Os anos 70 em 3D: reflexões pessoais
Interpretei o convite cordial para contribuir para este dossiê ' talvez
erradamente? ' de modo totalmente literal: focar a década de 1970 dentro dos
seus confins. Assim, estruturei estas brevíssimas linhas à volta de três
dimensões, obliquamente entrelaçadas ao longo de 15 anos. Terei de começar esta
reflexão dois anos antes de 1970 (em 1968), e acabá-la três anos além do fim
(em 1982). As três dimensões, o esqueleto que irá definir a base, são as
seguintes: a primeira dimensão (académica) fornece a musculatura, a segunda
(biográfica) o sistema sanguíneo, e a terceira (poética e literária) a
mentalidade e o Gestalt emocional. Não se trata de uma autobiografia, de um
relato de terreno, de antropologia do umbigo ou de autoetnografia, mas sim de
uma linha da antropologia reflexiva.
Numa primeira fase, entrei na Universidade de Columbia na minha aldeia natal de
Manhattan, em Nova Iorque, no outono de 1968, em plenas manifestações contra a
guerra do Vietname. Poucos meses antes, no liceu (Horace Mann High School for
Boys, em Riverdale, no Bronx), tinha recebido o meu diploma com três colegas no
palco da cerimónia, todos nós com bigodes ou barbas, em rebeldia contra a
regra, tendo sido avisados para os retirar. Fizemos juramento de nunca o fazer.
Note-se que estávamos em junho de 1968, apenas um mês após as explosões
estudantis de Columbia, simultâneas com as de Berkeley e Paris. Não sendo
ativista pleno, lembro-me de Daniel Cohn-Bendit, e das escadas e entrada do
prédio central de Columbia College ' Hamilton Hall ' cheias de spray-bombs.
Após seis anos de inculcação de um espírito crítico académico durante o liceu,
confrontei-me com outro nível de crítica, desta vez política e social.
Mas, na dimensão biográfica, olho para o interior desse liceu, onde nós éramos
uma meia dúzia de alunos não judeus numa turma de pouco mais de uma centena.
Nós ' três católicos, dois protestantes e um chinês (de filiação religiosa
desconhecida por mim na altura) ' éramos os únicos que íamos às aulas nas
festas observadas pelos judeus (Jewish holidays). Nalguns momentos, fui chamado
de forma pejorativa spic, uma palavra dirigida por brancos a porto-
riquenhos (sendo o meu avô paterno dessa ilha, e eu próprio tendo ganho
distinções pelas boas notas ' honors ' em disciplinas de língua espanhola). Na
época, estes subtis insultos à minha costela hispânica ainda não produziam
muita consciência, nem repulsa. Porque, parcialmente, já estava assimilado numa
faixa do mundo judaico intelectual-artístico da cidade. Lembro-me de tardes
passadas no apartamento dum colega, David Steinberg, e de, no elevador do
prédio, ter cumprimentado várias vezes a sua vizinha, Barbra Streisand. Mais
tarde, como membro da Columbia Student Bartending Agency, servi bebidas em
funções, inclusive algumas para Nelson Rockefeller, Margaret Mead e o pintor
Mark Rothko.
O primeiro ano da licenciatura foi esquizofrénico. Queria psicologia. Até
perceber que as obras do comportamentalista B.F. Skinner (e.g. 1953) dominavam
o departamento, cujos corredores estavam repletos de pombos. Na cadeira de
Introdução à Psicologia, cada aluno tinha um rato, que observámos a beber e a
comer. Nos nossos sonhos, os dentes da nossa assistente das aulas práticas
pareciam-nos os de um rato gigante. No meio do ano, tive uma hemorragia interna
(tipo úlcera), cuja causa atribuí à dificuldade de aguentar a elaboração dos
relatórios em gráficos sobre o comportamento dos ratos. A hospitalização ajudou
porque o médico escreveu uma carta que me dispensava do serviço militar (dois
anos mais tarde, o sistema de recrutamento foi feito por sorteio de datas de
aniversários, e fiquei com um número muito alto, tonando-se praticamente
impossível ser recrutado). Mas o behaviorismodefinitivamente levou-me a
abandonar a psicologia a favor da literatura comparada. O meu room-mate, de
nome Charlie Yablon, no curso de filosofia, ia lendo O Ser e o Nada de Sartre
(1943), fumando um charuto, e olhando para a janela face à Amsterdam Avenue.
Dizia: Brian, eu não sou pessimista, mas otimista, porque acredito que em
breve vai acabar o sofrimento humano, após a detonação de uma bomba atómica.
Transitando para a dimensão poética, o meu mergulho na literatura foi feliz.
Tive uma cadeira totalmente dedicada à leitura do romance Don Quijote de la
Mancha, lido, dissecado e discutido, capítulo por capítulo, entre o nosso grupo
de uma dúzia de alunos.Noutras unidades curriculares, li Homero, Rabelais,
Melville, Stendhal, Poe, Proust, Frost, Kafka, Twain e Dostoievski (tendo
ficado tão fascinado com este que li duas vezes Os Irmãos Karamazov). Conrad
era aborrecido, e fazia com que abandonasse, após quatro ou cinco aulas, a
cadeira de Modern British Fiction, dada em 1969 por Edward Said, autor nove
anos mais tarde do famoso Orientalismo. Apanhei o gosto da escrita, que aliás
já se anunciara no liceu, e aprofundei o espírito da desconstrução literária,
novamente vivendo a palavra crítica. Fui profundamente influenciado por aqueles
professores que transmitiam o entusiasmo pela palavra, a narrativa, a
fertilidade do simbolismo da poesia, e o sentido do detalhe e minúcia dos
romances realistas, com as suas descrições exaustivas de paisagens, mobília,
vestuário, expressões faciais, diálogos e experiências de percursos sociais
longos.
Voltemos à biografia: qual o meu futuro como professor de literatura, num país
saturado desta disciplina? O meu pai, anteriormente engenheiro/arquiteto do
hotel Hilton em Havana em 1957-58, foi transferido no ano seguinte para as
ilhas de Trinidad y Tobago, nas Caraíbas, para construir o hotel Hilton na
capital desse país, Port of Spain. Vivi um ano no mundo multicultural tão bem
retratado por V.S. Naipaul, com a idade de nove anos. De regresso a Nova Iorque
em 1960, o meu pai concluiu o doutoramento em 1962 em Columbia, sobre uma
escavação arqueológica que tinha elaborado anos antes no México, na década de
1950, com a minha mãe.[1] Um dos membros do seu júri foi Conrad Arensberg,
pioneiro dos estudos de comunidade na Europa rural (cf. Arensberg 1968
[1937]). Depois ensinava antropologia cultural e arqueologia, no City College
da City University of New York. Minha mãe fez a licenciatura em antropologia no
Barnard College, da mesma universidade, entre 1942 e 1946. Os meus pais falavam
de nomes como Franz Boas, Ralph Linton e Julian Steward. O pai, nos
agradecimentos da sua tese, mencionou Alfred Kroeber e Charles Wagley. A mãe
teve como professores, entre outros e outras, Margaret Mead, Ruth Benedict e,
numa cadeira sobre os índios da América do Sul, Claude Lévi-Strauss. Antes de
falecer em 2006, deu-me o seu caderno de notas dessa cadeira. Mas todos estes
nomes, quando andava no liceu, não me diziam nada.
Resumindo, com este ambiente familiar como pano de fundo, no segundo e terceiro
anos da minha licenciatura, entrava numa espécie de bigamia disciplinar,
porque apanhei uma segunda paixão pela antropologia. Transitei pelo folclore, a
sociolinguística e o estruturalismo; os dois primeiros professores da
disciplina Introdução à Antropologia foram Robert Murphy (especialista na tribo
amazónica dos Mundurucú), e o sinólogo Morton Fried.[2] Inspirou-me a leitura
de Tristes Tropiques de Lévi-Strauss (1967 [1955]) nesta altura, recomendado
por Murphy. Desisti duma cadeira dada por Marvin Harris, porque me irritei com
as suas aulas no inverno, dadas com óculos de sol. Inscrevi-me na disciplina de
Antropologia Visual de Margaret Mead, mas, como ela própria disse na primeira
aula que não iria conhecer os trezentos e tal alunos, desisti. Nesta altura,
Nina Glick-Schiller estava a acabar o seu doutoramento sobre o Haiti, mas não
dei conta de que estava no mesmo departamento.[3] Conheci Joyce Riegelhaupt
muito mais tarde.[4]
Não me desligando da literatura, perfilou-se um futuro mais aventureiro, mais
romântico, na antropologia. Ao acabar a licenciatura em 1972, tive de optar
entre um doutoramento em literatura em Columbia, Berkeley ou Stanford, ou um
mestrado em Sociologia da Literatura, na Universidade de Essex, na Inglaterra.
Escolhi a aventura na Europa, nunca mais tendo regressado ao meu país, exceto
para curtas visitas.
Ao escrever estas linhas, estou a entrar em pânico. A narrativa alonga-se e
apenas fiquei numa primeira das três fases. Telegraficamente, então, cinco
desenvolvimentos posteriores foram os seguintes (onde os níveis académico,
biográfico e poético continuam a entrelaçar-se):
1. O livro dos meus pais, de 1972, Open Marriage: A New Lifestyle
for Couples, tornou-se um bestseller, traduzido em 14 línguas, e de certa forma
aplicando conceitos antropológicos ao casamento norte-americano.[5] Um
aparte: os meus pais já tinham imensos contactos e amizades no mundo artístico-
intelectual de Nova Iorque, que incluía autores amigos como Betty Friedan e
Alvin Toffler, com quem conversei em cocktail partiesdiversas vezes em casa. Em
Columbia, na residência em que fiquei durante dois anos (Hartley Hall) '
contígua à residência onde cinco décadas antes residia o poeta andaluz Federico
García Lorca ', partilhei o andar com o filho de Betty Freidan, e com o filho
do linguista-antropólogo Dell Hymes, organizador do clássico da antropologia
crítica Reinventing Anthropology, de 1969.
2. Uma segunda fase: o choque cultural com a integração no mundo
académico britânico, em Colchester, a nordeste de Londres. O meu orientador,
Stanley Mitchell ' tradutor para inglês da obra The Historical Novel, de Georg
Lukàcs (1969 [1937]) ' dirigia o seminário de Sociologia da Literatura dedicado
a Balzac, Lucien Goldmann e um pós-estruturalismo literário em embrião. Mas, em
termos pessoais, foi a primeira vez que vivi críticas ferozes dirigidas contra
os Estados Unidos. Para a tese (B.J. O'Neill 1974), recolhi 84 contos populares
bilingues numa aldeia da Galiza (na Serra do Caurel, na província de Lugo),
tendo sido esta experiência decisiva na escolha de um doutoramento futuro em
antropologia. Nesses contos, os animais domésticos (ovelhas e cabras) falavam
galego, ao passo que os selvagens (lobos e raposas) falavam castelhano.
3. Um ano mais tarde, em 1973, o ingresso na London School of
Economics (LSE), com outro choque de culturas: desta vez, no funcionalismo
britânico predominantemente africanista. Lembro-me de ter adormecido na
biblioteca, lendo as primeiras páginas deDynamics of Clanship among the
Tallensi, de Meyer Fortes (1945). A antropologia da Índia e do Mediterrâneo
eram as correntes contestatárias ao funcionalismo (não havendo ainda nenhuma
antropologia da Europa que aglomerasse um conjunto significativo de
investigadores). E havia o marxismo estrutural, associado à formação da revista
Critique of Anthropology, com a qual mantive uma proximidade. Tive uma cadeira
com Maurice Bloch (Antropologia Económica) e um seminário com Ioan Lewis. Na
biblioteca do Museum of Mankind, as leituras de Rio de Onor (1953), de Jorge
Dias, e de A Portuguese Rural Society (1971), do meu orientador na LSE, José
Cutileiro, foram igualmente decisivas na escolha de Portugal ' em vez da Galiza
' como local futuro de trabalho de terreno. Mas havia acasos, acontecimentos
acidentais. Também ajudou a carta da Fundação Gulbenkian comunicando a
concessão de uma bolsa. Poeticamente, fiquei seduzido pelo estudo do
comunitarismo. E, romanticamente, fiquei atraído pelo primitivismo e atraso do
Alto Trás-os-Montes. Adicionalmente, era extremamente atrativo conduzir
pesquisa no país, tendo seguido, de Londres, os acontecimentos após o 25 de
Abril e ao longo de 1975.
4. Numa terceira fase, de 1976 a 1978, conduzi trabalho de campo em
Seixas, no concelho de Vinhais. Entre 1978 e 1982, em Londres, escrevi a tese
(defendida em 1982) que viria a ser publicada primeiro em Portugal (B.J.
O'Neill 1984). Curiosamente, num pequeno grupo informal de doutorandos, lemos
um livro cada quinzena, para dialogarmos sobre as nossas teses. Nesse grupo,
lemos Production and Reproduction (1976), de Jack Goody, e Outline of a Theory
of Practice (1977 [1972]), de Pierre Bourdieu, ambos tendo sido revelações
relativamente aos meus materiais etnográficos transmontanos. Sem a inspiração
poética (não só académica) destas duas obras, possivelmente a escrita da tese
teria sido muito mais pesada. Julgo, em termos retrospetivos, que valorizei em
Bourdieu a vertente quase obcecadamente crítica que o autor tece contra as
ortodoxias antropológicas e sociológicas da altura. Não descurando a influência
de obras de investigadores britânicos (Peter Laslett, Alan Macfarlane, John
Davis), bem como ibéricos (José Cutileiro e Carmelo Lisón-Tolosana).[6] Também
não esqueço os professores de Columbia, bem como as obras de Eric Wolf e Sidney
Mintz (ambos colegas do meu pai, e também antigos alunos de Columbia), lidas
com interesse mesmo que eu não tivesse estudado diretamente com eles. Após
muitas subfases de ambivalência, confusão, dúvidas existenciais, e sentimentos
de deslocamento social e mental, o fio condutor da tese tomou forma As três
dimensões confluíam: o académico, o biográfico e o poético.
5. Só mais tarde, após a década que nos ocupa hoje, é que percebi
que a escolha da Malásia para um terceiro trabalho de campo talvez se devesse à
experiência aos nove anos nas Caraíbas. Foi uma experiência que, quase de modo
psicanalítico, permitiu um regresso a um clima e ambiente multiculturais
Também só então, já na década de 1990, é que comecei a refletir sobre a minha
própria assimilação na sociedade americana. A minha linha materna mais
americana subtilmente branqueava alguns tiques hispânicos da linha paterna
porto-riquenha e andaluz (a avó paterna era de perto de Córdova). Mas tal
consciência étnica foi, no meu caso, muito tardia.[7]
Concluindo, será útil aprofundar estas reflexões? Seria interessante refletir
mais sobre estas duplas influências nos anos 70, da antropologia norte-
americana e britânica, anteriores ao meu contacto com a antropologia
portuguesa? Estarei a fabricar, sem sabe-lo, uma espécie de ilusão
biográfica? Serei um produto híbrido, multinacional? Um crítico literário
frustrado, transformado em crítico antropológico? O meu gosto pelo mergulho em
detalhe descritivo teria uma origem nas minhas leituras dos grandes romancistas
realistas? Sem ser pela via pós-modernista, não será possível combinarmos, com
maior intensidade, a etnografia e a literatura?[8] E de forma continuadamente
crítica?
Deixo estas reflexões, sem qualquer remorso por ter, biograficamente,
entretecido duas, senão mesmo três, identidades distintas