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Representação em texto

EuPTHUHu0874-55602010000100008

variedadeEu
ano2010
fonteScielo

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O Cuidado Como Ser e o Cuidado Como Agir

Uma leitura dos textos de Maria de Lourdes Pintasilgo, sobretudo das suas comunicações, ao leitor ou leitora a clara evidência de que esta mulher política lia textos de filósofos e filósofas, apropriando-se das suas concepções e transpondo-as para tematizar aquilo que ela mais tratou ao longo da sua vida: o agir político, que mais não é que um agir sobre o equilíbrio social, que se poderia igualmente traduzir, como ela mesma designou, por «engenharia do social». Nos seus textos podemos ver referidos nomes como: Hannah Arendt, Michel Foucault, Emmanuel Lévinas, Hans Jonas, Martin Heidegger, entre outros. Esta sua leitura de Filosofia é curiosa! Aliás, num dos seus discursos sobre os pressupostos da governação defende que a filosofia é, a par com a ciência, uma das componentes da política. Para ela, a filosofia é importante na medida em que «é estruturante da acção e confere às questões com que a política se confronta os critérios de pensamento capazes de fundamentar prioridades e de aferir a bondade dos métodos.» (MLP, 2002-2003: 0190.002: 2).

Nesta sua apropriação de algumas noções da filosofia, uma das noções que tomou maior destaque foi a de cuidado/cuidar.

O texto que aqui apresento é a expressão da fase inicial da investigação sobre algumas das raízes filosóficas do pensamento social e político de Maria de Lourdes Pintasilgo. Incidirei, em particular, sobre a noção de cuidado, estruturando o texto em duas partes: a primeira será uma breve explicitação da noção de cuidado em Martin Heidegger (o cuidado como estrutura do Ser de cada ser humano) e a segunda parte será a explicitação do modo como Maria de Lourdes Pintasilgo tratou esta noção de Heidegger e como a introduziu nos seus âmbitos de tematização: o social e o político. Para o estudo da noção de cuidado em Heidegger foi tida como obra base Ser e Tempo e para Maria de Lourdes Pintasilgo foram estudadas, particularmente, as suas comunicações em Portugal, que constam do arquivo dos seus documentos, disponível pelo arquivo online da Fundação «Cuidar o Futuro».

Primeira Parte ' O cuidado como Ser No seu projecto de implementação de uma Ontologia Fundamental, despertando a necessidade de retomar o estudo do Ser, Heidegger descreve a dimensão existencial e temporal do ente no qual o Ser se manifesta ' o Dasein (o ser humano). Nesta escuta e compreensão do modo de ser do Dasein, Heidegger coloca o cuidado como elemento central. Diz ele que o cuidado é «a totalidade originária do ser do Dasein» (Heidegger, 1927: 205). Significa isto que o cuidado é a estrutura articulada dos vários elementos constitutivos do Dasein.

Deste modo, Heidegger considerou o cuidado como a estrutura ontológica do ser humano, isto é, uma estrutura que lhe é própria, inerente, e não uma estrutura aprendida, por exemplo, pela socialização (que seria, portanto, ôntica e não ontológica). Deste modo, o cuidado é o modo de ser mais próprio e originário do ser humano.

Mas como entender este «cuidado»? O que significa? Cuidado significa preocupação e dedicação, ocupação e solicitude.

E, por outro lado, cuidado com o quê e para quem? Cuidado para outrem, pensando numa perspectiva ética do cuidar? Não! Heidegger não teve como propósito elaborar uma Ética. O seu projecto foi o de uma Ontologia. Contudo, o cuidar é um cuidar dos outros porque existir é, desde logo, existir com os outros. Assim, apesar deste «cuidar» não se inscrever originariamente no âmbito ético, o agir ético deve o seu fundamento ao cuidar, entendido este como preocupação, assistência, auxílio e atenção ao outro.

Por ser o estar-no-mundo essencialmente cuidado, nas análises precedentes foi possível conceber como ocupação (besorgen) o estar à beira do ente à mão, e como solicitude (fürsorge) o estar com os outros, enquanto coexistência que comparece no mundo (Heidegger, 1927: 214).

Mas vejamos melhor como entender esta dimensão do cuidado no Dasein, «» (humano) do Ser.

Para Heidegger o cuidado é o modo de ser do Dasein, uma forma de ser que consiste em compreender-se a si mesmo como lançado no mundo e, portanto, responsável pelo seu advir, ou seja, pelo cumprimento das suas possibilidades de ser. Subjaz, aqui, a compreensão de que o ser humano é um ente inacabado, um projecto que se orienta para o futuro, dimensão temporal de abertura às suas possibilidades de ser onde o cuidado é fundamental.

A perfectio do homem ' o chegar a ser isso que ele pode ser no seu ser livre para as suas mais próprias possibilidades (no projecto) ' é obra do cuidado. Mas o cuidado determina também com igual originalidade a índole radical deste ente, segundo a qual está entregue ao mundo do qual se ocupa (condição de lançado) (Heidegger, 1927: 220).

Assim se compreende o Dasein a si mesmo como abertura ao sendo, mas que ainda falta cumprir, sabendo que irá sempre partir da sua condição de situado no mundo. Estar-no-mundo é, então, a condição existencial do Dasein. Contudo, este estar-no-mundo, esclarece Heidegger, é um estar-com, um ser-com os outros entes do mundo. Diz Heidegger que «a totalidade de ser do Dasein como cuidado quer dizer antecipar-se-a-si-estando-já-em (no mundo) e à beira de (os entes que vêm ao encontro dentro do mundo) (Heidegger, 1927: 344).

Aqui abre-se a perspectiva de uma interpretação ética da ontologia heideggeriana, ainda que, repito, não tenha sido esta a intenção de Heidegger.

Ainda assim, não é possível deixar de notar que toda a constituição do Dasein, tendo o cuidado como base, nos pode induzir a pensar numa ética. Senão vejamos: elemento fundamental no Dasein é a consciência. Esta é entendida por Heidegger não estritamente como a «consciência» [Bewusstsein] da fenomenologia, isto é, uma consciência intencional orientada para o conhecimento do fenómeno (aquilo que , que é dado ao sujeito), mas sim uma con-sciência [Gewissen] que é responsável pela «condução» do si mesmo do ser humano a cumprir as suas possibilidades futuras. Esta consciência é, então, abertura e apelo, uma vez que o Dasein é um ente inacabado, orientado para o por-vir do cumprir-se de si mesmo. A constatação de estar-no-mundo com a chamada da consciência para se tornar naquilo que é, escutando o Ser que habita em si, torna esta existência em angústia. Esta dimensão afectiva do Dasein caracteriza a sua situação existencial de estar-no-mundo. Diz Heidegger que esta «entrega do Dasein a si mesmo mostra-se originária e concretamente na angústia.» (Heidegger, 1927: 214). A consciência não é, então, uma pura racionalidade, mas sim afectividade ' sentir aquilo que lhe é mais próprio. É um sentir-se situado, percebendo que tem a responsabilidade de se tornar si mesmo ou não, de se cumprir ou não, optando pela autenticidade ou pela inautenticidade, respectivamente. Aqui a escuta do Ser que se manifesta em si mesmo é fundamental. A relação do Dasein com o Ser é, exactamente, a escuta através da consciência. Diz Heidegger que «assim mesmo deixamos claro que, na chamada da consciência, o cuidado intima o Dasein ao seu poder-ser mais próprio».

(Heidegger, 1927: 335).

Deste modo, o Dasein é um ente em mutação, um «vir a ser» do qual ele é o responsável (cabe-lhe a si escutar e compreender o Ser que nele se manifesta).

O por-vir marca a abertura temporal à possibilidade de mudança de si mesmo.

Enquanto abertura, é um ente inacabado e enquanto inacabado, é um poder-ser.

Isto é, o Dasein é aquele que, não estando definido no presente, se lança nas possibilidades do futuro, as quais é ele quem as escolherá e cumprirá. Este carácter de abertura que o Dasein possui implica que a sua derradeira responsabilidade seja a de ser si mesmo. Deste modo, cabe-lhe decidir-se a ser si mesmo.

A responsabilidade está, assim, presente nesta tarefa futura, na medida em que o Dasein pode cumprir o seu Ser, ou não. A liberdade está, aqui, patente e, com ela, a angústia de se decidir a ser. Como vimos, estar-no-mundo é estar-com (os outros entes), o que coloca ao Dasein a obrigação de atender à «chamada da consciência», que mais não é que a chamada do Ser. A liberdade e responsabilidade inerentes ao Dasein colocam este como ente aberto e inacabado, projectando-se em cada momento no por-vir.

A noção de cuidado tem, pois, uma dimensão temporal, sendo fundamental na compreensão deste ente inacabado que é o ser humano, sobretudo no sentido em que o cuidado é o seu constituinte fundamental e estruturador. Assim, o cuidado é o modo de existir no mundo, com os «olhos» postos no futuro, ou seja, virando-se para aquilo que ainda não é, mas que pode ser e para cujo encontro o próprio ser humano está impelido. Esta é a concepção de um modo de existir particular, o modo de ser do ser humano, que é cuidado:

O ser do Dasein é o cuidado. O cuidado compreende facticidade (condição de lançado), existência (projecto) e queda. Sendo, o Dasein é uma existência lançada, não se colocou a si mesmo no seu . Sendo, está determinado como um poder-ser que se pertence a si mesmo e que, contudo, não se deu ele mesmo em propriedade a si mesmo (Heidegger, 1927: 303

Segunda Parte ' O cuidado como agir Estrutura ontológica apriorístico-existencial do ser humano, o cuidado é o modo próprio do ser humano, defende Heidegger. Maria de Lourdes Pintasilgo, não tendo as mesmas pretensões de Heidegger de empreender uma Ontologia, mas sim a aspiração de empreender uma Ética, aponta o cuidado como o modo mais humano de ser, tal como Heidegger o concebeu. Contudo, o cuidado deve ser entendido, em Maria de Lourdes Pintasilgo, como modo de ser, o que é o mesmo que dizer modo de agir. Ser pessoa é, para ela, ser-com-os-outros, uma relação necessária, à qual é impossível escapar e que obriga à definição de valores e modos de agir, onde o cuidado tem o papel central.

Para se compreender o contexto no qual Maria de Lourdes Pintasilgo faz emergir o cuidado como modo de agir/ser com os outros é preciso explicitar o seu próprio pensamento.

Mulher a braços com os problemas sociais da sua época, ela foi dona de uma capacidade crítica e discernimento das situações como poucos. Sempre de um modo muito claro, Maria de Lourdes Pintasilgo iniciava as suas comunicações com o diagnóstico da época actual, que ela descreveu como sendo a época do tecnicismo, onde o desenvolvimento da técnica conduziu ao individualismo, à competição e à criação dos paradigmas do progresso ilimitado e da previsibilidade do futuro. Diz ela que o final do século XX e início do século XXI é a época do desvanecimento de algumas certezas, sobretudo a de que a natureza não tem uma capacidade infinita de restabelecimento. É nesta altura que a humanidade toma consciência de que o desequilíbrio da natureza conduzirá a dificuldades de sobrevivência para o ser humano. É a tomada de consciência de que o ser humano não pode tudo. Assim, diz ela, este é um momento de transição, um momento de mudança de paradigmas:

• Do paradigma da previsibilidade passamos para o paradigma da imprevisibilidade.

• Do paradigma dos direitos passamos para o paradigma dos direitos na sua relação directa e necessária com os deveres e responsabilidade.

• Do paradigma da quantidade passamos para o paradigma da qualidade.

• Em suma, do paradigma do desenvolvimento passamos para o paradigma da qualidade de vida.

Esta é a época, como disse Heidegger, do esquecimento do Ser ou, como disse Maria de Lourdes Pintasilgo, do esquecimento do humano. A queda destes paradigmas e, com eles, a quebra de confiança nas capacidades interventivas e dominadoras do ser humano, bem como o surgimento da natureza como elemento moral, revela que o ser humano, afinal, é vulnerável. Se é frágil tem de ser cuidado, tem de ser alvo de uma preocupação, de um «prestar atenção». É exactamente nestas duas acepções que Maria de Lourdes Pintasilgo entende o cuidado heideggeriano: ele é «preocupar-se com e por» e «prestar atenção a».

A vida humana é, para ela, ser-com-os-outros-no-mundo (questão ôntico- existencial que Heidegger também analisou, como foi visto). Este ser-com-os- outros compele cada um ao cuidado dos outros, esses outros com quem se vive no mundo. Assim, diz, a condição de ser pessoa é ser-para-o-outro, modo de ser que mais não é do que cuidado. Para cumprir, na plenitude, esta condição de ser pessoa é necessário agir cuidando do outro, numa relação de reciprocidade: «os outros são, para mim, outros; mas eu sou, igualmente, um outro para eles». A interdependência é, assim, constitutiva do ser humano e fundamental para a acção conjunta que a época da técnica exige.

O cuidado pelo outro reflecte pensamentos e emoções simples: torna os humanos capazes de velar pela Natureza, de se interessarem activamente uns pelos outros e de manterem a sociedade coesa. É o cuidado pelos outros que motiva atitudes e acções que mostram a sua interdependência, assim como a das suas comunidades e nações: ninguém está isolado, mas sim consciente de uma fundamental alteridade (Pintasilgo, (s/d): 0208.002: 30).

A acção humana deve, assim, pautar-se pela actividade do cuidado. O cuidar é entendido, por Maria de Lourdes Pintasilgo, como agir, como prática, como dever primeiro e último da governação onde, diz, «é a pessoa humana a primeira e última finalidade de toda a decisão política.» (MLP, (s/d): 0209.026: 6). Sem o cuidado não haverá constatação da existência do outro, não haverá sentimentos, não haverá diálogo e, logo, não haverá política social. O cuidado é, em suma, a base de todo o relacionamento humano. É imprescindível, pois o ser do ser humano é ser-com-os-outros (tal como Heidegger havia colocado):

Para que a política social seja efectiva, precisamos de um sistema de valores centrado no cuidado pelos outros. ( ) A ausência do cuidado pelos outros manifesta-se através da indiferença, da visão a curto prazo, da negligência (Pintasilgo, (s/d): 0208.002: 29).

O cuidado é definido por Heidegger como a estrutura mais originária do ser humano, na sua situação existencial de estar-no-mundo e estar-com. Assim sendo, é uma característica que o define enquanto tal. Estamos no domínio do estudo do Ser que se deixa aparecer no ser humano, nesta sua situação de existente no mundo, realidade histórico-temporal. Em Maria de Lourdes Pintasilgo o cuidado é, também, elemento constitutivo do ser humano, fazendo parte da sua condição de pessoa que é, de igual modo, estar-no-mundo e de estar-com. Para ela, o cuidado deve ser o motor da acção, da vontade, do agir, tendo como fim a dignidade humana de todos num mundo global que, como tal, deve construir uma ética global. Esta construção de uma ética global constitui-se como um desafio que enfrentará, necessariamente, dificuldades. E Maria de Lourdes Pintasilgo identifica-as:

, sem dúvida, muitos obstáculos ' entre eles os defeitos tipicamente humanos de miopia, orgulho e inércia. É urgente e necessário um novo estado de espírito, a rejeição de uma vida centrada no eu. O mundo não gira à nossa volta. Precisamos de uma ética envolvente de cuidado pelos nossos companheiros de humanidade e pela nossa casa comum (Pintasilgo, (s/d): 0208.002: 31).

Numa época (que é a nossa) em que estão ultrapassados os anteriores paradigmas, Maria de Lourdes Pintasilgo assegurou que um novo paradigma se impõe: cuidar o futuro.


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