Um problema de saias: dificuldades de representação do género na linguagem
pictográfica
1. Introdução
No decurso de grandes acontecimentos de massas, nos pavilhões das feiras
internacionais, nos congressos, nas grandes competições desportivas ' mas
também nos aeroportos e centros comerciais, nos hotéis, restaurantes e
escritórios, nas próprias ruas, cruzamentos, rotundas e jardins ' somos hoje
confrontados/as com uma multidão de sinais de trânsito, placas de sinalização e
sinalética comercial variada, cuja presença influi directamente na vida das
populações. Inevitáveis, diríamos mesmo imprescindíveis, tais sistemas de
informação e orientação no espaço recorrem ao uso de pictogramas, i.e. de
imagens ou signos figurativos utilizados para exprimir conceitos abstractos,
comunicar ordens e/ou proibições.
Neste artigo pretendemos reflectir sobre o modo como esta linguagem
pictográfica, longe de constituir (como é frequente afirmar-se, cf. Krug et
al., s.d.: 2; Costa, 1998: 89; Dreyfuss, 1984: 16 e ss.; Aicher e Krampen,
1995: 5, 129; Ota, 1993: 18; Horton, 1994: 6) uma espécie de «linguagem
universal», intuitiva e de reconhecimento imediato, antes apresenta, pelo
contrário, algumas importantes limitações. De facto, é nossa convicção que, não
só a pictografia sinalética não tem um alcance universal ' até porque
historicamente situada, como qualquer outra linguagem, num contexto
sociocultural específico ', mas a sua própria pretensão «universalista»,
obrigando a um elevado grau de redundância na transmissão da mensagem, conduz
ao uso empobrecedor da caricatura e do estereótipo, nomeadamente ao nível das
representações de género.
Em 2005, um estudo levado a cabo na Universidade de Aveiro, em que foram
analisados 49 programas de sinalética oriundos de diversos países (perfazendo
uma amostra de cerca de 800 sinais) encontrou a reprodução de inúmeros
estereótipos de género, para além de uma utilização sistemática da forma
masculina genérica, com uma ocorrência de pictogramas masculinos muito superior
à dos femininos (Bessa, 2005).
Esta área cada vez mais importante do design de comunicação, alegadamente
empenhada na procura de uma linguagem universal, informativa e neutra,
compreende assim uma componente ideológica, possivelmente inelutável mas que é
importante compreender e documentar.
Recentemente, contudo, algo de absolutamente inesperado aconteceu: Fuenlabrada,
um pequeno município nos arredores de Madrid, decidiu feminizar uma parte dos
seus sinais de trânsito e semáforos (El País, 2006; 2007; Público, 2006). Entre
2006 e 2007, em cerca de metade das placas e postes de sinalização luminosa, as
tradicionais silhuetas masculinas, utilizadas para assinalar a travessia de
peões, receberam saias e rabos-de-cavalo (Fig. 1).
1
Figura_1
Novo pictograma para «Travessia de peões» ' Fuenlabrada, 2006 ' e antigo sinal
(à direita)
Como seria de esperar, uma tão desrespeitosa e inconveniente medida, fazendo
tábua rasa de velhas prerrogativas masculinas, não pôde passar impune. Apesar
da reacção positiva da maioria dos habitantes locais, a iniciativa foi
imediatamente atacada pelos partidos da oposição2. Foi também ridicularizada
nalgumas rádios e jornais, vilipendiada pelos sectores mais conservadores da
sociedade espanhola, resultando finalmente numa advertência da Dirección
General de Tráfico sob o argumento de que violava o protocolo das Nações Unidas
sobre sinalização rodoviária (o que se demonstrou ser falso). A própria
extensão e virulência dos ataques apenas vêm demonstrar que, ao contrário do
que chegou a afirmar-se, o assunto estava longe de se poder considerar
irrelevante.
Na verdade, tal como veremos a seguir, há já alguns anos que um ou outro país
europeu vinha utilizando os pictogramas de sinalética ' rodoviária ou outra '
como forma de questionar certas representações e estereótipos de género. Mas
constituirão essas pequenas tentativas de mudança, independentemente das suas
louváveis intenções, uma verdadeira solução? A linguagem pictográfica será
passível de reforma?
2. Da pictografia à sinalética
Em inícios do século XX, com o crescimento das cidades, a proliferação de
serviços administrativos, comércios e espaços de lazer, com a globalização da
economia e a mobilidade das populações, começam a surgir situações em que os
idiomas nacionais (ou os caracteres tipográficos que lhes correspondem), são
por vezes substituídos com vantagem por figuras, i.e. pictogramas. A primeira
tentativa séria de criar um sistema organizado de signos gráficos deste tipo
ficou a dever-se aos esforços do filósofo vienense Otto Neurath. Nos inícios
dos anos 20, Neurath e a sua equipa estavam absolutamente convictos da
possibilidade de criar um idioma pictográfico internacional, a que mais tarde
chamaram Isotype, e que foi utilizado sobretudo em livros, cartazes e outro
material didáctico (Fig. 8)3. O projecto de Neurath resultava, em parte, da sua
actividade como filósofo: ele é um dos fundadores do Positivismo Lógico,
corrente filosófica que se desenvolve inicialmente em Viena, nos anos 1920-30,
e que tinha entre os seus objectivos o aperfeiçoamento de uma linguagem ideal,
descritiva e lógica, e por isso superior à linguagem corrente, cheia de
imprecisões e deficiências (Granger 1995: 83-86; Cordon e Martinez, 1987: 149-
59). Neurath acreditava ter descoberto esse idioma no Isotype, espécie de
língua hieroglífica intemporal, em que seria possível transcrever todas as
línguas do mundo4 ' optimismo que constitui a base da actual pictografia
sinalética e continua, em parte, a informar o ensino e a prática desta área do
Design.
Mas as investigações de Neurath são igualmente contemporâneas dos primeiros
convénios europeus para unificação dos sinais de trânsito. E, de facto, nas
décadas seguintes, o uso de pictogramas estender-se-á a muitas outras áreas,
dos transportes aéreos aos acontecimentos desportivos internacionais (Fig. 2),
passando a ter como campo de actuação privilegiado a sinalética e já não a
ilustração didáctica.
Figura 2
Pictogramas referentes a modalidades desportivas, Jogos Olímpicos de Munique,
1972, d. Otl Aicher
3. Ideogramas, ícones e símbolos
Alguns destes «pictogramas» são, na verdade, sinais de fundo arbitrário ou
extremamente convencional. Assim, por exemplo, três triângulos dentro de um
círculo para «abrigo nuclear». Mas mesmo no caso dos signos de tipo mais
figurativo, ou ilustrativo, deparamo-nos com duas situações distintas: o
sentido literal do signo, e o seu sentido derivado.
São exemplos de sentido derivado, a imagem de uma cruzeta querendo significar
«vestiário» (e não «cruzeta»), ou de um garfo e uma faca querendo significar
«restaurante». A este segundo tipo de sinais, alguns autores preferem chamar
ideogramas, designando por esse termo o uso de signos figurativos para exprimir
conceitos abstractos (Frutiger, 1999: 81-83; Lupton e Miller: 1999a: 48). A
maioria dos pictogramas são, de facto, ideogramas. Um dos casos mais conhecidos
é o do recurso à figura de um homem e uma mulher para denotar «Instalações
Sanitárias»; enquanto pictograma, lê-se «homem e mulher»; enquanto ideograma,
«instalações sanitárias» (Fig. 3). Ou seja, estamos perante algo cujas regras
interpretativas implicam aprendizagem e algum grau de convencionalidade ' o que
contraria a tese da pictografia como uma linguagem intuitiva, de alcance
universal e absolutamente neutra, em termos de conteúdos e significações que
transmite.
Figura 3
Pictograma ou ideograma? (Da esquerda pra a direita: cruzeta [«vestiário»],
chave e carro [«aluguer de automóveis»], homem e mulher [«Instalações
sanitárias»]; programa DOT, EUA, 1974-79)
Mas de onde vem, então, essa crença tão fortemente arreigada nas vantagens da
pictografia como modo de comunicar? Na verdade, o interesse de Neurath numa
linguagem visual de carácter «científico» era comum a muito do design
modernista das décadas de 1920-30 ' um design que, tomando por modelo a pura
visualidade da forma, visava alcançar uma comunicação objectiva e unívoca
(Lupton e Miller, 1999 b; Golec, 2002). A juntar a isto, nos inícios dos anos
1950, a psicologia da Gestalt favorece o inato e o biológico a expensas do
cultural e do adquirido (i.e. a percepção à custa da interpretação), enquanto a
Teoria da Informação se concentra na eficácia do processo de comunicação:
optimização do canal e redução do ruído. Em ambos os casos, a mensagem é vista
como um mero elemento neutro, a ser transportado do ponto A para o ponto B
(Moles, 1958, 1982; Kinross, 1989: 140 ss.).
Não menos influente na teoria e prática do design de comunicação, a Semiótica
concentra a sua atenção não apenas na mensagem mas também no leitor/receptor.
Para descrever a significação, o filósofo americano Charles S. Peirce utilizou
o conhecido modelo triangular, de que o signo/significante5, o significado e o
referente (i.e. o objecto real que o signo refere) constituíam os vértices
(Fig. 4). Já o linguista suíço Ferdinand Saussure, pelo contrário, postulava
uma estrutura dual: significante e significado, indissoluvelmente ligados ' a
relação de significação estabelece-se entre estes dois elementos apenas, não
tendo aqui o referente qualquer papel a desempenhar (Peirce, 1931-1935;
Saussure, 1915).
Figura 4
Os elementos da significação, segundo Eco (1997: 24)
Apesar de Saussure manifestar pouco interesse pela forma como os signos se
relacionam com o leitor (aparentemente inconsciente de que diferentes leitores
potenciam diferentes interpretações), tivera a vantagem de se aperceber que um
signo apenas tem sentido na sua relação com outros signos: significante e
significado estão sempre ligados de modo arbitrário. A inclusão do referente
neste processo acabou por determinar a procura de uma relação directa entre
objectos e palavras, como sucede na teoria da linguagem dos Positivistas
Lógicos.
O nó do problema poderá estar no conceito de ícone (Eco, 1997: 123). A
semiótica referencial, desenvolvida pelos discípulos de Peirce, distingue entre
três tipos de signos: índices (signos que têm uma conexão física com o objecto
que referem ou indicam, e.g. o fumo, indício de fogo), ícones e símbolos.
Enquanto num símbolo a ligação entre signo e objecto é arbitrária (letras,
palavras), um ícone «assemelha-se» ou imita o objecto a que se refere (será o
caso de um desenho, uma fotografia, etc.). Foi esta distinção entre ícones e
símbolos que determinou as futuras tentativas de substituir convenções
culturais (palavras, caracteres tipográficos) por imagens analógicas. Quer o
Isotype quer a pictografia sinalética assentam neste princípio.
O norte-americano Charles Morris, que aliás mantinha ligações estreitas com os
neopositivistas do grupo de Viena
6
, foi quem adaptou, transformou e finalmente divulgou as definições de Peirce.
A classificação índice/ícone/símbolo, contudo, usada fora do seu contexto
original, acabou por resultar em frequentes confusões, abrindo a porta a
problemas de difícil solução (ibid.: 53).
Assim, aquilo que parece um ícone pode, por vezes, ser um símbolo. É o caso do
já referido pictograma tradicional para «Instalações Sanitárias». Apenas de uma
forma muito indirecta, culturalmente determinada, poderia a imagem de um homem
e um mulher juntos assemelhar-se, de algum modo, ao seu referente. Ao ponto de
vários designers terem proposto a sua substituição por representações mais
realistas, e.g. com a inclusão de uma sanita ou de um lavatório nos desenhos
(Lupton e Miller, 1999a: 42, 48; Lupton, 1989: 149; Modley, 1976: X; Ota, 1993:
119; Frutiger, 1999: 273).
Figura 5
Da esquerda para a direita: «urinóis» e «WC/retretes», Jogos Olímpicos de
Munique, 1972, d. Otl Aicher; «sanitários», Japão, c. 1993, d. Yukio Ota;
sinalização a bordo de aviões, c. 1970 [Dreyfuss, 1984: 36]
4. Masculino e «falso neutro»
Temos portanto que, por um lado, a alegada «monosemia» dos pictogramas
(Massironi, 1996: 129; Costa, 1989: 141) é ilusória ' de que modo poderemos
saber, em cada caso, se estamos perante um pictograma em sentido estrito,
denotando o objecto físico por si representado, ou perante um ideograma? Apenas
o contexto nos permite decidir. Por outro lado, mesmo pictogramas stricto sensu
visam prefigurar não um objecto físico, específico e único, mas o inumerável
conjunto de todos os objectos possíveis, pertencentes a uma classe. O
pictograma de uma mesa não representa uma mesa, mas sim o conjunto de todas as
mesas possíveis e imagináveis. Ora, como já Platão referia, todo o objecto
particular contem limitações relativamente ao conceito (eidos) que pretende
ilustrar. Se a ideia de «mesa» for ilustrada através duma mesa rectangular, de
quatro pernas, fica de fora a mesa pé-de-galo; se o conceito «pessoas» for '
como geralmente é ' ilustrado por um adulto do sexo masculino, ficam de fora
crianças e mulheres.
Acresce que o mesmo signo gráfico, (ou signos gráficos muito semelhantes),
podem, num mesmo programa de sinalética, revestir significados diferentes. Em
cada uma das Figs. 6 e 7, por exemplo, os dois últimos pictogramas («I.S.
masculinas » e «I.S. femininas») denotam apenas um dos sexos. Em todos os
restantes casos, porém, pictogramas masculinos são utilizados para referir
pessoas de ambos os sexos, i.e. homens e mulheres. Caso especialmente flagrante
desta variação de sentido é a Fig. 6: o segundo sinal significa «Homens»,
enquanto o primeiro significa «Proibida a entrada [a homens e mulheres]».
Sucede isto porque na linguagem corrente (códigos falado e escrito) o masculino
funciona como uma espécie de significante universal.
Figura_6
Osaka, Japão, 1970, d. Isozaki Arata e Fukuda Shigeo
Figura 7
EUA, 1985, d. P. Singer e P. Reedijk
Comparando a relação entre os dois sexos à de duas electricidades, Simone de
Beauvoir (1975: 11 ) disse uma vez que «o homem representa ao mesmo tempo o
pólo positivo e o neutro»; à mulher restava-lhe ser o negativo, o Outro do
homem. Por isso dizemos «o Homem», ou «os homens», para designar o conjunto dos
seres humanos (cf. Fig. 8 para um exemplo desta prática em pictografia). Maria
Isabel Barreno (1985) utilizou também a expressão «Falso Neutro» para referir
este uso abusivo do masculino universal ' fenómeno que não pode ser
interpretado em termos puramente linguísticos mas antes se enquadra numa
prática discursiva mais generalizada, inerente a uma cultura patriarcal que
desvaloriza e exclui as mulheres constituindo-as excepção à norma masculina
(Cameron, 1985; Spender, 1985).
Figura 8
Quadro estatístico mostrando a diversidade étnica de diversos países/impérios;
O. Neurath, Die Bunte Welt (Viena, 1929)
Nos últimos anos têm-se procurado modos de discurso alternativos, nomeadamente
substituindo os termos masculinos por outros, sem especificação de sexo. Em vez
de «o homem», dizer por exemplo «as pessoas» ou «os seres humanos » (Miller e
Swift, 1981; Cameron, 1994). Contudo, em pictografia, este procedimento revela-
se difícil.
A Fig. 9 mostra uma placa de sinalização em que se lê: «Peão, na estrada
caminhe pela sua esquerda». Neste caso, a inclusão do pictograma de um homem
particulariza, i.e. reduz o alcance da mensagem ' limitação flagrante do código
visual relativamente ao escrito7. Em pictografia, de facto, um termo como
«pessoas » é demasiado abstracto; os pictogramas nunca representam «pessoas»,
mas sim homens e mulheres. Foi esta mesma constatação que, muito provavelmente,
levou as autoridades de Fuenlabrada a redesenhar os seus sinais de trânsito.
Figura 9
Placa de sinalização rodoviária
5. Marcadas pela saia
Apesar da barba, o primeiro homem das cavernas tinha uma
mentalidade infantil e só pelo instinto, e não pela razão,
podia ele distingir um sexo do outro. Podia diferenciar uma
mulher de um homem, mas não sabia dizer porquê. Esta
ignorância primitiva era realmente embaraçosa... [Até que]
estando ele diante da caverna o dia inteiro, a ver as
pessoas irem e virem, fez-se-lhe luz no espírito. As que
traziam saias eram mulheres, os que tinham calças eram
homens ' excepto na Escócia (Groucho Marx (1987: 41-42).
Homens vs. mulheres: as oposições binárias gozam de um estatuto especial em
linguística e semiologia8. De facto, para alguns autores elas constituem uma
propriedade intrínseca da «mente humana» ' a melhor, se não mesmo a única forma
de produção de sentido (Lévi-Strauss, 1964; Lacan, 1966; Leach, 1976). À
semelhança dos dígitos binários (1 e 0) na linguagem dos computadores,
masculino e feminino apenas fariam sentido por contraste mútuo (para uma
crítica desta opinião cf. Cameron, 1985: 58).
Mas associada a estes pares binários existe a tendência para privilegiarmos um
dos elementos relativamente ao outro. Tendemos a valorizar alto relativa mente
a baixo, direito relativamente a esquerdo, destro a canhoto, etc. Este fenómeno
é conhecido, em Linguística, por teoria da marcação. Palavras etimologicamente
mais antigas ou de uso mais frequente, denominadas «não-marcadas», possuiriam
um carácter mais universal ou neutro relativamente a outras. Assim, por
exemplo, a palavra satisfeito, seria não-marcada relativamente a insatisfeito,
com o prefixo in- indiciando um desvio ou derivação do termo anterior (o mesmo
sucederia, a um outro nível, com destro e canhoto: estatisticamente os/as
destros/as constituem a maioria, etc.).
Alguns linguistas consideram, para além disso, que em qualquer língua a forma
masculina constitui o padrão, o termo de comparação relativamente ao qual se
situa o feminino9. Da mesma forma que valorizamos alto relativamente a baixo, e
direito relativamente a esquerdo, assim também quando atribuímos ao feminino o
estatuto de «segundo sexo», isso ocorreria de modo natural. A des-valorização
do termo mulher, a razão porque dizemos «o Homem» para significar «as pessoas»,
estaria assim explicada: é parte integrante da própria estrutura da língua. As
autores feministas, por seu lado, têm frequentemente argumentado que assumir
que o masculino é não-marcado, é o mesmo que assumir que o mundo é masculino
(Spender, 1985: 20).
Qualquer que seja a validade desta teoria, a verdade é que, como refere o
designer japonês Yukio Ota (1993: 119), «a diferenciação entre homens e
mulheres [nos pictogramas] constitui um problema para os designers. Até agora a
maioria recorreu às roupas. Mas com o defeito de a figura, como um todo, se
tornar mais complicada».
Como pode observar-se nas Figs. 10 a 12, a saia ' mas também o cabelo comprido,
o peito, as nádegas ' constituem um acrescento, uma espécie de sufixo ou
desinência, que tornam a forma feminina marcada. Daí a dificuldade em utilizar
o pictograma de uma mulher para designar «pessoas em geral». Pela
complexificação do desenho, pela inclusão de um ou mais pormenores, a figura
feminina torna-se um caso particular da masculina. Esse pormenor é geralmente a
saia. A sua presença é ubíqua nos pictogramas, apesar da grande percentagem de
mulheres que usa calças.
Figura 10
Marcação saia (Da esquerda para a direita: Isotype, c. 1940; aeroportos alemães
(RFA), 1968, d. Krampen e Kapitzki; ERCO, Alemanha,1976, d. O. Aicher; DOT/
transportes aéreos, EUA, 1974-79)
Figura 11
Marcação cabelo e saia (Da esquerda para a direita: Jogos Olímpicos do México,
1968, d. L. Whyman e B. Cole; Caminhos de ferro holandeses, s.d.; sinalética
hospitalar, Índia, c. 2002, d. Ravi Poovaiah)
Figura 12
Marcação anatómica (Da esquerda para a direita: Departamento de Turismo da Nova
Scotia, Canadá, anos 70; Medical Access, EUA, 1985, d. Michael Everitt;
pormenor do anterior)
Mas a saia pode ainda ser explicada pelas características intrinsecamente
conservadoras do medium ' as mesmas que determinam o recurso a estereótipos
visuais de vária ordem como, por exemplo, o pictograma de uma obsoleta
locomotiva a vapor no sinal de «Passagem de nível sem guarda». Ironicamente,
nos países ocidentais as calças constituem desde há séculos um símbolo da
autoridade masculina (cf. a expressão «vestir as calças do marido»), a ponto de
se terem tornado igualmente um símbolo da emancipação das mulheres (Lurie,
1994: 250; Wilson, 1989: 218)
10
.
Um pormenor que, como veremos, as/os reformadoras/es de Fuenlabrada parecem ter
subestimado.
6. Uma análise de conteúdo
Como referimos no início, a análise de conteúdo efectuada em 2005, na
Universidade de Aveiro, a 49 programas de sinalética encontrou uma relação
directa entre o sexo-género representado e a frequência de representação
(Bessa, 2005). O Quadro I mostra, em valores absolutos, o número de pictogramas
representando adultos (ou adultos acompanhados de crianças) então analisados11.
Quadro I
Número de pictogramas representando pessoas adultas (ou pessoas adultas
acompanhadas de crianças). Análise da frequência de ocorrência, em termos de
género
Masculino 360
Feminino 87
Misto 60
Indeterminado 215
Total 722
Como pode observar-se, a percentagem de pictogramas femininos é muito inferior
à de pictogramas masculinos ' provavelmente em resultado do estatuto de
significante universal (falso neutro) atribuído a estes últimos. O mesmo não
sucede, curiosamente, nos casos de pictogramas representando crianças (Quadro
II); embora o universo da amostra seja menor, os dois sexos surgem aí
equilibrados.
Quadro II
Número de pictogramas representando exclusivamente crianças. Frequência de
ocorrência, em termos de género
Masculino 9
Feminino 8
Misto 9
Indeterminado 41
Total 67
A reforçar este fenómeno de semi-invisibilidade (Smith, 1978), o feminino,
quando representado, configura situações de excepção, bem definidas
relativamente ao masculino. Assim, nos programas analisados, deparamo-nos com
duas espécies de estereótipos. Em primeiro lugar, a constante associação entre
mulheres e crianças, ou profissões que lidam com crianças. Não só a percentagem
de pictogramas femininos é, como vimos, muito maior nas crianças do que nos
adultos, como as mulheres adultas aparecem frequentemente acompanhadas de bebés
e crianças (Quadro III; cf. também Fig. 13).
Quadro III
Pictogramas referentes a pessoas adultas que acompanham crianças. Frequência de
ocorrência, em termos de género
Masculino 4
Feminino 13
Misto 3
Indeterminado 2
Total 22
Figura 13
Diversos pictogramas mostrando adultos acompanhados de crianças (Da esquerda
para a direita: Austrália, 1972; aeroporto de Frankfurt, 1970; New York City
Hospitals, EUA, c.1970 ; parques naturais da Suécia, s.d.; EUA, c. 1990;
Áustria, 1980; Japão 2002; Suécia, 1972)
Mas é igualmente possível descortinar a actuação do estereótipo ao nível da
limitação/promoção de determinados papéis de género. Para além das já referidas
profissões que lidam com crianças, encontramos numerosos exemplos das chamadas
«profissões femininas», envolvendo a realização de tarefas mais ou menos
subalternas: recepcionista, hospedeira, secretária, empregada de limpeza
(Quadro IV)12.
Quadro IV
Principais profissões encontradas nos programas de sinalética. Frequência de
ocorrência em termos de género
Profissão Masculino Feminino
Médico/a 10 1
Enfermeiro/a - 5
Polícia ou agente da autoridade 27 -
Educador/a de infância ou auxiliar - 6
Recepcionista, balcão de informações 3 8
Serviço de quartos (hotel) - 3
Gestor/a, director/a 3 -
Secretariado - 1
Hospedeira de bordo 1 2
Homem/mulher de negócios, viajante 25 1
Como pode observar-se, os cargos de autoridade e de chefia (ou pelo menos assim
considerados) são, de um modo geral, representados por figuras masculinas. A
profissão de enfermeiro, por exemplo, surge como profissão feminina, enquanto a
de médico é quase sempre representada por um homem13. O mesmo sucede com as
profissões de educador/a de infância, em relação à de professor/a; com a de
secretária/o em relação à de gestor/a, etc. Naqueles casos em que a interacção
cliente/empregado aparece representada, quem recebe ou atende clientes
masculinos é quase sempre uma mulher, enquanto o contrário nunca acontece (Fig.
14).
Figura 14
Pictogramas relativos a serviços de informações, check in, recepção de hotel e
recepção de hospital (Da esquerda para a direita: Alemanha, 1968, d. Krampen e
Kapitzki; Canada, 1970 (2 pictogramas); aeroporto de Dallas, EUA 1973, d. H.
Dreyfuss; EUA, 1995, d. Todd Pierce; Austrália,1985)
O nosso conceito ou imagem mental de um objecto não é, como supunha Neurath, o
resultado directo de experiências perceptivas de dados da Natureza; antes
implica todo um complexo processo cultural que inclui clichés transmitidos
pelos media, educação, família e meio social envolvente. Quando nos mostramos
incapazes de o reconhecer, quando apenas somos sensíveis à iconicidade aparente
dos pictogramas, estes podem tornar-se um perigoso obstáculo à compreensão do
mundo que nos rodeia.
A comparação entre programas de épocas distintas permite também concluir que a
pictografia sinalética é, na sua essência, conservadora. Em parte, isto deve-se
às características do medium: por necessidade técnica de simplificação da
mensagem, a pictografia está como que condenada à produção e reprodução de
estereótipos, i.e. a transmitir-nos uma pouco elaborada caricatura da realidade
(Dewar, 1999: 290, 298; Costa, 1989: 141). Por outro lado, mudanças abruptas no
desenho dos sinais poderiam resultar também em confusão por parte dos/as
utentes (ou mesmo, no caso da sinalização rodoviária, convergir em situações de
perigo). Restará então aos designers continuarem a trabalhar com um conjunto
limitado de estereótipos, i.e. de «caracteres fixos»14? Ou afigura-se possível
mudar estar situação?
7. Combatendo a invisibilidade
Quando, em finais de 2006, o pequeno município de Fuenlabrada iniciou a sua
campanha para substituir parte dos pictogramas masculinos nas placas de
trânsito, o caso atingiu dimensões inesperadas ' ao mesmo tempo que, tornando-
se notícia nos media, o debate se alargava a outros países. E no entanto, se
bem que pioneira, a ideia não era inteiramente nova. Há já algum tempo que
outros países europeus vinham utilizando sinais de trânsito genderizados.
Na Alemanha, o conhecido Ampelmann (ou Ampelmännchen, «homenzinho dos
semáforos») é uma herança da ex-RDA. Com o seu chapéu cómico e andar
entusiasta, esta figura tornou-se, desde os anos 60, uma espécie de mascote
para os habitantes de Berlim Leste e outros locais. Em Novembro de 2004, alguém
decidiu que era altura de este popular personagem se tornar num símbolo da
igualdade e foi criada a Ampelfrau15. Desde então, semáforos com figuras
femininas apareceram igualmente na vizinha Holanda, nomeadamente nas cidades de
Amersfoort e de Utrecht (Fig. 15).
Figura 15
Da esquerda para a direita: Ampelmann, Ampelfrau e figura dos semáforos de
Amersfoort, na Holanda
Porquê então o alarido, no caso de Fuenlabrada? Em parte por razões culturais
e, até mesmo, políticas ' não será certamente irrelevante o facto de o
município ser gerido por uma coligação do PSOE e Esquierda Unida. Por outro
lado, o Ampelmann sempre foi encarado como uma figura engraçada e simpática,
mais personagem de B. D. do que cidadão anónimo. Desenhar-lhe uma cara-metade
(à semelhança do que acontece com o Rato Mickey ou o Pato Donald que têm
também, cada um deles, a respectiva companheira) parecia uma coisa natural. Não
sucede o mesmo com a acção abertamente feminista de Fuenlabrada.
E contudo, em Janeiro de 2007, há novos desenvolvimentos: a Câmara Municipal de
Viena resolve, também ela, lançar uma campanha contra o sexismo dos pictogramas
(Der Standard, 2007). Enquanto a iniciativa de Fuenlabrada apenas dizia
respeito aos sinais de trânsito, este novo projecto era bastante mais
ambicioso. Intitulado Wien sieht's anders («Viena vê de forma diferente»),
abrangia diversos tipos de sinalética, placas de informação e autocolantes.
Também não pretendia mostrar simplesmente mais mulheres (combater a
invisibilidade feminina), mas mostrar mais homens em tarefas menos usuais,
questionando os papeis tradicionais de género.
Tal como em Espanha, houve reacções variadas mas, uma vez mais, e de modo não
completamente inesperado, a maioria das críticas veio dos homens. Houve também
uma forte reacção dos partidos conservadores austríacos e um incidente
desagradável quando alguns sinais tiveram de ser retirados devido a directivas
da União Europeia sobre segurança (e.g. os sinais para «Saída de emergência » e
«Trabalhos na estrada» da Fig._19).
8. Um passo em frente, dois atrás?
No estudo realizado na Universidade de Aveiro foi possível encontrar alguns
exemplos de «evolução» nos pictogramas das décadas de 1990-2000, quer ao nível
da invisibilidade do feminino, quer ao nível dos estereótipos de género, com a
introdução de soluções inovadoras. Concluía-se, contudo, que alguns dos
problemas colocados pela linguagem sinalética eram insolúveis.
Existirão razões para alterar esta posição algo pessimista? Ao punhado de
pictogramas não-sexistas então encontrados, poderiam acrescentar-se agora as
novas sinaléticas de Fuenlabrada e de Viena; aparentemente houve progressos. E
no entanto, todos estes casos, antigos e recentes, se apresentam problemáticos
e cheios de contradições. Comparando, por exemplo, o antigo pictograma dos EUA
para «Serviço de pediatria» com outro mais recente (Fig. 16), poder-se-ia
pensar que este último é menos enviesado, além de politicamente correcto ao
pressupor a partilha dos cuidados parentais. O elemento problemático é que o
novo pictograma espelha modelos ideológicos da chamada família nuclear
tradicional. Mães solteiras e famílias monoparentais dificilmente considerariam
a mudança como positiva.
Figura 16
Pictogramas para «Serviço de pediatria»: Nova Iorque, década de 1960, e
Danville Regional Medical Center, EUA, 2002?, d. Gladys Brenner
Também o novo pictograma para «Carrinhos de bebé» dos comboios suburbanos do
Porto pode, a um primeiro olhar, parecer um progresso relativamente a
representações de género mais tradicionais (Fig. 17); mas na verdade acaba por
contribuir para um aumento da invisibilidade das mulheres. Fosse essa a
intenção ou não, o facto é que, neste programa específico, os pictogramas
masculinos assumem ' uma vez mais ' o valor de forma universal genérica à custa
dos femininos, que simplesmente desaparecem. Um outro exemplo é o dos «Lugares
reservados a deficientes, grávidas e acompanhantes de crianças de colo»: o novo
autocolante visa contrariar o estereótipo tradicional de uma mãe com bebé ao
colo, substituindo-o por um homem com bebé (Fig. 18). Mas, desta forma, o pouco
equilibrado programa dos suburbanos do Porto apenas conseguiu eliminar da sua
sinalética todas as mulheres ' excepto a grávida.
Figura 17
Pictogramas para «Cadeiras de rodas, carrinhos de bebé e objectos de grandes
dimensões», Unidade de Suburbanos do Porto, 2003 (Pormenor à direita)
Figura 18
Comparação entre as antigas placas de «Lugares reservados a deficientes,
grávidas e acompanhantes de crianças de colo» e os novos autocolantes dos
Suburbanos do Porto
Problemas de índole quase oposta ensombram os projectos de Fuenlabrada e de
Viena. Em ambos os casos, uma crítica recorrente foi que os novos pictogramas
eram, na realidade, sexistas e reproduziam estereótipos de género, uma vez que
continuavam a representar as mulheres do ponto de vista dos homens: mulheres
elegantes, de cabelo longo e botas de salto alto, usando saia ou vestido. No
caso de Viena, por exemplo, a saia no sinal de «Trabalhos na estrada» (Fig. 19)
mais parece uma piada sexista de mau gosto do que uma tentativa séria de chamar
a atenção para as questões de género. Críticas semelhantes foram ouvidas
quando, em Abril de 2008, o governo sueco anunciou a sua decisão de introduzir
pictogramas femininos nas placas de sinalização vertical relativas à «Travessia
de peões»16. Algumas feministas suecas criticaram o projecto sob o argumento de
que os novos pictogramas representarão apenas um certo tipo de mulher,
constituindo-se como normativos relativamente àquilo que as mulheres podem/
devem ser.
Figura_19
Pictogramas para «Saída de emergência» e «Trabalhos na estrada» ' Viena, 2007
Os novos pictogramas são também «marcados» ' e, de facto, parece não haver modo
de evitar os rabos-de-cavalo e as saias na representação do feminino17. Como
referimos atrás, o recurso a estereótipos e a simplificação excessiva são, até
certo ponto, intrínsecos às linguagens visuais. E, se há quem defenda o
redesenho dos pictogramas e a criação de figuras assexuadas, também já foi
sugerido que a melhor forma de atingir um equilíbrio genuíno nos sinais
consiste em adoptar a solução contrária. Ou seja, restabelecer e/ou enfatizar
algumas características «marcadas» dos pictogramas masculinos: adornar as
figuras com chapéus, gravatas/laços ou bonés de basebol (o peão de fato e
chapéu, da Fig._1). Desta forma, o velho argumento de que as tradicionais
silhuetas não representam necessariamente homens («as figuras são demasiado
abstractas», «poderiam ser mulheres de calças»...) terminaria de vez18.
O programa de sinalética desenhado por Shigeo Fukuda para a Expo 98 em Lisboa
constitui um indício interessante do que poderá vir a ser a nova estratégia
(Fig. 20). É aliás o que melhor parece ter resolvido o problema da marcação,
e.g. nos pictogramas referentes a «WC Homens» e «WC Mulheres. Ambos os sexos (e
não apenas o feminino) surgem aí como marcados relativamente a pictogramas
genéricos como sejam «WC genérico» ou «Telefone».
Figura 20
Pictogramas para «Telefone», «WC Homens», «WC Mulheres» e «WC Genérico» ' Expo
98, Lisboa, d. Shigeo Fukuda
Quaisquer que sejam as soluções encontradas, permanece o facto de a linguagem
não ser neutra. Embora a possamos conceber, um pouco à maneira dos positivistas
lógicos, como um espelho da realidade ' mas apenas no sentido em que ela
reflecte o modo como organizamos o mundo e nos organizamos em sociedade ' por
essa mesma razão ela não reflecte igualdade (Goddard e Patterson, 2000: 73). As
sociedades humanas, enquanto formas de organização patriarcal, ainda têm por
base a discriminação e a desigualdade de oportunidades. Daí a necessidade ' e
actualidade ' da reforma feminista da língua como contribuição para a mudança
das relações de poder entre os sexos. Até ao momento, as mudanças na
pictografia estão muito atrás das ocorridas na linguagem verbal. Isto não se
deve a inépcia ou má vontade por parte dos designers mas a características
decorrentes do próprio medium.
9. Conclusão
Apesar de iniciativas louváveis, como a de Fuenlabrada, é pouco provável que,
num futuro próximo, todos os pictogramas genéricos (i.e. masculinos) possam ser
repensados, de modo a receberem um correspondente feminino. Nunca será fácil,
por exemplo, modificar o sinal de «Proibida a entrada», representado na Fig.
21. Qualquer versão feminina do mesmo, que pretendesse contrariar a
omnipresença do falso-neutro (combater a invisibilidade feminina), parece estar
condenada ao fracasso. Como pode observar-se, o sinal resultante torna-se algo
ambíguo, introduzindo um significado restritivo que não consta do original. É
muito provável que este novo pictograma fosse interpretado como proibindo a
entrada, não a pessoas em geral, mas exclusivamente a mulheres.
Figura 21
«Proibida a entrada», Japão 2002, d. Kenzo Nakagawa, e hipotética versão
feminina
Vimos atrás de que modo um pictograma masculino tanto pode referir-se a homens
ou a pessoas em geral, dependendo dos contextos (cf. supra, Fig._6). Um
pictograma feminino, porém, será sempre lido em primeiro lugar como uma
referência específica às mulheres. De facto, como recorda Deborah Cameron
(1985: 69), na prática discursiva corrente «o homem pode apagar a sua
masculinidade [marca específica] mas a feminilidade nunca pode ser apagada». E
no entanto, a linguagem confunde-se com o próprio processo de construção social
da realidade ' ela determina, tanto quanto é determinada; reproduz, como
constrói. Criando discursos alternativos, ainda que provisórios, estaremos a
contribuir para abalar as mesmas estruturas e processos linguísticos que detêm
um papel central na manutenção das desigualdades de género.
Talvez tão importante quanto os projectos de índole institucional, com o seu
corolário de aceitação passiva e indiferença a longo prazo ' quando, em Março
2207, a campanha de Fuenlabrada entrou na sua segunda fase muitos transeuntes
não se aperceberam da mudança nos semáforos (El País, 2007) ' são os gestos
aparentemente menores de obscuros/as activistas anónimos/as visando uma
reapropriação do espaço público. Estamos a pensar na recente tendência, por
parte de grupos feministas e antiglobalização para, ao invés de simplesmente
apagar ou vandalizar outdoors de publicidade comercial mais abertamente
sexista, tentar subvertê-los de um modo inteligente. A mesma estratégia tem
sido aplicada aos pictogramas: a Fig. 22 ilustra a acção de um grupo feminista
português, envolvendo a colocação de garridos autocolantes-saia nos
tradicionais semáforos e placas de sinalização masculinos (Colectivo Feminista,
2006). Confrontar o/a cidadão/cidadã comum com figuras inesperadamente re-
genderizadas, que colidem com os seus hábitos visuais, pode ser extremamente
eficaz em termos de percepção da realidade.
Figura 22
Acção de rua ' Colectivo Feminista, Setembro 2006
Concluindo, a pictografia sinalética tem evidentes limitações (como tem também
vantagens) relativamente aos códigos falado e escrito. Um exemplo inequívoco
dessas limitações é-nos dado pelas inúmeras dificuldades que rodeiam a
representação equilibrada e paritária do género. Importa que estejamos
conscientes do facto, em vez de idealizarmos este tipo de linguagens visuais
como se de uma solução mágica se tratasse para todos os nossos problemas. Até
porque, desnecessário será dizê-lo, esta forma de comunicação afigura-se
realmente indispensável no mundo de hoje e os pictogramas estão aqui para
ficar.