A Explosão dos úteros: Mulheres palestinianas entre o patriarcal e o colonial
«on dirait une ville, c'est un cimetière. On dirait un chant et c'est
la dernière note d'un soupir: On dirait une montagne, c'est un mirage
celui qui faisait tinter les clés du monde s'en est allé, l'oreille
sourde. Les laboureurs de sables ont pris la fuite abandonnanat leur
moisson de gris il semble qu' une couleur naisse de l' incolore,
parfois, dit-on. Mais il fait nuit. (…) Tu as reçu une lettre de
Beyrouth pleine de brassees de fleurs et de promenades: Tu envoies
une lettre parisienne pleine de soucis. Tu n'as plus une robe à te
mettre. Tu n'as plus envie de voir tes amis».
Françoise Collin, 2008, On dirait une ville
2
«Começar, assim, não por um continente, por um país ou por uma casa,
mas pela geografia mais próxima – o corpo».
Adrienne Rich
Introdução
Começo por analisar o conflito israelo-palestiniano não pelas bombas, pelos
mísseis, pelos checkpoints, pelo muro de separação ou pelos "acordos de
paz". Abordarei o conflito a partir da geografia/política mais próxima e
central: o corpo. E pergunto: será que os corpos das mulheres palestinianas têm
uma configuração localizada no conflito3?
Os corpos das mulheres palestinianas4 são socialmente, culturalmente e
politicamente (des)codificados e (re)lidos de diferentes maneiras; este artigo
discute a relação entre a consciência política das mulheres palestinianas e o
lugar dos seus corpos na luta. Ou seja, questionar o efeito da participação/
resistência política contra a ocupação "sobre" a sexualidade das
palestinianas, numa sociedade que acredita em conceitos como a "cultura
de honra"5.
Das condições desumanas em que vive o povo palestiniano, sob ocupação israelita
desde 1948, resultaram várias resistências políticas e culturais. Interessam-me
aqui as formas de resistência(s)das mulheres palestinianas, sobretudo não
sofrem apenas a ocupação externa, mas vivem ainda numa sociedade marcadamente
patriarcal. As histórias de vida das mulheres palestinianas que se encontram
coligidas e publicadas, mas largamente por analisar e discutir, são o meu
recurso principal para reflectir sobre estas questões6.
O discurso nacionalista e patriarcal palestiniano faz dos corpos delas uma arma
contra o inimigo mas também contra as próprias mulheres. Também Israel procura
utilizar esses mesmos corpos para controlar por inteiro o povo palestiniano.
Por sua vez, as mulheres palestinianas usam os seus corpos por um lado para
resistir à sua sociedade patriarcal e por outro lado para resistir à ocupação
israelita. Falar de corpos significa, no entanto, analisar a situação social,
cultural e política das mulheres, o que implica analisar o conflito israelo-
palestiniano em si mesmo. Será que os corpos das mulheres palestinianas
aparecem no conflito israelo-palestiniano como a arma, o campo de batalha e o
alvo? "Arma", "campo de batalha" e "alvo"
de quem e contra quem?
Palestina no feminino: os corpos no discurso nacionalista palestiniano
No discurso nacionalista palestiniano, seja nas suas vertentes política,
cultural ou literária7, as forças do ocupante israelita são descritas como Al-
mughtasebin, "os violadores", uma palavra que se tornou sinónimo de
ocupante. "Eles" violam a terra: a Palestina/ a terra/ a nação
aparece como uma mulher, normalmente a mãe de todo o povo palestiniano. A este
respeito Hanan Mikha'il Ashrawi (apud Najar & Warnock, 1992: 260) salienta:
"As mulheres encontram o seu caminho para literatura… não enquanto
retratos de si próprias, mas como encarnação do inatingível, a meta perfeita:
fertilidade, a terra abundante, o útero da sociedade, a própria
Palestina". A feminização da terra transmite uma imagem da mulher
idealizada, divina e no caso palestiniano "ela" é ainda uma vítima
de violação e ocupação.
A ligação simbólica entre a Palestina e a mulher está centrada na ideia do
desejo de conquista e de controlo da terra e da mulher. Como argumenta Mary
Layoun (2001:148), "existe um obstáculo principal àposse-da-mulher/terra
como realização nacional"8; sendo a terra - a mulher ocupada, surge
sempre a aspiração de satisfazer o desejo nacional e sexual (2001:148).
Para os diferentes partidos políticos na Palestina a figura da
"mãe"9 e o seu papel (fazer filhos) é central no conflito. As
declarações públicas do movimento islâmico confirmam a importância deste papel:
"Na resistência, o papel da mulher muçulmana é tão importante como o do
homem. Ela é a fábrica de produzir homens". (Jad apud Ania Loomba, 1998:
216). Esta ideia não é apenas adoptada pelos grupos islâmicos. Yasser Arafat,
por exemplo, também se dirigia às mulheres como "as mães da nação"
(Jad, 2008).
Depois da realização de um atentado suicida pela primeira vez levado a cabo por
uma mulher, em 2000, o líder islâmico Ahmad Yasin afirmou que o Hamas não
estava a pensar em recrutar mulheres para esse papel, visto que ainda havia
homens para o desempenhar. Segundo ele, o papel das mulheres deveria ser
centrado na família, em ter e educar filhos numa educação islâmica.
As informações sobre as ishtish'hadiat (bombistas suicidas)10 mostram que a
maioria delas tinha tido dificuldades em encontrar um partido político que as
apoiasse. No entanto, o Hamas contradisse o seu discurso político - que
considera as mulheres (leia-se: corpos de mulheres) no conflito como apenas
portadores de combatentes - utilizando uma mulher para realizar um
atentado suicida em 2004. Aliás, a primeiraIstish'hadiado Hamas, Reem Al-
Raiashi, foi a primeira mãe suicida na Palestina a utilizar o seu corpo como
arma contra a ocupação.
Muitas mulheres aceitam e orgulham-se do seu papel como "fábrica de
homens" e algumas líderes ainda promovem este papel. Por exemplo, Samiha
Khalil 11 dedicou um prémio às famílias com mais crianças: "Percebo que
ter muitos filhos seja um fardo para as mulheres, mas nós estamos numa batalha
pela sobrevivência, e a preocupação de Israel com a nossa elevada taxa de
natalidade tem que ser levada a sério. Israel quer a terra sem palestinianos
nela" (apud Najar & Warnock, 1992: 47). Rishmawi comenta assim esta
atitude: "Para mudar esse tipo de consciência, o povo palestiniano tem
que sentir que a sua sobrevivência não está ameaçada. As práticas de procriação
mudarão, quando as palestinianas estiverem confiantes que não perderão as suas
crianças por causa da doença ou da guerra" (apudNajar & Warnock,
1992: 177).
Peteet (1991: 184) explica porque é que as mulheres adoptam voluntariamente
este papel: "na verdade, não é pela nação que as mulheres fazem filhos,
mas ao conceber e falar sobre fertilidade e procriação nestes termos, elas
ganha mum sentimento de contribuição para luta nacional". Como Um
Muhammad (apud Pettet, 1991: 185) confirma: "Nós, as mulheres
palestinianas, temos batin 'askari [literalmente: útero militar,
figurativamente: damos à luz combatentes]".
No entanto, este orgulho no contributo para a resistência é misturado com uma
atitude de resignação, que se sente nas palavras de uma mãe: "Nós, as
mulheres palestinianas, damos à luz, educados e entregamos os nossos filhos
pela revolução" (apud Peteet, 1991: 185). As mulheres sentiam-se, muitas
vezes, obrigadas a aceitar o papel dos "úteros militares", com medo
de serem vistas como pouco patriotas, ou até para confirmar que tinham
realmente um papel importante a desempenhar na resistência. No entanto, algumas
reconhecem que o seu corpo é utilizado/abusado pelo discurso nacionalista:
"O meu corpo não é uma fábrica de armas. É o meu corpo" (apud Robin
Morgan, 2001:274). Todavia, é muito raro encontrar uma afirmação como esta.
Esta mulher resiste à objectivação do seu corpo, mas arrisca-se a ser acusada
de traição do seu papel na resistência, um papel que apenas abarca o seu útero.
Férteis, misteriosos e perigosos: os corpos no discurso do ocupante
No discurso israelita, a relação entre os dois lados do conflito é representada
de forma metafórica como uma relação de homem/mulher. Palestina é a mulher e
Israel é o homem: o colonizador é o patriarca. Golda Meir, a primeira-ministra
israelita nos anos 1970, descreveu Palestina como: "a noiva
indesejável" (apud Fátima Qasem, 2007: 118). Como mulher (leia-se:
frágil) e precisa da defesa e da ajuda do homem (Israel). No entanto, quando
rebelde, perde as suas qualidades "femininas" e torna-se numa
mulher indesejável.
Na invasão de Gaza, em Dezembro de 2009, apareceram nos média internacionais
- incluindo os israelitas - fotografias de t-shirts de alguns
soldados da unidade snipers, habitualmente desenhadas com imagens escolhidas
por eles próprios. A imagem mais divulgada foi de uma mulher palestiniana
grávida, com véu, com uma arma na mão, e exactamente no centro do alvo. O
slogan diz: "1 shot 2 kills". (1 tiro 2 mortos) (veja-se Uri Blau,
2009). A mulher, grávida e com véu, é considerada um perigo, misterioso e
desconhecido. Segundo Meyda Yegenolgu (1991: 11), o véu das mulheres orientais
funciona "não apenas como algo que faz significar a mulher oriental como
misteriosa e exótica, mas também faz significar o oriente como feminino, sempre
velado, sedutor e perigoso". A corda da arma na sua mão pode ser vista
como cordão umbilical que liga a arma ao seu útero e que é o centro do
conflito.
Nota-se que a maioria destas t-shirts consideram as mulheres e os seus corpos
como o enfoque da batalha, como por exemplo o slogan "Better use
Durex" junto de uma fotografia de uma criança palestiniana morta. Uma
outra imagem mostra uma mulher a chorar com um brinquedo na mão e o slogan
"todas as mães palestinianas têm que saber que o destino do seu filho vai
acabar nas minhas mãos" (veja-se Blau, 2009). A maternidade e a
multiplicação do povo palestiniano aparecem como o principal perigo no
conflito.
A violação também surge nestes desenhos: a imagem de uma rapariga com nódoas
negras e o slogan "parece que foste violada"; ou a imagem de um
soldado a violar uma rapariga e o slogan "sem virgens não há ataques
terroristas". Sendo algo misterioso, ameaçador e perigoso e os corpos das
palestinianas têm que ser (re)moldados pelas mãos do poder colonialista.
A elevada taxa de natalidade palestiniana ameaça a existência de Israel, e está
no centro das suas preocupações. Israel é um dos países que realiza mais
tratamentos de fertilidade em todo o mundo (quatro vezes mais do que os Estados
Unidos). O seguro médico nacional do estado israelita cobre tudo o que encoraja
as pessoas a ter filhos/filhas; é o único no mundo que cobre até a inseminação
artificial para mulheres solteiras e existe uma lei especial que cria condições
muito favoráveis ao recurso às "barrigas-de-aluguer". Ao mesmo
tempo, o seguro não cobre contraceptivos e o aborto só é permitido através da
autorização de uma comissão especial (veja-se Nada Matta, 2007).
Ambos os discursos israelita e palestiniano, encorajam as mulheres a ter mais
filhos, fazendo delas - utilizando as palavras de Trinh Minh-ha
"úteros com dois pés…um órgão especializado para a produção-de-
crianças" (1989: 37).
Os corpos entre a cultura de honra e a cultura de resistência
Thaqafet Al-'ard, a cultura de honra, é comum na zona mediterrânica. Está
relacionada com conceitos como coragem, generosidade e magnanimidade. (Warnock,
1990). "Perder a honra" pode ser causado por um acto individual ou
colectivo, ainda que "perder a honra" individualmente signifique a
perda de honra da família/comunidade. Na cultura árabe, o conceito de honra
está ligado à "feminilidade" e à "masculinidade", os
conceitos construídos pela sociedade. No entanto, está sobretudo ligado aos
corpos das mulheres. As mulheres têm que manter os seus corpos
"honrados" e os homens têm que defender esses corpos de qualquer
risco.
O contacto físico dos corpos das mulheres com homens desconhecidos coloca em
risco a honra da família ou até da comunidade. As famílias normalmente têm que
escolher entre conviver com a desonra e as suas consequências, ou "limpar
a honra" um processo que pode envolver o derramamento de sangue.
Devido à situação política na Palestina, "a cultura de honra" entra
num processo mais complexo, que deixa a compreensão do que pode colocar a honra
em risco pouco clara. Tanto os corpos dos homens como os das mulheres estão
igualmente sujeitos à tortura e à dor. Embora os corpos sofram o mesmo, a
(des)codificação social desse sofrimento, tortura e até das cicatrizes coloca
os corpos das mulheres num lugar diferente.
Enquanto, no caso dos homens, estes são considerados pela sociedade como sinais
máximos de "masculinidade", para as mulheres o lugar delas na
sociedade fica indefinido (veja-se Peteet, 2000). Por um lado a "cultura
de resistência" na sociedade palestiniana apela a todos os indivíduos à
participação na luta: qualquer resistência contra a ocupação é considerada um
acto heróico. Por outro lado, o contacto físico com homens desconhecidos, ou
até a violação, coloca em risco - segundo a sociedade patriarcal -
a honra da família, o que deixa as mulheres num lugar ambíguo.
As activistas políticas foram consideradas, em muitos casos,
"soltas"12 (veja-se, Peteet, 1991). Para muitas mulheres,
participar na resistência ou entrar na prisão trazia automaticamente a desonra
para a família. Siham Abdullah (apud Sahar Khalifa, 1991: 90) afirma que as
mulheres casadas são mais activas politicamente porque não têm nada a perder;
uma vez que já casaram e a reputação delas já está protegida13. Muitas mulheres
deixaram a resistência para proteger a sua honra, ou desenvolveram as suas
actividades apenas longe das suas vilas, ou seja, longe daslínguas da
comunidade (Shalhoub-kevorkian & Abdo, 2006). As prisioneiras -
especialmente as primeiras - sofreram em muitos casos a violência
acrescida de ser rotuladas como mulheres sem honra. Fairouz Arafa (apud Itimad
Mhana, 1992: 114) conta que muitos homens a pediram em casamento, mas recuaram
quando souberam que tinha sido prisioneira. No início, a família dela também a
tratava como "culpada":
O meu pai deixou crescer a barba até o dia em que foi visitar-me à
prisão […]. Notei que estava a chorar; fez-me perguntas sobre o meu
cabelo e as minhas unhas. Depois fez-me a pergunta de que eu estava à
espera: "Fizeram-te alguma coisa?" Respondi negativamente
[…] depois, já não ligava àquilo que as pessoas diziam, mas o que me
preocupava era o meu irmão, que recusou visitar-me, considerando a
minha prisão uma vergonha para família […] Decidi que quando saísse
da prisão responderia abertamente às perguntas das pessoas: isto é
uma ocupação, e a prisão não é uma vergonha.
As primeiras prisioneiras sofreram mais deste "lugar ambíguo" do
que as que lhes seguiram. Com o aumento da participação das mulheres na
resistência e, como consequência, o aumento do número das prisioneiras
políticas, o conceito de "honra" começou a ganhar outros contornos.
O silenciamento da resistência e a conquista dos corpos
Frantz Fanon (apud Yegenoglu, 1999) sugeriu que normalmente o colonizador
conquista as mulheres como uma forma de destruir a resistência de um povo
inteiro. Israel conhece bem o poder que pode exercer através da "cultura
de honra", e recorre, por exemplo, à divulgação de histórias infundadas.
Quando as tropas judaicas começaram a ocupar as vilas e cidades palestinianas,
em 1948, espalhavam rumores sobre violações - de uma dimensão muito
superior às ocorridas na realidade - para assustar a população e
controlar as suas vilas (veja-se Ilan Pappe, 2006). Muitas pessoas deixaram as
suas casas com medo de perder a "honra" da família (Warnock, 1990:
23). Mais tarde, o povo palestiniano começou a resistir à cultura de honra,
resistindo assim, ao mesmo tempo, à ocupação. Peteet (1993: 51) explica que:
No início dos anos 1980, o jil al-thawra (a geração da revolução
nascida na diáspora) foi célere em criticar esse conceito de honra… o
conceito de 'ird "honra" era indestrinçável da palavra
ardterra, num jogo de palavras e de significados… (eles) promoveram
novos símbolos de uma cultura palestiniana de resistência. Um destes
símbolos foi o slogan al-ard abl al-'ird "a terra antes da
honra".
Nas prisões israelitas as prisioneiras políticas palestinianas são vítimas de
abusos sexuais e ameaçadas com o que é ainda considerado na sua sociedade
"honra". Muitas prisioneiras contaram que foram colocadas junto com
prostitutas, o que, segundo as forças israelitas, pode danificar a
"honra" das palestinianas na sua sociedade. No entanto, Maha Nassar
conta que não considerou essa experiência como castigo; pelo contrário,
simpatizou com aquelas mulheres (apud Khalifa, 1991: 78).
Sajinat Al-Watan Al-Sajin, (1988), de Tawil, que reúne narrativas de vida de
vinte e sete prisioneiras, nota-se que a maioria delas foi ameaçada com a sua
honra/ o seu corpo. Mesmo que tivessem sido poucos os casos reais de violação,
a "ameaça com a honra" foi sempre uma das armas preferidas de
Israel.
Na autobiografia de Odeh (2007), Ahlam Bel Horia, ela menciona que durante o
seu tempo como prisioneira política, muitas das perguntas feitas durante o
interrogatório eram relacionadas com a sua sexualidade, mais do que com as suas
actividades políticas: "Dormiste com quantos homens?. Queres que nós
acreditemos que és ainda virgem?" (2007: 142). Conta como foi torturada
uma noite inteira para dizer: "sou puta" dez vezes. É significativo
que ela tivesse optado por suportar a tortura, em vez de dizer uma frase que,
segundo ela, poderia prejudicar a sua "honra". A narrativa da
violação também é notável: mesmo quando Odeh ultrapassa as restrições culturais
escrevendo sobre a violação, o incidente é descrito numa única frase pequena:
"Azrael tentou perfurar o meu útero com um pau" (2007: 149). Ser
violada com um pau é de facto significativo: uma violação que não envolve o
corpo do violador mas um objecto, retira à violação qualquer contacto humano,
tornando-a assim ainda mais humilhante - a mulher surge assim como não
sendo objecto de desejo, mais um grau na degradação.
Em termos globais, a violação é ainda uma arma de guerra, sendo utilizada para
colonizar o povo através dos corpos das mulheres Será que o colonizador e o
patriarca conseguiram silenciar os corpos das mulheres? Ou será que o corpo, o
"alvo de poder" (Michel Foucault, 2004), pode tornar-se num sujeito
vivo de resistência? Será que as mulheres palestinianas começaram a utilizar o
mesmo corpo que foi utilizado como arma (leia-se: objecto), como a sua própria
arma de resistência (leia-se sujeito)?
Os corpos das palestinianas: a arma de quem?
A memória do corpo
Começando pela linguagem: as palestinianas tornaram a sua linguagem de guerra
num corpo e o seu corpo numa linguagem da resistência. Hélen Cixous (1997: 351)
sugere que o corpo da mulher é a sua linguagem. Argumenta ainda: "É com
seu corpo que ela sustenta a lógica da sua fala… materializa fisicamente o que
está a pensar, significa com o seu corpo". As palavras de Cixous aplicam-
se às palestinianas: elas utilizaram o seu corpo como uma linguagem e uma
narrativa para descrever a ocupação. Qasem (2007) nota que enquanto os homens
usam a linguagem "oficial" dos média para descrever a ocupação
dizendo, por exemplo, "quando Israel ocupou a terra", as mulheres
escolhem termos como "quando Israel entrou", que na tradução
palestiniana sugere penetração sexual.
Leilet Al-Dokhleh (literalmente "a noite de entrada") é um termo
utilizado para descrever a noite em que a noiva perde a sua virgindade. O
processo de perder a virgindade envolve sangue e dor, para o qual algumas
mulheres não estão preparadas e não o esperam. "Tirar a virgindade"
e ultrapassar as fronteiras do corpo da mulher é um acto conhecido pela
família, mas muitas vezes desconhecido e mesmo contra a vontade da noiva. Qasem
argumenta que esta cumplicidade entre "família" e
"noivo" é análoga à cumplicidade dos países árabes na ocupação da
Palestina por Israel (Qasem, 2007: 119). Isto tudo está ligado na linguagem das
mulheres à ocupação e, especialmente, à Nakba14, inscrevendo os eventos
históricos na história do corpo, como exprime uma mulher: "estava ainda
virgem quando os judeus entraram" (apud Qasem, 2007:121). Para descrever
a Nakba, as mulheres criaram uma linguagem "alternativa" e
resistiram à linguagem sionista colonialista e à linguagem nacionalista
dominante.
A narrativa do corpo na primeira pessoa
As mulheres palestinianas não só tornaram o seu corpo numa linguagem de
resistência, como também tornaram a narrativa sobre o corpo numa forma de luta.
Muitas falaram dos casos de violação na prisão15, - que a sua cultura
obriga a silenciar - e assim utilizaram a narrativa do seu corpo para
resistir ao poder exercido "sobre" os seus corpos, por ambas as
sociedades.
Tornar públicos os casos de violações resultou, em muitos casos, em
comportamentos novos na sociedade, como confirma Basir (apudNajar &
Warnock, 1992: 90):
Um passo importante para a libertação foi a nossa libertação do medo
de violação.Ao divulgar que os interrogadores israelitas as tinham
violado com paus, duas das primeiras prisioneiras políticas
aprisionadas em 1967 declararam que este era mais um dos crimes do
inimigo, e não é algo que se devessem elas envergonhar-se.
O "julgamento público" das prisioneiras violadas muitas vezes foi
considerado uma traição à causa palestiniana. Muitas das prisioneiras foram
consideradas heroínas, como confirma a ex-prisioneira Arafa (apud Mhana, 1992,
114): "Depois de sair da prisão, fizeram-me uma zafa16 e ficaram todos
felizes pela minha saída e meu pai pediu que saísse e apartasse a mão dos
homens com força. Ouvi-os dizer: "é algo para se orgulhar"".
"Apertar a mão aos homens" é significativo; não só era considerada
heroína, mas era considerada "como igual" aos homens. A honra
começou a perder a sua ligação com o contacto físico: o pai pede-lhe para dar a
mão aos homens, confirmando assim que a sua honra continua protegida. O
contacto físico aconteceu - dentro e fora da prisão - com o
consentimento do "homem da família".
A sociedade palestiniana, sobretudo as mulheres, começou a transformar o
conceito de honra em algo relacionado com o patriotismo em vez de algo
relacionado com o corpo, como defende Ashrawi: "A nova fonte da
"honra" é actividade política das mulheres, e não é a sua castidade;
participar na intifada é fonte de honra" (apud Warnock 1990:187). As
palavras de Leila Khaled17 confirmam esta nova visão "tentamos dizer que
a honra significa mais do que virgindade, que há honra em recuperar a nossa
pátria" (apud Morgan, 2001: 211).
O véu: uma prisão libertadora?
As palestinianas não apenas reconfiguraram o conceito de honra: transformaram
"objectos de honra" em "objectos de resistência". O
véu, que é considerado um dos símbolos de protecção de "honra", foi
utilizado para facilitar as actividades das mulheres na resistência. Muitas
declararam que o véu lhes deu mais liberdade na participação das reuniões dos
seus movimentos, mesmo quando essas reuniões se realizaram à noite (veja-se
Jad, 2008).
O véu foi considerado ainda um símbolo de resistência cultural contra o
ocupante e uma forma de confirmação de identidade nacional. A persistência de
usar o véu significa a resistência contra o colonialismo, como, por exemplo, já
tinha acontecido no Irão e na Argélia18. Esta ideia é defendida por Yegenoglu
(1999: 137): "foi sobre o seu corpo velado, que ambos o colonialismo
francês como o patriarcado argelino projectaram os seus medo, desejos e
políticas. O véu tornou-se um símbolo potente nessa batalha".
O véu funcionou como uma "prisão libertadora" para as mulheres. Em
2000, a jovem palestiniana Shifa'a Al-Hindi foi obrigada a tirar o seu véu
pelos soldados israelitas. Quando a forçaram fisicamente, cuspiu na cara de um
soldado que lhe bateu na cabeça e, em consequência disso, perdeu a vista. Para
Al-Hindi, defender o seu véu significou defender a sua identidade e, desta vez,
a honra nacional. Como defende Yengenoglu (1999: 119), para as mulheres
colonizadas "O seu corpo não simplesmente o que está dentro do véu: mas
"ela" é constituído nele e por a ação-do-tecido do véu". Tirar-
lhe o véu significa, então, despir-lhe a própria pele.
É significante que Al-Hindi tenha aparecido poucos dias após o incidente num
canal televisivo internacional sem véu, confirmando assim que ela apenas
defendera a sua liberdade de utilizar o véu: não se tratava de o véu lhe
esconder ou não a cara, mas do facto de ser o ocupante que lho queria tirar
(veja-se Farouk Wadi, 2000).
Pedaços de corpo ou estilhaços de resistência?
A "cultura de honra" criou como consequência uma "cultura de
vergonha" do corpo, a existência do corpo em si é um tabu, e Israel
sempre se aproveitou disso, provocando este tabu. Por exemplo, foram relatados
incidentes de mulheres que foram obrigadas a tirar a sua roupa no checkpointcom
a desculpa de ser um processo de segurança
19
(veja-se, por exemplo, Aman, 2007). Um Rami, vendedora de iogurte, passa os
checkpoints todos os dias para chegar a Ramallah. Conta que poucos dias após a
morte do seu filho pelos soldados israelitas teve que voltar a trabalhar. Um
soldado israelita insultou-a e pediu-lhe para levantar o seu vestido para ver
se tinha alguma coisa por baixo. Um homem palestiniano começou a gritar:
"volta para trás mulher, que vergonha!". Um Rami simplesmente não
deu importância e levantou o vestido para poder passar, vender o seu produto e
voltar para casa com algum dinheiro (Shalhoub-Kevorkian, 2007: 12).
Um Rami transformou - nas palavras de Shalhoub-Kevorkian (2007) - a
sua panela de iogurte num objecto de resistência. Acrescento, ela transformou o
seu corpo num "sujeito" de resistência. Deixar o corpo existirfoi
uma forma das mulheres resistirem a essa "cultura de vergonha" do
corpo, e foi sobretudo uma forma de resistência política contra a ocupação.
Rihab Isawi escreveu na parede da sua cela um conselho para todas as
prisioneiras, para que não tivessem medo das ameaças do abuso sexual. Conta o
seguinte:
Quando o investigador me ameaçou […] olhou para mim com um sorriso
sarcástico.Com muita confiança, comecei a tirar a minha roupa;
perguntou-me porque estava assim tão indiferente, respondi-lhe:
sinceramente, estou numa prisão israelita, há três homens à minha
frente, que vão ser quatro com o amigo com quem me estão a ameaçar;
será que uma rapariga como eu pode resistir a quatro homens? Não pode
resistir (apudTawil, 1988: 120).
A ameaça de "perder a honra" como arma começava a perder o seu
poder. Tal como Isawi, Fátima Al-Kurdi (apud Tawil, 1988: 206) foi ameaçada que
ia ser violada por prostitutas; respondeu simplesmente: "e são
bonitas?" Estas mulheres afirmaram que os seus corpos não são armas nas
mãos do ocupante. São da sua propriedade e estão sob o seu próprio controlo.
Elas transmitiram ao ocupante que elassão os seus próprios corpos.
A existência do corpo em si é considerado algo vergonhoso na sociedade árabe
dominante e os corpos das mulheres têm que estar escondidos e negados;
ironicamente, a cultua árabe, tal como a ocidental, promove a ideia de fazer
dos corpos das mulheres um "objecto" bonito, perfeito e desenhado à
medida de uma beleza já decidida pela sociedade. Isto obriga as mulheres árabes
a ter corpos perfeitos e ao mesmo tempo escondidos. Por isso, muitas mulheres
não participaram na resistência com medo de "ficar com o corpo
marcado", como revela Abdullah (apud Khalifa, 1991: 90): "A questão
não é só a reputação mas também o desfiguramento através da arma; se eu for
desfigurada, quem ia casar comigo?"
Israel beneficia deste receio de "desfigurar o corpo" e utiliza-
o constantemente para limitar a participação das mulheres na resistência.
Firial Salem tinha perdido um olho e os dentes e tinha a cara partida durante a
preparação de um explosivo. Assim que acordou de uma semana de coma, o
interrogatório seguiu a técnica de quebrá-la psicologicamente através do
desfiguramento do seu corpo. A mulher-soldado perguntou-lhe: "vais ter a
coragem de olhar a tua cara no espelho?" Respondeu-lhe Salem: "Não
estou triste por ter perdido o meu olho esquerdo; através do vidro que
substituiu o meu olho posso ver mais, vejo tudo mais claramente, melhor e mais
bonito" (apudTawil 1988: 111).
Salem leva-me a perguntar: será que as mulheres palestinianas conseguiram
transformar os seus "pedaços de corpo" em "estilhaços de
resistência"?
Hind foi torturada na prisão e cortaram-lhe uma das mamas, que depois lhe
voltaram a coser. Quando regressou ao interrogatório, voltou mais forte e mais
resistente: "Continua, aqui está a minha outra mama" (apud Warnock,
1990: 152) Khadija Abu Arquob tirou um saco de plástico e dentro dele partes do
seu cabelo preto, que lhe foi tirado durante o seu interrogatório sob tortura,
que deu ao juiz e ao procurador israelitas (apud Tawil, 1988: 43). Um olho, uma
mama e cabelo não são apenas "pedaços de corpo" mas são de facto
"estilhaços de resistência".
Corpos explosivos
Segundo Foucault (2004: 118) o corpo humano em qualquer sociedade é um objecto
de investimento do poder que o esquadrinha, o desarticula e o recompõe, "
[u]ma "anatomia política", que é também igualmente uma "mecânica
do poder"". A análise neste artigo tenta mostrar como os corpos das
mulheres palestinianas têm vindo a ser disciplinados pelo poder/discurso do
ocupante, por um lado, e por uma sociedade marcadamente sexista, por outro.
Foucault (2004: 118) afirma ainda: "A disciplina fabrica assim corpos
submissos e exercitados, corpos "dóceis"". Aqui, é obrigatório
questionar o efeito da "disciplina" nos corpos das mulheres
palestinianas. Será que realmente se tornaram em corpos submissos e dóceis?
Rula Astia (apud Hagar Kotef & Merav Amir, 2007: 977) conta como o seu
corpo teve um encontro com (a máquina) do poder:
Apanhámos um táxi e saímos a alguma distância do checkpoint uma vez
que os carros não são autorizados a ir até ao checkpoint. Daí
seguimos a pé o resto do caminho. Estava com dores. Estavam poucos
soldados no checkpoint, que nos ignoraram. Da'ud foi falar com eles,
e um deles apontou-lhe a arma. Estava com dores e senti que estava
para dar à luz ali mesmo. Deitei-me no chão, na sujidade, e arrastei-
me para trás de um bloco de betão para ter alguma privacidade. E lá
dei à luz, na sujidade como um animal. Segurei o bebé, ela mexeu-se
um bocadinho, mas poucos minutos depois morreu nos meus braços.
Os úteros das mulheres palestinianas são uma ameaça pela existência de Israel;
por isso, são continuamente disciplinados na máquina de poder chamada
"checkpoints". O útero de Astia e de dezenas de mulheres
palestinianas foi forçado a rebentar no checkpoint20. Elas e muitas mulheres
- que já mencionei neste artigo -, os seus úteros, e os seus corpos
foram alvos directos da batalha no conflito israelo-palestiniano, foram
empurrados dentro da máquina de poder, foram castigados e disciplinados.
Mas será que a disciplina patriarcal e colonial transformou os corpos das
mulheres palestinianas em corpos "dóceis"? Ou será que esses corpos
sob a opressão da máquina de poder rebentaram e se tornaram
"explosivos"?
Leila, uma militante que estava a treinar para realizar um ataque suicida,
perguntou (apudHala Jaber, 2003): "Para que serve um corpo quando lhe são
tiradas a liberdade e a dignidade?" ou em outras palavras: o que é que se
faz com os corpos "disciplinados"?
Uma outra Leila exprime, na sua autobiografia, o que deseja fazer com o seu
corpo "disciplinado": "Farei bombas dos átomos do meu corpo e
tecerei uma nova Palestina do tecido da minha alma" (Khaled, 1973: 64).
Ela exprime a vontade de muitas mulheres palestinianas: escolher a resistência
em vez do silêncio.
As mulheres palestinianas têm sido responsáveis pelas confrontações físicas com
o colonizador - especialmente na Intifada - enfrentando com os seus
corpos os soldados para salvar os jovens das suas mãos. As mulheres de Beit
Hanoun libertaram os homens cercados na mesquita pelas forças de ocupação,
colocando os seus corpos na linha dos tiros. E muitas outras utilizaram o seu
corpo literalmente como arma física, fazendo-o explodir.
Amal Amireh (2005:230) aborda a questão da seguinte forma: "o corpo da
bombista suicida está longe de ser dormente ou inactivo, passivamente à espera
de ajuda externa. É decidido, letal e literalmente explosivo… este corpo sai de
casa, atravessa fronteiras, e infiltra-se nos territórios do outro. É um corpo
proteico em movimento".
Noutras palavras: o acto de ser suicida recusa o papel designado para as
mulheres pelo discurso nacional/patriarcal: a fábrica para fazer filhos
(homens). Nega ainda a imagem que a ocupação tem dela: um alvo/objecto de
guerra, por isso como afirmam Kotef & Amir (2007: 978) no discurso
israelita "o corpo que explode em ataques suicidas é sempre
masculinizado, mesmo quando o ataque é realizado por uma mulher". Ela dá
voz ao seu corpo fazendo-se explodir, tendo em conta o conselho que Cixous
(1997: 350) deu a todas as mulheres: "O teu corpo tem que ser
ouvido"21.
Uma suicida na fase de preparação disse numa entrevista: "Tenho que dizer
ao mundo que se eles não nós defendam, teremos que nos defender com a única
coisa que temos, os nossos corpos" (Jaber, 2003). Esta afirmação confirma
as palavras de Minh-há (1989: 36): "Não temos corpos, somos os nossos
corpos".
A "Intifada" é um verbo que significa agitar-se, especialmente o
corpo. Por fim, deixo esta interrogação: será que é possível (re)escrever,
(re)inventar, (re)imaginar e (re)incorporar os corpos das mulheres
palestinianas? Podemos descolonizar os nossos corpos criando assim uma Intifada
do corpo?
Será que estes corpos se tornaram em cinza (leia-se: silêncio) ou será que se
tornaram numa explosão (leia-se: resistência)?