecem-se sob a base de um sistema patriarcal, o que condiciona a
atribuição e reprodução de diferentes papéis, identidades, estereótipos e
práticas, de e entre homens e mulheres, nomeadamente no que respeita à
construção das identidades étnicas Hutu e Tutsi.
As mulheres no Ruanda, mesmo depois da independência e com a I e II Repúblicas,
eram agentes pouco activas na vida política. A participação política das
mulheres era diminuta, a maioria não era alfabetizada nem tinha direito à
propriedade, e para desenvolverem actividades económicas necessitavam do aval
do marido. Assim, pode afirmar-se que, no sistema formal político e económico,
a participação foi vedada às mulheres.
BaHutu e BaTutsi consideram-se dois grupos distintos com uma estrutura
patriarcal hierarquizada onde as elites manipulam e incentivam à cisão, não só
étnica como de e entre mulheres e homens. As mitificações históricas, que
aconteceram desde a época colonial e que incentivaram à cisão entre os grupos
Hutu e Tutsi, reproduziram uma série de concepções e estereótipos sobre as
mulheres ' BaHutu e BaTutsi ' fulcrais para a construção de identidades étnicas
e de género com base na discriminação e no ódio entre BaHutu e BaTutsi.
No contexto pré-genocídio a propaganda extremista disseminou vários
estereótipos sobre as mulheres BaTutsi e BaHutu. Alguns exemplos, dados por
Nowrojee (1996), no relatório da Human Rights Watch/Africa: Shattered Lives
Sexual Violence during the Rwandan Genocide and its Aftermath, são o facto de o
casamento de um homem Hutu com uma mulher Tutsi ser considerado perigoso. As
mulheres BaTutsi eram consideradas mais bonitas ' e por isso perigosas ' e
menos trabalhadoras, ao contrário das mulheres BaHutu que eram tidas como
recatadas e servis. A propaganda disseminou um estereótipo «conveniente», o das
mulheres BaTutsi como predadoras sexuais. «De um modo mais lato, a propaganda
dos extremistas BaHutu retratava as Mulheres BaTutsi como personagens
calculistas e predadoras sexuais que minavam a confiança dos homens BaHutu,
seduzindoos, literalmente ou de forma figurada, submetendo-os de forma
abjecta.» (Kich, 2006: 510). Estes estereótipos derivam das concepções
patriarcais e hierarquizadas criadas sobre os dois grupos. Supostamente os/as
BaTutsi eram fisicamente mais esbeltos/as em oposição aos/às BaHutu que foram
identificados/as como negróides e, por isso, com maior capacidade de trabalho e
servis, uma ideia que legitimou, durante o período colonial, o poder dos
BaTutsi e a subordinação dos/as BaHutu.
A incitação ao ódio pelas BaTutsi entre as mulheres BaHutu, empreendida pela
propaganda extremista Hutu, assentou nos estereótipos, nas diferenças e
hierarquias sociais entre elas: as mulheres BaTutsi eram vistas como arrogantes
que impunham a sua suposta superioridade às suas subordinadas BaHutu. A
propaganda Hutu «acusava as Mulheres BaTutsi de monopolizar as posições de
trabalho nos sectores público e privado, pois consideravam que a contratação
das BaTutsi era feita com base no nariz fino (uma estereotipação de uma
característica tutsi), contribuindo assim para a taxa de desemprego da etnia
Hutu, em particular as mulheres BaHutu.» (Nowrojee, 1996).
Estes são apenas alguns exemplos de estereótipos construídos sobre mulheres
BaHutu e BaTutsi que levaram ao ódio e à violência genocidária, com
consequências desvastadoras para as BaTutsi, que no período do genocídio (90
dias) foram mortas e sexualmente violadas ' estima-se que cerca de 80% das
mulheres BaTutsi sobreviventes sofreram violações e tortura sexual.
A violação é, por excelência, o crime de profanação contra o corpo
feminino e, através dele, contra toda a promessa de vida da
comunidade no seu todo. Pode, então, ser definida em termos
antropológicos como uma tentativa de invadir o espaço histórico do
outro, enxertando na sua árvore filial a criança do inimigo étnico,
uma tentativa de intervir contra o elo de ligação, de quebrar a
continuidade, seccionando-a por meio da violação através do ventre
das mulheres (...) A violação é, em termos simbólicos, o método mais
pertinente de purificação étnica (Nahoum-Grappe, 2007: 55).
As violações de mulheres, no Ruanda, serviram como arma de guerra para a
limpeza étnica dos/as BaTutsi: possuir a mulher do inimigo adquire o
significado simbólico de possessão e vitória sobre o mesmo, de destruição
moral, política e étnica do inimigo. Actualmente a Violência com Base no Género
(VGB) é já considerada crime de guerra pelo Tribunal Internacional, mas torna-
se complicado nestas situações obter depoimentos das vítimas e identificar os
agressores. Muitas mulheres sofrem de estigma e discriminação pelo facto de
terem sido violadas ou terem engravidado do «inimigo», por isso não os
denunciam. É nas sociedades patriarcais, onde as mulheres normalmente são
subordinadas e lhes é atríbuido o papel de mãe ou propriedade do marido, que
mais facilmente se tornam objecto de violência sexual e, num contexto de
genocídio e guerra, as mulheres são tidas como as reprodutoras biológicas e
sociais da comunidade e, por isso, servem, como armas para a humilhação e
destruição da comunidade étnica. Mulheres violadas em frente aos familiares,
gravidezes forçadas, por exemplo, são acções cometidas para provocar a
destruição da moral e existência de uma comunidade.
As mulheres BaTutsi não foram as únicas vítimas de violência e abusos sexuais
por parte das milícias, também as mulheres BaHutu foram torturadas e violadas,
principalmente aquelas que tentaram proteger os/as BaTutsi ou aquelas que se
opuseram ao extremismo Hutu.
O exílio foi a consequência do genocídio para uma grande parte da população
Hutu. Um dos destinos foi, como já referido, os campos de refugiados/as ao
Norte de Kivu, no ex-Zaire. A vida das mulheres no exílio e nos campos de
refugiados/ as é muito difícil e precária. Elas são as que sofrem mais com a
falta de recursos, pois normalmente são as mais responsabilizadas para prover
alimento e água à família e são constantemente ameaçadas pela violência armada
e sexual. Nos campos de refugiados/as, onde se deu a reestruturação do ex-
governo Hutu, muitas foram condicionadas e obrigadas a colaborar com as
milícias.
Durante o genocídio e pós-genocídio, na continuidade do conflito armado dentro
e fora do Ruanda, as mulheres também tomaram parte activa e serviram, por
exemplo, como informantes durante o genocídio, denunciando os/as BaTutsi. «
[E]xiste uma considerável evidência do envolvimento de mulheres e crianças nos
assassinatos do noroeste, como houve no genocídio de 1994» (African Rights,
1998: 227). Desde 1995 e com os ataques dos ex-militares e Interahamwes
exilados nos campos do Norte do Kivu e Goma, eram as mulheres que mais
facilmente entravam no território do Ruanda porque, no contexto do conflito,
eram elas que provocavam menos desconfiança. Puderam assim servir de
informantes para as milícias, bem como prover alimento e abrigo a activos das
mesmas, contribuindo para o estabelecimento de bases militares dentro do
Ruanda. Mulheres que regressavam para o Ruanda dos campos de refugiados/as
foram usadas para transportar armas nos molhos de lenha e balas nos cabelos.
Também há informação de mulheres activas como milicianas bem como meninas
soldados que foram usadas para ir para a frente de combate. «[A]s mulheres
participaram em ataques militares e mencionaram-se várias outras mulheres
soldados que estão actualmente na linha de frente como insurgentes» (African
Rights, 1998: 228). As mulheres mediums espirituais serviam de morale boosters2
(idem) para as milícias como forma de preparação para o combate e outras
mulheres encorajavam os milicianos cantando e tocando tambores.
As mulheres no conflito do Ruanda, devido às construções sociais e culturais
sobre os sexos, nomeadamente sobre o sexo feminino, e ao processo de
etnicização, sofreram e participaram no conflito através de experiências e
práticas específicas e diferenciadas.
Pela análise e leitura de alguns estudos sobre conflitos armados,
especificamente sobre o caso do Ruanda, observa-se que a presença e a
preocupação com as mulheres se resumem à soma das violações, à descrição dos
números de viúvas e outros, negligenciando uma compreensão mais alargada do
conflito que inclua as experiências e agencialidades femininas.
Embora a noção das mulheres como vítimas puras, imersas nos seus
papéis domésticos e sem consciência do conflito armado tivesse sido
usada para criar uma onda de solidariedade pelas mulheres, esta acaba
por ir contra as mulheres que não se posicionam desta forma, num
contexto em que os discursos dominantes transmitem a ideia de que são
estas mulheres as que mais precisam de ajuda. Esta noção é incapaz de
implicar, de forma adequada, a família no conflito armado e de
considerar que esta foi uma força legitimadora central da violência
do Estado quer aquém, quer além das fronteiras nacionais (Palmary,
2005).
A omissão e a ocultação das mulheres, enquanto activas e agentes nos casos de
conflito, devem-se ao facto de serem identificadas, normalmente, como
subordinadas ao espaço doméstico e de este ser marginalizado nas teorizações
das ciências sociais.
Nas origens e causas do conflito do Ruanda, constata-se a instrumentalização da
etnicidade, ou a etnicização dos poderes políticos, fruto da acção de grupos ou
elites concorrenciais, na luta pelo controlo político do Estado, que resultou
num conflito armado que parece não ter fim. Assim o conceito de etnicidade
surge como um processo de construção ideológica protagonizada por determinados
grupos sociais, mas também é fulcral relacionar este processo com as raízes
patriarcais, ou seja, cruzar etnicidade com as construções ideológicas sobre os
sexos que são determinantes nas diferentes concepções identitárias, nas
práticas e nas consequências atribuídas e reproduzidas por mulheres e homens.
Nas abordagens teóricas de contextos de conflitos armados é importante fazer
uma análise que permita uma acepção mais compreensiva e inclusiva das
experiências e agencialidades das mulheres, bem como das consequências que as
concepções patriarcais provocam nas sociedades, nas identidades e nas relações
e práticas sociais e culturais.