Habitar um corpo sexualizado: Identidades de género construídas numa
modernidade ambígua
«Sou quem sou
Um acaso inconcebível
como todos os acasos.
(…) Um indivíduo nascido sob a estrela ruim
que para outros seria boa.
E o que seria se despertasse nas pessoas medo?
Ou só aversão?
Ou só piedade?
Se não tivesse nascido
na tribo certa
e todos os caminhos se me fechassem?
Até agora, a sorte mostrou-se-me favorável.
Poderia não ter-me sido dada
a recordação dos bons instantes.
Poderia ter-me sido negada
a tendência para comparar.
Poderia até ser eu própria
mas sem o dom da admiração,
Quer dizer – alguém completamente diferente»
Wislawa Szymborska, 2006, Um não acabar mais
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Introdução
O presente artigo baseia-se no projecto de doutoramento intitulado
"Processos de construção social das identidades de género nas crianças:
um estudo de caso com um grupo de pré-adolescentes em Viseu", que teve o
objectivo central de compreender a construção social das identidades de género
nas crianças, a partir dos processos que participam na construção do ser (e/ou
percepcionar-se como) rapaz/rapariga, homem/mulher. Partindo do pressuposto de
que na modernidade reflexiva o corpo se torna central para a construção da
identidade (Shilling, 2003), problematiza-se a construção das identidades de
género, com base nos resultados do estudo de caso, perspectivando-se as
ambiguidades inscritas na individualização do corpo sexualizado.
Ser "rapaz" ou "rapariga", "homem" ou
"mulher", é agir, pensar, apresentar-se e movimentar-se na vida
social, de acordo com o que as pessoas em sociedade acreditam ser próprio do
"masculino" e "feminino"; pouco ou nada tem a ver com a
natureza biológica de cada corpo. No entanto, é sobre esse corpo, com um sexo
definido biologicamente e culturalmente, que são edificados os atributos de
género; atributos esses que são construídos socialmente, variando no tempo e
culturas, mas, simultaneamente, de tal forma articulados, que são muitas vezes
percebidos como parte da naturezade cada um. Trata-se da frequente
naturalização das formas de ser homem e de ser mulher; naturalização associada
a uma incorporação pelos sujeitos de uma ideologia e simbologia de género. O
corpo constitui-se assim como território privilegiado de significados de
género, incluindo os projectos de género projectos do corpo, tornando-se este
uma das partes fundamentais do projecto de identidade sempre inacabado do self
(Giddens, 1991).
Sendo construído o ser social a partir das interacções com os outros em
contextos e situações específicos (noção desocial selfde G. Mead), adoptou-se
uma abordagem processualista face à socialização, onde se enfatiza a dinâmica
das interacções sociais, familiares, escolares e entre amigos. O processo de
socialização, sendo partilhado por várias instituições e grupos, é concebido
como um processo duplo de adaptação e acção, ao pressupor a incorporação, por
parte das crianças, de valores, atitudes e comportamentos transmitidos pelo
outro adulto, podendo no entanto diferentes interpretações e assimilações de
papéis de género originar diferentes registos identitários. Pretendeu-se então
explorar as lógicas de construção social das identidades de género,
reconhecendo a influência dos principais agentes de socialização família e
escola, analisando simultaneamente os grupos de pares, que interagem amiúde em
contexto escolar.
Na construção dogendered social self, a perspectiva do interaccionismo
simbólico, na medida em que a construção das identidades de género nas crianças
se processa a partir das diferentes conjugações ou negociações dos estereótipos
e papéis de género nas interacções sociais, nos diversos contextos e situações
sociais. Reconhece-se pois o carácter eminentemente relacional do conceito de
identidade social (Pinto, 1991: 218), produzida através de dois processos: o
processo de identificação, onde se salienta a integração dos actores em grupos
de pertença e/ou de referência e o processo de identização, centrado na
autonomização dos sujeitos.
Num contexto de modernidade reflexiva e de individualização (Beck et al., 2000
e 2001), haverá uma tendência para lógicas mais autónomas de construção
identitária, remetendo assim para um reforço dos processos de identização. A
par de lógicas que favorecem a incorporação dos estereótipos e papéis de
género, mais ou menos tradicionais, transmitidos nos dois principais contextos
de socialização, família e escola, surge a possibilidade de construção duma
"identidade para si", dum projecto identitário do self. Considerou-
se pois fundamental perceber os impactos da modernidade reflexiva nas
interacções através das quais os sujeitos constroem as suas identidades de
género; e percepcionar até que ponto habitar um corpo sexualizado gera tensões
e ambiguidades na construção identitária.
O estudo de caso: dimensões e perspectivas
No estudo de caso, a partir da análise intensiva centrada numa turma do quinto
ano de escolaridade, procurou-se compreender os processos de construção social
das identidades de género e mecanismos neles inscritos, sempre nos contextos de
socialização onde as interacções se produzem, incluindo na análise as suas
formas de organização e funcionamento, as representações dos sujeitos, as suas
práticas e universos simbólicos. Poderemos sintetizar as grandes hipóteses e/ou
perspectivas de partida nas seguintes ideias: a) num contexto de modernidade
reflexiva as crianças irão percepcionar e construir as suas identidades de
género de forma individualizada; e b) existem lógicas e mecanismos inscritos
nos processos da sua construção que interessa captar.
Um dos pressupostos do estudo foi o reconhecimento de que as identidades são
produtos das interacções com os outros e que a dimensão avaliativa é central
naquele conceito, uma vez que a construção do selfé processada através da
observação e interpretação, ou avaliação, dum outro com quem se interage,
ressaindo aqui a noção de alteridade social.
Outro pressuposto fundamental no estudo foi o de que, na modernidade reflexiva,
onde os sujeitos tendem a viver projectos identitários individualizados,
criando um paralelo entre o processo reflexivo de mudança e o processo de
individualização (Beck et al., 2000 e 2001), dá-se uma valorização da
subjectividade na construção das identidades; gerando-se muitas vezes tensões e
ambiguidades, os sujeitos evidenciariam uma autonomização e o desejo de
experimentação (portanto, fuga aos padrões dominantes), criando singularidades
num contexto onde se combinam várias tendências.
As dimensões utilizadas para analisar o material empírico, reconhecendo que as
principais categorias/resultados iriam surgir do material qualitativo obtido
através da pesquisa de terreno, foram as seguintes:
a) as representações (expectativas) e as crenças, estas últimas mais
no sentido de estereótipos partilhados por um grupo, associadas aos
papéis e atributos de género e às noções de masculinidade/
feminilidade;
b) as práticas do quotidiano e as interacções sociais, ou seja, os
comportamentos dos sujeitos crianças, pais e professores, nos vários
níveis individual, de grupo e entre grupos, isto em função do género;
c) a simbologia - em estreita ligação com o interaccionismo
simbólico e com os significados inscritos no (e moldados pelo) corpo
-, dimensão onde se poderão destacar aspectos como as
características físicas (rosto, corpo) e psicológicas (atributos de
personalidade), patentes nas escolhas em termos de linguagem,
vestuário, gestualidades, etc., aspectos que contribuem para a
formação da imagem que as crianças têm de si próprias e do outro (do
outrosemelhante do ingroup e do outro diferente do outgroup).
Apesar de as interacções pelas quais se constroem as identidades das crianças
não se processarem unicamente na escola e na família, aí se geram
fusionalidades e hábitos, sendo sociologicamente interessante descortinar,
nomeadamente, as opções por determinados programas televisivos, os usos de
outros veículos de informação regulados pelas próprias crianças, os modelos que
as inspiram, sejam eles observáveis em adultos ou em crianças, a maneira como
se vêem a si próprias e como se projectam no futuro (Montandon, 1997: 145-46).
Estes e outros aspectos constituíram importantes focos de observação na
investigação empírica para a definição dos modos de interacção, das formas de
inserção espacial e social das crianças. No fundo, a imagem que elas próprias e
que os outros têm delas enquanto sujeitos sociais, os gostos5 e as escolhas
pessoais, revelam os meios dos quais as crianças se servem para construírem as
suas identidades e darem sentido aos seus mundos sociais.
Desta forma, privilegiou-se uma abordagem interaccionista, na qual se pressupõe
que as crianças constroem o seu self identitário apenas num contexto de
relações sociais e experiências aí envolvidas, sobressaindo a importância da
comunicação; não obstante, a estrutura de poder vigente num determinado espaço
e tempo condiciona em muito as apropriações por parte dos sujeitos dos
conteúdos de género, sendo necessário o enquadramento dos processos de
socialização no contexto social mais vasto, isto é, na ordem social mais
abrangente, onde estão implicados aspectos económicos, políticos, religiosos,
socioculturais, que caracterizam a sociedade global, o país, ou mesmo a cidade
onde foi realizado o estudo.
Com base no novo paradigma que afirma a infância como construção social, um
produto contingente de tempos e lugares próprios (Pinto e Sarmento, 1997), as
crianças são então percepcionadas como sujeitos activos, produtores de
representações e práticas, sendo o trabalho do etnógrafo o de tradução e
interpretação daquelas. Esta é uma perspectiva que celebra a diversidade que as
crianças representam, por se constituírem como um grupo de sujeitos que têm
estratégias próprias de lidar com o mundo social que percepcionam, podendo
falar-se nos "mundos de vida das crianças" (Pinto e Sarmento, 1997:
21).
Reconhecendo as crianças como actores sociais competentes com uma cultura
específica (Jameset al., 1998) - ou antes culturas, dada a pluralidade
dos sistemas simbólicos das crianças -, a observação participante é
fundamental, a partir do momento em que se pressupõe uma corporalização da
experiência que é culturalmente produzida, contribuindo os comportamentos e as
interacções para a definição dos vários aspectos daquela "experiência
corporizada", não facilmente traduzível "bodily experience"
(idem: 166). O corpo e as diferenças corporais aparecem então como elementos
que dão significado às identidades e, sobretudo na infância, como recurso
decisivo para a construção, desconstrução e reconstrução das identidades,
justamente devido à sua instável materialidade (idem: 156). Assim, valorizam-se
aspectos como o quotidiano vivido pelas crianças, as suas experiências e os
sentidos que lhes são atribuídos, as interacções entre elas e com adultos, para
além de se reconhecer a importância dos contextos onde se movem as crianças-
sujeitos.
Deu-se pois especial relevo ao papel activo das crianças enquanto sujeitos
capazes de negociar os estereótipos e papéis de género que lhes são
transmitidos, ou apenas observáveis, nos vários contextos de socialização e
interacção. Assim, importa perceber a construção doselfdo lado das crianças,
através dos processos básicos de avaliação dos outros e de si próprios, de
imitação social e de experimentação, sendo aqui utilizado este termo no sentido
de as crianças experienciarem actividades ou gostos que se afastam do que seria
o tendencialmente esperado pelos modelos simbólicos de género, em função do
sexo biológico que habitam.
A avaliação configura-se como um mecanismo que estará sempre inscrito nos
processos de construção do self, tendo os estereótipos de género, associados
frequentemente às identidades de género, neles implicados processos como a
auto-avaliação colectiva e a comparação social. A construção identitária tem
pois inerente uma série de processos cognitivos, onde os indivíduos são
elementos (produtos e produtores) de situações sociais e se apresentam como
fontes de avaliação positiva e negativa, estando aqui implícito também o
processo do autofavoritismo de género.
A imitação e a experimentação serão como eixos oscilantes nos processos de
identificação e de identização: a experimentação mais no sentido duma
individualização "rebelde" das identidades, já que através desse
mecanismo a construção identitária tenderá a afastar-se dos padrões
tradicionais e tendências dominantes de género; e a imitação social associada a
uma lógica de oposição de género, uma vez que a diferenciação de género, assim
como outros comportamentos sociais e cognitivos, se aprendem através da
recompensa (positiva e negativa), da observação, da imitação social e da
incorporação dos modelos comportamentais perceptíveis nos adultos e/ou pares.
Para além dos contextos, dimensões e mecanismos focados, há um eixo basilar do
modelo de análise, "tensões, ambiguidades e contradições nos vários
sujeitos interactuantes", que se justifica na medida em que os processos
de construção das identidades de género são permeáveis a uma diversidade de
registos, estando dependentes da forma como os sujeitos vivem e combinam
diferentes mecanismos na construção do seu self identitário; para além disso, a
socialização processa-se num mosaico de contextos de interacção, podendo as
crianças experienciar tensões face à influência dos vários contextos de
socialização.
Poder-se-á falar numa espécie de "hipótese dupla" subjacente aos
processos de construção social das identidades de género nas crianças: por um
lado, processos associados à incorporação do que lhes é transmitido pelos
agentes de socialização; por outro, processos inerentes à tendência de
individualização nas sociedades pós-modernas, que possibilitam uma negociação
dos papéis de género e a emergência de ambiguidades e singularidades na forma
como as identidades de género são construídas e vividas pelos actores sociais.
No estudo de caso com a turma população, uma turma do primeiro ano do segundo
ciclo, foi fundamental a observação participante na "escola-
terreno", uma escola dos segundo e terceiro ciclos do ensino básico do
Agrupamento Grão Vasco de Viseu. O trabalho de campo teve a duração de um ano
lectivo (2006-2007), de forma a acompanhar as crianças do início ao fim do ano
escolar.
Foram realizadas entrevistas às crianças da turma população, aos professores da
turma e aos pais das crianças (ou outros significantes) com quem viviam na
altura do estudo. Da turma população fizeram parte crianças em idade pré-
adolescente (entre os nove e os doze anos), procurando-se com esta selecção
etária um discurso já relativamente estruturado na aplicação das entrevistas,
em torno da percepção do género por parte do entrevistado, quer na sua própria
identidade, quer na dos outros com quem contacta mais frequentemente,
nomeadamente, pais e amigos.
Perspectivas e enfoques
Neste projecto, o género esteve longe de ser entendido como algo fixo, sendo,
ao invés, construído na interacção. O género surge, nesta perspectiva, como
prática social constantemente referenciada ao corpo, e ao corpo que o faz, não
devendo pois ser confundido com a prática social reduzida ao corpo. Assim, o
género existe precisamente no ponto em que a biologia não determina o social. A
prática social, isto é, as interacções, devem ser vistas como criativas, não
existindo porém num vazio; respondem pois a situações particulares e são
geradas no momento em que são definidas as condições das relações sociais.
Quando se fala em masculinidade/feminilidade, nomeiam-se configurações das
práticas de género, tornando-se mais relevante o processo de configuração das
práticas, do que a configuraçãoem si, a qual tem um carácter estático, até pelo
próprio termo (Connell, 1995: 71-72).
Alguns autores apresentam uma crítica relativamente à tendência para um
determinismo cultural que viria substituir o determinismo biológico, do qual se
pretende distanciar qualquer estudo que tenha como pressuposto a construção
socia do género. Autores como Butler (1990: 7-9) argumentam que a perspectiva
de que o género é construído, por oposição a uma visão essencialista que se
pretende combater, poderá implicar um certo determinismo social, ao acharem-se
diminuídas as possibilidades de agência e transformação; no fundo, um
determinismo dos significados de género inscritos nos corpos diferenciados
anatomicamente, entendidos como recipientes passivos; e ainda um determinismo
cultural, na medida em que a distinção sexo/género e a própria categoria de
sexo fariam pressupor uma generalização do corpo que preexiste à aquisição do
seu significado social. Assim, o corpo constituir-se-ia como meio passivo que
toma significado somente através duma inscrição numa fonte cultural externa ao
corpo (Butler, 1990: 129).
Face a este tipo de críticas que poderiam legitimamente surgir, urge esclarecer
que as identidades de género, cujos processosde construção se pretendeu
estudar, não são vistas como necessariamente idênticas intra-género,
persistentes no tempo e no espaço, unificadas e internamente coerentes,
aparecendo aliás o tempo como uma variável intrínseca ao complexo processo de
construção social das identidades, com diferentes fases, por vezes
conflituosas6 Para além de que o corpo é entendido como meio através do qual as
identidades se moldam e constroem, já que se torna um território de
significados onde, portanto, se fundam e se jogam os sentidos e as formas do
masculino e do feminino; no fundo, o habitar um corpo habitado por um sexo é um
traço fundamental nas configurações de género processuais aqui descritas.
A construção do corpo gendrificado: alguns resultados
A partir da análise das entrevistas aos actores, crianças, pais e professores,
e do que se observou no terreno, realça alguma diversidade na coexistência de
mecanismos que propiciam, ora uma diferenciação, ora uma igualização,
revelando-se, a par duma lógica predominante de oposição de género, uma
transversalidade, a partir da interpenetração de atributos (de formas de ser,
de estar, de jogar, de vestir, etc.) tradicionalmente vistos como femininos ou
masculinos.
Família e escola aparecem como contextos sociais onde, entre as crianças-
sujeitos e outros significantes, se processam interacções que contribuem de
forma preponderante para uma diferenciação de género. Realçou que, por muito
que se tenha o ideal de igualdade entre os sexos na esfera doméstica e noutros
domínios do social, tanto pais como professores têm ainda esquemas de género
muito vincados e estereotipados. Predominou pois uma lógica de diferenciação e
oposiçãoingroup/outgroup, para além de se ter revelado uma incorporação (e
reprodução) dos modelos tradicionais de género através da observação e da
habituação, evidenciando-se aqui o peso dos esquemas mentais e das
representações de género que as crianças, num processo de identificação e
incorporação, acabam por aprender e apreender.
No que diz respeito às representações de género (homem/mulher, masculino/
feminino) em contexto familiar, sobressaiu a coexistência da norma de igualdade
entre os sexos/géneros (lógica de igualização de género) com uma lógica de
diferenciação, particularmente em termos de atributos psicológicos e formas de
ser. De facto, a maioria dos pais entrevistados atribui a pessoas de sexos
diferentes personalidades também elas distintas, contribuindo assim para uma
construção de identidades de género estereotipadas. A lógica de igualização
surge num contexto onde maioritariamente se defende a igualdade (de género
também) na cidadania e liberdade de escolha; daí talvez a ideia da autonomia
dos sujeitos expressa pelos pais entrevistados quando questionados quanto aos
objectivos educativos, remetendo para o processo de individualização que
tornaria a "biografia normal" numa "biografia
reflexiva" ou "do-it-yourself biography" (Beck e Beck-
Gernsheim, 2001: 3).
Quanto às interacções dentro e fora do espaço doméstico, pudemos observar que
são dominadas pelo factor género, sendo que, maioritariamente, as afinidades
entre os membros familiares são construídas com base nessa categoria social
naturalizada, o género; para além de as actividades serem frequentemente
associadas mais a um género que a outro, por via dum processo de
estereotipização e reprodução dos modelos tradicionais de género. No entanto,
existem excepções que mostram que habitar um corpo sexualizado deixa espaço
para "manobras " de género, nomeadamente, Paula, que joga ténis com
o irmão e futebol com o primo, patenteando uma transversalidade das
actividades; e Márcia, que joga futebol com a mãe e com a irmã, colocando em
evidência um mecanismo de experimentação, sendo assim esta incentivada pelos
pares familiares.
Ainda relativamente às interacções em casa, especificamente no que toca à
participação no trabalho doméstico, constatou-se que há mais raparigas do que
rapazes, não só a verbalizarem o gosto pelas tarefas domésticas, como também a
praticarem-nas, contribuindo para uma reprodução da desigualdade de género. No
entanto, e comprovando que este tipo de interacções não se circunscreve a um
corpo sexualizado e gendrificado, não contribuindo então unicamente para o
"doing gender", refiram-se as excepções mais notórias de Sérgio,
que ajuda bastante os pais em casa, nas limpezas e refeições, e de João, que
afirma ajudar a avó em várias tarefas e demonstra a vontade de se distanciar do
grupo de rapazes e homens que não partilham as tarefas ("Eu não sou
assim").
Portanto, ao mesmo tempo que as interacções são moldadas pelo factor género,
ajudando à sua reprodução numa lógica de diferenciação, surgem também
interacções que vão desmistificando o binário naturalizado de género.
Confrontadas com os estereótipos e com as representações de género que lhes vão
sendo transmitidas em vários contextos sociais por diversos meios, as crianças
vão contribuindo para o "doing gender", mas, simultaneamente,
mostram indícios de processos no sentido do "undoing gender",
através do cruzamento de papéis, gostos e actividades, que se vão tornando
transversais ou independentes do corpo sexualizado, perdendo peso as
atribuições numa lógica de oposição de género; é neste contexto que se pode
falar numa erosão dos papéis masculinos e femininos, ou seja, num declínio dos
papéis "clássicos" de "homem" e de
"mulher", que se vão misturando e subvertendo mutuamente (Beck et
al., 2000: 170).
No entanto, ainda subsiste o peso do corpo gendrificado, tendo-se notado uma
nítida diferenciação dos papéis de pai e de mãe, quer no processo de
socialização, quer na família, nomeadamente na divisão sexual das tarefas
domésticas e dos cuidados com os filhos. Numa lógica de diferenciação, a
dimensão do cuidar (care) ainda está maioritariamente associada ao género
feminino, sendo que a mãe apoia mais os filhos, conversa mais com eles em casa
e preocupa-se mais com vários aspectos das suas vidas, designadamente, a vida
escolar.
Relativamente à dimensão da simbologia, pode dizer-se que há toda uma série de
elementos relativos à linguagem verbal e não verbal, as gestualidades, o
vestuário e adereços em pais, mães e irmãos das crianças, ou outros
significantes familiares ou não, que vão construindo o universo simbólico de
género das crianças. Tendencialmente, estas irão imitar os modelos
comportamentais e as formas de estar corporalizadas diferenciadas da mãe e do
pai, ou outros sujeitos significantes com quem vivam, enquanto padrões de
"mulher" e de "homem"; no fundo, um conjunto de
significados de género que, verbalizados no discurso das crianças e observados
nos corpos gendrificados que se movimentavam na escola-terreno, deixaram
descortinar a dimensão associada à simbologia, apresentando-se esta como um
forte demarcador de género.
No que diz respeito à escola, poderá dizer-se que, a par de estruturações de
género mais ou menos explícitas ou implícitas que indiciam uma lógica de
diferenciação, revelou-se uma lógica de igualização de género, num contexto de
modernidade onde se valorizam princípios como a igualdade e a diversidade.
Efectivamente, foi possível observar nos actores professores, tal como nos pais
e mães das crianças entrevistados, representações de género acerca do que é ser
homem e mulher; representações que (en)formam o masculino e o feminino,
nitidamente numa lógica de oposição de género. A lógica de diferenciação de
género está também patente na emergência do espaço escolar como uma organização
feminina por excelência, onde são valorizados os códigos de conduta ensinados
no feminino e onde as raparigas, dominando esses códigos, obtêm, em média,
melhores resultados.
Dando conta da relação entre representações, expectativas e práticas, saliente-
se que as interacções entre aluno e professor são moldadas pelas expectativas
dos professores, que por sua vez vão ter consequências na atenção para com os
alunos, nas formas de tratamento, castigos, etc. Para além das representações
sociais e expectativas em torno do género, e das práticas diferenciadas e
diferenciadoras por parte dos actores professores, as interacções no quotidiano
escolar contribuem para a construção das relações de género e para a própria
edificação do que é ser rapaz e rapariga. Dê-se o exemplo dos grupos de pares
na escola que, numa lógica de diferenciação, constroem o feminino e o
masculino, ao emergirem como grupos de género com formas de estar e actividades
distintas. "Rapazes" e "raparigas" surgem como dois
grupos na escola com comportamentos que os professores e as próprias crianças
diferenciam, definindo-se os rapazes em oposição às raparigas e vice-versa. Os
rapazes apareceram como mais indisciplinados e inquietos, notando-se diferenças
também na linguagem verbal e não verbal, ao nível das gestualidades e nas
próprias interacções entre alunos, sendo os grupos de pares nitidamente grupos
de género. Observou-se nomeadamente no espaço circundante, onde passavam o
tempo dos intervalos entre aulas, uma maior aproximação entre crianças do mesmo
sexo, não só na turma população, mas na escola em geral, apresentando-se
frequentemente os rapazes no "cenário" do recreio como actores de
lutas violentas que argumentavam ser a "brincar", apropriando um
papel de "heróis" e recusando qualquer associação com os
"bons rapazes" (Jordan, 1995)7.
Diga-se que a construção das identidades de género em contexto escolar aparece
de algum modo latente, uma vez que não se notou uma transmissão directa de
valores associados aos papéis tradicionais de género, nem uma tentativa de
diferenciação de género nas práticas dos professores. Particularmente, no que
diz respeito às actividades, não se evidenciou a prática explícita de criar
diferenças de género; nomeadamente na disciplina de Educação Física, não se
observou a atribuição de tarefas ou actividades em função do sexo dos alunos.
Assim, não sobressaiu uma intenção declarada de segregar os alunos por sexo,
nem nesta, nem noutras disciplinas, apesar de, quer alunos, quer professores,
nos seus discursos e interacções, revelarem a existência de dois grupos de
género.
Perante o exposto, constata-se que na instituição escolar predomina globalmente
uma lógica de diferenciação de género, mesmo que os reflexos nos mecanismos de
construção das identidades de género das crianças estejam de alguma forma
ocultos e as influências dos professores na edificação das diferenças de género
se configurem como que latentes. Não obstante essa aparente
"invisibilidade ", a oposição entre o grupo dos
"rapazes" e o das "raparigas" evidencia-se de forma
notória nas fusionalidades, na comunicação intra e entre grupos de pares no
contexto escolar, bem como no discurso e nas práticas dos professores, ainda
que estes defendam frequentemente uma lógica de igualização. Saliente-se pois
que o actor professor poderá viver uma certa tensão, entre uma lógica de
diferenciação (onde imperam as representações estereotipadas e toda uma
simbologia de género) e uma de igualização de género e de maior
individualização, que possibilita a aceitação das singularidades e o respeito
pela diversidade.
Portanto, apesar de os actores professores evidenciarem ambiguidades,
observaram-se práticas no sentido do doing gender, quer nas interacções na sala
de aula, quer noutros cenários do contexto escolar - para além da
presença em alguns manuais escolares de imagens e personagens "de
género" -, que contribuem para a estruturação dos universos
simbólicos feminino e masculino nas crianças. Podemos ainda reafirmar a ideia
de que a instituição escolar se constitui como organização feminina e,
consequentemente, o seu próprio funcionamento e os seus códigos nem sempre
visíveis ajudam à reprodução de sistemas de género e à perpetuação duma ordem
binária de género, ainda que com algumas variantes, ambivalências e tensões nos
vários actores.
Quanto às representações de género das crianças, evidenciou-se
predominantemente uma lógica de diferenciação, pela identificação dos atributos
e estereótipos associados a rapazes e a raparigas, assim como nos jogos e
actividades favoritos, apesar de a este nível já se notar uma certa
transversalidade de género em algumas actividades; dê-se o exemplo do futebol
que já não aparece como exclusivamente masculino. De salientar a importância da
informalidade das interacções entre grupos de pares, numa tentativa de
definirem as suas sexualidades e identidades (Connell, 1996).
Na coexistência de mecanismos que levam a uma nítida diferenciação e oposição
de grupos de género - visíveis, quer no discurso das crianças, quer nas
interacções quotidianas observadas na escola-terreno - com outros que
apontam para uma lógica de igualização e transversalidade de género, é possível
verificar a existência de tensões vividas pelos sujeitos. Atente-se no caso de
Márcia que, sendo caracterizada pelos outros (e ela própria assim se cataloga)
como "maria-rapaz", por apresentar gostos e preferências conotadas
com o grupo dos rapazes, poderá experienciar ambiguidades e tensões nas
interacções do quotidiano escolar. Observou-se, nomeadamente, que passa mais
tempo no recreio com as raparigas, grupo ao qual talvez queira pertencer por
percepcionar que há essa tendência dominante de aproximação entre crianças do
mesmo sexo e "dever" ser esse o seu ingroup; ao mesmo tempo, poderá
sentir-se "à margem" do mesmo, por ter gostos não coincidentes,
derivando daí constrangimentos na sua "performance" de género.
As performances de género estarão pois ainda bastante circunscritas ao binário
de género que as crianças patenteiam no seu discurso duma forma naturalizada e
normalizada, uma vez que para a maioria das crianças é "normal" e
"natural" apresentarem certos gostos e preferências pelo facto de
serem "rapazes " ou "raparigas". O auto-favoritismo de
género é um mecanismo que revela bem a lógica predominante de diferenciação e
de oposiçãoingroup/outgroup e que as crianças incorporam sob a égide de uma
ideologia de género dominante; no caso específico de Márcia, essa incorporação
não se dá de forma passiva, nem conforme ao sistema de género, na medida em que
revela uma contestação do binário instituído e do auto-favoritismo associado à
diferenciação de género.
Esta lógica de diferenciação transpareceu igualmente nas fusionalidades entre
as crianças e na comunicação a um nível mais amplo, nomeadamente nos melhores
amigos referenciados nas entrevistas (e observáveis nas interacções no
terreno), nas qualidades privilegiadas nos pares, tendo realçado uma semelhança
entre as raparigas e entre os rapazes entre si. O género influencia pois as
delimitações das fronteiras do ingroup e do outgroup, inclusive em termos de
características associadas a um grupo e a outro, implicando mecanismos e
processos de inclusão e segregação que vão influenciar as relações intra e
intergrupos de género. Portanto, a par de observações que patenteiam uma
transversalidade de género (exemplo de algumas actividades que praticam em
conjunto), predominam interacções e representações (verbalizadas) que apontam
para o doing gender pelas próprias crianças-sujeitos.
Refira-se por exemplo que as raparigas revelaram mais frequentemente atitudes
ternurentas (entre si e com os professores) e os rapazes apareceram como mais
violentos e competitivos. Para além de os actores adultos assim o referirem, as
próprias crianças dão conta destas diferenças entre grupos de género, fazendo
sobressair a oposição entreingroup/outgroup; diferenças igualmente evidenciadas
em vários aspectos observados no terreno, como a linguagem verbal e não verbal,
as gestualidades, o vestuário e adereços, que patenteiam mecanismos de imitação
dentro do grupo de pertença (e de referência) de género e acabam por contribuir
para uma lógica de diferenciação, através da acentuação, quer das similitudes
intra-grupo, quer das diferenças inter-grupos de género. Portanto, os regimes
de género da escola contribuem para o reforço duma dicotomia de género, assim
como os alunos constroem activamente nesse contexto múltiplas formas de
masculinidade( s) e feminilidade(s), enfatizando as relações heterossexuais e
criando hierarquias de género (Connell, 1996).
Ainda relativamente à dimensão da simbologia, poderão referir-se os projectos
para o futuro, destacando-se a valorização da constituição de família por parte
das raparigas nos seus desejos para a vida afectiva, contrastando com a
indiferença neste campo exteriorizada pelos rapazes. Também a este nível houve
excepções, tendo sobressaído Paula, afirmando que não se quer casar, mas que
nos remete para o problema da conciliação entre a vida familiar e profissional:
"(…) depois custa (…) Se tiver filhos (…) prendia-me no trabalho
(…)"; problema que nenhum dos rapazes coloca, o que demonstra uma
desigualdade de género ao nível de projectos para a vida adulta e dos problemas
que se colocam, apenas no feminino, naquela conciliação. Ainda assim, podemos
neste contexto, e dando conta da maior diversidade de padrões na construção
social das identidades de género nas raparigas, questionar-nos se estas não
terão mais espaço do que os rapazes para uma individualização dos seus
projectos identitários, ainda que possam viver tensões na experimentação das
suas opções e preferências, verbalizadas e/ou vividas. Poderão pois existir
maiores sanções sobre o menino que é efeminado ("maricas" ou
"sissy") do que sobre a rapariga arrapazada ("maria-
rapaz" ou "tomboy"), sendo alvo de ridicularização e
marginalização os rapazes que fogem da imagem de masculinidade hegemónica
associada à agressividade; neste contexto, sentirão a necessidade de reprodução
dos códigos de género dominantes, quer no recreio, quer na sala de aula
(Connell, 1996).
Conclusões do estudo e reflexões em torno do corpo que faz e desfaz o(s) género
(s)
Na diversidade de processos e lógicas de construção identitária, há então
representações e práticas que anunciam tendências para o "doing
gender", mas também para o "undoing gender". Constatou-se que
os mecanismos se encontram mais ou menos presentes em cada uma das lógicas de
construção identitária e estas, por sua vez, estarão conjugadas em cada
criança-sujeito nos processos de identificação e identização; de igual forma se
revelaram nos adultos, nas suas representações, discursos e práticas.
O mecanismo da avaliação estará sempre presente em qualquer lógica de
construção identitária; particularmente na lógica de diferenciação de género,
mas simultaneamente em lógicas de maior autonomia e transversalidade de género.
Dê-se o exemplo de Márcia que, ao se avaliar e auto categorizar como
"maria-rapaz", revela a incorporação duma lógica de oposição de
género, ao mesmo tempo que a contesta, vivendo ambiguidades na experimentação
de algo que foge aos padrões definidos pelo binário naturalizado e normalizado
de género. Um mecanismo que poderá também surgir em várias lógicas é o
mecanismo da imitação; não só na tendência de diferenciação de género, como
também numa lógica de construção identitária (de género) que contribui
largamente para essa diferenciação, a de incorporação dos modelos tradicionais
de género. Nas lógicas mais autónomas onde emergem singularidades nas
identidades de género, podemos observar o mecanismo de experimentação, que
possibilita uma maior transversalidade de género, não deixando porém de estar
aqui implícita uma avaliação dos outros e do que se pode ou não fazer,
associada à percepção de como se vai ser avaliado em função de determinada
escolha. Podemos questionar-nos se estes mecanismos de experimentação são
minoritários nos sujeitos crianças da turma população; portanto, se os
processos com lógicas associadas no sentido duma identização terão ou não uma
fraca expressão na construção das identidades de género destas crianças e,
portanto, a liberdade e autonomia do projecto identitário em termos de género
não estarão limitadas a um corpo habitado por um sexo que nos determina e que
circunscreve a acção ao corpo (moldável, mas também sexualizado) que habitamos.
A partir da coexistência das várias lógicas geram-se tensões, como a tensão na
negociação dos papéis e estereótipos de género (entre o constrangimento da
incorporação nos contextos familiar e escolar e a individualidade na construção
duma "identidade para si"), ou a tensão entre o corpo sexualizado e
as aspirações inscritas na construção doself. Geram-se também ambivalências nos
vários actores, uma vez que, a par duma lógica de "igualização" de
género, manifestaram nos seus discursos estereótipos de género associados a
representações sobre o masculino e o feminino, revelando assim uma discrepância
entre o "dever ser" (frequentemente associado a questões de
visibilidade social) e as atitudes e práticas reveladoras de esquemas de género
ainda muito baseados nas categorias naturalizadas "homem" e
"mulher".
Num segundo momento, temos a discussão acerca do contexto actual de modernidade
reflexiva e de individualização, um dos pressupostos teóricos do modelo de
análise. Num contexto de modernidade reflexiva igualitária, sobressai o direito
à diferença, tendo o indivíduo a possibilidade de ser diferente e único sem que
isso signifique ser "desviante"; assim, perante a aceitação da
diversidade e da singularidade, emerge o imperativo da igualdade de género. É
neste contexto de modernidade reflexiva que os actores experienciam tensões e
lidam com uma ambivalência entre uma lógica mais igualitária e de
transversalidade e outra em que prevalecem os modelos tradicionais de género,
os quais são transmitidos em contextos sociais como a escola e a família. Nas
instituições sociais em que interagem, as crianças poderão pois ser levadas a
imitar os comportamentos dos adultos e das suas formas de estar, em função da
categoria sexual a que correspondem (ou que lhes foi atribuída à nascença) e do
grupo de género em que se querem incluir; porém, surge cada vez mais o direito
à singularidade e diferença intra-género e o reconhecimento de que as
categorias sociais não são homogéneas.
O corpo do sujeito, enquanto produto e produtor de práticas sócias, constitui-
se então como local de produção e reprodução do(s) género(s), na medida em que
corporaliza experiências - relembre-se aqui a dialéctica entre os
processos de exteriorização, objectivação e interiorização na socialização
(Berger e Luckmann, 1998) -, mas também dá sentidos particulares às suas
práticas. O sujeito na modernidade ambígua, ao habitar um corpo sexualizado,
tenderá a corporalizar a ideologia de género dominante, ou poderá imbuir de
significados individuais o projecto identitário de forma reflexiva. Com base no
pressuposto do corpo como projecto e como expressão da identidade individual, o
sujeito age e faz o género através do corpo nas suas configurações distintas e
autónomas; o sentido do self é pois entendido reflexivamente como parte de uma
biografia incorporada (Giddens, 2001; Shilling, 2003).
Outra questão importante na investigação é o balanço entre o eixo individual,
das interacções, e o institucional, mais estrutural. Concluiu-se, tal como a
perspectiva interaccionista que serve de base a este trabalho fazia prever, que
as identidades se produzem pelas interacções, sobressaindo também o peso da
estruturação das categorias sociais que se (re)produzem nos vários contextos
sociais.
Temos então o doing gender (West e Zimmerman, 1991) a reforçar a importância
das interacções sociais, enfraquecendo as perspectivas determinísticas e
estruturais em torno do género que enfatizam o poder das instituições na
socialização; e, associado àquele, o undoing gender (Butler, 2004; Deutsch,
2007), já que a própria perspectiva do "doing gender" implica que o
género, se pode ser construído, também pode ser desconstruído, através do
potencial da acção humana. Neste contexto, emerge a questão: como podemos
"desfazer" o género ("undo gender")? A autora feminista
menciona, como passos para o undoing gender, as interacções menos gendrificadas
e uma coordenação entre os níveis institucional e individual; do seu ponto de
vista, só aquelas poderiam contribuir para a produção de mudanças ao nível da
(des)construção do género; a autora vê portanto a interacção como o
"local" da mudança.
Saliente-se como nota final que as masculinidades e as feminilidades não
existem previamente ao comportamento social, como estados de corpo ou
personalidades fixas; apenas existem na medida em que os indivíduos as fazem
(doing gender) e constroem activamente nas suas práticas sociais quotidianas
(Connel, 1996). O(s) género(s) não é pois uma entidade biológica que existe
antes da sociedade; constitui-se precisamente nas formas através das quais as
sociedades (e os sujeitos sociais) interpretam e usam os corpos.