EX AEQUO: 10 Anos em revista
Percurso e razão de ser
A ex æquo é mais jovem do que qualquer das revistas representadas neste número.
O seu título, segundo Teresa Joaquim, remetendo para «a expressão usada num
concurso para traduzir a situação de igualdade de desempenho em igualdade de
circunstâncias ( ) reflecte de certo modo como a própria constituição deste
campo de Estudos sobre as Mulheres esteve, após 1974, ligado a uma instituição
da Administração Pública para a igualdade, a Comissão da Condição Feminina
(1977), posteriormente Comissão para a Igualdade e para os Direitos das
Mulheres» (Joaquim, 2004: 90)1.
Assumindo-se como uma revista científica inter e multidisciplinar, foi fundada
por um colectivo que apresenta a particularidade de ser uma Associação de
Estudos sobre as Mulheres, a APEM, de âmbito nacional. Integrando, não só
investigadoras/es de diversas instituições de ensino superior e/ou centros de
investigação de todo o país, como elementos de ONG de mulheres e estudiosas não
vinculadas à academia, tem como objectivo contribuir para o desenvolvimento,
visibilização e legitimação do conhecimento produzido no âmbito dos Estudos
sobre as Mulheres/Estudos Feministas/Estudos de Género, favorecendo o
intercâmbio entre quem faz investigação sob a égide das perspectivas destes
estudos, ao nível académico, governamental ou das organizações cívicas e
culturais. Permanece, assim, vinculada à APEM e, portanto, independente de
qualquer instituição académica, sendo a direcção da revista assegurada, desde o
início, pela presidente da associação. A sua direcção e corpo redactorial têm-
se mantido rotativos, acompanhando as mudanças nos corpos sociais da
Associação, sendo que cada um desses colectivos tem integrado sempre elementos
de distintas pertenças institucionais e geográficas.
Virgínia Ferreira (U. de Coimbra), fundadora, e Helena Costa Araújo (U. do
Porto) precederam a actual directora. O conselho de redacção, passou, em 2003,
de nove membros para sete (circunscrevendo-se à composição das direcções da
APEM) e tem sido maioritariamente constituído por investigadoras de diversas
universidades. Regista-se, todavia, a presença de elementos que estiveram
ligados profissionalmente, de forma mais ou menos continuada, à CIG (ex-CIDM).
Apesar da rotatividade, verifica-se que apenas dezanove pessoas passaram por
este conselho e que, mesmo em momentos de alteração, se mantiveram sempre
alguns dos elementos da equipa anterior, pelo que a rotatividade nunca se
traduziu em descontinuidade2. As investigadoras do Porto (5 da U. do Porto, 1
da U. Fernando Pessoa, 1 da ESE do Porto) têm predominado na história do
conselho de redacção (com 37% do total de pessoas que dele fizeram parte);
seguem-se Lisboa (U. Aberta com 3 e U. Técnica com 1) e Coimbra (U. de Coimbra
com 3); os restantes 26% distribuem-se pelas U. de Évora e do Minho (1 elemento
de cada) e pela filiação à CIG (3 elementos).
Em 2004 foi formado um grupo de sete consultoras, quatro das quais do Porto3,
que constituiu o núcleo inicial de um conselho editorial constituído em 2006.
Para este, mais alargado, apenas transitaram alguns dos elementos do grupo
anterior. Os seus 14 membros distribuíam-se por dez instituições diferentes,
universidades na sua maior parte, predominando agora a de Coimbra, mas também
ONG de mulheres e a CIDM4.
Ao modo de funcionamento rotativo do conselho de redacção não têm sido alheios
momentos de dificuldade e de instabilidade. No entanto, mercê, eventualmente,
de uma certa continuidade assegurada pela permanência de elementos anteriores a
par da integração de elementos novos, a revista não perdeu a periodicidade
semestral e manteve uma assinalável coerência de percurso e capacidade de
mudança perante os desafios que se lhe foram colocando. A sua autonomia
institucional face a instituições de ensino superior ou a centros de
investigação repercute-se, à semelhança das experiências relatadas sobre as
outras revistas, em pesados encargos financeiros. O facto de a sua publicação
ser assegurada desde o início por uma editora comercial5 não a exime de custos,
suportados pela Associação e por alguns subsídios, dos quais se destaca, pela
sua renovação anual desde 2001, o da FCT6.
Em 2001, no balanço dos dez anos da APEM, Maria José Magalhães refere que, nas
entrevistas realizadas, «a revista, considerada como um marco na vida da APEM,
concentra todas as avaliações positivas, deixando outras iniciativas mais
escondidas nas memórias» (Magalhães, 2001: 48). Esta percepção da revista tem-
se repercutido, por um lado, no grande investimento que nela tem sido feito por
parte da Associação e, por outro lado, no significativo interesse que ela tem
mantido junto de um público que se tem revelado crescente. Sublinhe-se que
continua a ser a única revista em Portugal que, aberta ao contributo das
diversas disciplinas e correntes na área dos Estudos sobre as Mulheres, do
Género e Feministas, visa contribuir para a alteração de práticas e
representações estereotipadas e discriminatórias em função do sexo ou de outras
pertenças identitárias.
Um olhar sobre os temas publicados
Vários têm sido os temas abordados ao longo dos dez anos de publicação. O
número inaugural organizou-se em torno das «Representações sobre o Feminino »,
incluindo abordagens provenientes da filosofia, da história, da literatura, da
educação e da teologia, bem como artigos de balanço sobre os estudos sobre as
mulheres em Portugal. Estes voltaram a assumir centralidade por altura do
décimo aniversário da APEM, sendo-lhes dedicados dois números (n.º 5 e n.º 6 '
«A construção dos Estudos sobre as mulheres em Portugal»), nos quais se
examinam os percursos, não só da própria Associação, como de áreas do saber,
das expressões e da intervenção, como a Filosofia, a Literatura, os Estudos
Culturais, o Teatro, a Educação, a Psicologia Social, o Direito, a Economia, a
Sociologia e a História. Campos mais recentes de pesquisa foram evidenciados
num número dedicado a «Polifonias na investigação em torno dos Estudos sobre as
Mulheres » (n.º 11) e foram publicados balanços mais recentes, no que respeita
à História das Mulheres e do Género e à dimensão dos estudos de género nos
currículos do ensino superior em Portugal (n.º 16). A divulgação em língua
portuguesa de alguns textos teóricos fundamentais de autoras estrangeiras
(Genevieve Lloyd, Carole Pateman, Luce Irigaray, Nancy Fraser, Kathleen Weiler,
Iris Marion Young), organizados sob a temática «Reconceptualizações filosóficas
e de teoria política. Perspectivas feministas» (n.º 8), pretendeu estimular um
debate, ainda muito incipiente no nosso país, sobre a relação entre teorias
feministas, filosofia e teoria política. O enfoque nas políticas da igualdade
foi objecto de um duplo número (n.º 2/3 ' «Políticas de Igualdade») e,
posteriormente, outros números privilegiaram as dinâmicas político-sociais e as
problemáticas da cidadania participativa: «Um legado de cidadania. Homenagem a
Maria de Lourdes Pintasilgo» (n.º 12); «Mulheres, participação e democracia»
(n.º 13); o dossier «Género, Responsabilidade Social e Cidadania. Voluntariado
e Educação Não-formal» (n.º 16). As dimensões interculturais da cidadania e os
processos de empoderamento das mulheres, designadamente em contextos
educacionais foram aprofundadas em «Outros sentidos para novas cidadanias» (n.º
7). A educação volta a ser foco de análise em «Género, problemáticas e
contextos educacionais » (n.º 15), num artigo sobre o Brasil (n.º 17) e num
outro sobre as estudantes-trabalhadoras universitárias (n.º 18).
Os temas «Mulheres e Desporto» (n.º 4), «Filosofia e Literatura em textos de
mulheres» (n.º 9), «Direito da Igualdade de Género» (n.º 10), «Representações
mediáticas de mulheres» (n.º 14), «Vozes de Mulheres do Sul» (dossier do n.º
17), «Género e Mercado de Trabalho» (dossier do n.º 18) e «Fazer o Género:
performatividades e abordagens queer» (dossier do n.º 20) reflectem o empenho
da revista em «dar conta da pluralidade de perspectivas nos estudos sobre as
mulheres» (Ferreira, 1999: 9) e dar «acolhimento às contribuições que reflictam
projectos sociais emancipatórios, na sua caleidoscópica complexidade» (ibidem).
Referindo apenas os mais recentes, têm sido introduzidos campos menos
enraizados no panorama investigativo nacional, caso das representações das
mulheres nos média, da análise, numa perspectiva de género, de questões
emergentes das novas realidades sociais geradas pelos fenómenos da globalização
e da mobilidade, obrigando à reflexão sobre as relações de poder e de diálogo
Norte-Sul e, ainda, das ligações entre género, identidade e desejo, a da
discussão em torno da performatividade do género e da teoria queer. Retomar a
abordagem das relações de género no mercado de trabalho assume, hoje,
inquestionável pertinência, face a mecanismos geradores de práticas de
segregação e discriminação sexual cada vez mais complexos.
Nos artigos publicados, desde 2007, na nova secção de Estudos e Ensaios e ainda
não referidos, conferiu-se destaque a classes profissionais, caso das pioneiras
psicólogas espanholas (n.º 16) ou das enfermeiras numa perspectiva de história
comparada (n.º 18); a mulheres que, apesar do papel fundamental que
desempenharam na e para além da sua época, caso de Clara Zetkin, são pouco
conhecidas no contexto nacional (n.º 16); ao corpo como lugar de manifestação
do género enquanto sistema de poder, a partir de questões como o aborto (n.º
16), a feminização da pobreza (n.º 17) e a violência doméstica (n.º 18).
Alargamento e Internacionalização
Em 2005 a revista deixou de publicar exclusivamente em língua portuguesa e
passou a integrar artigos em espanhol, francês e inglês, procurando reforçar o
diálogo internacional, estimular as abordagens comparadas e favorecer a
divulgação da revista e das investigações por ela veiculadas. A revista foi
adquirindo espaço de maior destaque no sítio internet da APEM, com a
disponibilização em linha, em português e em inglês, dos objectivos e linha
editorial, das normas para apresentação e avaliação de artigos, dos apelos a
contribuições, bem como dos índices e resumos dos artigos publicados em cada
número.
Estruturada em números temáticos até 2007, apresentou-se com um novo formato, a
partir do n.º 16 desse ano, que conciliou a intenção de abordar problemáticas
substanciais e significativas a partir de abordagens disciplinares e
perspectivas teóricas distintas (Dossier temático) com a necessidade de
divulgar artigos, provenientes de investigação diversa, e alargar o intercâmbio
de informação e de conhecimento científico na área dos estudos sobre as
mulheres, do género e feministas (Estudos e ensaios). A secção de leituras e/ou
recensões de obras manteve-se.
A abertura da revista a uma colaboração mais alargada, nacional e
internacional, conduziu, também, a um aperfeiçoamento do seu sistema de
arbitragem científica, integrando referees externos, de modo a garantir uma
elevada qualidade dos artigos de acordo com os padrões de exigência das
revistas de aquém e além fronteiras. O processo de alargamento e
internacionalização do conselho editorial encontra-se em curso. A este
processo, não foi alheia a integração, primeiro no Catálogo da Latindex e,
depois, na base de indexação SciELO, em cujo portal os artigos integrais em
versão pdf ou html passam a poder ser livremente acedidos.