Mulheres Estudantes Trabalhadoras na Universidade do Porto - uma licenciatura
«fora de tempo» ou «sem tempo»?
Introdução
«Em primeiro lugar as mulheres recusam o anonimato das
generalizações. Recusam abrigar-se num sujeito
indeterminado onde a sua vida real, concreta, feita de
carne e de sangue, de espírito e de inteligência íntima das
coisas, seria sufocada e reduzida às dimensões sem relevo
do que é indefinido. Recusam ser um número nas
estatísticas, um sujeito insípido do direito, uma mera
demonstração de qualquer teoria. Elas querem dizer a sua
vida. Tal como ela é. A palavra das mulheres diz-se no
singular. (...)»
Maria de Lourdes Pintassilgo (1981)
Há alguns anos atrás a concepção tradicional do papel da mulher, sobretudo a da
mulher da classe média e da média-alta, quase limitava o seu horizonte ao
espaço familiar. A evolução do contexto cultural, social e económico dos países
ocidentais, foi alterando significativamente esta concepção, na medida em que
as mulheres foram abraçando o mundo laboral, alargando o seu espaço de mulher/
mãe ao de profissional, saindo do espaço doméstico e privado para o mundo
público (Núncio, 2008). De facto, para Maria das Dores Guerreiro e Inês Pereira
(2006), de entre as diferentes transformações sociais e económicas decorridas
nos últimos trinta a quarenta anos, a integração das mulheres na população
activa surge, portanto, como particularmente significativa.
A participação das mulheres na esfera pública não se resume à integração no
mercado laboral, mas é também percebida pela maior e mais significativa
presença no contexto académico, nomeadamente no ensino superior (Guerreiro e
Pereira, 2006). A organização dos quotidianos passou, assim, a ser atravessada
pelo tempo consagrado ao trabalho doméstico e às rotinas da profissão,
condicionando o investimento em si, como pessoa, na realização da muito citada
«dupla jornada de trabalho» (Guerreiro e Pereira, 2006; Núncio, 2008). Será
interessante perceber como coexistem/completam e/ou conflituam estes papéis de
mulher/ /profissional e estudante, assim como se movem e debatem as mulheres
neste complexo contexto de pressões e de solicitações.
Os estudos feministas têm vindo a dar um contributo importante para que se
consiga um entendimento mais profundo e mais crítico de problemas como, por
exemplo, os relativos a questões de cidadania, democracia e de
multiculturalidade. Permitem que se faça a denúncia de como estes conceitos têm
sido frequentemente construídos a favor de uma perspectiva masculina. Com
frequência, direitos e cidadania eram (e ainda são) debatidos de uma forma que
respeitava essencialmente aos homens, sendo as mulheres relegadas para um papel
secundário. Como chama a atenção Lígia Amâncio, «a situação paradoxal de seres
da natureza e seres sociais, cujo espaço de exercício da razão se reduziria à
função reprodutora, no discurso político da modernidade, tornou as mulheres
seres relativos no plano da cidadania e dos direitos» (Amâncio, 2003: 703).
De facto, Lígia Amâncio e João Oliveira afirmam que «o ser mulher é socialmente
pensado por forma a direccionar os comportamentos para uma única esfera de
actividade, a esfera privada, a família. Deste modo, é de esperar que mesmo
quando as mulheres saem desta esfera para trabalhar, as suas actividades sejam
socialmente construídas como uma extensão das actividades domésticas e dos
comportamentos a elas associados para o mundo do trabalho» (Amâncio e Oliveira,
2002: 48).
No processo de afirmação do papel das mulheres há alguns passos significativos
a assinalar. O seu avanço no mercado de trabalho, crescendo especialmente a
partir dos anos 60 (Casaca, 2005), sem dúvida relacionado com alterações que se
verificaram no contexto social e económico1, particularmente decorrente do
desenvolvimento da economia de serviços (para uma revisão da literatura ver
Casaca, 2005). Para esta alteração contribuiu o maior acesso à esfera pública,
visível na crescente representação feminina no ensino superior, secundário e
trabalho remunerado, e o maior (ainda que aparente) distanciamento das tarefas
domésticas tradicionais que desempenham. Porém, se há maior aceitação desta
mudança, ainda que em conjugação com a actividade doméstica, muitos problemas
subsistem e têm vindo a ser objecto de estudo por parte de vários autores. A
dominação masculina que, como refere Pierre Bourdieu (1998), já não se
apresenta hoje tão naturalizada como anteriormente, ainda subsiste. A fraca
representatividade das mulheres em níveis mais elevados na carreira
profissional e em posições de chefia denota a permanência dessa dominação
(Bourdieu, 1998), constituindo a designada «segregação vertical» (Guerreiro e
Pereira, 2006: 11), com as mulheres fortemente representadas na base da
hierarquia, possuindo empregos pior remunerados, e sentindo maior dificuldade
em ascender aos lugares cimeiros (Casaca, 2005; Guerreiro e Pereira, 2006).
Se, apesar de tudo, é um pouco menos visível na esfera pública, sabe-se que a
«dominação masculina» subsiste muito fortemente na esfera privada, em que as
mulheres acumulam as funções tradicionais de companheiras, mães e donas de
casa, com a profissão, sem que isso frequentemente seja acompanhado de uma real
partilha de trabalhos com os companheiros e restante família. De facto, Lígia
Amâncio e João Oliveira (2002), numa revisão da literatura, defendem que a
emancipação das mulheres através do trabalho não passa de um mito, uma vez que
as mulheres continuam a estar sobrecarregadas, quer com a profissão, quer com o
trabalho doméstico, «o que criou nas mulheres trabalhadoras a identidade de
super-mulher» (Amâncio e Oliveira, 2002: 51), fenómeno esse que é transversal
a várias classes sociais e vários sectores profissionais. Anne-Marie Fontaine e
colaboradores/ as (2004) referem que, a nível europeu, «apesar de tanto homens
como mulheres ambicionarem e considerarem desejável uma divisão mais
igualitária do trabalho doméstico e de cuidado dos filhos, estas actividades
continuam a ser uma responsabilidade maioritariamente feminina. A aparente
mudança nas atitudes não parece reflectir a prática, dado que os papéis
conjugais e parentais continuam a ser estruturados em função do género» (2004:
99). A participação do homem nas tarefas domésticas é significativamente
diminuta, resultado de modos enraizados de socialização, marcados por
distinções de género (Guerreiro e Pereira, 2006: 11). De facto, segundo vários
autores, as mulheres realizam duas a três vezes mais trabalho doméstico do que
os homens (Coltrane, 2000, Perista, 2003, cit. in Fontaine et al., 2004). Os
inquéritos à ocupação do tempo (cf. Guerreiro e Perista, 1999) mostram que as
mulheres continuam a ser as principais responsáveis pela execução de tarefas
domésticas enquanto a participação dos homens continua a ser inferior e a
assumir um carácter mais particularizado e suplementar, ainda que se reconheça
que o cuidado dos filhos tenha vindo a sofrer um aumento.
Se o desempenho de actividades domésticas e profissionais ainda é fonte de
muitos problemas, admite-se que a questão se deverá agudizar quando a estas
dimensões se junta a situação em que as mulheres, de forma mais ou menos
consciente e assumida, encetam um projecto de valorização pessoal,
especificamente, o (re)ingresso no ensino superior. De facto, como diz Piedade
Lalanda «a afirmação do espaço pessoal representa a emergência de um tempo
individual que rompe com a rotina e contraste com o tempo colectivizado pelas
dinâmicas sociais, quer sejam o trabalho, a família ou outras» (2000: 92).
Acredita-se que os muitos e diferentes papéis desempenhados pelas mulheres dão
lugar a situações não só complexas mas que também terão diferentes reflexos em
diferentes estratos socioculturais. Muito provavelmente, estará relacionada
ainda com questões de identidade das próprias mulheres, identidade essa que
seria interessante analisar, pois que esta se constrói ao longo de todo um
complexo processo de socialização e tendo como pano de fundo «o difícil
histórico relacionamento entre a maternidade e a emancipação das mulheres [que]
moldou as suas lutas pela agência como cidadãs em vários contextos» (Lalanda,
2000: 99, cf. também Araújo, 2000).
Assim sendo, a interacção entre os papéis de companheira, dona de casa, mãe,
profissional e estudante poderá condicionar uma identidade complexa, «múltipla
e híbrida», como refere António Magalhães (2001), identidade essa que pode
evoluir e, portanto, alterar-se. Este poderá ser um processo doloroso que
acarreta alguns custos.
O estudo
Para tentar abordar as questões anteriormente referidas, o presente trabalho
escolheu como objecto de análise um grupo especial de mulheres ' as mulheres
estudantes trabalhadoras ' as quais, para além de trabalharem fora de casa,
decidem empreender um percurso de valorização pessoal, estudando na
universidade. Trata-se e uma situação que poderá estar relacionada com uma
aspiração mais ou menos consciente de se assumirem como agentes activos.
Neste estudo pretende-se perceber se e como a conflitualidade de papéis
acontece no universo de mulheres estudantes trabalhadoras, agudizando as
questões de articulação dos diversos papéis já atrás referidos. Do mesmo modo,
será importante também tentar perceber como são geridas as várias dimensões do
quotidiano desta população. O ensino superior apresenta-se como um campo rico
para analisar este tipo de questões, uma vez que se, por outro lado, se
verifica a «abertura generalizada e a aparente democratização do acesso»
(Almeida et al., 2006: 513) a este grau de ensino, também é verdade que a
Universidade acaba por «integrar diferenciações relativamente aos trajectos
escolares anteriores, à escolha do curso e às taxas de sucesso associadas ao
género e à origem sociocultural dos estudantes» (ibid.). Por outras palavras,
apesar de ser um subsector de ensino ao qual os alunos atribuem mais prestígio
e maiores probabilidades de inserção profissional (Braga da Cruz et al., 1995,
cit. in Almeida et al., 2006), reveste-se também de dificuldades, importando
perceber como são sentidas por mulheres estudantes trabalhadoras e se estas
conseguem geri-las com maior ou menor sucesso. Interessa perceber, também, se
sentem que o Ensino Superior funciona numa lógica de reprodução ou de promoção
sociocultural, dualidade para que chamam a atenção Leandro Almeida e
colaboradores/as (2006).
Atendemos a Iris Young (1997), que considera que o «género» concebe as mulheres
como um colectivo, um grupo identitário, com valores e expectativas mais ou
menos comuns, e sobretudo consciente da sua situação de socialmente oprimido.
Esta autora frisa que, muito embora o conceito de «género» seja útil ao
evidenciar as condições de opressão das mulheres, frequentemente imperceptíveis
no nosso dia-a-dia, ao mesmo tempo incorre no risco de homogeneizar um grupo
que é em si mesmo heterogéneo, mascarando a multiplicidade e ignorando as
experiências particulares dos seus elementos. Assim, se por um lado, conceber
as mulheres como um grupo homogéneo pode significar ignorar as suas vivências
idiossincráticas, as relações que foram estabelecendo ao longo da vida (classe,
nacionalidade, etnia, religião, etc.), por outro lado a não afirmação como
grupo arrisca a que a dominação das mulheres não seja verdadeiramente
compreendida como parte integral no processo de construção das sociedades,
enquanto experiência colectiva, vivida por todas as mulheres, ainda que de
forma diferente. De facto, «negar a realidade das mulheres como um colectivo,
reforça o privilégio daqueles que beneficiam da sua opressão mantendo-as
divididas» (Young, 1997: 18).
Ruth Lister defende que «o desenvolvimento de um sentido consciente de agência,
tanto ao nível pessoal como político, é crucial para que as mulheres quebrem as
cadeias da vitimização e para a sua emergência como cidadãs activas, em pleno»
(1997: 38). A possibilidade de «agência» é também trabalhada pelo conceito
freireano de «conscientização», um dos conceitos mais conhecidos e discutidos
de Paulo Freire. Este conceito designa inicialmente o processo de tomada de
consciência crítica das condições que, de forma mais ou menos explícita,
contribuem para a existência da condição de seres ou grupos em condição de
opressão. Para além de tomada de consciência crítica das condições de opressão,
o processo de conscientização conduzirá a tomadas de posição face a estas
condições. Paulo Freire assume explicitamente a importância do desenvolvimento
que transcende a simples capacidade de intervenção e consciência da opressão:
«Esta tomada de consciência não é ainda a conscientização, porque esta consiste
no desenvolvimento crítico da tomada de consciência. A conscientização implica,
pois, que ultrapassemos a esfera espontânea de apreensão da realidade, para
chegarmos a uma esfera crítica na qual se dá como objecto cognoscível e na qual
o homem assume uma posição epistemológica» (1980: 26). Este autor, nos seus
estudos, refere o conceito de oprimido também quando fala, entre outras, de
minorias étnicas e de género, discutindo a situação que o «oprimido» vive,
estando na condição de «colonizado» pelo opressor, pelo facto de este adoptar
como sendo suas as normas e valores daquele que o oprime (Freire, 1970). Lígia
Amâncio parece ir ao encontro desta ideia quando afirma existir uma
«relatividade» na emancipação feminina, uma vez que «as disposições
institucionais e ideológicas e a própria auto-representação ainda colocam as
mulheres numa situação de alteridade, que é patente nos conteúdos do
estereótipo feminino e na construção ideológica de um papel que as remete para
uma situação de dependência simbólica do contexto (desvalorizado) da família e
do privado, mesmo quando exercem funções na esfera pública» (Amâncio, 2002:
59).
A consciência de que o papel tradicional da mulher-mãe-companheira se encontra
construído e enraizado em mulheres e homens, ao longo de todo o processo de
socialização, alerta ainda para a importância de considerar os trabalhos que
referem que só um continuado e bem estruturado conjunto de ocorrências e acções
poderá ter possibilidade de ter alguma influência numa real mudança de atitudes
relativamente a estas questões (Cortesão e Stoer, 1995).
Metodologia
O universo em análise no presente trabalho foi o das mulheres que frequentam o
ensino superior universitário público da Universidade do Porto, como estudantes
trabalhadoras.
Começou-se por caracterizar esta população quanto ao número, distribuição por
Faculdades e Cursos Superiores, idade, estado civil, agregado familiar,
profissão, e ainda outros dados importantes do ponto de vista sociodemográfico.
Foram abordadas, também, as suas experiências particulares, nomeadamente a sua
heterogeneidade ao nível dos percursos profissionais, educação, qualificação e
relações familiares e sociais.
Ao nível da vida privada e, especificamente das relações com a família,
procurou-se recolher alguns dados relativos à divisão do trabalho doméstico, às
expectativas e estratégias no que se refere à estrutura familiar e as
implicações (materiais e afectivas) no agregado familiar do tempo investido na
obtenção da licenciatura. Estes dados foram colhidos através de questionários
com perguntas fechadas e abertas e de entrevistas semi-direccionadas.
Fundamentalmente, pretendeu-se obter pistas sobre as estratégias que as
mulheres e os próprios sistemas familiares encontram para se reajustar a esta
(nova) realidade, e como estas gerem os seus tempos académicos, familiares,
profissionais e pessoais. De facto, coloca-se a hipótese que a afirmação do
espaço de enriquecimento e investimento pessoal acarreta frequentemente uma
dificuldade para a manutenção de uma rotina, enfrentando, deste modo, as
tradicionais dinâmicas sociais, quer sejam a família, o trabalho ou outras.
Ao nível da designada «life long learning» (aprendizagem ao longo da vida),
pretendeu-se analisar as motivações que estão na base do investimento numa
licenciatura, ao mesmo tempo que desenvolvem a sua actividade profissional, e
em que medida consideram que este esforço servirá para uma real ascensão na
carreira, ou a um redireccionamento desta, para o desenvolvimento pessoal e/ou
para uma mudança de estatuto social.
Por último, é de referir que não é nosso objectivo realizar uma análise
profunda e problematizadora do conceito de trabalho nas duas esferas sociais
distintas: uma esfera pública ' «referenciada espacialmente e funcionalmente ao
campo produtivo, sendo que nele o trabalho/emprego é suportado por relações
extrafamiliares e unido estreitamente a uma remuneração» (Rocha e Ferreira,
2006: 17) e uma esfera doméstica ' «referenciada espacial e funcionalmente ao
lar, às relações familiares a ao trabalho (doméstico) envolvido na (re)produção
quotidiana dos membros do grupo familiar» (id. ibid.).
Para a realização deste trabalho foi mobilizado um conjunto muito diverso de
metodologias, que incluíram a análise bibliográfica de diversos documentos, a
utilização de bases de dados estatísticos disponíveis (por exemplo: Direcção
Geral do Ensino Superior ' DGES; INE; EUROSTAT; Reitoria da Universidade do
Porto) e a realização de inquéritos (através da aplicação de um questionário
construído para o efeito) e entrevistas a mulheres a frequentar o ensino
superior como estudantes trabalhadoras na Universidade do Porto.
Número de estudantes trabalhadoras
Foram listadas todas as alunas com estatuto de estudantes trabalhadoras
registadas na Reitoria da Universidade do Porto no ano 2005/2006. De entre
estes o número encontrado foi de 1080 mulheres (Quadro 1).
Quadro 1: Total Estudantes Trabalhadores na Universidade do Porto (Mulheres e
Homens)
Total %
Mulheres 1080 48,19
Homens 1161 51,81%
Total 2241 100,00%
Fonte:Reitoria UP.
Foram distribuídos questionários em todas as Faculdades da Universidade do
Porto. Através do SIGARRA2 obteve-se o e-mail de todas as alunas inscritas na
UP, tendo-se seleccionado o grupo das estudantes-trabalhadoras a quem foi
enviado o inquérito via e-mail. Dadas as dificuldades de contacto com as
estudantes trabalhadoras, o número de inquéritos recolhidos ficou aquém do
esperado, sendo que apenas 103 foram considerados válidos para análise, o que
perfaz cerca de 10% do Universo em estudo (v. Quadro 1). Foram realizadas sete
entrevistas.
O questionário permitiu caracterizar a amostra do ponto de vista
sociodemográfico, bem como obter informações que também servissem de ponto de
partida para a elaboração das entrevistas. Para a análise dos inquéritos, na
sua vertente quantitativa, utilizou-se o Programa Statistical Package for the
Social Sciences (SPSS) para o Windows. Na vertente qualitativa, realizou-se uma
análise de conteúdo às duas questões abertas do questionário, que procurou
agrupar significações, cruzando-as posteriormente com a análise dos discursos
directos obtidos a partir da análise das entrevistas. A análise de conteúdo
teve por objectivo organizar e, portanto, evidenciar os grandes temas abordados
pelas inquiridas. Tratou-se de uma análise categorial que analisa o texto
segundo a presença e a frequência de unidades de sentido, de onde emergiram as
categorias estudadas. É de referir que os dados analisados decorrem do discurso
produzido pelas inquiridas e correspondem, portanto, às representações que têm
das circunstâncias de vida em que se encontram.
Dados sociodemográficos: breve caracterização
Relativamente à caracterização sociodemográfica da amostra em estudo e
especificamente ao distrito de residência, a esmagadora maioria é do distrito
do Porto (81%), sendo que as restantes se dividem, por ordem decrescente, entre
os distritos de Aveiro, Braga, Lisboa, Viana e Coimbra (Quadro 2). O facto de
haver estudantes trabalhadoras deslocadas, justifica as referências que constam
nos inquéritos relativos ao tempo gasto nas deslocações aos estabelecimentos de
ensino, factor que é sentido como uma dificuldade acrescida na conciliação
entre família, estudo e trabalho.
Quadro 2: Distribuição da amostra por distrito de residência
Relativamente à caracterização da amostra, a maioria das respostas provieram da
Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação (32%) e da Faculdade de
Letras (30%), sendo a terceira fatia da Faculdade de Ciências (12,6%),
precisamente as faculdades que apresentam o maior número efectivo de mulheres
estudantes trabalhadoras da UP. Este dado parece ser consistente com outros
estudos desenvolvidos no contexto nacional e internacional, onde se verifica
que o género determina, em grande medida, uma predominância do sexo feminino
nos cursos ligados às ciências sociais, ainda que estejam cada vez mais
presentes em cursos tradicionalmente associados ao sexo masculino, reflectindo
uma cada vez maior abertura a estas áreas (cf. Almeida et al., 2006).
Quadro 3: Inquéritos recolhidos por Faculdade
Faculdade Frequência %
Homens 1161 51,81%
FPCEUP 33 32,0
FLUP 30 29,1
FCUP 13 12,6
FCNAUP 8 7,8
FEUP 6 5,8
FMUP 3 2,9
ICBAS 3 2,9
FAUP 2 1,9
FBAUP 1 1,0
FDUP 1 1,0
FEP 1 1,0
FFUP 1 1,0
FMDUP 1 1,0
Total 103 100,0
Constatou-se que a grande maioria (73%) tem menos de 30 anos, sendo que metade
da amostra (50%) se encontra entre os 25 e os 30 anos (Quadro 4). É de
sublinhar a existência de 27 mulheres com mais de 30 anos, sendo que quatro
destas têm mesmo mais de 50 anos.
Quadro 4: Distribuição da amostra por idade
Idade Frequência %
<25 24 23,3
25-30 52 50,5
31-35 9 8,7
36-40 8 7,8
41-45 5 4,9
46-50 1 1,0
>50 4 3,9
Total 103 100,0
A maior parte das inquiridas neste estudo não tem filhos/as (69% da amostra)
sendo que 16,5% tem um/a filho/a e as restantes dividem-se entre 2 filhos/as, 3
e 4 ou mais filhos/as (Quadro 5). O grupo das mulheres estudantes trabalhadoras
com filhos/as representa 31% da amostra.
Quadro 5: Distribuição da amostra por número de filhos/as
N.º Filhos/as Frequência %
0 52 68,9
1 17 16,5
2 7 6,8
3 1 1,0
4 2 1,9
Omissos 5 4,9
Total 103 100,0
Na amostra analisada, verificou-se que 42,7 % das mulheres vivem com o cônjuge/
companheiro/a ou com este/a e filhos/as (Quadro 6).
Quadro 6: Distribuição da amostra por com quem vive
Com quem vive Frequência %
Com o pai e/ou mãe 34 33,0
Marido/companheiro/a 24 23,3
Marido/cônjuge/companheiro/a e filho(s) 21 20,4
Sozinha 12 11,7
Com filhos/as 3 2,9
Com amigos/as/colegas de apartamento 1 1,0
Outra 6 5,8
Total válidos 101 98,1
Omissos 2 1,9
Total 103 100,0
Quanto à situação profissional, a maioria (cerca de 57%) está empregada por
conta de outrem, quer a tempo total como a tempo parcial, sendo que a segunda
grande franja da amostra pertence à Função Pública. Salienta-se que 7% destas
mulheres referiram que estão inactivas ou em situação de desemprego; o facto de
se considerarem como estudantes trabalhadoras parece indicar que o foram até
pouco tempo antes de preencherem o inquérito, que estão à procura de novo
emprego, ou ainda que se encontram inscritas nos centros de emprego. De
sublinhar, também, o emprego a tempo inteiro da maioria das mulheres da amostra
(Quadro 7), facto que vai ao encontro dos indicadores sobre a situação de
emprego feminino em Portugal (Casaca, 2005; Guerreiro e Pereira, 2006).
Quadro 7: Situação profissional das mulheres da amostra
Situação profissional actual Frequência %
Empregada por conta de outrem (tempo inteiro) 33 32,0
Empregada por conta de outrem (tempo parcial) 26 25,2
Função pública 19 18,4
Trabalhadora por conta própria (tempo inteiro) 8 7,8
Trabalhadora por conta própria (tempo parcial) 6 5,8
Empresária com empregados a seu cargo 1 1,0
Inactiva* 7 6,8
Total válidos 100 97,1
Omissos 3 2,9
Total 103 100,0
* Mulheres em situação de desemprego recente e à procura de novo emprego.
A maioria das inquiridas não interrompeu os estudos desde que entrou no ensino
superior (Quadro 8). Ao contrário, 31% destas afirma que se viu forçada a
interromper os estudos superiores devido às dificuldades de conciliação dos
diferentes papéis. Salienta-se que a maioria das mulheres que interrompeu os
estudos vive com o marido/companheiro/a e filhos/as, ou só com marido/
companheiro/a.
Quadro 8: Distribuição da amostra por interrupção de estudos
Interrompeu estudos Frequência %
Sim 32 31,1
Não 70 68,0
Total válidos 102 99,0
Omissos 1 1,0
Total 103 100,0
No entanto, não obstante todas as dificuldades sentidas e que levaram à
interrupção de estudos, verifica-se que por vezes acontece um reingresso no
ensino superior, o que parece indicar a não abdicação de um projecto de vida,
mas sim apenas o seu adiamento. Efectivamente, 83% das mulheres inquiridas que
ingressaram no ensino superior como estudantes trabalhadoras invocam como uma
das motivações o «desenvolvimento pessoal/realização de um sonho». O
investimento na carreira e a abertura de novas perspectivas profissionais pela
obtenção de um novo grau académico parecem também representar uma parte
significativa das razões invocadas, como se pode confirmar no quadro seguinte
(Quadro 9).
Quadro 9: Razões apontadas para o ingresso no Ensino Superior
Relativamente à divisão de tarefas, que poderá ocorrer no quotidiano familiar,
verificamos que as inquiridas afirmam que há tarefas que são referidas como
sendo quase exclusivamente da sua responsabilidade (Quadro 10). Trata-se de
tarefas em que o cônjuge/companheiro/a participa pouco ou nada, nomeadamente,
«limpar a casa», tarefas relacionadas com o tratar da roupa (passar a ferro,
lavar, etc.) e «preparar refeições». É referido nas respostas obtidas que o
cônjuge/companheiro/a participa mais e até ultrapassa a mulher na «manutenção
do carro» e «bricolage». Onde parece existir maior partilha de tarefas é nos
assuntos relativos as crianças (nos casais com filhos) e em «fazer compras»,
dado que é encontrado noutros estudos que apontam como tarefas neutras do ponto
de vista do género, e por isso mais equitativamente partilháveis, o pagar
contas e fazer compras (Coltrane, 2000, Perista, 2003, cit. in Fontaine, 2004).
Como referimos atrás, os inquéritos à ocupação do tempo apresentam as mulheres
como as principais executoras de tarefas domésticas (como a preparação das
refeições, o tratamento da roupa ou a limpeza regular da casa), verificando
também que a actividade de cuidado aos filhos tem vindo a beneficiar da cada
vez maior participação masculina (Guerreiro e Perista, 1999).
Quadro 10: Partilha de tarefas domésticas
Aquilo que apuramos nas respostas dadas no inquérito é que, segundo as
inquiridas, há tarefas «dela», tarefas «dele» e tarefas que poderão ser «dos
dois». Apesar disso, as mulheres da nossa amostra afirmam que realizam sempre
todas as tarefas, partilhando poucas. Mesmo nas tarefas em que os cônjuges/
companheiros/as são referidos como sendo responsáveis, as mulheres aparecem
também representadas.
Parece assim tratar-se de uma situação em que, apesar de se tratar de mulheres
activas e independentes, continua a ocorrer uma distribuição de papéis bastante
tradicional, que vai ao encontro da interiorização das responsabilidades que,
tradicionalmente, as mulheres «devem» desempenhar. O que também é evidenciado
em trabalhos anteriores, como por exemplo os de Sofia Alexandra Cruz (2004),
onde se afirma que «as mulheres trabalhadoras entrevistadas casadas e com
filhos, vivem nos seus lares o modelo tradicional assimétrico da divisão sexual
do trabalho no qual assumem integralmente todas as tarefas relacionadas com a
esfera doméstica» (2004: 592). O que é sobretudo interessante salientar é que,
tal como trabalhos anteriores também evidenciam, ao exercício destas tarefas
tradicionais se adicionam outras que, numa distribuição clássica, seria mais de
esperar que fossem atribuídas aos homens. Por outras palavras, o avanço para a
situação de estudante trabalhadora parece traduzir-se em mais trabalho do que
numa redistribuição/partilha de tarefas.
Discursos Directos
Como se referiu antes, o presente estudo propôs-se explorar sistematicamente as
dificuldades expressas em articular os estudos, o trabalho e a vida familiar.
Propôs-se também identificar medidas que as inquiridas consideram poder
contribuir para a resolução das dificuldades apontadas.
Nesse sentido, procedeu-se ao estudo das duas questões abertas do inquérito,
através de uma análise de conteúdo, agrupando significações e cruzando-as
depois com a análise dos discursos directos obtidos a partir das entrevistas
realizadas.
As questões abertas que constavam dos inquéritos eram as seguintes:
Questão 1: Quais são as principais dificuldades com que se
confronta ao procurar conciliar os estudos, o trabalho e a
sua vida familiar?
Questão 2: Indique até quatro medidas de natureza familiar
e/ou institucional e/ou governamental que na sua opinião
deveriam ser implementadas para contribuir para a resolução
destas dificuldades.
Salienta-se que os dados analisados decorrem do discurso produzido pelas
inquiridas, correspondendo, portanto, às representações que têm das
circunstâncias de vida em que se encontram. Tratou-se de uma análise categorial
que analisa o texto segundo a presença e a frequência de unidades de sentido.
Análise das respostas
Questão 1' «Quais são as principais dificuldades com que se confronta ao
procurar conciliar os estudos, o trabalho e a sua vida familiar?»
Em relação a esta questão, consideraram-se duas dimensões essenciais nas
respostas obtidas: Dificuldades a nível Pessoal e a nível Institucional (v.
Quadro 11). Relativamente à dimensão Pessoal, as categorias que emergiram mais
significativamente foram as dificuldades relacionadas com o Tempo (sobretudo a
falta de tempo), a Fadiga Física/ Psicológica/ Desmotivação, Dificuldades
Económicas e Falta de Apoio da Família.
Como sub-categorias da categoria tempo, são referidas sobretudo as dificuldades
ao nível da «Gestão do Tempo». Mas há as que especificam também a que Tempo se
estão a referir, aparecendo, assim, o Tempo Pessoal, Tempo para a Família,
Tempo para o Estudo, Tempo para a Frequência das Aulas e Tempo para Deslocações
à Faculdade. No quadro seguinte, apresentamos alguns exemplos ilustrativos
destes discursos.
Quadro 11: Discursos que ilustram a falta de tempo
Tempo Respostas
Tempo Pessoal «... poder despender de mais tempo para mim» B.S.F.
Tempo para a Família «Sinto que desde que reiniciei os estudos tenho prejudicado a minha filha, com
a qual já não passo tanto tempo» M.N.
«... quase não tenho tempo para dedicar aos estudos fora da faculdade» M.N.
Tempo para o Estudo «O tempo disponível para aprofundamento de estudos, investigação e dedicação
é muito pouco» F.L.P.
Tempo para Frequência das «... impossibilidade de frequentar todas as aulas» A.C.
Aulas «Dificuldade para frequentar as aulas práticas de forma a não ultrapassar o
limite permitido ...» F.M.P.
Tempo Deslocações «Sair de casa implica pelo menos quatro horas...» F.B.
«O stress das viagens diárias» F.C.P.
Quanto à dimensão Institucional, as categorias que foram sendo referidas como
dificuldades foram: Horários (quer da Faculdade quer do local de trabalho),
Professores, Colegas e Recursos/Apoios da Faculdade. Na categoria Horários, e
dada a relevância destas respostas, houve necessidade de distinguir os
relativos à Instituição Escolar (Faculdade) e, aqui, distinguir também aqueles
referentes aos horários dos Serviços Académicos (Secretaria, Reprografia,
Biblioteca, etc.) e ao próprio Horário do seu local de trabalho (designados
como Entidade Patronal).
Quadro 12: Principais dificuldades em conciliar os estudos, o trabalho e a vida
familiar
(Dimensões, categorias e sub-categorias encontradas)
É importante esclarecer que, tal como foi solicitado, as inquiridas apontaram
nas suas respostas mais do que uma dificuldade. Daí que a leitura das
percentagens que constam do Quadro 12 corresponda à percentagem com que cada
categoria e sub-categoria foram mencionadas.
Dificuldades com o Tempo
Tal como se esperava, foi a categoria «Tempo» que obteve a maior frequência de
respostas. As mulheres estudantes trabalhadoras referem que as suas maiores
dificuldades se situam a nível da Gestão do Tempo nos vários domínios das suas
vidas, ou seja, sentem que não têm tempo para todas as tarefas e funções que
têm a seu cargo. De facto, a maior parte das nossas inquiridas deram apenas
como resposta «Falta de tempo» e «Dificuldade em gerir o tempo» como paradigma
das dificuldades sentidas. E, dentro da categoria «Tempo», o designado «Tempo
Pessoal» não aparece com uma das reivindicações cimeiras. Refere-se sobretudo a
falta de «Tempo para o Estudo» e de «Tempo para a Família», que são os aspectos
mais nomeados.
Percebe-se que mais do que tempo para si próprias, estas mulheres reivindicam
«Tempo para a Família». Pode perceber-se um sentimento de culpa subjacente
nesta população, por sentirem estar como que a «roubar tempo» que seria «por
direito» da família, aplicando-o ao estudo, aspecto mencionado em vários
inquéritos. Esta interpretação foi confirmada através dos dados recolhidos nas
entrevistas, por exemplo, como se observa nas palavras de M. J. «eu sinto-me
sempre permanentemente culpada, porque eu é que não tenho filhos porque estou a
estudar... não posso ir sair... é sempre aquela pressão... o peso da
família...».
Fadiga
Este percurso não é feito sem momentos de grande «Fadiga Física/Psicológica e
Desmotivação», como é referido por estas mulheres, pela sua desmultiplicação
por diversos papéis, espaços e tempos, «Eu não sabia como ia tomar conta da
minha filha, trabalhar, estudar, ao mesmo tempo...» diz M. A.
Falta de Apoio
A «Falta de Apoio da Família», nomeadamente pela parte do companheiro na
partilha de tarefas, é evidenciada em algumas respostas. Como afirma T. C.: «As
mulheres estão muito mais sobrecarregadas nas tarefas que têm de desempenhar no
dia-a-dia, como mães, como donas de casa, porque é assim: a tarefa é nossa.
Eles quando muito ajudam e a responsabilidade de ter as coisas ou de não ter é
sobre nós que sobrecai3 e só isso nos dá uma sobrecarga diária muito maior, por
muito grande que seja a ajuda...». É, neste sentido que, por vezes é referido o
facto de o companheiro dar muito apoio. No entanto, a análise das respostas
relativas ao tipo de «apoio» dado parece indicar que na prática, e na maioria
dos casos, não ocorrem reais formas de colaboração. Nas palavras de M.: «...
tem sido um grande companheiro, porque tem estado sempre ao meu lado (...) não
vou dizer apoio do género eu estou a estudar e ele está a fazer o jantar, isso
ele não faz (...) eu acho que há coisas que não vale a pena insistir muito
(...) eu é que tenho de ser inteligente, para evitar o confronto». Isto mesmo é
reafirmado por T. C. «ele sempre me apoiou mas só que depois o apoio é teórico,
não é... não chega (...) eu acho que os homens por natureza são comodistas». É
de salientar a benevolência com que é constatado este estado de coisas,
benevolência que, certamente, decorrerá da interiorização dos papéis que a
mulher «deve» desempenhar. Mas, por vezes, a impaciência manifesta-se: M. J.
chega mesmo a afirmar que «há dias em que eu me chateio e pura e simplesmente
não faço o jantar (...) não ajudas... olha, não ajudas, vamos comer sandes!»
Problemas experienciados na Faculdade
A nível Institucional podemos destacar como sendo um grande obstáculo
apresentado, os «Horários da Faculdade», nomeadamente os «Horários do Curso».
Grande parte das inquiridas refere como sendo uma das grandes dificuldades, na
concretização do seu percurso académico, a falta de horários lectivos pós-
laborais: «como os horários são muito rígidos e diurnos, entram em conflito com
os horários de trabalho, porque os horários de trabalho também são rígidos»
afirma M. A. e reforça esta afirmação P. B. quando diz: «se tivéssemos aulas à
noite, ou em horários alternativos isso seria o ideal».
É de referir também os constrangimentos sentidos ao nível dos horários das
repartições académicas, como a secretaria e outros serviços: M. B. afirma «a
secretaria está aberta até às quatro ou quatro e meia se eu precisasse de
tratar de alguma coisa tenho que faltar ao trabalho, foi o que aconteceu!». M.
J. reforça esta questão dizendo que: «para se inscrever para exames tem de se
inscrever na secretaria. O horário da secretaria engloba4 que se tem de faltar
um dia ao trabalho e nenhum patrão gosta que a pessoa esteja permanentemente:
aí tenho que ir à faculdade». Note-se como este tipo de discurso revela que as
obrigações face às «exigências do patrão» são assumidas como prioritárias.
Da análise dos inquéritos é ainda de salientar a referência que é feita à falta
de «Recursos/Apoios da Faculdade» no que concerne à disponibilização das
«sebentas», apontamentos e outros materiais de apoio ao curso.
Problemas com os/as Docentes
Um dado que é de salientar foi a referência aos/às «Professores/as» como
fazendo parte do rol de dificuldades que estas estudantes têm de enfrentar.
Algumas estudantes trabalhadoras afirmam não lhes ser dado apoio pelos/as
docentes: «Os professores às vezes podiam colaborar um bocadinho mais, eles
vêem os estudantes trabalhadores... um bocado como os meninos que os papás
arranjaram o estatuto trabalhador estudante. Há muita gente que não trabalha
e tem o estatuto trabalhador estudante... e os outros pagam por tabela»,
afirma M. J., relativamente ao sentimento de falta de compreensão quanto ao seu
estatuto de estudantes trabalhadoras. Este dado foi reforçado na voz de M. B.
quando afirma: «aqui eu cheguei a ouvir nesta faculdade (...) que quem trabalha
que trabalhe, não tem nada que vir estudar. Há professores terríveis e
cruéis!». Este tipo de afirmações reforça a ideia de que estas alunas muitas
vezes são vistas como «alunos/as de segunda categoria» por não poderem ter uma
dedicação total ao Curso, como acontece com os/as alunos/as com frequência
ordinária.
Problemas com o emprego
A entidade patronal aparece, também, como alvo de críticas, principalmente pelo
facto de, segundo as inquiridas, não cumprirem as regras que protegem o
estatuto de estudante trabalhador. Muitas destas trabalhadoras afirmam sentir
que têm que «compensar» o tempo que, por direito, não dão ao trabalho para
frequentar as aulas a que, por lei, têm direito: «... ficava lá até às oito,
oito e trinta da noite para compensar o tempo que tinha perdido para ir às
aulas» (note-se a utilização da expressão «tempo que tinha perdido»), nas
palavras de M. B., nas de M. J. «embora nós tenhamos legalmente aquele direito
ao dia do exame e às vezes ao dia antes, eu nunca me atrevi a meter isso. Só
mesmo o tempo do exame porque, se eu exigir (...), no fim do contrato eles me
vão mandar embora». «É uma gestão economicista, nem que implique tirar os
direitos que as pessoas têm», afirma T. C. Esta ideia é reforçada por M. ao
afirmar que: «a empresa sempre me disse, desde o início, que o curso não
interessava à empresa (...) Claro que essas coisas não são ditas por escrito
(...) Sou muito penalizada nas avaliações porque sou muito faltosa, a empresa
penaliza, é severa».
Há pressões mais ou menos explícitas da entidade patronal sobre estas mulheres.
O curioso é o facto da razão de ser destas pressões estar fortemente
interiorizada nas próprias estudantes, pois, ao mesmo tempo que se queixam,
colocam-se na posição da entidade patronal: «eu própria acho que eles têm
razão» diz M. Reafirma M. J.: «eu também não os posso censurar muito porque à
partida eles nunca vão investir muito em mim, porque eles sabem que quando
acabar o curso vou-me embora».
Questão 2 ' «Indique até quatro medidas de natureza familiar e/ou institucional
e/ou governamental que na sua opinião deveriam ser implementadas para
contribuir para a resolução destas dificuldades»
Relativamente a esta questão, as medidas propostas pelas respondentes
agruparam-se essencialmente em quatro Dimensões (ver Quadro 13): medidas
referentes à Faculdade, às Empresas, à Família e ao Estado. A Dimensão
Faculdade foi organizada em oito categorias: Horários dos Serviços, Horários
dos Cursos, Abolição de Faltas, Tempos de Avaliação, Apoio dos Professores
Extra-aulas, Creches, Diminuição da Burocracia e Utilização da Internet (regime
de e-learning e disponibilização online de matérias e conteúdos do curso).
Na dimensão Empresas foram agrupadas duas categorias: Flexibilidade de Horários
e Fiscalização.
O Apoio Familiar foi considerado, por si só, uma categoria. As medidas
referentes ao Estado abrangem as categorias Bolsas, Apoio Social e Governo.
Perante a grande diversidade de respostas obtidas, houve necessidade de
contemplar uma categoria adicional «outros», que agrupa os itens muito diversos
e impossíveis de articular com as restantes categorias, nas Dimensões Faculdade
e Empresas.
Quadro 13: Medidas que deveriam ser implementadas para contribuir para a
resolução das dificuldades de conciliação
(Dimensões e Categorias encontradas)
Das medidas indicadas, as mais frequentes prendem-se com os «Horários do
Curso», mencionadas por 40,7% das mulheres, nomeadamente a reivindicação de
(mais) aulas em horários pós-laborais e aos sábados. Estes horários seriam
importantes para poderem assistir à leccionação de matérias e esclarecer
dúvidas, «Se houvesse um curso nocturno facilitava a vida a muita gente...»
afirma M. A. e P. B. «... se houvesse uma definição maior das obrigações da
universidade para com os trabalhadores estudantes (...) porque a única coisa
que realmente eu noto aqui de diferente é que nós temos a possibilidade de
fazer exames mais uma época por ano. Eu não noto aqui sinceramente mais nada
além disso».
Outra sugestão é a generalização do uso da «Internet», quer através de ensino à
distância, quer através da colocação dos conteúdos das aulas online, quer mesmo
para permitir o esclarecimento de dúvidas junto dos/as professores/as, pela
pouca disponibilidade de o fazer presencialmente. «O ensino do futuro vai ser o
ensino à distância (...) deveria haver mais instituições que funcionassem
assim», é uma das propostas de M. B.
Os «Tempos de Avaliação» foram também apontados como alvos de intervenção
necessários. São propostas novas formas de organização de avaliação, mais
adaptadas à realidade das estudantes trabalhadoras, como, por exemplo, a
realização de trabalhos em vez de frequências/exames ou mesmo uma época
especial destinada a esta população. Como defende M. J.«Em vez de ser uma
época, em que se faça a cadeira do ano inteiro (...) dividir (...) dar mais uma
oportunidade».
Ainda sobre a organização da instituição Faculdade, aparecem os «Horários dos
Serviços», uma vez que estes funcionam em horários não acessíveis a quem estuda
e trabalha. Verificou-se que, em muitos casos, há a necessidade de descontar
dias de férias cada vez que se tem de tratar de assuntos na secretaria, tirar
fotocópias na reprografia e consultar bibliografia na biblioteca: «A secretaria
está aberta até às quatro ou quatro e meia. Se eu precisasse de tratar de
alguma coisa tenho que faltar ao trabalho», afirma M. B. Uma das propostas
seria a possibilidade de, pelo menos um dia por semana, poder encontrar os
serviços abertos até mais tarde, para poder usufruir dos serviços a que têm
direito como qualquer outro/a aluno/a e como se pode ver nas palavras de M.
B.«Os outros têm a sorte e o privilégio de poder só estudar. Eu tenho que
trabalhar para pagar os estudos é essa a diferença». Tal como concluiu Diane
Reay (2003) na sua investigação, onde analisou as narrativas de mulheres que
prosseguiram para o ensino superior e que tentavam conciliar a actividade
profissional com as responsabilidades domésticas e com o estudo. As
dificuldades económicas sentidas, em diferentes níveis, por estas mulheres
revelam que os esforços necessários para o desenvolvimento dos seus projectos
educacionais personalizados, visando o seu desenvolvimento pessoal, são
totalmente diferentes daqueles requeridos aos seus pares sociais.
Note-se a ausência de propostas de alteração da forma familiar de funcionamento
e de distribuição de tarefas, de modo que o companheiro e/ou a família encaram
diferentemente a sua qualidade de estudante. Note-se, também, a ausência de
referências à necessidade de que se faça um esforço para que a mulher tenha
tempo para si própria. Mais uma vez se acredita que estas «não referências»
indiciam uma aceitação inconsciente do papel tradicional da mulher e uma certa
sensação de culpa face a uma ocupação de tempo que surge como transgredindo as
normas.
Algumas reflexões finais
Neste estudo foram objecto de análise os problemas que surgem pelo facto de as
mulheres despenderem tempo com uma actividade que é frequentemente entendida
como não revertendo directamente, e a curto prazo, para o bem-estar da família.
Outra questão que emerge é o facto de a trabalhadora gastar tempo e energias
numa actividade com a qual a empresa em que trabalha não irá lucrar de
imediato. Por último, o facto de este horizonte de interesses poder ameaçar
alguns equilíbrios relacionais existentes na família e sobretudo poder
conflituar com concepções de obrigações prioritárias das mulheres, concepções
essas que estruturam o «hábitus» dos familiares e da própria mulher, revela-se
também como factor de dificuldades.
A causa desses conflitos surge identificada de duas formas, como afirma
Ferreira (1981): «em primeiro lugar, nas exigências relacionadas com o tempo
necessário para o desempenho dos papéis profissionais e familiares. [...] Em
segundo lugar, a carga psicológica associada ao desempenho de cada papel, [que]
condiciona a energia disponível para o desempenho do outro» (Ferreira, 1981:
74). Nestas mulheres, este facto é «mascarado», porque o investimento que fazem
na sua educação/formação implica um desdobramento de papéis, tarefas e tempos e
«obriga-as» a uma gestão de conflitos que lhes permite gerar uma força
motivadora para atingir os objectivos, sem com isso se demitirem ou permitirem
demitir de todas as suas funções domésticas e profissionais.
Os dados analisados permitiram distinguir duas ordens de problemas: por um
lado, os problemas institucionais e os decorrentes da organização e
funcionamento da sociedade em geral; por outro, os problemas sentidos e/ou
interiorizados, muitas vezes até não consciencializados pelas próprias
inquiridas e suas famílias.
Quanto aos problemas institucionais e sociais, começaremos por referir os que
se relacionam com a própria instituição universitária. Os dados recolhidos
indicam que a população estudante trabalhadora universitária parece ter vindo a
ser encarada como um grupo neutro do ponto de vista do género. Assim sendo,
parece ser reforçada a real expressão dos problemas que enfrentam as estudantes
trabalhadoras na sua qualidade de mulheres no contexto universitário, social e
económico.
Foi possível verificar que a organização actual das Faculdades parece não estar
adequada às necessidades das estudantes trabalhadoras. Numa altura em que se
preconiza a aprendizagem ao longo da vida e a constante actualização de
conhecimentos e especialização dos profissionais, em que se enfatiza a
participação alargada do acesso ao ensino superior, aquilo que se esperaria, em
termos de adequação às realidades que hoje vivemos a este nível, iria no
sentido de a Universidade estar sensível e interessada em atrair profissionais
em exercício para o desenvolvimento de uma formação especializada. Haverá,
assim, necessidade de acompanhar esta tendência com novas formas de organizar o
funcionamento das Faculdades. De facto, como chamam a atenção Almeida e
colaboradores/as (2006), tendo em conta a crescente massificação do Ensino
Superior em Portugal, e a consequente heterogeneização sociocultural, torna-se
fulcral conhecer a composição desta população para que as instituições possam
dar uma melhor resposta de acordo com as suas características e necessidades.
Para isso, como as análises dos dados revelam, muitas alterações teriam de ser
feitas, não só a nível de horários de funcionamento da secretaria, biblioteca,
reprografia, cantina, etc., mas até de organização de horários. Isto para não
falar da possibilidade de organização de outras estruturas de apoio, como por
exemplo creches, jardins de infâncias, ATL, etc. e até mesmo da própria
abertura por parte dos/as professores/as aos problemas sentidos por estas
mulheres.
Quanto às entidades empregadoras, foi fácil identificar, a partir das análises
feitas, o que constitui fonte de conflitos. As entidades empregadoras são
descritas como não se mostrando abertas às dificuldades sentidas por estas
mulheres e, mais importante, resistem em reconhecer-lhes os direitos
consagrados no Estatuto do Trabalhador Estudante. Isto pode não só reflectir
uma leitura muito conservadora dos papéis das mulheres, como também resultar de
uma não valorização da importância do investimento académico destas
trabalhadoras pela entidade patronal. Estando o lucro em jogo, muito
dificilmente se conseguirá mudar a «má vontade» dos empregadores em relação a
estas trabalhadoras, a não ser que houvesse, por exemplo, incentivos/benefícios
fiscais para uma valorização deste tipo de trabalhadoras. No contexto actual do
mercado de trabalho, marcado pela ameaça do desemprego e pela precariedade
laboral, esta atitude é sentida como uma violência simbólica protagonizada
pelos empregadores. A este tipo de dominação Pierre Bourdieu (1988) designa de
«violência doce».
Este dado reitera a importância do aumento e mais ampla divulgação de
iniciativas no âmbito da conciliação trabalho-família e da igualdade entre
mulheres e homens, justificando-se, por isso, a promoção de políticas e
práticas mais efectivas.
Quando se reflecte nas questões que as inquiridas referem como fazendo-se
sentir a nível da família, os problemas revelam ser muito mais complexos, pois
cruzam-se com a interiorização, em toda a família e nas próprias mulheres, do
papel a que atrás se fez referência.
Foi sobretudo sobre este nível «microssocial» ' família ' que se procurou
identificar problemas existentes e mudanças necessárias de atitudes e práticas,
de modo a deixar de haver reservas face à vontade de valorização pessoal e,
também, de haver uma efectiva partilha de responsabilidades e tarefas entre os
membros do casal. Pode verificar-se, nos discursos das inquiridas, que está
subjacente ao contrato conjugal a noção que são as mulheres as principais
responsáveis pela área doméstica, ainda que a nível implícito, sendo muitas
vezes vistas como fonte secundária do rendimento económico do agregado. Esta
noção implica que seja «ela», e não «ele», a fazer os ajustamentos necessários
na procura da conciliação entre o trabalho remunerado e o trabalho doméstico.
De salientar que o contexto familiar é um elemento fundamental na socialização
primária, onde se transmitem uma série de valores e práticas. Neste sentido,
«as famílias jogam um papel fundamental na socialização de rapazes e raparigas,
e na formulação de práticas educativas promotoras de uma parentalidade
partilhada e transmissoras dos saberes necessários para a autonomia pessoal em
contexto doméstico» (Guerreiro e Pereira, 2006: 19). A presente investigação
veio evidenciar que a «colonização» de que a mulher tem vindo a ser objecto,
desde há muito, pela ideia de que o seu papel de companheira e dona de casa
deverá constituir a sua obrigação prioritária, parece ainda estar fortemente
interiorizada, pelo que esse esforço de ruptura será um processo
significativamente violento. Assim sendo, a «descolonização» de mentalidades,
de que em diferentes domínios falam os estudos pós-coloniais, parece
representar uma tarefa urgente mas (ainda) nada fácil de conseguir.
Verificou-se ainda que, no quadro de todas as dificuldades experienciadas por
algumas destas mulheres, parece existir uma tentativa de valorização pessoal
que vai para além das «obrigações» domésticas e da pressão profissional.
Algumas das informações recolhidas parecem representar o encontro consigo
próprias, a descoberta de outras potencialidades que não as meramente
domésticas e profissionais, potencialidades essas que lhes poderão permitir
afirmar-se enquanto autoras dos seus projectos de vida. Porém, as inquiridas
geralmente consideram que esse seu investimento pessoal não implica um
desinvestimento nesse quotidiano de rotinas.
Um dos aspectos a salientar neste estudo é que as medidas sugeridas pelas
mulheres estudantes trabalhadoras da nossa amostra são aplicáveis tanto a
mulheres como a homens estudantes trabalhadores. Por outras palavras, elas
próprias apresentam medidas concretas destinadas à melhoria do estatuto do
«estudante trabalhador» e não especificamente às mulheres estudantes
trabalhadoras. Isto apesar de, nas entrevistas, todas considerarem que o facto
de ser mulher agrava a dificuldade na gestão dos tempos de estudo, trabalho e
família. Tal facto deverá, certamente decorrer da interiorização do papel
tradicional da mulher-companheira, mulher-mãe e mulher-dona de casa, cujas
tarefas da família e da casa são sentidas como sendo inerentes ao seu sexo,
sendo que o papel de mulher-trabalhadora e o (novo) de mulher-estudante são
sentidos pela família e por elas próprias como usurpadores desse espaço.
As estudantes trabalhadoras inquiridas referem mesmo que um homem estudante-
trabalhador terá «naturalmente» um maior apoio da mulher e da família, podendo
dedicar-se ao trabalho e aos estudos, sem esse sentimento de culpa de estar a
tirar tempo à família.
É ainda importante fazer notar que se verificou ser a divisão de tarefas
mulher/homem muito pouco equilibrada entre as estudantes trabalhadoras e os
seus companheiros. De facto, apesar da pouca disponibilidade de tempo, é a elas
que cabe a gestão da vida doméstica, sendo que, na generalidade, os maridos/
companheiros «ajudam». As mulheres, em média, continuam a assumir maior
responsabilidade pela casa, vida familiar e cuidado dos filhos do que os
homens, muito embora sejam cada vez mais trabalhadoras e independentes.
A forma naturalizada como as mulheres vêem e valorizam o papel de «ajuda» dos
companheiros na divisão de responsabilidades familiares e domésticas, bem como
a atitude que elas têm em relação às suas carreiras faz, por exemplo, com que
elas elogiem frequentemente o companheiro que «ajuda» não reivindicando uma
real partilha de responsabilidades. Não obstante esta disparidade, a revisão de
literatura realizada por Poeschl (cit. in Fontaine, 2004) aponta para que ambos
os elementos do casal tendam a percepcionar a distribuição de tarefas
domésticas como justa, equitativa e satisfatória, o que seria explicado pelo
seu «efeito positivo na construção social da identidade de género» (Fontaine,
2004:100). Assim, o género não seria um papel interiorizado mas antes
construído continuamente através das interacções sociais (Amâncio, 2003;
Fontaine, 2004), e as tarefas domésticas ajudariam a definir e a reforçar as
identidades de género dos membros do casal (Fontaine, 2004).
Mas o que reforça a ideia da importância dos valores interiorizados e dos quais
resultam situações de grande violência é a constante referência que as mulheres
analisadas fazem da «culpa» que sentem do tempo que «roubam» à família, aos
filhos, ao companheiro e nunca ao tempo que «roubam» a elas próprias, e de que
elas até parecem não consciencializar a falta. Assim, sentimentos de culpa,
ansiedade e de inadequação relatados particularmente pelas estudantes
trabalhadoras mães são uma constante. Para as mulheres estudadas, o compromisso
em devolver algo à família/comunidade, em compensar esse investimento nos
estudos, permite-lhes resolver as difíceis contradições entre o querer escapar
do estado em que se encontram enquanto tentam preservar a sua identidade
sociocultural.
Em síntese e de acordo com os dados recolhidos, podemos concluir que para
algumas mulheres a formação universitária parece representar um lugar de
realização pessoal. Afigura-se para algumas como um sonho antigo que ficou
«adormecido» mas, em relação ao qual, havendo determinadas condições que o
possibilitem, são mobilizados recursos, pessoais e frequentemente solicitados
apoios familiares, para um regresso à condição de estudante. Daí o seu sentido
de vitória quando este sonho se realiza e que é bem ilustrado por frases como:
«O sonho de Geologia já não é um sonho... eu vou acabar.» M. A.
O estudo onde o presente texto se baseou foi centrado na
região norte, mais propriamente na cidade Porto, onde se
localizam os estabelecimentos de Ensino Superior da
Universidade do Porto. Não adquiriu assim uma dimensão
nacional, embora se espere que os resultados obtidos possam
ser utilizados para o reconhecimento efectivo do estatuto
de mulher estudante trabalhadora e como contribuição para o
envolvimento das políticas e práticas de equidade.