Personae «Masculinas» na videoarte de mulheres
Introdução
Foram numerosas as mulheres artistas, actrizes, escritoras, fotógrafas,
pintoras, performers e videoartistas que quiseram explorar as fronteiras
culturais da feminilidade e incorporar masculinidades. Entre estas temos Vesta
Tilley, Rosa Bonheur, George Sand, Claude Cahun e mais recentemente Eleanor
Antin, Adrian Piper, Cecilia Dougherty, Nan Goldin, Cindy Sherman, Laurie
Anderson, Suzie Silver e Aurora Reinhard. Houve diversos motivos e estratégias
adoptados, por razões de sobrevivência material, pelo desejo de incorporar um
self activo que a sociedade negava às mulheres, como estratégia política e
transgressiva, como recusa de aceitação e actualização dos estereótipos
associados aos papéis de género, como recusa do binómio masculino/feminino
imposto pela normatividade heterossexual ou por uma questão de internalização
da identidade de género1 masculina.
Este ensaio apresenta como tema central as peças de vídeo de artistas europeias
e norte-americanas nas quais as autoras incorporaram identidades tidas como
masculinas dentro da norma heterossexual vigente. O conceito de masculinidade
hegemónica ocidental2, o modelo cultural ideal de masculinidade, é produzido e
perpetuado através de um leque variado de textos culturais que se manifestam,
nomeadamente, na televisão, imprensa, internet, publicidade e cultura popular,
entre muitos outros discursos de poder. Esta ideologização das categorias
sexuais, fundamentada nas diferenças biológicas, interfere no quotidiano e na
função social dos sujeitos, consistindo numa forma de pensamento social que
diferencia valorativamente os modelos de pessoa masculino e feminino (Amâncio,
1998).
Ao incorporarem traços da «masculinidade hegemónica» – dureza, domínio,
sabedoria, controlo – as mulheres artistas transgrediram as normas da
heterossexualidade e revelaram e desconstruíram o mito da masculinidade como
algo essencial e evidente por si mesmo e como pertença exclusiva do sexo
masculino (Halberstam, 1998).
A videoarte surgiu nos anos 60 e foi para as mulheres artistas um medium
completamente novo e particularmente atractivo já que não tinha qualquer
história de exclusão das mesmas. Ao contrário das demais formas artísticas,
como por exemplo o cinema, estava livre dos códigos estéticos criados
essencialmente pelos artistas e críticos de arte masculinos. Possibilitou
rapidamente a passagem das mulheres do seu status passivo enquanto imagens,
objectos do olhar masculino, a criadoras activas de imagens.
Estas artistas recorreram a diversas estratégias formais e conceptuais que
desafiaram o poder patriarcal, influenciadas pelos debates culturais feministas
sobre questões de género. Contribuíram para enriquecer as teorias feministas ao
demonstrarem que, também no âmbito da arena artística, a masculinidade
dominante opera como uma norma de género, sendo somente uma construção
cultural, e, tal como a feminilidade, não é natural nem universal (ibid.,
1998).
A nossa análise recorre a uma metodologia feminista desconstrutiva – em
oposição à essencialista que sublinha a existência dos pólos feminino e
masculino, valorizando o primeiro – e pretende abraçar as diferentes
estratégias transgressoras utilizadas pelas artistas. Procuramos ao longo deste
ensaio contribuir para a análise da videoarte realizada por mulheres artistas
que, no nosso entender, não foi ainda suficientemente estudada. Já em meados da
década de 80, a investigadora e videoartista Catherine Elwes (1985: 190)
referia um fenómeno que continua a ser pertinente nos nossos dias: «temas de
espectadorismo feminino, sexualidade e (des)locação são ainda pobremente
teorizados em relação à performance e ao vídeo que é assumido em geral operar
do mesmo modo que o filme».
Videopersonae masculinas
Desde a década de 70 que numerosas investigadoras feministas vinham recorrendo
às teorias da psicanálise para entender o modo como a masculinidade e
feminilidade eram construídas pelos discursos patriarcais essencialistas
vigentes na cultura ocidental. Laura Mulvey é uma autora feminista pioneira na
análise da relação do aparelho cinemático com a diferença sexual. Segundo
Mulvey (1973), o cinema era estruturado de acordo com fantasias masculinas
voyeuristas e fetichistas. No seu artigo icónico «Visual Pleasures and
Narrative Cinema» de 1973, afirma que o olhar controlador fetichista e
voyeurista no cinema é masculino. Os espectadores são voyeurs privilegiados do
espectáculo erótico que é o espaço obscurecido da sala de cinema encorajados a
identificar-se com o olhar narcísico do herói. À heroína, o objecto passivo do
olhar de ambos, tal como à espectadora mulher, era-lhe negado o olhar activo.
No âmbito da videoarte as artistas recorreram ao potencial reflexivo do vídeo,
à sua capacidade de funcionar como espelho das suas diferentes subjectividades,
para dialogarem com as suas potenciais personae e desafiarem a existência de
identidades fixas normativas. Ligando a câmara a um monitor era possível, pela
primeira vez, o visionamento imediato do registo efectuado em tempo real, algo
que o filme não podia oferecer pois demorava semanas a ser revelado. Esta
natureza reflexiva do vídeo, no sentido da imagem registada ser prontamente
devolvida ao artista, adequava-se ao novo trabalho auto-reflexivo das mulheres
pois permitia uma consciência crítica quase instantânea do registo efectuado. A
arte feminista propunha-se criar uma imagem activa e dialogante da mulher. O
movimento das mulheres da segunda vaga, que se iniciou na década de 60,
recorreu a duas importantes estratégias (Elwes, 1985: 175). A primeira foi o
activismo político colectivo, já utilizada anteriormente pelas sufragistas da
primeira vaga3, que se manifestou nos movimentos pelos direitos civis das
mulheres, e a segunda a exploração da subjectividade individual por meio da
auto-análise, consubstanciada na famosa frase «o pessoal é político»4.
A artista americana de origem judaica Eleanor Antin descreve assim a sua noção
de identidade no artigo «Autobiography of the Artist as an Autobiographer »
publicado no Journal of the Los Angeles Institute of Contemporary Art, em
Outubro de 1974 (Bloom e Fox, 1999: 58):
Eu estou interessada em definir os limites de mim própria,
isto significa mover-me para fora, para dentro, para cima e
para baixo das fronteiras de mim própria. Os auxiliares
comuns para a autodefinição – sexo, idade, talento, tempo e
espaço – são apenas limitações tirânicas sobre a minha
liberdade de escolha (…).
Para Antin, inventar novas identidades foi a base da sua vida artística durante
cerca de duas décadas. Nos seus vídeos e performances ao vivo trocou
frequentemente os papéis culturais atribuídos ao género baseado na dicotomia
masculino/feminino. Parafraseando Lisa Bloom (1999), as questões de género, bem
como de etnicidade, estão sempre presentes no trabalho desta artista norte-
americana de origem judaica. As suas histórias têm como protagonistas um elenco
recorrente de personae – bailarina, estrela de cinema negra, enfermeira, e rei
– que exploram diferentes aspectos da sua própria identidade.
A primeira persona que Antin explorou foi o seu self masculino idealizado e
«perfeito», o homem arquetípico, o Rei. O assumir, por Antin, de um género que
não lhe era atribuído socialmente tinha como suporte teórico o postulado do
movimento das mulheres que afirmava que o género era uma construção cultural e
não um facto biológico. A artista acrescentou ao seu próprio rosto uma barba
postiça, pedaço a pedaço e documentou esta transformação na sua
videoperformance «The King», de 1972. Mais tarde, em 1974/75, desenvolveu outra
persona baseada no retrato de Carlos I, rei de Inglaterra, por Van Dyke, o
«King of Solana Beach».
A artista e filósofa afro-americana Adrian Piper criou, entre 1972 e 1976, a
performance «The Mythic Being Cycle I» em que se travestia como homem para
analisar o que o self podia significar dentro das normas sociais e políticas
vigentes. Parafraseando a autora feminista Lucy Lippard (1980: 5), o seu
trabalho artístico tem como tema central a auto-análise e as fronteiras sociais
provocadas pela xenofobia, racismo, sexismo e classicismo, tecendo comentários
devastadores ao sistema social norte-americano. No texto «Some Political Self-
Reflections» escrito por Piper (1980: 39), a artista refere que «A emergência
completa da individualidade e autoconsciência pessoal é ao mesmo tempo a
emergência da comunidade política e do empenho político».
Neste vídeo a artista, incorporando a persona de um jovem rapaz negro, veste-se
com roupas afro, óculos escuros e bigode enquanto fuma um Tiparillo. Passeia-se
por diferentes locais à volta da cidade dizendo um mantra – excertos do seu
diário pessoal – e é seguida por curiosos atraídos pelo equipamento e pelos
operadores de vídeo que a filmavam. Nesta videoperformance a artista questiona-
se sobre o modo como a sua máscara, que intencionalmente transgride as normas
de género, classe e raça, vai condicionar as percepções do público.
Em 1972 o crítico de arte britânico John Berger escreveu na sua obra «Ways of
Seeing» que a performance era uma condição básica de ser mulher pelo que não
carecia da presença de uma audiência real. Parafraseando este autor, o carácter
forte ou fraco da presença de um homem reflecte o poder físico, moral,
temperamental, económico, social e sexual que exerce sobre os outros. Pelo
contrário a presença de uma mulher, nos seus gestos, voz, opiniões, expressões
e vestuário, reflecte a sua atitude para consigo mesma e o seu grau de
vulnerabilidade perante os outros. Citando Berger (1999: 50), «Está quase
sempre acompanhada pela imagem que tem de si. Desde a mais tenra idade, ela foi
educada e persuadida a ver o que faz». A mulher incorpora dentro de si o
vigilante e a vigiada. Elwes (1985: 170), mais tarde, acrescentaria que o
terceiro elemento constitutivo da mulher é a pequena porção de subjectividade
própria que consegue resistir à normalização, «A imagem [cultural] que nós [as
mulheres] continuamos a produzir, não é criada por nós, mas as capacidades que
desenvolvemos para a incorporação da «feminilidade» podem e devem ser
exploradas para os nossos próprios fins». Segundo Elwes, devemos sair do velho
esquema do vigilante e da vigiada, usurpando a autoridade do vigilante
patriarcal e começando a representar os nossos próprios papéis.
Em 1976, Piper realizou uma performance vídeo no Whitney Museum de Nova Iorque
intitulada «Some Reflective Surfaces», a primeira da artista orientada
especificamente para uma audiência, que traduz de um modo eficaz esta questão
(ibid., 1985). Com um bigode pintado, Piper dança ao som de uma banda sonora
que combina três registos áudio diferentes. O primeiro é uma narrativa contada
por si própria sobre a sua experiência como go go dancer nos bares de Nova
Iorque em meados dos anos 60, o segundo é a música «Respect» da cantora Aretha
Franklin, e a terceira a voz de um homem – o seu vigilante internalizado a que
se refere Berger – que criticava os seus movimentos. A artista corrigia de
seguida os seus movimentos de acordo com as ordens patriarcais.
No mesmo período da década de 70, a artista alemã de origem checa Katharina
Sieverding explora, tal como as suas colegas norte-americanas, a relação entre
identidade e cultura. O seu trabalho absorve, sintetiza e comenta a relação do
indivíduo com a sociedade tecnológica. O sujeito, no seu trabalho artístico
autobiográfico, apresenta-se como um centro de resistência a qualquer
catalogação dentro das matrizes culturais e políticas normativas ocidentais. A
artista, como refere Abigail Solomon Godeau (Peipon, 2007: 299), apresenta como
tema central da sua obra o conceito de máscara e «sugere a intenção consciente
de colocar em primeiro plano a contingência, maleabilidade e mobilidade da
identidade feminina (…) [não obstante] o seu uso de uma escala gigantesca,
sugere, por outro lado, uma focalização sobre si própria enquanto persona». A
sua peça «Transformer», realizada em 1973/74, compõe-se de um conjunto de dois
trabalhos, um constituído por uma instalação de fotografias e outro por uma
projecção. O segundo consiste na projecção de três imagens lado a lado, uma da
artista, outra do seu colaborador Klaus Mettig e, por último, uma terceira que
combina os rostos de Sieverding e de Mettig numa nova identidade de género. Os
rostos metamorfoseiam-se de fotograma para fotograma consoante a pose, a luz, a
maquilhagem e outras manipulações técnicas da imagem como o efeito de silhueta,
o alto contraste e o muito grande plano. Daqui resultam novos rostos que
desconstroem a noção de um self unificado e exploram a posição desse novo
Outro. A questão do olhar é também central no seu trabalho. Embora utilizando a
técnica cinemática do grande-plano estático e fetichista, a artista confronta-
nos com o seu olhar controlador, não permitindo ao espectador qualquer
voyeurismo ou fetichismo.
De meados dos anos 70 a meados dos 80, muitas artistas feministas, como Martha
Rosler, Mary Kelly, Barbara Kruger, influenciadas pelas teorias do pós-
estruturalismo e da psicanálise, distanciaram-se do movimento de mulheres
artistas dos anos 60 e 70. Criticaram a celebração por estas artistas de uma
feminilidade inata e a recuperação de uma cultura tradicional feminina, crua,
visceral e emotiva que levava as mulheres a separar a esfera cultural da
biológica. Duvidavam do potencial subversivo do feminino pois temiam que as
mulheres fossem excluídas das teorias da linguagem. O ensaio psicanalítico,
determinante para a revisão das teorias essencialistas sobre masculinidade e
feminilidade pelas teóricas feministas da década de 80, «Womanliness as a
Masquerade» foi escrito em 1929 pela psicanalista Joan Riviere, colega de
Freud. Este ensaio foi publicado no número 10 do Jornal Internacional de
Psicanálise, e apresenta como tema central o estudo de caso de uma mulher,
profissional de sucesso, que procura a confiança dos homens através do flirt.
Segundo a perspectiva freudiana de Riviere, ela desempenha o papel da
feminilidade para evitar a ansiedade e também o castigo por parte dos homens. O
seu sucesso «masculino» torna-a fálica mas ela,
com receio de represálias, tenta escondê-lo por meio do flirt, desempenhando o
papel de uma identidade «feminina» falsa. Para Riviere (2004: 131), não existe
diferença entre feminilidade genuína e mascarada. A feminilidade é construída
de acordo com códigos sociais através dos quais o sujeito feminino se torna
mulher por um processo de mimese.
Na década de 80, a questão da feminilidade enquanto máscara bem como as teorias
do olhar, continuaram a ser debatidas pelas autoras feministas do cinema que
refutaram Mulvey. Mary Ann Doane, no seu ensaio de 1982 «Film and Masquerade:
Theorizing the Female Spectator», acrescentaria às teorias de Mulvey que a
diferença da posição entre homem e mulher não era apenas entre actividade e
passividade, como argumentara Mulvey, mas sobretudo entre distância e
proximidade em relação à imagem de si próprios no ecrã. Nos finais dos anos 80,
Teresa De Lauretis, Annette Kuhn e a própria Mulvey, reconheceram que o modelo
da mulher espectadora, ora experimentando uma identificação passiva com o
objecto mulher no ecrã ora adoptando uma posição masculina activa à custa da
abdicação do seu próprio género, era profundamente limitador. Segundo estas
autoras são possíveis leituras da imagem cinemática da mulher a partir de
posições críticas das/os espectadores.
Paródia e transgressão da cultura popular
Na década de 90 a arte e a cultura popular relacionaram-se de um modo
simbiótico. Foram várias as mulheres artistas que se dedicaram a expor os
estereótipos ligados ao género no contexto da cultura popular. Constituíram um
núcleo de resistência aos media enquanto meios de formação social e foi neste
tecido de oposição que surgiu na videoarte de mulheres uma tendência
fundamentalmente paródica.
No seu ensaio «Female Transgression», de 1996, a autora Laura Kipnis refere que
a técnica da inversão – um termo frequentemente utilizado pelo discurso
psicanalítico quando se refere à homossexualidade – na medida em que não é
considerado em si uma norma, pode ser uma estratégia política e estética para
subverter as identidades fixas de homem e mulher. Segundo Kipnis (1996), existe
um corpo crescente de vídeo informado por uma política queer que utiliza esta
estratégia ao inverter as normas da heterossexualidade. Associa ainda à técnica
de inversão a estética do grotesco, desenvolvida pelo teórico russo Mikhail
Bakhtin. Este autor celebra o marginal e o festivo, a paródia e o exagero, e
realça a exposição escandalosa do corpo e das máscaras de género e de tudo o
que a sociedade considera inapropriado para mostrar na esfera pública. Kipnis
(ibid.: 341) adopta o grotesco como estratégia feminista.
A artista americana Cecilia Dougherty explora as relações familiares, a troca
de papéis de género, a identidade lésbica e a cultura popular. Utiliza
estratégias do documentário e da biografia para analisar o modo como os ícones
da cultura popular são construídos no contexto social. Na sua peça
«Grapefruit», de 1989, baseia-se no livro homónimo escrito por Yoko Ono em
1964, um livro experimental ligado ao grupo Fluxus, de desenhos e projectos
artísticos com instruções para os leitores. A narrativa do vídeo, que se
desenvolve à volta de momentos cómicos da história de Lennon e Ono, não é
linear mas fracturada, e inclui reinterpretações performativas paralelas. Ao
elenco, formado por um grupo de mulheres e
um dançarino homem, foi pedido pela artista que representassem episódios
ruidosos das vidas dos Beatles e de Ono dos finais dos anos 60. Uma nova
narrativa sobre o conto mítico dos Beatles emerge da combinação das recriações
de mulheres drag dos anos 80. Nesta peça, a subcultura lésbica dos anos 80
apropria-se do território mítico heterossexual da cultura popular que consagrou
os Beatles, os famosos rapazes cantores. Ao transgredir as normas de género da
cultura popular, contribui para o entendimento do modo como esta constrói a
diferença sexual ao elevar a estrelas figuras masculinas da música pop. Segundo
a investigadora e videoartista Vanalyne Green (2006), Dougherty habita
literalmente a cultura dominante e reinventa um espaço social que inclui
aqueles que se desviam da norma heterossexual. Green (ibid.: 27) considera a
abordagem desta artista como uma invasão à cultura dominante.
É de salientar que já em 1972 a artista norte-americana Steina Vasulka
parodiara os Beatles na sua peça de vídeo intitulada «Let it Be». A artista,
retira a canção do seu contexto usual e atribui-lhe um tom perverso, ao cantar
dessincronizada e ao mostrar um grande plano dos seus dentes e rosto
contorcidos. Esta performance é simultaneamente agressiva, sensual e
transgressora – a Virgem Maria é nomeada ao longo da música.
A artista norte-americana Suzie Silver investiga questões de género e
sexualidade, no seu vídeo «A Spy (Hester Reeve Does The Doors)», de 1992,
parodia de igual modo o mundo masculino do rock and roll. A artista drag Hester
Reeve, em tronco nu, envergando uma barba e uma coroa de espinhos, mascarada de
Jesus Cristo, acompanhada por raparigas em cuecas pretas que lembram os filmes
pornográficos dos anos 60, canta a música erótica dos Doors «Eu sou um espião
na casa do amor. Eu sei o sonho com que tu sonhas, eu conheço o teu medo
secreto mais profundo (…)», referindo-se os desejos que nós tentamos reprimir e
esconder de nós próprias/os e das/os outras/os. Ambos os cultos patriarcais do
rock and roll e do cristianismo são aqui parodiados e transgredidos ao ser
inserida uma mulher como protagonista central, conseguindo-se assim a
descentralização do género masculino. Kipnis (1996) analisa esta obra e para
isso recorre ao filme de Oliver Stone «Doors», e à relação entre o rock and
rollamericano dos anos 60 e a apologia de uma sexualidade masculina – rock is
cock – em torno da qual se organizava a feminina. Este vídeo recorre à estética
do grotesco pela paródia de género, a sua provocação à religião, pelo corpo
feminino drag transgressor, pelo seu excesso e vulgaridade. A audiência é
convidada ao espectáculo do olhar em lugar de o criticar ou subverter, como
havia sido feito pelos discursos feministas da década de 80. Silver, juntamente
com outras jovens videoartistas como Sadie Benning e Cecilia Condit, na sua
maioria lésbicas, ao confrontarem-se com temas de sexo e representação rejeitam
as máximas da teoria do filme feminista sobre o prazer visual e o olhar
masculino. Os discursos moralistas das feministas, as suas interdições contra a
sexualidade, humor, cultura popular e prazer fizeram com que o feminismo
perdesse apoiantes. Segundo Kipnis (ibid: 334), as novas gerações de
videoartistas recusam as já conhecidas «figurações feministas como opressor/
vítima, sujeito que olha/sujeito que é olhado, pornografia masculina/erotismo
feminino e em vez disso inventam novas formas políticas e tacteiam em direcção
a novas formas de conhecimento e a novos temas políticos». O vídeo de Silver
apresenta uma alternativa a uma cultura que organiza as suas indústrias da
representação da diferença sexual em torno do poder fálico e ainda aos ditames
do feminismo da década de 80 que excluíra, do campo da representação, o desejo
e a sexualidade da mulher.
Jane Gaines e bell hooks criticaram também as teorias feministas que recorriam
a modelos freudianos e lacanianos da psicanálise e se baseavam apenas em
critérios de género, negligenciando os de classe, raça e sexualidade. Tais
teorias, esqueciam-se do modo como as mulheres de diferentes proveniências
sócio-históricas experimentavam sistemas opressores. A sua história e o seu
olhar haviam sido excluídos destes estudos que adoptavam uma perspectiva de
mulher ocidental, branca e de classe média. A experiência das artistas dos anos
60 e 70 viria também a ser reabilitada e entendida como «essencialismo
estratégico», nos anos 90, por jovens artistas que criticaram as teóricas dos
anos 80 pelo seu didactismo e limitações emocionais. Citando a autora Helena
Reckitt (2001: 11), estas artistas empregaram «um espírito refrescante de
radicalismo político, um prazer visceral nas imagens e materiais, e uma
articulação directa da experiência subjectiva».
Videomachona
Na década de 90 Judith Butler em conjunto com outras autoras, tais como Judith
Halberstam, Eve Kosofsky Sedgwick e Laura Kipnis, contribuíram para a criação
de ferramentas conceptuais indispensáveis para a análise e compreensão dos
trabalhos de artistas que endereçam as questões queer.
Butler (2008) atacou o essencialismo da teoria feminista francesa e o
estruturalismo em que este se baseava. Questionou as distinções tradicionais
feministas entre sexo e género, argumentando que os conceitos básicos deste
discurso são eles próprios produzidos por relações de poder. Destacou a
linguagem da performance e da performatividade e preteriu a da psicanálise,
teoria que tinha sido fundamental para os argumentos dos anos 80. Segundo Peggy
Phelan (2001: 43), Butler «demonstrou que a identidade de género era
necessariamente instável e inacabada, uma performance permanentemente em
curso». A identidade dos indivíduos constituía-se como norma, era naturalizada
por meio da identificação com outros indivíduos e da repetição performativa da
mesma. Todavia, a repetição e identificação performativa poderia servir os
interesses da cultura conservadora, estabelecendo a heterossexualidade como
regra obrigatória ou, alternativamente, resistir à significação cultural
dominante e reforçar e revelar as suas ficções. Butler recorreu à ideia de
«pastiche» de Fredric Jameson, entendida como uma forma pós-moderna do conceito
de paródia, para definir o lesbianismo como uma paródia à heterossexualidade. O
lesbianismo é uma paródia às normas da cultura heterossexual e a autora recusa
o catalogar das lésbicas como o «outro» em relação à heterossexualidade. Além
do mais, adopta o conceito de máscara de feminilidade de Riviere como
estratégia para preservar ou, pelo contrário, transgredir as normas da
heterossexualidade.
Segundo a autora Judith Halberstam (1998), a masculinidade feminina tem sido
ignorada tanto pela cultura em geral como pelos estudos académicos da
masculinidade. Por motivos ideológicos, tem sido associada ao indivíduo homem,
ao poder do estado, ao privilégio social, à hereditariedade e à dominação. A
«masculinidade dominante» surge da relação naturalizada entre sexo masculino e
poder, não obstante, contaminada por factores como a classe e a raça que a
atravessam e dividem o seu poder. A masculinidade torna-se possível de
investigar quando deixa o corpo masculino de classe média branca e emerge nas
masculinidades alternativas de lésbicas e transexuais «mulher/homem». O sexismo
e a misoginia não são necessariamente características da masculinidade, embora
historicamente seja difícil, se não impossível, desenredar a masculinidade da
opressão da mulher. Halberstam argumenta que o desvio do género pelas raparigas
é muito mais facilmente tolerado pela sociedade que o desvio do género pelos
rapazes, e tende a ser associado com um desejo «natural» pelas liberdades e
mobilidades gozadas pelos rapazes. A «maria-rapaz» é aceite socialmente
enquanto não atinge a puberdade mas logo que esta começa, é exigida à rapariga
comportamentos sociais que se conformem com os do seu género. A adolescência
para os rapazes representa um ritual de passagem para um maior poder social mas
para as raparigas é uma lição sobre constrangimento, castigo e repressão. Neste
período, os instintos de maria-rapaz de muitas raparigas são remodelados em
feminilidades condescendentes. Parafraseando Halberstam (ibid: 6), é
surpreendente que sob tanta repressão social algumas raparigas emirjam no final
da adolescência como mulheres masculinas.
Dougherty, no seu vídeo «Gay Tape: Butch and Femme», de 1985 explora as
atitudes em relação à mulher «machona» na comunidade lésbica de Oakland na
Califórnia. Este documentário consiste no registo de uma série de monólogos de
quatro mulheres, clientes habituais de um bar para lésbicas, sobre o
«performativar» do papel de «machona», (Green, 2006). O olhar controlador da
câmara é anulado pela falta de direcção intencional da parte da artista em
relação às protagonistas. Os monólogos não são planeados nem ensaiados, são
sinceros e frequentemente contraditórios. A artista abdica de autoria em favor
da revelação e evita retirar conclusões – as protagonistas existem como peritas
no seu campo
bem como indivíduos e podem dizer tudo o que lhes ocorra. Elas falam de modo
improvisado sobre as suas amantes, os detalhes das suas identidades sexuais e
as suas fantasias. A artista cria vídeos e filmes focados sobre os temas do
lesbianismo e da cultura popular. Enquanto que nos seus primeiros trabalhos
coloca o lesbianismo num território cultural separado da cultura dominante,
nestes retrata a experiência lésbica no contexto do quotidiano familiar e
social.
E é também contra a norma da masculinidade dominante que a artista finlandesa
Aurora Reinhard convoca, na sua peça de vídeo «Boygirl», de 2002, três mulheres
para falarem sobre as suas experiências e dar voz às comunidades de lésbicas.
Este vídeo, que lida com temas de identidade, marginalidade e alteridade, foi
apresentado pela artista no seminário «Act Out: Vídeo Performativo de Mulheres
Artistas Nórdicas», que decorreu em Novembro de 2008 na Universidade de Évora.
No seu trabalho a artista analisa o modo como as identidades de género são
construídas e representadas socialmente. O seu modo de filmar não intrusivo, a
partir de um ponto de vista fixo, sem recorrer a artifícios tecnológicos e
cenografias, distancia estas imagens do realismo ilusório dos reality show
televisivos que enfatizam e estigmatizam a diferença. Aqui é enfatizada a
narrativa e não a imagem. As raparigas são as heroínas do filme, com quem
sentimos familiaridade e empatia, assim que começam a falar. A artista, cujo
corpo e voz se encontram ausentes, ao excluir-se da imagem, possibilita que o
espectador se sente no seu lugar e que também ele coloque questões sobre o
quotidiano destas raparigas. As fronteiras entre o lesbianismo, entendido como
o «outro» lado da heterossexualidade, e a norma heterossexual vigente, são
diluídas ao longo de todo o vídeo. Este vídeo mostra-nos o modo como estas
raparigas se estabelecem a si mesmas como indivíduos, com identidades de género
próprias que expõem a artificialidade da estrutura da heterossexualidade. Todas
elas experimentam diferentes tipos de identidades de género. Uma das raparigas
sente-se como um rapaz enclausurado num corpo de rapariga, outra não se sente
nem como homem nem como mulher e a última delas recusa ser catalogada por meio
das categorias heterossexuais e reivindica ser uma espécie de meio-termo:
«Talvez eu seja simplesmente esplendidamente andrógina». Todas elas sentem que
ao entrarem no mundo dos homens podem expandir as suas possibilidades ao se
afastarem da posição feminina que as prende mais à aparência e normas sociais
constrangedoras.
Conclusão
A partir de meados da década de 60, a videoarte, um medium novo e atractivo,
que não possuía, como as demais formas artísticas, uma história de exclusão das
mulheres artistas, possibilitou a passagem das mulheres do seu status passivo,
enquanto imagens, a criadoras activas. No âmbito da videoarte e performance,
artistas como Antin, Piper, Sieverding e Vasulka, influenciadas pelas teorias
do feminismo da segunda vaga, questionaram os papéis sociais das mulheres e o
pensamento social sobre o conceito de «Mulher». Criaram registos
autobiográficos e experimentaram diferentes personae relacionadas com o género,
raça e etnicidade, entre as quais as máscaras de «masculinidade». As artistas
trocaram nas suas performances os papéis culturais atribuídos ao género baseado
na dicotomia masculino/feminino, assumindo personae masculinas. Não tinham uma
imagem ou paradigma único como alternativa à norma mas, ao despirem o colete de
forças da norma e ao analisarem o que o self podia significar dentro dos
preceitos sociais e políticos vigentes, as mulheres descobriram que podiam
conceber-se a si próprias como criadoras da sua identidade e destino. Mulvey,
autora feminista pioneira na análise da relação do aparelho cinemático com a
diferença sexual, influenciou esta geração de artistas ao defender que o olhar
controlador fetichista e voyeurista no cinema é masculino e que a mulher
espectadora ora experimentava uma identificação passiva com o objecto mulher no
ecrã ora adoptava uma posição masculina activa abdicando da sua identidade. O
crítico de arte John Berger argumentou ainda que a mulher incorporava dentro de
si o vigilante patriarcal e a vigiada. Mais tarde, Elwes defendeu que as
mulheres deviam rejeitar esse modelo, usurpar a autoridade do vigilante
patriarcal e representar os seus próprios papéis.
Nos anos 80, as artistas da década precedente foram rejeitadas como
«essencialistas» pelas teóricas do feminismo, quando estas últimas adoptaram as
teorias da psicanálise e pós-estruturalismo, e consideraram que a imagem do
corpo feminino na arte devia ser evitada devido ao investimento masculino
nessas representações. Além do mais, entenderam a autobiografia como um gesto
individualista. O conceito da «feminilidade enquanto máscara» da psicanalista
Joan Riviere, colega de Freud, foi determinante para a construção das teorias
feministas do cinema de autoras como Doane, Kuhn e Lauretis que nos finais da
década refutaram Mulvey e defenderam que são possíveis leituras da imagem
cinemática da mulher a partir de posições críticas das/os espectadoras/os.
De meados da década de 80 até ao presente, assistimos a um ressurgir da
paródia, do grotesco, do espectáculo do olhar, do prazer e do corpo, sobretudo
em vídeos de jovens artistas lésbicas que não se colocam à margem, incluindo-se
no tecido social.
Nos anos 90, a arte e a cultura popular relacionaram-se de um modo simbiótico.
Artistas como Dougherty e Silver expuseram os estereótipos ligados ao género no
contexto do território mítico heterossexual da cultura popular que cria as suas
indústrias da representação da diferença sexual em torno do poder fálico.
Silver, Benning, Condit e Dougherty, adoptaram de novo na videoarte os temas de
sexo e representação do corpo da mulher. Rejeitaram a censura das teóricas
feministas da década anterior sobre o prazer visual e a exclusividade do olhar
masculino. Na área da videoarte de carácter documental, Reinhard e Dougherty
retrataram a experiência lésbica no contexto do quotidiano familiar e social.
Contribuíram com importantes peças de vídeo para o desmistificar do lesbianismo
enquanto o «outro» da heterossexualidade e que expõem a artificialidade desta
última estrutura.
Autoras como Butler, Gaines, hooks, Halberstam e Kipnis criaram ferramentas
conceptuais indispensáveis para a análise e compreensão dos trabalhos de
artistas que endereçam as questões queer. Gaines e hooks criticaram as teorias
feministas que recorriam a modelos freudianos e lacanianos da psicanálise e se
baseavam em critérios dicotómicos de género, negligenciando os de classe, raça
e sexualidade. Butler atacou a teoria feminista francesa e defendeu que a
identidade de género dos indivíduos se constituía socialmente como norma, sendo
naturalizada por meio da identificação com outros sujeitos e da repetição
performativa da mesma, e sendo instável e inacabada. Definiu o lesbianismo como
uma paródia à heterossexualidade e recusou catalogá-lo como o «outro» da
heterossexualidade. Halberstam argumentou que a masculinidade feminina tem sido
ignorada pela sociedade em geral e pela investigação académica A masculinidade
hegemónica surge da relação naturalizada entre sexo masculino, poder do estado,
privilégio social, hereditariedade e dominação e é contaminada por factores
como a classe e a raça que a permeiam e desviam o seu poder. A masculinidade
deve, deste modo, ser analisada nas masculinidades alternativas de lésbicas e
transexuais.
Assim, a história da videoarte tem-nos apresentado uma incorporação progressiva
de «masculinidades» pelas mulheres artistas. Esta passou de um registo
experimental de troca de papéis de género, na década de 70, para a integração
gradual e naturalização das «masculinidades», em particular por jovens artistas
lésbicas desde meados da década de 80 até à actualidade. À medida que os
conceitos de identidade se tornam cada vez menos estáveis, a crença de que a
identidade de género é permanente e opressiva «parece» desaparecer do campo
académico e da arena artística. Todavia, existe ainda, no que respeita à
transformação das categorias de género, um enorme fosso entre o que é possível
conceber ao nível da teoria e da arte e a experiência prática dos indivíduos no
campo do quotidiano social.