Na encruzilhada portuguesa: a antropologia contemporânea e a sua história
Desde o seu início no fim do século XIX, a antropologia académica, como projeto
de estudo da condição humana, teve de integrar dois eixos tensos de
polarização: um relacionado com questões de representação política e o outro
com preocupações de natureza epistémica. No que concerne ao eixo político, a
antropologia teve sempre de contribuir para a fundamentação intelectual das
entidades coletivas emergentes na transição do Antigo Regime: povos, nações,
etnicidades. A antropologia europeia foi, assim, chamada a dar conta da
constituição da nação tanto quanto do império. Na Europa continental em
particular, onde a burguesia nacional detinha a nova hegemonia política, uma
elite que se definia como essencialmente cosmopolita necessitava de captar a
essência daqueles em cujo nome governava: quer fosse o povo quer os nativos
do império.[1] A possibilidade de uma ordem imperial exigia a capacidade de
descrever tanto aqueles que eram governados internamente (o povo), quanto os
que eram governados externamente (os indígenas). A este respeito, Portugal
não se diferenciava muito do rumo geral da antropologia neste período. Ao longo
do século XIX e do século XX, a antropologia académica, enquanto discurso sobre
a natureza da humanidade, viu-se presa entre estes dois polos do eixo político:
o nacional e o imperial. Sempre que o império se tornava politicamente menos
relevante, o folclore e a etnologia assumiam centralidade; sempre que crescia a
relevância política do império, a antropologia dos povos exóticos dominava a
disciplina.
Relativamente ao eixo epistémico, a antropologia deparou-se com preocupações
mais universalistas. A causalidade divina foi abandonada como meio de
determinação analítica a partir de meados do século XIX, sobretudo na sequência
do impacto da obra de Darwin. No entanto, os fundamentos científicos sobre os
quais a antropologia académica se construiu na segunda metade do século XIX
eram solidamente neocartesianos e, mais tarde, neokantianos. A separação entre
a condição corporal e a condição mental do homem foi tida como
incontornável. Embora, em última instância, se supusesse que as duas
coderivavam, elas eram concebidas como exigindo diferentes metodologias de
análise. Desde o início, o campo emergente da antropologia viu-se dividido
entre aqueles que davam maior ênfase aos valores, significados e narrativas e
os que davam maior destaque a regras, funções e instituições. A antropologia de
inspiração romântica, baseada na filologia e na etnologia cultural germânicas,
viu-se confrontada com a antropologia positivista de inspiração científica
neocomtiana. A relação entre ambas foi sempre tensa, mas as duas nunca deixaram
de ser interdependentes, porque ambas se inseriam num projeto científico mais
abrangente dominado pelo universalismo implícito no naturalismo darwiniano.
Durante quase dois séculos de prática académica, só em casos extremamente raros
é que houve antropólogos que não tomaram como ponto assente uma condição humana
comum. O universalismo antropológico, portanto, atava um ao outro estes dois
projetos de estudo científico da humanidade (que, no século XX, foram o projeto
boasiano frente ao projeto durkheimiano). Foi esse universalismo antropológico
que impediu que os dois polos de cada um dos eixos (nacional versus imperial,
institucional versus narrativo) se desagregassem.
À luz disto (ver figura_1), podemos observar que, no eixo político, a
construção do império e a construção da nação (Volkskundee Völkerkunde,
respetivamente) tenderam sempre para a especialização subdisciplinar, sem nunca
a terem conseguido realizar por completo; ao passo que, simultaneamente, no
eixo epistémico, o esforço positivista para encontrar a determinação do
comportamento social dentro de uma perspetiva centrada em leis científicas
nunca abandonou completamente o compromisso com as abordagens filológicas e
interpretativas. Nos dois últimos séculos, a antropologia enquanto
empreendimento académico deparou-se regularmente com este dilema; cada
antropólogo individual e cada escola local foram desafiados pelo facto de
outros antropólogos e outras escolas locais favorecerem combinações
profundamente diferenciadas entre estes quatro polos. No entanto, existe uma
disposição analítica que veio unir o campo e que foi universalmente aceite
durante todo o século XX: o que poderíamos chamar, na continuação do argumento
bem conhecido de Adam Kuper (1988), o paradigma primitivista. O primitivismo
surgiu como estratégia metodológica para o projeto mais amplo de identificação
da condição humana, inserindo-se diretamente no impacto que a biologia
darwiniana teve durante a Belle Epoque nas ciências sociais e humanas. Não
podemos esquecer que o texto fundacional da etnografia moderna ' o artigo que
W.H.R. Rivers (2010 [1913]) escreve em 1913 para a Carnegie Foundation sobre
trabalho de campo fora da América e que é a principal inspiração metodológica
de Malinowski entre os Kiriwina ' é uma tentativa de adaptar os métodos
desenvolvidos pelas ciências da vida às ciências sociais. Como tem sido
frequentemente observado, o paradigma primitivista postula que algo que é
elementar (isto é, que não pode mais ser reduzido) é necessariamente simples e,
dado que se supunha que a sociedade humana evoluíra de uma condição mais
simples para uma condição mais sofisticada e civilizada, o que era primitivo
seria também anterior. Portanto, ao estudar formas de vida humana que eram mais
simples, seria também possível identificar os elementos analíticos da vida
humana e, ao mesmo tempo, aceder ao passado. A antropologia podia, assim,
alcançar diretamente o passado; podia ultrapassar os limites da coevidade (cf.
Fabian 1983) e atingir uma universalidade a-histórica.
Com efeito, postulando a evolução conjunta da família e da religião, o
paradigma primitivista permitia a integração das preocupações com a lei e as
instituições, por um lado, e com os valores e as narrativas, por outro (cf.
Kuper 1988). No referente ao eixo político, todavia, a questão colocava-se de
forma diferente, dependendo das condições políticas e sociais particulares de
cada sociedade europeia onde a antropologia estava a ser desenvolvida. Em
Portugal, tal como em França e Espanha, a integração entre nação e império foi
levada a cabo sob a égide da burguesia nacional governante, o que não aconteceu
na Grã-Bretanha. A separação radical entre o projeto etnológico (de construção
da nação) e o projeto antropológico (de construção do império) que ocorreu no
Royal Anthropological Institute no fim dos anos 1930 sob a égide de Radcliffe-
Brown, nunca ocorreu na Europa continental, onde os dois projetos
antropológicos permaneceram intimamente interligados até ao presente.
No presente artigo, sugerimos uma leitura da formação da antropologia em
Portugal que assume que a construção da nação e a construção do império
nunca estiveram muito afastadas uma da outra e tenderam sempre a mesclar-se uma
com a outra ' em certos momentos de forma muito evidente, noutros de forma mais
mediada. De facto, no caso português, da segunda metade do XIX até à década de
1970, possuir um império foi uma condição decisiva para a sobrevivência de um
projeto português de nação (cf. Pina-Cabral e Feijó 2002). Neste sentido,
distanciamo-nos aqui um pouco das interpretações mais polarizantes inspiradas
pelo trabalho de George Stocking Jr. (1982) e que, no caso português, têm sido
representadas pela análise de João Leal (2000, 2001, 2006, 2008). Este autor
situa a história da antropologia em Portugal sob a força motriz do processo de
construção da nação:
De facto, apesar da existência de um Império e da inexistência de um problema
nacional no sentido clássico do termo, a antropologia em Portugal constituiu-se
e desenvolveu-se entre os anos 1870/80 e os anos 1970, como uma anthropology of
nation-building, isto é, como uma antropologia que privilegia não apenas o
estudo da tradição camponesa nacional, mas que o faz de acordo com pressupostos
em que a problemática da identidade nacional é determinante (Leal 2001: 646;
2006: 112-113).
Para João Leal, a prevalência desta disposição nacional num país imperial não é
paradoxal porque do seu ponto de vista o empreendimento imperial português foi
sempre débil: a inexistência de uma tradição antropológica de empire-building
em Portugal deve ser relacionada com a fraqueza do colonialismo português,
exercido por um país periférico, ele próprio dependente das grandes potências
centrais europeias, particularmente da Inglaterra (Leal 2001: 646; 2006: 113).
Contudo, têm emergido novos dados que sugerem que esta visão necessita de ser
revisitada. Mais recentemente expandiram-se e diversificaram-se as perspetivas,
em muitos casos a partir de investigações focalizadas em temáticas históricas
específicas, nomeadamente a história da ciência (e.g. Bastos 2013). No seu
estudo sobre a coleção de crânios humanos da então colónia de Timor, Ricardo
Roque argumenta que em Portugal, a antropologia de construção da nação
coexistiu com as antropologias de construção do império (2010: 148).
Face a este pano de fundo histórico iremos argumentar que as mudanças
analíticas das agendas de investigação que temos testemunhado durante os já 40
anos do regime democrático português estão, tal como no passado, associadas à
situação de Portugal na ordem global (onde o polo império se transforma em
relações globais mais complexas mas não menos impactantes). De facto, numa
perspetiva mais ampla, entendemos a antropologia em Portugal como parte do que
poderíamos denominar uma quinta tradição ' isto é, uma história disciplinar
abertamente cosmopolita, que se posiciona fora das quatro tradições imperiais
da antropologia dos séculos XIX e XX (alemã, francesa, britânica e americana).
Neste sentido, o cosmopolitismo não hegemónico dos cientistas sociais
portugueses coloca-os numa posição semelhante à dos japoneses, indianos ou
brasileiros (e.g. Pina-Cabral 2004: 262). Em particular, o lugar de Portugal,
na encruzilhada das rotas euro-americanas de intercâmbio intelectual e das
rotas do Atlântico Sul, reafirma-se recorrentemente como marca central da forma
como as ciências sociais portuguesas intervêm no debate científico global.
Na encruzilhada portuguesa
As ciências sociais emergem em Portugal a partir de dois ímpetos que
correspondem a diferentes combinações dos eixos de polarização acima referidos:
por um lado, na primeira metade do século XIX, um movimento romântico de
inspiração nacionalista que acompanha a ocupação inglesa e a posterior guerra
civil e, por outro lado, na segunda metade do século, um movimento positivista
que procura estabelecer as bases para a ocupação imperial de África. Ambos os
ímpetos, há que ter em conta, se conjugam e inspiram mutuamente. Após a
abertura da linha de caminho de ferro de Lisboa para Paris (Sud Express, em
1887), ocorre entre nós uma renovação académica notável. Surgem, então, novas
formulações em quase todas as áreas das ciências sociais e humanas
personificadas por um pequeno grupo de jovens investigadores do Porto, tanto de
inspiração positivista ' a obra de Oliveira Martins (1881) é o marco central '
como de inspiração filológica ' onde nomes como A.A. Rocha Peixoto, Consiglieri
Pedroso e José Leite de Vasconcellos se destacam (cf. Pina-Cabral 1991: 26-27;
Leal 2006: 63-81). Se nas décadas de 1870 e 1880 a questão imperial tinha
presidido à fundação e afirmação intelectual da Sociedade de Geografia de
Lisboa, nas décadas de 1890 e 1900 as questões do império eram menos prementes
do que a reformulação do projeto nacional que acompanha a mudança do regime em
1910. Para figuras públicas como Bernardino Machado e Teófilo Braga, que foram
ambos presidentes da República, os seus interesses de investigação na
antropologia física e na filologia, respetivamente, faziam parte desse
envolvimento com a renovação ideológica da nação perante a profunda crise que
só terminaria com a afirmação da ditadura nos finais dos anos 1920.
Considerando a evolução subsequente da antropologia social e cultural em
Portugal, os trabalhos de Leite de Vasconcellos, Adolfo Coelho e Rocha Peixoto
merecem uma atenção especial (cf. Pina-Cabral 1991: 24-26; Leal 2006: 114).
Etnologia Portuguesa, a grande obra inacabada de Leite de Vasconcellos (1933-
1985), mapeia o país, permanecendo uma inspiração fundamental até aos anos
1970. A sua visão da Etnologia como ciência, associada às suas preocupações
museológicas, viria a ter repercussões consideráveis na segunda metade do
século. A mente teórica cuja influência se revelou mais durável, contudo, foi
Rocha Peixoto (1866-1909), cujo pensamento sobre o comunitarismo agropastoril
lançaria um debate em torno das noções da casa portuguesa e de comunidade
que durou mais de um século.[2] Esta conceção das formas de povoamento rural e
sua metaforização em termos de nação e de império continuaria a ecoar até aos
dias de hoje.[3] Foi Rocha Peixoto que identificou os locais clássicos de
primitividade que sustentaram a conceção burguesa do caráter nacional e seus
direitos de autoctonia ao longo do século XX. A sua morte prematura foi, sem
dúvida, um rude golpe para as emergentes ciências sociais portuguesas.
Dos anos 1930 à década de 1970, vários antropólogos portugueses e estrangeiros
prestigiados seguiriam os passos de Rocha Peixoto, escolhendo como locais de
trabalho de campo contextos que ele identificara como exemplares primários da
primitividade portuguesa. Vilarinho da Furna, estudado anteriormente no mesmo
século por Tude de Souza, tornar-se-ia o primeiro estudo de Jorge Dias (1981
[1948]). Mais tarde ainda, em 1971, seria escolhido por António Campos como
local de um documentário antropológico bem conhecido. Este filme, feito num
momento em que a aldeia estava literalmente a desaparecer sob uma barragem,
continua a ter hoje um impacto considerável.[4] Por sua vez, Rio de Onor foi o
local dos famosos ensaios do Abade do Baçal (Alves 2000 [1908-1948]) e seria o
segundo local de trabalho de campo de Dias (1981 [1953]). Mais tarde, esta
aldeia e lugares vizinhos foram revisitados por vários colegas como Brian Juan
O'Neill (2007 [1987]) e Joaquim Pais de Brito (1996), entre outros. De facto,
mesmo quando os autores não estavam plenamente conscientes do ímpeto anterior,
não podemos deixar de observar que a monografia marcante de José Cutileiro
(1971) sobre a desigualdade no Alentejo ou o estudo de Sally Cole (1991) da
comunidade piscatória de Vila do Conde seguem os passos dos trabalhos
inspirados por Rocha Peixoto, tais como o estudo do proletariado rural do
Alentejo de Silva Picão (1983 [1903]) ou o estudo de Santos Graça (1992) sobre
o povo pescador, respetivamente.
No fim da II Guerra Mundial, a ditadura de Salazar conseguira criar as
condições mínimas para um relançamento das instituições de investigação. Isto
manifestou-se tanto no discurso etnológico sobre Portugal quanto no
investimento nas instituições coloniais e respetiva ideologia. De facto, as
principais figuras no discurso antropológico da altura ' incluindo o
antropobiólogo A. Mendes Corrêa ' passaram por uma transição de preocupações
nacionalistas (ver o seu famoso estudo racialista sobre Nuno Álvares Pereira, o
Santo Condestável do século XIV) para questões imperiais (Corrêa 1924, 1949).
No início dos anos 1950, Mendes Corrêa mudou-se para Lisboa para integrar a
recém-reestabelecida escola de administração colonial ' na altura renomeada
ISCSPU (cf. Pina-Cabral 1991: 30-33; R. Roque 2010: 163). Daí em diante, Mendes
Corrêa trabalhou explicitamente para construir uma escola de antropologia
colonial que, como afirma Ricardo Roque (2010: 164), deveria contribuir para a
construção do império. Dito de outra forma, os seus objetos de conhecimento
eram os nativos habitantes das colónias sob governo português.[5]
Portanto, em meados do século, a etnologia ruralista foi sendo cada vez mais
posta à margem pelo projeto de construção do império. As exposições coloniais
de 1934 no Porto e 1940 em Lisboa estabeleceram um enquadramento ideológico
importante, que teria reverberações até ao fim da ditadura nos anos 1970 (cf.
Thomaz 2002: 205-287; Porto 2009: 92-102). Esta tradição museológica viria a
ter um impacto considerável em Portugal e nas novas cidades das colónias
africanas durante os anos de 1950: museus como o Museu de História Natural de
Lourenço Marques ou o Museu Diamang do Dundo (Porto 2009) foram os novos
locipara a prática antropológica, onde a antropologia física e a antropologia
social e cultural estavam em constante correlação.
No fim dos anos 1940 e 1950, os intelectuais modernistas que estiveram ao lado
de Salazar nos esforços de modernizar Portugal e de estabelecer as novas bases
para as colónias africanas começaram a distanciar-se cada vez mais do regime.
Por exemplo, um dos atores centrais na organização das exposições coloniais,
Henrique Galvão, tornou-se um dos mais duros inimigos das políticas coloniais
de Salazar (cf. Pina-Cabral 2001; Thomaz 2002: 159-165). O seu pensamento sobre
o regime colonial constitui um excelente exemplo do estabelecimento de
continuidades de primitividade entre o ruralismo português e o indigenismo
colonial. Como afirma Omar Ribeiro Thomaz, Henrique Galvão deixa claro que
sua opção africana' não o distancia da lusitanidade'; antes, transforma-
a numa experiência mais densa e profunda, pois a conceção de nação passa
obrigatoriamente pela experiência africana de Portugal (Thomaz 2002: 159).
Esta continuidade entre o mundo tradicional português e o dos nativos do
império é expressa por Galvão tal como por muitos antropólogos do período, quer
os que eram a favor, quer os que eram contra o regime ditatorial:[6] em meados
dos anos 1950, para Galvão ' assim como para muitos dos opositores do
salazarismo ', africanos e orientais das colônias portuguesas são vítimas não
do colonialismo, mas do fascismo (Thomaz 2002: 165). Na mesma época, porém,
para a extrema-direita no poder, representada nas ciências sociais por Mendes
Corrêa e os seus colegas no ISCSPU, o projeto colonial e o projeto ditatorial
eram crescentemente concebidos como constituindo um molde único.
Nos meados do século XX (anos 50 e 60), o regime de Salazar encaminhava-se cada
vez mais para uma postura ideológica perversa na qual o povo do Ultramar
português era tratado como essencialmente português. Conjugavam-se assim as
duas formas de primitividade numa interpretação fantasmagórica em que as duas
reivindicações de autoctonia (rural e indígena) eram apresentadas como
coconstitutivas da nação imperial transcontinental (cf. Thomaz 2002: 165).
Durante este período foram subsidiadas várias expedições científicas aos
territórios ultramarinos envolvendo intelectuais notáveis como Ruy Cinatti no
caso de Timor (um poeta e antropólogo treinado em Oxford), Jorge Dias no caso
de Moçambique,[7] e ainda muitos mais hoje largamente esquecidos. Gilberto
Freyre, discípulo brasileiro de Franz Boas, revelou-se um dos principais
inspiradores deste esforço ideológico. Durante o período colonial tardio (1961-
1974), a sua tentativa de fornecer um enquadramento conceptual para a sociedade
brasileira como democracia racial veio a constituir o pilar ideológico
indispensável para o sitiado regime de Salazar (Bastos 2001). A noção de
lusotropicalismo operou uma mediação entre ser português e ser tropical cujos
ecos continuariam a reverberar até aos dias de hoje (cf. Freyre 1940; Castelo
1999).
Há algo de paradoxal no facto de o surto de crescimento económico dos anos 60
ter acompanhado um período de crescente isolamento internacional. À época, e ao
contrário do que se passava no nosso país, as nações europeias moviam-se no
sentido da democracia e da descolonização. Em 1961, o isolamento ideológico de
Portugal exigia uma resposta decisiva, particularmente à luz da ocupação
indiana de Goa e Diu nesse ano e do lançamento das guerras de guerrilha na
Guiné, Angola e Moçambique (1961/1964). A escola colonial (ISCSPU) acabada de
reformar era o lugar onde se estabeleceria este esforço para reconstruir as
fundações intelectuais da portugalidade (tanto internamente quanto além-mar).
Na antropologia, no entanto, quem incorporou a renovação do pensamento
antropológico português em meados do século foi Jorge Dias, um antropólogo
formado na Alemanha (Munique e Berlim) durante a guerra (cf. Oliveira 1974: 14;
Pina-Cabral 1991: 12; Leal 2006: 149-166). Inicialmente muito próximo de Mendes
Corrêa, Dias veio a distanciar-se no período do pós-Guerra do pensamento de
inspiração fascista do seu mentor, nomeadamente devido ao impacto da
antropologia americana da época no seu pensamento. Ele fundou o Museu de
Etnologia, cuja coleção central se baseia nos seus anteriores interesses
ruralistas portugueses, mas nela integrando coleções valiosas de todos os
cantos do império português (África, Índia e Extremo Oriente). Tal como os
discípulos diretos de Leite de Vasconcellos (entre eles Viegas Guerreiro),
durante o período colonial tardio, os antropólogos portugueses endereçaram
predominantemente a sua atenção para as questões imperiais utilizando a
antropologia de Freyre como uma espécie de molde ideológico que permitia mediar
nação e império.
A revolução democrática de 1974 foi um momento decisivo. Dias morrera
precocemente pouco antes (1973) e o seu Museu entrou num longo período de
hibernação. No início, a velha escola colonial foi temporariamente tomada pelos
estudantes de esquerda, entre os quais vários antropólogos, mas logo de seguida
regressaram ao controle da escola os académicos anteriormente associados ao
regime salazarista.[8] Ao longo dos anos 1980, a escola foi dirigida
cientificamente por um antropólogo africanista que tinha tido um papel de
destaque no aparelho de segurança colonial nos últimos anos da ditadura (José
Júlio Gonçalves).
No início dos anos 1980, as universidades portuguesas reestruturaram-se e
adotaram vigorosamente estilos mais internacionais de prática académica. Esta
foi uma década de intensa construção institucional. Dois departamentos de
Antropologia foram totalmente renovados, um deles fundado (no ISCTE, Instituto
Superior de Ciências do Trabalho e da Empresa) por um grupo de investigadores
formados no estrangeiro (predominantemente França e Reino Unido). No fim da
década, os novos cursos de licenciatura em Antropologia estavam completamente
consolidados e fora fundada a Associação Portuguesa de Antropologia (cf. Pina-
Cabral 1989). Na década pós-revolucionária (1976-1986), o trabalho de
investigação dos antropólogos respondeu ao desafio central de libertar as
conceções de portugalidade das peias ideológicas legadas pela ditadura. A
revolução democrática fora levada a cabo em nome do povo mas, no fim dos anos
1970, tornava-se cada vez mais evidente que essa categoria era profundamente
ambivalente. Nesse momento, os antropólogos deparavam-se com duas aparentes
contradições: (a) uma conceção recebida da portugalidade que era essencialmente
ruralista, num país que almejava ser moderno, industrial e democrático, e (b)
ser português estava profundamente associado a uma ideologia católica e
imperialista lusotropicalista que era percebida pelas novas gerações como um
beco sem saída e se apresentava como antagónica ao futuro desejado por Portugal
de ser parte de uma União Europeia.
Para a geração que refundou a antropologia portuguesa nos anos 80, a única
inspiração antropológica disponível à época era a monografia de José Cutileiro
sobre o conflito de classes no Alentejo, que fora publicada em inglês em 1971 e
rompera com uma tradição secular de leituras primitivistas da ruralidade
portuguesa. A leitura anticomunitária de Cutileiro era, todavia, estranhamente
ambígua (cf. Fernandes 2006) ' como posteriormente a sua carreira veio a
demonstrar ' mas, naquele momento, forneceu um enquadramento importante para o
debate sobre o significado da ruralidade e da portugalidade, que pode ser
também identificado no trabalho das primeiras monografias escritas após a
revolução: Pina-Cabral (1986) e Brian O'Neill (2007 [1987]). Os anos seguintes
foram um momento de labuta intensa, que se manifestou no trabalho de colegas
cujo trabalho de campo foi realizado nos anos 1980 e início dos anos 1990 (e.g.
Cristiana Bastos, João Leal, Jorge Freitas Branco, José Manuel Sobral, Miguel
Vale de Almeida, Paula Godinho). No início dos anos 90, porém, começou a
emergir uma nova abordagem à etnografia não europeia no trabalho de
investigadores como Rosa Perez (Gujarati, Índia), Amélia Frazão Moreira e
Clara Carvalho (Guiné-Bissau), Maria Cardeira da Silva (Marrocos), incluindo
ambos os autores do presente ensaio. A partir de meados dos anos 1990 a
produção dos antropólogos portugueses é tão vasta e diferenciada que não
conseguiríamos incluir aqui uma amostra representativa e justa.[9]
Já na primeira década do século XXI assistimos a uma tendência ténue para a
retoma dos velhos temas lusotropicalistas enquanto inquietações mediadas por
uma antropologia histórica que se debruça prioritariamente sobre os processos
ideológicos de constituição do colonialismo português. Este surto é porventura
uma resposta a um sentimento crescente de desilusão com o projeto nacional dos
anos 80 baseado no ideário europeu federalista. Face ao esmorecer do eixo
identitário europeu que esse ideário enfatizava, o eixo identitário
transatlântico emerge como crescentemente relevante.
Ensinando, publicando e interagindo
Nesta secção apresentaremos um panorama do contexto institucional atual da
antropologia em Portugal em termos de ensino, investigação, atividades de
publicação e participação no domínio público, que mostra uma expansão crescente
da antropologia em Portugal (cf. Viegas 2009). De facto, as décadas de 1990 e
2000 foram um período de crescimento intenso no ensino universitário,
respondendo a uma necessidade, percebida por parte do público e das autoridades
políticas, de ultrapassar um legado de atraso. Isto torna-se claro ao comparar
os números de estudantes nos graus de licenciatura e mestrado. Em 1993, havia
apenas 17.700 estudantes de licenciatura em Portugal, enquanto, em 2003, o
número quase duplicara (30.012); havia apenas 5287 estudantes de mestrado e de
novo o número duplicou nesse período (11.106) (cf. Dima 2005: 29, 30). A
antropologia acompanhou inteiramente estas tendências. Enquanto no início dos
anos 1990 não havia cursos de mestrado em antropologia e entravam cerca de 60
estudantes por ano nos cursos de licenciatura, estimamos que em 2011 tenham
entrado cerca de 180 estudantes nos cursos de licenciatura em Antropologia, e
70 nos cursos de mestrado. Fundada em 1989, a Associação Portuguesa de
Antropologia (APA) tem vindo a acompanhar os altos e baixos da disciplina. A
APA constituiu-se como uma voz para a disciplina sempre que houve matérias de
interesse comum e desde 2005 é membro fundador do World Council of
Anthropological Associations.[10] Presentemente tem cerca de 300 membros e, na
década passada, organizou três congressos. Os antropólogos tiveram um papel
significativo e visível no processo de crescimento das ciências sociais
portuguesas que ocorreu durante os anos 1990 e 2000, e participaram ativamente
no processo de constituição do sistema nacional de investigação científica que
se desenvolveu após a entrada de Portugal na Comunidade Europeia, liderado pela
figura carismática de José Mariano Gago.[11]
O crescimento do ensino e da antropologia em Portugal concentrou-se,
infelizmente, em Lisboa: o Departamento de Antropologia da UNL, o Departamento
de Antropologia no ISCTE-IUL e o Instituto Superior de Ciências Sociais e
Políticas (ISCSP, Universidade Técnica de Lisboa) ministram cursos de
licenciatura, mestrado e doutoramento. O Instituto de Ciências Sociais (ICS,
Universidade de Lisboa) ' um instituto de investigação e pós-graduação '
também teve um curso de mestrado e prossegue atualmente com um curso de
doutoramento em Antropologia Social e Cultural. O ensino pós-graduado reflete
as áreas de maior interesse temático na disciplina: antropologia visual ' e.g.
Culturas Visuais; Cultura Material e Consumo, Turismo e Património,
Cultura Visual Digital ', questões de relevância política contemporânea '
e.g. Direitos Humanos e Movimentos Sociais ou Migrações ', e questões de
relevância regional ' e.g.Estudos Islâmicos, Estudos Africanos, Estudos
Indianos e Estudos Brasileiros.
Além destes departamentos, há também cursos de licenciatura e mestrado em
Antropologia na Universidade de Coimbra.[12] A antropologia também está a ser
ensinada na Universidade do Minho e na Universidade de Trás-os-Montes e Alto
Douro, e há antropólogos a trabalhar em várias universidades e institutos
politécnicos. Em 2010, o pessoal académico permanente em antropologia em
Portugal totalizava cerca de 90 antropólogos. Além destes, existe um grande
grupo de jovens doutorados com contratos temporários a trabalhar em centros de
investigação financiados pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Os centros de investigação especializados em antropologia desenvolveram-se em
articulação estreita com o ensino universitário, tendo crescido
exponencialmente nos últimos 20 anos em paralelo com o crescimento de outras
áreas científicas. De facto, em comparação com outras ciências sociais, a
antropologia portuguesa deu sinais de uma energia singular e de um propósito
coletivo tanto no que respeita a organização quanto a produtividade académica.
[13] Um exemplo disso foi a consolidação em 2008 de um grupo de pequenos
centros de investigação no Centro em Rede de Investigação em Antropologia
(CRIA) ' uma rede nacional interinstitucional de investigação. Esta foi uma
resposta ao apelo de racionalização de meios feito pela agência governamental
de financiamento (FCT).
Atualmente o CRIA integra aproximadamente 70 investigadores doutorados com
projetos em áreas como movimentos sociais e direitos humanos, migração e
transnacionalismo, património e turismo, cultura material e antropologia
visual, e conservação da natureza, e tem conexões com os programas de pós-
graduação no ISCTE-IUL e UNL.[14] No ICS há vários antropólogos da área
sociocultural. No momento presente, o CRIA e o ICS representam o grosso da
investigação realizada em antropologia social e cultural em Portugal: 80% do
financiamento atribuído à antropologia pela agência governamental de
financiamento de investigação foi para o CRIA e o ICS.[15] Desde 1995, estes
centros de investigação foram avaliados regularmente por comités internacionais
indicados pela FCT, recebendo classificações de Muito Bom e Excelente,
respetivamente.
Além disso, existem unidades de investigação mais pequenas. Entre elas,
observamos: (i) o Instituto de Investigação Científica Tropical (IICT), um
centro de investigação onde a antropologia é parte de um Programa
Interdisciplinar de Desenvolvimento Global direcionado para países da
Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP); (ii) o Centro de Estudos
Africanos (CEA) no ISCTE-IUL, com ênfase especial em países africanos que falam
português; (iii) o CIAS (Centro de Investigação em Antropologia e Saúde), que
ultimamente se virou para a genética e a paleontologia. Estes centros de
investigação também realizam investigação colaborativa relacionada com temas de
interesse público. O CRIA tem parcerias com organizações governamentais e não
governamentais como o Alto Comissariado para a Imigração e Diálogo
Intercultural (ACIDI), o Grupo para Imigração e Saúde (GIS), o Conselho
Português para os Refugiados (CPR), o UniTwin-UNESCO (University Twinning and
Networking Programme), o Museu do Dundo (Angola), o Quai Brainly e o Musée
Ethnologique de Salagon (França). Por seu turno, o ICS desenvolveu parcerias
semelhantes, por exemplo com o ACIDI, a agência federal brasileira para os
assuntos indígenas (Funai), a polícia urbana (PSP) e outras agências.
Os museus etnológicos tiveram um papel importante no passado abrindo a
antropologia a um público mais vasto. O grupo de investigação de Jorge Dias no
Museu Nacional de Etnologia (Ernesto Veiga de Oliveira, Fernando Galhano e
Benjamim Enes Pereira) deixou uma herança museológica significativa, sendo o
museu dirigido nos últimos anos por Joaquim Pais de Brito. Algumas exposições
sobre o fim da ruralidade, máscaras africanas, o fado ou as culturas ameríndias
brasileiras tiveram impacto público. Do mesmo modo, o Museu Antropológico da
Universidade de Coimbra, constituído em torno das coleções brasileiras do
século XVIII e das coleções africanas da universidade, teve alguma vida durante
o curto período em que existiu aí uma licenciatura em Antropologia Social e
Cultural. Infelizmente, no momento atual, por várias razões, ambas as
instituições estão pouco ativas. Benjamim Enes Pereira e vários colegas mais
novos inspirados por ele investiram em museus e coleções locais, dando origem a
alguns espaços museológicos interessantes, dos quais o Museu da Aldeia da Luz é
talvez o que teve um maior impacto público. Finalmente, a antropologia tem sido
visível para o público mais vasto através da produção de filmes documentários.
A partir dos anos 1990, um grupo de documentaristas antropólogos, inicialmente
sob a inspiração do Centro Granada da Universidade de Manchester, produziu uma
obra considerável.[16]
A publicação antropológica em Portugal também cresceu. No CRIA, a revista
Etnográfica (fundada em 1997) atingiu um bom nível de reconhecimento
internacional. A Análise Social, uma revista interdisciplinar fundada em 1963 e
associada ao ICS, publica na área das ciências sociais, incluindo a
antropologia social e cultural. Outras revistas tiveram um papel relevante em
décadas passadas, como a Ethnologia ou a Antropologia Portuguesa. Nos anos 1980
e 1990, várias editoras publicaram em antropologia, por exemplo: a Fundação
Calouste Gulbenkian e as Edições 70 com coleções de manuais traduzidos; as
Publicações Dom Quixote, com a sua coleção Portugal de Perto; e a Celta
Editora, com um conjunto de monografias de relevo. Atualmente as editoras
Livros Horizonte, Colibri, Difel e Almedina também publicam na nossa área. Mais
recentemente, a Imprensa de Ciências Sociais, a única imprensa universitária
ativa em Portugal nas ciências sociais, tem sido muito fecunda em livros de
antropologia.
Com efeito, esperamos que este breve panorama tenha demonstrado que a
antropologia portuguesa continua a existir na encruzilhada entre o polo
temático extraeuropeu e o polo temático nacional. De facto, desde 1976, a
construção do império deixou de ser uma questão relevante e, no entanto, as
agendas de ensino e de investigação continuaram a orientar-se para trás e para
diante entre os dois polos (cf. Pina-Cabral e Feijó 2002).
Travessias da antropologia
A partir de meados dos anos 1990, as ciências sociais e as humanidades
portuguesas foram integradas nos programas de promoção da ciência subsidiados
pela União Europeia. As primeiras bolsas de doutoramento e de investigação
verdadeiramente competitivas começaram a ser atribuídas em 1995 como resposta
aos compromissos políticos do governo socialista. Os projetos atribuídos
passaram nesse momento a ser avaliados competitivamente por comités que
integravam peritos internacionais. Tal teve um impacto extraordinário nos
padrões de investigação a nível nacional e levou à constituição de uma nova
geração de cientistas (entre estes, antropólogos que, pela primeira vez,
tiveram recursos para realizar investigação em todos os cantos do mundo).
Por conseguinte, no período entre 1995 e 2009, assistimos a um crescimento
contínuo e uma consolidação em todas as ciências sociais e humanas com respeito
à internacionalização, à qualidade da investigação e à sua diversidade. A
figura_2 apresenta a evolução do número de bolsas de doutoramento atribuídas
pela agência governamental para a investigação (FCT) entre 1994 e 2010. Neste
período, o número de bolsas de doutoramento em curso aumentou 20 vezes (de 466
para 8636) e as bolsas de pós-doutoramento, que eram quase inexistentes em 1994
(apenas 23 bolsas), passaram a 2044 (estas bolsas têm duração de três anos,
renováveis por mais três).
De facto, o que estes números mostram é que, durante cerca de 15 anos, o país
recuperou rapidamente do contexto de enorme devastação em que fora deixado pela
ditadura (1926-1974) e, posteriormente, pela crise financeira do início dos
anos 1980. O problema até 1994 foi tanto o da inexistência de bolsas de
doutoramento e de investigação, quanto o do pequeno número de candidatos a
doutores, uma vez que a primeira geração de doutorados depois da Revolução de
1974 foi contratada para a docência imediatamente após a obtenção da sua
licenciatura. De facto, na maior parte das áreas, tal como na antropologia, foi
apenas em meados de 1990 que se criou a maioria dos programas de mestrado. Além
disso, houve uma mudança considerável no que respeita a obtenção de graus
internacionais. Não temos dados discriminados para a antropologia, mas temos
razões para acreditar que a nossa disciplina seguiu a tendência geral no país.
De 2000 em diante, existe uma diminuição notável do número de pessoas a
realizar os seus doutoramentos fora do país (de 43% em 1995 para 20% em 2010).
Ao contrário, existe um aumento correspondente no número de doutoramentos
mistos, isto é, resultando de colaboração internacional (8% em 1995 para 27%
em 2010).[17] No início dos anos 2000, muitos dos nossos programas de
doutoramento eram reconhecidos internacionalmente e começaram a receber os seus
primeiros estudantes estrangeiros. Isto aplica-se de novo tanto à antropologia
como a muitas das outras ciências sociais.
Na década de 2000 a 2010 começaram a desenvolver-se novos programas de pós-
graduação e os académicos portugueses formados no estrangeiro podiam agora
levar a cabo a sua investigação no seu país de origem. A competição por fundos
de investigação aumentou em conformidade: enquanto em 2000 foram submetidos à
FCT 1961 projetos em todas as áreas científicas, em 2008 o número era três
vezes maior (5697). Nas ciências sociais houve um aumento equivalente: (cerca
de 200 em 2000 e cerca de 700 em 2008). No que concerne a bolsas aprovadas na
área subdisciplinar de antropologia, os números mostram que, de 2000 a 2009,
houve um grande aumento do financiamento disponível: de uma média de 250 mil
euros por ano no início dos anos 2000 para uma média de 700 mil euros por ano
no fim dessa década.[18] Este aumento correspondeu, no entanto, a uma enorme
crescimento da competição. Enquanto 39% dos projetos de investigação receberam
financiamento em 2000, em 2008 essa percentagem decresceu para 25% e em 2010
estava em 10%.[19]
De forma a poder responder às possibilidades de financiamento abertas pela FCT,
a antropologia teve de se afirmar como uma disciplina distinta dentro do campo
mais amplo das ciências sociais. Face a outras disciplinas, a antropologia
procurou afirmar a sua singularidade, ao mesmo tempo que, internamente, teve de
preservar a sua pluralidade. Ao contrário de muitos outros países europeus,
conseguimos em Portugal manter o título subdisciplinar de antropologia na
atribuição de bolsas de investigação e na nomeação de comités de avaliação. Tal
não foi sempre tarefa fácil, tanto por razões endógenas quanto por razões
exógenas. Por um lado, ao longo destas duas décadas, a relação com as
tendências mais direcionadas para dar resposta às políticas públicas (tendência
hegemónica na sociologia) obrigou os antropólogos a lutar sistematicamente pelo
valor epistemológico da investigação etnográfica quando confrontada com
inquéritos quantitativos. Por outro lado, internamente, a relação com a
antropologia biológica revelou-se por vezes complexa, em particular porque
essa denominação é frequentemente pouco clara. Por exemplo, de 2000 a 2009, 33%
do financiamento da FCT no título disciplinar antropologia foi atribuído a
projetos em genética ou paleontologia. No entanto, o único centro de
investigação que reivindica a antropologia biológica (o CIAS em Coimbra) apenas
recebeu 12% dessas verbas, sendo a maioria do financiamento atribuída a
geneticistas em centros prestigiados de investigação médica.[20]
Apesar de tais ambiguidades, em Portugal, a insistência na própria
especificidade disciplinar da antropologia para o propósito de financiamento
foi extremamente importante, tanto na preservação da pluralidade metodológica
das boas práticas de investigação etnográfica, quanto na preservação da
abertura interdisciplinar que sempre caracterizou a nossa disciplina quando
confrontada com outras ciências sociais, tais como a sociologia ou a psicologia
social. Ser reconhecida enquanto área subdisciplinar foi essencial para manter
um investimento sustentado na disciplina ao longo dos anos. Finalmente, no que
respeita a evolução dos temas de investigação, pode observar-se uma tendência
geral durante este período. O foco sobre a sociedade rural portuguesa que
dominava nos anos 80 foi abandonado em favor, primeiro, dos estudos de espaços
urbanos e problemas de modernidade em Portugal (55% das bolsas atribuídas);
segundo, de contextos de campo que incluem a vasta área do mundo que fala
português (33%); e, terceiro, um interesse sobre investigação de arquivo,
museologia e antropologia histórica (12%).[21] Nesse aspeto, a
internacionalização do debate antropológico é, obviamente, uma questão
relevante. A análise de Peter Fry, em 2004, sobre a internacionalização da
antropologia brasileira corresponde em geral ao que se passou entre nós. O
autor mostra que existe uma correlação entre os países que os académicos
brasileiros mais visitam e a nacionalidade das revistas e livros onde eles
publicam no estrangeiro (Fry 2004: 239). Além disso, observa que a França e os
EUA permaneceram muito importantes, mas que se verifica uma crescente
importância de Portugal e dos países da América Latina no padrão de visitações
(Fry 2004: 232). Na década que passou entre a publicação daquele artigo e a
atualidade, houve um aumento significativo das relações entre os académicos que
escrevem em português, particularmente nas ciências sociais e nas humanidades.
Por exemplo, tanto no IV Congresso da Associação Portuguesa de Antropologia, em
2009, como no V Congresso em 2013, entre os 500 participantes, cerca de metade
eram estrangeiros, entre os quais cerca de 80% brasileiros. Dos restantes, a
maioria eram colegas que trabalham sobre contextos onde se fala português. A
antropologia em português explorou visivelmente estas possibilidades na última
década, o que se torna evidente nas revistas disciplinares, tanto em Portugal
(especialmente aEtnográfica e a Análise Social), quanto no Brasil, onde
revistas como a Mana, a Horizontes Antropológicos, a Novos Estudos CEBRAP, a
Revista Brasileira de Ciências Sociais, começaram a publicar regularmente
contribuições de colegas portugueses. Mais ainda, as editoras brasileiras
tiveram um grande impacto em Portugal, particularmente desde meados dos anos
1990, quando as duas comunidades académicas desenvolveram relações mais
intensas.
De facto, a nível global, a partilha de uma linguagem científica cria as
condições para o surgimento de áreas intermédias de negociação (cf. Pina-Cabral
2007: 234). Isto significa que os investigadores que escrevem e leem português
têm vindo a desenvolver entendimentos mútuos sobre conceitos e autores de
referência. Tal tendência não é contrária à participação no debate científico
mais global em inglês, muito pelo contrário. Contudo, ela fortalece a
possibilidade de os colegas lusófonos afirmarem as suas visões e problemáticas
próprias face às tendências globais vigentes no mundo anglo-americano. Um outro
aspeto da internacionalização da ciência que ocorreu neste período foi o início
do acolhimento de investigadores pós-doutorados estrangeiros nos centros de
investigação portugueses. Em particular como resultado do programa intitulado
Compromisso com a Ciência, investigadores de vários países europeus foram
contratados, em 2008 e em 2009, por cinco anos. Esses contratos e bolsas de
pós-doutoramento permitiram que o CRIA tivesse 12 antropólogos estrangeiros
nessa situação entre os seus membros integrados em 2010, o que também aconteceu
noutros centros de investigação, como o ICS. A crise económica crescente nos
últimos anos, está claro, veio pôr cobro a este processo.
Concluindo em crise
Neste artigo traçámos a forma como a antropologia evoluiu em Portugal no século
XX, com particular destaque para as três últimas décadas. Argumentámos que as
tensões originais que marcaram o nosso projeto disciplinar desde o seu início
em meados do século XIX permaneceram vivas ao longo do século XX. Hoje, porém,
estamos perante novos desafios que correspondem a um mundo ideológico onde o
paradigma primitivista já não domina; e onde a oposição entre nação e império é
tão inoperante quanto a oposição entre significado subjetivo e comportamento
objetivo.
Cremos ter mostrado que os antropólogos portugueses, na sua condição
periférica, foram muito bem-sucedidos na abordagem aos desafios da ciência
contemporânea. Conseguiram criar uma voz distinta, não apenas marcada pela
natureza global do uso da língua portuguesa, mas também pelas suas múltiplas
redes na Europa e no mundo atlântico. Juntamente com os antropólogos
brasileiros e a crescente comunidade de cientistas sociais em África, foi
produzido um corpo de trabalho e um cânone distintivo que deixará marcas, sem
dúvida, nos tempos que virão. No entanto, enquanto escrevemos estas linhas, a
prossecução deste esforço parece incerta. Os próximos anos serão certamente
sombrios. A julgar pela história portuguesa do século XX, podemos estar a
testemunhar outro paralisante e longo período de recessão económica que traz
consigo resultados trágicos no que concerne o avanço científico.
Na Europa, os valores ecuménicos que emergiram no rescaldo da II Guerra Mundial
e que conduziram ao projeto de integração política europeia parecem ter
sucumbido face à atávica desconfiança interna. A presente crise financeira
global e as mudanças abruptas causadas pela crise económica no projeto europeu
deixaram com um futuro incerto toda uma nova geração de europeus, entre os
quais uma geração de jovens cientistas portugueses. Tal significa que,
presentemente, tememos que o trabalho notável realizado nas décadas passadas
possa acabar por ter uma sequela atribulada, tal como aconteceu quando a I
Guerra Mundial derrotou uma geração inteira de valiosos intelectuais
portugueses; ou como quando a ditadura apoiada pelas forças imperiais a operar
durante a Guerra Fria conseguiu sufocar mais uma geração de investigadores e
intelectuais. Muitos são os antropólogos portugueses que nos últimos anos
tiveram de procurar no exterior os meios para continuar as suas carreiras '
entre estes, alguns dos melhores da sua geração. Da mesma forma, os jovens
antropólogos europeus e brasileiros que tinham encontrado em Portugal um
ambiente criativo para a sua investigação, contribuindo decisivamente para o
dinamismo do projeto antropológico local durante a década de 2000, viram-se, na
sua maioria, obrigados a partir uma vez mais. Não obstante, temos esperanças de
que a perspetiva cosmopolita de tais pessoas, assim como a firmeza dos que
continuam acolhidos nas instituições nacionais, assegurem um futuro para o
valioso legado antropológico constituído em Portugal nas décadas de 1990 e
2000.