Saberes e práticas de cura nas igrejas neotradicionais em Luanda: carismas,
participação e trajetórias das mulheres
Introdução
A efervescência no campo religioso verificada na sociedade angolana, e
luandense em particular, principalmente depois da abertura legislativa da
década de 90 do século XX, despertou a curiosidade científica para a realização
de um estudo sobre esta temática e o impacto do fenómeno na capital angolana.
Este artigo é corolário de uma pesquisa mais abrangente e continuada sobre o
fenómeno religioso, com especial destaque para os movimentos religiosos
carismáticos, pentecostais, proféticos e neotradicionais que surgiram em Angola
nas três últimas décadas (Viegas 2005, 2007, 2008; Sarró, Blanes e Viegas
2008).[1]
O trabalho de campo foi realizado de janeiro a março de 2002 e de setembro a
dezembro de 2003, sendo o terreno posteriormente revisitado no início de 2010.
[2] A área de trabalho centrou-se no espaço urbano e periurbano da província de
Luanda, ou seja, englobou uma vasta área semicircular continuamente urbanizada
que se estende até Viana. A Igreja Teosófica Espírita localiza-se no município
da Ingombota, Bairro Maculusso; a Igreja dos Primogénitos Evangélica Universal
em Angola situa-se no município do Sambizanga, bairro -Petrangol; o Centro
de Devoção Rainha Santa Isabel está presente no município da Maianga, no bairro
Morro Bento; a Comunidade do Espírito Santo da Igreja da Geração Prometida
situa-se no município Cazenga, no bairro Cazenga, e em Viana, no bairro da
Caop; em Viana, há ainda a Igreja Fé da Salvação do Espírito Santo (Ifesa).
É neste espaço que se encontram as igrejas neotradicionais em destaque neste
texto, três por serem lideradas por mulheres ' a Igreja Teosófica Espírita pela
profetisa Suzete Francisco, o Centro de Devoção Rainha Santa Isabel pela
profetisa Maria da Conceição Mendes, a Ifesa pela profetisa Teresa ', e as
outras porque, embora sejam lideradas por pastores, têm na sua maioria mulheres
como responsáveis pela cura espiritual.[3] Nesta área, situado em Viana, no
quilómetro 12, encontra-se o Centro Terapêutico Tradicional Papá Nzuzi. Neste
centro trabalha um casal de agentes tradicionais, o Papá Nzuzi e a sua mulher,
parteira tradicional, a Mamã Glória. No centro, aos domingos é convidado um
pastor de uma igreja neotradicional ou de uma neopentecostal para celebrar
cultos aos doentes internados.
Para responder à complexidade das situações identificadas, optou-se,
metodologicamente, por um estudo qualitativo, privilegiando as conversas
informais, entrevistas semiestruturadas e abertas, e histórias de vida dos
principais sujeitos, como profetas, profetisas e crentes. Estas ações foram
levadas a cabo nos locais de culto. Observaram-se assim cultos, sessões de cura
e outros ritos praticados nestas igrejas. A observação participante permitiu
verificar no terreno o uso de saberes e práticas de cura nas igrejas
neotradicionais de Luanda, contribuindo para uma melhor compreensão da
(re)negociação de identidades no contexto urbano, com particular atenção às
mulheres e aos papéis que desempenham nestas igrejas.
A ênfase na cura e no poder do Divino Espírito Santo são as duas
características sui generis nestas igrejas. No entanto, a cura processa-se de
modos diferentes e, apesar de pertencerem à mesma corrente do Espírito Santo,
elas não constituem um todo homogéneo, cada igreja possui a sua
particularidade. Em comum, há a utilização da ideia do Espírito Santo e a
inclusão de elementos tradicionais, como farmacopeia local ou rituais que
incluem outros elementos simbólicos ressignificados localmente, usados para
conferirem força simbólica à organização da desordem vivencial individual,
social, ou às relações com antepassados ou outros espíritos.
Este texto centra-se na emergência de três profetisas de igrejas
neotradicionais: a Conceição, a Suzete e a Teresa. Estas pertencem ao Centro de
Devoção Rainha Santa Isabel, Igreja Teosófica e Igreja Fé da Salvação,
respetivamente. O pequeno relato etnográfico revela as inúmeras possibilidades
de estudo existentes num contexto ainda em forte mutação social, económica,
política e cultural.
A (re)emergência das igrejas neotradicionais
A relevância das igrejas em Angola tem sido alvo de estudo por parte de
diversos autores, desde o período colonial. Cândido Ferreira da Costa foi um
dos primeiros autores a fazer uma genealogia dos missionários cristãos do
Espírito Santo em Angola (Costa 1970). Após a idependência, os movimentos
religiosos começam a ser analisados com uma nova grelha analítica. Henderson
(1990) analisa a distribuição das diferentes congregações e a sua influência
étnica e territorial. Birmingham (1998) nota a relação de várias congregações
com o comércio de escravos e posterior incursão para o interior pelo Estado
colonial, enquanto Schubert (1999) e Péclard (1998) exploram a relação entre a
igreja e os movimentos de libertação, notando o primeiro a relação da igreja
com o processo de paz (Schubert 2000). Michael Comerford (2005) centra-se no
papel da igreja no processo de paz após a guerra civil. Os movimentos
messiânicos em Angola foram também tratados por vários autores (Freston 2001).
Mais recentemente, Viegas tem publicado vários estudos sobre igrejas
independentes africanas (agrupadas localmente, em função das suas afinidades,
ora como igrejas neotradicionais, ora como igrejas do Espírito Santo, ora ainda
como Movimentos de Reavivamento) e, juntamente com Blanes e Sarró, tem centrado
o seu estudo nas igrejas kimbanguista e tocoísta.[4] Em 2014, Blanes publicou
uma biografia de Simão Gonçalves Toko, profeta da Igreja Tocoísta, enquanto
Bahu produziu uma tese de doutoramento sobre curas religiosas no Lubango.
Considerando o que é uma igreja, parte-se da definição proposta por Viegas:
uma instituição aberta, formada por homens e mulheres hierarquicamente
organizados, os quais mantêm relações normais com a sociedade, estando os seus
discursos e práticas voltados para a resolução dos problemas espirituais e
sociais. Por definição, igreja é uma estrutura aberta' onde na perspetiva de
sociólogos não existem diferenças sociais e étnicas. Numa visão teológica é
considerado o sacramento de salvação', por ser um espaço de perdão e
reconciliação, um lugar de encontro e do diálogo (Viegas 2007: 29).
O crescente número e importância local das igrejas neotradicionais, assim
designadas por Dozon (1978: 115), fez destas um objeto preferencial, tendo o
presente artigo privilegiado essa categoria, de que uma das características
preponderantes é a atenção a questões de doença e cura, na sua dimensão
fisiológica, mental ou espiritual.[5]
Estas novas congregações são amiúde consideradas pelas igrejas históricas
angolanas (católica e protestantes) como seitas. Esta classificação evoca
reinterpretações dos escritos sagrados feitas por estes movimentos mais
recentes, mas, mais importante, cria um sentimento de alteridade de cariz
negativo, de um outro novo, que remete para a ideia de logro, consequente de
uma prática religiosa não ortodoxa segundo os movimentos religiosos históricos,
bem como para a legislação sancionada pelo Estado.
Dito isto, é imperioso recordar que as seitas cumpridoras dos ditames legais e
outras instituições religiosas reconhecidas pela sociedade podem transformar-se
em igrejas (Bahu 2014: 23), embora o inverso também possa ocorrer ' há igrejas
cuja existência deixa de ter uma sanção legal. A classificação como seita não
é, portanto, fixa.
Durante grande parte do período colonial, o domínio da Igreja Católica era
contrabalançado por algumas missões protestantes instaladas no território desde
o século XIX. Na segunda metade do século XX, surgiram então movimentos
sincréticos africanos que operaram à escala regional e nacional. A transição
política pós-independência trouxe também modificações socioculturais profundas,
com corolários nas biografias de milhões de angolanos. A posição destas igrejas
pode, em certa medida, ser entendida pelo facto de serem um subproduto dos
primeiros movimentos messiânicos africanos, nascidos como resposta à opressão
colonial, como refere Lanternari (1963). Numa primeira fase, o regime marxista
monopartidário menosprezava a importância da religião na construção do Homem
Novo, deixando as igrejas ' cristãs e protestantes, mas também as
neotradicionais como as kimbanguistas ou tocoístas ' num ambiente hostil. No
final dos anos 80, o Decreto Executivo n.º 7/87 reconhece 12 igrejas: Igreja
Evangélica do Sudoeste de Angola; Igreja Evangélica Congregacional de Angola;
Igreja Metodista Unida; Igreja Católica; Igreja Evangélica de Angola; Igreja
Evangélica Reformada de Angola; Igreja de Jesus Cristo sobre a Terra
(kimbanguista); Igreja Evangélica Baptista em Angola; Assembleia de Deus
Pentecostal; Igreja do Sétimo Dia; Convenção Baptista de Angola; União das
Igrejas Evangélicas de Angola (Viegas 1999: 413).
O Decreto Executivo n.º 46/91, do Ministério da Justiça e da Secretaria de
Estado da Cultura, possibilitou aos cidadãos organizarem as suas igrejas numa
tentativa de obterem reconhecimento legal do governo, e foi posteriormente
substituído pela Lei n.º 2/04 ' Lei sobre o Exercício da Liberdade de
Consciência, de Culto e de Religião ', bastante permissiva quanto à
proliferação de movimentos religiosos. Até 2000 o Ministério da Justiça
reconheceu 85 igrejas, existindo mais de 900 em processo de reconhecimento
(Viegas 2008).[6]
Como refere o pastor Kiluanje, da Igreja dos Primogénitos Evangélica Universal,
sobre a proliferação destes novos movimentos:
No princípio da década 60 houve uma fuga maciça de cidadãos
angolanos para outros países, sobretudo para o ex-Zaire [ ] muitas
dessas pessoas já tinham a sua crença religiosa e postos nestas
partes onde eles , portanto [ ] trouxeram outras experiências
religiosas [ ]. Nós no princípio éramos 28 igrejas, depois surgiram
muitas, mais ou menos em 93, 94, nós fizemos um levantamento, então
nesta altura estávamos com cerca de 300, mas vi que surgiram outras
denominações, penso que estas igrejas espirituais estão mais ou menos
à volta de 400 aqui em Angola. [Kiluanje, entrevistado no local de
culto, Luanda, 20 de dezembro de 2003]
As igrejas tradicionais apropriam-se de simbologias tradicionais da religião
cristã, mas sobretudo das da tradição africana, as quais pareciam desaparecidas
face à ordem política marxista e neoliberal que, num segundo período após a
independência, privilegia o discurso do desenvolvimento, progresso e
biomedicina. Isto foi particularmente vincado quando a política e a ciência
foram apresentadas como garantia do desenvolvimento da nação, perante o
sentimento de desencantamento com a ideologia marxista que se disseminou por
Angola.
Esta é uma situação que ganhou maior ímpeto nos últimos anos. A Lei n.º 2/04
estabelece os termos legais para o exercício religioso, reafirmando o artigo
10.º da Constituição da República de Angola a laicidade do Estado, a separação
entre este e as igrejas, ficando o primeiro munido do poder de reconhecimento e
dever de proteção das várias confissões religiosas, desde que estas se
conformem à Constituição e às leis da República. Mas, apesar de as igrejas
católica e protestantes pretenderem manter a sua hegemonia e de serem
históricas, os pastores neotradicionais referem que estas não respondiam às
necessidades das populações. O dinamismo trazido por estas novas igrejas,
centrado nos carismas do Espírito Santo, atrai populares e parece ser entendido
como uma reação às igrejas históricas, sobretudo a católica e as protestantes.
A este propósito, o pastor Kiluanje da Igreja dos Primogénitos Evangélica
Universal afirma que:
Essas igrejas não querem viver a realidade do Evangelho para poderem
perpetuar a mentira, o engano, e para continuarem a terem aquilo que
se pode dizer o domínio do povo, nós ensinamos ao povo a verdade [ ]
então à medida que essas pessoas vão tomando conhecimento da verdade,
o povo vai vendo que eles afinal não têm importância nenhuma e eles
têm medo de perder a hegemonia e vão ter que perder essa hegemonia e
já perderam. [Entrevista no local de culto, Luanda, 20 de dezembro
de 2003]
Na realidade, as igrejas neotradicionais, do Espírito Santo ou de Reavivamento
vão surgindo cada vez mais no espaço urbano e periurbano e na sua maioria
aguardam por um reconhecimento jurídico. Aliás, existem mais de mil igrejas por
legalizar e, segundo o Jornal de Angola, existiam a 4 novembro 2013 quase 200
processos de igrejas indeferidos.
Características das igrejas neotradicionais
Os cultos religiosos têm uma importância central na sociedade tradicional
angolana. A aceitação do monoteísmo, promovida durante o domínio colonial
(Caley 2011), é interpretada como natural devido às semelhanças com a
cosmovisão banto (maioria da população angolana) a respeito da existência de um
ser superior e omnipresente, que rege todos os aspetos da vida (Altuna 1993).
[7] Este ser supremo da cosmovisão banto atua como intermediário entre Deus e
os agentes especializados dos grupos, através de seres invisíveis como, por
exemplo, espíritos dos antepassados. Isto replica-se melhor no quadro
ritualístico, explicativo e de autoridade carismática presente nas inúmeras
denominações religiosas à espera de reconhecimento por parte do Ministério da
Justiça.
Os líderes carismáticos destas igrejas recorrem ao Espírito Santo para libertar
os crentes. Durante atos de possessão, de transe e de adivinhação, apregoam
mensagens de salvação para uma sociedade angolana em que a maior parte da
população vive abaixo do limiar da pobreza. Estas novas formas de
religiosidade, muitas delas estrangeiras, exaltam um Deus vivo e trazem para
o espaço sociocultural de Luanda outras experiências e outros poderes
religiosos, no domínio da espiritualidade, arrastando para o seu seio grupos
de homens e mulheres que não se sentiam realizados na religião que perfilhavam
(Viegas 2008).
Em simultâneo, estas igrejas promovem uma ação social, financiada pelas
receitas, destinada a áreas como as da educação, saúde (cuidados biomédicos ou
outros), solidariedade social (distribuição de alimentos, aconselhamento
familiar) ou criação de emprego, entre outras. Estas práticas não só matizam as
dificuldades sentidas pelas pessoas, como ocupam o vazio deixado pelos serviços
estatais e privados ou pela ação insuficiente de outras igrejas, reforçando
assim o potencial destas instituições numa Angola crescentemente neoliberal,
mas ainda desenvolvimentista.
Para estas novas igrejas, a cura não se restringe à cura biomédica, sobrepondo-
se o healing, ou seja, um conceito mais holístico de cura, que inclui elementos
do contexto sociocultural a par do diagnóstico e terapêutica. Daí a
centralidade destas igrejas e, no caso concreto, das profetisas enquanto
promotoras deste processo de cura. No entanto, se a expectativa do crente não é
satisfeita, pode haver abandono da congregação.
À semelhança dos movimentos proféticos surgidos no meio do século XX, os
movimentos neotradicionais após a independência também ressurgem para
prometerem ao povo uma sociedade angolana melhor, onde reine a paz, a
-harmonia, a solidariedade, baseada na caridade cristã (retomando o
preceito de dividir tudo o que se tem, mesmo que só se tenha o amor pelo
próximo) e com a tónica na tradição.[8] Neste sentido, apropriam-se da ideia
cristã de partilha e enriquecem-na de acordo com as suas próprias filosofias,
resultando o eu e o outro estritamente ligados ao Espírito Santo e aos
espíritos dos antepassados, respetivamente. Nesta apropriação/transculturação
dos valores religiosos, o comportamento dos neotradicionais não se afasta dos
pilares cristãos, mas procura uma aproximação ao povo. Como nota Bahu, cada
congregação quer marcar terreno, afirmando que tem uma interpretação mais
próxima da verdade bíblica (Bahu 2014: 42).
A força destas igrejas está precisamente nos aspetos mais criticados pelas
igrejas históricas, inclusivamente na reinterpretação dos textos sagrados,
conjugada com elementos tradicionais. Estes crentes que vão às igrejas
constituem as comunidades carismáticas. Para Weber (na sua caracterização de
tipo ideal), nestas comunidades não há hierarquias ou apropriação de poderes,
salário ou outros benefícios.[9] A relação estabelecida baseia-se numa forma
emocional de relacionamento comunal (Vergemeinschaftung), sustentada por uma
devoção pessoal completa ao líder, decorrente de entusiasmo, de desespero ou
esperança.[10] Para os fiéis, a legitimidade destas igrejas relaciona-se com a
autoridade carismática manifestada através de revelações divinas, mais
propriamente do Espírito Santo (veja-se adiante a secção sobre carisma e
autoridade carismática). Contrariamente a outras áreas da sociedade angolana,
estas comunidades carismáticas que as igrejas neotradicionais proporcionam não
têm princípios de integração baseados na formação especializada (autoridade
legal) ou de seleção por via de redes pessoais (autoridade tradicional),
permitindo assim diminuir o sentimento de falta de autoestima e confiança ou de
vulnerabilidade que caracteriza os crentes destas igrejas.
Os líderes carismáticos, incluindo as profetisas, objeto deste estudo, vão
combinando diversos elementos da tradição judaico-cristã com elementos das
religiões tradicionais. A cura é feita através do poder do Espírito Santo, com
recurso a vários rituais performativos que incluem atos de possessão, transe,
glossolalia, e que têm como desiderato último a salvação presente da sociedade
angolana. Isto porque profetas e profetisas neotradicionais são escolhidos pelo
Espírito Santo como mensageiros prediletos, não aprendem a profissão, logo o
conhecimento não se apresenta como uma continuidade, não obedece ao princípio
de transmissibilidade.
Contudo, apesar de atuarem num contexto político e histórico diferente,
experimentaram também uma situação de marginalização e um sentimento de
subalternidade, pelo que se pode perceber das palavras do Pastor Kiluanje, da
Igreja dos Primogénitos Evangélica Universal, na entrevista acima referida:
[ ] O ministro da Justiça, desde que entrou, reconheceu muito pouco
dessas igrejas [ ] o governo tem de respeitar o povo e este respeito
passa precisamente pelo respeito de vários princípios indispensáveis,
o certo é que eles respeitam a Igreja Católica e meia dúzia de
igrejas [ ] porque há igrejas que vieram, foram logo reconhecidas,
elas são estrangeiras, a igreja Universal do Reino de Deus e outras
tantas, a Maná começam a explorar o povo e o Estado vê esta
exploração e ninguém toca, mas, se notam algum defeito nas nossas,
logo há muito barulho, mas quando há algum problema com a Católica
não falam, quando há na Metodista não falam, há uma má política e é
preciso que o Estado reveja, não é? [É preciso] aplicar a lei no
sentido do reconhecimento dessas igrejas porque elas representam a
nação angolana, [é] nestas igrejas [que está] inserida a verdadeira
cultura da nação angolana.
Apesar de consubstanciarem os seus discursos e práticas em textos milenares,
onde o Espírito Santo e a Bíblia constituem os pilares da cura, recorrendo a
versículos como Romanos 12: 6-8 ou I Coríntios 12: 4-11, por exemplo, os
neotradicionais pretendem apresentar-se como modernos na gestão da doença e
da cura, identificando-se como cristãos.
Profetas ou profetisas são sujeitos que combinam os elementos das diferentes
culturas, desempenhando amiúde papéis sociais diversificados. Por outro lado, a
caracterização dos curandeiros como incultos, atrasados e diabólicos, em
resultado da sua relação com a tradição, com os antepassados, não é linear.[11]
Entre os crentes das igrejas neotradicionais, há quem ainda recorra a
curandeiros (Viegas 2008; Bahu 2014). Apesar da veiculada oposição entre
igrejas neotradicionais e curandeiros, há curandeiros que criaram as suas
-próprias igrejas, e os que não o fizeram mas que ainda detêm
credibilidade, legitimidade entre a população face aos resultados produzidos.
[12]
O facto de o itinerário dos entrevistados demonstrar o recurso simultâneo a
diversas práticas de cura alternativas significa que todas são interpretadas
como necessárias, na medida em que o seu denominador comum é a resposta a
questões centrais ' O que aconteceu? Porque aconteceu? Porquê eu? Porquê agora?
O que aconteceria se não tomasse providências? O que fazer e quem consultar
para obter ajuda? ' e a oferta de uma perspetiva de vida ou de prevenção da
doença. Neste sentido, pode-se sociografar uma grelha composta por três
grandes modelos para a cura:
' modelo inculcado pela tradição, com recurso à feitiçaria, aos antepassados
e ao curandeiro;
' modelo proposto pela Bíblia, baseado nas dicotomias bem/mal, Deus/satanás,
bons espíritos/maus espíritos, e com recurso à igreja;
' modelo da medicina moderna, com as suas eventuais doenças orgânicas e
psíquicas e o recurso aos hospitais.
A cura não só aparece como um alívio mais ou menos durável, mas também como
retorno a um estado de bem-estar, onde o corpo e o espírito se encontram
estreita e necessariamente associados.
Estas igrejas explicam o seu poder de cura pela atuação do divino através de
rituais performáticos específicos. Porém, cada igreja apresenta um repertório
próprio para a interpretação das causas das doenças (diagnósticos) e solução
a considerar (terapêutica e cura). Enquanto uns recorrem à intervenção do
Espírito Santo, outros invocam espíritos dos ancestrais e elementos da natureza
e manipulam essas forças transcendentais através da unção com óleos, do recurso
ao banho, por vezes misturado com sal ou aromatizado com perfumes e ervas ou
flores, da proibição do uso de determinados alimentos, ou recorrendo a sessões
de transe e possessão conseguidos pelo poder da oração individual e coletiva.
Durante o processo de cura, o crente pode entrar em transe, ser possuído, ser
capaz de glossolalia (falar em línguas estranhas), experiência que revela
sempre a luta contra o mal. Mas no final a desordem estará reorganizada e a
cura foi conseguida (Viegas 2008: 151; Bahu 2014). A cura, aqui tida como uma
reorganização da sua experiência pessoal, um novo modo de ver o mundo e de se
relacionar com outros (Rabelo 1998: 47), é o farol que leva pessoas a entrarem
em contacto com estas igrejas, com estas profetisas.
Os crentes abençoados pelo Espírito Santo afirmam ter experimentado algo
indiscritível ' sentiram a cura ', uma vitória do bem, prova da força do
Espírito Santo. No entanto, é importante notar que a resolução, ou o alívio do
sofrimento, é compatível com a gestão de situações psicossociais, como casos de
infidelidade, desentendimentos com a família ou vizinhos, falta de emprego,
promoções sociais (Viegas 2008: 147).
Na paisagem urbana e espaço sociocultural de Luanda, as igrejas neotradicionais
ergueram capelas e casas de oração e de cura. Nas terapias, renovaram
tratamentos tradicionais, com rituais esquecidos como os encostos, ou seja,
os encantamentos; refizeram códigos de ética, de conduta religiosa e moral. Por
outras palavras, desafiaram a sociedade tradicional, reinstalando a ideia da
feitiçaria como a dualidade entre Deus e satanás, embora preservando um
repertório mágico-ritual aliado à ideia axial do conhecimento místico do bem e
do mal, pondo a tónica na presença dos espíritos malignos e do diabo à solta.
Consequentemente, desenvolveram um sistema de mercado mágico atualmente
aceite pelos mais distintos segmentos e classes da sociedade luandense,
extravasando do local para a diáspora global (Sarró e Blanes 2009).
A emergência destes novos atores sucedeu numa conjuntura de extrema carência. A
maioria da população vive uma situação de desencantamento relativamente às
promessas da sociedade política pós-independência que se agudizou com a guerra
civil e todo o lastro de violência, mas que persiste nos anos da década de
2000, tangível na dificuldade do Estado em fornecer educação, saúde e condições
estruturais para a produção de emprego. A rápida proliferação destas igrejas
parece ter sido uma resposta dinâmica aos problemas consequentes da guerra e
migrações ' falta de segurança, instabilidade económica geradora de altos
índices de pobreza, acessibilidade reduzida à educação, saúde, água potável,
saneamento básico e ausência de assistência social. As igrejas neotradicionais
pretendem demonstrar que a religião deixa de ser um assunto privado para entrar
na esfera do público, assumindo-se como livres gestoras, transformando a
religião, através de reinterpretações bíblicas, numa nova fonte de imaginação
simbólica, e procurando, assim, elidir as fronteiras simbólicas rígidas entre o
campo religioso e o campo mágico, recolocando assim a igreja no itinerário
terapêutico do enfermo e na (re)interpretação da cura.
É imperioso considerar o contexto de violência estrutural que molda e replica
as estruturas de desigualdade onde as pessoas sobrevivem.[13] É neste contexto
de pobreza que as igrejas neotradicionais prometem suprimir a doença e o mal,
diminuindo a crise existencial, repondo a certeza nas ações e enfatizando
sempre a eficácia da cura simbólica. O sentimento de pertença a comunidades
religiosas, como referiu Durkheim (2002 [1912]), permite acalentar a esperança
num futuro melhor que irá melhorar os quadros de exclusão social e
vulnerabilidade, um futuro no qual o papel das profetisas se destaca.
Não obstante, é imperioso evitar uma atitude conformista ou passiva sobre os
agentes e referir que, mesmo sob uma violência estrutural, estes sujeitos,
homens ou mulheres, têm capacidade de agência.[14] Ou seja, estas populações
procuram soluções entre as várias práticas e saberes de cura existentes, numa
utilização articulada segundo interpretações émicas dependentes de fatores
culturais, económicos e políticos dos vários grupos sociais. Na realidade,
muitos dos entrevistados evidenciaram a questão das oportunidades, informando
que recorrem sobretudo à que está mais ao seu alcance. Neste jogo entre a
doença, o infortúnio, a cura e a ordem de uma existência menos dolorosa, o
itinerário percorrido é variável.
Em suma, as novas dinâmicas religiosas desenhadas pela (re)emergência das
igrejas neotradicionais propõem um novo ecumenismo (relações privilegiadas
entre igrejas, pastores e comunidades); a recuperação da memória histórica e
cultural (através da exaltação de figuras proféticas como Njinga Mbandi, Kimpa
Vita, Kimbangu, entre outros);[15] uma nova hermenêutica bíblica (adequada aos
problemas comuns e quotidianos das pessoas, como história dos sofredores); e,
ainda, uma certa recriação da feitiçaria (como causadora dos males '
identificando e acusando, muitas vezes, velhos e crianças ' que só pode ser
vencida com o Espírito Santo). Paralelamente, as igrejas neotradicionais
desenvolvem algumas estratégias peculiares de produção e gestão dos seus
saberes e práticas de espiritualidade e de cura.
Saúde, doença e cura na sociedade urbana e periurbana de Luanda
A área da saúde apresenta-se como um campo particularmente permeável à atuação
de outros sujeitos, face a um estado de depauperamento económico, insuficiência
da rede sanitária, carência de profissionais de saúde com formação adequada e
falta de um quadro deontológico dos terapeutas tradicionais.[16]
A observação empírica dos grupos afro-cristãos mostra que, na interpretação dos
fenómenos sociais que impulsionam as suas vidas quotidianas, sobressaem três
agentes do saber tradicional: o adivinho, o curandeiro e o feiticeiro.
Cada um deles tem funções específicas, embora por vezes se apresentem ambíguos
e atuem em articulação, enquanto detentores de saberes especializados, operando
com eficácia na estabilidade emocional e nas práticas terapêuticas.[17] Mas são
os curandeiros ' nsadisi ' e, em particular, os pastores-terapeutas ' bikudi '
que são vistos como apaziguadores do sofrimento da população que vive em
situações de crise económica, social e psicológica.[18] No terreno, a estes
atores ligados à gestão da doença e da cura juntam-se assim os agentes destas
igrejas, entre os quais estão as profetisas.
Corpo e saúde
O corpo é um nexus entre a biologia e a cultura. É, portanto, uma entidade
biológica saturada dos mais variados significados socioculturais, logo, peça
central na construção identitária de qualquer sujeito. É pois através do corpo
e respostas fisiológicas ou da incapacidade de realizar tarefas diárias que
socioculturalmente se sancionam situações de bem ou mal-estar, classificações
que não são retilíneas.[19] Estes estados, aparentemente biológicos, legitimam
hierarquias, diferenças ou exclusões, devendo estas classificações ser
consideradas não como determinações sociais absolutas definidas biomedicamente,
mas antes como processos em contínua negociação. A conceptualização de um corpo
em estado enfermo é, assim, mais abrangente do que um problema físico ou
mental, que o corpo-objeto resultado da rutura epistemológica cartesiana.[20]
No contexto em análise, estar de saúde relaciona-se não só com o bem-estar
físico, demonstrado pela capacidade produtiva, de realização de tarefas
diárias, ou no agir de acordo com o que se espera de uma criança, jovem mulher,
homem adulto ou idosos, mas vai, além disso, incluir múltiplas relações e
interligações com esferas sociais ' pessoal, familiar e comunitária/societal ',
com ideias relacionadas com fé e pecado ou quebras de tabus locais. Esta
conceção afasta-se do ideal definido pela Organização Mundial de Saúde em 1948,
que afirma que saúde é o estado do mais completo bem-estar físico, mental e
social e não apenas a ausência de doença (Last 1993), e tem corolários em
termos de conceptualização de diagnósticos, terapêuticas e cura.
Considera-se assim a cura como conceito holístico, segundo o qual curar
significa restaurar um modelo de saúde, entendido como normal e, por isso, não
regrado pela doença. Ou seja, para o crente tem um impacto forte na visão
teológica da sua existência. O simples ato da procura do médico não define a
doença, terapêutica ou cura. A falta de saúde, traduzida em enfermidade ou
infortúnio, aparece como a expressão da negatividade absoluta, torna-se
paradigma do conflito (social, moral, psicológico), do caos e, enquanto
metáfora, toma o significado da desordem por excelência.
Em termos de valor absoluto, a saúde-instrumento está ligada à economia
tradicional e à expressão de uma sociedade rural e periurbana, onde a vida
não é possível senão pelo trabalho diário. A saúde assim valorizada é fator
indispensável ao trabalho e dá sentido à vida. No terreno, observou-se que ter
problemas de saúde não é ter dores numa determinada parte do corpo, é ter uma
aflição na totalidade existencial do sujeito. Como refere Boff, não é uma parte
que está doente, mas é a vida que adoece em várias dimensões. A omnipresença da
doença obriga o indivíduo a organizar, como achar mais adequado, o conjunto de
discursos e de diferentes práticas e saberes médicos, com vista a obter um
equilíbrio social, uma vida normal (Boff 1999: 143).
Como muitas vezes a causa da enfermidade é atribuída à chamada feitiçaria,
wanga,[21] a procura da saúde pode provocar ruturas que obrigam à realização de
rituais (nas igrejas neotradicionais ou nos curandeiros) para fazer frente a
dramas sociais que podem derivar em desintegrações e divisões familiares,
muito embora os visados procurem a reconciliação e a reintegração social.[22]
Os relatos dos fiéis confirmam que as representações da doença estão
diretamente relacionadas com os usos sociais do corpo no seu estado normal.
Mona nota que:
Estar doente é não estar bem, porque estar doente é uma incomodação,
não dá possibilidade de poder andar, ficas intimidado, não podes ir
trabalhar, então para estares normal, para teres saúde, tens de
procurar auxílio no doutor do hospital, nos enfermeiros, na nossa
medicina tradicional. Ter saúde é fazer tudo. [Mona, crente da
Comunidade do Espírito Santo, entrevistada por Fátima Viegas, 13 de
setembro de 2003]
Com efeito, Weza também referiu que sentir[-se] doente é não ter saúde, estar
fraco, debilitado e a pessoa não poder fazer nada na vida, ficamos
desesperados, sem saber programar a nossa vida; sentimento reforçado por
Muxito, ao afirmar que a doença retrocede a vida, não se pode fazer nada,
mesmo nada.[23]
Há um paralelismo com o contexto moçambicano, onde a doença também enfatiza a
rutura da normalidade. A saúde é, portanto, um estado natural e esperado da
pessoa, um estado harmónico que, por sua vez, para existir requer harmonia
entre indivíduos, bem como na sua envolvente social e ecológica, incluindo os
antepassados (Granjo 2009: 257).
Percursos para a saúde
A doença é por norma integrada num sistema multicausal complexo, onde se
misturam elementos do mundo natural (micróbios, vírus), do mundo social
(famílias e vizinhos) e do sobrenatural (maus espíritos, intervenção de forças
mágicas e poder divino), quase servindo de base para os sistemas terapêuticos
de Kleinman (1978) ' popular, tradicional e profissional.
O pressuposto subjacente ao conceito de sistemas médicos relaciona-se com o
conceito de pluralismo médico, numa sociedade onde existem e são usados
diferentes setores ou tradições médicas. Assim, para este autor, o sistema de
cuidados seria constituído pela interação de três setores (profissional,
tradicional e popular), cada um com ideias e normas de conduta específicas e
legitimando diferentes alternativas terapêuticas. Apesar de ser uma boa forma
de conceptualizar a gestão terapêutica, este modelo replica ainda uma
perspetiva funcionalista e tem uma conceção que sugere um sistema uno e
integrado, algo que não se verifica no real.
Enquanto para alguns entrevistados a doença é antes de tudo uma manifestação de
um poder sobrenatural e divino, para outros é muitas vezes também uma ação do
homem, de acordo com a interpretação dos fenómenos da feitiçaria e da magia.
Por não ser uma simples desordem biofísico-psicológica, faz parte do domínio
mágico-religioso. O testemunho de Simba, um doente internado no Centro
Terapêutico Tradicional Papá Nzuzi, ilustra a necessidade da intervenção dos
dois mundos (visível e invisível) para a reposição do bem-estar saúde:
Há quase três anos que tive problemas com minha barriga, sempre
inchada, doía-me, parecia uma mulher grávida, não podia vestir umas
calças com cinto, sentia-me mesmo mal. Fui ao hospital Maria Pia,
estive durante cinco ou seis meses internado e não via cura. Um dia,
um outro doente internado na enfermaria onde eu estava, ele também
com um problema idêntico ao meu, os médicos resolveram tirar os
líquidos que ele tinha no ventre, o senhor morreu! Ao ver isso
comecei a ficar com medo e pedi ao médico para me dar alta, pois
preferia morrer em casa, para não dar mais despesas à família, em
alugar um carro para levar o meu corpo para casa. Saí do hospital e
resolvi ir para Kinshasa, na República Democrática do Congo, à
procura de outros meios.
Neste testemunho, a procura da medicina tradicional surge porque o doente não
encontra os resultados desejados na medicina convencional moderna que procura
em Luanda e na República Democrática do Congo:
Lá estive também internado no hospital, mas fiz outros tratamentos
tradicionais e não conseguia cura. Até que um dia, ao ouvir a rádio,
escutei uma entrevista de um médico tradicional em Luanda, que
explicava como ele tratava algumas doenças, então senti que ele havia
de me curar. Regressei a Luanda e procurei este centro de cura, onde
aqui estou a receber tratamentos há um mês, e já ponho normalmente
calças, não sinto as dores que sentia, calço os sapatos, pois não
podia fazer porque os pés estavam também inchados. O Papá Nzuzi me
disse que era complicações com o aparelho digestivo, a verdade é que
estou a recuperar a saúde. Simultaneamente, o Papá Nzuzi é também
religioso e todos os domingos no centro é convidado um pastor das
igrejas neotradicionais para a celebração de um culto, onde todos nós
doentes recebemos a imposição das mãos e sentimos o peso da cura
espiritual, os demónios são afastados.[24]
A cura tradicional emerge para Simba como uma alternativa, um recurso num
momento de desespero, ao vislumbrar a morte de outro individuo com uma
nosologia semelhante à sua. Com este vislumbre da morte, o doente procura
formas diversas de explicar a doença. Pode-se ainda afirmar que os sintomas
vividos pelo doente iam para além do foro fisiológico, estando ligados à esfera
do mágico e do transcendental. Assim, é sem surpresa que Simba, no seu
testemunho, sublinha a eficácia da cura espiritual em oposição à ineficácia do
tratamento hospitalar. Foi esta cura mágico-religiosa que permitiu ao
entrevistado dar sentido ao fenómeno da doença.
Neste caso, a persistência de uma sintomatologia anormal, mesmo após práticas
biomédicas, é reinterpretada e passível de ser tratada simbolicamente, isto é,
através do recurso ao elemento mágico do poder curativo de um artefacto ou
planta.[25] O que sobressai é a complexidade do itinerário terapêutico e as
constantes negociações inerentes a cada tratamento, face à ausência de
resultados satisfatórios para o grupo de gestão terapêutica (Janzen 1978). Este
grupo, neste caso o doente e família, é central para a aceitação do diagnóstico
e definição do processo terapêutico e da cura. Nele intervêm grupos de
parentesco ou de vizinhança, tanto na escolha do sistema terapêutico quanto na
formulação de hipóteses sobre as causas da doença e na procura de soluções
através de modelos explicativos leigos (Young 1982). Este grupo torna-se
sujeito do conhecimento sobre o mal-estar e avaliador de competências
específicas que moldam as escolhas entre os diversos saberes médicos
disponíveis.
O pluralismo médico verifica-se quando um sujeito, numa dada sociedade e numa
determinada época, tem recurso a várias possibilidades terapêuticas,
comportando cada uma delas os respetivos especialistas de cura. Pois [ ] cada
doença dá origem a uma escolha entre as várias possibilidades (Mbokolo 1994:
178). Mbokolo defende que a diferença entre as conceções da doença nas
sociedades ocidentais e nas sociedades africanas reside no facto de que as
sociedades ocidentais estão mais preocupadas com a saúde do que com a doença,
ao passo que sociedades tradicionais' africanas estão mais preocupadas com a
doença, em fornecer interpretações e formas de combater (Mbokolo 1994: 181).
Em conversas informais tidas no final de um culto religioso, os fiéis referiam
a itinerância terapêutica e a ineficácia da biomedicina perante determinados
males, em contraponto à eficácia e centralidade da medicina tradicional e das
igrejas neotradicionais nestes percursos para o bem-estar:
Se me sinto doente vou ao hospital, bebo os comprimidos que o médico
receitou, mas tomo também o chá de plantas medicinais e na igreja
recebo as bênçãos da profetisa e a unção com óleo benzido. [Crente
da Igreja Fé da Salvação, em conversa informal com Fátima Viegas, 12
de março de 2003]
Uma outra serviu-se de uma doença específica para dar o exemplo dessa
itinerância:
Aqui temos uma doença, chamam ongando ou olongado, em Malange chama-
se mikila. Aquilo não é doença que passa ao outro, não é, só que no
hospital não acusa nem tuberculose, nem paludismo. Então vamos a um
curandeiro ou curandeira que sabe. Eles cortam e metem medicamento e
passa, essa doença se chama makulo, se não se tratar, mata a pessoa.
Os médicos nos hospitais não conhecem o modo de curar esta doença, só
no tradicional.[26]
Dois excertos de informantes internadas no Centro Tradicional Papá Nzuzi
reforçam a ideia da consciência local do itinerário terapêutico, bem como das
razões inerentes para tal.
Xana refere que:
Meu marido procurou aqui este centro, vai ao hospital não consegue
nada, fica pior. Eu sentia a doença tipo maluquice desde que a
família me trouxe na Igreja e centro tradicional curei a minha
vida. [Xana, entrevistada por Fátima Viegas em 13 de setembro de
2003]
Mena reforça a relevância do grupo de gestão terapêutica na definição do
itinerário, bem como da negociação da própria cura:
Devo dizer que a família me trouxe aqui neste sítio mais rápido, a
igreja onde eu ando também cura, mas demora tempo [ ] o jeito que eu
me encontrava, aqui cura mais rápido. [Mena, pastora da Igreja dos
Primogénitos Evangélica Universal, internada no Centro Tradicional
Papá Nzuzi, entrevistada por Fátima Viegas em 21 de setembro de 2003]
Os percursos terapêuticos são assim bastante mais complexos e menos ordenados
do que se poderia considerar. Existe uma hierarquia de escolha de acordo com o
diagnóstico efetuado pelo grupo de gestão terapêutica. O recurso simultâneo a
vários tratamentos e a existência de visões discordantes ' e até mesmo
contraditórias ' evidenciam que tanto a doença como a cura são experiências
intersubjetivamente construídas. Por isso, o paciente, a sua família e aqueles
que vivem próximo continuamente negoceiam significados (Janzen 1978; Rabelo
1998: 54). A existência e principalmente o uso destes significados pelas
pessoas são também caóticos e indeterminados, chegando Last (1992) a sugerir o
conceito de não sistemas.
A importância do grupo de gestão terapêutica e a maleabilidade dos modelos
explicativos são aqui translucidamente reveladas. Ao negociar-se a avaliação
da enfermidade/mal-estar, isto é, o diagnóstico, e na consequente definição do
itinerário terapêutico, como nota Young, os modelos explicativos leigos podem
modificar-se perante relações com modelos profissionais, mas também face às
experiências vivenciadas pelo doente. Estes cruzamentos sugerem uma certa
falibilidade nas medicinas, ou seja, nem os medicamentos químicos, nem os
naturais receitados pelos terapeutas tradicionais, nem as intervenções dos
neotradicionais são completamente eficazes.[27] Esta ideia de fragilidade de
cada um dos recursos médicos, devido às incertezas cada vez mais assentes na
vida dos indivíduos, vai proporcionar a abertura a outros universos de
significação da cura e da medicina.
Considerando os textos de Lévi-Strauss (1963), Singer (1990) e Moerman (1979,
2002) sobre o simbólico, a cura e a força do efeito placebo, há que considerar
a cura simbólica, isto é, a cura que não se restringe ao diagnóstico e
terapêutica farmacológica para ser eficaz, mas se alarga ao ritual e à
manipulação de símbolos culturais poderosos. Na senda da cura cultural ou
cura simbólica, os pastores e profetisas das igrejas neotradicionais assumem
uma importância capital, na medida em que o seu papel consiste em resolver os
conflitos que causam a perturbação do doente, restaurar a coesão do grupo e
reintegrar o doente na sociedade.
Os sistemas religiosos de cura oferecem uma explicação para a doença que a
insere no contexto sociocultural mais amplo do sofredor (Comaroff 1985). Os
rituais de cura (através da manipulação de símbolos num cenário carregado de
emoção, entre cânticos, rezas, danças e transes) têm assim um papel
transformador. Rabelo, ao estudar o ritual enquanto prática transformadora,
refere que no ritual da cura o doente é persuadido a redirecionar sua atenção
a novos aspectos de sua experiência ou a perceber esta experiência segundo uma
nova ótica (Rabelo 1998: 49).
Alguns profissionais de saúde biomédica estão conscientes deste facto, como
relata o médico Inocêncio de Sousa:
Há pacientes que vão ao médico, mas muitas vezes antes de ir ao
médico vai ao curandeiro, ou a um outro terapeuta tradicional, e
concomitantemente vai ao pastor da igreja, porque ele procura a sua
saúde; muitas vezes a procura de saúde não vê barreiras, o que ele
quer é livrar-se do mal. [Médico do Hospital Maria Pia, entrevistado
por Fátima Viegas, 20 de dezembro de 2003]
A complexidade do itinerário terapêutico indicia um questionamento implícito da
qualidade e legitimidade das práticas médicas formalizadas e reconhecidas pelo
Estado ' no caso angolano, apesar da aproximação recente do governo aos
terapeutas tradicionais, nomeadamente curandeiros, até à data da publicação
deste texto, essas práticas centram-se exclusivamente na biomedicina. Este
sancionamento de jure não tem corolário na práxis diária das pessoas, na qual a
maioria da população recorre amiúde a outros saberes e práticas terapêuticas.
A análise do itinerário terapêutico exige uma interpretação interdisciplinar,
inerente ao (re)emergir de novos atores como as profetisas das igrejas
neotradicionais, em busca de uma matriz conceptual subjacente à lógica de
incertezas e probabilidades do sistema curativo. Só assim se poderá compreender
o fenómeno humano da procura de cura e da eficácia da cura religiosa.[28] Curar
é, portanto, um processo que implica uma interpretação causal da ligação do
indivíduo ao contexto das relações sociais existentes, quer por diagnóstico
científico, quer por adivinhação, ou ainda por outra gestão terapêutica, como
a cura religiosa.
Durante a pesquisa de campo, uma parte significativa dos fiéis apontava
questões da enfermidade e de outro(s) sofrimento(s)/infortúnios como motivo da
sua integração na comunidade religiosa. A cura não biomédica oferecida pelas
igrejas neotradicionais torna-se um meio fundamental para atrair novos crentes.
Esta cura abrange desde as perturbações mentais aos males somáticos e
psicossomáticos, aos problemas de falta de dinheiro ou de desemprego, à falta
de sorte ou perseguições nos serviços ou ainda às infelicidades conjugais. A
tarefa das profetisas destas igrejas neotradicionais consiste em ajudar e curar
as pessoas através da metamorfose sob a inspiração do Espírito Santo.
O carisma e as trajetórias das profetisas
Para os crentes, as profetisas possuem carisma. Comumente, o termo refere-se
por norma à qualidade de alguém que apresenta e emana um magnetismo pessoal
com a capacidade de conseguir a anuência de outrem. Mas é preciso definir
melhor a sua aplicação para uma transformação religiosa que compele
indivíduos a seguirem um líder. Assim, falar de carisma requer,
necessariamente, evocar Sohm, que refere a importância dos carismas do Espírito
Santo na igreja do primeiro século (Sohm 1958 [1896]). Max Weber apropria-se do
conceito para o usar em campos além da religião, em outras estruturas de
autoridade, como a economia e a política.[29] Para este, carisma é uma
-qualidade particular de uma personalidade individual em virtude da qual
ele é considerado extraordinário e tratado como dotado de poderes
sobrenaturais, sobre-humanos, ou pelo menos com qualidades excecionais. Estas
características não são acessíveis à pessoa comum, mas vistas como de origem
divina ou exemplares (Weber 1978: 241).[30]
A autoridade carismática resulta de uma mistura de elementos emocionais,
valores e elementos racionais, no entanto não se afasta da ideia de uma graça
de conhecimento divino, charisma veritatis (Sohm 1958 [1896]: 41). Weber
clarifica a peculiar relação da autoridade carismática com a tradicional e a
legal/burocrática: O domínio carismático não conhece, portanto, os códigos
jurídicos abstratos e os estatutos e nenhum modo formal de adjudicação. Sua lei
objetiva' emana concretamente da experiência altamente pessoal da graça
celestial e da força divina do herói. A dominação carismática significa uma
rejeição de todos os laços com qualquer ordem externa, em favor da glorificação
exclusiva da mentalidade genuína do profeta e herói (Weber 1978: 174). Esta
conceptualização de carisma ajuda a compreender a ressignificação da biografia
das mulheres e por que razão elas podem assumir corajosa e diligentemente o que
entendem ser as suas novas vocações e missões nas igrejas neotradicionais.
O que é mais importante é como um indivíduo [carismático] é
considerado pelos que estão sujeitos à autoridade carismática, pelos
seus seguidores' ou discípulos' O reconhecimento por parte
daqueles que estão sujeitos à autoridade é o aspeto decisivo para a
validade do carisma. O reconhecimento é livre e garantido pelo que é
visto como prova, originalmente sempre um milagre, e consiste na
devoção à revelação, culto do herói, ou uma absoluta confiança no
líder (Weber 1978: 242).[31]
Há, no entanto, que considerar ainda a força revolucionária do carisma, como
nota Weber, pois em períodos tradicionais o carisma atua como força
revolucionária (Weber 1978: 245) que transforma os indivíduos por dentro (Weber
1978: 1116). Associar o conceito de carisma à participação e às trajetórias das
mulheres nas igrejas neotradicionais significa, antes de mais, valorizar e
respeitar as capacidades e potencialidades manifestadas por elas ' em paralelo
com os homens ' nas respetivas comunidades religiosas.
Trajetórias de vidas de mulheres profetisas
Um atentar às características do carisma definidas por Max Weber, nomeadamente
a sua irracionalidade face a regras, revela que o uso dos carismas por três
mulheres é uma clara demonstração de capacidade de agência. Com o breve relato
que se segue, de três histórias de vida de mulheres profetisas, centrado em
vários indicadores descritivos ' as origens geográfica, social e religiosa, os
acontecimentos biográficos mais marcantes da vida e as características da
igreja que lideram ', pretende-se mostrar como essas biografias ilustram o
funcionamento destas igrejas e a origem dos seus carismas, ao mesmo tempo que
reforçam a ideia de transformação num contexto de relações de género ainda
conservador.
As características inerentes ao carisma, nomeadamente ao outorgar elementos de
extraordinário, excecionalidade, sobrenaturalidade aos indivíduos, fazem com
que este seja estranho à tradição. Isto possibilita que se vá contra as regras
estabelecidas, ou seja, a atribuição de carisma às profetisas permitiu-lhes
quebrar com as barreiras de género, construir novas identidades e aceder a
lugares na organização da igreja que de outra forma lhes estavam barrados por
questões de género. Weber apontou de forma clara a irracionalidade da
autoridade carismática face às regras, nomeadamente à tradição: A autoridade
carismática repudia o passado, e é neste sentido uma força especificamente
revolucionária. Ela não reconhece qualquer apropriação de posições de poder
devido à posse de bens, seja por parte de um chefe ou de grupos socialmente
privilegiados.[32]
Profetisa Conceição
Aos sete anos, os meus pais separaram-se [ ] e comecei a viver com a
minha avó, mãe do meu pai, que me deu uma educação cristã católica.
Aos dez anos fui no internato, onde fiz a quarta classe. Depois, meu
pai foi transferido para Waku Kungo e vivi lá com ele e a minha
madrasta, onde concluí o ensino secundário. [ ] Depois veio também
novo conflito nos fins dos anos 74/75, entre UNITA e MPLA, antes,
portanto, da independência. Íamos todos como refugiados do Waku Kungo
para Malange. Quando atingi os meus 18 anos, comecei a trabalhar. Fui
professora durante 7-8 anos. Depois comecei a ter problemas sérios de
saúde. Então tive que parar, porque eram mesmo problemas também
psíquicos. [ ] Daí fizeram dois anos e oito meses de cama, [ ] fiquei
24 horas em estado de coma. Mas, felizmente, o que Deus não quer não
acontece e, portanto, depois de 24 horas só sei que recuperei os
sentidos.
Não podendo continuar a ensinar, Conceição tentou exercer outra atividade,
apesar de já ter tido visões sobre a sua missão. Durante a procura de outro
emprego, os problemas de saúde persistiram.
Fui me inscrever na Induve. [ ] No dia seguinte, ao sair de casa
para ir saber a resposta, só sei que caí desmaiada no portão.
Levaram-me no hospital. O médico disse que não tinha nada. Morta não
estava e doente também não.
Conceição continuava sem se sentir bem e foi procurar conforto e apoio junto de
uma igreja católica, ao mesmo tempo que recorria a hospitais. Um dia, quando
saía do hospital Maria Pia, viveu uma experiência inédita que mudou,
finalmente, o rumo da sua vida.
Vejo uma senhora a sair do hospital muito aflita com um menino de 5-
6 anos. Disse que, depois de três meses internado, o médico disse que
já não podia fazer nada. Eu perguntei a ela se tinha fé. Ela disse
que tinha. Acompanhei-a até à casa dela e fui orando. [ ] Uma voz que
oiço aqui dentro: Agora chegou a sua vez, mostre!' E ponho a minha
mão sobre o menino e fui orando mesmo sem saber o que havia de
acontecer. [ ] Pedi o azeite doce, pus nas minhas mãos e fui fazendo
massagem ao miúdo e orando. Portanto, pus o miúdo de pé, despedi e
disse: faça a medicação que o médico deu-lhes e amanhã vais com ele à
missa. Fui para casa. Só sei que, no dia seguinte, levam-me o miúdo a
andar.
Depois deste feito, Conceição passou a dedicar-se à oração e cura de doentes
que vinham ter consigo até fundar a sua própria igreja, que por obediência à
revelação divina resolveu designar Centro de Devoção Rainha Santa Isabel.
Profetisa Suzete
Também a profetisa Suzete revela a existência de um percurso de vida
problemático, marcado por diversos episódios de doença, diagnósticos vários,
diversas terapêuticas. As visões relatadas culminaram num despertar para ser
profetisa. O ponto-chave aqui foi a sua última cura na casa do profeta
Moisés II, da Igreja Teosófica.
A minha mãe diz até hoje que sou, dos dez filhos que ela teve, a
filha que mais trabalho lhe deu. Teve um parto complicado. Vim dentro
de um saco, fiquei muito tempo dentro daquele saco e tiveram que
cortar o saco para eu sair (meu pai era enfermeiro). Fui adoecendo e
tratada pelo meu pai e minha mãe e fui vivendo. Aos nove anos [ ]
tinha sido abandonada pelo meu pai, eu e os meus irmãos. Aos dez
anos, a minha vida se tornou um autêntico inferno [ ] Passávamos
fome, mesmo ainda em Malange. Alimentavam-nos de erva do campo
fervida e simples que a minha mãe colhia.
[ ] Em Luanda, a minha mãe passou a levar-me ao médico com mais
frequência ' clínica geral e psiquiatrias. Mesmo assim não melhorava.
Cresci a ser insultada por todos, porque eu tinha as crises também na
escola ou em qualquer sítio. Caía no chão, atirava-me dos prédios e
muros da escola, e janelas de casa, na sala de aulas gritava e
desmaiava, porque via coisas estranhas. Vi um porco grande que estava
a fumar atrás da casa, na minha janela.
Era atacada pelo Diabo, pois queria que eu trabalhasse com ele. Aí
começou a intervenção de Deus contra o Diabo. As crises foram tantas
que até os padres das paróquias de São Paulo, São Domingo e Sagrada
Família reuniram e trocaram os santos todos desde São Pedro, Santo
António, Nossa Senhora de Fátima, a Santa Maria Mãe de Deus e outros
santos e benzeram a capela, benzeram a casa e os santos. [ ] Nesta
condição comecei a ajudar muitas pessoas em muitas áreas, sobretudo
já falava de coisas boas ou más que iriam acontecer.
Em função do meu estado de saúde, o meu esposo [ ] me abandonou com
dois filhos.
Fui parar à Igreja Teosófica acompanhada de minha mãe. Na igreja fui
recebida pelo profeta Moisés II [Rodrigo Van-Dúnem Domingos] e o seu
colégio de trabalho. Aí comecei com as orações, fui melhorando e
depois piorei. Até que o profeta Moisés II levou-me à sua casa e
cuidou de mim, até que aos 2 de agosto de 1982 despertei.
Profetisa Teresa
No caso da profetisa Teresa, a biografia é marcada por momentos de doença e
infortúnio, sendo o momento que definiu o seu poder terapêutico a previsão da
conceção de uma criança. O seu carisma veio a confirmar-se com o salvamento
dessa criança na sequência de um parto difícil.
Nasci numa família católica e fui batizada aos doze anos. Durante
toda a minha juventude sempre sonhava com um senhor alto vestido de
branco. O meu pai faleceu quando eu era ainda miúda e vivi com a
minha mãe.
Aos 25 anos tive uma revelação e fiquei muito doente. A minha mãe
levou-me ao hospital, mas em vez de melhorar, piorava cada vez mais.
Depois levou-me para vários quimbandas em busca de cura, mas também a
doença continuava a piorar. [ ] Um dia, ao ir a outro quimbanda, tive
uma -hemorragia e tiveram de me evacuar para o hospital. [ ]
Fiquei internada durante oito dias. [ ] Os enfermeiros em serviço
confundiram-me com outra jovem que tinha dado à luz um rapaz e fugiu
depois do parto, abandonando o bebé no hospital. Eu neguei tudo, mas
não aceitaram porque eu era parecida com aquela moça e o nome que
estava no registo era igual ao meu. Oito dias depois fui ao tribunal
para ser julgada. Então, a advogada me aconselhou e disse assim:
Leva o bebé para casa, porque Deus talvez tem um propósito para
contigo e a criança'.[33]
Teresa não tinha alternativa senão acatar o conselho da advogada. Levou a
criança consigo, dando-lhe o nome de Santo António. Porém, não dispondo de
condições para criá-lo, decidiu entregar o bebé à sua irmã mais velha. A vida
de Teresa mudou radicalmente de rumo depois de viver outro acontecimento
marcante em Luanda, onde fora fazer o seu negócio como vendedora ambulante. Eis
o registo das suas próprias palavras:
Quando me preparava para descansar, passa por mim uma vizinha da
minha sobrinha. O Espírito Santo revelou-me que ela estava grávida há
dois anos e que andava em quimbandas para ter o bebé. Depois daquela
revelação fui ter com a vizinha e lhe disse assim: Se não tirares
aquele cinto que trazes amarrado na cintura, que o quimbanda onde
tinhas ido procurar proteção te deu, não vais conseguir dar à luz o
bebé.' A senhora ficou muito assustada e foi contar tudo ao marido e
à sua família. Logo depois, começou a sentir dores de parto e deu à
luz um rapaz. Mas, infelizmente, o parto correu mal porque a criança
saiu com as pernas e acabou por falecer.
Como era de esperar, a família da parturiente responsabilizou Teresa pelo
infortúnio e entregou-lhe o cadáver do bebé, na expetativa de obter uma
solução. E o que sucedeu foi o seguinte:
Fiquei com a criança até por volta da meia-noite. Naquele momento
Deus enviou um profeta no meu corpo, o profeta Salomão. O Espírito
Santo desceu sobre mim e comecei a soprar a criança pelos ouvidos e
pelo ânus. Fiz isso várias vezes. A partir daí, a criança ressurgiu
em meus braços. Este mesmo espírito deu o nome de São José à criança.
A seguir entreguei a criança viva aos seus familiares. A partir dessa
data comecei a fazer várias curas. Não parei mais.
Foi na sequência destas experiências que Teresa iniciou a sua atividade de
profetisa. Segundo ela, o número de pacientes e seguidores foi aumentando, até
fundar a Igreja Fé da Salvação (Ifesa) em Viana. O menino referido na narrativa
já completou 24 anos, emigrou para a Holanda e é atualmente o líder da Igreja
Fé da Salvação naquele país.
Os relatos destas três profetisas adequam-se à ideia formulada por Weber de que
o carisma pode efetuar uma reorientação subjetiva ou interna provocada por
sofrimento, conflitos ou entusiasmo, pode levar à modificação radical das
atitudes para com os problemas do mundo.[34]
A análise das histórias de vida e a leitura do quadro 1 levam-nos a concluir
que existe uma semelhança estrutural nas trajetórias das três profetisas
entrevistadas. A doença e o sofrimento pessoal marcaram os seus percursos
anteriores à aceitação dos carismas recebidos e práticas inerentes a eles.
Constata-se que a exclusão familiar e social remete para as visões comuns sobre
as doenças, entendidas como situações de conflito. No entanto, o facto de
terem sido agraciadas com carismas especiais criou novas oportunidades de
emancipação e afirmação social e profissional.
Carisma e (re)construção de identidades e papéis de género
A apresentação e a gestão de saberes e práticas de cura são feitas junto das
comunidades nas igrejas neotradicionais. Esta cura religiosa, que tanto trata
de doenças como de infortúnios, pode também ser conceptualizada como uma
estratégia de poder destas igrejas face às igrejas históricas, um mecanismo de
criação e delimitação de um espaço próprio. É neste contexto que vão emergindo
redes de solidariedade, (re)construção de identidades e novas formas de
emancipação social para as mulheres.
Igrejas como sociedades-providência
Perante as múltiplas formas de exclusão e discriminação sociais apontadas pelos
entrevistados religiosos, muitas igrejas atuam como redes de interação
complexas na construção de uma vida social com menos insegurança, numa
sociedade em transformação. Estas instituições conseguem reintegrar indivíduos
e criar um sentimento de comunidade religiosa, como referia Durkheim (2002
[1912]). Como pode verificar-se nas palavras da pastora Mafuta:
Essas pessoas, à medida que vão para essas igrejas têm direito a
comida, porque o povo é mobilizado, no sentido de contribuir com
arroz [ ] farinha, mandioca. Assistem e participam nas atividades da
comunidade religiosa e são assistidos e há depois este convívio todo,
uma assistência, fora do normal. [Entrevista por Fátima Viegas, 21
de dezembro de 2003]
As igrejas neotradicionais têm contribuído então para o apaziguamento das
tensões sociais, ao mesmo tempo que constituem lugares de moralização,
autênticas redes de solidariedade às populações, dando-lhes alimentos, curando
feridas físicas e espirituais, ensinando, evangelizando e transformando
mentalidades.
No período colonial, as igrejas atuavam nas áreas mais rurais e longínquas
(Varanda 2007, 2014). Na entrevista já atrás citada, o pastor Kiluanje descreve
como, similarmente, as igrejas mantêm um papel relevante de atores que
representam ação junto do povo, desta feita em áreas urbanizadas, mas onde o
Estado tem dificuldade em atuar:
Durante o período das guerras civis, as igrejas africanas deram um
grande contributo, resolvendo problemas de saúde e de ensino,
assistindo as pessoas mais necessitadas. Lá onde não chega o Estado,
está presente uma igreja ao lado do povo, minimizando os problemas
quotidianos, construindo postos médicos, escolas e ajudando nas curas
espirituais.
Homens e mulheres aderem a estas igrejas porque descobrem que este é um novo
modo de viver, baseado na ideia de uma solidariedade reencontrada, através de
experiências individuais ou coletivas com a presença do Divino Espírito Santo:
Tenho 49 anos de idade [ ] estou nesta igreja há 21 anos. Eu me
encontrava numa situação aflitiva, sem emprego, vagueava pelas ruas
sem fazer nada, levava uma vida de boémio. Um dia uma pessoa me fala
desta igreja e vim aqui parar. Realmente, desde a minha integração,
segui as orações, os encontros com os outros fiéis, para encontrar
emprego, coisa que eu consegui a minha família quase toda [mulher e
filhos] estão nesta igreja. [Catembo, pastor da Comunidade do
Espírito Santo, entrevistado no local de culto por Fátima Viegas, 18
de agosto de 2003]
Estas igrejas também alfabetizam crianças e adultos, socorrem em caso de doença
e morte, criam empregos, associam-se às populações em momentos fulcrais nas
biografias individuais ou familiares, como nos nascimentos e nos casamentos,
atuando como providências. Estas práticas tecem laços de proximidade e
solidariedade que suportam os encargos e as ajudas aos crentes. É por isso que
se pode concluir que essas igrejas desempenham um papel de sociedades-
providência, no sentido proposto por Santos (1995). Neste processo de fiação
de redes de solidariedade, estas igrejas assumem uma postura emancipatória, na
medida em que favorecem a libertação dos medos, das perseguições das forças
malignas visíveis e invisíveis, integrando grupos de indivíduos no seio das
famílias e das comunidades, levando-os à luta pelos seus direitos.
Embora não substituam literalmente o Estado em termos de segurança social,
estas novas congregações garantem segurança espiritual, solidariedade e apoio
aos excluídos. Assim, na contemporaneidade, estas novas igrejas mantêm um
papel-chave em zonas urbanas e periurbanas (Viegas 2008), em centros urbanos do
interior, bem como em áreas rurais (Bahu 2014), onde a ação social do Estado é
insuficiente.
Construção de identidades próprias
As igrejas neotradicionais apresentam características próprias nos rituais dos
seus cultos, na sua composição e na sua mobilidade. Elas estão fortemente
associadas aos idiomas sociais e culturais dos vários grupos etnolinguísticos
que formam a nação angolana. Além do papel central destas igrejas junto da
população para conforto espiritual ou pelas ações sociais, as igrejas são
elementos importantes no esforço de reconstrução simbólica da nova nação
angolana. Sobre isto, o pastor Kiluanje expressa o seguinte:
Baseados nas potencialidades da nossa cultura e no princípio da
valorização da nossa identidade, achamos oportuno sacudirmos o jugo
do despotismo espiritual estrangeiro e reconquistar as antigas
liberdades dos africanos, com as nossas igrejas nacionais reformadas
e independentes, para a verdadeira reafirmação espiritual do homem
africano. [Kiluanje, 20 de dezembro de 2003]
Na mesma linha de pensamento, o pastor Nsingui João remata que:
Nós africanos temos uma graça única, o poder do Espírito Santo,
coisa que não têm os europeus. Mamã Kimpa Vita, a nossa primeira
profetisa, quando disse que tinha uma força interior e ajudou os
nossos reis, os missionários europeus pensaram que ela estava maluca,
porque os negros não podem saber estas coisas, falar coisas do céu.
Foi por isso que surgiu Simão Kimbangu. Ninguém pode acabar com este
dom. Em África, o Espírito Santo manifesta[-se] a favor dos que
sofrem. É preciso que nós africanos te[nha]mos união para explorar
esta graça, esta é a nossa identidade, que outras igrejas de fora não
têm. [Nsingui João, pastor da Comunidade do Espírito Santo,
entrevistado no local de culto por Fátima Viegas, março de 2003]
Neste contexto, as comunidades religiosas ganham um novo modelo de identidade,
segundo o qual a personalidade de cada crente não está dependente da ligação
com o seu ancestral, a sua linhagem ou o estatuto social da família, mas do
privilégio de o seu eu entrar em contacto com o Espírito Santo.
Esta nova intervenção de rituais religiosos parece ser uma força unificadora,
uma forma não só de unir os adeptos, mas também de conferir legitimidade e
respeitabilidade ao pastor, à profetisa ou à própria igreja.[35]
Participação das mulheres nas igrejas neotradicionais
O espaço e o papel ocupado pela mulher no seio destas igrejas são elementos
revolucionários, pois aquela não tinha protagonismo no sistema tradicional nem
nas igrejas históricas (católica e protestantes). Nas igrejas neotradicionais,
é aberto um espaço público às mulheres, que atuam com novas funções e
responsabilidades.
Nestas igrejas, as mulheres ocupam um lugar de destaque, transformando-se em
visionárias e agentes importantes na preservação da família e da comunidade. As
mulheres exercem o papel de verdadeiras educadoras das novas gerações e são
responsáveis pela promoção de valores cristãos e culturais, como a
solidariedade, pela continuação dos bons costumes e respeito pelos mais velhos,
por exemplo, realizando visitas aos hospitais ou casas de cura e consolando as
famílias dos crentes em situações de luto.
A questão da partilha de responsabilidades entre indivíduos de sexos e idades
diferentes é visível na ordem das atividades quotidianas. Estas hierarquias
estão presentes nas direções, no respeito pela experiência e sabedoria dos
mais velhos, na inserção sociocultural dos jovens, nas estratégias para a
reconciliação familiar, ou ainda na luta para minimizar a pobreza e a
prostituição. Empenhando-se inteiramente no serviço, as mulheres ganham mais
autoestima por estarem inseridas numa comunidade, onde o amor ao próximo e
modos de participação social são enfatizados. A pastora Mafuta, da Igreja
Teosófica Espírita, frisa que:
Nós temos quatro tipos de obreiros que auxiliam esta instituição
religiosa: as servas do tabernáculo' e servas espirituais', que
participam nas curas divinas e assistem os trabalhos da vida material
e espiritual; o corpo de intercessoras', que são o motor da igreja,
nas campanhas de orações e visitas às famílias necessitadas; e os
anciãos conselheiros', que cuidam da disciplina da igreja. Temos
ainda grupos corais de jovens e crianças. [Entrevista por Fátima
Viegas, realizada no local de culto, Luanda, 21 de dezembro de 2003]
Os relatos das profetisas Conceição (fundadora e líder do Centro de Devoção
Rainha Santa Isabel) e Suzete (líder da Igreja Teosófica Espírita) são claros a
este respeito:
O preconceito existe. Eu enfrentei e continuo a enfrentar. Mas,
felizmente, dentro da minha comunidade, eles sabem que eu sou a
representante, sou mulher. Eles procuram sempre respeitar e aceitar
aquilo que eu digo, seguindo os ensinamentos do Senhor. Mas também há
quem vem, olha p'ra mim e não acredita. Porque eu não vou desobedecer
à vontade de Deus e satisfazer os caprichos dos homens. [Conceição,
entrevistada no Centro por Fátima Viegas em março de 2010]
Fui escolhida pelo fundador para continuar a missão ou até morrer,
dependendo da vontade de Deus. Sofri agressões e atentados Só o
facto de ser mulher nesta condição é um problema por parte dos
conservadores e os que dizem ser melhores Com muita fé e
persistência, foi inaugurado o templo do Maculusso. [Suzete,
entrevistada por Fátima Viegas em 2010]
Entre as funções específicas assumidas no interior das igrejas, podem referir-
se as funções das vates (vaticinadoras ou mulheres que encarnam os
espíritos). Cabe a estas mulheres pertencentes ao Centro de Devoção Rainha
Santa Isabel e Igreja Teosófica diagnosticar os males dos pacientes e receber
as orientações dos espíritos, para além de dirigirem as sociedades e grupos
de intercessão, de cura e aconselhamento, bem como os grupos corais.
Importa realçar que, de um modo geral, a maioria dos crentes que acorrem às
igrejas são mulheres com problemas de saúde que se referem a infertilidade ou
gravidez prolongada,[36] nosologias conceptualizadas localmente como problemas
tradicionais, logo consideradas fora do alcance da medicina ocidental.
Consequentemente, só a ação das profetisas com o poder do Espírito Santo podem
curá-las.
Na nossa igreja temos sociedades dos homens, de mulheres e dos
jovens. Cada uma delas exerce as suas tarefas, uns dedicam-se ao
ensino daqueles que não sabem ler e escrever; outros estão engajados
nas tarefas de cura espiritual; outros fazem parte de grupos corais,
todos trabalham para o desenvolvimento deste país. [Wenda, pastora
da Comunidade do Espírito Santo, entrevistada no local de culto, 30
de setembro de 2003]
Na minha igreja temos vários grupos corais de crianças, jovens e
senhoras. Todos eles cantam e falam aquilo que lhes vai no coração,
na alma. As mulheres têm um papel muito importante, são auxiliadoras
no processo de cura, ajudam a esfregar o óleo benzido e a orar pelos
doentes [Kimbele, pastor da Igreja dos Primogénitos, entrevistado no
local de culto, 12 de outubro de 2003].
A relevância das profetisas replica-se também na organização destas igrejas,
onde elas ocupam lugares de chefia e fazem parte dos conselhos. A
participação destas mulheres contrasta com o que é regra noutras denominações
religiosas, nas quais se restringe ao cuidar das estruturas físicas, limpeza e
ornamentação, ou a atividades logísticas e protocolares, ou seja, onde essa
participação se limita a uma replicação das tarefas consideradas
tradicionalmente femininas, i.e. domésticas. Como refere a Mamã Luísa:
Eu trabalho diretamente com o pastor, damos orações e bênçãos e
trabalhos espirituais, eu tenho o dom do Espírito Santo. E há alguns
serviços que nós é que temos de ver, somos a cabeça da igreja e
ficamos a orientar, nós é que transmitimos [a]o pastor o que deve
fazer. [Mamã Luísa, pastora anciã da Igreja dos Primogénitos,
entrevistada por Fátima Viegas, no local de culto, 30 de setembro de
2003]
Este novo estatuto das profetisas tem contribuído para uma redefinição da
conceptualização tradicional dos papéis de género, contrariando a discriminação
sentida amiúde pelas mulheres nos mais diversos locais de trabalho. Esta
renegociação de papéis pode assim contribuir para a sua emancipação.
Conclusão
Ao longo deste texto, verificou-se a importância da cura religiosa no contexto
contemporâneo urbano da grande Luanda. As dinâmicas sociais inovadoras
engendradas a partir da complexidade sociocultural local supõem um cruzamento
dos campos da saúde, por um lado, e da crença religiosa, por outro.
As igrejas neotradicionais reconstroem o espaço sociocultural de Luanda,
erguendo templos e casas de oração e de cura, convertendo e arrastando
multidões, refazendo códigos de ética e de conduta religiosa e moral, renovando
certos rituais com a inclusão de elementos tradicionais, proporcionando em
simultâneo um papel mais ativo às mulheres.
A religião ganha um peso desproporcional na identidade individual ou familiar.
As redes sociais tecidas à volta da identidade religiosa permitem suavizar o
peso da identidade individual de mulheres fragilizadas ou vulneráveis, e
reencontrar um sentimento de solidariedade (espiritual ou não) inerente à
experiência de um agregado de indivíduos sob um mesmo teto espiritual.
Nas igrejas neotradicionais, a mulher tornou-se um elemento revolucionário, ao
assumir lugares de chefia e fazendo parte do conselho espiritual das igrejas.
Como notou Weber (1978: 245), a autoridade carismática tem um cariz
revolucionário e isso mesmo verifica-se no terreno. O papel de género feminino
ganhou uma nova relevância no caso das profetisas, que se movimentam entre
categorias e modelos abrangentes ' pela (re)interpretação da Bíblia ou da
tradição ', e pela forma como lidam com dilemas individuais (a incerteza, a
desordem, o infortúnio, mal-estar ou doença).
Estas igrejas neotradicionais dirigidas por profetisas atuam onde o Estado está
ausente ou é incapaz de solucionar as necessidades prementes das populações. A
sua autoridade carismática e a legitimidade que têm entre os crentes revelam
que vão cumprindo com as expectativas da comunidade de crentes. Apesar de serem
ou poderem ser caracterizadas por outros atores como seitas, estas instituições
são resultado de uma reapropriação do tradicional, ou da perceção da ação
religiosa colonial, mas que, neste novo processo histórico da globalização e
num terreno político crescentemente neoliberal, vão ganhado crescente
relevância, pelo menos até ao questionar pelos crentes da legitimidade do
carisma ou ao desaparecimento físico das profetisas.