Entre a agroecologia e a fumicultura: uma etnografia sobre trabalho na terra,
cosmologias e pertencimentos entre camponeses pomeranos
A Associação Brasileira de Antropologia (ABA), através da sua Comissão de
Educação, Ciência e Tecnologia, atribui, por ocasião das Reuniões Brasileiras
de Antropologia, o Prémio Lévi-Strauss, visando dar visibilidade e estímulo à
produção científica de jovens licenciandos/as brasileiros/as. Mais uma vez, a
Etnográfica colabora com a ABA oferecendo, como parte do Prémio, a publicação
do trabalho premiado na modalidade B (artigo) em 2014.
“Aos olhos dos conterrâneos Menocchio era um homem, ao menos em parte,
diferente dos outros. Mas essa singularidade tinha limites bem precisos: da
cultura do próprio tempo e da própria classe não se sai a não ser para entrar
no delírio e na ausência de comunicação. Assim como a língua, a cultura oferece
ao indivíduo um horizonte de possibilidades latentes – uma jaula flexível e
invisível dentro da qual se exercita a liberdade condicionada de cada um”
(Ginzburg 2006: 20).
Introdução
O presente trabalho busca refletir sobre a relação entre visões de mundo e o
trabalho na terra de camponeses pomeranos, bem como sobre os limites
individuais e coletivos das visões de mundo e dos pertencimentos comunitários.
[1] A partir da observação da trajetória de uma família de camponeses de origem
pomerana na região da Serra dos Tapes, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil,
procura-se discutir as razões que levaram esta família a adotar a produção
agrícola de base ecológica, diferenciando-se da comunidade da qual faz parte.
De igual modo, procura-se evidenciar as redes de relações dessa família nos
âmbitos de parentesco, vizinhança e religião e os elementos que conformam seu
pertencimento à comunidade.
Esta pesquisa está inserida em uma agenda mais ampla, levada a cabo pelo Grupo
de Estudos e Pesquisas em Alimentação e Cultura (GEPAC), vinculado ao
Laboratório de Estudos Agrários e Ambientais, da Universidade Federal de
Pelotas (LEAA/UFPel). No que se refere à articulação com este estudo, são dois
os projetos de pesquisa relacionados: “Cultura, patrimônio e segurança
alimentar entre famílias rurais: etnografias de casos significativos” (CNPq
559565/2010-0) e “Saberes e sabores da colônia: modos de vida e patrimônio
alimentar entre pomeranos no Brasil meridional” (FAPERGS 1018354/2010-6), ambos
coordenados pela Prof.ª Dr.ª Renata Menasche.
O estudo aqui apresentado também foi realizado em articulação com o projeto de
extensão “Construção participativa de sistemas agroflorestais sucessionais no
território Sul, RS (Encosta da Serra do Sudeste)”, coordenado pelo Dr. Joel
Cardoso, pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária).
Esse último projeto teve por principal objetivo a implantação de SAF (Sistemas
Agroflorestais) em propriedades de agricultores ecológicos. Entre as questões
presentes no projeto, as dinâmicas sociais e processos culturais das famílias
envolvidas conformaram a parte que coube à equipe do GEPAC desenvolver.
Uma das famílias inseridas no projeto da Embrapa é a família Mühlemberg. Foi
assim que cheguei até sua propriedade, no Butiá. Essa família e o entorno em
que se insere representaram o foco principal desta pesquisa.
As iniciativas de pesquisa acima mencionadas têm sido desenvolvidas na região
colonial do município de Pelotas e municípios vizinhos, delimitada pela Serra
dos Tapes. Tais estudos situam-se na confluência entre as questões referentes à
alimentação, consumo e campesinato, a partir de uma abordagem antropológica.
A região da Serra dos Tapes situa-se no sul do estado do Rio Grande do Sul,
abrangendo, dentre outros, partes dos municípios de Canguçu, São Lourenço do
Sul e Pelotas. Conforme apontam Salamoni e Waskievicz (2013), seguindo-se à
presença indígena, a Serra dos Tapes foi ocupada primeiramente por escravos
fugidos ou libertos das charqueadas e posteriormente por imigrantes europeus
não ibéricos, sobretudo alemães, pomeranos, italianos e franceses.[2] O
processo de colonização teve início em 1848, incentivado pelo governo imperial
e executado por iniciativas deste, do governo provincial e particulares. Assim,
ao longo de toda a região da Serra dos Tapes, famílias de imigrantes de
diferentes origens foram assentadas em pequenas propriedades policultoras, que,
juntamente com os afrodescendentes, conformam hoje um mosaico étnico.
Hoje em dia, na paisagem da Serra dos Tapes é grande a presença de plantações
de fumo. Muitas famílias de colonos aderiram à fumicultura, parte delas
continuando a produzir alimentos, em boa medida praticando a chamada
agricultura “convencional” – caracterizada pela utilização de insumos químicos
e ausência de restrições às sementes transgênicas. Mas outra parcela optou pela
agricultura de base ecológica. Como bem identificou Patrícia Pinheiro (2010),
para muitos pesquisadores e técnicos agrícolas, os dois tipos de práticas –
agricultura ecológica e fumicultura – são colocados em polos opostos, um deles
primando pela saúde de produtores e consumidores, pelo respeito à terra e à
natureza; o outro visando apenas o lucro, sem preocupar-se com valores de
sustentabilidade.
Contudo, as duas formas de trabalhar a terra podem não estar tão dissociadas
como supõem – ou talvez desejem – alguns. No cotidiano dessas famílias, ao
contrário, pode-se perceber que essas duas maneiras do fazer agrícola
coexistem, muitas vezes em uma mesma propriedade. Para ilustrar essa
coexistência, basta observar que, em uma rede de vizinhança e parentesco,
fumicultores compram alimentos de produtores ecológicos e esses, por vezes, os
auxiliam no trabalho com fumo – situação particularmente comum em contextos de
adversidades climáticas, que demandam ação rápida e trabalho intenso. Ocorre,
ainda, que em uma mesma propriedade conjuguem-se produção ecológica de
alimentos e produção de “fumo orgânico”.
Nesse quadro, o presente estudo vem apresentar e discutir os resultados de
pesquisa etnográfica realizada em duas localidades rurais inseridas na região
da Serra dos Tapes, município de São Lourenço do Sul: Butiá e Coxilha Negra.
Trata-se de um contexto em que uma única família de agricultores ecológicos
convive com uma vizinhança que é, em sua quase totalidade, produtora de fumo.
As relações com as redes de parentesco e de vizinhança, a participação na
congregação religiosa – Igreja Luterana – e o pertencimento étnico a que se
vinculam – “colonos pomeranos” – orientam muitas de suas práticas, valores e
visões de mundo e os aproximam, mais do que afastam, dos produtores que seguem
outros modelos de trabalho na terra.
Entende-se a família Mühlemberg não como “representativa” dos agricultores de
sua localidade, ainda que sua trajetória possa auxiliar a entender questões que
perpassam contextos mais amplos. Tal qual a trajetória de Menocchio, personagem
de Carlo Ginzburg (2006), tentou-se pensar a trajetória da família Mühlemberg
em relação ao seu entorno. Pode-se dizer que tanto a trajetória de Menocchio
quanto a dos Mühlemberg, mesmo com suas idiossincrasias em relação a seus
conterrâneos e contemporâneos, tornam-se reveladoras do contexto de uma região
e de uma época.
Em O Queijo e os Vermes, Ginzburg (2006) reconstrói a história de Domenico
Scandella, o Menocchio, um moleiro que viveu na região do Friuli, Itália, no
século XVI, à época da Inquisição. Menocchio tinha pensamentos muito
particulares acerca da religião e dos dogmas da Igreja. Suas ideias
desagradaram ao Santo Ofício, que o prendeu e o sentenciou à morte. Conforme
observa Ginzburg, as ideias de Menocchio tinham origem em parte nos livros a
que teve acesso, mas em parte ao próprio contexto cultural em que estava
inserido. Segundo ele, mesmo um caso limite, como o de Menocchio, pode se
revelar representativo de um contexto, seja negativamente, porque precisa os
padrões estatisticamente mais frequentes, seja positivamente, porque permite
evidenciar como a cultura popular age diferentemente sobre os indivíduos.
A inserção em campo realizou-se, sobretudo, junto à família Mühlemberg,
acompanhando sua rotina no trabalho e na vida na propriedade. Também visitei e
entrevistei outras famílias das localidades de Butiá e Coxilha Negra, a maior
parte delas dedicada à produção de fumo, e participei de festas da Comunidade
Luterana Menino Jesus de Butiá. Com o objetivo de abordar mais adequadamente a
trajetória da família, além da etnografia, o trabalho de campo esteve baseado
em parte na metodologia da história oral. Segundo Meihy e Holanda, a história
oral “recorre à memória como fonte principal que a subsidia e alimenta as
narrativas”; é o “passado espelhado no presente [que] reproduz, através de
narrativas, a dinâmica da vida pessoal em conexão com procedimentos coletivos”
(2007: 16).
Ainda, é preciso notar que neste estudo se fez uma opção por manter os nomes
próprios dos interlocutores. Como demonstrado por Claudia Fonseca (2008), a
questão do uso ou não do anonimato no texto etnográfico suscita inúmeras
controvérsias entre os pesquisadores, estando relacionada com dilemas de
caráter ético e político. Entendeu-se que colocar os interlocutores no
anonimato não faria diferença em suas vidas, em parte porque já participaram de
inúmeras outras pesquisas e em parte porque, por suas particularidades, tornam-
se facilmente identificáveis.
A família e suas visões de mundo
Seu Roni e Dona Lúcia Mühlemberg são casados há quase 40 anos e há 35 moram
nesta propriedade, no Butiá. São pais de Luciano e Moacir, este último casado
com Lucimara. A propriedade em que vivem, a maior parte Seu Roni recebeu em
herança de seu pai. Quando faleceu, o pai de Seu Roni deixou duas porções de
terra para os filhos. A propriedade em que a família vivia, de 38 hectares (em
uma localidade próxima ao Butiá), ficou para o filho mais velho – o qual também
se tornou responsável por cuidar os pais quando chegaram à velhice. A outra
porção de terra (que originalmente pertencia à família da mãe de Seu Roni), de
50 hectares, foi dividida entre Seu Roni e sua irmã. Mais tarde, Seu Roni
comprou outros 10 hectares, totalizando os 35 hectares que conformam a
propriedade em que hoje trabalha com a família.
Luciano, o filho o mais velho do casal, tem 35 anos e é solteiro. É apelidado
pelos familiares de “inventor” ou “cientista”. Adora ciência e tecnologia, como
sempre faz questão de dizer. É formado como técnico em agroecologia e já
trabalhou em algumas cooperativas da região. Atualmente, Luciano está
terminando a graduação em Automação Industrial. Luciano revela o desejo de
permanecer vivendo no interior. Pretende utilizar o conhecimento que tem
adquirido para ajudar sua família a aumentar a renda que obtém da agricultura,
contribuindo para viabilizar que se mantenham na agroecologia, bem como para
incentivar que outros colonos adotem esse sistema de produção.
Moacir, o filho mais novo, é bastante diferente de Luciano. Tem 27 anos e é
casado. Moacir é apelidado de “capitão”, uma referência a seu ímpeto no
trabalho na terra. Ele nunca gostou de estudar e logo que pôde saiu da escola.
O que realmente lhe traz satisfação é o trabalho na propriedade e o pensamento
que, a partir dele, poderá um dia prosperar financeiramente.
Moacir e Lucimara moram na casa de Seu Roni. Explicam que isso é muito comum na
região, já que os casais novos, em geral, não têm dinheiro para comprar outra
propriedade. Eles, no entanto, estão inscritos no programa “Minha casa, minha
vida”.[3] Têm por objetivo construir outra casa para eles na propriedade da
família, que, após a morte do pai, provavelmente será dividida entre os dois
irmãos.
Os Mühlemberg são produtores agroecológicos, os únicos da localidade onde
moram. Faz mais de 18 anos que eles adotaram esse tipo de produção, após Seu
Roni ter tido problemas de saúde em decorrência do uso de agrotóxicos. Nos 35
hectares de sua propriedade, eles cultivam uma produção bastante variada. Entre
os produtos estão milho, feijão, soja, batata, batata-doce, mandioca, cenoura,
beterraba, amendoim, além de frutas e hortaliças.
A maior parte desses produtos é vendida na “feira do produtor”, que ocorre
semanalmente, aos sábados, na cidade de São Lourenço do Sul. Deve-se
acrescentar que, na feira, os Mühlemberg são também os únicos a vender produtos
agroecológicos, enquanto todos os outros agricultores comercializam produtos
convencionais. Parte da produção também serve ao autoconsumo da família e outra
parte é destinada à alimentação dos animais.
A família é aqui entendida também como unidade de produção agrícola. Como
aponta Klaas Woortmann (1990), “nas culturas camponesas, não se pensa a terra
sem pensar a família e o trabalho, assim como não se pensa o trabalho sem
pensar a terra e a família”. E é o patriarca, ou “pai-patrão” (para os
sitiantes de Sergipe estudados por Woortmann e Woortmann 1997), aquele que
governa o trabalho da família. “O pai de família é como o ‘dono’ do saber,
componente da hierarquia familiar” (Woortmann e Woortmann 1997: 38-39).
Desde que se casou e começou a trabalhar por conta própria na agricultura, Seu
Roni utilizara agrotóxicos. Chegou mesmo a empregar muito “veneno”, como conta.
No entanto, com o tempo, foi adquirindo feridas na pele (principalmente pés e
pernas), que não cicatrizavam, além de sentir mal-estar, enjoos e ânsia de
vômito; problemas causados, segundo acredita, pelo uso de agrotóxicos. As
narrativas de intoxicação são bastante frequentes entre os produtores que,
nesta região, aderiram à agroecologia (Pinheiro 2010). Foi assim que Seu Roni e
sua família tornaram-se produtores agroecológicos.
No início, ele integrava um grupo de produtores ecológicos que reunia mais 11
produtores do município. Com o tempo, entretanto, foram crescendo as
dificuldades em obter rendimento satisfatório a partir desse modelo de
produção. Foi assim que todos, à exceção de Seu Roni, abandonaram a proposta e
saíram do grupo, deixando de produzir de forma agroecológica, retornando à
agricultura dita “convencional” ou mesmo aderindo à produção de fumo, em que é
particularmente intenso o uso de agroquímicos.
Seu Roni lamenta, dizendo que não está fácil continuar na agroecologia. Parte
de sua produção, que antes era adquirida pela Coopar (Cooperativa Mista dos
Pequenos Agricultores da Região Sul), hoje já não tem escoamento. A batata, por
exemplo, “já está criando brote no galpão”, lastima ele. Segundo Costa (1984),
São Lourenço do Sul já foi o principal produtor de batatas do Brasil, chegando
a exportar, na década de 1960, para diversas regiões do país e do exterior,
como Uruguai e Argentina. Entretanto, agora a batata é produzida em larga
escala – e com agrotóxicos –, pelos “grandes” (produtores), no Paraná e em São
Paulo, chegando aos consumidores locais a preço bastante inferior, além de
apresentar aparência mais “bonita” que aquelas produzidas sem agrotóxicos.
Na feira, o que se vende ainda é pouco. A concorrência com os supermercados e
com os demais feirantes é grande. Os supermercados compram alimentos vindos de
outros lugares e produzidos em larga escala, vendendo-os a preços bem mais
baixos que os daqueles produzidos localmente. Ainda, para atrair fregueses, às
vezes os supermercados colocam preços quase mais baixos do que o valor que
pagaram pela mercadoria, diz Seu Roni. Para ter alguma chance de venda, lado a
lado com os outros feirantes (produtores convencionais), ele nunca eleva seus
preços muito além do que os outros pedem, mesmo sabendo que, no modelo em que
produz, tem muito mais trabalho.
Atualmente, na propriedade de Seu Roni, está sendo implementada uma área de
SAF. Cercou-se um terreno de 10 m x 10 m (para proteger dos animais) e lá, com
o acompanhamento da Embrapa, foram inicialmente plantadas espécies frutíferas
(laranjeira, bergamoteira), milho e adubação verde (mucuna, feijão miúdo, entre
outros). O projeto consiste em, uma vez crescidas um pouco as frutíferas e
derrubada a adubação verde, plantar outras espécies. Dando certo, o objetivo é
ter cultivados alimentos para o autoconsumo e para a venda na feira.
As plantas estão crescendo. Seu Roni realiza o manejo periodicamente. Contudo,
ele ainda se encontra um tanto cético em relação aos resultados que este
sistema poderá trazer. Por enquanto, rejeita categoricamente a opção de
implementá-lo no restante da propriedade e tem certeza que seus vizinhos, que
em sua maioria lidam com a produção de fumo, dificilmente permitirão que se
implemente em suas propriedades área semelhante.
Para Seu Roni e demais colonos da região, o ideal de cultivar a terra é
drasticamente oposto àquele proposto pelos idealizadores dos SAF. Desde que
seus primeiros antepassados estabeleceram-se nas colônias, entenderam que para
criar uma lavoura precisavam limpar todo o terreno e plantar os cultivos em
carreiras (linhas retas). O SAF, com os cultivos concentrados em pequenos
espaços, transmite a eles certa ideia de “plantar no meio do mato”, de
descuido, “relaxamento”. Mesmo para Seu Roni, que se preocupa em realizar uma
agricultura que não agrida tanto a natureza – o que poderia aproximá-lo da
proposta do SAF –, a presença de outras concepções acaba por afastá-lo do
modelo implantado.
Seu Roni, entretanto, sente-se pouco à vontade para abandonar o projeto
iniciado pela Embrapa. Outros projetos da mesma instituição também são
desenvolvidos em sua propriedade, introduzindo cultivares para experimentos e
sugestões de técnicas de manejo. A relação com o pesquisador da Embrapa já vem
de longa data. Por meio dela, Seu Roni e Dona Lúcia já puderam viajar para
eventos e para conhecer propriedades de agricultores ecológicos de outros
municípios do estado e de outras regiões do país. Nesse sentido, embora não
concordem com o projeto, a relação de reciprocidade com o pesquisador da
Embrapa os impede de rejeitá-lo.
Como demonstraram Woortmann e Woortmann (1997), o trabalho na terra envolve
cálculos, com o objetivo de minimizar riscos. “O desperdício de trabalho, de
tempo, de terra e de sementes contraria frontalmente a ética camponesa. Poupar
recursos é componente central de todo o cálculo da sua produção” (Woortmann e
Woortmann 1997: 56). Nesse sentido, “o cultivo, visto como um cálculo, implica
um conjunto de fatores. De um lado, os macrossociológicos, determinados pelas
transformações da estrutura agrária da região e das condições de acesso à terra
[…]. Por outro lado, as condições de cultivo dependem ainda do ciclo de
desenvolvimento do grupo doméstico” (Woortmann e Woortmann 1997: 127-128).
Na lida cotidiana na propriedade, o trio Seu Roni, Moacir e Lucimara quase
sempre trabalha junto. Luciano, como já dito, estuda e trabalha fora de casa.
Quando ele está na propriedade, entretanto, também ajuda na lavoura ou em
outras tarefas. Dona Lúcia é responsável pela casa e pela comida, no que também
é ajudada por Lucimara, que volta da roça antes do horário das refeições. Dona
Lúcia também trabalha na lavoura, em tarefas que necessitem da ajuda de mais
uma pessoa, como na capina dos “inços”, na colheita de alguns produtos e no
cuidado da horta.
Woortmann e Woortmann (1997: 135) comentam como, no mundo camponês, o trabalho
constrói também as relações entre homens e mulheres. Assim que “o processo de
trabalho, visto como processo ritual, constrói o gênero”. Entre os sitiantes
sergipanos por eles estudados, enquanto à mulher cabe voltar-se para dentro – a
casa –, ao homem é reservado o mundo lá fora, desde a lavoura, externa à casa,
passando pela feira, até o próprio mundo, de forma geral.
Na propriedade, quase tudo que é consumido na alimentação é produzido pela
família. Além das frutas, vegetais, hortaliças e temperos (bem como alguns
chás, que também são cultivados na horta), a família tem uma pequena criação de
animais para “o gasto”. Criam galinhas, porcos e vacas – na realidade, uma vaca
(da qual tiram o leite que consomem), uma terneira e três bois. A vaca e a
terneira foram presentes dos pais de Lucimara, por ocasião do casamento dela
com Moacir. O esterco do gado também é aproveitado como adubação, depois de
servir de alimento para as minhocas. Parece que a família busca seguir o que
Woortmann e Woortmann (1997) denominaram de “princípio de internalização dos
recursos da propriedade”.
A prática da família na agroecologia, segundo justifica Seu Roni, ocorre por
vários motivos, entre eles o cuidado com a saúde, como já foi dito. Percebe-se,
além disso, que outros fatores também orientam essa escolha. É o caso do que
diz respeito a visões de mundo.
Assim como os sitiantes sergipanos observados pelos Woortmann, Seu Roni
acredita que a terra é dada por Deus para os homens trabalharem. A relação com
a terra envolve, assim, respeito e reciprocidade, não uma atitude de exploração
máxima. Com isso, torna-se moralmente errado “envenená-la” com o uso de
agrotóxicos. Em seu modo de ver, o uso de agrotóxicos – assim como também os
transgênicos – causa prejuízos à terra, além de danos à saúde daqueles que
utilizam o “veneno” e dos que consomem os alimentos. Ele diz que modificar a
natureza desse modo, pela mão do homem, não pode ser da vontade de Deus.
Seu Roni busca na Bíblia a fonte de muitas de suas convicções. Para ele, a
mudança de tempos, anunciada no livro sagrado, já está a se observar. As mortes
em massa e as tragédias que diariamente estão presentes nas notícias seriam
provas do desrespeito à natureza – “natureza de Deus”. Ele relembra uma
passagem bíblica, segundo ele, que diz que “no dia em que o homem começar a
roubar à terra, o mundo se transformará para pior”. Para Seu Roni esse tempo já
começou.
Conforme aponta Carlos Rodrigues Brandão (1986), há entre os grupos camponeses,
independentemente da religião oficial a que se filiem, um padrão de
religiosidade popular mais voltado para a vida cotidiana, o trabalho na terra e
com fronteiras pouco precisas entre magia e religião propriamente dita. Joana
Bahia (2011), a partir de estudo na região serrana do Espírito Santo no final
da década de 1990, observa que os camponeses pomeranos costumam ter uma visão
particular da religião luterana, que não necessariamente é idêntica àquela
oficial, pregada pelo pastor, mas sim mais associada com a vida cotidiana, no
campo. Costumam crer e executar diversas práticas de caráter mágico-religioso,
que muitas vezes entram em conflito com a autoridade religiosa.
Segundo Woortmann e Woortmann (1997: 132), “o prático e o simbólico se fundem
no processo de trabalho”.
“O saber mágico e as crenças religiosas, para os trobriandeses, tanto
quanto para os sitiantes (benzer o pasto e o gado ou recorrer aos
santos, por exemplo), são tão necessários quanto o saber ‘técnico’, e
conhecê-los é fundamental para que o antropólogo possa dar sentido ao
esforço produtivo” (Woortmann e Woortmann 1997: 15).[4]
Woortmann e Woortmann ainda complementam: muito além da técnica, “o processo de
preparo da terra, como um todo, também envolve uma dimensão mágico-religiosa:
frills, como diria Leach” (1965 apud Woortmann e Woortmann 1997: 60). Para
Leach, “o processo de trabalho, além de suas dimensões técnicas, possui também
seus frills e decorations. São eles que fazem do trabalho Kachin um trabalho
Kachin, e o mesmo pode ser dito com relação aos sitiantes que estudamos”
(Woortmann e Woortmann 1997: 134).[5] Desse modo, “a prática da lavoura é
informada por um modelo cosmológico” (Woortmann e Woortmann 1997: 166).
Para Seu Roni, os agricultores que não se preocupam com isso “não têm fé”. “Não
se importam se aquele alimento que eles vão vender fará mal para as pessoas da
cidade, até mesmo para as criancinhas; dizem que se os consumidores da cidade
também não se preocupam deve ser porque é isso mesmo que eles querem”. Em outra
ocasião, em conversa com Patrícia Pinheiro (2010: 144), Seu Roni comentou:
“Tu pode ver, muito colono planta batata-inglesa, mas ele não come.
Mas então ele sabe que faz mal [aplicar agroquímicos]. Então é
confiança. Mas aquelas pessoas que moram na cidade [que consomem],
também são humanas. Se nós [agricultores] não temos coragem de comer
aquilo ali, imagina [os outros]. Todo colono que planta batata-
inglesa, ele sempre plantava uma lavourinha separada para ele comer.
Então por que ele faz isso? Então ele sabe tão bem quanto nós que
isso faz mal.”
O respeito à natureza, para Seu Roni, vai além da lavoura. Na propriedade,
tenta sempre manter uma ou mais áreas de mato, enquanto os outros colonos, como
ele diz, já derrubaram tudo. Seu Roni conta que alguns vizinhos até já se
ofereceram para comprar a madeira que resultaria da derrubada de suas áreas de
mato. Mas ele sempre se recusa a fazer isso. Ele entende que não pode só tirar
da terra, “tem que manter um pouco de mato para ela não enfraquecer demais”.
Por fim, é preciso dizer que, além das concepções de fundo religioso,
compartilhadas em maior ou menor grau com os demais membros da comunidade
religiosa, outras correntes de pensamento também orientam o caminho da família
pela agroecologia. É o caso de ansiedades presentes no mundo contemporâneo,
como as questões de cunho ambiental, mudanças climáticas, aquecimento global,
sempre citadas nas conversas com eles. Pode-se sugerir, nesse sentido, que os
diferentes elementos presentes na visão de mundo da família têm origem nas
diferentes redes de relações a que ela encontra-se filiada, como procura-se
mostrar mais à frente. Na terminologia de Bruno Latour (1994), se trataria, por
um lado, de “redes longas”, com atores de diferentes contextos ligados ao
movimento agroecológico e, por outro, de “redes curtas”, como as de parentesco,
vizinhança e religião.
Entre o individual e o coletivo: rupturas e continuidades
Nas localidades de Butiá e Coxilha Negra há grande presença de famílias de
origem alemã e pomerana e de famílias afrodescendentes. Em menor proporção, há
também algumas famílias de “brasileiros” (designação para os colonos que não
descendem de origem étnica europeia). A maioria dos pomeranos pertence à
religião luterana, já os afrodescendentes e brasileiros são católicos. Nas
festas, os membros de ambas as comunidades se misturam: católicos participam de
festas luteranas e luteranos das festas católicas.
Segundo relatam, as pomeranas, com certa frequência, se casam com brasileiros,
mas os homens pomeranos são desaconselhados a se casar com mulheres
brasileiras. Uma vez que é a mulher, na cultura pomerana, a responsável pela
manutenção das tradições, se ela integra o casal está assegurada a
continuidade, ao contrário do que ocorre quando a mulher é de outra origem
étnica. Não se fala de casos de casamento entre afrodescendentes e pomeranos.
Os afrodescendentes são, em geral, mais empobrecidos que os demais. Alguns
trabalham com sua própria plantação de fumo, outros trabalham como diaristas
para os colonos. Os pomeranos dizem que, “apesar de a maioria ser gente muito
boa, não gostam muito de trabalhar e por isso não prosperam”. Parece haver aí,
claramente, duas concepções de trabalho muito distintas. A dos colonos
pomeranos, atrelada a toda uma ética da igreja luterana, de “trabalhar de sol a
sol”, e outra dos afrodescendentes, carregada, possivelmente, desde os tempos
da escravidão.
Hoje em dia, a grande maioria dos produtores tem como principal atividade
econômica o cultivo de fumo. Quase todos explicam sua entrada e permanência na
fumicultura pela impossibilidade de praticar outra atividade. A família Oswald,
por exemplo, produzia leite, enquanto que os Bork vendiam alimentos para o
“caminhão”, que recolhia a produção para vender na cidade. Contudo, com o
tempo, a renda que obtinham nessas atividades deixou de suprir suas
necessidades.
Para o autoconsumo, algumas dessas famílias criam gado de leite, animais para
carne (porcos, galinhas, reses) e plantam, principalmente, milho e feijão, além
de cultivarem hortas. Alguns não empregam qualquer tipo de agrotóxico nesses
cultivos, mas a maior parte desses camponeses os utiliza. Entretanto, muitos
precisam comprar os alimentos que não produzem. A maioria opta por comprar nos
armazéns na colônia ou vai ao mercado, na cidade. Alguns vizinhos compravam
alimentos de Seu Roni (diziam que a produção ecológica era mais saudável),
principalmente batatas, mas pararam de fazê-lo, em razão de os preços no
mercado estarem mais baixos.
Os Mühlemberg parecem ser vistos pela comunidade com certa ambiguidade. Se, por
um lado, essas famílias, mesmo trabalhando com a produção de fumo, avaliam em
seus discursos que a produção ecológica é mais saudável para as pessoas e
melhor para a terra; por outro, olham com certa desconfiança para o trabalho da
família Mühlemberg. Seu Roni conta que em muitos momentos já foi chamado de
louco e que seu trabalho foi posto em dúvida inúmeras vezes: “Diziam que isto
não daria certo, que era loucura”.
Além da convivência na rede de vizinhança com produtores de fumo – que fazem
parte da mesma comunidade religiosa que a família Mühlemberg –, a fumicultura
também está presente no interior de sua rede de parentesco. Alguns membros da
família extensa, como o irmão de Dona Lúcia, são produtores de fumo. No último
inverno, após uma forte chuva de granizo, o irmão de Dona Lúcia, cunhado de Seu
Roni, perdeu quase toda a plantação. Seu Roni e os dois filhos abandonaram um
dia de trabalho em sua propriedade para ajudar, junto com outros parentes, o
cunhado a recolher o que sobrara.
É preciso notar ainda que, não obstante as concepções bem formadas e as
eventuais críticas aos demais agricultores, ditos convencionais, Seu Roni não
considera que todos devam adotar o modo de produção agroecológico – fato que, à
primeira vista, parece um tanto curioso. Ele entende que não há espaço para
todos nesse modelo. A feira não comportaria mais produtores vendendo alimentos
e não haveria, a seu ver, outro meio de absorver essa produção. Embora algumas
vezes critique, em outros momentos ele reconhece que mesmo aqueles que
trabalham com o fumo atualmente não teriam outra opção. Preocupa-se, inclusive,
com as legislações que visam extinguir essa atividade até 2020.[6]
Anteriormente, Patrícia Pinheiro havia apontado relação, nesta região, entre a
produção de base ecológica e a de fumo:
“Outro exemplo de complexidade da agricultura de base ecológica está
em sua relação com o cultivo de tabaco. Convivendo com certa
proximidade, por estar relacionado diretamente com a agricultura
familiar, esse cultivo está presente em muitas propriedades que
também mantêm cultivos de base ecológica” (2010: 168).
Ainda como observado pela autora, embora agroecologia e produção de fumo sejam
comumente identificadas como pertencentes a polos opostos, para a maior parte
dos agricultores essas práticas não são percebidas como tão distantes, sendo
inclusive encontráveis em uma mesma propriedade: “A agricultura de base
ecológica é constantemente situada como contraponto ao fumo – são produções
consideradas pelos mediadores como conflitantes –, porém nas propriedades da
rede a presença de um não necessariamente exclui o outro” (Pinheiro 2010: 147).
Se, por uma perspectiva técnica e econômica, as produções de fumo e
agroecológica se situam bem distanciadas, de outra perspectiva, pensando as
relações de vizinhança e de parentesco, elas não estão tão distantes assim.
Valores associados à ecologia e à sustentabilidade são, dessa forma, conjugados
pela família juntamente com outros valores, oriundos das relações comunitárias,
da rede de vizinhança e parentesco.
Se o trabalho na terra a partir da agroecologia diferencia a família
Mühlemberg da maior parte dos membros da comunidade – o que pode, de algum
modo, afastá-los da vizinhança –, as festas podem ser percebidas como ocasiões
de reencontro.
A festa é tomada aqui como lócus privilegiado de observação das relações
sociais, uma vez que é entendida como “expressão dos valores da sociedade”, tal
como proposto por Menasche e Wedig (s.d., no prelo). Refletindo sobre as
relações entre campo e cidade, essas autoras resgatam o clássico estudo de
Bourdieu (2006), que analisa o baile camponês na região francesa do Béarn dos
anos 1960, para pensar sobre as festas por elas observadas entre colonos
alemães na região gaúcha do Vale do Taquari.
A família Mühlemberg, bem como as de muitos de seus vizinhos, é associada à
comunidade luterana Menino Jesus de Butiá. Tal como é costume em outras
comunidades luteranas da região, uma vez por ano – em setembro – é organizada
uma festa em que são recebidos visitantes vindos de outras localidades, assim
como da cidade. Existe uma espécie de circuito de festas. A cada domingo
acontece uma festa em alguma comunidade do município ou de municípios vizinhos.
Na ocasião, as demais comunidades dirigem-se ao local para prestigiar a
iniciativa. A família Mühlemberg, junto com outros membros de sua comunidade,
participa de festas em quase todos os fins de semana.
No Butiá, a festa tem início com o culto na igreja, seguido de almoço – buffet
com churrasco, saladas, pães, cucas – e, à tarde, baile com banda “estilo
alemão” (para os mais velhos). Durante a tarde também ocorrem sorteios de rifas
e jogos, na parte externa do salão. À noite, os jovens confraternizam em outro
baile, esse com música de discoteca.
A festa da comunidade Menino Jesus tem por tradição servir, dentre outros
pratos, uma sopa de galinha e um caldo preparado com carne, feijão e temperos
(como eles explicam, uma espécie de mocotó sem mondongo), batizado de “caldo
pomerano”. Também nos casamentos de membros da comunidade, realizados no mesmo
salão, caldo e sopa não podem faltar. Na realidade, mocotó e sopa de galinha
são pratos recorrentes em outras localidades da região, nas festas de
comunidades em que existe forte presença de camponeses de origem pomerana.
Caldo e sopa são produtos e produtores de divisões de gênero. Enquanto o
primeiro é preparado pelos homens, o segundo fica a cargo das mulheres.
Geralmente é um casal bem considerado pela comunidade que fica responsável por
essa função, no que é auxiliado por outros homens e mulheres mais novos. No
Butiá, nos casamentos e festas comunitárias, já há bastante tempo o preparo
desses pratos fica a cargo de Seu Roni e de Dona Lúcia.
Marcel Mauss (2003) observa que as trocas estão na base das alianças que
constituem a sociedade. Essas trocas podem ser de bens materiais ou imateriais
(serviços, rituais, hospitalidade, etc.) e são de outra natureza que a
estritamente utilitária – a troca justifica-se por si mesma e pela aliança que
gera, não pela coisa trocada, que representa mais o meio pelo qual a relação é
estabelecida. A troca pressupõe, ainda, as obrigações de “dar, receber e
retribuir”.
É através da feitura do caldo e da sopa que Seu Roni e Dona Lúcia estabelecem
uma reciprocidade com o coletivo. Quando são convidados para um casamento, é
esse o presente que se espera deem aos noivos. Nas festas da comunidade, tal
qual seus pares, doam seu trabalho, além de aportarem a maior parte dos
ingredientes a serem usados na preparação dos pratos sob sua responsabilidade.
Essa reciprocidade assume por vezes o sentido mesmo de obrigação. Seu Roni
confidencia que, já aos 63 anos, gostaria de parar de preparar o caldo, mas
ainda não encontrou alguém que pudesse substituí-lo. Nenhum de seus ajudantes
nem de seus filhos se coloca disponível para assumir a obrigação de seguir o
preparo do caldo em seu lugar. Eles parecem conhecer bem as consequências de
assumir essa responsabilidade e, por isso mesmo, declinam a indicação.
Assim, se as particularidades da família são importantes para entender muito de
seu comportamento e de suas escolhas, que conformaram sua trajetória de vida
(sobretudo no que diz respeito ao trabalho na agroecologia), a relação com o
coletivo (seu pertencimento étnico e religioso, a própria inserção na
comunidade luterana e as relações de vizinhança e parentesco) também se faz
importante para entender como essa família é.
Como já visto, Ginzburg (2006) define a trajetória de Menocchio analisando, por
um lado, suas escolhas individuais (leituras e teorias com que simpatizava) e,
por outro, o próprio contexto social e temporal em que estava inserido
localmente (a cultura camponesa daquela região e época). Assim como Menocchio,
a família interlocutora desta pesquisa apenas pode ser parcialmente definida
por aquilo que representa suas diferenças; outra parte advém de sua inserção em
uma comunidade e em uma época definidas.
Mesmo que haja divergências entre os membros da comunidade quanto a escolhas e
concepções, em suma, mesmo que essa comunidade não seja homogênea – como quem
sabe alguns pensassem –, ainda assim não se pode atribuir todos os
comportamentos a decisões individuais. A vida comunitária tem um papel
importante no modo de vida da família Mühlemberg. Contudo, ainda é preciso
tornar claro o que entendemos por comunidade.
Para Antônio Candido (1987), o trabalho compartilhado e a participação nas
festas religiosas são os dois principais elementos de conformação de uma
comunidade rural. Em seu estudo sobre os bairros rurais de São Paulo na década
de 1950, o autor mostrou como os mutirões de trabalho e a organização das
festas conformavam tais comunidades. Como descreve, para solucionar o problema
da mão de obra na realização de determinadas atividades agrícolas que
demandavam mais pessoas que aquelas disponíveis no grupo familiar, os vizinhos
organizavam-se em mutirões de trabalho. Da mesma forma, as festas religiosas
eram organizadas conjuntamente entre os vizinhos, que revezavam-se à frente da
organização, revezando também o senso de responsabilidade entre os
copartícipes. Assim, para o autor, a reciprocidade gerada a partir dos mutirões
e das festas constituía-se como elemento de aproximação da vizinhança e
conformava a comunidade.
John Comerford define comunidade rural como:
“[…] um grupo concreto delimitado em termos territoriais (a população
de uma localidade, distrito, município) e em termos de sua atividade
(pessoas que se ocupam de atividades “rurais”, ligadas à agricultura
e à pecuária), mas, ao mesmo tempo, a expressão sugere que esse grupo
se organiza a partir de relações de proximidade e solidariedade, em
que sobressaem a importância do parentesco, vizinhança, cooperação no
trabalho, coparticipação nas atividades lúdico-religiosas, apontando
para valores de harmonia e consenso” (2005: 112).
Comerford alerta para a impossibilidade de pensar uma comunidade enquanto
unidade homogênea e aponta as dimensões conflitivas da vida comunitária.
Segundo o autor: “vários estudos feitos em comunidades rurais mostram que a
solidariedade e a igualdade que caracterizam tais comunidades são
indissociáveis de uma dimensão conflitiva, como dois lados de uma mesma moeda”
(Comerford 2005: 117). O autor destaca, ainda, a noção de comunidade moral,
introduzida pelo antropólogo inglês Frederick George Bailey, que enfatiza a
dependência do julgamento recíproco em termos de dados valores morais, com base
em determinados códigos comunicativos e meios de circulação de informações e
julgamentos morais (como a fofoca). Para Bailey, o conflito seria constitutivo
das relações comunitárias.
Em seu próprio estudo, realizado na região da Zona da Mata de Minas Gerais,
John Comerford (2004) demonstrou como os conflitos entre membros de uma
comunidade e as narrativas desses conflitos fazem parte da sociabilidade
camponesa. Apesar do discurso de que “todo mundo se dá bem”, os conflitos fazem
parte da realidade diária; surgem a partir da observação do comportamento dos
demais – da vigilância mútua – e das narrativas textuais geradas a partir da
observação: a conversa, a crítica, a gozação e a fofoca. Para ele, o conflito
diz respeito ao que denomina de “cosmologia prática”, centrada na noção de
respeito. “Briga-se por tudo o que possa ser visto como provocação, como
desrespeito. E, diante do desrespeito, depara-se justamente com a ameaça a uma
viga mestra desse universo social: o respeito” (Comerford 2004: 3-4).
As comunidades, assim, definem os pertencimentos: aqueles que pertencem e os
outros, que são os de fora. Essas comunidades, contudo, não são fechadas e seus
membros ligam-se a outros atores, em outras redes de relações.
Patrícia Pinheiro (2010) mostra como produtores, consumidores e membros de
instituições vinculadas à agroecologia, mesmo distanciados fisicamente, acabam
constituindo redes de relações em torno da agroecologia. Isso é o que ocorre
também com a família de Seu Roni que, ao longo dos anos, estabeleceu relações
com instituições ligadas de alguma forma à agroecologia, como o CAPA (Centro de
Apoio ao Pequeno Agricultor) e a Embrapa, com outros produtores agroecológicos
– muitas vezes a partir da mediação dessas instituições – e com consumidores,
principalmente aqueles que, a cada semana, vão à feira, em São Lourenço do Sul.
Embora caiba reconhecer que essas redes são importantes no moldar as convicções
e o próprio trabalho da família, não se pode ignorar o papel das relações
comunitárias locais – mesmo conflitivas – na conformação de seu modo de vida.
No entanto, mesmo com a existência desses conflitos e diferenças em relação à
vizinhança, especialmente no que diz respeito ao trabalho na terra (são
produtores ecológicos em meio a fumicultores), a família não pode ser tomada
como uma ilha. Tentamos mostrar como a vizinhança e o parentesco, a
participação na vida religiosa e nas festas e a própria identidade assumida
(pomerana) fazem parte da vida dos Mühlemberg tanto quanto sua vinculação a um
modelo de produção agroecológico e como essas práticas e valores são por vezes
concorrentes, enquanto que em outras oportunidades reforçam-se mutuamente.
Considerações finais
Ainda que, como buscamos demonstrar neste trabalho, as práticas da família na
agroecologia sejam principalmente orientadas por valores associados à saúde,
religiosidade e cosmologias, além de serem permeáveis às relações de parentesco
e comunitárias, a dimensão econômica não pode ser ignorada. Assim como se dá
entre as demais famílias rurais, também o progresso financeiro está na pauta da
família Mühlemberg.
Seu Roni conta que já pensou em desistir inúmeras vezes, mas que suas
convicções o fazem permanecer na agroecologia. Ele comenta que, ainda que não
utilize agrotóxicos ou transgênicos (“criações da modernidade”), não deseja
trabalhar “como faziam [seus] avós”. Considera que o desenvolvimento de
tecnologias e sua utilização também são necessários para a agricultura de base
ecológica. Já aposentado, almeja reduzir o ritmo de trabalho, até que possa
parar totalmente. Afinal, como tem dito, “não durará para sempre”.
Nesse contexto, uma questão que se mostra cada vez mais importante para a
família pensar seu futuro é o tema da sucessão. O problema da sucessão,
efetivamente, está associado à questão da reprodução social das famílias,
colocado em todo o universo camponês.
Dos filhos de Seu Roni, Luciano, o “cientista”, defende sempre a ideia de
permanecer no campo e na agroecologia. Ele diz que não conseguiria acostumar-se
na cidade, pois gosta mesmo do meio rural e do contato com a natureza. Ele
utiliza a ciência que aprendeu para contribuir para a permanência da família na
agroecologia. Ao longo dos anos, Luciano já pensou em algumas alternativas para
complementar a renda da família e, desse modo, reduzir a pressão no sentido da
retomada de uma prática mais convencional. Entre os experimentos, ele criou uma
estufa para a produção de cogumelos shitake e uma máquina para fabricar palitos
de churrasquinho com taquara, ambas iniciativas ecológicas. Contudo, por
diferentes motivos, nenhuma das alternativas engendradas teve êxito.
Para Moacir, entretanto, casado, trabalhando na propriedade (diferentemente de
Luciano), a questão do progresso financeiro parece contar um pouco mais. Como
sempre comenta, quer conseguir, através de seu trabalho, prosperar e adquirir
bens materiais. Também pensa em começar uma vida nova e melhor com sua esposa,
com quem se casou há pouco tempo. Mais de uma vez ele propôs ao pai sair da
agroecologia e voltar para a agricultura convencional, mas Seu Roni recusou.
Recentemente, influenciado por um antigo membro do grupo de agroecologia do
qual Seu Roni fazia parte, passou a cultivar na propriedade o “fumo orgânico”.
Seu Roni aceitou, por entender que o filho tem o direito de buscar prosperar
economicamente.
As aspirações de progresso a que Moacir se refere parecem encontrar paralelo
entre seus vizinhos. Por esse motivo, inclusive, muitos aderiram à fumicultura.
Como tentamos demonstrar, se, por uma perspectiva técnica e econômica, as
produções de fumo e agroecológica se situam bem distanciadas, de outra
perspectiva, pensando as relações de vizinhança e de parentesco, os dois
modelos produtivos não estão tão distantes assim.
Mais do que isso, entendemos que, embora as escolhas individuais e as relações
no interior de uma rede de alimentação ecológica sejam necessárias para definir
o trabalho da família na agroecologia, não podemos ignorar a importância da
comunidade nesse processo. Pelo contrário, as relações de vizinhança e
parentesco, bem como a participação nas atividades religiosas e nas festas, são
fundamentais para a vivência dessa família e para a constituição de suas
práticas e valores, refletindo-se inclusive em seu trabalho na terra.
Suas visões de mundo quanto à relação com a natureza têm um fundo religioso, o
mesmo que é partilhado pela comunidade e transmitido pela igreja, mesmo que nem
todos levem a prática para o mesmo lado, aderindo à agroecologia, como a
família de Seu Roni. Mesmo que, sob vários aspectos, haja divergências entre os
membros da comunidade, ainda assim existe um fundo comum. Se quisermos
apreender o que motiva os produtores ecológicos, não podemos apenas visualizá-
los isoladamente, como ilhas em seus contextos, ou em relação apenas com outros
agricultores que adotaram o mesmo sistema. Como Menocchio, a família Mühlemberg
pode apenas em parte ser definida por suas especificidades, na medida em que
seus valores advêm também desse fundo comum partilhado com sua comunidade.
A análise da trajetória dessa família revela essa intersecção com a comunidade,
mas também auxilia a perceber questões mais gerais a partir da observação
local. Assim, do mesmo modo que Ginzburg (2006: 10) apontou que “uma
investigação que, no início, girava em torno de um indivíduo, sobretudo de um
indivíduo aparentemente fora do comum, acabou desembocando numa hipótese geral
sobre a cultura popular – e, mais precisamente, sobre a cultura camponesa – da
Europa pré-industrial […]”, no presente estudo pretendemos, igualmente, contar
uma história particular, sobre uma família particular, mas que, a todo o
momento, é perpassada por questões que tangem, além dela própria e de sua
comunidade, um contexto mais amplo, referente a modos de vida de colonos da
Serra dos Tapes e de um mundo camponês.