Queer, mas não muito: género, sexualidade e identidade nas narrativas de vida
de mulheres
Introdução
A teoria queer pretende articular reflexão teórica e intervenção política,
emergindo na sequência do debate entre abordagens essencialistas e
construtivistas da identidade (Cascais, 2004; Santos, 2006). Com epicentro nos
estudos literários e influenciada pelo construtivismo, pelo pós-estruturalismo
e pelo pós-modernismo, a abordagem surge na década de 1990, salientando as
relações fluidas, incoerentes e instáveis entre corpo, sexo, género e desejo,
questionando a existência de fronteiras estáveis entre «normalidade» e «desvio»
e a hetero-normatividade (Dynes, s.d.; Jagose, 1996; Penn, 1995). No seu
âmbito, o que define a identidade não é uma essência, mas um trabalho
permanente de (re)construção discursiva através do qual se constitui o/
a próprio/a sujeito/a.
Com base nos resultados de uma investigação sobre a construção social da
identidade, articulando género e sexualidade (Brandão, 2007), pretende-se
problematizar estes eixos analíticos. Os dados referem-se às narrativas de vida
de mulheres residentes nos distritos do Porto e Braga, distribuídas por três
gerações, de acordo com o período da sua adolescência e início da idade adulta:
uma, anterior a Abril de 1974; outra, situada na fase de estabilização da
democracia portuguesa; finalmente, uma geração cuja adolescência tem lugar a
partir da década de 1990. As entrevistadas foram escolhidas com base num único
critério: terem mantido pelo menos uma relação homo-erótica, independentemente
das suas identidades sexuais1.
Confrontando os argumentos queer com os resultados da investigação de actores/
as concretos/as e da sua subjectividade, este artigo insere-se no debate acerca
do modo como o conceito de performatividade e as teses da fluidez identitária
podem ser aplicados ao estudo das identidades. Partindo da discussão das
propostas queer, são abordadas duas dimensões de análise: a maneira como a
relação entre género, desejo e sexualidade é perspectivada pelas entrevistadas
em ligação com as identidades que reclamam e com a concepção de identidade que
defendem; de que modo é essa identidade construída através de práticas de
modelação e apresentação do corpo.
1. O que há de queer na identidade?
Recuperando um termo com conotação injuriosa – queer é uma expressão possível
do insulto homofóbico, significando «bicha» ou «maricas» –, a teoria queer
pretende unir sob ele todas as formas de (des)identificação proscritas,
«estranhas», «esquisitas», não conformes. Queer seria um termo aplicável a um
conjunto de identificações engendradas por exclusão pelos discursos que
produzem as categorias identitárias normativamente aceites (Butler, 1999b).
Como a existência da norma implica traçar fronteiras que definem o que é
«aceitável», «bom», «normal», os mecanismos da sua produção revelam e forjam o
seu negativo, o «inaceitável», «mau», «anormal».
Nas propostas queer, não está em causa a produção de identidades alternativas,
mas a exploração de situações que, revelando os limites da norma, emergem como
potencialmente destrutivas para esta. A abordagem assume-se como um projecto
revolucionário de destruição das categorias identitárias, vistas como limites à
expressão da multidimensionalidade e incoerência que caracterizam o ser humano
(St-Hilaire, 1999; Santos, 2006). A essência e congruência de qualquer
identidade são questionadas, apostando-se na revelação e crítica dos mecanismos
que, ao produzirem uma categoria identitária, geram novos espaços de
marginalização. Queer é «uma categoria de identidade que não tem interesse em
consolidar-se, ou mesmo em estabilizar-se», «é menos uma identidade do que uma
crítica da identidade» (Jagose, 1996: 3).
Tal missão parece, todavia, comprometida, pois, ao propor-se uma designação,
está-se a dar o primeiro passo para a sua objectivação. Enquanto sistema de
classificação, a linguagem traduz maneiras de ver a realidade que atribuem
existência real ao que é classificado pela actualização das categorias de
pensamento nas disposições e práticas dos/as actores/as que lhes dão, assim,
literalmente, corpo. Ela sustenta sistemas de nomeação que possuem um «poder
performativo» (Bourdieu, 1987; Butler, 1999a), que têm a capacidade de fazer
existir na realidade aquilo que enunciam.
Judith Butler (1999a, 1999b) propôs a ideia de que o género é performativo,
i.e., produzido através de repetições ritualizadas que o naturalizam enquanto
corpo sexuado e fundamento primordial da heterossexualidade normativa. A
realidade do género seria produzida através de discursos, entendidos como
práticas que formam sistematicamente os objectos de que falam, constituídos por
signos, mas não redutíveis a eles (Foucault, 1969: 66-67). O género seria
trazido à existência através de práticas, rituais e nomeações continuados,
sendo a sua incorporação entendida como a produção continuada da sua
inteligibilidade num contexto sociocultural particular.
A dimensão ritualizada da noção de performatividade apresenta similaridades com
a noção de habitus de Pierre Bourdieu (cf. Butler, 1999a: 192, nota 8): ambas
sublinham a produção diacrónica da identidade no decurso da qual o indivíduo se
constitui como sujeito/a – e como sujeito/a de um tipo particular.
Este processo implica uma definição e «naturalização» de fronteiras,
especialmente quando a identidade surge como fundamento de lutas políticas
(Bourdieu, 1989, 1998; Butler, 1999b).
Ora, a disseminação e apropriação do termo queer parecem ter originado uma nova
solidificação identitária (Jagose, 1996; Santos, 2006) mais do que uma
representação destinada a simbolizar a contestação ao policiamento das condutas
e o direito à expressão individual e individualizadora. Se noções como a de
performatividade podem ser usadas para o questionamento subversivo das
categorias identitárias e se a sua representação – também no sentido lúdico –
pode reflectir a vontade de expor a sua dimensão construída, em muitos casos, a
reclamação do queer tende para a reificação do não normativo, levantando a
questão de saber se consegue deslocar a norma (Eves, 2004; Jagose, 1996; St-
Hilaire, 1992). Este tipo de apropriação terá mesmo levado de Teresa de
Lauretis, a quem é atribuída a cunhagem da expressão queer theory2, a abandoná-
la (Dynes, s.d.; Jagose, 1996).
Com efeito, como defende Butler (1999b: 228),
Se o termo queer pretende ser um sítio de contestação
colectiva, o ponto de partida para um conjunto de reflexões
históricas e imaginários futuros, terá que permanecer o que
é, no presente, nunca inteiramente apropriado, mas sempre e
apenas redefinido, revolvido, a partir de um uso anterior e
na direcção de propósitos políticos urgentes e em expansão.
É difícil compreender a exequibilidade deste projecto, especialmente
considerando que a identidade, e sobretudo o sentimento de se possuir uma
identidade, estão ligados à ideia de uma certa constância e coerência ao longo
do tempo, e que é face à alteridade que o Eu pode afirmar-se tanto pela
identificação, como pela diferenciação (Dubar, 1997; Jenkins, 1996; Tap, s.d.).
Outro aspecto problemático nas propostas queer é a não explicitação do papel
do/a actor/a nos processos analisados. Além dos discursos sobre o género e a
sexualidade, dar conta dos processos de identificação implica perceber como é
que os/as actores/as intervêm na produção, consolidação e subversão das
categorias identitárias. A identidade é uma síntese em curso de um conjunto de
(des)identificações, que exige um trabalho activo por parte de um/a sujeito/a
(Tap, s.d.). É preciso dar conta do modo como essa produção ocorre, como este/
a chega a uma certa identificação. Em especial, considerando que o género se
define também pela sua íntima ligação à (hetero)sexualidade, o que acontece, ao
nível da identidade de género, com aqueles/as que não se conformam às normas
que regulam a sua coerência? Até que ponto a fuga à heterossexualidade
hegemónica se traduz numa perda do sentido do lugar de género, como sugere
Butler (1999a: xi)? Essa perda é tomada como demonstração da instabilidade
intrínseca de qualquer identidade, ou está em causa a fabricação e consolidação
de identidades alternativas que produzem novos espaços de exclusão?
2. Visões da identidade – fluxo ou fronteira?
A (re)produção do género normativo passa pela imposição da heterossexualidade
(Almeida, 1995; Butler, 1999a; Cucchiari, 1994; Rich, 1980; Rubin, 1997). Uma
parte importante de ser mulher inclui o desejo por um homem, constituindo o
desejo homo-erótico uma transgressão das fronteiras do género normativo, um
«elemento anómalo» (Douglas, 1994). Além disso, as identidades sexuais e de
género3 são geralmente apresentadas como categorias bipolares e discretas. O
desejo homo-erótico tende a originar confusão, ou estranheza, porque se presume
que o desejo sexual se deve dirigir a alguém do outro sexo e que existem
fronteiras claras entre os «tipos» de pessoa que se pode ser. Isto mesmo é
relatado por Alexandra quando descreve os seus pensamentos quando se apaixonou
pela primeira vez por outra mulher:
«“Meu Deus! Como é que eu estou a fazer uma coisa destas?!
// Eu não sou homossexual. Eu já namorei com rapazes. Eu
gosto de rapazes. Eu sinto-me bem com os rapazes”…».
Alexandra, 37 anos
No discurso da maioria das entrevistadas, como no discurso socialmente
dominante, é-se heterossexual ou homossexual. Raramente se equaciona a
possibilidade do desejo sexual ser eminentemente fluido ou do objecto sexual
não ser determinante na definição identitária. Isto é especialmente claro na
visão corrente da bissexualidade como correspondendo à situação
«[…] [d]os “mal-definidos”… // Eu acho que, se há
bissexuais, é porque ou são hetero que não conseguem
encarar-se como hetero, ou são gays e lésbicas que não
conseguem encarar-se!»
Paula, 23 anos
Em termos psicológicos e sociológicos, adoptar uma identidade com fronteiras
precisas, como a identidade lésbica, «permite algum tipo de estabilidade e
continuidade na relação com os outros» (Markowe, 1996: 33). Ela estabelece uma
ordenação da realidade que, aparentemente, não se presta a confusões porque
delimita cenários presentes e futuros de acção, facilitando a interacção.
A crença na existência de identidades sexuais estanques tem sido reforçada pela
vulgarização da «história de saída do armário», a que Barbara Ponse (1978: 124-
125) chamou a «trajectória gay», que se tornou no guião privilegiado da
subcultura gay e lésbica, o seu princípio de construção identitária. A
conformidade a esse guião tornou-se num critério de pertença à comunidade gay e
lésbica e num instrumento de institucionalização da homossexualidade. No modelo
proposto, está em causa não só um descobrir-se, revelar-se e assumir-se, mas um
tornar-se (Stein, 1997: 67-69), que se converteu numa espécie de «confessional
colectivo». O processo culmina, tipicamente, numa estabilização da identidade
gay ou lésbica, afastando outras possibilidades de identificação (Jensen, 1999;
Stein, 1997), mesmo quando, em privado, essa identidade é considerada menos
permanente do que se apregoa. Apesar da presença da ideia de uma certa
previsibilidade futura no sentido de as entrevistadas se continuarem a definir
como «lésbicas», «gays» ou «homossexuais», esse sentido de permanência é
percebido, essencialmente, em termos de probabilidade ou improbabilidade:
«Eu dizer que é impossível, não digo, até porque há homens
que me continuam a dizer alguma coisa e a ser interessantes
e a atrair-me, mas, geralmente, aquilo que eu sinto é que a
probabilidade de acontecer é pequena. // Mas tenho mais
dificuldade em imaginar uma relação muito continuada com um
homem! // Eu acho que vou morrer com mulheres!»
Marisa, 37 anos
«Já fui capaz de me apaixonar por um homem. // Parece menos
provável, muito menos. // Não quero dizer que não porque
acho que não se pode ter a certeza, mas, neste momento,
não».
Célia, 37 anos
A questão da constância identitária é também interessante pela sua ligação a
teorias etiológicas, «psicologias espontâneas» que explicam a existência e
contribuem para a produção de tipos identitários (Berger e Luckmann, 1989: 178-
180). As explicações essencialistas predominam entre as entrevistadas mais
velhas e entre aquelas cujo meio privilegiado de sociabilidade é o meio gay e
lésbico. Os seus contextos de socialização, em termos geracionais e de grupos
de pares parecem contribuir para privilegiarem teses essencialistas mais ou
menos moderadas, que entendem o lesbianismo como traduzindo um self autêntico a
«descobrir», uma «verdade» interior que aguarda revelação (Stein, 1997; Ponse,
1978). O termo «descoberta» é recorrente nas narrativas destas mulheres:
«Acho que nasceu comigo! Não houve nada, nenhuma situação,
que me tivesse causado isso. // Nasceu, veio cá para fora…
Podia nunca ter vindo! Podia nunca ter descoberto!»
Margarida, 33 anos
Embora nem sempre explicitem o que significa dizer que é algo que «nasce» com
elas, os argumentos tendem a recair sobre factores genéticos. Mas este tipo de
discurso tende a sublinhar, paralelamente, a presença de contextos
facilitadores ou inibidores da actualização de uma espécie de «lesbianismo
latente», patente na afirmação de Margarida que «podia nunca ter descoberto».
A pressão externa no sentido quer da conformidade à norma, quer ao «padrão
desviante», é outro factor avançado por algumas entrevistadas para explicarem a
adopção de uma identidade lésbica. Leonor refere-se à pressão sofrida quando a
sua primeira ligação homo-erótica se tornou conhecida, defendendo que
«Se as pessoas me tivessem deixado, com o tempo, viver as
coisas, contar aos meus pais na altura certa… // Foi tudo
precipitado, precipitado demais, e eu própria me pergunto,
agora já numa introspecção muito profunda, se o processo
tivesse sido normal, até que ponto é que eu estava aqui
como estou?… Se calhar, se tivesse encontrado as mesmas
pessoas, nas mesmas alturas, tinha acontecido tudo
igual!…Se calhar, não!»
Leonor, 35 anos, EE
Sendo as identidades sexuais comummente apresentadas em termos mutuamente
exclusivos, um envolvimento homo-erótico tende também a ser entendido pelos/as
outros/as como manifestação de uma identidade lésbica. Ao ser conhecido, ele
compromete e limita as possibilidades dessa imagem vir a modificar-se,
mostrando que a estabilização identitária é produzida através de um jogo de
expectativas e reclamações mútuas (Goffman, 1989; Strauss, 2002). A maioria das
entrevistadas acaba, assim, por reclamar uma identidade «lésbica»,
«homossexual», ou «gay», sendo minoritários os casos em que é visível a
hesitação ou a recusa em adoptar uma identidade institucionalizada. Nestes
casos, a identidade sexual é entendida como circunstancial e fluida, desprovida
de centralidade particular:
«[…] não me assumo como lésbica, não me assumo como fufa,
não me assumo como bissexual, ou assumo-me como essas
coisas todas consoante os contextos, se isso for relevante.
Agora, para mim, não é, de todo, importante!»
Bárbara, 31 anos
«A ambiguidade é uma coisa muito bonita! // Se calhar, a
minha identidade também é assim… Não sou formatada,
formatada! // Acho que a vida é muito mais rica, muito mais
plural, muito mais livre! // As pessoas são todas
bissexuais, são todas homossexuais… As pessoas são isso
tudo se tiverem oportunidade de experimentar…».
Teresa, 52 anos
Estas entrevistadas aproximam-se de uma disposição queer, nomeadamente pela
crença na não linearidade entre sexualidade, afectos e identidade e pelo
questionamento da importância das categorias sexuais, patentes no discurso de
Catarina, que argumenta que
«[…] a pergunta nunca está muito bem formulada… Não é a tua
pergunta, é a pergunta que o mundo se põe sobre… // […]
essa visão do tema já é uma visão que é uma linguagem
contextual… Quer dizer, neste contexto, fala-se de
orientação sexual o que, noutra cultura qualquer, noutro
contexto qualquer, é ver o problema pelo lado errado! /
/ Isso já é uma construção, já responde…».
Catarina, 35 anos
Para compreender a presença deste tipo de discurso, é fundamental considerar os
efeitos de classe e trajectória destas entrevistadas. Além de serem todas
originárias e pertencentes à fracção dominada da classe dominante (Bourdieu,
1979), têm formação superior, estão ligadas ao mundo das artes e/ou académico e
o reconhecimento do desejo homo-erótico não levou à substituição dos grupos de
pares originais pela comunidade gay e lésbica. Estas variáveis entrecruzam-se.
Por um lado, a divulgação das teses queer, em Portugal, tem-se confinado a
círculos relativamente restritos, precisamente o meio académico e o circuito
das artes. Por outro lado, o mundo artístico caracteriza-se pela afirmação da
individualidade, pela contestação dos discursos dominantes, pela tolerância à
variação, à incongruência e à ambiguidade. Finalmente, histórica e
sociologicamente, a fracção dominada da classe dominante tem recusado a
assimilação do indivíduo ao grupo, marcando o seu direito à livre expressão
como forma de realização pessoal. As características dos contextos sociais de
apoio destas entrevistadas sugerem, pois, um menor grau de pressão grupal no
sentido da conformidade a categorias identitárias estanques. Estes factores
contribuem para explicar por que convivem mais facilmente com a incerteza e
indefinição identitárias, elementos perturbadores, ao passo que «construir um
sentido de espaço, formar uma comunidade e estabelecer fronteiras, por muito
precárias que sejam, promove uma sensação de segurança» (Stein, 1997: 199).
Isto não significa que não ocorra uma delimitação de fronteiras que garanta
alguma estabilidade. A própria recusa das classificações normativas constitui
um traçar de limites que valoriza a heterodoxia. Estas entrevistadas não
ignoram, nem recusam, a dimensão homo-erótica das suas identidades, porém, a
linha divisória não coincide com a da rotulagem convencional, mas com a sua
recusa e desvalorização. Elas não se definem por uma designação particular, mas
por contraposição ao quadro normativo dominante, pretendendo situar-se «entre,
mais do que dentro de categorias de identificação» (idem: 200).
No trabalho de (re)construção identitária estão, pois, em causa variáveis que
as entrevistadas não controlam e que se situam para lá do discurso. São os
casos da classe, da pertença geracional ou da presença dos/as outros/as com
quem têm que interagir, que impõem limites às suas possibilidades de escolha e
que sustentam e explicam diferentes visões da identidade.
3. Qual é o género lésbico?
Constituindo a atracção homo-erótica uma violação do princípio que faz do
género o sinal externo e visível da identidade sexual, quando confrontadas com
ela, as entrevistadas procuram enquadrar a nova experiência. Na busca de
coerência entre passado e presente, sustentáculo crucial da identidade,
socorrem-se de dois instrumentos: crenças e teorias espontâneas que apresentam
a lésbica como uma mulher masculina, estereótipo reforçado pela noção
psiquiátrica de «inversão sexual» (Katz, 1996; Weeks, 1995); e a «história de
saída do armário», que impele à procura de «sinais» anteriores de um
lesbianismo «latente».
A maioria das entrevistadas, evocando a adolescência, sublinha a sua não
conformidade às «normas de comportamento e aparência estereotipadamente ligadas
a cada género» (Appleby e Anastas, 1998: 52), encarada como sinal de
«diferença» face às outras raparigas, que passa pelo vestuário (a recusa de
saias e vestidos), pela (ausência de) maquilhagem, pelo cabelo (curto), pelos
(poucos) cuidados com o corpo, pelas atitudes, pelas predilecção por
brincadeiras ou actividades tradicionalmente conotadas com o outro sexo. A
recorrência da temática leva Raquel a declarar que tem
«[…] sempre a sensação de que quase todas as mulheres
homossexuais devem dizer isto quando falam da infância, que
é “Eu era muito Maria-rapaz!”»
Raquel, 31 anos
A não conformidade de género é avançada como elemento explicativo
predominantemente por entrevistadas originárias das fracções de classe mais
baixas e está ausente dos discursos das mais jovens. O argumento deve ser
interpretado, sobretudo, como oferecendo pistas para uma interpretação
retrospectiva da identidade (Plummer, 1996: 71), garantindo o sentimento de
continuidade. O facto de não se encontrar tais relatos entre as mulheres mais
jovens está provavelmente ligado a mudanças sociais que têm esbatido as
diferenças de género e alterado visões do homo-erotismo como equivalente de uma
espécie de «inversão». Isto também explicaria a sua preponderância entre as
mulheres originárias de fracções de classe onde o dimorfismo de género é mais
acentuado (cf. Bourdieu, 1979).
Mas em nenhum caso está em causa a identidade de género. Quase todas apontam a
«feminilidade» e o «mundo feminino» como factores centrais de atracção amorosa,
sustentando-se num imaginário próximo da noção de woman-identified-woman
(Newton, 1984). É recorrente a referência a aspectos alegadamente
característicos do relacionamento lésbico que enaltecem os afectos e as emoções
em detrimento da dimensão sexual/genital:
«Eu acho que é o ser mulher… // Um homem pensa como um
homem. É diferente, tem um pensar diferente… É muito mais
sexuado, mais físico, para já não falar na parte machista…
A mulher é um ninho de carinho, de complementaridade, que
eu não encontro num homem, embora tenha tido uma
experiência. É o lado feminino da mulher que me atrai. Que
nem por isso é o lado físico, obviamente, mas é o eu
feminino».
Margarida, 33 anos
O rompimento com a heterossexualidade hegemónica não conduz obrigatoriamente à
recusa da identificação como mulheres, mas à sua reelaboração em moldes que
mantêm uma ligação com o género normativo. É a ruptura com este que emerge como
problemática, algo particularmente visível nas manifestações generalizadas de
resistência à «lésbica máscula», consagrada na figura da «camionista»4. A não
identificação com esta é apreendida por uma divergência estética ligada às
dimensões visíveis da apresentação, como o vestuário ou o corte de cabelo,
classificados como «masculinos». Mas o aspecto estético é menos salientado do
que a hexis corporal, ou uma atitude mais agressiva, nomeadamente no que
respeita aos rituais de sedução:
«Pela maneira de se sentar… Senta-se em frente da outra… A
maneira de olhar, de cima a baixo, parece que a está a
comer com os olhos… // Como um homem olha uma mulher. Se
essa mulher lhe interessa, já está a despi-la com os olhos,
parece que a está a comer…».
Carolina, 43 anos
A camionista é a «mítica lésbica máscula», a «verdadeira invertida» (Newton,
1984), durante muito tempo considerada o expoente do lesbianismo, e definida
pelas entrevistadas em termos similares aos dos primeiros sexólogos:
«Provavelmente, é uma mente masculina num corpo feminino».
Carolina, 43 anos
Comum a esta imagética é a suspeita de uma «disforia de género»5. Apesar da
lésbica que se confunde com um homem poder ser encarada como uma representação
ou incorporação problemática do género e não como mera imitação da
masculinidade masculina, representando, «simultaneamente, a masculinidade
feminina e uma rejeição da feminilidade anatómica imposta» (Halberstam, 1998:
126), para as entrevistadas, ela é a manifestação de algo «errado» na relação
entre género e sexo. A rejeição que provoca resulta da dificuldade das
entrevistadas lidarem com uma infracção de género incompatível com as suas
autodefinições como mulheres (Markowe, 1996; Jenness, 1993).
Se a «lésbica máscula» é um tropo problemático, o mesmo acontece com a «lésbica
feminina». Ao contrário da primeira, a feminilidade da segunda geralmente
exclui suspeitas de lesbianismo. Precisamente por isso, tende a ser vista como
uma lésbica «não assumida», que oculta o seu lesbianismo, podendo passar por
heterossexual (Ponse, 1978; Stein, 1997), insinuação presente nas declarações
de Leonor, que as define como
«[…] extremamente femininas, que ninguém diria que são
lésbicas, e que são extremamente discretas, não sei se
assumidas ou não – isso já é outra questão –, mas que são
mulheres «normais», passam na rua e ninguém imagina,
sequer!»
Leonor, 35 anos
A visão que algumas entrevistadas partilham do significado deste arquétipo
revela um quadro normativo subcultural que não só questiona, como menospreza –
pela insinuação de frivolidade e passividade – uma feminilidade da qual fazem
questão de se distinguir. Na óptica de Leonor,
«[…] de uma maneira geral, os homossexuais – as mulheres –,
normalmente, são práticas, não se preocupam muito com a
beleza, não se pintam, a maneira de vestir é, normalmente,
mais prática, não é necessariamente masculina, cabelo mais
para o curto… // E, normalmente, as mulheres que, por
coincidência, até são menos inteligentes, pintam-se imenso,
cuidam imenso da imagem e, se calhar, isso é um escape para
não pensarem, porque não lhes interessa pensar, nem viver
mais nada…».
Leonor, 35 anos
Estes comentários reenviam para três dimensões de análise: revelam a
institucionalização da identidade lésbica e da identidade heterossexual
feminina, traduzida na existência de «fachadas» próprias (Goffman, 1989);
mostram que a reclamação de pertença a uma categoria pressupõe a adopção da
fachada correspondente; indiciam a presença, no âmbito da subcultura lésbica,
de uma fachada «adequada» da lésbica, assente numa estética andrógina, uma
mistura de géneros raramente equivalente à ambiguidade total (Halberstam, 1998:
57). É aqui que a noção de performatividade se torna particularmente
elucidativa, permitindo compreender como o género – no caso, uma forma
particular de fazer o género – se constrói no âmbito de discursos culturais e
subculturais que fornecem os instrumentos necessários à sua incorporação. Mas o
género – apreendido e manifestado através da estética corporal – é entendido
pelas entrevistadas não só como uma forma de enunciação do que são, mas também
do que querem ser, resultando de uma modelação específica e pelo menos
parcialmente voluntária no contexto de uma comunidade que estabelece normas de
pertença. A possibilidade de reconhecimento dessa pertença é, aliás, valorizada
por algumas entrevistadas:
«Obviamente que há uma construção [da imagem], mas eu
sinto-me bem com essa construção precisamente porque não me
sinto bem com a outra… // Hoje em dia, faço algum gosto,
também, em manter uma imagem que continua a condizer com
aquilo em que me sinto bem, mas gosto que, principalmente
nos meios [gays e lésbicos], as pessoas percebam que eu sou
homossexual».
Raquel, 31 anos
O apelo à transgressão das fronteiras de género, incluindo o elogio da estética
andrógina, está ausente das narrativas das mulheres mais jovens, indicando
diferenças geracionais de socialização. As apreciações das entrevistadas mais
velhas apontam para uma mudança nas representações do homo-erotismo feminino
que se traduziu na multiplicação das suas formas de expressão e na perda de
relevância da masculinização como parte de um código de identificação
recíproca:
«Era um sinal importante nos anos sessenta (e antes disso)
uma certa masculinização, certos sinais para que se pudesse
dar o contacto, o que mostra o quanto era difícil e hoje
talvez não seja assim tão difícil, visto que esses sinais
estão bastante diluídos».
Emília, 54 anos
A masculinização é um critério fundamental de identificação, sobretudo em
momentos e/ou espaços em que o homo-erotismo feminino se caracteriza pelo
secretismo e pela invisibilidade (Faderman, 1992; Eves, 2004; Ponse, 1976),
razão pela qual terá sido mais relevante para as mulheres mais velhas.
Adicionalmente, o facto das entrevistadas mais jovens evidenciarem menor
ligação à comunidade gay e lésbica pode também explicar a ausência da apologia
de uma estética particular nos seus discursos, pois estão menos sujeitas à
coacção da conduta que resulta da existência dessa «idealização» (Goffman,
1989; Strauss, 2002).
As entrevistas mostram que a identidade resulta de um trabalho levado a cabo no
contexto de comunidades e discursos particulares sobre o que significa ser
determinado tipo de pessoa (Stein, 1997; Ponse, 1978), evidenciando a
interpenetração de discursos sobre a sexualidade e género, produzidos e
veiculados no âmbito das comunidades a que se pertence. Precisamente porque
esses discursos nem sempre são consensuais, o trabalho de (re)construção
identitária exige um/a sujeito/a dotado/a de uma certa reflexividade, que deve
efectuar escolhas, ainda que dentro de certos limites.
Conclusão
A identidade é dotada de plasticidade, mas, contrariamente ao que pretendem as
teses queer, a análise empírica dos processos de (re)construção identitária
mostra que ela se caracteriza por e carece de uma constância relativa (Jenkins,
1996; Tap, s.d.). Possuir uma identidade corresponde a um fechamento de
possibilidades, à estabilização e encerramento provisórios do Eu em torno de
uns certos predicados que excluem a actualização de outros. Não impedindo a
mudança e a inclusão de novos elementos na identidade, esse encerramento parece
essencial para a remoção do elemento da escolha ansiosa (McIntosh, 1992;
Markowe, 1996).
Como o género normativo está ligado à heterossexualidade hegemónica, o desejo
homo-erótico desencadeia um processo de (re)construção identitária que tende a
desembocar na reclamação de uma identidade «lésbica», «homossexual» ou «gay»,
ligada à produção de outros espaços de proscrição, como a bissexualidade,
equacionada com a indefinição e a inconstância. Parte do que significa «ser
lésbica» parece incluir um afastamento face à feminilidade hegemónica, apoiando
a tese de que certas práticas sexuais possuem a capacidade de desestabilizar o
género (Butler, 1999a; Rich, 1980; Rubin, 1997; Wittig, 1993).
A identificação como lésbica, uma identidade institucionalizada, implica uma
reelaboração da identidade de género que inclui uma remodelação dos modos de
apresentação do corpo (Faderman, 1992; Holliday, 1999; Markowe, 1996; Ponse,
1978; Stein, 1997). Noções como a de performatividade são aqui particularmente
heurísticas, desvendando a dimensão construída da identidade. Apesar da maioria
das entrevistadas salientar o facto de ser lésbica, as narrativas revelam um
trabalho que visa tornarem-se lésbicas, porém, garantindo uma certa coerência
entre identidades passadas e actuais. Este trabalho exige a presença activa de
um/a sujeito/a que se (re)constrói como ser coeso e inteiro, sob a influência
de discursos e condições estruturais e contextuais que não domina inteiramente
e que interferem no resultado final.
Quando os contextos de socialização favorecem a expressão do homo-erotismo,
encarando a relação entre identidade e prática sexual como fluida, plural e/ou
ambígua, a tendência para aglutinar ambas reduz-se. Uma visão da identidade
próxima da concepção queer está mais presente entre mulheres com acesso a
recursos discursivos alternativos que acentuam o carácter construído da
identidade. É, todavia, excepcional no conjunto das entrevistas, surgindo
ligada aos efeitos cruzados da classe com contextos de socialização e
trajectórias de vida específicos, todos concorrentes para uma menor propensão à
conformação a categorias identitárias discretas. A maioria das entrevistadas
encara a identidade lésbica como preexistente e relativamente estável. Esta
concepção mais essencialista não impede, todavia, a tensão entre o apelo ao
genético e a invocação de explicações mais construtivistas, sugerindo uma certa
consciência da instabilidade constitutiva da identidade.
Os resultados obtidos sugerem a necessidade de aprofundar e expandir a análise
dos pontos de tensão entre género e sexualidade. Apesar da presença de
identidades sexuais e de género institucionalizadas, as narrativas mostram
deslocações diversas face às suas normas definidoras. Um aspecto
particularmente interessante diz respeito à bissexualidade pelas dificuldades
de apropriação e institucionalização que levanta no âmbito da subcultura
lésbica (Ponse, 1978; Stein, 1997) e da cultura dominante (Weinberg, Pryor e
Williams, 1994). O aprofundamento destas questões pode constituir um contributo
relevante para o desenvolvimento das teses queer e para o seu projecto
político.