Maria de Lourdes Pintasilgo Primeira-Ministra do V Governo Constitucional. Em
busca das reacções na imprensa
Aparentemente, as coisas existem consoante os jornais falam delas.
Augusto Abelaira (1979: 9)
Origem e sentido do texto
Este texto emerge de uma selecção dos textos jornalísticos que perfazem o
corpus referente à dissertação, «Maria de Lourdes Pintasilgo Primeira-
ministra do V Governo Constitucional. O olhar da imprensa: dois semanários,
duas perspectivas», inserida no curso de mestrado "Questões de Género e
Educação para a Cidadania", da Universidade de Évora, durante o biénio de 2007/
09.
O recurso metodológico do suporte empírico de investigação do referido trabalho
assenta na Análise Crítica do Discurso, a cuja luz foi examinado o corpus
seleccionado dos Semanários: O Jornal, com tiragem à sexta-feira, e o Expresso,
com tiragem ao sábado. A opção por centrar a dissertação nestes dois Semanários
foi feita no desenvolvimento do percurso do trabalho e assentou em algumas
razões estruturais, nomeadamente, no facto de, por um lado, ambos serem
semanários, o que à partida poderá possibilitar uma leitura menos imediatista,
menos repentina dos acontecimentos e, por isso, facultar textos com cariz
interpretativo e opinativo, e, por outro, serem entendidos como jornais de
referência, mas que seguiam linhas editoriais divergentes.
Embora o mandato do Executivo de Maria de Lourdes Pintasilgo tenha tido início
em Julho de 1979 e terminado em Janeiro de 1980 «A marcha dos cem dias», como
ela a cunhou o processo de pesquisa dos Semanários levou à definição de um
recorte temporal deste corpus abrangendo, exclusivamente, os cinco fins-de-
semana, de 13 de Julho a 11 de Agosto de 1979.
A data de 13 de Julho justifica-se uma vez que foi nesse dia que o Presidente
da República, General Ramalho Eanes, anunciou a sua decisão de marcação de
eleições legislativas intercalares, de dissolução da Assembleia da República e
de nomeação de uma personalidade que assumisse a chefia de um executivo
ministerial, com o objectivo central de preparar o processo das eleições
intercalares, a par naturalmente dos assuntos decorrentes da gestão
governamental.
A justificação de 11 de Agosto para encerrar este corte temporal prende-se com
o facto de ser ao longo destes cinco fins-de-semana que se observa um maior
número de textos jornalísticos dedicados exclusivamente à apresentação e
descrição da pessoa de Maria de Lourdes Pintasilgo. Na verdade, observou-se uma
grande produção jornalística focalizada na sua figura, essencialmente, nos dois
fins-de-semana imediatamente subsequentes ao conhecimento público da sua
escolha para Primeira-ministra. Passada esta primeira fase, nota-se uma menor
atenção à pessoa de Maria de Lourdes Pintasilgo e um desvio da atenção para
assuntos políticos, nem sempre directa ou indirectamente associados à sua
figura, até porque o interesse dos partidos políticos e a generalidade do
acompanhamento jornalístico passa a centrar-se na campanha eleitoral, para as
próximas eleições.
O texto que aqui se apresenta constitui, apenas, uma exposição introdutória da
análise da totalidade dos materiais, pretendendo pôr em evidências algumas
linhas de força dessa análise. Nesse sentido, far-se-á, primeiro, uma descrição
analítica do conteúdo dos jornais e, na sequência, chamar-se-á a atenção para
algumas questões emergentes dessa descrição que se procurará acompanhar com
alguns comentários críticos. Uma pequena conclusão ensaiará uma visão de
síntese.
Enquadramento da indigitação de Maria de Lourdes Pintasilgo para «Primeiro-
ministro»
O governo de Maria de Lourdes Pintasilgo enquadra-se num contexto de crise
política e na tentativa de a resolver.
O Presidente da República, General Ramalho Eanes, indigitou uma figura por si
escolhida, Nobre da Costa, para assumir o cargo de Primeiro-ministro, na
sequência da falta de acordos parlamentares, que em última instância, levaram à
queda dos I e II Governos Constitucionais, liderados pelo então secretário-
geral do Partido Socialista, Mário Soares. Contudo, Nobre da Costa não
conseguiu obter o apoio partidário necessário à aprovação do seu Programa, que
acabou por ser rejeitado na Assembleia da República, sendo afastado do cargo de
Primeiro-ministro do III Governo Constitucional.
Na sequência, Ramalho Eanes designa Mota Pinto para liderar um novo Executivo
que, de igual modo, viu rejeitada na Assembleia da República, não o seu
Programa, mas uma moção de confiança. Terminava assim o IV Governo
Constitucional.
Foi neste quadro que, a 13 de Julho de 1979, o Presidente da República
transmite ao país, numa comunicação televisiva, a sua decisão de dissolver a
Assembleia da República, de marcar eleições legislativas intercalares e de
indigitar uma personalidade para o cargo de Primeiro-ministro com o objectivo
primordial de preparar esse mesmo acto eleitoral.
A figura escolhida pelo General Ramalho Eanes foi Maria de Lourdes Pintasilgo.
O semanário O Jornal, na sua edição de sexta-feira, 13 de Julho, consegue
apenas uma chamada de atenção, na zona de notícias de última hora, para a
comunicação que o Presidente da República faria nessa noite:
Figura 1
Por sua vez, O Expresso, na sua edição de 14 de Julho, consegue trazer para 1.ª
Página os tópicos essenciais do conteúdo da comunicação presidencial:
Figura 2
______________________________________________________________________________
|«Em comunicação ontem feita ao país, [13 Julho, 21 horas] o Presidente da |
|República, General Ramalho Eanes, informou que irá dissolver a Assembleia da|
|República, formando, no entanto, antes da dissolução um novo Governo, isent|
|parcial e não partidário, para gerir os assuntos correntes do Estado durante|
|os próximos três meses, Governo este cujo «Programa» será submetido à pr|sente
|Assembleia da República. Esperando o Presidente que ela o não venha a |
|inviabilizar (a este compasso de espera já chamam alguns observadores |
|dissolução_'au_ralenti')»._______________________________________________|
Antes, ainda, de ser público o nome da personalidade que haveria de aceitar tal
mandato, o Expresso lançava a questão sobre quem poderia vir a representar a
escolha do Presidente da República, General Ramalho Eanes:
Figura 3
O nome de Maria de Lourdes Pintasilgo é, entre outros, mencionado, tal como se
pode ler na 1.ª Página: «Maria de Lurdes Pintassilgo, Barbosa de Melo e Jacinto
Nunes são os três nomes mais insistentemente falados para o cargo de primeiro-
ministro (...)».
De acordo com o que noticia o Expresso, qualquer dos três nomes não acarretaria
uma recusa explícita, por parte dos partidos da esquerda. Sobre a perspectiva
dos partidos da direita face a estes nomes, nada é noticiado. O nome de Maria
de Lurdes Pintassilgo surge logo ligado à classificação de «Melo-antunista»
abrindo espaço a leituras menos pacíficas oriundas dessa área política, e para
cuja perspectiva não seria propriamente uma vitória política a escolha de uma
figura próxima do «sector Melo-antunista», como se confirma nesta curta
citação:
(...) Sobretudo Maria de Lurdes Pintassilgo poderia suscitar uma
«ponte» no Conselho da Revolução com o chamado «sector Melo-
antunista» não suscitando também objecções do PS e do PCP. Qualquer
dos outros nomes não teria oposição provável de socialistas e
comunistas.
Deste modo, o Expresso faz aparecer, explicitamente, o nome de Maria de
Pintasilgo como alguém que se encontra dentro da concordância da política
portuguesa de esquerda, e, pela omissão, permite configurar a ideia de que a
política portuguesa de direita estará ausente desta concordância.
Na semana seguinte, a 19 de Julho, fica-se a saber quem é a personalidade
escolhida por Ramalho Eanes para liderar o novo Executivo até às eleições
legislativas intercalares.
Descrição analítica dos 4 conjuntos dos Semanários em análise
Nesta segunda parte do texto, vai-se proceder à apresentação de todos os
conteúdos de ambos os Semanários em análise que se referem, directamente, à
figura de Maria de Lourdes Pintasilgo. Ter-se-á, por isso, em consideração,
quer as peças jornalísticas integralmente dedicadas à Chefe do V Governo, quer
as que, não sendo sobre ela, lhe dedicam, contudo, alguma observação.
A apresentação vai ser feita de acordo com os seguintes parâmetros:
1. Com uma perspectiva comparativa, pelo que as informações serão
apresentadas em tabelas que fornecerão uma visão de cada uma das
peças analisadas;
2. Com destaque para as primeiras páginas (de O Jornal, do Expresso e
da respectiva Revista), pelo que se apresentarão duas tabelas: uma
para as primeiras páginas e outra para o restante corpo dos
periódicos:
3. Agrupando os jornais por semana, pelo que serão apresentados
quatro conjuntos de tabelas, duas por cada semana;
4. Destacando, na informação citada, os seguintes dados: a) título da
peça jornalística; b) autoria do texto; c) localização; d) síntese do
conteúdo e algumas citações consideradas mais relevantes ou mais
esclarecedoras.
20 e 21 de Julho 1.ª Página
O Jornal(20 Julho) Expresso (21 Julho) Expresso-revista
Figura 4 Figura 5 Figura 6
Dedica dois terços do total da página a foto de Maria de Lourdes Pintasilgo,No primeiro terço na zona central, destaca-se o título, Muitos membros do Governo Capa com foto de Maria de Lourdes Pintasilgo e os títulos:
com o antetítulo, A primeira (grande) entrevista do novo chefe do Governo e ocessante poem[sic]sérias reticências à aceitação de convites para o V Governo O GOVERNO DOS 100 (ou mais?) DIAS E O SEU PRIMEIRO-MINISTRO Porque terá
título citação em destaque Lurdes Pintasilgo: «Quero dialogar com o povo»constitucional. O respectivo texto desta notícia encontra-se completo na primeira Eanes escolhido PINTASSILGO?
página e onde se pode ler:
As alegadas reticências de membros do Governo cessante em integrar o Governo de acompanhada do texto introdutório: Para uns, é a decisão mais enigmática de
Maria de Lourdes Pintasilgo, assim como, as reacções de perplexidade quevários Ramalho Eanes. Para outros, é a confirmação de uma estratégia presidencial de
membros do Governo tiveram em pleno Conselho de Ministros: Alguns deles, (...) não desertificação progressiva da vida política portuguesa. Para outros ainda, é a
se coibiram mesmo de, em voz alta, afirmarem aos colegas junto dos quais se prova do perigoso isolamento de um presidente que já se vê obrigado a recorrer
sentavam que não alinhariam num Governo presidido por Lourdes Pintassilgo. aos amigos e só a eles. (...)
Maria de Lourdes Pintassilgo (...) conta ainda com o clima favorável de Belém,
apesar de todos os acessores[sic]do Presidente (com excepção de Silva Costa,
ausente) se terem pronunciado desfavoravelmente à sua indigitação para primeiro-
ministro.
O entendimento próximo de Ramalho Eanes com Maria de Lourdes Pintasilgo visto
como «uma preocupação (...) nesta fase de constituição de Governo e revelador d
empenho posto pelo general Ramalho Eanes naquele que poderá vir a ser o V Governo
Constitucional e III de inspiração presidencial.
Coluna de texto com foto de MLP e os títulos:PORQUÊ PARA QUÊ? O GOVERNO DOS 100 (
mais) DIAS E O SEU PRIMEIRO-MINISTRO Porque terá Eanes escolhido PINTASSILGO?
Dúvidas quanto ao Executivo antes e depois da discussão do Programa na AR HISTÓRIA
BREVE DE UMA INTELIGÊNCIA (PERIGOSA?)
Do «Graal» à UNESCO
De Marcello Caetano a Eanes
Coluna de texto sem foto 3 PERGUNTAS A M. LOURDES PINTASSILGO
O título citação: Diferença de Governo traduzirá diferença de personalidades.
frase introdutória: MARIA DE LOURDES PINTASSILGO está, por motivos vários, na ordem
do dia.
Outras referências a Maria de Lourdes Pintasilgo no interior dos jornais (20, 21 Julho)
O Jornal(20 Julho) Expresso (21 Julho) Expresso-revista
Editorial: Golpes baixos, (p. 2). Porque terá Eanes escolhido Pintassilgo? Exclusão de partes não chega para
Exposição de pontos de vista, deste semanário, ficando clara a sua crítica à Editorial: A abertura da caça, (p. 10). Texto onde se regista uma curta, mas explicar,(pp. 1, 2, 3). Surgem dúvidas quanto ao Executivo antes e depois da
decisão presidencial de marcação de eleições intercalares, sem no entanto, incisiva, referência a Maria de Lourdes Pintasilgo, de modo a responsabilizar a discussão do Programa na AR; «Guerra santa» de partidos não parará,(pp. 3, 4).
extravasar esse descontentamento à figura de Maria de Lourdes Pintasilgo, que é escolha presidencial para a abertura plena das hostilidades. História breve de uma inteligência (perigosa?) chamada Maria de Lourdes
descrita como alguém com uma craveira intelectual e autoridade moral e Pintassilgo
personalidade de indiscutível honestidade, isenção e independência partidária.
Do «Graal» à UNESCO: do micro-social ao macro- -social;
De Marcello Caetano a Eanes: da esperança frustrada à fé convicta?,(pp. 5, 6,
7).
A primeira entrevista com o novo chefe de Governo. Do terceiro Governo presidencial às opções da «Aliança Democrática». (Marcelo Rebelo
Maria de Lurdes Pintasilgo a «O Jornal».«Tentarei criar um Governo com estruturde Sousa), (p. 2). São inteligíveis as perspectivas de uma governação energética a
mais leve.». Entrevista conduzida por Carneiro Jacinto. (pp. 2, 3, 4). par de um acompanhamento presidencial, cujo ganho político é igualmente abordado.
A figura da semana: Maria de Lourdes Pintasilgo, (p. 4) (não assinado). Descreve
biograficamente os aspectos de maior relevância acerca da primeira mulher
portuguesa, Primeira-ministra.
A escolha do Primeiro-Ministro. Um candidato verdadeiro e seis a fingir,
(Carneiro Jacinto), (p. 5).
Pretende acentuar a vontade prévia do presidente da República na escolha de Mari
de Lourdes Pintasilgo.
Governo de gestão levanta novos ventos, (Cáceres Monteiro), (p. 5). Aborda as
reacções político-partidárias à nomeação de Maria de Lourdes Pintasilgo e e gia
o perfil da mesma.
Bochechas ao poder, (p. 14) (não assinado). Partindo de uma suposta parecença
física com o secretário-geral do PS, Mário Soares, este curto texto, de pretens o
humorística procura denotar alguma aproximação de Maria de Lourdes Pintasilgo a
este partido político.
Nomeação de Lurdes Pintasilgo faz evoluir opinião de Soares, (C.M.) [sic],
(p.40). Neste texto procura-se evidenciar a atitude do secretário-geral do P.S.
face à nomeação de Maria de Lourdes Pintasilgo.
27 e 28 de Julho 1.ª Página
O Jornal(27 Julho) Expresso (28 Julho) Expresso-revista
Figura 7 Figura 8 Figura 9
Dedica um terço, do total da 1.ª Página, a títulos em parangonas e duas pequenas
fotos de Maria de Lourdes Pintasilgo. Na zona central lê-se: A ÚLTIMA TENTATIVA
PRESIDENCIALISTA DE EANES? E, NOVO PARTIDO POLÍTICO DEPENDERÁ DO ÊXITO DO GOVERNO
PINTASILGO
Ocupa dois terços, do total da 1.ª Página, com títulos e foto: No Graal ela é Sob o título, Lurdes Pintasilgo apresenta hoje em Belém o seu Governo completo, é
Simplesmente Maria Repórteres de «O Jornal» desvendam segredos de Lurdes possível ler a totalidade do texto na 1.ª Página do qual destaca-se a referêncSob o antetítulo, A ÚLTIMA TENTATIVA PRESIDENCIALISTA DE EANES? e o título
Pintasilgo à presença feminina no executivo: (...) e, para já, a grande novidade do elencotemático, NOVO PARTIDO POLÍTICO DEPENDERÁ DO ÊXITO DO GOVERNO PINTASILGO, são
A infância e juventude de uma mulher sem rótulos governativo reside no facto de não se confirmar um número apreciável de mulherepublicadas as leituras e interpretações de o Expresso.
Ataques surpreendem hierarquia católica na sua composição, ao contrário do que chegou a ser noticiado.
Uma crónica de Maria Velho da Costa Ainda uma chamada para o trabalho publicado na revista: 3 depoimentos acerca de
um 1.º Ministro controverso
Joaquim Pinto Machado
Teresa Santa Clara Gomes
Maria João Seixas
Outras referências a Maria de Lourdes Pintasilgo no interior dos jornais (27, 28 Julho)
O Jornal(27 Julho) Expresso (28 Julho) Expresso-revista
Neste número, (pp. 16, 17), são publicados depoimentos de três personalidades
Editorial:A direita perdeu a vergonha? (p. 2). Editorial: Radicalização indesejável, (p. 10). Oferece a sua leitura sobre as próximas de Maria de Lourdes Pintasilgo: 3 depoimentos acerca de um Primeiro
Dá continuidade às críticas sobre a forma e o tom com que responsáveis no seiquestões políticas do momento, entendendo a instabilidade política relacionadaMinistro controverso:
dos partidos da direita têm atacado a pessoa de Maria de Lourdes Pintasilgo. com as decisões presidenciais. Joaquim Pinto Machado: «Civilização do amor»
Teresa Santa Clara Gomes: Explicar (de forma simples) o que é o Graal
Maria João Seixas: Achegas para a definição de «pessoa» e «liberdade»
De um Governo que dá que pensar ao ataque de Mário Soares a Ramalho Eanes,
Neste número publicam-se um conjunto de textos sob o título temático condutor:(Marcelo R. de Sousa), (p. 2).
Lurdes Pintasilgo: quem foi, quem é, que pode esperar-se dela Dá-se conta do grau de determinação desta mulher, assim como, da sua capacidadA rubrica semanal "Gente", (p. 32), divulga um dos cognomes associados a Maria
De José Silva Pinto, Uma mulher sem rótulos, (pp. 2, 3), aborda-se a figura de persuasiva e de simpatia pessoal, capaz de uma operação «charme», que em termde Lourdes Pintasilgo: MARIA DE LURDES Pintasilgo já tem o seu qualificativo
Maria de Lourdes Pintasilgo, recorrendo a testemunhos de pessoas próximas. de ganho político para a direita não será muito vantajoso. Quase que em tom depolítico é a Mafaldinha. (...).
alerta, lê-se: Relativamente a Maria de Lurdes Pintasilgo, enganar-se-ão os que
pensam que ela não seria um «osso duro de roer».
Hierarquia Católica surpreendida com ataques, (p. 4), (não assinado)
Dá eco às reacções provenientes dos partidos da Aliança Democrática.
Profunda Cultura teológica, (A.P. [sic]), (p. 4).
Sublinha a formação teológica de Maria de Lourdes Pintasilgo, citando, por
exemplo, textos de sua autoria nesta área.
Presidente do I Congresso da JUC (1953), (p. 5) (não assinado).
Dá conta da longa e relevante ligação de Maria de Lourdes Pintasilgo a
organizações católicas.
Salve Maria, (Maria Velho da Costa), (p. 5). Verbalização do pensamento
dominante, mas escondido ou dissimulado nos discursos dos considerados
intervenientes e actores do palco político.
Antetítulo: Cimeira do Graal à espera de Lurdes Pintasilgo
Título: Para companheiras de outros países ela é simplesmente Maria, (Pedro
Vieira), (p. 6). Historial da ligação de Maria de Lourdes Pintasilgo com a
promoção de o "Graal", em Portugal.
«Primeiro» ou «primeira»?, (p. 6) (não assinado)
Reflexão sobre a questão da linguagem em relação à forma feminina ou masculi
de tratamento da palavra "Primeiro-ministro", ou "Primeira-ministra".
A semana mais longa de Lurdes Pintasilgo, (C. J. [sic]), (p. 7).
Relata todo um conjunto de factores políticos e até de alguma mudança de atitu
por parte de Maria de Lourdes Pintasilgo, que envolveram a preparação da equipa
ministerial.
Regresso do Brasil, (Augusto Abelaira), (p. 9). Nesta crónica são ironizados os
rótulos lançados sobre Maria de Lourdes Pintasilgo, oriundos da direita.
Gonçalo Ribeiro Teles a «O Jornal» (Pedro Vieira), (p. 21). Este líder
partidário reitera as suas críticas à decisão presidencial.
Governo terá «executivo» central com cinco membros, (p. 39) (não assinado)
O Jornal concentra a atenção num núcleo fulcral de gestão governativa, que
acredita estar em formação.
A rubrica "Discurso Directo" (p. 17), dá eco a frases da semana. Neste caso de
Lucas Pires: «Portugal está numa fase de neogonçalvismo rococó, de saias e
espartilho.»
3 e 4 de Agosto 1.ª Página
O Jornal(3 Agosto) Expresso (4 Agosto) Expresso-
revista
Figura 10 Na 1.ª Página, deste número, não se lê o nome de Maria de Lourdes Pintasilgo em
nenhum título, antetítulo ou subtítulo, nem existe nenhuma imagem da Primeira-
Ocupa um terço com títulos e foto Legenda relativa à foto de MLP: A primeira ministra indigitada. Apenas se encontram breves referências nos corpos noticiosos
foto de Lurdes Pintasilgo em São Bento.A marcha dos cem dias (pelo menos) sob os títulos:
começou. Em cima da sua secretária, no gabinete de Primeiro-Ministro, Lurdes Posse da primeira «leva» de Secretários de Estado no princípio da semana
Pintasilgo colocou uma velha imagem de Santa Isabel (...) Estilo diferente. Entretanto logo no primeiro Conselho de Ministros
Na zona correspondente ao primeiro terço, lê-se o antetítulo, Entrevista/ presidido por Maria de Lurdes Pintasilgo foi patente uma diferença de estilo
Exclusivo, e o título, Governo fala, que introduz os depoimentos de três pessoal relativamente ao seu antecessor, prof. Mota Pinto. (...) Maria de Lurdes
membros do Governo e respectivas fotos: Pintasilgo revelou um estilo muito mais dinâmico, abordando duas temáticas
Teresa Santa Clara, com a legenda: É tempo de as mulheres aparecerem; essenciais: a preparação do Programa do Governo e a escolha dos secretários de
Costa Brás, com a legenda: Garantia de isenção nas eleições Estado para os vários departamentos governamentais.
Bruto da Costa, com a legenda: Dar voz a quem não a tem. Cardeal-Patriarca recebe Aliança que referencia encontro entre Maria de Lourdes
No segundo terço da página, uma pequena foto de Maria Elisa e o título, Pintasilgo e o representante máximo da hierarquia católica portuguesa.
Jornalista da TV cuida a imagem de Lurdes Pintasilgo.
Outras referências a Maria de Lourdes Pintasilgo nesta semana (3 e 4 Agosto)
O Jornal(3 Agosto) Expresso (4 Agosto) Expresso-revista
Editorial: O Governo e a responsabilidade dos partidos(p. 2). O papel do V Governo Constitucional (pp. 2, 3). Um reiterar de suspeição face ao
Comenta a não comparência de representantes da «aliança democrática» na cerimónia presente Executivo, e em cujo texto pode ler-se: Nada mais errado, em geral, do
da tomada de posse do V Governo Constitucional e enaltece o percurso de Maria de que acreditar que o V Governo Constitucional, com este primeiro-ministro e com
Lourdes Pintasilgo. esta composição, está apenas a fazer figura de corpo presente, à espera que os
partidos o venham substituir.
Começou a «marcha dos 100 dias», (Cáceres Monteiro), (p. 2). A opção que não pode ser «mascarada», (Marcelo R. de Sousa) (p. 2).
Tem como ponto de partida as frequentes interpretações da direita acerca da Alerta, de novo, para os possíveis horizontes deste Executivo, cuja Primeira- Partidos reagem ao Governo (p. 3). Inclui uma foto de Álvaro Cunhal e a legenda:
decisão presidencial, passando por emitir considerações respeitantes à ausênciministra sente que a sua missão não se vai esgotar com a singela preparação Pintasilgo já há um ano era a candidata do PCP
representantes dos partidos da direita na cerimónia de tomada de posse e propondo eleições e a passagem do testemunho aos partidos.
a leitura de algumas citações do discurso de Maria de Lourdes Pintasilgo.
Secretária de Estado-Adjunto do Primeiro Ministro, (Cáceres Monteiro), (p. 4).
Expõe um depoimento de Teresa Santa Clara Gomes, sobre Maria de Lourdes
Pintasilgo, como por exemplo: Ela é, acho eu, uma personalidade tão forte que
parte destas reacções são de pessoas que esperavam um governo completamente Primeiro-Ministro não pretende legislar sobre o aborto, (p. 2).
silencioso e neutro, um governo que não mexesse com nada. Por isso se insurgem Inserido na rubrica "Semana Nacional" detectam-se ressonâncias de uma
contra o facto de aparecer alguém com imaginação e com iniciativa. Temem o que eentrevista dada por Maria de Lourdes Pintasilgo ao Le Monde.
venha a fazer. Nem sequer é uma posição ideológica à partida, mas o receio de que
uma personalidade forte traga à governação elementos que não são conhecidos. E
muita gente tem medo do desconhecido.»
Antetítulo: Aquino de Bragança ao EXPRESSO
Título: Pintasilgo tem horizontes largos (p. 16), (não assinado).
Dá-se conta do que foi glosado toda a semana por políticos e jornalistas, de
acordo com as respectivas convicções político-partidárias. Também é
referenciado o entendimento deste político moçambicano sobre Maria de Lourdes
Pintasilgo:
(...) Aquino de Bragança disse-nos que o contacto com Maria de Lurdes
Pintasilgo «havia sido franco e que o Primeiro-Ministro, possuidor de uma
mentalidade descolonizada, se mostrara disposto a perspectivar as relações com
Moçambique, atendendo a horizontes muito para lá dos anos imediatos».
Os ministros para a «marcha dos 100 dias», (p. 6), (não assinado). Recolha de
informações sobre as individualidades que integram o V Governo Constitucional
Observam-se curtas referências a Maria de Lourdes Pintasilgo.
Entrevista conduzida por Edite Soeiro a Maria Elisa, (p. 7).
Uma pequena parte desta conversa aborda a figura de Maria de Lourdes Pintasilgo:
A actual Primeiro-Ministro nada tem de fechado, misterioso, hermético, e é uma
pessoa muito interessada no papel da informação no mundo actual.
A expectativa, (Augusto Abelaira)(p. 9).
Discorre sobre a crescente sensação de expectativa em relação a Maria de Lourde
Pintasilgo, que ainda por cima é mulher (...) reunia todas as condições para dar
esperanças a um povo mais ou menos desencantado.
O Santo Graal e a economia portuguesa, (Remy Freire), (p. 13).
Recorrendo à carga simbólica desta busca alerta que a Premier Maria de Lurdes não
pode ser Sir Galahad, não porque lhe falte tão grande coragem, espírito de
abnegação ou pureza de intenções, mas porque, evidentemente, os tempos são agora
outros.
O «abominável» homem das oito, (p. 18), (não assinado).
Texto que referencia e critica o cariz noticioso da informação de um dos
colaboradores da RDP, Jorge Soares, assim como permite a leitura de algumas dessas
considerações sobre o Governo e a figura de Maria de Lourdes Pintasilgo: (...) em
que se lê, por exemplo: «Maria de Lourdes Pintasilgo revelou-se ontem uma mulher
autoritária, gostando de ostentar as suas qualidades (...) pouco aberta às
críticas apesar de afirmar o contrário». Para o autor da notícia [Jorge Soares]
intitulada «Uma mulher divorciada deste «jardim à beira mar plantado» o programa
que o V Governo vai apresentar estará «eivado das intenções do bloco marxista-
ateu»!...
Sousa Franco no Governo reforça posição junto da Igreja(p. 40), (não assinado).
Texto que dá conta da importância da inclusão desta figura no V Governo, do pont
de vista da Igreja católica portuguesa.
10 e 11 de Agosto 1.ª Página
O Jornal(10 Agosto) Expresso (11 Agosto) Expresso-
revista
Figura 11 Figura 12
Mais de dois terços da página são ocupados com uma caricatura de António,
acompanhada do título manchete: Eles chamam-lhe «Vasco Gonçalves de saias». Porquê?
Ainda nesta 1ª Página lê-se numa coluna de texto: Para uns, Maria de Lurdes
Pintasilgo não é mais do que a expressão de um alegado projecto de «socialismo
terceiromundista » do Presidente Eanes. Para outros, ela representa o advento de umO nome de Maria de Lourdes Pintasilgo aparece no título, EANES COM NETO (E TALVEZ
«neogonçalvismo de saias e espartilho»... Estas duas expressões, qualquer delas MACHEL) E PINTASILGO NA ONU (E TALVEZ COM O PAPA), situado no primeiro terço,
«munições» pesadas na barragem de «fogo verbal» com que diversos dirigentes dojunto a vários outros assuntos com antetítulos e títulos.
partidos da «Aliança Democrática» têm alvejado o Primeiro-Ministro, são Ainda na 1ª Página, no último terço, sob os antetítulo e título: Programa do V
sintomáticas do vigor com que PSD e CDS (e PPM, seu actual parceiro) contestam a Governo Constitucional Agricultura tem prioridade na parte económica
solução governativa que, na próxima semana, enfrentará o teste parlamentar. Porquê?
Embora sem chegarem a este tipo de «imagens», os líderes da «Aliança», contactados
por «O Jornal», reiteram a sua desconfiança política em Maria de Lurdes Pintasilgo
e no seu Governo e preparam-se para apresentar, em São Bento, uma moção de rejeição
do programa do novo Executivo.
Outras referências a Maria de Lourdes Pintasilgo nesta semana ( 10, 11 Agosto)
O Jornal(10 Agosto) Expresso (11 Agosto) Expresso-revista
Editorial: A quem interessa «chumbar» este Governo? (p. 2). Editorial: Terceiro mundismo Portugal e a Europa (p. 10). Dá conta do Rubrica "Gente" (p. 28). Breve referência a Maria de Lourdes Pintasilgo; Apoio
Aborda a possibilidade de os partidos da Aliança Democrática apresentarem ou não,entendimento sobre os rótulos colados a Maria de Lourdes Pintasilgo e mais a Pintasilgo na Praia do Balaia, José Manuel Galvão Teles (...) está eufórico
moção de rejeição de que se tem falado. glosados neste período político e alerta: (...) O Governo diz que só durará 1com a solução Pintasilgo (...) e considera que o último número do EXPRESSO foi
dias, mas organiza-se e actua como se estivesse para ficar 100 anos. nesta matéria malevolamente devisionista [sic] ...
Guia espiritual, (Rui Osório) (p. 4).
Descreve a formação religiosa de Maria de Lourdes Pintasilgo, citando- -a mesmo na
sua convicção de que «a grande empresa é mudar a vida», e conclui, acreditando Programa de Governo na Assembleia segunda-feira próxima(p. 2).
Quero mesmo apostar que esta mulher, que prefere o diálogo com todos ao anátema coSão noticiados os trâmites da discussão parlamentar do Programa.
alguns, será mesmo imparcial e isenta na tarefa que lhe caberá no próximo acto
eleitoral.
EANES COM NETO (E TALVEZ MACHEL) E PINTASILGO NA ONU (E TALVEZ COM O PAPA) (p.
6), (não assinado).
Só colagem de Soares derrubará Lurdes Pintasilgo(p. 5), (não assinado). Glosa a futura ida de Maria de Lourdes Pintasilgo à ONU. Do conjunto do texto,
Reflecte no essencial as tensões e lutas político partidárias face à apresentaçapenas uma pequena parte referencia de facto a pessoa de Maria de Lourdes
do Programa do Governo na Assembleia da República. Não é tanto a pessoa de Maria Pintasilgo.
Lourdes Pintasilgo que é visada, mas sim as sinuosas concordâncias ou distâncias (...) A intervenção de Lourdes Pintasilgo a nível de política externa, que era
políticas entre partidos políticos observadas pela imprensa. já previsível para a generalidade dos observadores e poderá já ter reflexos no
Programa de Governo, parece, assim confirmar-se, levantando alguma curiosidade
sobre a forma como irão processar-se as relações com o Presidente neste domínio.
Pintasilgo, o irrealismo e o catolicismo (correspondência identificada), (p.
Antetítulo: Política Externa título: Sensibilidade da questão africana, (L. P.11).
[sic]), (p. 6). Transcrição de algumas das linhas mais directamente relacionadas com o título.
Aborda questões de política externa presentes em Maria de Lourdes Pintasilgo, (...) Apresentar linhas de acção para transformar a sociedade portuguesa em tr??
servindo também como contra ponto e esclarecimento sobre o porquê de rótulos comomeses (ainda por cima de «praia»...) levam-me a concluir das duas uma: ou a sr.ª
«terceiro-mundista» e «Melo-antunista». eng.ª perdeu completamente a noção das realidades ou então está a tentar vender
gato por lebre e nesse caso fica a denúncia. (...).
Que tem a Aliança contra Lurdes Pintasilgo? (Fernando Antunes), (p. 8, 9).
Vai directamente ao assunto do momento, questionando as atitudes da direita que
revelam receios que o novo Primeiro-Ministro se transforme numa figura carismática
e dilua o impacte que os partidos da Aliança procuram transmitir (...).
PPM procura «lugar ao sol» (p. 9).
Analisa a integração deste partido na Aliança Democrática, acompanhado de várias
citações de Gonçalo Ribeiro Teles, entre as quais é reiterada a posição defini
quanto ao governo de Lurdes Pintasilgo que, aliás, não se afasta das reacções que
tem despertado ao nível dos restantes parceiros.
Alternativas e futuro, Em vez de Lurdes Pintasilgo o quê? (p. 9).
Recolha de afirmações dos três dirigentes dos partidos que perfazem a Aliança
Democrática:
Sá Carneiro: Eanes sabia que a engª Pintasilgo era inaceitável, como Primeiro-
Ministro, para o PSD e CDS.
Basílio Horta: (...) não temos que recear da senhora a não ser a sua parcialidade
e o facto de ter escolhido para o governo adversários quer da Aliança Democrática
quer das pessoas que a constituem. (...).
Gonçalo Ribeiro Teles: Só retiraria apoio político à Aliança se [MLP] fosse capaz
de resolver problemas (...) que o País atravessa .
A conspiração (Augusto Abelaira) (p. 11).
Ironicamente alveja os argumentos da direita: (...) que descubro eu? Que se prepara
em Portugal, perante a nossa inconsciência, uma revolução marxista conduzida pelo
Presidente Eanes e executada por Maria de Lurdes Pintasilgo (...) E como foi
possível esta sinistra manobra (...) Muito simplesmente (...) há muitas dezenas de
anos que esta conspiração se preparava, muito antes da queda do antigo regime e
preparada nas alfurjas internacionais (provavelmente com sede na UNESCO). Sob os
auspícios do marxista papa João XXIII muitos outros marxistas disfarçavam-se de
católicos para no momento oportuno assassinarem as nossas liberdades. (...)
Rubrica "Discurso Directo" (p. 14).
Destaca-se uma afirmação de Maria de Lurdes Pintasilgo à Rádio Nacional de Espan :
«Não me afecta, não me preocupa e não me tira o sono a crítica que me é feita de eu
ser uma pessoa «engagée», uma pessoa empenhada na vida social.».
«Pax Romana» bate papo pela Rádio(p.15). Com foto de Maria de Lourdes Pintasilgo
a legenda: Durante o debate: o incolor é absurdo.
A «Thatcher roja»... (p.15).
Informa sobre alguns ecos na imprensa estrangeira, especificamente espanhola,
acerca da chegada de Maria de Lourdes Pintasilgo ao cargo de Primeira Ministra:
«Sin embargo, a única coisa que a aproxima da sua colega britânica é a sua condi ão
feminina. E a sua profissão. Mais à frente, questionada sobre o rótulo de Melo-
antunista, diria: «Não, não sou meloantunista. Melo Antunes é que é
«marialurdista».
Programa do Governo: um texto curto para defender na «oral» (Luís Pinheiro de
Almeida), (p. 36). Dá conta da preparação e da data de apresentação, na assembl a
da República, do Programa do Governo.
Destaques e Comentários
Nesta terceira parte procurar-se-á aprofundar a análise, de alguma maneira já
iniciada na parte anterior, desenvolvimento este que vai ser realizado através
da configuração de algumas temáticas consideradas relevantes para a definição
da figura de Maria de Lourdes Pintasilgo, enquanto Primeira-Ministra do V
Governo. O destaque dessas temáticas far-se-á por meio de títulos englobantes
da interpretação realizada e fundamentar-se-á nos textos e imagens dos
respectivos Semanários.
1. Uma mulher no Governo: o embaraço da linguagem
O primeiro aspecto a destacar talvez seja o embaraço linguístico resultante da
nomeação de Maria de Lourdes Pintasilgo para chefe do V Governo. Na verdade,
sendo o masculino o único vocabulário disponível para a designação dos cargos
políticos, faltam as palavras próprias para descrever a realidade inusitada de
haver uma mulher na chefia de um Governo.
Repare-se em alguns exemplos:
A primeira (grande) entrevista do novo chefe do Governo, (O Jornal,
20 de Julho, 1.ª Pág.)
(...) Nesse sentido, o próprio Primeiro-Ministro irá tentar, (O
Jornal, 20 de Julho, p. 5)
(...) o Expresso analisa (...) Governo (...) do seu indigitado Primeiro-
Ministro, (Expresso, 21 de Julho, 1.ª Pág.)
(...) objecções levantadas (...) à pessoa do Primeiro-Ministro
indigitado... , (Expresso revista, 21 de Julho, p. 4)
(...) que fora secretário de Estado (...) ascendeu a ministro dos
Assuntos Sociais, (Expresso revista, 21 de Julho, p. 6)
O que parece mais interessante relevar é o facto de a representação social
sobre a "natural" masculinidade da vida política ser tão dominante que leva a
generalidade dos jornalistas e colunistas a não manifestarem, como grande
preocupação as questões da concordância exigida pela gramática portuguesa.
Regista-se, ainda assim, um texto, não assinado, «Primeiro» ou «Primeira»? em O
Jornal de 27 de Julho, (p. 6), que traz à leitura alguns exemplos referentes às
regras gramaticais vigentes, acompanhados de depoimentos de estudiosos da
língua. Não deixa de ser igualmente representativo do pensamento de então, a
presença da afirmação de que este assunto veio trazer um problema que, não
sendo importante, parece estar a preocupar muita gente. A partir desta alusão
ficamos a saber duas coisas interessantes: 1. A existência de pessoas a darem-
se conta do problema e a preocuparem-se com ele; 2. Esse não era o caso do
autor deste texto (e até da maioria dos autores dos textos escrutinados) que,
estranhamente, sendo, também, um profissional da língua não considerava
importante uma questão de linguagem...
É interessante assinalar que, no que diz respeito a este corte temporal, a
prosa jornalística continuou a usar as designações masculinas para os
diferentes cargos políticos, quer eles fossem ocupados por homens, quer por
mulheres.
Hoje, três décadas volvidas, a língua, mais do que as mentalidades, tem vindo a
adaptar-se lentamente à presença das mulheres no espaço público da política,
criando palavras novas ou fazendo o feminino de palavras já existentes.
Contudo, Maria de Lourdes Pintasilgo representa um momento-chave na tomada de
consciência da necessidade linguística de tal renovação, até porque a própria
marcará a situação e denunciá-la-á.
2. As primeiras páginas como espelhos: esperança e aclamação versus suspeição e
silêncios
No âmbito de uma análise das primeiras páginas, há que realçar o modo
manifestamente discordante nas vias de abordagem à apresentação e à descrição
do perfil de Maria de Lourdes Pintasilgo, quer pelo espaço dedicado à figura,
quer pelos títulos manchete exibidos. Em todas estas datas, Maria de Lourdes
Pintasilgo ocupa, seja na forma de fotografia, fotomontagem ou até de
caricatura, a 1.ª Página de O Jornal. O Expresso, por seu lado, revela uma
opção editorial notoriamente diferente. As suas primeiras páginas são ocupadas
sobretudo com texto. Os destaques são feitos recorrendo a grandes títulos e
subtítulos, reservando um espaço mínimo a imagens
1
. Para além de publicar apenas fotos de pequena dimensão em duas datas (21 e 28
Julho), não faz qualquer destaque a Maria de Lourdes Pintasilgo a 4 de Agosto,
três dias após a cerimónia oficial da tomada de posse do V Governo
Constitucional e a 11 de Agosto apenas se lê o nome da Primeira-ministra em um
dos vários títulos que ocupam a 1.ª Página.
O interior de cada semanário dá continuidade à escolha editorial visível nas
primeiras páginas. Observam-se, por isso, ecos e silêncios relativamente a
eventos ocorridos durante a semana, como é o caso flagrante da ausência dos
partidos da direita na cerimónia oficial da tomada de posse do V Governo
Constitucional.
Conhecido o nome da personalidade para chefiar o V Governo, O Jornal (20 Julho)
é assim bastante generoso quanto aos dois terços da capa dedicados a uma foto
de Maria de Lourdes Pintasilgo, acompanhada do título citação, «Quero dialogar
com o povo», que sustenta o carácter intencional do compromisso assumido. Do
ponto de vista da linha editorial de O Jornal, tal título poderá ser revelador
da sua aclamação e expectativas sobre a figura de Maria de Lourdes Pintasilgo.
Na verdade, há que reconhecer neste acto de fala uma vasta gama de
possibilidades de leitura. Por exemplo, o contexto semântico ligado a "diálogo"
parece querer enquadrar o aparecimento de Maria de Lourdes Pintasilgo no palco
da alta governação com uma aura positiva, inovadora em relação à herança
anterior ao 25 de Abril, e tranquilizadora no quadro da efervescência política
que então se vivia. Por outro lado, a verbalização do desígnio dialogar poderá,
também, transmitir uma mensagem de disponibilidade e abertura, indo ao encontro
do sujeito anónimo desprovido de meios de se fazer facilmente ouvir, uma vez
que, no acto de dialogar terá que ocorrer o de escutar, o de ouvir e,
certamente, deixar-se interpelar por posições diferentes. Em qualquer dos
casos, «Quero dialogar com o povo» parece ser uma apresentação extremamente
positiva da figura da nova chefe do governo.
Da leitura de o Expresso de 21 de Julho retira-se uma visão pouco, ou mesmo
nada, empática com a figura de Maria de Lourdes Pintasilgo, sendo audível o tom
duvidoso relacionado com a natureza do Governo, que se avizinha. Assim, o
grande destaque de o Expresso é direccionado para as reacções oriundas de o
Executivo em fim de mandato. É noticiada e comentada a reacção de elementos do
Governo cessante, numa linguagem que permite inferir um global desacordo e
descontentamento face à escolha de Maria de Lourdes Pintasilgo para Primeira-
ministra. Desta profusão de conteúdo textual observa-se a questão do anunciado
novo Executivo, de nomeação presidencial, e suas consequências envoltas na
indeterminação para o futuro, dos ganhos políticos desta resolução.
Também a breve entrevista a Maria de Lourdes Pintasilgo indica um tom de
desvalorização relativamente à real capacidade de acção de um Governo limitado
temporalmente e na ausência do funcionamento da Assembleia da República. Fica,
ainda, clara a existência de um desagrado total assumido pelos partidos da
direita.
Na capa do caderno adicional revista o título temático e respectivos
subtítulos promovem, indubitavelmente, um cenário carregado de suspeição,
dúvida e desconfiança em redor de Maria de Lourdes Pintasilgo. Aliado a este
ecoar receoso percepciona-se, de igual modo, incredibilidade perante a escolha
presidencial. O Expresso lançava assim os indícios da sua interpretação acerca
dos posicionamentos políticos do Presidente da República e de Maria de Lourdes
Pintasilgo.
A 1.ª Página de O Jornal de 27 de Julho, proporciona uma fotomontagem
certamente potenciadora de diversas leituras, despertando a curiosidade humana
no mirar. Recorrendo a esta pré disposição do ser humano em aderir com prazer
ao acto de olhar, através dos nossos mecanismos voyeuristas, sobretudo a acção
de secretamente espreitar por uma fechadura, O Jornal escreve em subtítulo:
Repórteres de «O Jornal» desvendam segredos de Lurdes Pintasilgo. Assumindo um
exercício de leituras subjectivas, poder-se-ia, por exemplo, imaginar, aquilo
que aparenta de imediato uma fechadura ser, quiçá, um cálice ao contrário. E
cálice tem a ver com Graal, o movimento internacional de mulheres cristãs a que
Maria de Lourdes Pintasilgo presidiu o que coloca a sugestão do mundo
religioso. Mas, por outro lado, fechadura também convoca dentro e fora e, com a
afirmação expressa de que Repórteres de «O Jornal» desvendam segredos de Lurdes
Pintasilgo, aponta, necessariamente, para o entrar no interior de alguém. Não
parece, portanto, haver dúvida que se está perante um puzzle de símbolos de
cuja polissemia semântica decorre, necessariamente, a ambiguidade.
Tanto a 1.ª Página de o Expresso de 28 de Julho, como as suas peças
jornalísticas, reiteram a sua linha de análise política e o traço indutor de
suspeição no delinear do perfil de Maria de Lourdes Pintasilgo. O cerne da
proposição deste semanário continua a ser uma apreciação muito desconfiada da
actuação presidencial e suas consequências políticas para os partidos da
direita interligada à personalidade audaciosa de Maria de Lourdes Pintasilgo.
Estando esses partidos definitivamente divorciados do apoio prévio a Ramalho
Eanes, a estratégia de o Expresso passa essencialmente por instigar cenários
políticos de fraca substância democrática, nos quais o Presidente da República
estaria em posição de diminuir a importância da Assembleia da República e
assumir um papel de maior intervenção governativa no seio de um Executivo de
sua nomeação. Daí que, para este semanário, seja importante alertar para o
facto de que Maria de Lourdes Pintasilgo venha a evoluir de apenas uma escolha
pessoal, um mero peão no estratagema presidencialista, a alguém com uma
capacidade tenaz de fazer a diferença, e o mais alarmante ainda, com sucesso.
Após a cerimónia oficial da tomada de posse (1 Agosto) O Jornal de 3 de Agosto
destaca na 1.ª Página depoimentos e fotografias de três elementos do Governo,
tal como uma fotografia de Maria de Lourdes Pintasilgo acompanhada da
elucidativa legenda Começou a «marcha dos 100 dias». Ao invés, o Expresso (4
Agosto) nada menciona sobre este acto protocolar. Dá conta, sim, da Posse da
primeira «leva» de Secretários de Estado agendada para a semana seguinte.
Poder-se-ia dizer que é caso de um ruidoso silêncio.
O Jornal noticia e comenta, não só a recusa de os dirigentes dos partidos, PSD
e CDS, em reunir com a Primeira-ministra, ainda antes da sua nomeação oficial,
como também a não comparência destas personalidades à cerimónia de investidura
do V Governo Constitucional. De acordo com o Editorial, estes «factos
moralmente graves e até inéditos revelam (...), a falta de educação cívica
daqueles sectores, até que ponto são desrespeitados princípios fundamentais da
democracia como os da tolerância e do diálogo». Também Cáceres Monteiro, no seu
artigo «Começou a "marcha dos cem dias"» (O Jornal, 3 Agosto: 2), sublinha a
ausência destes partidos, destacando o ambiente desta «(...) cerimónia que pela
sua vivacidade e concorrência contrastou com a posse do IV Governo (...)».
Consequentemente, perguntar-se-ia sobre os motivos que levaram o Expresso a não
proporcionar qualquer alusão à tomada de posse e respectivos discursos, nem à
ausência dos partidos de direita, com representação parlamentar, nesta
formalidade protocolar e simbólica. Não se regista sequer qualquer ressonância
explicativa oriunda desses dirigentes partidários, o que poderia suscitar, por
si só, matéria noticiosa. Será que, com o recurso ao mutismo esperaria este
jornal anular a relevância social e política do assumir oficial deste
Executivo? Ora, do ponto de vista de qualquer órgão de comunicação social,
recorrer à opacidade e ao silenciamento cirúrgico pode ser sintomático de uma
tomada de posição. Do mesmo modo poder-se-ia inferir que o facto de a cerimónia
oficial da tomada de posse não representar matéria noticiosa de peso para
relatar vai ao encontro de o entendimento dos partidos da direita sobre o
actual Executivo. Ou seja, uma vez que para os dirigentes do PSD e CDS a sua
ausência traduziria a assunção clara do seu posicionamento, conhecido, de total
recusa, desacordo e suspeição, o mesmo se poderá depreender da ausência de
qualquer referência à tomada de posse nas páginas de o Expresso. Sublinhe-se
mesmo que o que se capta deste número, não são ecos da tomada de posse do
Governo, mas sim o aprofundamento das suas teses relativamente aos dividendos
políticos por parte do Presidente da República nesta sua intervenção e, também,
ao papel que Maria de Lourdes Pintasilgo poderia desempenhar neste xadrez
político, avançado pelo Expresso.
Na semana seguinte, em vésperas do debate parlamentar do Programa do Governo, a
1.ª Página de O Jornal (10 de Agosto) proporciona a ironia de uma caricatura,
da autoria de António, acompanhada do título Eles chamam-lhe «Vasco Gonçalves
de saias». Porquê?
A grande potencialidade da caricatura é a de causar o riso através do recurso,
entre outros, ao exagero, ao absurdo, à imagem distorcida. O que poderia ser
salientado neste caso é a representação do objectivo dos dirigentes dos
partidos da direita face à pessoa de Maria de Lourdes Pintasilgo. O seu apelido
dá o mote para revelar os intuitos mais ou menos claros desses dirigentes.
Caricaturados de predadores de aves, os seus fitos seriam o de retirar Maria de
Lourdes Pintasilgo do palco político e assim silenciá-la prendendo-a numa
gaiola. Contudo, Maria de Lourdes Pintasilgo é demasiado grande para tal. É que
de facto o pintassilgo é uma ave com apenas alguns centímetros de dimensão,
precisamente o oposto de Maria de Lourdes Pintasilgo. Esta afigura-se uma
personalidade de real porte, sorriso franco, resoluta no sucesso da sua tarefa
até ao fim e, por isso, resistente a ser maniatada.
O título manchete recupera um dos rótulos lançado sobre Maria de Lourdes
Pintasilgo, este de autoria de Lucas Pires: «Portugal está numa fase de
neogonçalvismo rococó, de saias e espartilhos»» (O Jornal 27 de Julho: 17). O
Jornal, mais uma vez, insurge-se contra a barragem de «fogo verbal» oriunda dos
partidos da direita. Interessante será notar que a recriminação feita pelo O
Jornal não expõe, nem comenta, no entanto, o preconceito sexista patente. Acaso
fosse um homem a representar a escolha de Ramalho Eanes, será que se escutaria
algo como "neogonçalvismo de calças" por parte dos mesmos autores?
O Expresso (11 de Agosto) destaca sobretudo assuntos de campanha partidária
eleitoral. A curta referência a Maria de Lourdes Pintasilgo é realizada no
âmbito da sua ida às Nações Unidas e possível encontro com o Papa.
3. «Simplesmente Maria»: simbologia cristã e popular?
Talvez valha a pena salientar, também, o ambiente cristão/católico que perpassa
ou contextualiza a retórica jornalística de O Jornal de 27 de Julho. De facto,
quer em termos noticiosos restritos, quer numa dimensão mais sugestiva, há uma
predominância de alusões ao cristianismo/catolicismo no conjunto da produção do
periódico referente a Maria de Lourdes Pintasilgo. Recorde-se:
Hierarquia Católica surpreendida com ataques
Profunda Cultura teológica
Presidente do I Congresso da JUC
Cimeira do Graal à espera de Lurdes Pintasilgo
Salve Maria
Todas estas peças jornalísticas articulam a figura de Maria de Lourdes
Pintasilgo com a Igreja Católica ou, no caso da ligação ao Graal, com o
Cristianismo em geral.
No caderno Expresso revista (21 de Julho: 3), ainda que sem a mesma profusão
de peças jornalísticas neste âmbito, são referenciadas as palavras do
Presidente da República na escolha de Maria de Lourdes Pintasilgo: «(...)
haveria que optar por uma pessoa que da justiça não tivesse apenas uma
interpretação e uma razão jurídica, mas também uma vivência religiosa». E na
semana seguinte, (28 Julho: 3), é relatada como, «Católica activista num país
considerado tradicionalmente católico.»
Como dimensão interessante, parece ser de sublinhar esta evocação da
religiosidade no contexto da caracterização de uma figura política.
Se se tiver em atenção que, na produção textual de O Jornal (27 de Julho),
todas as evocações têm uma dimensão positiva pondo em evidência ou a
consistência e a coerência da vida da personagem (Presidente do I Congresso da
JUC), ou a segurança do seu saber (Profunda Cultura teológica) parece
estarmos perante uma intencionalidade de credibilização. Todavia, não podemos
abstrair-nos da carga de ambiguidade intrínseca que a evocação do cristianismo/
catolicismo pode conter, no contexto temporal em que nos situamos. Na verdade,
dada a colagem ao antigo regime por parte de largos sectores da Igreja
portuguesa, uma relação directa com ela não poderia deixar de transportar uma
marca negativa de suspeição. A não ser que se quisesse apelar a um certo fundo
popular supostamente religioso , de alguma maneira já convocado em 20 de
Julho com o realce dado a «Quero dialogar com o povo». Esta hipótese pode ser
fortalecida com determinados destaques associados ao nome Maria simplesmente
Maria Salve Maria , na medida em que, por um lado, cá temos, de novo, o
chamamento ao universo religioso a Virgem Maria , mas, por outro, Maria é
igualmente um nome com uma carga muito popular as criadas de servir são,
habitualmente, Marias, por exemplo.
4. Ideias-força das vias de abordagem: um retrato que se define
Verifica-se, portanto, sem grande surpresa, dois pontos de vista antagónicos,
quanto à apresentação e descrição da figura de Maria de Lourdes Pintasilgo.
Para além da longa e esclarecedora entrevista, onde é possível ler directamente
as palavras de Maria de Lourdes Pintasilgo, sobre os seus objectivos e actuação
enquanto líder governativa, sobre as suas ideias em assuntos contemporâneos e,
também, sobre o facto de ser a primeira mulher a ocupar tal cargo, o conjunto
de textos que O Jornal (20 de Julho) publica revela um tom elogioso na
descrição do perfil da figura em estudo. Como por exemplo:
(...) figura com a craveira intelectual e autoridade moral de Maria
de Lurdes Pintasilgo, personalidade de indiscutível honestidade,
isenção e independência partidária (...).(Editorial: 2);
O facto «refrescante» de se tratar de uma mulher, e de uma mulher
inteligente,energética e convincente (...).(Cáceres Monteiro: 5).
De um ponto de vista global, a perspectiva veiculada por O Jornal no conjunto
destes números poderia ser descrita da seguinte maneira: ainda que crítica
quanto à decisão presidencial, não deixa todavia de revelar uma nítida
satisfação na escolha de Maria de Lourdes Pintasilgo, para chefiar o próximo
Executivo. Observa-se um desacordo relativamente à decisão de Ramalho Eanes de
marcação de eleições legislativas intercalares e dissolução da Assembleia da
República, porque de acordo com a interpretação de O Jornal, esta decisão
resulta de pressões dos partidos da direita, mas esse desacordo é claramente
demarcado da figura de Maria de Lourdes Pintasilgo que, por sua vez, aparece
enquadrada por uma visão positiva.
As ressonâncias oriundas de o Expresso configuram um quadro de total desacordo
relativamente às deliberações presidenciais. A produção textual deste semanário
proporciona um vasto campo de críticas a Ramalho Eanes e, ao mesmo tempo, lança
dúvidas e incertezas quanto a futuros cenários políticos consequentes da
escolha de Maria de Lourdes Pintasilgo para Primeira-ministra.
As interpretações avançadas pelo Expresso vão desde a existência de uma
eventual agenda política escondida, cujos intuitos poderiam ser, sumariamente,
descritos como:
a instauração de um sistema presidencialista, com um poder
parlamentar reduzido;
facilidades, aos partidos da esquerda, ou dificuldades eleitorais
colocadas aos partidos da Aliança Democrática;
a continuidade no poder de Maria de Lourdes Pintasilgo.
Sob o olhar de o Expresso, Maria de Lourdes Pintasilgo é uma figura
suficientemente carismática para suscitar uma boa dose de desconfiança na forma
de a apresentar, claramente expressa na interrogação quanto à perigosidade da
sua inteligência. A vida de Maria de Lourdes Pintasilgo é percorrida nas
vertentes: académica, profissional, política e religiosa, sendo esse percurso
acompanhado de citações da própria, feitas em tempos passados, que contribuem
até para um entendimento mais alargado do seu perfil. Paralelamente o Expresso
proporciona leituras e interpretações que suscitam mais reticências e
suspeições do que clareza. Só duas citações exemplificativas desse espírito:
Esta mulher com este perfil será apenas um Primeiro-Ministro de
transição para as eleições, de um intervalo sem Parlamento? (Expresso
revista, 21 Julho: 7)
É bom não subestimar o «élan» criativo de Lourdes Pintassilgo. Ele
é, por si só, capaz de arrastar o espírito mais hesitante e
dubitativo do mundo. Fá-lo-à com êxito? Pode ser que não. Mas poderá
fazê-lo com carisma, com o carisma que tanto poderá galvanizar o
país, (...). (Expresso revista, 21 Julho: 7)
5. Exploração de qualidades como defeitos: tentativa de amedrontar
Constata-se, por exemplo, logo a partir das primeiras páginas, que o caminho de
o Expresso vai numa direcção totalmente diferente da de O Jornal, centrando-se
em absoluto nas questões estritamente políticas e acentuando as imagens
inaugurais de suspeição que apresentara inicialmente sobre a nova chefe do
Governo. Assim, se a 21, Maria de Lourdes Pintasilgo usufrui de uma
inteligência (perigosa?), no dia 28 de Julho passa a 1º Ministro controverso,
título que antecipa os depoimentos (nada controversos aliás) de personalidades
próximas de Maria de Lourdes Pintasilgo (Joaquim Pinto Machado, Teresa Santa
Clara Gomes, Maria João Seixas). Também aqui, o adjectivo assume uma carga de
desconfiança, mais do que de clarificação, uma vez que nas palavras daquelas
personalidades não se encontram formas de ambiguidade ou contradição sobre
Maria de Lourdes Pintasilgo. Antes pelo contrário.
Adicionalmente relevante desta atitude são as indicações das outras peças
jornalísticas, nomeadamente, os artigos de Marcelo Rebelo de Sousa que
constituem um excelente exemplo de como qualidades se podem converter em
defeitos, ou melhor, em perigos. De salientar como ele chama a atenção para o
grau de determinação desta mulher (Expresso, 28 Julho: 2) como se a
determinação pudesse ser um risco; ressalta também o seu charme e, finalmente,
alerta, no âmbito do discurso da tomada de posse, «(...) é patente que Lurdes
Pintasilgo sente que a sua missão não se vai esgotar com a singela preparação
das eleições e a passagem do testemunho aos partidos».(Expresso, 4 Agosto: 2)
Ou seja, agita-se a bandeira do perigo quando se permite inferir que a actuação
da Primeira-ministra poderia conter algum objectivo menos claro dentro do
enquadramento democrático.
6. Acentuação das denúncias e demarcação das águas
Retomando os ecos à tomada de posse, observa-se por parte do conjunto de textos
publicados pelo O Jornal, (3 de Agosto), um destaque elogioso ao discurso de
Maria de Lourdes Pintasilgo, classificando-o como «um texto e um documento de
alto nível e de qualidade intelectual, cultural e humana» (Editorial: 2) e como
uma «construção a que não faltou sensibilidade e até recorte literário»
(Cáceres Monteiro, O Jornal, 3 Agosto: 2). O artigo de Cáceres Monteiro
aplaude, ainda, a eloquência e segurança com que Maria de Lourdes Pintasilgo
(...) «estilhaçava» numa conferência de Imprensa, com a sua
autenticidade e pela forma corajosa e inteligente com que respondia
às perguntas dos jornalistas as teorias laboriosamente urdidas pelos
chamados «analistas políticos», capaz de inverter habilmente a
direcção das setas que lhe são dirigidas.
As setas foi a forma como este jornalista classificou a escalada do conteúdo
difamatório na direcção de Maria de Lourdes Pintasilgo. Despertando medos
atávicos relacionados com o comunismo, como ilustra claramente a rubrica
"Periscópio", onde se denúncia o conteúdo textual do colaborador da RDP, Jorge
Soares, ou procurando desacreditar a própria figura da estadista, sendo de
destacar, neste quadro, uma outra referência no Editorial às «condutas e
afirmações que não se podem classificar de honestas porque objectivamente
falsas e/ou demagógicas». Detecta-se também uma assunção de que o que está em
causa é uma perseguição do foro pessoal, já não é, tão só, o confronto de
oposições políticas. O que por sua vez é igualmente testemunhado pelo
depoimento de Teresa Santa Clara Gomes, «Está-se a fazer uma construção para
deitar abaixo a sua personalidade.» (O Jornal, 3 Agosto: 4)
Como já referido, regista-se uma clara denúncia, por parte de O Jornal aos
ataques que os partidos da direita e do centro vinham orquestrando contra Maria
de Lourdes Pintasilgo. Mas, o que parece de maior relevo na posição deste
semanário é a tentativa, igualmente clara, de dar suporte à figura de Maria de
Lourdes Pintasilgo e ao sentido do seu governo. Essa tentativa volta a fazer-se
por apoio na linha do Catolicismo como é o caso do realce dado à nomeação de
Sousa Franco para o Governo e ao agrado que tal nomeação suscitará na Igreja ,
e também na explicitação do valor do carácter da Primeira-ministra, e seu
Governo, como, por exemplo, sublinham as palavras de Remy Freire:
(...) tão grande coragem, espírito de abnegação ou pureza de
intenções (...) importante passo para inserir Portugal numa senda de
regeneração moral, de restabelecimento da justiça social (...).(O
Jornal, 3 Agosto: 13)
Finalmente, esta procura de suporte a Maria de Lourdes Pintasilgo vem, de novo,
pela ressonância popular (não populismo) que pode ter a declaração de Bruto da
Costa: «dar voz a quem a não tem.»
7. A questão da mulher: modelos de estereótipos
A presença de Maria de Lourdes Pintasilgo no espaço da política,
especificamente neste cargo governativo, suscitou um leque diferenciado de
reacções imbuídas de uma concepção estereotipada sobre o género feminino.
Por um lado, autores como Maria Velho da Costa, Augusto Abelaira, Cáceres
Monteiro, Rui Osório e Pedro Remy aclamam a sua nomeação incorporando
expressões de forte regozijo e elevando-a mesmo a uma figura messiânica capaz
de recuperar valores éticos, de despoletar a crença num rumo novo, enfim,
despertar a fé e alavancar a acção numa transformação possível. Observam-se
expressões como «aparição» (Maria Velho da Costa, O Jornal, 27 Agosto: 5),
«guia espiritual» (Rui Osório, O Jornal, 10 Agosto: 4), «pendor espiritual e
talvez até místico» (Remy Freire, O Jornal, 3 Agosto: 13), «milagre possível»
(Augusto Abelaira, O Jornal, 3 Agosto: 9) que permitem enquadrar esta visão
numa perspectiva de religiosidade solene face à mulher que agora conduz o leme.
Por outro lado, escuta-se precisamente o oposto. Para além de toda uma
construção baseada na suspeição e na aversão política, a mulher Maria de
Lourdes Pintasilgo traz consigo algo de desconhecido, uma dedicação resoluta,
uma inédita eloquência capaz de interferir com o status quo e por isso
perigosa.
Há que ter cuidado com esta mulher que já ultrapassou, brilhantemente, muitos
dos obstáculos de uma sociedade tradicional, assente no poder patriarcal, que
inevitavelmente colocam à ascensão e distinção de qualquer mulher. Talvez por
isso alguns dos rótulos que lhe são lançados representem em essência a inépcia
masculina de reconhecer nas suas concidadãs a capacidade de gerarem, não
exclusivamente vida biológica, mas a aptidão de criarem conceitos,
conhecimento, alternativas...
Retome-se apenas como os melhores exemplos, as designações de «neogonçalvista»
ou a de «Melo-antunista» que transportam consigo, de alguma maneira, a ideia de
seguimento, não a de originalidade. Isto é, espera-se do sujeito feminino
quando entra no restrito palco da política, sobretudo governativa, que se
integre nos preceitos já existentes, que não aspire a sulcar novos caminhos.
Daí que, Maria de Lourdes Pintasilgo, sob esta perspectiva, seja delineada como
"neo..." ou seguidora de qualquer "...ismo" já vigente. Todavia, sobre isto
mesmo dirá a própria:
«Não, não sou meloantunista. Melo Antunes é que é «marialurdista» (O
Jornal, 10 Agosto: 15).
Um outro exemplo ainda, poderia ser o simbólico preconceito, o último argumento
à falta de melhor, por parte de um paradigma tipicamente masculino, que é o de
referenciar como saias e espartilho qualquer intrusão feminina no reduto dos
homens. É aqui também que se escuta o receio masculino das potencialidades
femininas. Se saias e espartilhos transportam consigo alguma conotação sexual,
então a mulher poderá ser apreendida na bivalência da atracção e do receio.
Desejada mas temida por uma mentalidade espartilhada pelos estereótipos.
Epílogo
Como observado, verificam-se, sem surpresas, posições antagónicas no desenho do
perfil da personalidade em estudo. Por um lado, um retrato em tom aclamatório,
cujos traços enaltecem as características da figura. Por outro, uma estratégia
que, impossibilitada à partida de negar os reconhecidos atributos da
individualidade em questão, recorre a tácticas indutoras de reticências, de
dúvidas, de suspeição que culminam com o medo do desconhecido.
A título de conclusão exemplificativa, poder-se-ia esquematizar, numa forma
muito directa, algumas dessas tácticas:
Se é católica é, mas, «catalaica» e progressista (Expresso
revista, 21 de Julho)
Se é política é, mas integrada «(...) numa fase de neogonçalvismo
rococó, de saias e espartilhos», ou com uma visão quixotesca (Marcelo
Rebelo de Sousa, Expresso, 3 de Agosto: 2)
Se é inteligente é, mas, de uma inteligência (perigosa?) (Expresso
revista, 21 de Julho)
Se é carismática, é, mas, «É bom não subestimar o 'élan' criativo
de Lourdes Pintassilgo» (Expresso revista, 21 de Julho)~
Se é apartidária é, mas, o PS «talvez não tenha sobre Maria de
Lourdes Pintassilgo o controlo que muita gente julga» (Expresso
revista, 21 de Julho)
Se é cosmopolita é, mas, «excessivamente terceiro-mundista ou Melo-
antunista» (Expresso revista, 21 de Julho)
É mulher, mas, solteirona, «de pelo na venta, (Expresso revista
21Julho)
Finalmente, numa inspiração visionária, tem de se realçar o texto de Maria
Velho da Costa como a pedra angular da interpretação sócio-simbólica que se
vivia em Portugal. Esta autora, de forma arguta, consegue verbalizar o
pensamento dominante, mas escondido ou dissimulado nos discursos dos
considerados intervenientes e actores do palco político.
Ironicamente, Maria Velho da Costa coloca a nu o entendimento político que no
fundo se sentia, mas não se verbalizava. A mulher Maria de Lourdes Pintasilgo
é chamada para segurar o barco, enquanto os homens discutem de facto as
decisões. São eles que detêm e continuam a conservar o poder. Em jeito de
linguagem popular, parece escutar-se: "Oh Maria não penses lá que isto é para
te habituares, mantém o lume aceso enquanto nós estudamos e preparamo-nos para
ir a votos. Depois, podes continuar nos teus afazeres de cuidar dos pobres
coitados". O espaço público, sobretudo o da política, não parece estar muito
disposto a abrir-se à participação feminina. É na privacidade da casa, da
família que as marias devem ficar.
Que nada ou muito pouco mudes em termos de poderes e instituições,
que tudo mudes em termos de atitudes. Preparar o caminho a que
senhores? (Maria Velho da Costa, O Jornal, 27 Julho: 5)
Notas
1 Note-se que poder-se-á entender esta postura de o Expresso, em termos de 1.ª
Página, na medida em que este semanário transporta para a capa do seu caderno
adicional revista a opção de publicar, ou não, fotos, de maior ou menor
dimensão, de acordo com a sua escolha editorial.