TEITOK@C-I   |   Corpora@C-I   |   CELGA-ILTEC   |   Contacto

EN | PT

Representação em texto

EuPTHUHu0873-65612014000200009

variedadeEu
ano2014
fonteScielo

O script do Java parece estar desligado, ou então houve um erro de comunicação. Ligue o script do Java para mais opções de representação.

Da investigação por objetivos à antropologia dos processos identitários: um ponto de vista transdisciplinar e integrativo

Da psicologia social e da psicanálise à antropologia (década de 70) Cheguei à antropologia nos anos da revolução, numa escola em plena efervescência (ISCSP ' Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, 1975-77) e da antropologia foi tudo o que conheci na década de 70. Tinha obtido uma formação de base em psicologia social (Instituto Superior de Psicologia Aplicada ' ISPA, 1964-68 e 1970-71), profundamente dececionante, na medida em que escotomizava o sofrimento humano e as suas dimensões libidinais e políticas. Sem mestres, procurei na teoria freudiana a superação do estilhaçamento e do reducionismo disciplinares, contrários aos meus objetivos integrativos. O convite do professor Sedas Nunes para ser um dos seus oito assistentes convidados no lançamento da primeira cadeira de Introdução às Ciências Sociais em Portugal (1971-72), um processo que a PIDE, no meu caso, interrompeu, tinha-me levado a um forte aprofundamento da teoria marxiana.

Tinha-me assim embrenhado na pesquisa aprofundada de duas teorizações fundamentais, a marxiana e a freudiana, buscando a possibilidade de as transcender pela sua integração (J. Bastos e Soczka 1978). Tendo tido acesso a uma conferência em que o professor Eduardo Luís Cortesão apresentou os trabalhos de Ruth Benedict (2005 [1934]) e, sobretudo, de Margaret Mead (1935), entrei na antropologia para trabalhar a hipótese, que não foi dececionada, de que o inconsciente e a simbolização libidinal que lhe está associada se mostravam muito amplificados na cena sociocultural dos povos primitivos, com a vantagem que o recalcado de dadas culturas constituía o ideal cultural de outras,[1] de tal modo que, com a mediação analítica e teórica do antropólogo, as culturas se interpretavam entre si. Tratava-se de ultrapassar o método comparativo e de aceder ao método estrutural-dinâmico que, contra Lévi-Strauss (1958), o criador do estruturalismo estático, me propus construir.

Da psicanálise à análise das produções culturais (décadas de 70 e 80) Convidado, após o 25 de Abril, para integrar a renovação pedagógica tanto do ISPA (1975-80) como da Faculdade de Letras, utilizei como laboratório as minhas aulas de Introdução à Psicanálise, nesta Faculdade (1975-88), criando para mim próprio desafios teóricos e iniciando um processo radical de análise das produções culturais, em busca da teorização do processo criativo subjacente à renovação cultural. O meu desafio era claro: se Freud (1972a [1900], 1972b [1905], 1974a [1913], 1974b [1927], 1974c [1930], 1975 [1937], 1976 [1907], 1977 [1905], 1995 [1895]) tivesse razão, então todas as produções culturais (arcaicas ou modernas) eram suscetíveis de uma análise que designei desde logo como estrutural-dinâmica, pelas razões que se seguem. longe, em França, a redescoberta do estruturalismo russo (Propp 1965; Lotman e Escuela de Tartu 1979; Todorov 1970), o desenvolvimento de um estruturalismo estático, por Lévi- Strauss (1958, 1967 [1958], 1973, 1977) e a emergência da semiótica francesa (Greimas 1966) tinham criado um novo campo de problematizações na análise do texto literário, que se distanciava do freudo-marxismo, forte no pós-guerra, numa direção racionalista (formalista, cognitivista, não hermenêutica).

Tratava-se de linhas de orientação que era necessário confrontar com a teorização freudiana, criticar, integrar quanto possível e superar. Até que ponto a psicanálise tinha meios de confrontar os estruturalismos com as suas áreas cegas e com as suas contradições? Até que ponto a dimensão dinâmica, típica da abordagem freudiana, permitia ir para além de abordagens estruturalistas, numa direção integrativa? O aprofundamento da formação em semiótica e teoria do texto, bem como da articulação entre literatura e psicanálise, levaram-me então a propor (1981) uma tese de doutoramento intitulada Génese e Estrutura da Narratividade, que tomava estrategicamente a obra de Maupassant como estudo de caso, a ­realizar duas visitas de estudo (Paris, 1982 e 1984) para dialogar com os principais investigadores e docentes parisienses de literatura e psicanálise e a avançar para novas e mais complexas análises do modo de produção e da economia do texto literário (J. Bastos 1982b, 1983c, 2014c), mais interessado na investigação das infraestruturas e dos organizadores inconscientes da criação literária do que na interpretação dos textos ou na psicobiografia dos autores. Esse processo caminhou para o seu fim quando, depois de questionar diretamente Greimas (1966), num seminário de mestrado, apresentei em público críticas claras quanto ao modo como o fundador da semiótica francesa se aproveitara da teorização freudiana, sem mencionar a origem de dezenas de conceitos que utilizara na sua Sémantique structurale.

À descoberta da antropologia disciplinada Quando me virei para a antropologia, seguia as expectativas de Freud, distanciando-me da clínica em busca da macroscopia permitida pelas produções culturais partilhadas e públicas de povos primitivos. Buscava então estender a análise das produções culturais das áreas artísticas e literárias à área das instituições, processos, dinâmicas e relações socioculturais identitárias.[2] Não compreendia então, e ainda hoje não compreendo, como é que a teoria da produção inconsciente da cultura, como formação de compromisso instável entre tensões libidinais, agressivas e narcísicas entre géneros, gerações, hierarquias e modos de relação interétnica, com derivação identitária, não foi estabelecida pelos antropólogos, tão mais favorável era a oportunidade da análise cultural (pública, comunitária) em relação à análise clínica (dual, suspeitada de anormalidade). Hoje apercebo-me de que os historicismos reconstrutivos (evolucionistas e difusionistas) e as abordagens sociológicas racionalistas não poderiam ter levado longe, de um ponto de vista teórico; que, na Europa, a antropologia colonial, tipicamente etnográfica, fora absorvida pelas suas finalidades pragmáticas e ideológicas, de afirmação implícita da supremacia racial, civilizacional, dos observadores etnográficos e que estremecia perante a virtualidade de ser engolida pela abordagem psicanalítica, o que suscitava anticorpos mal fundamentados e escassamente elaborados; e que a teoria do relativismo cultural (que refutámos em J. Bastos 2011), e o estrutural-funcionalismo, sem qualquer capacidade heurística, tinham tornado tabu o caminho para teorizações transculturais do modo de produção cultural (sua génese, função, economia, valor e sentido).

Desses anos, lembro-me que o desafio partia da obra de Lévi-Strauss, que se tornou o terceiro pilar da minha busca teórica, para rapidamente o contestar.

No ISCSP desses anos, Lévi-Strauss era representado por José Carlos Gomes da Silva, recém-chegado de Bruxelas, que os alunos marxistas tentaram despedir, o que impedi ativamente. Não esqueço que o confrontei em aula com uma leitura alternativa das suas bilinas russas, utilizando a minha metodologia estrutural- dinâmica, que pretendia que fosse pós-lévi-straussiana, para demonstrar ganhos de heuristicidade. É fácil perceber que não gostou de se ver confrontado com uma alternativa tão elaborada, assente em dinâmicas triádicas e não em binarismos. Dos trabalhos escolares então apresentados e do esforço de teorização efetuado emergiram os primeiros artigos na área, na Análise Psicológica (J. Bastos 1978a, 1978b; J. Bastos e Soczka 1978) e na Colóquio- Letras (J. Bastos 1978c).

Data dessa época o encontro com o trabalho do antropólogo colombiano Reichel- Dolmatoff (1976 [1969]), que fizera uma descoberta com profundas implicações teóricas, por ele desperdiçadas, evidenciando a existência tribal de uma linguagem visual geométrica com significações libidinais evidentes, em concordância total com as descobertas freudianas, num artigo que de imediato fiz publicar na Análise Psicológica, seguido de uma apresentação crítica (J.

Bastos 1978a), à espera de desenvolvimentos que desde logo me propus, mas que tiveram de esperar até ao final da década de 80, por um espaço docente no território antropológico e pelos indispensáveis avanços metodológicos, implicando a criação de um instrumento de pesquisa suscetível de análise correlacional.

Do ensino e da investigação em psicanálise ao ensino e investigação em antropologia social e cultural (de 1987 em diante) Chegara a altura de mudar de rumo. Apoiado na minha licenciatura em ­Antropologia, na formação psicanalítica acumulada e no trabalho de investiga­ção publicado, apresentei candidatura à lecionação, no Departamento de Antropologia da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas (FCSH) da Universidade Nova de Lisboa, das cadeiras de Antropologia e Psicanálise (I e II), então vacantes e em risco de abandono, por morte da minha ex-aluna, a Dr.ª Manuela Fazenda Martins. Era para mim quase uma missão defender essa área de pesquisa e ensino, tendo começado a lecioná-la em 1987-88.[3] Esse espaço de ensino permitiu que me debruçasse, por um lado, sobre antropólogos pós-freudianos, como Róheim, Kardiner (trabalhando com ­Linton), Erikson e, mais tarde, Turner, Devereux, Gregor, Herdt (trabalhando com Stoller), Lidz e Lidz, Obeyesekere, Godelier e Juillerat (trabalhando com André Green), cujo entrosamento antropológico e potencial teorizante eram óbvios e, por outro lado, sobre o trabalho de investigadores que, próximos das conceptualizações e questões levantadas pela psicanálise, utilizavam instrumentos de pesquisa quantificados ou recorriam aos métodos matemáticos para chegar a modelos e correlações entre variáveis, com base em investigações replicáveis, como era o caso de Whiting e Child (1953), Whiting, Kluckhohn e Anthony (1966 [1958]), Stephens (1962), bem como Fromm e Maccoby (1970).[4] Com estes autores, a antropologia passava da sua infância hermenêutica, ensaística, para relevantes voos científicos, enquadrados na antropologia psicológica, algo que parecia escapar à consciência disciplinar etnográfica, que permanecia pacatamente autossatisfeita com a antropologia sociológica, mantendo uma dicotomização sistemática interdisciplinar, a meu ver absurda, entre a dimensão psicológica e a dimensão sociológica, necessariamente articuladas, sendo a investigação dos modos e consequências dessa articulação que constituíam, no nível teórico, o desafio antropológico, por excelência, como bem vira Lévi- Strauss.

No ano seguinte (1988) abandonei a Faculdade de Letras e integrei dois departamentos da FCSH ' Estudos Portugueses e Antropologia. No primeiro lecionei Introdução às Ciências da Cultura e também Literatura e Psicanálise, até 1991, concentrando-me então finalmente na antropologia e na minha tese de doutoramento, em curso. Ainda em 1988 publiquei A Mulher, o Leite e a Cobra: Um Ensaio de Antropologia Pós-Racionalista e, em 1991, uma adenda a esse livro (em Maidens, Snakes and Dragons), no King's College London, concretizando a agregação com um relatório de cadeira em Antropologia e Psicanálise (J. Bastos 2000g)[5] e preparando o futuro ensino de Antropologia do Simbólico, a que acedi em 2005,[6] apresentando um relatório de cadeira (J. Bastos 2002c) nessa área tão favorável à contribuição psicanalítica.

Em antropologia, a resistência à abordagem psicanalítica da cultura tinha-se exponenciado a partir da aliança entre biólogos e antropólogos disciplinares, que tinham parado em leituras superficiais de Malinowski (1927) e Popper (1992 [1956], 1993 [1974]), e tanto mais defensivos quanto o meu ensino, aberto ao questionamento, ganhara fôlego e discípulos. Fui então forçado, através de uma reconversão curricular, a abandonar a cadeira inicial e a lecionar, durante seis anos (1990-96), exclusivamente, cadeiras de Psicologia (Psicologia Geral e Psicologia Social; Psicologia I e II), que esgotavam o meu tempo letivo, em claro bloqueio departamental do exercício da minha formação de antropólogo. No entanto, e dada a orientação integrativa que sempre assumi, em vez de isto constituir um obstáculo à progressão antropológica, obtive daí um estímulo que, orientado por uma metodologia guiada por objetivos, resultou num fluxo de criações metodológicas e descobertas teóricas, interessado que estava em participar nos debates-chave da antropologia (Ingold 1996).

Do ensino à investigação, criando instrumentos de pesquisa antropológica suscetíveis de tratamento matemático (década de 90) Subalternizando a análise das produções culturais, segui então, a partir de 1990, três linhas de trabalho, em paralelo. Uma primeira, a linha etnográfica, realizada em casal, levou-me à comunidade hindu de Lisboa e, mais tarde, a dois meses de terreno na Índia (Diu e áreas vizinhas), no verão de 1990. Realizei, sobretudo, o levantamento das castas de Diu e seu mapeamento, o levantamento de linhagens de vandjás e de famílias de outras castas, o levantamento fotográfico dos mandirs de Diu e Fudam e a primeira aplicação não europeia de um instrumento de pesquisa criado por mim, aproveitando a lição de Reichel- Dolmatoff (1976 [1969]), que ele desperdiçara. Na minha contribuição para a escrita do terreno, enquadrei a pesquisa de uma forma teórica inovadora, a abordagem crise-analítica, antiessencialista, relacional e dinâmica (S. Bastos e J. Bastos 1998b, 2000b, 2001a, 2001b), que então antecipava a proposta de uma antropologia dos processos identitários. Voltei ao trabalho de etnografia das relações interétnicas, em 2001 e em 2004, novamente em casal, junto dos portuguesia hindus de Londres e dos portugueses muçulmanos de Leicester (S.

Bastos e J. Bastos 2002, 2005a, 2007) e, em 2005-06, com dois jovens investigadores, junto dos portugueses ciganos de Sintra (J. Bastos, Correia e Rodrigues 2007a, 2007b), cruzando os interesses da etnografia com os das relações interétnicas, dos processos identitários e do enquadramento identitário da ciganofobia, vista como um recurso da identidade lusa, francamente vulnerabilizada pela descolonização e pelas crises económicas.[7] Mais recentemente (em 2011) pesquisei o Círio de Nossa Senhora do Rosário de Troia, em Setúbal, o que deu origem a um ensaio de distanciamento da etnografia descritiva, hegemónica, na direção de uma nova etnografia analítica, multidimensional e integrativa (J. Bastos e Costa, no prelo).

Uma segunda linha assentou na criação de instrumentos de pesquisa antropológica, articuláveis com problemas teóricos não acessíveis ao método etnográfico e/ou com os terrenos diretamente abordáveis, originando três instrumentos suscetíveis de alimentar o método comparativo, tanto lateral como longitudinal, dado serem replicáveis e dotados de flexibilidade adaptativa a problemas simbólicos e identitários e a contextos e níveis multidimensionais articulados diversos, comparáveis e integráveis.

Aproveitando o laboratório que me tinha sido oferecido com a cadeira de Psicologia Social, parti da deteção das representações de género por Anne-Marie Rocheblave-Spenlé (1964), em pequenas amostras de estudantes franceses e alemães, para avançar para um instrumento de pesquisa projetivo (o inquérito identitário multidimensional, IIM) e para propor à Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), em 1991, uma pesquisa, ousada pela sua dimensão, inovação e propósito científico, fundada no estudo estatístico, a partir de uma amostra representativa (N=1043 pessoas), do campo de representações sociais identitárias dos portugueses em contexto europeu, numa altura em que, recentemente (em 1985), se tinha avançado para a integração na União Europeia (UE, então Comunidade Económica Europeia). Tratava-se de uma questão antropológica que claramente escapa às limitações do método etnográfico, orientado para grupos locais e que, por isso, se tinha esgotado em ensaísmos contraditórios com elevado cunho ideológico, como aconteceu com a antropologia do Estado Novo. E de uma questão vexatória, porque entrava em contradição com o racionalismo antropológico, hegemónico, que, por isso mesmo, ameaçava não ser abordada cientificamente, com perdas heurísticas, a meu ver óbvias, dada a minha convicção de que os processos identitários constituem o principal organizador da diferenciação dos grupos sócio-históricos e da sua distanciação cultural,[8] algo anteriormente referenciado, sem teorização, por Lévi- Strauss (1958) e por Leach (1978 [1976]) e teorizado por Fredrik Barth (1998 [1969]), autores que deixaram claro que a cultura era uma variável subordinada aos processos de diferenciação identitária e não o contrário.

A minha tese de doutoramento infletia numa direção inesperada, mais de acordo com as minhas autoexigências científicas, mesmo que com o risco de aumentar a resistência dos etnógrafos meus colegas, como realmente aconteceu. Os resultados tinham potencialidades heurísticas tão fortes que, defendida a tese (em fevereiro de 1996), avancei com um novo projeto para financiamento pela FCT (ainda em 1996), em que aprofundava e superava lacunas do anterior, investigando comparativamente as auto e heterorrepresentações regionais identitárias dos portugueses, com base numa amostra muito alargada: N=1800, com 200 entrevistas em cada uma das nove regiões (J. Bastos e S. Bastos 1999b).

A tese foi publicada (J. Bastos 2000f), apresentada em Espanha num colóquio ibero-nórdico (J. Bastos 2002a), e nos Estados Unidos, em conferências na Califórnia ' na UCLA e em Berkeley (J. Bastos 2003a, 2003b, 2003c, 2003d), bem como em duas aulas da cadeira lecionada em Berkeley por ­Stanley ­Brandes (em março de 2003). Entretanto, alunos tinham avançado para teses de licenciatura sustentadas por etnografia e pela aplicação local do meu inquérito (IIM),[9] o que permitiu inferências teóricas notáveis que apareceram na tese mas também na parte final do Portugal Multicultural (J. Bastos e S. Bastos 1999a), e em conferências internacionais em Berkeley e Lisboa, explorando o caso cabo- verdiano (J. Bastos 2003c).[10] A minha lição de agregação, apresentada no início de 2001 (e publicada em edição bilingue em 2013),[11] ensaiava posicionar-se criticamente entre as orientações de dois colegas (ver João de Pina-Cabral 1991; João Leal 2000) e dar resposta às preocupações deste último, explorando as principais inferências teóricas na área dos processos identitários e desembocando na deteção de leis dos processos identitários, tais como decorrentes da pesquisa. Lançava, assim, as bases da fundação de uma antropologia dos processos identitários (J. Bastos 2001a), que concebo como a pedra de fecho da antropologia e da integração das ciências sociais, com pontos de apoio teórico na psicologia social e na psicanálise, dado ser a única dimensão comum a todas elas, por isso mesmo recusada, da economia à ciência política, passando pela sociologia e pela linguística comunicacional.

Criei na mesma época e contexto um segundo instrumento de pesquisa ainda mais declaradamente projetivo, porque ainda mais incontrolável por processos cognitivos, decorrente das descobertas de Reichel-Dolmatoff (1973 [1968], 1976 [1969]) numa tribo da Amazónia, como mencionei anteriormente. Utilizei esse instrumento em amostras de hindus em Diu e em Lisboa (J. Bastos e S. Bastos 1999a; S. Bastos e J. Bastos 2000a, 2000b, 2001c), mas muito mais recentemente explorei em profundidade os dados obtidos com 150 estudantes universitários, de modo a demonstrar a dimensão transcultural do investimento inconsciente na cultura, baseada na deteção da função das imagens abstratas como mediação entre a representação inconsciente do corpo libidinal e a dimensão artística da cultura, e a introduzir o conceito de pele simbólica (J.

Bastos 2012a, 2012b), pondo em xeque a generalidade da teoria do relativismo cultural, cujos pressupostos, claramente ideológicos, tinham bloqueado o desenvolvimento da ciência do homem (J. Bastos 2014a).[12] num novo enquadramento estratégico, que passou pela criação de um Centro de Estudos de Migrações e Minorias Étnicas (o CEMME), em 2000, de modo a permitir institucionalizar e diversificar as pesquisas dos projetos FCT de 1993 e de 1996, a investigação dos processos identitários e das relações interétnicas, entre si associados, ganhou novas possibilidades de aprofundamento. Um projeto de fôlego (2003-2005), patrocinado pelo Observatório da Imigração, com o título Filhos Diferentes de Deuses Diferentes[13] (S. ­Bastos e J. Bastos 2005b, 2008; J. Bastos 2010a, 2014b), permitiu avançar para o estudo comparativo de seis minorias étnicas residentes em Portugal, e foi para consolidar o projeto comparativo que criámos um terceiro instrumento de pesquisa, a escala de representações e atitudes interétnicas (ERAI), imanente ao próprio projeto e ao trabalho etnográfico em curso (entretanto conduzido por uma dezena de investigadores de terreno), associado ao levantamento da linguagem étnica em que se exprimiam e articulavam os diferentes eixos do campo estrutural-dinâmico ' os eixos das tensões de género, das tensões intergeracionais, das tensões interétnicas e dos recursos religiosos com que tentavam organizar essas tensões. Partindo de 405 expressões retiradas dos terrenos e da bibliografia disponível, e anulando sobreposições, a equipa conseguiu a sua redução para 183, e uma análise fatorial selecionou 24, ­organizando quatro fatores que explicavam 57% da variância observada, um valor invulgarmente elevado, numa perspetiva explicativa. Os dois primeiros fatores evidenciavam dois modos de organização étnica, o primeiro centrado na organização das relações internas, primariamente no controlo masculino das relações de género, e declaradamente defensivo-agressivo (sikhs); um segundo, centrando-se na acusação de racismo, colocava-se no polo oposto, nada informando sobre a organização interna dos grupos (cabo-verdianos), sendo que os ciganos cruzavam os dois fatores. A acusação emergia como o instrumento expressivo das relações interétnicas disfuncionais, tendendo a criar simetrias de acusação em relações assimétricas.

Os dois últimos fatores evidenciavam estratégias positivas de justaposição religiosa ou de abertura à interetnicidade, com muito baixo nível de conflito (três comunidades de genealogia indiana, provenientes de Moçambique, os hindus, os ismaelitas e os sunitas). Tínhamos chegado a um primeiro nível de compreensão da diferenciação intercultural e das estratégias mobilizadas na interetnicidade (S. Bastos e J. Bastos 2005b; J. Bastos e S. ­Bastos 2010), bem como à deteção de diferentes tipos de família e de diferentes tipos de utilização do recurso religioso, com graus diferentes de afastamento e aproximação à ecologia cultural portuguesa (S. Bastos e J. ­Bastos 2007; Trovão e Bastos 2010), estudada na tese de doutoramento (Bastos 1995c, 2000f).

Os debates identitários in absentia, com as suas retóricas de acusações e simetrizações, permitiram em dois campos etnográficos, com os Portuguese Indians, de Londres, e com os portugueses sunitas, de Manchester (S. Bastos e J. Bastos 2002, 2005a e 2007), aprofundar e complexificar a análise destas estratégias identitárias de busca, recusa e inversão imaterial de hierarquizações identitárias entre comunidades imaginadas, funcionando como organizadores do fechamento dos grupos ao diálogo intercultural. E, em contexto migratório no terreno do grande adversário colonial, permitiram verificar como estas minorias de raiz indiana, tendo vivido em colónias portuguesas e britânicas, ao regressarem à Europa e, neste caso, encontrando-se face a face na Grã-Bretanha, mantêm debates identitários em que, para se atacarem e defenderem, se identificam com os ex-colonizadores, elogiando o seu e atacando o do outro, criando debates identitários a duas vozes mas com quatro referentes, argumentativamente fundados na seleção de valores e critérios convenientes para exprimir a superioridade identitária dos enunciantes e a inferioridade identitária atribuída ao adversário. Como Barth (1998 [1969]) encontrara ao referir-se aos processos de dicotomização sistemática entre grupos identitários, valores diferentes estabelecem fronteiras identitárias que separam grupos diferenciados, sem que impeçam o trânsito de pessoas através delas. Os valores de uns tendem a convergir com os defeitos que outros, mudando de critério, lhes atribuem (Leach 1978 [1976]), o que faz com que a atribuição de defeitos, e não apenas a afirmação de valores, constituam poderosos reforços das ­fronteiras identitárias mantidas de ambos os lados enquanto em interpenetração espacial.

Da antropologia colonial à investigação dos processos identitários, das relações interétnicas, do racismo e da xenofobia Decorreu desta viragem estratégica a criação do CEMME, como referi, e a proposta da fundação de uma antropologia dos processos identitários que, no meu entendimento, deveria vir a constituir a pedra de fecho da transdisciplinaridade antropológica (J. Bastos 2002c). A colaboração interdisciplinar com o SociNova na criação, na FCSH, de um mestrado interdisciplinar em Migrações, Minorias Étnicas e Transnacionalismo, em 2002, o qual se manteve até à atualidade, e a integração numa rede de excelência europeia interdisciplinar, o ­IMISCOE (International Migrations, Integration and Social Cohesion in Europe), com sede na Universidade de Amesterdão, inserido então no seu C7, um grupo de investigação sobre processos identitários, relações interétnicas, discriminação, racismo e xenofobia, veio reafirmar a exigência da interdisciplinaridade e da integração transdisciplinar (J. Bastos 2010a; J. Bastos et al. 2006; S. Bastos e J. Bastos 2008; J. Bastos e S. Bastos 2010).

A abordagem estrutural-dinâmica que vínhamos propondo (J. Bastos 1997a, 1997c) permitiu selecionar seis eixos de observação (as relações de género, as relações intergeracionais, as relações interétnicas e as relações com o polo transcendental das religiões, anteriores à luta de classes e aos projetos imperiais e coloniais e, por cima destas, as relações de classe e as relações internacionais, onde aqueles projetos se exercem) e pesquisar a economia das articulações entre esses eixos (S. Bastos e J. Bastos 2005b; J. Bastos 2010a), a que se associou a demonstração da estreita articulação inconsciente entre as identidades corporais (de género e intergeracionais) e as identidades étnicas e políticas (inter-regionais e inter-nacionais). Decorreu desta investigação a deteção de modelos de diferenciação sócio-histórica (J. Bastos 2010a; J.

­Bastos e S. Bastos 2010), defensivos e acusatórios, de agonismo interétnico bem como de modelos de integração diferenciada, fantasmáticos e relacionais, superadores dessa agonisticidade.

Entretanto, um novo projeto, financiado em concurso público pela Câmara Municipal de Sintra (2004-2005) permitiu aprofundar o estudo das relações interétnicas envolvendo os portugueses ciganos. Passámos então da tradicional pesquisa em bairros de realojamento e investigámos a situação da minoria em todo o concelho, levantando em simultâneo representações interétnicas dos técnicos e políticos municipais e dos seus munícipes ciganos. Desta investigação emergiu o conceito de ciganofobia, como modo hegemónico de expressão do racismo em Portugal, tornando os ciganos o mau objeto da identidade nacional, o que conduziu à passagem de uma postura analítica para uma postura de intervenção sobre as políticas de interetnicidade desenvolvidas pelas autoridades portuguesas (J. Bastos, Correia e Rodrigues 2007a; J. Bastos 2008, 2010c, 2012c, 2013b), a qual, acima do nível etnográfico e do nível da interetnicidade, proporciona um novo laboratório de investigação sobre as estratégias do racismo subtil e institucional e sua negação política e cultural, mobilizadas para o reforço de uma identidade nacional fragilizada pela pobreza relativa e pela descolonização, isto é, pela humilhação na competição com as nações dominantes (EUA e países mais desenvolvidos da UE), bem como com as nações ex-colonizadas (destacadamente o Brasil e Angola).

A centralidade dos processos identitários na organização do mundo A abordagem multidimensional, relacional, processual-dinâmica, transdisciplinar e integrativa que vimos prosseguindo, através de terrenos e métodos muito diversificados, tem vindo a confirmar a centralidade dos processos identitários, encontrando em autores como Erik Erikson (1963 [1950]), Fredrik Barth (1998 [1969]), Henri Tajfel (1982 [1980]) e Thomas Scheff (1994) suportes teóricos que importa integrar e desenvolver.

Pelo nosso lado, chamámos a atenção para a linha teórica que liga estes autores a uma tradição antropológica que vai de Sumner (1959 [1906]) a Ruth Benedict (2005 [1934]) e a Leach (1978 [1976]), transformando processos de diferenciação cultural em processos de competição e superiorização identitária, com cunho agonístico ou depreciativo, que implicam a subalternização do conceito de cultura (um efeito e não uma causa), como bem viram antropólogos como Leach (1978 [1976]) e Barth (1998 [1969]), abrindo uma nova posição na história da antropologia.

Estes desenvolvimentos convidam à construção de uma antropologia teórica, fundada na deteção da dimensão delirante dos processos identitários e da construção das representações e instituições sociais, anteriormente referenciada por Marx (1975 [1844]), Freud (1972a [1900], 1972b [1905], 1974a [1913], 1974b [1927], 1974c [1930], 1975 [1937], 1976 [1907], 1977 [1905], 1995 [1895]), Durkheim (1985 [1912]) e Edgar Morin (1975 [1973]), e na análise das dinâmicas de diferenciação sócio-histórica que se apoiam na multiplicação de línguas, de religiões, de morais, de atividades artísticas e de mitos grupais e na fidelização emocionada a esses organizadores de diferenciações entre si articuladas, num sistema-mundo (Wallerstein 1974) tensionalmente diferenciado, lateralmente (espacialmente, entre países, regiões, etc.) e verticalmente (nas tensões assimétricas entre classes sociais, geracionais, géneros e formações interétnicas), de forma multidimensional, contraditória e instável.

No seu conjunto, o trabalho até agora realizado assenta (1) na crítica do racionalismo, do estilhaçamento disciplinar das ciências do homem e dos seus impasses e negações cognitivas; (2) na atenção dada à análise das produções culturais; (3) na pesquisa orientada para uma reavaliação pós-freudiana dos processos simbólicos e identitários e da dimensão delirante da cultura; (4) numa abordagem integrativa, estrutural-dinâmica, pós-racionalista, que viabilize a emergência da Antropologia Teórica e a análise das contradições civilizacionais, materializadas no sofrimento socialmente provocado, entrevisto por Freud; (5) na construção de instrumentos de pesquisa, suscetíveis de tratamento matemático e de replicação, que permitam passar da descrição, tipicamente ensaística, à comparação lateral e longitudinal, cientificamente controlada, reabrindo o campo da cientificidade para as ciências antropológicas; (6) numa insistência estratégica na pesquisa multidimensional sobre os portugueses, suas relações internacionais, regionais, de género e relações interétnicas, com as suas minorias, ex-colonizados e imigrantes, na deteção do mito que articula as relações de género com as pretensões de uma excecionalidade identitária no tratamento com os seus outros, sustentando a sua ecologia identitária e as suas estratégias de diferenciação identitária num mundo competitivo em transformação acelerada; e, finalmente, (7) na investigação interventiva da economia identitária do racismo, exemplificado pela ciganofobia em Portugal.

Se quiserem questionar o que tudo isto tem a ver com a década de 70, é fácil de perceber: trata-se de pôr em confronto Freud e a antropologia psicanalítica, enquanto tese, com a contribuição racionalista do estruturalismo estático de Lévi-Strauss, enquanto antítese, à procura da superação de ambos os polos, através da construção de uma abordagem estrutural-dinâmica, centrada naquilo que não existe para Lévi-Strauss (1977), por confundir o cérebro com a mente e odiar o Ego: a dinâmica sócio-histórica dos processos identitários, que são relacionais e multidimensionais. Como sabemos, Lévi-Strauss estava profundamente errado, desconhecia os efeitos da complexidade, e Antoine Danchin encarregou-se de lho evidenciar (Lévi-Strauss 1977: 209).


transferir texto