«Esta é a minha casa»: A intersecção entre a raça e o género no romance Brick
Lane de Monica Ali e no filme de Sarah Gavron
1. Ser mulher: uma visão transcultural ou localizada?
Num artigo sobre a forma como a «raça» e o «género» se articulam na definição
de uma certa memória histórica, Vron Ware chama a atenção para o modo como a
crítica feminista ou, mais concretamente, a historiografia feminista não tem
tido em consideração, na sua teorização, as diferenças étnicas e raciais e a
forma como estas se inter-relacionam com as questões de género1. Sendo certo
que, durante muito tempo, o feminismo liberal teve uma tendência para
menosprezar a articulação com a classe e com a raça2, parece-me que actualmente
o discurso sobre as questões do pós-colonial tende a passar por cima de
considerações sobre o género na sua teorização das questões da diferença étnica
ou racial. Não está no intuito deste artigo questionar qual das posições
teóricas se encontrará mais próxima de um discurso politicamente correcto, o
que seria um empreendimento algo fútil e limitador. Contudo, enquanto mulher
não posso deixar de sentir o quanto a questão do género é frequentemente
excluída das discussões sobre o pós-colonial. Concordo com Vron Ware, quando
esta afirma:
[ ] [u]m exame ao modo como o branco (a «raça»)
se intersecta com o género e a sexualidade pode
deslocar o que por vezes se aproxima de uma
obsessão com a diferença para o conceito menos em
voga da ligação relacional. Pois as noções do que
constitui a feminilidade/masculinidade brancas
são construídas em relação àquelas que se referem
à feminilidade/masculinidade negras e vice-versa
(Ware, 1998: 144-45).
É, pois, esta ideia de ligação relacional entre mulheres que me interessa aqui
abordar, no sentido de perceber o modo como a identidade de género pode
estabelecer ligações que abrangem ou superam a identidade étnica ou racial. Por
outras palavras, o que me interessa aqui perceber é o modo como mulheres
provenientes de raças, etnias e culturas diferentes podem estabelecer ligações
e modos de entendimento que se sobrepõem a todas essas outras diferenças.
Penso que o género nos poderá também ajudar a inverter a direcção das recentes
políticas de integração, baseadas na rejeição do multiculturalismo e da
diversidade cultural. Tal como é referido por Paul Gilroy em After Empire:
Melancholia or Convivial Culture (2004), num contexto político e social tão
adverso às políticas multiculturais, nunca será demasiado lembrar que aquilo
que nos une é mais do que aquilo que nos separa. Nas palavras deste autor:
Até há bem pouco tempo, os ideais dos quais
derivavam estas ideias [as ambições utópicas de
multiculturalismo] não acarretavam
automaticamente qualquer motivo de vergonha,
nomeadamente, seria aceite que os seres humanos
são bem mais iguais entre si do que são desiguais
e que o reconhecimento do valor, dignidade e
semelhança essenciais impõe restrições à forma
como podemos comportar-nos se queremos agir com
justiça (Gilroy, 2004: 4, minha tradução).
Gilroy refere que estes ideais, que se têm vindo a perder, estão
necessariamente associados à derrota da Esquerda e à perda de uma ideia de
internacionalismo e de cosmopolitismo, que foram desde sempre condições
fundamentais para a existência de movimentos como o feminismo e o socialismo.
Vivemos, assim, numa época em que o internacionalismo (ou a globalização, se
quisermos) se tornou a condição de existência fundamental da sociedade, mas
onde, paradoxalmente, se assiste a um ambiente político em que «as filiações
cosmopolitas e transnacionais se tornaram suspeitas e são agora praticamente
impensáveis fora dos estritos códigos do discurso sobre os direitos humanos, as
emergências médicas e as catástrofes ambientais» (Gilroy, 2004: 5, minha
tradução).
Como nos é relembrado por Gilroy, de facto, o feminismo tem sido historicamente
um movimento que se caracteriza pela sua internacionalização, como ficou
exemplarmente descrito nas palavras de Virginia Woolf em Three Guineas, quando
afirma: «como mulher não tenho nenhum país. Como mulher não quero nenhum país.
Como mulher o meu país é o mundo inteiro». Penso que esta é uma perspectiva que
não deveria ser perdida, embora não possa deixar de ser conjugada com uma
perspectiva mais localizada, pois, como também já aprendemos, o ser mulher não
determina um essencialismo biológico-cultural independente do espaço físico-
social em que cada mulher se encontra. Naturalmente, da mesma forma que
considero pertinente ter em vista as palavras de Woolf, pois nos relembram uma
particular conjugação de esforços de um determinado grupo social que se sente
oprimido, em detrimento de uma perspectiva sectária presente em muitas das
concepções «localizadas» desses grupos (permitindo uma abordagem da questão no
sentido daquilo a que Gilroy chama a convivialidade), também não podemos deixar
de ter em conta a particular localização de cada mulher, tal como nos é
relembrado, num outro tempo, por Adrienne Rich, no ensaio pioneiro «Notas para
uma política da localização»3. Mas penso que é importante termos consciência de
que a crítica que Rich desfere à ideia de internacionalismo proposta no ensaio
de Virginia Woolf não é feita em defesa de uma qualquer outra ideia de
nacionalismo. Quando Rich critica Woolf na forma como a sua frase deslocaliza a
mulher, fá-lo, não em função da questão estritamente geográfica, mas sim da
forma como a história e, nesse sentido, também a geografia, marcam
indelevelmente o corpo de cada mulher, individualmente considerada. Será
interessante relembrar aqui as palavras de Adrienne Rich, quando afirma:
Pondo de parte lealdades tribais e ciente de que
os estados-nação são hoje em dia pretextos usados
pelas corporações multinacionais para servirem os
seus interesses, preciso de compreender como é
que um lugar no mapa se torna também um lugar na
história dentro do qual, como mulher, como judia,
como lésbica, como feminista, sou criada e tento
criar (Rich, 2002: 17).
É, portanto, da conjugação destes dois aspectos, a saber, uma certa ideia mais
ou menos universal sobre aquilo que nos une enquanto mulheres e uma ideia
individualizada do que é ser mulher, numa geopolítica específica, num
determinado espaço socioeconómico, que poderemos estabelecer pontes de
comunicação entre diferentes culturas, etnias ou raças.
É, precisamente, a questão de uma suposta universalidade da categoria mulher
que poderá ser mais dificilmente sustentável, tendo em conta as dificuldades
acarretadas pela definição do próprio conceito. Essa é uma discussão que não
cabe no espaço limitado deste ensaio, mas gostava de colocar a questão aqui,
partindo da forma como ela foi tratada por pensadoras como Julia Kristeva
(1981), Luce Irigaray (1992), Rosi Braidotti (1994) ou Donna Haraway (2002), as
quais pensaram a noção de identidade feminina (e, mais concretamente, a noção
de subjectividade) a partir da necessidade de inscrever a categoria mulher numa
noção de sujeito que não se subsumisse ao universalmente considerado, isto é,
um modelo masculino, que se reproduziria, fazendo cópias de si próprio,
«gerando a sua força do mesmo modelo, do modelo do mesmo: o sujeito ( )»
(Irigaray, 1992: 136), para usar as palavras de Luce Irigaray4. Trata-se de
pensar o feminino a partir de teorias radicalmente antiessencializantes e,
sobretudo, de teorias que promovem uma radical diferença da mulher, no sentido
derrideano do termo, isto é, fora da lógica dicotómica que marcou, durante
tantos anos, o pensamento ocidental5. A partir de conceitos como os de «sujeito
nómada» (Braidotti, 1994) ou o de «ciborgue» (Haraway, 2002)6, passamos a
entender o sujeito feminino na sua mais completa diferença, um ser plural e em
constante mutação.
Partindo, pois, destes pressupostos e, nesse sentido, tentando não cair em
lógicas binárias com as quais não estou de acordo, parece-me, ainda assim,
importante não cair na tentação de abrir de tal forma o conceito de feminino
que se torne impossível falarmos de mulheres no plural. Por outras palavras,
penso que a consciência que temos das nossas identidades diferenciadas não nos
poderá impedir de, conscientemente, nos integrarmos num colectivo, o qual
reconhece, pelo menos, uma estrutura social comum no patriarcado. Esta questão
está muito bem resumida num artigo assinado por Saraswati Raju e publicado na
revista Gender, Place and Culture, onde a autora coloca a pergunta: «Somos
diferentes, mas será que conseguimos falar?» (Raju, 2002: 173). Neste artigo, a
autora apresenta um ponto de vista que me parece importante ter em conta nos
estudos feministas: as diferenças que existem entre as mulheres, sejam elas
étnicas, raciais, culturais ou outras, não nos podem impedir de encontrar um
denominador comum no modo como o discurso patriarcal se apresenta como um
elemento reconhecível por todas, «embora», como é referido por Raju, «grupos
diferentes possam seguir modos diferentes de eliminar as raparigas» (Raju,
2002: 175).
Uma ideia relativamente transcultural da mulher ajuda-nos a analisar de outro
modo textos que têm muitas vezes sido vistos como conservadores e retrógrados
de um ponto de vista menos empenhadamente feminista. Por exemplo, o caso dos
filmes da realizadora indiana Gurinder Chadha, que têm sido apontados como
condescendendo com estereótipos enraizados na sociedade ocidental, nomeadamente
na sociedade inglesa, sobre a cultura indiana7.
Em filmes como Bhaji on the Beach ou Bend it like Beckham, por exemplo, a
tendência multicultural poderá servir o propósito da propaganda do estado, como
afirma Rajeev Balasubramanyam em «The Rhetoric of Multiculturalism» (2008),
mas, por outro lado, não deixa de acentuar muito mais as similaridades entre as
duas culturas do que as diferenças. Assim, independentemente das visíveis
diferenças culturais entre os ingleses de origem indiana e os outros, deixa-se
entrever que os estereótipos relacionados com o género são bastante mais
transculturais do que é por vezes admitido pelo discurso liberal dos países
ocidentais. Se é certo que, em Bend it like Beckham, o desejo de ser uma
jogadora de futebol se encontra bem mais reprimido pela jovem indiana do que
pela jovem anglo-saxónica que a incita a juntar-se à sua equipa, não é menos
certo que ambas sofrem uma visível pressão familiar (especialmente por parte
das mães) para rejeitarem esse desporto masculinizante e adoptarem
comportamentos considerados mais femininos em ambas as culturas.
Sendo certo que num filme como Bend it like Beckham (2002) a tendência para uma
ideia mais transcultural da imagem da mulher poderá sugerir uma tentativa de
fugir ao «peso da representação» étnica, conforme referem Dengel-Janic e
Eckstein (2008), também me parece de realçar que, por outro lado, aí se acentua
o «peso da representação» do género. Neste filme, como também em Bhaji on the
Beach (1993), as mulheres são as principais promotoras da sua caminhada para
uma autonomia necessária, deixando-se aqui de algum modo transparecer que não é
o peso da sua cultura indiana que as impede de fazerem esse progresso, pois os
limites que lhes são impostos não deixam de estar muito presentes também nas
vidas das mulheres ocidentais.
2. O romance Brick Lane de Monica Ali
Tendo em conta o exposto anteriormente, parece-me importante abordar o romance
de Monica Ali não no âmbito das teorias multiculturais, mas dando particular
atenção à questão do género, pois parece-me que a viagem que Nazneen enceta,
mais do que uma viagem geopolítica entre o Bangladesh da sua infância e a
Londres onde vive a maior parte da sua vida, é uma viagem interior, que lhe
permite reformular uma ideia adquirida do que é ser mulher. Nesse sentido, esta
viagem vai-lhe permitir re-perspectivar a sua vida, não já em função daquilo
que a sociedade e a cultura em que nasceu e cresceu esperam dela, mas sim a
partir do seu próprio desejo e da sua vontade. Curiosamente, o romance é
antecedido por duas epígrafes que parecem negar tudo aquilo que os movimentos
emancipatórios do século XX nos habituaram (e bem) a rejeitar: a ideia de que
nascemos pré-destinados/as e que esse destino, que nos marca desde que vimos ao
mundo, é inelutável:
«Sternly, remorselessly, fate guides each of us;
only at the beginning, when we're absorbed in
details, in all sorts of nonsense, in ourselves,
are we unaware of its harsh hand».
Ivan Turgenev
[Com firmeza e sem remorso, o destino guia cada
um de nós; só ao princípio, quando estamos
absortos nos detalhes, em todo o tipo de
disparate, em nós próprios, é que não nos damos
conta da sua dura mão].
«A man's character is his fate».
Heraclitus
[O carácter de um homem é o seu destino]
(Ali, 2007: 9)
Estas duas epígrafes ' uma de Ivan Turgenev e outra de Heráclito ' vão
desencadear sentimentos e expectativas contraditórias numa leitora que saiba
que a autora do romance, Monica Ali, é uma mulher nascida no Bangladesh de um
casamento misto (mãe inglesa e pai bengalês), que viveu na Inglaterra desde os
três anos de idade e que estudou em Oxford e que o enredo do romance revolve em
torno de uma protagonista nascida no Bangladesh e transplantada para Londres,
onde, conforme nos é dito na contracapa, se vê obrigada a «tomar as rédeas da
sua vida» [«take control of her life »].
Na verdade, à medida que vai entrando na narrativa, a leitora apercebe-se de
que estas epígrafes, tal como os estereótipos culturais que a elas conduziram
(e que não são apanágio exclusivo da cultura muçulmana na qual Nazneen as
aprende), estão aí para serem depostas e negadas. O romance Brick Lane de
Monica Ali narra a história de Nazneen, nascida numa pequena aldeia do
Bangladesh, cuja vida sofre uma brutal mudança quando o seu pai, usando da sua
prerrogativa patriarcal e paterna de escolher o marido das suas filhas, resolve
casá-la com um homem muito mais velho, que vive em Londres. O romance faz um
enfoque sobre o processo de adaptação da jovem Nazneen à sua vida na cidade de
Londres, bem como sobre o seu crescimento, enquanto mulher do Bangladesh,
vivendo numa grande cidade cosmopolita e estranha. Nesse sentido, o romance
opera uma intersecção entre a raça e o género enquanto variantes fundamentais
na configuração da identidade de Nazneen e na sua autoconsciencialização e
auto-empoderamento.
No início do romance encontramos uma protagonista que passivamente aceita o seu
destino, não pondo em questão nenhum dos actos que afectam a sua vida,
nomeadamente, a forma como o seu pai a obriga a fazer um casamento com um homem
mais velho, forçando-a, consequentemente, a deixar a sua aldeia natal. Nazneen
é-nos apresentada ao longo do romance como alguém que aprendera a lidar com a
sua vida como algo que tem de ser suportado («endured»), pois a tal a obrigava
a sua condição de mulher: «O que não podia ser alterado tinha de ser suportado.
E como nada podia ser alterado, tudo tinha de ser suportado. Este princípio
governava a sua vida. Era mantra, condição e desafio» (Ali, 2007: 16)8.
Este era um ensinamento que lhe havia sido transmitido pela mãe, da qual tinha
sempre ouvido esse mantra. Lembrava-se de ouvir a sua mãe dizer-lhe, por
exemplo: «Se Deus quisesse que fizéssemos perguntas tinha-nos feito homens»
(Ali, 2007: 80). E, mais tarde, mulher feita e com filhos, na sua casa de
Londres, as palavras da mãe revisitavam-na em forma de sonho ou visão, em que
esta invariavelmente a relembra da sua condição, como no momento em que Nazneen
se vê confrontada com a tomada de decisões sobre a sua vida ' algo que lhe era
profundamente estranho ' e, tomada por um delírio febril, é visitada pela
imagem da sua mãe, que lhe diz:
«When you were a little girl, you used to ask me,
Amma, why do you cry? My baby, do you know
now?» [ ] «This is what women have to bear. Once
when you were a little girl, you could hardly
wait to find out».
[ ]
Nazneen turned and looked at her and Amma smiled,
showing her curved yellow teeth. «God tests us»,
she said. «Don't you know this life is a test?
Some He tests with riches and good fortune. [ ]
Others He tests with illness and poverty, or with
jinn who come in the shape of men ' or of
husbands». [ ] «Come down here to me and I will
tell you how to pass the test».
[ ]
Amma began to cackle, and she did not cover her
teeth and her mouth became wider and wider and
the teeth became longer and sharper and Nazneen
put her hands up to cover her face.
«It's easy. You just have to endure» (Ali, 2007
322-3).
[«Quando eras criança, costumavas perguntar-me,
Amma, por que choras? Sabes agora, filha? [ ]
Isto é o que as mulheres têm de suportar. Na
altura, quando eras uma menina, mal podias
esperar para descobrir».
[ ]
Nazneen virou-se e olhou para ela e a Amma
sorriu, mostrando os seus dentes amarelos e
curvos. «Deus testa-nos», disse. «Não sabes que
esta vida é um teste? Alguns são testados com
riqueza e boa sorte. [ ] Outros são testados com
doença e pobreza, ou com génios que vêm sob a
forma de homens ' ou maridos». [ ] «Vem aqui
abaixo até mim e eu ensino-te a passares o
teste».
[ ]
A Amma começou a gargalhar sem tapar os dentes; a
cara foi ficando cada vez mais larga e os dentes
cada vez mais longos e afiados e Nazneen tapou a
cara com as mãos. «É fácil. Só tens de
aguentar»].
No romance, há desde o início uma antevisão daquilo em que Nazneen se iria
tornar, o que nos é dado numa prolepse, que nos irá remeter para o final da
narrativa e que nos permite antever o desenvolvimento da personagem no sentido
de uma maior autonomia:
So that when, at the age of thirty-four, after
she had been given three children and had one
taken away, when she had a futile husband and had
been fated a young demanding lover, when for the
first time she could not wait for the future to
be revealed but had to make it for herself, she
was as startled by her own agency as an infant
who waves a clenched fist and strikes itself upon
the eye (Ali, 2007: 16).
[De modo que, aos trinta e quatro anos de idade,
depois de ter tido três filhos e de lhe ter sido
tirado um, quando tinha um marido fútil e lhe
tinha calhado em destino um jovem amante muito
exigente, quando pela primeira vez não podia
esperar que o futuro lhe fosse revelado mas teve
ela própria de o fazer, foi surpreendida pela sua
própria agência, como uma criança que tivesse
desferido um golpe de punho fechado contra o seu
próprio olho].
O romance está repleto de várias outras pequenas anacronias narrativas,
nomeadamente, analepses que continuamente remetem o leitor para o espaço
geográfico do Bangladesh natal de Nazneen. Este surge-nos, assim, mediado pela
sua visão romântica de um espaço paradisíaco e bom, em contraponto com o
aglomerado urbano e cinzento onde Nazneen vive a maior parte da sua vida.
Assim, Nazneen vê-se confinada a um espaço, primeiro, do seu próprio corpo
feminino, onde se inscrevem as marcas de um destino adverso e, depois, ao
espaço geográfico de um bloco habitacional cinzento e acanhado, que a
constrange e a enclausura; contra esse espaço, ela projecta a memória do seu
Bangladesh natal, que assim surge romanticamente associado, não a um espaço de
liberdade, pois, como vimos, a história de vida da sua mãe em tudo nega essa
asserção, mas, ainda assim, a uma qualquer ideia de paraíso associado à palavra
casa, como parece ficar implícito no seguinte monólogo interior:
She looked at her stomach that hid her feet and
forced her to lean back to counter its weight.
She looked and she saw that she was trapped
inside this body, inside this room, inside this
flat, inside this concrete slab of entombed
humanity. They had nothing to do with her. For a
couple of beats, she closed her eyes and smelled
the jasmine that grew close to the well, heard
the chickens scratching in the hot earth, felt
the sunlight that warmed her cheeks and made
dancing patterns on her eyelids (Ali, 2007: 76).
[Olhou para o estômago que lhe escondia os pés e
a obrigava a encostar-se para trás para
contrabalançar o peso. Olhou e viu que estava
presa dentro deste corpo, dentro deste quarto,
dentro deste apartamento, dentro desta laje de
concreto e de humanidade sepultada. Não tinham
nada a ver com ela. No espaço de alguns
batimentos, fechou os olhos e sentiu o cheiro de
jasmim que crescia perto do poço, ouviu as
galinhas a raspar a terra quente, sentiu a luz do
sol que lhe aquecia as faces e desenhava esquemas
de dança sobre as suas pálpebras.]
Ao longo do romance há uma idealização, por parte da protagonista, desse espaço
que significa a sua origem e a sua casa, pois, apesar de ter aceitado
obedientemente o destino que lhe estava reservado, essa aceitação, conforme é
sugerido no texto, está ligada a uma profunda, permanente, mas simultaneamente
uma quase inconsciente infelicidade. Até porque, para agravar ainda mais as
suas provações (o seu teste), o destino (ou Deus) havia-lhe dado e tirado um
filho (que morre ainda bebé).
Tal como é sugerido na citação anterior, Nazneen é obrigada a fazer uma opção:
por um lado, tem o marido que, finalmente, ao final de dezassete anos e farto
de estar numa cidade, num país, numa cultura que não lhe confere o valor e o
estatuto que ele acha merecer, decide voltar para o Bangladesh para começar uma
vida nova e, portanto, terá de levar a família com ele; por outro lado, tinha
arranjado um amante jovem, muçulmano, um activista político e religioso, que a
pede em casamento, pretendendo que ela se divorcie do marido. Perante esta
situação, Nazneen, que nunca tinha sido confrontada com uma tomada de decisão,
fica bloqueada. Tem um colapso, seguido de um profundo sono, do qual como que
renasce, pronta a tomar a sua vida nas mãos e a decidir o seu futuro. Dadas as
opões, Nazneen decide-se por uma terceira via, a sua, e fica em Londres com as
filhas (que não queriam regressar), dando provas de que, como é referido pelo
marido, deixara de ser uma «rapariga da aldeia», isto é, uma mulher passiva e
obediente, para se tornar uma mulher autónoma e segura das suas decisões.
Esta é uma história que apela a uma globalidade de mulheres e não só a uma
comunidade de mulheres muçulmanas. É evidente que a ruptura e transcendência de
estereótipos é algo comum a muitas mulheres por todo o mundo e fazem parte da
redefinição dos conceitos essencialistas do que é ser um homem ou do que é ser
uma mulher. Porém, o texto do romance relembra-nos que o que aqui está em causa
é também uma diferença étnica e cultural, mas não resolve esse aspecto de um
modo simples ou linear. Por exemplo, não cai no facilitismo paternalista e
ocidental de apontar dedos acusadores às diferenças culturais mais óbvias '
como é o caso dos casamentos arranjados ' ou de mostrar uma perfeita
ocidentalização da protagonista.
Por um lado, Chanu, o marido arranjado de Nazneen, embora seja um homem
demasiado cheio de si e incapaz de dar atenção à sua mulher ou às suas filhas,
não é um homem mau, embora não fosse uma escolha ditada pela paixão ou pela sua
vontade, como havia sido o caso da sua irmã Hasina, cuja vida amorosa é sempre
colocada em contraponto com a de Nazneen. Hasina havia fugido de casa para
realizar um «casamento de amor», mas este tinha falhado e ao longo da vida
apercebemo-nos, através das cartas que esta vai enviando à irmã, de que todas
as suas escolhas amorosas estão destinadas ao fracasso, nomeadamente, pelo modo
como os homens que povoam a sua vida acabam por abusar dela. Contudo, Nazneen
vai descobrindo que o seu marido não tinha sido, apesar de tudo, uma má escolha
de seu pai, pois tratava-se de um homem bom que ela poderia aprender a amar,
conforme fica explícito no monólogo interior indirecto da personagem:
Abba did not choose so badly. This was not a bad
man. There were many bad men in the world, but
this was not one of them. She could love him.
Perhaps she did already. She thought she did. And
if she didn't, she soon would because now she
understood what he was, and why. Love would
follow understanding (Ali, 2007: 121-2).
[O Abba não tinha escolhido assim tão mal. Este
não era um mau homem. Havia muitos homens maus no
mundo, mas este não era um deles. Podia amá-lo.
Talvez já o fizesse. Pensava que sim. E se não o
amava, não tardaria a fazê-lo, porque agora
compreendia o que ele era e porquê. O amor
seguir-se-ia à compreensão].
E quando teve a possibilidade de fazer o seu próprio casamento de amor, recusa.
Por outro lado, durante todo o romance não precisamos, enquanto leitoras e,
posteriormente, enquanto espectadoras do filme, de sentir que Nazneen é uma
mulher ocidental para compreendermos os seus problemas; na verdade, penso que
os compreendemos porque os seus problemas são muito transversais e
transculturais. Nazneen é uma muçulmana que não descura os seus deveres
religiosos (ao contrário do marido, a quem ela nunca viu pegar no Corão para
rezar), que não deixa nunca de usar o seu sari e que não sente necessidade,
como a sua amiga Razia, de fazer gala, perante a comunidade bengalesa, da sua
ocidentalização. Embora tenha consciência de que o sari é uma roupa que de
algum modo inibe os seus movimentos, literal e figurativamente, ela nunca deixa
de o usar. A uma dada altura do romance, o monólogo interior da personagem vai
nessa direcção, como que ecoando as palavras do narrador de Orlando, de
Virginia Woolf, quando afirma, em defesa da androginia da sua personagem «que
são as roupas que nos usam e não nós a elas» (Woolf, 1998: 180). No romance de
Monica Ali, de algum modo se evocam estas palavras, quando, mais uma vez, num
diálogo interno indirecto, a personagem refere:
Suddenly, she was gripped by the idea that if she
changed her clothes her entire life would change
as well. If she wore a skirt and a jacket and a
pair of high heels then what else would she do
but walk around the glass palaces on Bishopsgate,
and talk into a slim phone and eat lunch out of a
paper bag? If she wore trousers and underwear,
like the girl with the big camera on Brick Lane,
then she would roam the streets fearless and
proud. [ ]
For a glorious moment it was clear that clothes,
not fate, made her life (Ali, 2007: 277-8).
[De repente foi tomada pela ideia de que se
mudasse de roupa toda a sua vida mudaria também.
Se vestisse um fato de saia e casaco e um par de
saltos altos, que outra coisa poderia fazer senão
caminhar por entre os palácios de vidro de
Bishopsgate, falar para um telefone muito fininho
e almoçar o conteúdo de um saco de papel. Se
vestisse calças acompanhada apenas por uma peça
de roupa interior, como a rapariga com a grande
câmara em Brick Lane, poderia, então, deambular
pelas ruas destemida e orgulhosa ( )].
Por um glorioso momento parecia claro que a
roupa, e não o destino, moldavam a sua vida].
No entanto, Nazneen mantém-se fiel ao seu sari, o que não a vai impedir de se
tornar uma mulher mais autónoma, destemida e orgulhosa, como que afirmando que
a sua autodeterminação não depende, afinal, das roupas que veste.
3. O filme de Sarah Gavron
Numa entrevista dada aquando do lançamento do filme Brick Lane (2007), Sarah
Gavron refere que o seu interesse na adaptação do romance de Monica Ali se deve
ao facto deste contar uma história transcultural e transgeracional, mas também
ao facto desta narrativa revolver em torno da história de uma mulher e da sua
viagem interior como pessoa. Nesse sentido, trata-se de uma narrativa com
características universais, uma história de uma mulher específica, que poderia
apelar a várias outras mulheres em todo o mundo. Na sua adaptação, como
tentaremos aqui demonstrar, Sarah Gavron conta, de facto, uma história que se
centra sobre a viagem de autoconhecimento e auto-empoderamento de uma mulher do
Bangladesh, o que a torna duplamente estranha à cultura ocidental para a qual é
transplantada, mas na qual não parece conseguir inserir-se.
A adaptação que Sarah Gavron faz do romance vai, assim, centrar-se,
predominantemente, na viagem que a protagonista faz ao seu interior, no sentido
de descobrir a sua própria subjectividade. Porque esta é uma interpretação
possível do romance, trata-se de uma opção óbvia da realizadora centrar-se nos
aspectos daquilo que poderemos chamar a viagem interior de Nazneen. Para tal,
Sarah Gavron usa a montagem paralela, alternando no filme imagens da paisagem
bengalesa com imagens do aglomerado urbano em que Nazneen vive em Londres. Esta
montagem vai pôr em destaque as duas realidades de Nazneen, uma interior,
associada às memórias do Bangladesh e outra realidade exterior, a vivida por
Nazneen em Londres. As imagens relacionadas com a vida de Nazneen no
Bangladesh, que foram filmadas na Índia, suscitam no espectador a ideia de uma
paisagem paradisíaca e um sentimento de nostalgia, que é fortemente associado à
memória da personagem. Esse efeito de nostalgia é acentuado pela banda sonora
associada à paisagem idílica do Bangladesh natal, bem como pelo uso da
narrativa na primeira pessoa, com recurso à voz-off.
O uso da voz-off é, aliás, uma constante ao longo do filme, o que põe em
destaque a necessidade de perspectivar a narrativa a partir de Nazneen, o
centro de todo o enredo. Deste modo, embora contendo como pano de fundo o
confronto entre culturas, o filme, tal como o romance, vai pôr em destaque a
narrativa de um percurso de uma mulher bengalesa que se descobre como sujeito.
Assim, entre os amores e os desamores desta mulher ' uma grande parte do filme
gira em torno da relação apaixonada entre Nazneen e Karim, o jovem muçulmano
por quem esta se apaixona ' vamos seguir o percurso de Nazneen no sentido da
busca de autonomia, o que é afirmado na parte final do filme, com a tomada de
decisão de ficar com as suas filhas em Londres, não acompanhando o marido na
viagem de regresso.
A surpresa será, não tanto a ideia de que ela fica, pois as filhas precisam do
seu apoio para não saírem do seu país, mas porque esta é a decisão que Nazneen
toma a partir da sua própria vontade. Como é dito no filme, a protagonista
descobre que aquela era, afinal, a sua casa. Numa cena intimista, apresentando
uma fraca iluminação do ambiente interior da casa que a família habita em
Londres, Nazneen resolve muito calmamente dizer ao marido, em resposta ao seu
apelo à partida («I cannot stay»), que, então ele deve ir, mas que ela própria
não poderá fazê-lo.
Nazneen demora esse tempo todo da sua vida a perceber que aquele espaço
confinado do aglomerado de cimento em que vive é, afinal, o seu espaço de
liberdade e, muito simbolicamente, o filme termina com a imagem de uma Nazneen
liberta de constrangimentos e do peso do destino, a rir e a brincar na neve com
as filhas.
4. Algumas considerações finais sobre a intersecção entre a questão do género e
da raça
Este final poderá ser visto como um apelo aos ideais do multiculturalismo. Num
mundo pós-onze de Setembro de 2001, que aparece como pano de fundo de ambas as
narrativas, a asserção, por parte da protagonista, de que aquela é a sua casa,
reafirma a crença nesses ideais e fá-lo a partir de uma perspectiva que inclui
a necessidade de pensar a diferença a partir da raça e/ou etnia, mas tendo
também em consideração a questão eventualmente mais transcultural do género. É
o facto de a protagonista destas narrativas ser uma mulher que condiciona a sua
aceitação de Londres e do modo de vida ocidental como fazendo parte de si. É em
Londres, mesmo no acanhado apartamento, inserido num desumanizado aglomerado
habitacional de tijolo e cimento, que ela encontra a sua liberdade, isto é, a
sua autonomia e independência, que lhe permite uma vida liberta dos
constrangimentos patriarcais.
Isto é algo que qualquer mulher deverá poder entender, independentemente da sua
diferente localização social, cultural, étnica ou racial. O facto de estarmos
conscientes de que a raça ou a etnia, a classe e a cultura de que cada mulher é
proveniente modificam o modo como se situam no mundo não nos deveria impedir de
entender e de reconhecer elementos comuns a todas estas
vivências. Como refere Saraswati Raju:
É certo que as diferenças existem e que os
indivíduos não podem estar ligados por categorias
universais. Mas que tal reconhecermos que
mulheres individualmente posicionadas podem ainda
assim pertencer a um contexto mais abrangente e
que, apesar das diferenças entre si, poderá
existir uma ligação/aliança entre as mulheres,
porque os processos de posicionamento social dos
homens colocam as mulheres numa posição de
desvantagem? (Raju, 2002: 177).
Através da análise dos textos aqui apresentados tentou-se chamar a atenção para
a necessidade de uma perspectiva transcultural, que nos permite criar empatia
para além das diferenças. O modo como os estudos pós-coloniais enfatizam a
questão da raça sobre qualquer outra categoria tende a obstruir uma visão mais
abrangente da questão da identidade, pela forma como, precisamente, tende a
esquecer outras «categorias» que se intersectam com a da raça ou da etnia.
Obras citadas:
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Notas
1 V. Ware, Vron, «Defining Forces: Race', Gender and Memories of Empire», in
Chambers e Curti (1998: 142-56)
2 Veja-se, a este respeito, o ensaio pioneiro de Adrienne Rich sobre as
políticas da localização; veja-se, ainda, um ensaio, também ele histórico, de
Audre Lorde, onde se identificam várias categorias, para além da categoria
«mulher», que se encontram na confluência dos processos de opressão social; aí
se afirma: «Algures, nos limites da consciência, existe o que eu chamo uma
norma mítica, que cada um de nós, no íntimo do seu coração sabe não
corresponder ao que é. Na América essa norma é geralmente definida como branca,
magra, masculina, jovem, heterossexual e financeiramente estável. ( ) Aqueles
de entre nós que se encontram de fora desse poder, identificam geralmente um
modo em que somos diferentes e assumimos isso como a primeira causa da nossa
opressão, esquecendo outras distorções em volta da diferença, algumas das quais
podem ser praticadas por nós próprias. De um modo geral, no interior do
movimento das mulheres, hoje, as mulheres brancas concentram-se na sua opressão
como mulheres e esquecem as diferenças de raça, preferência sexual, classe e
idade» (Lorde, 1994: 36-7, minha tradução).
3 Refiro-me, naturalmente, à crítica que Adrienne Rich faz neste ensaio à frase
de Woolf aqui citada, contestando-a do seguinte modo: «Como mulher tenho um
país; como mulher, não me posso desligar desse país, condenando pura e
simplesmente o seu governo, ou dizendo três vezes: Como mulher, o meu país é o
mundo inteiro» (Rich, 2002: 17).
4 Faço aqui referência ao livro Speculum de l'autre femme de Luce Irigaray,
publicado pela primeira vez em França pelas Edições de Minuit, em 1974 e aqui
traduzido a partir da edição americana referenciada em bibliografia.
5 Veja-se, a este propósito, o ensaio de Jacques Derrida, Éperons: les styles
de Nietzsche (1978), onde o filósofo francês ataca o essencialismo de género
através de uma análise do modo como Nietzsche entende a mulher. Para Derrida,
apesar da misoginia expressa na obra de Nietzsche, a forma como o filósofo
alemão desessencializa a mulher é fundamental, pois permite a abertura a uma
pluralidade de verdades, de onde resulta a abertura a uma definição mais fluída
da própria categoria «mulher»: «Il n'y a pas une femme, une vérité en soi de la
femme en soi, cela du moins, il l'a dit, et la typologie si variée, la foule
des mères, filles, soeurs, vieilles filles, épouses, gouvernantes, prostituées,
vierges, grand-mères, petites et grandes filles de son oeuvre» (Derrida, 1978:
83).
6 Refiro-me aqui ao texto emblemático de Haraway, «A Manifesto for Cyborgs»,
primeiramente publicado em 1981, aqui usado na tradução portuguesa de 2002.
7 Veja-se a este respeito um artigo de Rajeev Balasubramanyam, publicado num
volume de ensaios intitulado Multi-Ethnic Britain 2000+: New Perspectives in
Literature, Film and the Arts (2008), em que este escritor aponta um dedo
acusador a Gurinder Chadha por esta, através dos seus filmes, contribuir para
aquilo que ele chama a propaganda do multiculturalismo promovida pelo governo
trabalhista. Por outro lado, no mesmo volume de ensaios, Ellen Dengel-Janic e
Lars Eckstein (2008), percebem nos filmes de Chadha (entre outros) um
fundamento conservador, quer ao nível da forma como a cultura indiana aí é
representada, quer ao nível do modo como se projecta uma imagem neo-
conservadora das mulheres em filmes como Bend it Like Beckham ou Bride and
Prejudice.
8 Nas palavras de Monica Ali: «What could not be changed must be borne. And
since nothing could be changed, everything had to be borne. This principle
ruled her life. It was mantra, fettle and challenge».
Margarida Esteves Pereira é Professora Auxiliar do Instituto de Letras e
Ciências Humanas da Universidade do Minho. Fez o seu Doutoramento em Literatura
Inglesa pela Universidade do Minho, com uma tese intitulada Do Romance
Vitoriano ao Romance Pós-moderno: Reescrita do Feminino em A. S. Byatt
(publicada em 2007). É co-organizadora do livro de ensaios Identity and
Cultural Translation: Women's Writing across the Borders of Englishness (2005)
e tem vários artigos publicados (nacional e internacionalmente) dentro das suas
áreas de interesse.
e-mail: margarida@ilch.uminho.pt
Artigo recebido em 30 de Outubro de 2008 e aceite para publicação em 01 de
Abril de 2009.