No género de construções cafreais: o hospital-palhota como projecto colonial
No género de construções cafreais: o hospital-palhota como projecto colonial
The hut-hospital as a colonial project
Cristiana Bastos*
*Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Portugal. Email:
c.bastos@ics.ul.pt
ABSTRACT
This article addresses colonial hospitals in Angola and Mozambique in the
context of the contemporary discussions on colonial mimesis. Starting with a
low-resolution image of a 3D model for a hut-hospital, in which the colonial
infirmaries mimic indigenous shelters, the author analyzes the model as an
object and as an outcome of political and cultural circumstances in which the
model was produced and showcased in the 1950s, the political background in
which it developed and the rationale for adopting elements of African cultures
in colonial medicine as formulated in the 1920s.
Keywords: colonialism, health, hospitals, Africa, tropical medicine.
Uma imagem pouco nítida
Neste artigo proponho contribuir para a discussão sobre mimetismos coloniais a
partir de um objecto material: um modelo arquitectónico de hospital /
enfermaria para indígenas em África.[1] O objecto está representado numa
imagem que captei em condições precárias e amadoras num átrio do Instituto de
Higiene e Medicina Tropical, na rua da Junqueira, em Lisboa, há mais de uma
década (figura 1).
Antes de prosseguir, uma pequena nota sobre o meta-objecto que é a imagem
granulada e pouco nítida da figura 1. Resultado do meu encontro casual com um
conjunto de vitrinas de exposição pertencentes ao Instituto de Higiene e
Medicina Tropical (IHMT), esta imagem ficou anotada / inscrita / encriptada num
suporte de vídeo digital que era então inovador e rapidamente se tornou
obsoleto. Fotogramas como este são agora artefactos arqueológicos com limitado
poder de representação. Uma fraca figura, em suma, escolhida em detrimento de
outras que, após as devidas formalidades e procedimentos, poderiam ter sido
feitas com mais perícia, arte, equipamento e profissionalismo.
A escolha é porém propositada, já que o fotograma evoca um tempo de maior
opacidade na abordagem aos assuntos coloniais e remonta a um momento de
transições simultâneas nos planos técnico, científico e político. Tal como este
objecto se encontrava na penumbra de uns espaços de passagem mal iluminados e
fora do primeiro plano de auto-apresentação do IHMT, também o legado desta
instituição estava numa zona de penumbra, fora do campo de interesses dos
investigadores. Em paralelo, enquanto se transformavam e massificavam as
tecnologias de imagem digital, também se transformavam as possibilidades de
representação, estudo e análise do legado colonial português, da sua
assistência médica, das suas tecnologias de governação, dos seus objectos e
parafernália.
Um objecto e muitas questões
Passemos do meta-objecto que é esta imagem para o objecto material que
representa ' uma maquete ou modelo de equipamento sanitário para África,
insólito no que tem de imitação das cubatas e palhotas que se presume
representarem a habitação africana, e familiar no que traz incrustado de marcas
de governação colonial. Um objecto como este suscita muitas perguntas: quem o
fez, com que materiais, em que condições, sob que constrangimentos políticos,
quem o encomendou, quem pagou, quanto, quando, onde, com que finalidade, como
chegou até ali, para onde poderá ir seguidamente, em que condições foi exposto,
visualizado, fotografado, mencionado, pensado, utilizado, que significados foi
adquirindo ao longo da sua vida de objecto?
Todas estas questões são interessantes para a antropologia, que há anos tem
vindo a dar uma atenção renovada a objectos, coisas, materialidades (e. g.,
Appadurai 1986; Kopytoff 1986; N. Porto 2007; Miller 2008). Distanciando-se dos
procedimentos descritivos e classificatórios com que os estudos de cultura
material tradicionalmente tratavam as variantes de instrumentos, adornos ou
habitações, a nova objectologia propõe-se fazer biografias de objectos,
analisando as suas trajectórias, os contextos relacionais dos seus usos, seus
significados e ressignificações, ou, como no muito citado título de Appadurai
(1986), a vida social das coisas. Este interesse é partilhado pelos estudos
sociais da ciência, em que a análise da materialidade dos processos científicos
e a atenção aos seus actores não humanos levou a abrir novos caminhos de
interpretação, ampliar o horizonte da disciplina e criar pontes entre as
tendências de pendor epistemológico, focadas nas modalidades de conhecimento, e
as de pendor social, que analisam a concretude dos processos da sua produção e
as circunstâncias do seu uso (Knorr-Cetina e Mulkay 1983; Callon, Law e Rip
1986; Latour 1987; Jasanoff et al. 1995; Hackett et al. 2007).
Podemos tentar desenhar a biografia deste objecto do presente para o passado,
começando pelo contexto em que se encontra: o Instituto de Higiene e Medicina
Tropical (IHMT), uma instituição que materializa as continuidades entre uma era
em que a medicina tropical era sobretudo colonial, orientada para a assistência
em África e orquestrada a partir de capitais europeias como Lisboa, à
semelhança de Paris, Londres, Bruxelas, Amesterdão, e um tempo em que a
medicina tropical se orienta para a cooperação e assistência internacional,
muitas vezes nos mesmos exactos lugares das antigas colónias e sobre os mesmos
equipamentos de saúde.[2]
Fundado em 1902 com instalações num torreão da Cordoaria Nacional, à Junqueira,
em Lisboa, o então Instituto de Medicina Tropical foi transferido na década de
1950 para o edifício modernista e monumental que o alberga até hoje. À entrada
do recinto os visitantes são saudados por um poderoso símbolo, também ele de
significações reconfiguradas: uma estátua de Garcia de Orta, tradicionalmente
apresentado como um sábio, médico e botânico português do século XVI que foi
autor do Colóquio dos Simples e contribuiu para o Renascimento europeu com
conhecimento novo sobre as plantas medicinais da Índia, e hoje descrito como
mediador cultural em circulação pelo mundo, judeu ibérico resistente à
Inquisição, tradutor, intérprete e mesmo manipulador do potencial farmacêutico
e comercial da botânica asiática (e. g. Pearson 1996; Grove 1996; T. Carvalho
2008; Loureiro 2008; Syed e Swaminathan 2009; Tharakan e Siqueira 2009).
Por todo o edifício do IHMT se inscreve a história da medicina tropical.
Alberga um grande número de projectos de investigação, é lugar de referência na
disseminação de conhecimento, de prestação de cuidados específicos
relacionados com esta especialidade médica, como a consulta do viajante e
certas vacinas, e também repositório de memórias, documentos e testemunhos
materiais de um passado não muito longínquo em que a assistência estava
subordinada à administração colonial. Neste se incluem as maquetes como a da
figura 1, que ocupou posições de diferente visibilidade.[3]
Se hoje esta e outras peças do espólio do Instituto estão expostas em lugar
visível e integram mostras de interesse público, à data da captação da imagem
da qual partimos estava ainda por estabilizar uma narrativa institucional dando
conta das continuidades e quebras entre a época colonial e a época da
cooperação e assistência; estava-se na zona de penumbra que evoca, alargada à
própria história da medicina colonial portuguesa. Quando me iniciei no seu
estudo, em finais de 90, deparei-me com um universo de ambivalências e
contradições no qual era difícil abrir caminho ou inserir-me na literatura
sobre assistência ultramarina já existente, laudatória como se impunha até
meados da década de 1970, mas que deles extravasou, quase sempre na conjugação
imperial de nós e nossos, projectada no passado e auto-isolada na
declinação do seu excepcionalismo. Em nada se tangenciava a literatura
internacional que entretanto abrira novos caminhos de análise e reflexão sobre
a medicina e a experiência colonial (e. g. Arnold 1988; McLeod e Lewis 1988;
Arnold 1993; Stoler 1995, 2002). Por sua vez, esta literatura era
predominantemente anglófona e tinha as suas referências históricas e culturais
na esfera de influência britânica (ou holandesa, no caso de Stoler), tornando
difícil o enquadramento e leitura das situações ligadas à experiência colonial
portuguesa. Pouco ou nada existia de análise crítica da medicina colonial
portuguesa, e só nos anos 2000, na mesma razão em que se desenvolveu o
interesse da antropologia pelos fenómenos coloniais portugueses (e. g. Bastos,
Almeida e Feldman-Bianco 2002; Thomaz 2002; C. Carvalho e Pina-Cabral 2004;
Castelo 2007; N. Porto 2009, Havik, Saraiva e Tavim 2010), se desenvolveu
também um conjunto de trabalhos sobre a respectiva medicina colonial (Amaral
2012; Bastos 2001, 2002, 2004, 2005, 2007a, 2007b, 2009, 2010, 2012; Ribeiro
2012; A. Roque 2001; R. Roque 2004; Saavedra 2004; Rodrigues 2007; Havik 2013,
Zamparoni 2012). Muito está ainda por mapear ' e um dos caminhos possíveis
para melhor conhecer a materialidade, significados e práticas da assistência
médica no período colonial consiste em estudar os equipamentos hospitalares
usados nesse período. Na sequência do que desenvolvi para Goa (Bastos 2010,
2012), proponho aqui uma incursão preliminar aos equipamentos africanos, que
lentamente se constituem em tema de interesse para vários investigadores
(Duarte, Dória e Marto 2012; Milheiro 2012; A. Roque 2012).
Leituras do objecto
O modelo em questão é um importante instrumento para melhor conhecer as
modalidades de exercício do biopoder no colonialismo português do século XX.
Impõe-se perguntar, também, algo que transcende o objecto e se reporta às
edificações que idealiza e representa: como foi idealizado este tipo de
construção, em que contexto, com que inspirações e propósitos, quantas
concretizações teve, onde, a que adaptações foram sujeitas, que imagens existem
da sua edificação, que restos, traços, ruínas ou reconstruções persistem até
hoje, que práticas de assistência, encontro e desencontro tiveram lugar nestes
edifícios, onde, e quando; que continham as memórias descritivas e as
justificações que geralmente acompanham os modelos arquitectónicos? Seriam
parte de um programa de construções para assistência médica repetidas por todos
os espaços coloniais portugueses? Haveria muitos exemplos destes em África?
Seriam uma adaptação africana de um protocolo de assistência então em voga?
Seriam um momento do império, contrastante com outros em que sobressaíam os
hospitais de grande porte?
Antes de prosseguir com estas questões, olhemos uma vez mais para o nosso
modelo. A um tempo insólito e reconhecível, fora do comum mas com as marcas
típicas do projecto colonial, este objecto configura encontros coloniais e
paracoloniais, missões, colónias rurais, assentamentos. Contém as tensões do
colonialismo em geral, nos seus modos de hibridismo, pastiche, colagem; as
tensões particulares de uma projecção de utopia inscrita num dispositivo
prático, de estética futurista num tempo deslocado; de simulacro e imitação
assumida que incorpora, estetiza e idealiza as edificações locais, mantendo a
sua forma e aspecto, sanitizados os materiais de construção, ordenada a sua
disposição no terreno.
Dele sobressai a incorporação de elementos locais, nativos, indígenas, numa
imitação imperfeita, ou, para repetir uma vez mais a fórmula atribuída a Bhabha
(1984), um almost, but not quite. Neste caso, uma inversão daquilo que nas
fontes coloniais aparece como objecto máximo do desdém: a sempre imperfeita,
incompleta, inadequada e deslocada imitação de gestos, roupas, aspirações e
atitudes europeias por africanos. Aqui, neste pequeno modelo de hospital, eram
os africanos os imitados e os portugueses os imitadores. Fanon às avessas: pele
branca, máscaras negras. Também aqui perpassa a dissonância contida na fórmula
do almost, but not quite, de fora do lugar, de imitação incompleta, de pegadas
à vista ' pedindo interpretação, alimentando a especulação.
Estamos portanto em presença da incorporação propositada de formas ditas
indígenas na arquitectura de um equipamento colonial, uma africanização,
obviamente forçada, de um hospital de assistência europeia para africanos.
Resta saber a que se deve este mimetismo colonial. Acto estético, movido a
sensibilidade cultural? Uso pragmático de formas locais para fins governativos?
Pantomima materializada, simulacro generalizado a la Baudrillard (1981), hiper-
realidade que oculta o quanto o poder colonial no século XX tem de simulacro e
fragilidade?
Mais que especular sobre a lógica das formas, impõe-se averiguar em que medida
estas construções eram um tipo recorrente no império português; ou, de um modo
mais geral, perceber em que medida a incorporação de costumes, formas e
materialidades locais é estruturante da governação colonial, e em que
circunstâncias aqueles se tornam visíveis, úteis, apoiados, como inscrições
assumidas do poder.
Leituras superficiais enformadas numa ideologia que se sustentou oficialmente
em Portugal até aos anos 70, e perdurou para além disso, veriam nestas formas
um exemplo da apregoada maleabilidade dos portugueses, que supostamente
integravam melhor que os outros colonizadores as culturas indígenas e, também
melhor que os outros, se integravam nas culturas locais (Freyre 1961). Trata-se
de uma ideologia sedimentada à custa de repetição e falta de verificação ou
estudos comparados, entranhada no senso comum de muitos portugueses,
brasileiros e outros lusófonos, promovida conscientemente no período tardio do
colonialismo português, sustentada numa produção doutrinária com pretensões de
teoria: o luso-tropicalismo, ou a crença em que os portugueses teriam
protagonizado encontros coloniais mais interactivos que os outros colonizadores
europeus (Bastos 1998). Mais afáveis que holandeses, ingleses e franceses para
com os povos que iam encontrando pelo mundo, os portugueses teriam feito um
modo de vida original, adoptando os seus costumes e incorporando-os na sua
cultura.[4]
Como veremos mais abaixo, a nossa perspectiva é muito diferente: este modo de
promover construções hospitalares não revela um programa generalizado de
fusão de colonizadores e colonizados, por via mimética, enquanto dispositivo
de governação. Pelo contrário, como veremos, é uma modalidade disponível num
amplo conjunto de outras formas, hierarquizadas do mais grandioso ao mais
precário ' hierarquização essa que nos ajudará a alcançar a lógica destas
edificações.
Uma diversidade de formas: dos hospitais-palácio às enfermarias-senzala
Para sair da órbita do luso-tropicalismo há que enfrentar o arquivo colonial e
averiguar numa base empírica em que medida estas construções existiram como
programa, projecto e edificações no terreno. Percorrendo as fontes, encontramos
formas muito diferentes de conceber e construir os hospitais, quer nas colónias
quer no território nacional. Este modelo de parque com unidades de internamento
que se apresentam enquanto réplicas da habitação indígena, ou pelo menos do
modo como a habitação indígena era percebida pelas autoridades sanitárias
coloniais, está nos antípodas do estilo grandioso que predominava entre as
antigas instituições de assistência no império português, desde o icónico
hospital renascentista de Todos-os-Santos, na capital do reino (Matoso 2011),
ao lendário Hospital Real de Goa (Bastos 2010), sem esquecer as Misericórdias
também de Goa, do Rio de Janeiro (A. Porto et al. 2008) e da Baía (Souza e
Barreto 2011). Entre construções planeadas de raiz e adaptações de palácios e
conventos destinadas a acomodar serviços hospitalares, tudo se queria grande,
vistoso, opulento, trazendo como marca distintiva a exibição, pela grandeza, de
um poder pretensamente absoluto ' fosse em Lisboa, na província ou nas
colónias, do Renascimento ao século XX; e o plano eternamente adiado de
construir um grande hospital de Todos-os-Santos em Lisboa no século XXI parece
confirmar que o passado regressa enquanto farsa.
Como interpretar, então, este modelo de hospital, que em vez da tradicional
monumentalidade recorre a formas pouco convencionais de afirmar o poder ' que
passam, pelo menos no formato, por afirmar similitude, proximidade, quiçá
imitação, de algumas componentes da cultura local? Numa primeira fase de
análise propus um modelo de leitura que contrastava dois momentos do império
com diferentes lógicas de edificação de estruturas de assistência: um momento
mais antigo, em que se promoviam os hospitais-palácio e os hospitais-fortaleza,
grandes e imponentes, servindo os enclaves brancos e privilegiando os já
privilegiados; este momento corresponderia à época moderna e período barroco,
imitando-se nas colónias o que se fazia em Lisboa, ou mesmo excedendo-o, como
aconteceu com o Hospital Real de Goa e algumas edificações no Brasil. O segundo
momento, mais tardio, corresponderia a um esforço de atrair as populações
locais recorrendo a alguns engodos ' entre os quais o da imitação de algumas
das suas práticas e materialidades. Daí o tipo de edificação do hospital,
imitando as cubatas e palhotas. Seria este o exemplo máximo da mimese colonial
enquanto processo adoptado pelo colonizador, tomando este para si o modo de
imperfeito simulacro e artefacto dissonante, o ubíquo almost, but not quitecom
que a literatura descreve a imitação por parte dos colonizados? E o que
explicaria a existência de dois modelos tão diversos?
A vocação disciplinar compeliu-me a moderar a especulação interpretativa e
mantê-la apenas enquanto inspiração para formular perguntas à realidade. E
assim fui em busca de vestígios, traços, reflexos, teorizações, interpretações,
imagens, narrativas relativas a estas construções. Durante muito tempo procurei
encontrar edificações correspondentes a este modelo; procurei-as em Angola e em
Moçambique, no terreno e nos registos, em fotos e outros apoios de memória.
Encontrei testemunhos indirectos, referências vagas, mas nunca os vi, inteiros
ou em ruínas; e as fotografias escasseavam. Durante muito tempo não consegui
apurar se o modelo representado no fotograma correspondia a uma edificação no
terreno ou era apenas um plano que existia enquanto intenção, desejo,
formulação que não chegara a alcançar o poder político ou, se o chegara, não
tivera ocasião de se efectivar. A escassez de dados levava-me a crer que este
não teria sido um modelo programático, uma bandeira de colonização, uma marca
de regime. A sê-lo, deveriam existir mais evidências, mais literatura,
propaganda, testemunhos materiais, marcas na paisagem ' como aconteceu com as
típicas escolas primárias de Salazar ou, no Brasil, com os CIEP (brizolões),
ambos inscrevendo na paisagem rural ou urbana um programa político educativo
sob uma forma arquitectónica comum.
Perante tanta escassez, foi com entusiasmo que deparei com fotografias
contemporâneas do hospital do Gilé, em Nampula (norte de Moçambique), que em
tudo pareciam a actualização realista e a cores do modelo que tinha encontrado
no IHMT (ver figura 2). As fotos provinham do blogue Beijo-da-mulata (nome de
flor local), usado por uma jovem médica portuguesa para reportar as suas
experiências na frente de saúde no interior de Moçambique.[5]
Contactei a autora das fotos e do blogue indagando-a sobre as narrativas locais
a respeito daquelas construções ' quando teriam sido feitas, como eram
interpretadas, apreciadas, por quem, em que ocasiões, que histórias eram
contadas ' com alguma esperança de encontrar dados para a datação de uma das
realizações daquilo que poderia ter sido o programa dos hospitais-palhota que
conhecia apenas do modelo encontrado no IHMT. Mas não: o que se dizia sobre
aquelas casas era que tinham sido um conjunto habitacional originalmente feito
para alojar os trabalhadores de uma dada empresa, depois adaptadas para
hospital.
Perante esta informação, naturalmente reconfigurei a minha proposta
interpretativa. Constatava que se tratava de uma reciclagem de edificados,
tal como acontecera em Lisboa e em Goa com os edifícios devolutos dos conventos
de ordens extintas, entretanto convertidos em hospitais, processo que ocorreu
em Portugal e na Índia nos séculos XVIII e XIX (Bastos 2010, 2012). Uma
reciclagem mais sustentável e eficiente do que as complexas adaptações de
grandes palácios a hospitais. Segundo a médica do Gilé, as enfermarias assim
recicladas tinham a vantagem de proporcionar internamentos diferenciados por
tipo de doença, evitando as contaminações entre pacientes.[6] Por outro lado,
constatava-se também que as palhotas de cimento eram usadas não só nos parques
sanitários mas também noutras situações, como no alojamento de trabalhadores em
empresas. Tinha observado algo semelhante num parque agrícola angolano agora em
ruínas ' com cubatas de imitação, circulares, feitas de cimento e com tectos de
chapa metálica ondulada, em cujo interior a temperatura se elevava brutalmente,
acentuando o carácter dissonante e paradoxal daquelas tentativas de imitação da
habitação indígena.
Mas nenhuma interpretação é definitiva. Segundo um estudo de arquitectura
sanitária colonial em curso, este equipamento poderá ter sido originalmente
edificado enquanto posto de saúde, mais tarde convertido em alojamento de
trabalhadores, e finalmente reconvertido em hospital. Mais pesquisa será
necessária para podermos fixar a narrativa sustentadamente. Ou não: talvez
baste reconhecer que estamos perante um tipo de edificação com uma ampla
possibilidade de reciclagem e reconversão, que alguns destes pequenos
edifícios, palhotas de imitação, enfermarias em miniatura, casas de
trabalhadores, são diferentes coisas em diferentes momentos, vão sendo
diferentes coisas consoante os usos, e está no seu devir a possibilidade de se
converterem e acomodarem outras versões.[7]
Dados para uma biografia do objecto
Regressemos portanto ao modelo. Há algo de incongruente quando comparamos a sua
existência perfeita de objecto bem acabado, guardado numa vitrina, sobrevivente
de décadas, e a quase ausência de rastos e traços das edificações que
supostamente antecede. A dissonância cognitiva desta contradição ultrapassa-se
quando descobrimos que, ao contrário do que pode parecer, e me pareceu durante
anos, esta maquete não o é propriamente, ou seja: não se trata de um modelo
em miniatura feito em antecipação da construção de um edifício. Assim tinha
presumido quando, na obscuridade das condições de captação, na falta de
legendagem e sobretudo na ausência de estudos, deparei com o modelo pela
primeira vez.
Estava errada. Este objecto não foi feito para orientar arquitectos ou angariar
fundos para a construção: foi feito para uma mostra, uma exposição celebrativa
e um momento de viragem na política colonial portuguesa ' a Exposição
Documental das Actividades Sanitárias do Ultramar, organizada no âmbito do
Congresso Nacional de Medicina Tropical e comemorativa dos cinquentenários do
Instituto de Medicina Tropical e do Hospital do Ultramar, anteriormente
conhecido como Hospital Colonial. A mostra teve lugar no Palácio Nacional da
Junqueira, também conhecido por Palácio Burnay, vizinho do Instituto de
Medicina Tropical, em 1952.[8]
Esta exposição ocorreu num momento de viragem, quando o império estava a ser
transformado em Ultramar, a lógica de dominação a ser revista, a propaganda
colonial a ser redesenhada, e as colónias foram renomeadas províncias
ultramarinas. Tratou-se de uma autocelebração para consumo interno num momento
de reconfiguração política, quando os nacionalismos africanos começavam a
fazer-se sentir e os impérios europeus se repensavam ' desenhando os termos da
sua cessação ou metamorfose neocolonial, ou ainda ' como aconteceu em Portugal
' inventando ideologias e práticas para se prolongarem. A maquete era,
portanto, um objecto de celebração, quiçá uma aposta em originalidades que se
tornariam o credo da doutrina do excepcionalismo português e do luso-
tropicalismo, desenvolvido nos anos 1950 e oficializado na década seguinte. Foi
apresentada juntamente com várias outras, representando tipos diferentes de
equipamento de saúde. À variedade de tipos estava subjacente uma hierarquização
que, como veremos adiante, nos ajudará a situar e decifrar a forma e razão de
ser deste preciso equipamento sanitário.
Uma sala jubilar era dedicada ao cinquentenário do Instituto de Medicina
Tropical (IMT), plena de gráficos de evolução, desenvolvimento, missões,
quadros relativos ao ensino, trabalhos publicados pelos seus professores,
missões de estudo de endemias tropicais no Ultramar, fotografias de missões
relativas à lepra na Guiné, da Escola das Missões Católicas, um mapa dos
médicos do Ultramar no Mundo Português e, talvez o ponto alto, a maquete do
novo edifício do Instituto, construído a umas centenas de metros do Palácio
Burnay. Mais gráficos sobre patologias tropicais e fotografias de missões
científicas ou de assistência compunham a galeria de actividades do então IMT.
Uma outra sala era dedicada ao Hospital do Ultramar, também cinquentenário,
porque descendente directo do Hospital Colonial de Lisboa, criado em 1902. O
Hospital do Ultramar, que a partir de 1974 foi renomeado Hospital Egas Moniz,
estava prestes a ser alojado num portentoso e moderno edifício, também na
Junqueira, cuja primeira pedra foi lançada em 1951.
Toda uma sequência de salas era dedicada às colónias: duas para Angola, uma
para Moçambique, uma para o conjunto Guiné, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe,
outra para o conjunto Índia, Macau e Timor. Completavam a exposição a Estufa do
Jardim Tropical, com plantas, e uma sala para as empresas privadas de Angola,
com a Diamang em maior destaque.
Nas salas das colónias estavam expostos gráficos, fotografias, painéis
alegóricos, motivos etnográficos. Várias das fotografias das salas de Angola
eram dedicadas às instalações de assistência médica: Hospital Regional de Sá da
Bandeira ' Pavilhão dos Europeus; Hospital Indígena de Quibala, Serviços de
Saúde de Angola; Hospital Indígena de São Salvador; Hospital Indígena de
Caridade de Luanda; Sanzala-Enfermaria do Posto Sanitário (Masseca);
Dispensário Municipal Polivalente (Luanda); Pavilhão de Radiologia (Benguela);
Dispensário Polivalente (Sá da Bandeira) e Dispensário Polivalente (Benguela);
Hospital Indígena no Lobito; Posto Sanitário (Negage); Sanzala-Enfermaria (Vila
Salazar); e Hospital Regional de Malange.
A sala de Moçambique tinha, além dos gráficos e fotografias, algo muito
particular, que nenhuma das outras tinha, algo que nos remete directamente para
o objecto da figura 1: uma série de dez maquetes relativas a várias construções
de assistência sanitária. Representavam o pavilhão de isolamento do HCM; o
Hospital Central Miguel Bombarda; uma maternidade de tipo GUC (Gabinete de
Urbanização Colonial); a Formação Sanitária do Maputo; a Maternidade de
Marracuene; o Hospital de Moçambique; o Hospital do Bilene; o Hospital de
Bolama; o Hospital de Zobué; e a sede da Missão de Combate à Tripanossomíase.
Note-se que o Hospital de Moçambique, de grandiosas dimensões, refere o
edifício da Ilha de Moçambique, no norte, onde no século XIX se situava a
capital. Em Lourenço Marques (hoje Maputo), capital de Moçambique no século XX,
existia outro grande hospital, edificado no século passado, com o nome de
Hospital Central de Miguel Bombarda.
Os modelos são todos referentes a Moçambique. Para a sua biografia de objectos
constará que aí foram produzidos, enviados por barco para Lisboa, onde foram
expostos, visitados, comentados, e, nalgum momento depois da exposição, foram
fisicamente transferidos para o actual edifício do Instituto de Medicina
Tropical. Alguns deles foram restaurados, e estão hoje criadas as condições
para serem mais conhecidos e para servirem como fonte de conhecimento sobre a
sociedade que os produziu (ver Duarte, Dória e Marto 2012).
A lógica por detrás do objecto: a legislação sobre assistência, as práticas De
imitação e as aldeias-enfermaria
Estando já clarificados alguns elementos da biografia do objecto e das
edificações a que se reporta, situado numa hierarquia de modelos de
assistência, faltava ainda encontrar dados sobre os procedimentos relativos à
sua contrapartida edificada e à lógica e ideário que os concebeu. Uma peça
central neste processo é o Gabinete de Urbanização Colonial (GUC), criado pelo
decreto-lei n.º 34.173, de 6 de Dezembro de 1944, destinado a melhorar a
qualidade das construções nas colónias africanas. O diploma faz referência a
uma recente exposição na capital do Império em que tinham ficado patentes as
vantagens da colaboração entre engenheiros e arquitectos.[9] Futuras
construções, incluindo os hospitais, ficariam sob a supervisão do GUC ' o mesmo
que está referido em pelo menos uma das maquetes de Moçambique expostas na
Junqueira em 1952.
Segue-se a completa reorganização do serviços de saúde do Império Colonial
Português, tal como é referido no decreto n.º 34.417, de 21 de Fevereiro de
1945, assinado pelo Presidente da República, Óscar Carmona, pelo Presidente do
Conselho, António Salazar, e pelo Ministro das Colónias, Marcelo Caetano. O
diploma refere a importância da acção sanitária no Ultramar como prioridade do
governo, invoca a sua importância histórica, menciona os ícones de estimação da
medicina em Goa ' o Hospital Real e a Escola Médico-Cirúrgica ' e argumenta que
se impõe a existência de um diploma comum, deixando todavia alguma
flexibilidade para a governação local de cada colónia.[10]
O decreto assume-se como instrumento de biopoder colonial: nota que os
objectivos são primeiramente amparar, defender e aumentar a população
indígena, lembrando que só ela pode extrair as riquezas de que a humanidade
tanto precisa; em segundo lugar, almeja facilitar a adaptação dos brancos nas
regiões tropicais. Para o efeito constitui-se uma rede sanitária geral para
cada colónia, com hospitais centrais, hospitais regionais, centros de saúde e
postos fixos. Há que desenvolver uma justificação para a existência de sistemas
paralelos e combinados, sublinhando que não se trataria de um sistema
racializado puro, opondo europeus e africanos, ou brancos e pretos. Embora se
diga que nos hospitais coloniais é mester separar as instalações para europeus
e assimilados das destinadas aos indígenas, logo se afirma que não é por
preconceito racial, como prova o facto de os nativos assimilados terem lugar
junto dos europeus; a justificação aproxima-se do que hoje se chamaria
sensibilidade cultural, para atender às diferenças de mentalidade e hábitos,
onde por vezes apartheid e multiculturalismo se tornam indistinguíveis. A
justificação é que os indígenas só se sentem à vontade, e até moralmente
confortados, quando não lhes falte certo ambiente a que estão acostumados.[11]
E assim se avança com a ideia de, em vez de internar os africanos não
assimilados em enfermarias hospitalares semelhantes às dos europeus, criar
para eles uns equipamentos especiais, permitindo o alojamento da família,
imitando as suas habitações. Uma situação de fusão, aparentemente, combinando o
que é tomado como costume indígena e o que é explicitamente o propósito
colonial. Mas esta é uma fusão controlada: estipula-se que as casas devem ser
construídas segundo o tipo indígena, mas melhorado quanto aos materiais, à
capacidade, à orientação, protecção contra os raios solares, conforto e
higiene, etc., de modo que sirvam de modelo para a evolução dele.[12]
Na rubrica de assistência aos indígenas (artigo 61.º) esta argumentação é
retomada, indicando-se que a assistência deve ser prestada com a maior
tolerância pela sua mentalidade, usos e costumes e que, na sua missão
civilizadora, o médico deverá combater, com energia mas sem violência, as
práticas supersticiosas e de feitiçaria que atentem contra a saúde e robustez
dos indígenas ou contribuam para o definhamento das suas raças. Como
complemento (artigo 62.º), decreta-se a construção de aldeias-albergarias
nas imediações dos hospitais, para os doentes externos, que poderão beneficiar
de tratamento e alimentação sem todavia estarem internados.[13]
Temos, portanto, no ano de 1945, a adopção programática e toda uma hierarquia
de equipamentos hospitalares, sublinhando-se que naqueles destinados a
indígenas deveriam ser utilizados elementos da sua cultura. Por outras
palavras, era recomendável imitar as suas casas e construções, desde que
adoptando materiais mais higiénicos; assim se chegaria a atraí-los à
assistência médica. É o mimetismo colonial em acção, explicitado pela tríade
Carmona-Salazar-Caetano.
A argumentação do legislador não foi criada ex-nihilo; há algum tempo vinha a
ser pensada. Em algumas ocasiões, a experiência de hospitais-palhota já tinha
materialidade ' não porque tivesse sido criada em diploma, mas por
contingências e circunstâncias locais. Na mais periférica das colónias
africanas, a Guiné, existia a figura das tabancas-enfermarias.[14]
As tabancas-enfermarias aparecem oficialmente referidas na publicação
Assistência aos Indígenas da Colónia da Guiné, de 1933, juntamente com o fundo
de assistência médica indígena ' dispositivos criados pelo diploma legislativo
n.º 728, de 18 de Dezembro de 1932. A sua razão de ser era fomentar as
mutualidades como pilar de previdência social, tanto no campo da saúde como
noutras esferas de actividade, à semelhança de medidas adoptadas com sucesso em
Angola e Moçambique.[15]
Já aqui se avançava com o argumento de conquistar os africanos e combater a sua
elevada mortalidade usando tecnologias de aproximação e imitação parcial dos
seus costumes: é sabido que o nativo africano, refractário à nossa forma de
assistência médica, a não procura; mais se explicita que os nossos processos
normais de tratamento e hospitalização são-lhes odiosos, temem-nos, nem sequer
aceitam os simples curativos, e em consequência de tanta rejeição tendem a
esconder as suas doenças e males e a adoecer e morrer em muito maior
quantidade. A proposta é, então, aproximar a assistência daquilo que é
considerado aceitável pelo africano, dando-lhes as condições naturais do seu
meio normal, fazendo com que encontre na casa onde for tratado, condições
similares às da sua vida corrente e tenha junto de si os seus parentes mais
chegados, para o animarem e criar-lhe confiança O propósito era, também, o de
fazer com que a assistência apertasse o indígena em malhas tão cerradas, que a
ela se não possa esquivar. Assim é concebida a tabanca-enfermaria, uma
povoação nativa com salubridade e higiene melhoradas, que dê ao indígena a
ilusão de que não deixou a sua palhota, por se encontrar em lugar em tudo
semelhante a ela, até por ter junto de si, os seus parentes, para o cuidarem,
tratarem e servi-lo.[16]
Nas tabancas-enfermarias os africanos encontrariam tratamento gratuito e mais
eficaz que o dos seus empíricos; mais ainda, acrescenta o legislador,
encontrariam o carinho e o disvelo, com que nós, portugueses, costumamos
tratar as raças chamadas inferiores, dentro da civilização. E assim se
descreve:
Uma tabanca-enfermaria, com o seu corpo central, em pavilhão
moderno, ligeiro, sólido, a albergar a casa dos curativos, farmácia,
isolamento e enfermaria para doenças graves; constituída por um maior
número de palhotas ordenadas, varridas de ar e de luz, de solo
impermeável e de fácil higiene, e com certo conforto; tudo isto em
recinto cercado, ajardinado, e em lugar salubre, com água própria,
potável; além de patentear um título de nobreza na nossa acção
colonizadora, daria ao problema de assistência médica indígena na
Colónia, a solução que ele melhor poder ter, quanto à sua eficácia,
economia e benéficos resultados.[17]
Teorizações prévias: o Congresso de Medicina Tropical de Luanda
Ficamos perante uma evidência: este tipo de construções, imitando as palhotas,
eram destinadas a captar os africanos que menos se queriam aproximar dos
portugueses. Postos remotos, tabancas na Guiné, lugares de precaridade e
periferia, em contraste com as capitais de província e outros lugares de
declamação do poder colonial. Um serviço de saúde colonial a duas velocidades,
portanto.
Mas podemos ir ainda mais longe na exploração deste ideário, e encontrar as
fontes de pensamento que organizaram, num período anterior, a aproximação aos
indígenas pela imitação das suas materialidades. Neste contexto surge-nos como
uma chave incontornável o Congresso de Medicina Tropical de Luanda, que ocorreu
em 1923. Era um tempo em que o controle dos espaços coloniais em África era
incipiente e o governo português, como os de outras nações europeias, procurava
e discutia as fórmulas para melhor levar a cabo o empreendimento colonial ' no
que se incluía a assistência às populações indígenas, até então renitentes e
resistentes à medicina europeia e aos hospitais que funcionavam nos enclaves
brancos com o fim de tratar quase exclusivamente os militares ou os colonos
europeus residentes ou em trânsito. Nesse congresso são formulados os
princípios e enumeradas as vantagens de construir postos de assistência
sanitária com a forma das habitações africanas.
Ao Congresso de Medicina Tropical de Luanda acorreram médicos de inúmeras
nacionalidades, com vista a discutir patologias tropicais, assistência,
saneamento, higiene, e outras coisas de interesse para esta especialidade
nascente. Os trabalhos apresentados no congresso foram publicados ao longo dos
anos seguintes na Revista Médica de Angola, praticamente criada apenas para
esse fim.[18] É nesta publicação que encontramos o corpus de referência para o
programa em que se desenvolveram objectos como a maquete da figura 1. Note-se,
porém, que a data corresponde a uma era política que foi interrompida; era o
tempo da I República, mais cosmopolitas as aspirações, e mais genuína a procura
de intensificar os laços entre as potências coloniais europeias para definir as
melhores estratégias de colonização e assistência; estava-se ainda longe do
excepcionalismo promovido pelas doutrinas luso-tropicalistas e endossado pelo
regime de Salazar (Castelo 1999).
Entre os artigos publicados na Revista Médica de Angola contam-se os de F.
Ferreira dos Santos, coronel-médico e chefe do serviço de saúde em Moçambique,
Assistência médica aos Indígenas e processos práticos da sua hospitalização
(1923); de J. Firmino Sant'Anna, da Escola de Medicina Tropical em Lisboa e
anterior chefe dos serviços de saúde de Moçambique, O problema da assistência
médico-sanitária ao indígena em África (1923); de Germano Correia, da Escola
Médico Cirúrgica de Nova Goa ' com uma passagem por Angola no âmbito da sua
carreira de médico colonial, que incluiu também uma passagem pela Escola Médica
do Porto e interlocuções com os desenvolvimentos da antropologia física e das
teorias da aclimatação ', um artigo sobre Processos práticos de hospitalização
dos indígenas e o problema da sua assistência médica (1923); e ainda, de
Maurice Blanchard, do Instituto Pasteur de Brazzaville (Congo), um ensaio sobre
as tácticas a usar para atrair os africanos às consultas médicas coloniais:
Sur quelques facteurs moraux et matériels d'attraction des indigènes dans les
centres de consultation (1923).
Cremos que a reunião destes artigos, a sua articulação numa sessão daquele
congresso, e a sua relativa consonância correspondem ao embrião do programa
que procurei por detrás das maquetes ' e do qual encontrei poucas
contrapartidas edificadas, memórias ou vestígios. Nos anos 1920 configurou-se,
embrionariamente, um programa de assistência que passava por incorporar
construções africanas de imitação nos equipamentos hospitalares. A lógica era a
de a similitude da forma aumentar a proximidade; imitando os costumes locais '
por exemplo na semelhança estético-formal dos equipamentos hospitalares '
pretendia-se aumentar a procura de assistência médica por parte das populações
locais, que reconhecidamente a rejeitavam e dela fugiam; daí o ar de aldeia
indígena de imitação nestas enfermarias.
Uma outra ordem de factores era também tomada em consideração em prol deste
tipo de equipamentos: a economia de meios, ou o que hoje chamamos
sustentabilidade. Vejamos o que propõem os autores dos artigos seleccionados
para a Revista Médica de Angola.
Ferreira dos Santos aponta diversas vantagens do recurso à imitação de
habitações indígenas na construção de hospitais e centros de saúde em África.
Por um lado, seriam muito mais baratos, recorrendo a meios e métodos locais; o
autor podia não conhecer o conceito contemporâneo de sustentabilidade, mas
enunciava os seus princípios com clareza. Por outro lado, seriam um modo de
atrair os indígenas e fazê-los sentir-se confortáveis e ambientados, ajudando a
vencer o conhecido repúdio que mantinham relativamente aos internamentos
hospitalares. Diz ele,
Esta disposição, derivada do que a prática nos tem demonstrado, visa
não só a vencer a relutância que o indígena manifesta em se sujeitar
ao nosso sistema de hospitalização, mas principalmente a estabelecer
um princípio de economia para o Estado, evitando a construção de
numerosos hospitais ou enfermarias que, além do seu elevado custo
material, acarretariam uma maior despeza com a sua manutenção
(Santos 1923).
Não se sabe qual das motivações era mais importante para o autor: se atrair os
indígenas através de práticas arquitectónicas que imitavam os seus lugares de
reconhecimento; se, simplesmente, a economia de meios. Ferreira dos Santos
recorre a ambos os argumentos, enfatizando o baixo custo como meio de persuasão
do poder político. Dá-nos mesmo um excelente esboço que intitula Modelo de
posto sanitário de 1.ª classe (figura 3).
E não podemos deixar de notar a sua ênfase orgulhosa no not quite ' palhota
indígena sim, mas ao modo europeu, rebocada, caiada, cimentada, com portas e
janelas de vidro:
O tipo das construções destinadas aos indígenas hospitalizados, será
o da vulgar palhota de cobertura cónica, de porte um pouco mais
elevado, com uma janela de vidraça e respectiva porta, rebocada e
caiada interior e exteriormente e de pavimento cimentado. Preferimos
o tipo palhota a qualquer outro, porque no género de construções
cafreais, é o que se nos afigura de maior resistência às violências
de um temporal e o que dá maior escoante às águas pluviais (Santos
1923).
Somente futuras investigações poderão dizer quando, onde e em que quantidade
vieram a ser implementadas estas construções. A escassez de material encontrado
leva-nos a acreditar que pouco terá acontecido na sequência imediata da
publicação dos artigos; tão- pouco existem dados que indiquem ter esta
tipologia integrado um programa de edificações sistemático antes da criação do
GUC ' e mesmo sob o seu mandato. Haverá que averiguar quantas vezes foram
construídos, onde, em que circunstâncias, que posição ocupavam na rede do
biopoder colonial português, na teia de malha apertada com a qual o legislador
propunha abraçar e capturar as populações locais que se mostravam renitentes
aos cuidados médicos e resistentes à administração portuguesa.[19]
Concluindo: aproximações miméticas em contextos coloniais
Revisitemos brevemente os argumentos sobre mimetismos coloniais. Citado quase
ad nauseam nos estudos de colonialismo e pós-colonialismo, o pequeno ensaio de
Homi Bhabha Of mimicry and man (1984) sintetiza os incómodos da condição
colonial e sinaliza os aspectos miméticos que nela se inscrevem. Tornou-se
uma citação ubíqua, descolada das intertextualidades implícitas ' e. g. Mimic
Men,de Naipaul (1967) ', um pronto-a-usar disponível mesmo para quem não tenha
trilhado as circunvoluções analíticas da condição colonial, os dispositivos de
desdém, hierarquia, hegemonia, agonia, contra-hegemonia e crítica com potencial
teórico (Balandier 1951; Fanon 1952; Memmi 1973; Cooper 2005). Para além de
Bhabha, e relativamente ausente que está, na antropologia e estudos coloniais,
a formulação original de Gabriel Tarde sobre leis da imitação (1890), são as
propostas de Michael Taussig (1993) e de Paul Stoller (1995) que mais mobilizam
os autores rendidos ao poder analítico da mimese. Dele fazem uso, por
exemplo, a exploração do arquivo colonial português do século XIX por Ricardo
Roque (2010, 2011), que mostra como a administração portuguesa em Timor adopta
símbolos e costumes locais enquanto linguagem de poder e suporte da tutela, ou,
para citar apenas um exemplo etnográfico, o artigo de Jean Langford (1999)
combinando Taussig, Baudrillard e Bhabha para analisar o modo como os práticos
ayurvédicos não ortodoxos procedem a uma apropriação mimética de elementos
soltos que seleccionam, baralham, misturam e fundem num produto compósito e
melhor descrito como simulacro. No extremo oposto, temos a crítica de Wilson
Trajano Filho (2011) à obesidade do conceito. Não faltam os argumentos e
contra-argumentos relativos à mimese enquanto dispositivo do poder colonial.
A opção tomada neste artigo é conciliatória, moderada e situada. A partir de um
objecto que suscita muitas reflexões e perguntas, que, ao representar um
equipamento sanitário com palhotas de imitação, traz inscrita em si a fórmula
dos mimetismos coloniais, procurei saber em que circunstâncias foi produzida
esta tipologia, quando foi adoptada por oposição a outros modos conhecidos de
exibir o poder na arquitectura sanitária colonial, e que razões presidiram à
sua formulação. Percorrendo um caminho do presente para o passado, encontramos
nos anos 1920 uma clara racionalização das vantagens das técnicas imitativas
como forma de atrair indígenas renitentes aos propósitos da administração
colonial. As técnicas são extensíveis às plantas arquitectónicas mas também à
própria clínica. Muito antes de Lévi-Strauss ter tematizado a eficácia
simbólica do xamã (1958), já muitos médicos e outros práticos de saúde pelo
mundo fora tinham um conhecimento empírico do processo, adoptavam-no
instrumentalmente e até dissertavam sobre ele. É o caso de alguns dos agentes
coloniais que encontramos nos arquivos portugueses, médicos e não médicos, que
em certos casos tentavam instrumentalizar esse princípio para efectivar a cura.
Para Firmino de Sant'Anna, também presente no citado congresso de Luanda, era
aceitável que médicos coloniais europeus em África, com vista a aumentar a
eficácia do acto médico, pudessem incorporar, tomar emprestado e imitar algumas
práticas e elementos indígenas associados à cura, como pantomimas, gestos,
bastões e outros instrumentos, formas coloridas e enfáticas de produzir efeito.
Partindo do princípio de que este autor só avançaria com estas afirmações num
congresso de medicina se encontrasse ambiente propício para o fazer, é de
acreditar que tais práticas não fossem de todo desconhecidas entre os médicos
coloniais, e, pelo contrário, fossem adoptadas por alguns e toleradas por
alguns outros, mesmo que reprovadas por outros mais.[20]
Acrescente-se aqui que no arquivo colonial, onde o discurso está condicionado a
constrangimentos políticos explícitos, a adopção de costumes e formatos
indígenas aparece muitas vezes acompanhada de uma retórica de distanciamento,
como que justificações pedindo absolvição. Não vão terceiros pensar que estes
europeus andam, como sugerem outros europeus, a cafrealizar-se; há uma
hierarquia que precisa de ser explicitada, face ao perigo de equidade,
igualdade, indigenização, nivelamento, simpatia que decorre da assimilação de
práticas locais. Esse medo é exorcizado pelo riso, pela caricatura, pela
explicitação do preconceito. Por outras palavras, o processo mimético e a
incorporação de simulacros de outros não implicava equidade cognitiva ou
cultural; tratava-se de um processo hierarquizado em que um dos lados parece
controlar tudo. É de perguntar que fragilidades e inseguranças subjazem a essas
afirmações, que jogo de espelhos se desenha quando os médicos europeus vão
buscar magia e eficácia simbólica a costumes africanos.
A popularidade da noção de hibridismo médico chegou aos estudos de medicina
colonial (e. g. Walker 2003; Bastos 2007b), reportando um cenário de
empréstimos e transacções entre sistemas diferentes, de formação de híbridos e
compósitos que atendiam a necessidades terapêuticas e a razões práticas, quiçá
lógicas do comércio, sujeitas finalmente aos processos políticos de
ratificação. A essa análise se presta o estudo das farmácias coloniais, das
hortas híbridas dos conventos, das transacções de Garcia de Orta, dos militares
usando os remédios da terra; das enfermarias dos hospitais de Goa, cozinhando
soluções terapêuticas; do desespero dos físicos-mores portugueses na Índia do
século XIX perante a pecha mezinheira dos seus colegas médicos indianos (Bastos
2004, 2007a). Mas o poder analítico da análise de sistemas médicos foi erodindo
face ao acumular de empiria sobre a sua instabilidade e falta de coerência
interna; em contrapartida, ganhou densidade a evidência dos processos que
articulam várias instâncias, actores e poderes que se transformam e transmutam.
Assim ocorre com os processos designados miméticos em contexto colonial ' que
aqui revelamos operarem nos dois sentidos, e sempre tangencialmente, num modo
de quase, de incompletude, de recriação da realidade, de consagração do
simulacro. Convém todavia não suspender da análise as relações de poder que
lhes subjazem, mesmo que se imaginem em fantásticas grandezas e se actualizem
em indigentes e indizíveis fragilidades. Foi nessas relações de desigualdade,
coexistindo, também, com esforços de humanização e mitigação dos seus desumanos
efeitos, que se constituiu o colonialismo e se desenvolveu a medicina colonial.
BIBLIOGFIA
AMARAL, Isabel M., 2012, A medicina tropical e o império português em África:
diálogo entre política, ciência e misticismo, em M. Paula Diogo e Isabel
Amaral (orgs.), A Outra Face do Colonialismo Português (1887-1935). Lisboa,
Colibri, 131-147.
APPADURAI, Arjun (org.), 1986, The Social Life of Things: Commodities in
Cultural Perspective. Cambridge e Nova Iorque, Cambridge University Press.
ARNOLD, David (org.), 1988, Imperial Medicine and Indigenous Societies. Oxford,
Oxford University Press.
ARNOLD, David, 1993, Colonizing the Body. Berkeley, University of California
Press.
BALANDIER, George, 1951, La situation coloniale: approche théorique, Cahiers
Internationaux de Sociologie, XI: 44-79.
BASTOS, Cristiana, 1998, Tristes trópicos e alegres luso-tropicalismos: das
notas de viagem em Lévi-Strauss e Gilberto Freyre, Análise Social, XXXIII
(146-147): 415-432.
BASTOS, Cristiana, 1999, Global Responses to AIDS: Science in Emergency.
Bloomington, Indiana University Press.
BASTOS, Cristiana, 2001, Doctors for the empire: the Medical School of Goa and
its narratives, Identities, 8 (4): 517-548.
BASTOS, Cristiana, 2002, The inverted mirror: dreams of imperial glory and
tales of subalternity from the Medical School of Goa, Etnográfica, VI (2): 59-
76.
BASTOS, Cristiana, 2004, O ensino da medicina na Índia colonial portuguesa:
fundação e primeiras décadas da Escola Médico-Cirúrgica de Nova Goa, História,
Ciência, Saúde: Manguinhos, 11 (1): 11-39.
BASTOS, Cristiana, 2005, Race, medicine and the late Portuguese empire: the
role of Goan colonial physicians, Journal of Romance Studies, 5 (1): 23-35.
BASTOS, Cristiana, 2007a, Medicina, império e processos locais em Goa, século
XIX, Análise Social, XLII (182): 99-122.
BASTOS, Cristiana, 2007b, Medical hybridisms and social boundaries: aspects of
Portuguese colonialism in Africa and India in the nineteenth century, Journal
of Southern African Studies, 33 (4): 767-782.
BASTOS, Cristiana, 2009, Borrowing, adapting and learning the practices of
smallpox: notes from colonial Goa, Bulletin of the History of Medicine, 83:
140-162.
BASTOS, Cristiana, 2010, Hospitais e sociedade colonial: esplendor, ruína,
memória e mudança em Goa, Ler História, 58: 61-79.
BASTOS, Cristiana, 2012, Palácios, palhotas e pedras recicladas:
materialidades da assistência médica colonial, em M. Paula Diogo e Isabel
Amaral (orgs.), A Outra Face do Colonialismo Português. Lisboa, Colibri, 163-
182.
BASTOS, Cristiana, Miguel Vale de ALMEIDA, e Bela FELDMAN-BIANCO, 2002,
Trânsitos Coloniais: Diálogos Críticos Luso-Brasileiros. Lisboa, Imprensa de
Ciências Sociais.
BAUDRILLARD, Jean, 1981, Simulacres et simulation. Paris, Galilée.
BHABHA, Homi, 1984, Of mimicry and man, October, 28: 125-133.
BLANCHARD, Maurice, 1923, Sur quelques facteurs moraux et matériels
d'attraction des indigènes dans les centres de consultation, Revista Médica de
Angola, II (4): 201-207.
CALLON, Michel, John LAW, e Ari RIP (orgs.), 1986, Mapping the Dynamics of
Science and Technology. Londres, Macmillan.
CARVALHO, Teresa Nobre de, 2008, Colóquios dos Simplesde Garcia de Orta:
conversas no interior da Índia, em Anabela Mendes e Gabriela Fragoso (orgs.),
Garcia de Orta e Alexander von Humboldt: Errâncias, Investigações e Diálogo
entre Culturas. Lisboa, Universidade Católica Editora, 165-174.
CARVALHO, Clara, e João de PINA-CABRAL, 2004, A Persistência da
História.Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais.
CASTELO, Cláudia, 1999, O Modo Português de Estar no Mundo: Luso-Tropicalismo
e Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961). Porto, Afrontamento.
CASTELO, Cláudia, 2007, Passagens para África.Porto, Afrontamento.
CASTELO, Cláudia, e Marcos CARDÃO (orgs.), 2014, Identidades, Hibridismos,
Tropicalismos: Leituras Pós-Coloniais de Gilberto Freyre. São Paulo, Edusp.
COOPER, Frederick, 2005, Colonialism in Question: Theory, Knowledge,
History.Berkeley, University of California Press.
CORREIA, A. C. Germano, 1923, Processos práticos de hospitalização dos
indígenas e o problema da sua assistência médica, Revista Médica de Angola, II
(4): 179-200.
DUARTE, João M. Couto, José Luis DÓRIA, e Luis MARTO, 2012, Maquetas de
estruturas de serviços de saúde no antigo Ultramar português: ciência,
arquitectura e política (colecção do Museu do IHMT), comunicação apresentada
ao Congresso Internacional Saber Tropical em Moçambique: História, Memória e
Ciência, IICT-JBT, Palácio dos Condes de Calheta, Lisboa, 24-26 de Outubro.
FANON, Frantz, 1952, Peau noire, masques blancs. Paris, Seuil.
FREYRE, Gilberto, 1961, O Luso e o Trópico: Sugestões em Torno dos Métodos
Portugueses de Integração dos Povos Autóctones e de Culturas Diferentes da
Europeia num Complexo Novo de Civilização, o Luso Tropical, Lisboa, Comissão
Executiva das Comemorações do V Centenário da Morte do Infante D. Henrique.
GROVE, Richard, 1996, Indigenous knowledge and the significance of South-West
India for Portuguese and Dutch constructions of tropical nature, Modern Asian
Studies, 30 (1): 121-143.
HACKETT, Edward J., et al., 2007, The Handbook of Science and Technology
Studies. Cambridge, MA, The MIT Press (3.ª edição).
HAVIK, Philip, 2013, Saúde pública, microbiologia e a experiência colonial: o
combate à malária na África ocidental (1850-1915), em Cristiana Bastos e
Renilda Barreto (orgs.), A Circulação do Conhecimento: Medicina, Redes e
Impérios, e-book. Lisboa, Imprensa de Ciências Sociais, 375-416.
HAVIK, Philip J., Clara SARAIVA, e José Alberto TAVIM (orgs.), 2010, Caminhos
Cruzados em História e Antropologia: Ensaios em Homenagem a Jill Dias. Lisboa,
Imprensa de Ciências Sociais.
JASANOFF, Sheila, et al. (orgs.), 1995, Handbook of Science and Technology
Studies. Londres, Sage.
KNORR-CETINA, Karen, e Michael MULKAY (orgs.), 1983, Science Observed:
Perspectives on the Social Study of Science. Londres, Sage.
KOPYTOFF, Igor, 1986, The cultural biography of things: commoditization as
process, em Arjun Appadurai (org.), The Social Life of Things. Cambridge e
Nova Iorque, Cambridge University Press, 64-91.
LANGFORD, Jean, 1999, Medical mimesis: healing signs of a cosmopolitan
quack' ,American Ethnologist, 26 (1): 24-46.
LATOUR, Bruno, 1987, Science in Action: How to Follow Scientists and Engineers
through Society. Cambridge, MA, Harvard University Press.
LÉVI-STRAUSS, Claude, 1958, Anthropologie structurale. Paris, Plon.
LOUREIRO, Rui, 2008, Garcia de Orta e os Colóquios dos Simples: observações de
um viajante sedentário, em Anabela Mendes e Gabriela Fragoso (orgs.), Garcia
de Orta e Alexander von Humboldt: Errâncias, Investigações e Diálogo entre
Culturas. Lisboa, Universidade Católica Editora, 135-146.
MACLEOD, R., e M. LEWIS (orgs.), 1988, Disease, Medicine, and Empire:
Perspectives on Western Medicine and the Experience of European
Expansion.Londres, Routledge.
MATOSO, António, 2011, Do hospital de Todos-os-Santos aos hospitais civis de
Lisboa, em Cristiana Bastos (org.), Clínica, Arte e Sociedade. Lisboa,
Imprensa de Ciências Sociais, 19-39.
MEMMI, Albert, 1973, Portrait du colonisé, précédé du portrait du colonisateur.
Paris, Payot.
MILHEIRO, Ana Vaz, 2012, A arquitectura dos Gabinetes de Urbanização Colonial
em Moçambique (1944-1974), comunicação apresentada ao Congresso Internacional
Saber Tropical em Moçambique: História, Memória e Ciência, IICT-JBT, Palácio
dos Condes de Calheta, Lisboa, 24-26 de Outubro.
MILLER, Daniel, 2008, The Comfort of Things. Cambridge, Polity Press.
NAIPAUL, V. S., 1967, The Mimic Men.Nova Iorque, Macmillan.
PEARSON, M. N., 1996, First contacts between Indian and European medical
systems: Goa in the sixteenth century, em D. Arnold (org.), Warm Climates and
Western Medicine. Amesterdão, Rodopi, 20-41.
PORTO, Ângela, et al., 2008, História da Saúde no Rio de Janeiro: Instituições
e Patrimônio Arquitetônico (1808-1958). Rio de Janeiro, Editora Fiocruz.
PORTO, Nuno, 2007, From exhibiting to installing ethnography: experiments at
the Museum of Anthropology of the University of Coimbra (Portugal), 1999-2005,
em Paul Basu e Sharon Macdonald (orgs.), Exhibition Experiments. Oxford,
Blackwell, 175-196.
PORTO, Nuno, 2009, Modos de Objectificação da Dominação Colonial: O Caso do
Museu do Dundo, 1940-1970. Lisboa, Fundação Calouste Gulbenkian.
RIBEIRO, Pedro Lau, 2012, As missões médicas nas colónias portuguesas:
expectativas e repercussões na medicina tropical (1902-1935), em M. Paula
Diogo e Isabel Amaral (orgs.), A Outra Face do Colonialismo Português. Lisboa,
Colibri, 149-162.
RODRIGUES, Eugénia, 2007, Uma celebrada negra, que se chamava Joana': rituais
africanos e elites coloniais em Quelimane no Século XVIII, Povos e Culturas,
11: 131-154.
ROQUE, Ana Cristina, 2001, Breves noções sobre a medicina cafreal do districto
de Sofala ou sobre o conhecimento que os portugueses tinham dos usos e virtudes
das plantas e ervas medicinais na costa sul-oriental de África na segunda
metade do século XIX,Anais de História de Além-Mar, II: 211-272.
ROQUE, Ana Cristina, 2012, As histórias que ficaram por contar: saúde,
crescimento urbano e ambiente em Moçambique na viragem do século XIX,
comunicação apresentada ao Congresso Internacional Saber Tropical em
Moçambique: História, Memória e Ciência, IICT-JBT, Palácio dos Condes de
Calheta, Lisboa, 24-26 de Outubro.
ROQUE, Ricardo, 2004, Sementes contra a varíola: Joaquim Vás e a tradução
científica das pevides de bananeira brava em Goa, Índia (1894-1930), História,
Ciências, Saúde: Manguinhos, 11: 183-222.
ROQUE, Ricardo, 2010, Headhunting and Colonialism: Anthropology and the
Circulation of Human Skulls in the Portuguese Empire. Nova Iorque, Palgrave
Macmillan.
ROQUE, Ricardo, 2011, Etnografias coloniais, tecnologias miméticas: a
administração colonial e os usos e costumesem Timor Leste no final do século
XIX, em Kelly Silva e Lucio Sousa (orgs.), Ita Maun Alin, O Livro do Irmão
Mais Novo: Afinidades Antropológicas em Timor-Leste. Lisboa, Colibri, 155-168.
SAAVEDRA, Mónica, 2004, Percursos da vacina na Índia portuguesa, séculos XIX e
XX, História, Ciências, Saúde: Manguinhos, 11: 165-182.
SANT'ANNA, J. Firmino, 1923, O problema da assistência médico-sanitária ao
indígena em África, Revista Médica de Angola, II (4): 73-200.
SANTOS, F. Ferreira dos, 1923, Assistência médica aos Indígenas e processos
práticos da sua hospitalização, Revista Médica de Angola, II (4): 51-71.
SOUZA, Christiane, e M. Renilda BARRETO (orgs.), 2011, História da Saúde na
Bahia: Instituições e Patrimônio Arquitectônico (1808-1958).Barueri, SP, Ed.
Manole, e Rio de Janeiro, Editora Fiocruz.
STOLER, Ann Laura, 1995, Race and the Education of Desire. Durham, Duke
University Press.
STOLER, Ann Laura, 2002, Carnal Knowledge and Imperial Power. Berkeley,
University of California Press.
STOLLER, Paul, 1995, Embodying Colonial Memories: Spirit Possession, Power, and
the Hauka in West Africa. Nova Iorque, Routledge.
SYED, Ishrat, e Kalpana SWAMINATHAN, 2009, Garcia de Orta's Cholera morbus,em
Anabela Mendes (org.),Garcia de Orta and Alexander von Humboldt: Across the
East and the West. Lisboa, Universidade Católica Editora, 59-76.
TARDE, Gabriel, 1890, Les lois de l'imitation. Paris, Félix Alcan.
TAUSSIG, Michael, 1993, Mimesis and Alterity. Nova Iorque, Routledge.
THARAKAN, Koshy, e Alito SIQUEIRA, 2009, Science of nature: Garcia de Orta as
a philosopher of science, em Anabela Mendes (org.), Garcia de Orta and
Alexander von Humboldt: Across the East and the West. Lisboa, Universidade
Católica Editora, 31-38.
THOMAZ, Omar Ribeiro, 2002, Ecos do Atlântico Sul.Rio de Janeiro, Editora da
UFRJ.
TRAJANO FILHO, Wilson, 2011, A mimese e a obesidade conceitual: uma crítica
etnográfica, comunicação apresentada no seminário Mimetismos Coloniais no
Império Português, Lisboa, Instituto de Ciências Sociais, 24 de março.
WALKER, T., 2003, Remedies from the Carreira da Índia: Asian influences on
Portuguese medicine during the age of Enlightenment, The Portuguese Studies
Review, 9 (1-2): 170-193.
ZAMPARONI, Valdemir, 2012, As dores e os prazeres do corpo: médicos e
feiticeiros em Angola setecentista, em Actas del VIII Congreso Iberico de
Estudios Africanos. Madrid, Universidad Autonoma de Madrid, disponível em
<http: / / www.ciea8.org / ocs /
index.php?conference=CIEA2012&schedConf=pan10&page=paper&op=view&path%5B%5D=39>
(consultado em fevereiro de 2014).
UPANOV, Ines G., 2008, Conversion, illness and possession: Catholic
missionary healing in early modern South Asia, disponível em <http: / /
www.ineszupanov.com / publications / ConversionIllnessandPossessionfinal.pdf>
(consultado em fevereiro de 2014).
NOTAS
[1] Este artigo resulta de uma apresentação feita no seminário
Mimetismos Coloniais no Império Português (25 de Março de 2011), no âmbito do
projeto Mimetismo Colonial na Ásia e África Lusófonas, apoiado pela Fundação
para a Ciência e a Tecnologia (PTDC / CS-ANT / 101064 / 2008). Agradeço a
Ricardo Roque, coordenador do projecto, e aos restantes membros da equipa,
Tiago Saraiva, Ângela Xavier, Carmo Daun e José Moura Ferreira, bem como aos
demais presentes no seminário, os comentários e contribuições dadas. Os
materiais apresentados foram recolhidos em projectos anteriores e alvo de
discussões em diversos contextos, tendo todos eles contribuído para a análise
apresentada neste artigo.
[2] O tema das continuidades colonialismo-cooperação mobiliza-me desde os
anos 1980, quando estudava a epidemia de sida e me dei conta do modo como as
linhas de assistência e vigilância sanitária em África se sobrepunham aos elos
da antiga assistência colonial (Bastos 1999); a questão era ao tempo pouco
popular nas ciências sociais, mas desde então tem vindo a espalhar-se o
interesse nos nexos entre os circuitos coloniais e os circuitos da assistência
internacional.
[3] Várias peças do espólio do IHMT, incluindo as maquetes, foram objecto
de uma exposição muito visitada no decorrer do seu 110.º aniversário e do
primeiro Encontro Luso-Brasileiro de História da Medicina Tropical, que
ocorreu entre 21 e 24 de Abril de 2012 e cujo tema era A medicina tropical nos
espaços nacionais, coloniais e pós-coloniais (sécs. XIX e XX).
[4] A literatura crítica sobre a obra de Freyre é quase tão ampla como a
própria obra; para uma análise da adopção das doutrinas de Freyre pelo regime
português, veja-se Castelo (1999); para uma leitura crítica do conjunto da
obra, veja-se Castelo e Cardão (2014).
[5] Agradeço a Carmo Daun, então bolseira do projecto, a chamada de
atenção para o blogue.
[6] Dr.ª Patricia Lopes, comunicação pessoal.
[7] Devo ao arquitecto João Couto Duarte uma preciosa troca de informações
a este respeito.
[8] Esta exposição e em particular as maquetes são neste momento alvo de
estudo pormenorizado no âmbito do doutoramento do arquitecto João Couto Duarte;
o seu resgate faz parte de um esforço e empenhamento no estudo e conservação
por parte do Dr. José Luis Dória e do artista e restaurador Luís Marto (ver
Duarte, Dória e Marto 2012).
[9] Diário do Governo, 6 de Fevereiro de 1944, p. 1167. Trata-se de um
exposição ocorrida no Instituto Superior Técnico, sobre a qual existe muito
pouca documentação. Agradeço ao arquitecto João Couto Duarte esta informação,
que faz parte da sua pesquisa de doutoramento.
[10] Diário do Governo, I série, n.º 38, de 21 de Fevereiro de 1945, p. 95.
[11] Diário do Governo, I série, n.º 38, de 21 de Fevereiro de 1945, p.
96.
[12] Diário do Governo, I série, n.º 38, de 21 de Fevereiro de 1945, p. 97.
[13] Diário do Governo, I série, n.º 38, de 21 de Fevereiro de 1945, p.
103.
[14] Agradeço aos colegas Philip Havik, do Instituto de Investigação
Científica Tropical (IICT), e Wilson Trajano Filho, da Universidade de Brasília
(UnB), a troca de impressões a este respeito.
[15] Assistência aos Indígenas da Colónia da Guiné, Imprensa Nacional da
Guiné, 1933, pp. 4-5.
[16] Assistência aos Indígenas da Colónia da Guiné, Imprensa Nacional da
Guiné, 1933, p. 6.
[17] Assistência aos Indígenas da Colónia da Guiné, Imprensa Nacional da
Guiné, 1933, pp. 6-7.
[18] Agradeço às colegas M. de Fátima Nunes, da Universidade de Évora, e
Madalena Esperança Pina, da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Nova
de Lisboa, a troca de impressões sobre este assunto.
[19] Nos estudos entretanto iniciados, Duarte, Dória e Marto (2012) abordam
esta questão e anotam que, segundo o próprio Ferreira dos Santos, em 1931
existiam 42 enfermarias regionais, 28 postos sanitários de 1.ª (com enfermeiro
europeu) e 35 de 2.ª (com enfermeiro africano). Não se sabe ainda quantos se
configuravam com este modelo, mas numa primeira fase muitos o seguiram. Poucos,
todavia, chegaram aos dias de hoje.
[20] Se recuarmos um pouco mais no tempo e nos deslocarmos entre ambientes
coloniais, damo-nos conta que os jesuítas da Índia no século XVII descritos por
Ines upanov (2008) eram adeptos destes métodos e, como eles, também o eram
muitos outros missionários e agentes do poder em deslocação por mundos com
materialidades e significados diferentes daquele de onde provinham. A imitação
de práticas, símbolos e elementos da cultura local é um velho mecanismo de
comunicação e tem sido usado em diferentes contextos e diferentes relações de
poder.
[Nota] Por opção da autora, o artigo é publicado usando a ortografia anterior à
estabelecida pelo Acordo Ortográfico de 1990.