Seria preciso que a selvageria se me pegasse: Afonso de Castro e a festa das
cabeças em Timor colonial
Seria preciso que a selvageria se me pegasse: Afonso de Castro e a festa das
cabeças em Timor colonial
"I'd have to be infected by the savagery": Afonso de Castro
and the "feast of the heads" in colonial Timor
Ricardo Roque*
*Instituto de Ciências Sociais, Universidade de Lisboa, Portugal. E-mail:
ricardo.roque@ics.ul.pt
ABSTRACT
In this article I explore the colonial trade between civilization and
barbarity by drawing on the case of Governor Afonso de Castro's controversial
participation in the so-called feast of the heads, a customary ceremony
associated with the celebration of headhunting raids and war victories in East
Timor, in 1861. I explore the colonial mimicry of the governor in this ritual
savagery from a double and interconnected perspective. On the one hand, I
approach mimicry as a felt, practical, relation to space, a mode of a subject's
yielding into circumstances marked by a tension between assimilation to the
surroundings and the creation of difference. On the other hand, I approach
mimicry as part of a parasitic rationality that turns the mimetic action of
being subject to alterity into a productive political gesture of abuse and
extraction of the energies of headhunting rites. Therefore, I argue that
colonial mimicry finds in parasitism the expression of its political
productivity.
Keywords: mimesis, parasitism, lorosa'e, headhunting rites, Portuguese
colonialism, East Timor.
DUAS NARRATIVAS E UMA CARTA JUSTIFICATIVA[1]
No dia 23 de junho de 1862, o governador do distrito de Timor, capitão de
infantaria Afonso de Castro, remeteu uma extensa carta para Lisboa como
resposta a reprimendas que lhe foram dirigidas, em anterior correspondência de
caráter confidencial, pelo então ministro e secretário dos Negócios da Marinha
e Ultramar, Carlos Bento da Silva.[2] A portaria confidencial a que dava
resposta incorporava também opiniões do próprio rei de Portugal, à época o
jovem D. Luís. O tema dessa correspondência confidencial era incómodo e
delicado. O governador justificava-se perante críticas do ministro e da
autoridade real a certos atos da sua administração, ocorridos durante as
celebrações da vitória portuguesa sobre os reinos timorenses rebeldes de
Lacló e Ulmera, no ano de 1861.[3] Estendendo-se de março a setembro desse ano,
a guerra levara o governador, conforme era costume na colónia, a recorrer ao
auxílio de guerreiros timorenses. Carente de soldados do exército convencional,
o governo português em Timor socorria-se, desde tempos antigos, de guerreiros
nativos (designados arraiais e moradores), que cumpriam serviço militar
voluntário na forma de tributo ao governo, nas guerras dos portugueses contra
os seus inimigos locais. Castro produziu diversos ofícios e relatórios sobre
essa campanha de 1861, os quais remeteu inclusos na prolífica documentação
sobre os eventos enviada então para Lisboa. A portaria confidencial expedida do
Ministério resultava da leitura das autoridades imperiais de um desses
documentos sobre a guerra. Num dos seus textos, Castro terá descrito, em
pormenor, a sua vivência direta de ritos de caça de cabeças promovidos pelas
tropas auxiliares timorenses, em Díli, sede da colónia, em setembro desse ano.
Em causa estava o facto de Afonso de Castro ter não apenas tolerado como também
participado, em pessoa, num bárbaro ritual designado no discurso colonial da
época por festa ou dança das cabeças, cerimónia que, na sua designação
nativa em língua tétum, recebia também o nome de dança ou rito do lorosa'e.
Justifica-se o governador ' lê-se na súmula descritiva do ofício redigida
então pelos seus recetores nos gabinetes do Ministério ' por ter permitido q
[ue] dentro da Praça de Díli tivesse lugar a bárbara solenidad[e] da = Festa
das cabeças =.[4] O conteúdo exato da carta de admoestação expedida para Timor
em janeiro de 1862 é, por enquanto, desconhecido; a dita portaria confidencial
não sobrevive nos atuais arquivos.[5] Sabemos apenas do que tratava e o que
continha pela resposta defensiva remetida de Díli por Castro. O governador
iniciava assim essa carta justificativa:
Com toda a submissão e respeito recebi a suave admoestação que em
nome de Sua Majestade V. Ex.ª se serve fazer-me relativamente à
solenidade que aqui teve lugar no mês de setembro último [1861] e a
que se chama festa_das_cabeças, e que Sua Majestade quer que nunca
mais se consinta dentro da Praça [Díli].
Permita-me V. Ex.ª que eu justifique o meu procedimento que poderá parecer
inculcar da minha parte sentimentos pouco em harmonia com as ideias de
civilização e piedade de que devo dar o exemplo ao povo que tenho a honra de
governar.
O ato a que assisti, forçado por imperiosas circunstâncias, que logo
mencionarei, repugna-me como deve repugnar a todo o homem civilizado. Seria
preciso que a selvageria destes povos pelo contacto em que vivo com eles se me
pegasse para assistir de livre vontade a cenas tais como a que descrevi a V.
Ex.ª unicamente como historiador.[6]
Que cenas descritas por Castro unicamente como historiador teriam suscitado
a indignação do rei e as invetivas críticas de Lisboa? Que palavras e
documentos teriam chegado ao conhecimento do ministro, capazes, agora, de
obrigar o governador a alongar-se na justificação dos seus atos? E, a ser
verdade, quais os motivos deste célebre governador de Timor ' cantado na
literatura vindoura como pioneiro modernizador e civilizador da colónia ' para
sucumbir à selvageria?
A resposta a estas questões implica que comecemos por averiguar a história dos
textos através dos quais a festa das cabeças se foi tornando visível e
legível nos circuitos da correspondência trocada entre Díli e Lisboa. Foi nos
vários escritos de Castro ' no vaivém de epístolas em lento fluxo nos circuitos
informativos da administração do império, nos trajetos censurados e truncados
entre as palavras que seguiam em correspondência e aquelas que partiam para
publicação ' que a festa tomou forma como evento e como problema colonial. É da
festa das cabeças nesses circuitos textuais que trato de seguida.
Uma notícia histórica sobre usos e costumes, 1860
Afonso de Castro (1824-1885) governou o distrito de Timor entre 1859 e 1863. A
sua fama como governador dinâmico, visionário e modernizador tem atravessado a
literatura sobre Timor, praticamente até à atualidade. Castro celebrizou-se por
dinamizar a produção de café em regime de plantação e por lançar as bases
formais de uma efetiva organização administrativa do território, abrindo
caminho a uma colonização de laivos modernos. Central à sua reputação foi
também a sua obra publicada acerca de Timor, e baseada em experiência e
conhecimento adquiridos in loco, no decurso da sua ação governativa. Afonso de
Castro é, com efeito, o mais influente autor português oitocentista sobre
Timor, a ponto de as suas palavras sobre a história e os usos e costumes
timorenses se encontrarem reproduzidas, citadas, copiadas, ou de algum modo
referidas, na literatura sobre Timor-Leste até bem dentro do século XX. O seu
livro As Possessões Portuguezas da Oceânia, editado em Lisboa em 1867, e dois
artigos em francês, editados em 1862 e 1864 na revista holandesa Tijdschrift
Voor Indische Taal-, Land- En Volkenkunde, especializada em história e
etnografia indo-asiática, tornaram-no referência pioneira e incontornável na
historiografia da presença portuguesa na ilha, quer em Portugal quer no
estrangeiro (Castro 1862, 1864, 1867).
Antes de alcançarem publicação, os escritos de Castro sobre história e costumes
de Timor circularam em âmbito epistolar restrito, a título de ofícios e
relatórios, na qualidade de correspondência oficial do governador para o seu
superior hierárquico direto. Nesse contexto histórico (Timor usufruía então de
um breve estatuto como província autónoma), esse superior correspondia à figura
do ministro do Ultramar, em Lisboa.[7] Foi num desses ofícios que o episódio de
envolvimento português na festa das cabeças chegou ao conhecimento das
autoridades imperiais. De facto, foram duas as descrições dessa cerimónia que
chegaram a Lisboa, assinadas por Afonso de Castro. A primeira, datada de 1860,
relatava a história do ritual em segunda mão, com base em indicações de um
informante timorense. A segunda, de 1861, descrevia a cerimónia testemunhada e
participada diretamente por Afonso de Castro, após a campanha contra Lacló.
A primeira descrição da festa das cabeças foi assinada por Castro e enviada
para Lisboa antes dos eventos da guerra de Lacló e Ulmera. Em novembro de 1860,
na expetativa de granjear publicação oficial, Afonso de Castro fez chegar ao
ministro uma resenha histórica de sua autoria acerca da colonização portuguesa
de Timor, acompanhada de uma notícia sobre usos e costumes timorenses.[8] Na
introdução, Castro solicitou ao governo de Lisboa a publicação integral da sua
notícia, reclamando para ela amplo valor documental para o conhecimento da
história e dos costumes da colónia. O Ministério atendeu ao pedido. Porém, as
autoridades optaram por encaminhar parte apenas do texto para publicação na
secção não oficial dos Anais do Conselho Ultramarino, na qual saiu impressa em
1863 com o título Notícia sobre os usos e costumes dos povos de Timor (Castro
1863). Esta publicação constituía uma versão substancialmente reduzida, e
visivelmente censurada, do manuscrito original: entre as passagens truncadas
inclui-se a descrição que Castro efetuou do histórico costume da festa das
cabeças em Díli.
Este primeiro relato da festa das cabeças jamais será publicado em língua
portuguesa. Em As Possessões Portuguezas da Oceânia, editado pela Imprensa
Nacional em 1867, em Lisboa, Castro não voltaria a fazer referência à prática
do rito na história colonial de Timor ' sinal, porventura, dos problemas com
que se confrontara na divulgação desse costume colonial aos leitores
portugueses em 1861. Para mais, fora do espaço público nacional, Afonso de
Castro não se inibiu (nem foi inibido) de relatar a história da festa das
cabeças. Longe do olhar e do escrutínio dos seus superiores, Castro publicaria
uma versão revista ' e um pouco mais suavizada ' dessa sua primeira descrição
da festa das cabeças, em 1862, em francês, na revista holandesa Tijdschrift,
num artigo em que todo o ofício original de 1860 sobre usos e costumes
reaparece, praticamente sem cortes (Castro 1862: 506). Este mesmo artigo inclui
outras secções que seriam retiradas ou censuradas da versão portuguesa do
texto, nomeadamente a extensa secção histórica introdutória e certas
referências mais críticas à administração portuguesa na ilha. Ainda assim,
poderá essa publicação não refletir ainda a reação de Castro ao juízo crítico e
censório dos seus congéneres metropolitanos. O artigo dos Tijdschrift data de
Díli, 28 de agosto de 1860, o que indica que o texto terá sido concluído
cerca de dois meses após a primeira notícia enviada para Portugal e, portanto,
bem antes ainda de receber em Timor o correio contendo as repreensões de
Lisboa.
A censura ministerial do relato histórico de Castro ' na sua passagem para o
domínio público, fora dos circuitos de informação administrativa ' é um
primeiro indício do desconforto das autoridades com a complacência dada à
cerimónia pelas autoridades portuguesas, em Timor; indício da perceção, em
Lisboa, dos perigos do contacto entre selvajaria nativa e governação colonial,
primeiros sinais do drama mimético, como abaixo direi, suscitado pela imersão
portuguesa no ritual timorense. Com efeito, como continuaremos vendo, a
textualização da experiência da guerra e do ritual, feita pelo governador, por
um lado, e as reapropriações e depurações dessa textualização original por
parte das autoridades imperiais, por outro lado, indiciam os complexos
problemas simbólicos e políticos que a vivência concreta da festa (a par da
exposição pública e textual dessa vivência) gerava na identidade dos
colonizadores portugueses. Estes trânsitos textuais ' entre público e privado,
entre exposição e censura ' são, por conseguinte, eles próprios, parte
integrante das tensões que se enunciam na relação mantida com a selvajaria do
rito timorense. Adiante no artigo explicitarei o modo como esta textualidade
permite ler uma relação colonial de mimetismo estabelecida, no terreno, com os
gestos e as matérias do meio envolvente. Mais adiante, por fim, na secção
conclusiva, esboçarei uma discussão teórica, amplificando a discussão das
implicações analíticas deste caso para a literatura sobre mimese e
colonialismo. Regressemos, agora, aos circuitos dessa textualização; retomemos
os trâmites das cartas e palavras de Afonso de Castro.
Nesse primeiro relato, de 1860, Castro teve como fonte a voz autorizada do rei
Timor Alferes-mór da província de Belchior, homem de idade e bastante
inteligente, cujo nome não era revelado. Esta descrição, portanto, não apelava
à autoridade de Castro como participante ou observador direto dos ritos
guerreiros. Castro terá recolhido desse rei timorense informação sobre o
costume de realizar-se sempre em Díli, no final de grandes campanhas, o rito
do lorosa'e: as guerras da praça [i. e., promovidas pelo governo de Díli]
terminaram sempre, contava Castro, por fortes multas impostas aos vencidos, e
por uma festa selvagem dos vencedores, a que se chama ' festa das cabeças. A
afirmação dá a entender que, em caso de vitória das armas do governo, a
celebração de festas das cabeças na capital era uma prática costumeira,
consentida e participada por anteriores governadores, muitos anos antes da
chegada de Afonso de Castro. Neste ponto, Castro aproveitava para informar
Lisboa de que o seu antecessor (governador Luís de Augusto Macedo) havia
tentado (sem êxito) proibir, por macabra, a prática de pontapeio das cabeças
decapitadas. Apenas esta prática e não mais do que ela. Isto é: a ocorrência
efetiva do rito, na sua globalidade, não tinha sido alvo até então de qualquer
regulação ou proibição.[9] Para mais, destacada na mesma descrição de Castro
estava evidência de que o próprio governador português jogava um papel
tradicional na cerimónia, assistindo à dança de pontapeio dos restos humanos e
presidindo à distribuição de insígnias de decapitadores aos timorenses mais
bravos, designados, em tétum, por assuai. Reunidas todas as forças do arraial
vencedor na Praça de Díli, no dia determinado para a festa, escrevia Castro ao
ministro, trazem os Assuai [bravos, guerreiros, cortadores de cabeças] as
cabeças que cortaram ao inimigo, e colocam-nas no meio de um largo, obrigando-
se os prisioneiros, homens, mulheres ou crianças, a sentarem-se em roda
daqueles repugnantes troféus. E prosseguia: O governador sai da sua
residência, acompanhado pelo seu pessoal, e toma posição junto às cabeças.
Então os assuais aproximam-se, dançam e cantam em volta das cabeças dos
inimigos, nas quais não param de dar pontapés.
A seguinte função cerimonial do governador consistia em recompensar os
guerreiros, distribuindo aos mais bravos as insígnias de assuai ' discos ou
luas de ouro e de prata. Acabada a distribuição, terminava Castro,
retira-se o governador, dando o destino que lhe parece aos
prisioneiros, e ordens para tirar do largo as cabeças, que são
espetadas em paus e colocadas fora da Praça numa iminência para de
todos serem vistas. Eis em que consiste a festa das cabeças a que os
timores ligam uma grande importância e seria coisa que muito os
desgostaria o acabar com esta cena repugnante.
Este cenário, portanto, não apresentava o governador como um elemento externo e
passivo; antes o descrevia como um agente integrante do rito que interferia
produtivamente na cerimónia, a partir de um lugar ritualmente previsto. Por
conseguinte, Castro apresentava uma situação na qual o governador se ajustava e
confundia com o ambiente reconhecidamente selvagem que o rodeava. Pois muito
embora se esforçasse por atribuir o curso do rito à alteridade imaginada dos
povos timorenses, não era apenas alteridade que o seu relato revelava. Pelo
contrário: descrevia um espaço de relações onde as fronteiras entre o Eu e o
Outro pareciam esbater-se, na prática. Governadores, oficiais e guerreiros
engajavam-se em uníssono na performance de um mesmo ritual. A distinção entre
governador e governado, entre civilização e barbárie, parecia esbater-se no
caos ruidoso e violento de uma paisagem de selvajaria, volatilizando-se na
coreografia ritual. Perante o facto, Castro confessava inconveniência em pôr
termo à cerimónia, prenunciando a argumentação pragmática e parasitária que,
como veremos, desenvolveria, meses mais tarde, na resposta dada às críticas de
Lisboa. Embora repugnante, a grande importância que esta cerimónia possuía
para os timorenses era a razão alegada para que o governador se rendesse a essa
mesma importância, abafando sentimentos de repúdio. Mas esta justificação
comunica também um sentido de ameaça ontológica à condição colonizadora dos
portugueses, como que prevendo os efeitos que a sua imagem literária da festa
poderia despertar nos leitores metropolitanos.
Em 1861, outra descrição chegaria a Lisboa, de novo ficando restrita, em língua
portuguesa, aos circuitos confidenciais da administração. Esta, contudo, não
consistia já na narrativa de um costume antigo, de tempos passados, assente na
autoridade da distância histórica e em evidência indireta reportada por um rei
Timor. Afonso de Castro expediu então para Lisboa um segundo relato da festa
na sequência da vitória sobre Lacló, no centro da qual estava a sua experiência
pessoal e vivida da cerimónia, na praça de Díli, a 12 de setembro de 1861.
Conforme se depreende da posterior carta justificativa (reação de Castro à
reação de Lisboa), foi especialmente a leitura deste segundo relato, feito na
primeira pessoa e reportando acontecimentos contemporâneos, que levou a que o
rei e o ministro repreendessem o governador, dando instruções categóricas para
que a cerimónia nunca mais se repetisse.
Uma notícia sobre os festejos de uma vitória portuguesa, 1861
No dia 12 teve lugar a festa chamada das cabeças da qual eu farei a
V. Ex.ª uma ligeira descrição para dar ideia dos costumes destes
povos. Às oito horas formaram-se as Companhias irregulares da Praça
em força de perto de 200 homens no largo de Díli, e ao lado do arco
de triunfo, que se tinha levantado naquele largo, no alto do qual se
liam em grandes carateres estes dois versos:
Distintos vós sereis na lusa história
Pelos louros que ganhastes na vitória.
Em frente do arco e ao lado de uma barraca colocou-se uma guarda
oficial do Batalhão. Às nove horas dirigi-me com alguns oficiais para
a barraca e coloquei-me em frente do pavilhão real que ali se achava
levantado. Nas barracas tomaram lugar muitas Senhoras de Díli. Dei
então ordem para entrar o arraial [força irregular, guerreiros
timorenses], o qual avançou da seguinte forma.
À frente de cinquenta cavalos montados pelos chefes vinha o Alferes
Xavier, e atrás deste esquadrão o arraial com as suas bandeiras. Os
assuais (valentões) de espada desembainhada na mão direita, a
espingarda na esquerda dançando, formando mil trejeitos e carantonhas
e dando grandes gritos, que eram correspondidos pelo arraial. Chegado
o esquadrão a trinta passos de mim pôs pé a terra e fez-me o seu
cumprimento, o arraial em massa colocou-se na minha frente, e então
o Alferes Xavier levantou três vivas a Sua Majestade, à Nação e ao
Governador, que foram correspondidos pelo arraial.
Até aqui o espetáculo tinha tudo de fantástico e era interessante,
mas daqui por diante o espetáculo torna-se repugnante e horrível para
um europeu.
Terminados pois os vivas, as companhias de moradores [companhia de
soldados nativos] romperam as fileiras e tomaram parte nas danças, o
arraial fez círculo e dois assuais de Caiman avançaram tendo um deles
uma cabeça na mão agarrada pelos longos cabelos que ainda conservava.
O meu Secretário entregou então a dois Comandantes de moradores duas
canas, na ponta das quais estavam atados dois lenços encarnados e
dois círculos de prata a que se chamam luas. Os Comandantes pegaram
cada um na sua cana e começaram a saltar em frente dos assuais, que
saltando também e fazendo carantonhas procuravam desviar o corpo.
Depois de alguns saltos os Comandantes arremessaram as canas, os
assuais agarraram-nas, tiraram as luas que penduraram no pescoço e
vieram colocar a cabeça ao pé do pavilhão real e isto se repetiu doze
vezes que tantas eram as cabeças cortadas. Vieram depois os assuais
que tinham feito prisioneiros, e que eram três mulheres, dois homens
e uma criança, e estes assuais depois de receberem as luas colocaram
os prisioneiros ao pé das cabeças. Terminado isto entraram os
tabedaes [grupos de dançarinas / os timorenses] para dançar em roda
das cabeças e então via-se uma coisa que V. Ex.ª terá dúvida em
acreditar e com que vai ficar horrorizado: Um grande valentão que
saltava em roda do tabedaes, agarrou a cabeça que havia cortado e
segurando-a pelos cabelos com os dentes começou como um possesso a
dançar com aquele troféu na boca!
V. Ex.ª pode avaliar por este facto o estado de selvajaria em que se
acha este povo![10]
Esta poderosa e vívida descrição foi redigida por Afonso de Castro dois dias
apenas após a sua vivência da cerimónia. Através destas palavras, o governador
comunicava ao ministro a efervescência coletiva sentida nesse dia 12 de
setembro, quando, em Díli, os festejos oficiais da vitória das forças
portuguesas decorreram sob a égide do seu governo, incluindo, num misto de
pompa e horror, a festa das cabeças. A festa surgia assim como um ato do
governo colonial, cerimónia contígua e justaposta à ocasião festiva programada
pela administração após a campanha contra Lacló. Esta conjunção festiva fazia
do governador Afonso de Castro, dos funcionários europeus, dos Comandantes,
participantes efetivos da cerimónia. Contudo, o relato mostra também a
preocupação do governador em descrever o momento estabelecendo fronteiras;
mostra o seu esforço em demarcar, no texto, os momentos em que, durante o
ritual, a sua posição enquanto europeu se distinguia da amálgama do rito
propriamente timorense. O Eu colonial esforçava-se assim por afastar de si a
selvajaria imputada ao Outro em que, não obstante, se via inevitavelmente
imerso.
Em Lisboa, a notícia de uma retumbante vitória portuguesa foi recebida com
satisfação ' muito embora os detalhes dos festejos tenham sido convenientemente
ocultados do olhar público. Os cerimoniais adotados em Díli causaram visível
perturbação entre as autoridades. Em 11 de fevereiro de 1862, o Diário da
Câmara dos Senhores Deputados deu brevíssimo registo das mais satisfatórias
notícias chegadas de Timor: Os rebeldes haviam sido completamente debelados.
Escrevia-se: Em Díli celebrou-se com muitas festas esta vitória das armas
portuguesas (Anónimo 1862). Neste mínimo apontamento oficial, a festa das
cabeças passava a coberto de um eufemismo (com muitas festas); a sua
existência suavizava-se a ponto de eclipsar-se do registo histórico formal.
Mas, em privado, as autoridades imperiais foram mais verbosas e menos mansas,
como se presume da correspondência admoestatória dirigida a Afonso de Castro.
Este último, por seu lado, enquanto a indignação dos superiores discretamente
se erguia em Lisboa, foi dando em Timor outra difusão aos seus escritos. À
semelhança do que fizera com a anterior descrição do rito (de 1860), Castro
encaminhou uma variante mais literária e algo autocensurada da segunda
descrição para a revista holandesaTijdschrift, publicando-a em francês enquanto
parte de um artigo mais longo a que chamou Une rébellion à Timor en 1861
(Castro 1864).[11] Castro optou aqui pela distância da terceira pessoa (o
governador) para referir-se à sua parte nos festejos da vitória. Foi assim em
tom quase jornalístico que relatou esses mesmos ritos do lorosa'ea que presidiu
em Díli, em setembro de 1861. Com pompa, sob um arco do triunfo erguido
especialmente para o efeito, os montanheses e os irregulares desfilaram com
as cabeças cortadas perante o governador, rodeado do seu estado-maior e
algumas damas, que observavam com deleite o momento, no remanso de uma
tenda (1864: 402-403). Neste texto daTijdschrift, Castro descreveu a festa
das cabeças como cenas de uma fantasia excêntrica, um ato exótico de
selvagens, ao qual o governador assistia como mero espectador, atraído pelo
fascínio magnético da alteridade extrema ' como se, algures na Europa, se visse
defronte das extravagâncias de um zoo animal ou de um circo de bizarrias
humanas: Um Europeu maravilhar-se-ia, escrevia adiante sobre o arranjo dos
guerreiros para a campanha, ao ver estas vestimentas coloridas, estes
panachesflutuando sobre cabeleiras fabulosas, este arsenal de armas diversas
[ ] (1864: 404).
Em ambas as variantes deste segundo relato, relativo a festejos nos quais
Castro diretamente participou, a figura do governador apresenta-se-nos passiva,
silenciosa, vestindo a pele de um espectador distante. Ambos os registos desta
descrição direta contrastam, assim, com aquela outra, a descrição histórica,
que primeiro foi enviada ao ministro, e na qual, recorde-se, o governador (em
abstrato) aparecia como agente do ritual, totalmente implicado no meio,
presidindo à dança e distribuindo as recompensas aos guerreiros. Em qualquer
dos casos, uma coisa é certa ' e este é um importante ponto a reter desta
necessária excursão analítica pelas subtilezas das textualizações diversas da
festa das cabeças: onde quer que fosse que os textos de Afonso de Castro
localizassem o governador e os oficiais europeus no espaço da festa das
cabeças, não havia modo de evitar nos seus leitores a impressão de que o
governador era parte integrante da selvajaria timorense. Não existia maneira de
estar fora. Não havia forma de evitar ser percebido como estando possuído pelas
circunstâncias do ritual; não havia forma, enfim, de escapar a uma relação de
mimetismo. Ao apenas tomar lugar no espaço da festa ' permitindo-a como
governador, assistindo a ela como espectador, ou reclamando um lugar como
historiador ' Castro parecia criar entre civilizado e selvagem
continuidades de substância, onde descontinuidades apenas eram moralmente
admissíveis. Na festa das cabeças, o europeu civilizado ameaçava diluir-se
num meandro de topos selvagens ' fosse qual fosse a qualidade (governador,
militar, chefe de guerra, espectador, observador, ou historiador) em que
ocorria a sua participação.
MIMETISMO E PARASITISMO NA FESTA DAS CABEÇAS
Em qualquer das suas variantes, as textualizações da festa das cabeças
redigidas por Afonso de Castro eram gestos perigosos: expunham a subjetividade
europeia e a moral cristã do governador, bem como, nesse mesmo passo, o império
inteiro que representava, ao perigo de dissolução na alteridade selvagem dos
timorenses. As descrições expedidas de Timor despertaram assim nos governantes
metropolitanos a perceção de um problema, de escala imperial, marcado pelas
tensões resultantes da presença do governador no ritual. Para os superiores em
Lisboa, a presença do governador português na festa das cabeças apresentava-
se, assim, como um drama mimético, uma crise da situação colonial suscitada
pela perceção do esvaziamento da virtude europeia da diferença; uma crise
expressa pela sensação de perda, por diluição no espaço envolvente, do
privilégio da distância entre civilizado e selvagem, a dualidade
fundacional do projeto e do sujeito coloniais oitocentistas. O problema maior
era que um representante máximo da autoridade real portuguesa ' e, bem assim,
com ele, também o rei, o império e o colonialismo português em Timor '
constituísse parte integrante e propulsora do espaço ritual da festa das
cabeças, a ponto de se confundir com a alteridade bárbara que esse mesmo
espaço representava. O problema maior, em suma, era que Afonso de Castro se
tivesse tornado Outro, tornado selvagem. Porque apenas estabelecera contacto e
tomara posição num ritual supostamente proscrito, Castro sucumbira à tentação
mimética da assimilação ao meio envolvente e ao risco de subsequente
despersonalização do sujeito, de que nos falou o antropólogo e surrealista
francês Roger Caillois, num iluminador ensaio de 1935 (Caillois 1984 [1935]).
[12]
Para Caillois, o princípio último da ação mimética (no mundo humano como no dos
organismos vivos não humanos) consiste menos na busca de semelhança do que na
orientação do ser para se assimilar à envolvente, o impulso para ser tentado e
possuído por aquilo que o rodeia. O mimetismo, seguindo a inspiração de
Caillois, pode assim ser visto como uma tentação pelo espaço, em que o Eu se
deixa possuir pelo que o circunda. No mimetismo, argumentou Caillois, o drama
da individualidade é o da atração do ser pelo espaço envolvente, a ponto de a
sua existência se dissolver nele. Nas palavras de Caillois:
a criatura viva, o organismo, não é mais a origem das coordenadas,
mas um ponto entre outros; é desapossado do seu privilégio e
literalmente não sabe mais onde se posicionar a si mesmo. [ ] O
sentimento da personalidade, considerada como o sentimento de
distinção do organismo em relação ao seu meio envolvente, da conexão
entre consciência e um ponto particular no espaço só pode, nestas
condições, ser seriamente deteriorado [ ] (Caillois 1984 [1935]: 28,
itálicos no original).
A tensão enunciada por Caillois entre ser-se possuído pelo meio e
desapossar-se de si mesmo encontra eco empírico na ideia de sujeição do
colonizador às circunstâncias ' no duplo sentido de uma contingência e de tudo
aquilo que está em volta ', uma ideia que encontraremos, insistente e repetida,
no discurso justificativo do governador Afonso de Castro. Presente na festa
das cabeças, entregue às circunstâncias, o governador português arriscava um
género de desindividuação, tornando-se um constituinte indistinto daquilo que o
rodeava; não mais do que um ponto entre pontos, não mais do que um selvagem
entre selvagens.
O drama entrevisto nas denúncias de Lisboa era assim o da incapacidade do
governador para realizar, nesse espaço de contacto intenso com a alteridade, o
privilégio colonial da diferença. Ao mesmo tempo, também, o drama sentido em
Lisboa apontava para outra preocupação metropolitana, de cariz político. Com a
imersão no Outro, arriscava-se a perda do mandato moral da missão
civilizadora que legitimava a moderna vocação colonial dos europeus e, com
ela, o seu mandato de poder. Incapaz de sustentar hierarquias de diferença,
diluído em lugares de barbarismo indígena, receava-se que o governador fosse
incapaz de exercer o mandato colonial de governo e dominação. Pois, como
poderia um governador manter-se europeu, colonizador e civilizado, se a sua
posição fosse indistinta dos seus súbditos nativos, se não apenas o seu lugar
como o seu estado de consciência e sentimentos se tornassem unos com aqueles de
povos selvagens?
A carta justificativa de Afonso de Castro entende-se como reação à perceção
deste drama, constituindo um exercício de refutação do princípio de que, ao
autorizar, tolerar e integrar o ritual, Castro anulava a sua condição subjetiva
de partida e, com ela, o império inteiro. Esta refutação passou por duas ordens
de justificação. Primeiro, Castro argumentaria que o seu posicionamento no meio
da festa não configurava uma situação de contágio imitativo e, por conseguinte,
não incorria na anulação da diferença. Segundo, argumentaria que tomar lugar
nesse meio ritual era um ato politicamente virtuoso. Tinha sentido no quadro de
uma estratégia política de poder parasitário, que enriquecia a dominação
portuguesa, libertando-a das suas múltiplas vulnerabilidades em Timor. Em suma,
teorizando a práxis colonial em Timor como uma arte de subordinação à força das
circunstâncias, a argumentação de Castro sugere que o seu papel na festa das
cabeças constituía um gesto mimético de assimilação ao meio que encontrava na
exploração parasitária da alteridade a sua orientação política.
Contacto e contágio
Seria preciso que a selvageria destes povos pelo contacto em que vivo com eles
se me pegasse: esta expressão, acima citada na carta justificativa, exprime a
tentativa de circundar a sugestão de que a existência de contacto correspondia
à produção de semelhança. Assinalava a rejeição lógica da possibilidade de o
governador sofrer os efeitos de uma relação mágica de contágio imitativo, só
pelo facto de partilhar um meio ritual com os timorenses. Castro negava pois
que a relação colonial pudesse reger-se por princípios de transmissão de
qualidades ou substâncias por relação simpática, negando, como contrários à
moderna Razão, que o mero contacto com coisas, pessoas ou circunstâncias, por
exemplo, do mundo indígena fizesse com que um europeu comungasse das
qualidades substantivas desse mundo, doravante convertendo-o em seu semelhante.
Afonso de Castro rejeitava assim a atuação de princípios mágico-simpáticos no
contacto colonial, argumentando que a conjunção ritual entre corpos portugueses
e corpos timorenses não bastava para que entre estes se produzisse um nexo de
consubstanciação; logo, não correspondia a um caso de desindividuação mimética.
Pensar, pois, que um ente civilizado pudesse tornar-se cópia de outro,
selvagem, por contacto e contágio; pensar que a selvajaria pudesse transmitir-
se, pegar-se, como uma doença correspondia a cair nos absurdos do pensamento
mágico, primitivo, irracional, ou pré-moderno.[13] O facto de Castro se ver na
necessidade de evocar estes princípios, contudo, é indicador bastante de que,
de facto, em Lisboa, se temia que um qualquer género de princípio simpático de
consubstanciação tivesse sido acionado no contacto causado pela copresença
entre governador, império português e barbaridade dos ritos.
Esta declaração de princípio, rejeitando a ideia de um contágio imitativo como
irracional, não constituiu justificação bastante. Castro acrescentaria que o
contacto com a festa das cabeças podia até revelar cumplicidade e
ambivalência identitária; mas diria também que tal não bastava para presumir
similitude sem diferenciação. Mais: o seu alegado mimetismo da selvajaria não
implicava nem dissolução da diferença, nem perda da posição de poder. Assumindo
tomar parte na festa das cabeças, a argumentação de Castro em favor da dupla
possibilidade de, nesse contexto, manter diferença e exercer governo
desenvolveu-se em torno de duas ideias principais: o argumento do retorno a si
mesmo, a negação da negação de si; e o argumento da assimilação ao Outro como
forma de exploração política, o mimetismo como abuso parasitário da selvajaria.
A assimilação ao meio e o retorno a si mesmo
Castro elaborou o argumento de que contacto e presença não eram por si sós
capazes de destituir o Eu do governador da sua individualidade europeia, cristã
e colonial. Embora forçado pelas circunstâncias a mergulhar no ritual, o
governador afirmava bastar-lhe um duplo ato reflexivo ' de suspensão de
crenças, primeiro; de posterior retorno a si mesmo, segundo ' para assegurar
diferença e individualidade. Afonso de Castro procurava, desta forma, serenar o
rei e o ministro, dizendo que a permissão e a imersão pessoal no ritual não o
inibiam de continuar a abraçar afetos, sentimentos e valores cristãos. Em
primeiro lugar, porque o envolvimento na festa das cabeças não tinha sido um
ato feito de livre vontade mas sim um ato constrangido, dizia, pela força
imperiosa das circunstâncias.[14] Em segundo lugar, porque, não obstante esta
coação do meio, a negação de si mesmo a que se obrigara o governador não o
impedira de preservar uma identidade distintamente europeia e civilizada. Do
meu amor ao progresso e civilização, dos meus sentimentos íntimos de
religiosidade, afirmava Castro, creio que tenho dado suficientes provas para
que V. Ex.ª esteja bem certo deles; a festa, reiterava, repugna-me como deve
repugnar a todo o homem civilizado. Por fim, declarava ao ministro:
cheio de repugnância e contristado e quase envergonhado do papel de
espectador num ato de tanta selvageria, venci aquelas repugnâncias,
abafei no peito os meus sentimentos de respeito aos mortos, os meus
sentimentos de humanidade, e fui assistir àquele ato, [ ] Mas em
presença da exposição que acabo de fazer eu espero que V. Ex.ª não me
julgue indiferente a estes atos de ferocidade e menos que eu partilhe
os sentimentos deste povo.[15]
Não obstante o desapossamento de si mesmo imposto pelo contacto com a festa
das cabeças (abafei no peito os meus sentimentos), o governador mantinha-se
em condições reflexivas de reposicionar-se a si mesmo enquanto entidade
distinta dos selvagens e dos sentimentos deles. Esta capacidade de, por um
lado, suspender sentimentos e, por outro, ser capaz de a eles regressar após o
contacto permitia a Castro justificar a ativação de um mimetismo momentâneo que
em nada ameaçava o privilégio da diferença. Para Afonso de Castro, então, a sua
relação mimética com a festa de cabeças adquiria sentido num campo
duplamente negativo de negação de si e de rejeição de não-si. Adquiria sentido
nesse campo de não eu, não não-eu, onde, como articulou o antropólogo Rane
Willerslev, a imitação do Outro supõe uma negação de si mesmo que jamais chega
a ser uma plena dissolução no Outro (Willerslev 2007). Por conseguinte, Castro
alegava partilhar com os timorenses o sítio do ritual, nele participando e dele
adotando a alteridade ' sem contudo a ela se assemelhar integralmente. Os seus
sentimentos, afetos, valores e emoções permaneciam bem europeus; apenas eram
suspensos por momentos, a elas depois regressando, incólume, o mesmo sujeito.
Tomar lugar no espaço da festa, portanto, não implicava a perda do eu, não
matava o domínio colonial da diferença. Apenas obrigava a uma negação parcial e
transitória, logo recuperável por um movimento reflexivo de retorno do
governador a si mesmo. O governador mantinha assim o sentimento de distinção
em relação ao meio, de que nos falava Caillois, evitando a morte da
individualidade a que o seu mimetismo o ameaçava. Na condição de exercitar a
sua reflexividade, então, a participação do governador na festa das cabeças
preservava em Timor ' quer individualmente para o sujeito Afonso de Castro,
quer coletivamente para o império português ' o privilégio colonial da
diferença.
O mimetismo como relação parasitária
Paralelamente, Castro articulou a ideia de que a autorização concedida, bem
como a participação no rito, não destituía o governador do seu lugar de poder.
Ao invés, constituía uma forma estratégica de apropriação parasita da
alteridade, ao serviço da dominação portuguesa. Por conseguinte, o mimetismo a
que Afonso de Castro se sujeitava, articulava-se com uma teoria do parasitismo
como princípio de governação colonial de ritos e costumes da vida timorense. A
inserção mimética no ritual incluía, pois, uma relação parasitária. A
capacidade para desligar-se temporariamente de si próprio, suspendendo
reflexivamente valores civilizados, permitia ao governador manter poder sobre
si, sobre o próprio rito e sobre as populações nativas que o incluíam na ação
ritual. A participação no meio-outro possuía assim um sentido estratégico,
possibilitando ao governador e ao império manter, em Timor, uma posição de
soberania, expressa num género de exploração das forças da barbárie imputada
aos timorenses.
Com efeito, a segunda justificação avançada por Afonso de Castro aponta para a
racionalidade política inscrita no seu ato de entrega ao ritual. Castro
justificou a sua vivência do rito como um gesto de sacrifício patriótico, uma
entrega mártir do indivíduo ao barbarismo, feita em nome de valores coletivos
mais altos, a expensas da negação de si mesmo. Em simultâneo, Castro esforçou-
se por demonstrar que o papel ativo do governador no meio ritual constituía um
movimento estratégico, um ato racional e premeditado com o objetivo ' e cito
Castro ' de salvar a nossa dominação nestas paragens. Ao tomar lugar no rito
da caça de cabeças, no meio timorense, o governador Afonso de Castro
comportava-se, então, como um parasita, utilizando a sua dissolução com e entre
guerreiros, tabedais, militares, prisioneiros e cabeças humanas, para deles
extrair as energias que faltavam ao estabelecimento colonial português em
Timor.
No estudo do filósofo francês Michel Serres sobre parasitismo ' Le parasite '
encontro os fundamentos conceptuais para pensar este tipo de ligação (cf. Roque
2010). O parasita, escreveu o filósofo Michel Serres, obtém o poder, menos
por ocupar o centro do que por preencher o meio [milieu]; posicionado neste
lugar, ele [ ] desvia parte dos fluxos produzidos por outros, para seu
proveito próprio, ou para proveito de uma instância a que atribua certo
respeito [ ] (Serres 1997 [1980]: 18 e 174). Nos usos de Michel Serres, a
noção de milieucomporta a dupla aceção não apenas de ambiente mas de espaço-
entre (cf. Connor 2002). Por conseguinte, se explorado desta perspetiva, o
parasitismo colonial de Castro constitui ainda uma relação ao meio num sentido
duplo: (i) no sentido de uma relação com o meio (com o espaço ou ambiente
envolvente do ritual); e (ii) de uma relação no meio,um modo de ocupar o
espaço-entre, uma mediação (abusiva, porque parasitária) dos trânsitos entre
civilização e selvajaria proporcionados pelo evento da festa e envolvendo
quer timorenses entre si, quer portugueses e timorenses uns com os outros.
Creio que o topos do poder parasita assim evocado por Serres se encontra
produtivamente com o topos da relação mimética descrita por Roger Caillois. A
posição do parasita não é o centro, mas os interstícios, o espaço-entre; e, tal
como o mimetismo se forma através da associação com aquilo que está em volta, o
parasitismo manifesta-se igualmente na exploração abusiva da envolvente e das
transações que aí tomam lugar. Na verdade, entre parasitismo e mimetismo, pode
dizer-se, a relação é mutuamente produtiva. Pois é na lógica mimética de
assimilação ao meio que o parasita encontra a condição de possibilidade para as
suas atividades de interceção e sonegação das energias da alteridade em que se
hospeda. Segundo Michel Serres:
O parasita joga com o mimetismo. Não sei se o mimetismo é todo
inteiramente parasitário, mas ele é um subterfúgio necessário ao
ladrão, ao estrangeiro, ao convidado; é um disfarce, uma camuflagem
às cores do meio, quando o meio é o hospedeiro, que é o outro. [ ] É
um apagamento da individuação e a sua dissolução no meio é uma boa
proteção na defesa e no ataque (Serres 1997 [1980]: 363).
A dissolução no meio que orienta o agente mimético ' essa mesma a que aludia
Caillois ' é o subterfúgio fundamental do parasita. E porque esse meio é o
mundo outro do hospedeiro, no parasita a associação mimética com o meio
corresponde a uma associação mimética com a alteridade. A esta luz, o lugar de
Afonso de Castro na festa das cabeças emerge como o estratagema do parasita.
A relação parasitária acrescenta assim à imersão do governador na festa uma
racionalidade política, profundamente colonial. Essa presença serve para
proteger-se do Outro; mas serve também para aproveitar-se dele. Mimetismo e
parasitismo combinam-se: a assimilação do indivíduo ao meio-outro configura, em
simultâneo, uma relação de exploração da selvajaria da cerimónia.
A força das circunstâncias
No cerne das justificações dadas por Afonso de Castro para esta conjunção entre
mimetismo e parasitismo encontra-se, por fim, um sentido tático e uma filosofia
pragmática da ação colonial, uma forma do que designei praxiologia (Roque
2010). No presente contexto, a expressão-chave desta praxiologia é o termo
circunstâncias. Nos apelos do governador à força das circunstâncias, essa
expressão evocava um duplo sentido: por um lado, designava aquilo que está no
espaço em volta, o que existe em redor, um meio-ambiente; por outro lado,
referia-se àquilo que é temporalmente contingente, inesperado, impremeditado, a
ponto de determinar o curso dos acontecimentos. Esta ideia de que as
circunstâncias locais, em Timor, governavam efetivamente o curso da ação
colonial é presença regular no discurso do governador. Ela evoca sentidos que
nos remetem para a lógica de associação ao meio, discutida acima, em que as
ideias de parasitismo e mimetismo se encontram. Concedendo às circunstâncias o
papel dirigente da ação colonial, Castro parecia demitir o sujeito-governador
da posição de centro de governo, delegando nos múltiplos elementos do meio
envolvente (incluindo o simples acaso) o comando da sua orientação governativa.
Com efeito, central à sua justificação de entrega ao ritual ' e, a bem da
verdade, central a muita da retórica política do governador ' estava a ideia de
que o governo dos timorenses devia subordinar-se menos a princípios últimos,
externos e abstratos, e mais à especificidade local e imediata das
circunstâncias. Esta filosofia da ação ' coadjuvada ainda, nesse contexto
histórico, pela autonomia administrativa de que gozava temporariamente Timor e
pela sua distância extrema em relação à metrópole ' é legível em outros
momentos da correspondência para Lisboa. Amiúde Afonso de Castro evocou a ideia
da prioridade das circunstâncias, para justificar desvios do seu governo em
relação a instruções gerais ou a princípios abstratos emanados da metrópole.
Nesses anos iniciais da década de 1860, o governador de Timor tinha mais latos
poderes e correspondia-se, sem intermediário, com as autoridades de Lisboa, das
quais dependia diretamente. Todavia, alguns desacordos ocorreram acerca da
orientação administrativa imprimida por Castro. Neste sentido, a portaria
confidencial criticando a ocorrência da festa das cabeças acrescenta-se a
outras tensões que acompanharam esse relacionamento direto.
Em 1860, por exemplo, em aberta oposição a instruções metropolitanas, Afonso de
Castro explicou ao ministro que decidira atribuir especial importância ao uso
da violência na repressão de conflitos em Timor. O motivo: a força das
circunstâncias. Justificava assim ser seu sistema privilegiar a ação punitiva
através do recurso ao terror em contradição com instruções gerais do
governo imperial, as quais insistiam na mediação pacífica de conflitos: Não me
afastarei das instruções gerais que o Governo de Sua Majestade me dá [ ] em
relação às frequentes guerras que dilaceram estes povos, mas há casos em que eu
terei de obrar conforme as circunstâncias o determinarem.[16] Contrariamente a
ordens de Lisboa, o governador preferia a eficácia local do uso da força.
Nesta defesa do recurso à violência estamos perante um mesmo apelo a ser
possuído pelo espaço, pelo meio envolvente. A prioridade concedida às
circunstâncias expunha o princípio governativo da adaptação mimética à
localidade da colónia em detrimento da reprodução de normas imperiais
genéricas, externas e abstratas. Plasmava-se igualmente o princípio da relação
parasitária com a barbárie dos usos timorenses, a expropriação estratégica das
suas forças.
A relação com a festa das cabeças evocava esse mesmo princípio pragmático de
sujeição da administração à ação fortuita das circunstâncias. Neste sentido,
Castro explicou que o seu papel na festa das cabeças não resultava da sua
vontade, mas sim das circunstâncias de Timor e da guerra de Ulmera em 1861.
Afinal, as circunstâncias singulares dessa guerra tinham obrigado o
governador a abdicar de valores morais de partida para, em seu lugar, abraçar
usos e costumes timorenses. Essa força das circunstâncias era de tal modo
dominante que, em nome da eficácia da governação, Afonso de Castro confessava
ter decidido abdicar (logo em 1859, cedo após a sua chegada a Timor) do seu
inicial ensejo em proibir por completo a selvagem solenidade dos ritos do
lorosa'e; em vez disso, retrocedeu até em medidas proibitivas do seu
antecessor, voltando a autorizar que as cerimónias incluíssem o hábito de
pontapear as cabeças cortadas do inimigo.[17] Por conseguinte, contrariamente a
proibir ou regular, Castro deu rédea solta, espaço livre à festa das cabeças.
A justificação oferecida para os episódios festivos de 1861, em Díli, seguia a
mesma linha de argumentação: Inda assim, se outras fossem as circunstâncias em
setembro [de 1861], eu teria tentado abolir semelhante espetáculo como é o da
tal festa das cabeças. Mas quais, perguntava retoricamente Castro, eram
aquelas circunstâncias? Quais? E Afonso de Castro explicava:
Os arraiais acabaram de escalar, isto é, de assaltar Lacló, e depois
de uma campanha de cinco meses tinham de empreender outra contra
Ulmera (ao poente de Díli).
Se eu pretendesse proibir a solenidade os arraiais tomariam isso, primeiramente
como uma afronta, como uma demonstração de desprezo pelo valor dos seus assuais
(bravos) e [ .] indo tal proibição de encontro às suas antigas tradições e aos
seus estilos ficariam perturbados e ninguém seria capaz de os despersuadir de
que a campanha que empreendessem lhes seria fatal.
O resultado seria que a solenidade não se fazia, mas os arraiais desapareceriam
e ninguém mais os reunia. [ ] Ora sem arraiais eu não podia de modo algum
debelar a revolta [ ].
Se eu por uma imprudência, por uma inovação filha sem dúvida de louváveis
sentimentos fornecesse o pretexto para que a situação de favorável que nos era,
se tornasse temerosa, eu seria merecedor de um severo castigo.
Sendo pois o meu primeiro dever salvar a nossa dominação nestas paragens,
sustentar a nossa soberania, a esse dever me cumpre sacrificar quaisquer
considerações, e transigir com todos os usos e costumes destes povos, quando
tal transigência não seja vergonhosa. Foi o que fiz.[18]
O governador defendia a vantagem pragmática de extrair dos guerreiros as
energias necessárias para assegurar vitória e soberania colonial, invertendo
assim a situação de fragilidade que caracterizava a presença portuguesa na ilha
(cf. Roque 2010). No mesmo sentido, rendido à força do meio envolvente, entre
os timorenses no espaço da festa das cabeças, Afonso de Castro podia
continuar a resolver as fragilidades da ocupação portuguesa, extraindo do meio
selvagem da cerimónia os poderes que a comunidade colonizadora parecia
incapaz de gerar por si mesma. Não era o primeiro a fazê-lo e não seria o
último. À participação de Afonso de Castro no rito do lorosa'eoutras se
seguiriam nas décadas seguintes. A festa das cabeças continuou a ser um
espaço tão problemático quanto produtivo da presença colonial dos portugueses
em Timor (veja-se Roque 2010). A documentação histórica fornece registo de
cumplicidade, presença e participação de governadores e militares portugueses
nestes ritos até, pelo menos, à década de 1910. No culminar das terríveis
guerras de 1912, por exemplo, após a vitória sobre os rebeldes de Manufahi, o
então governador de Timor, Filomeno da Câmara, permitiu o rito da festa das
cabeças na cidade de Díli. Filomeno da Câmara presidiu ele próprio aos
lorosa'e, dando início à cerimónia com um tradicional pontapé no monte de
cabeças decapitadas (Chico 1953; Duarte 1944: 86-87; Inso 1939: 19-20, 37;
Pélissier 1996: 294). Talvez que, como queria Afonso de Castro, a selvajaria
não se pegasse aos portugueses. Eram antes os portugueses que se pegavam a ela.
MIMETISMO, CIVILIZAÇÃO E BARBÁRIE
Em Mimesis and Alterity, precedido do magistral Shamanism, Colonialism, and the
Wild Man, Michael Taussig lançou uma série de importantes hipóteses de trabalho
sobre a centralidade da mimese na expansão colonial europeia (Taussig 1993,
1987). O colonialismo europeu, afirmou Taussig, constitui um processo histórico
onde por excelência é legível a relação sentida pelo processo civilizacional
com a selvajaria (Taussig 1993: xiv). A imaginação da selvajaria imputada ao
Outro alimenta a relação colonial, num jogo de espelhos, ao longo do qual a
selvajaria imaginada se inscreve no corpo do nativo e na prática da violência
colonial. Taussig desenvolveu argumentos originais de Adorno e Horkheimer, para
quem a violência brutal, primitiva, imposta a corpos e vidas de judeus durante
o nazismo constituiu uma mimese da mimese organizada: o excesso de (re)ação
material ao profundo medo induzido pela representação nazi antissemita do judeu
enquanto ser inumano e demonizado (Adorno e Horkheimer 2002: 137-173; cf.
Taussig 1993: 45-46, 59-63).[19] Assim também o colonialismo, nas palavras de
Taussig, não é concebível sem uma rede de imagens apaixonadas geradas durante
vários séculos pelo tráfico colonial com o que era selvagem [wildness] e que
assegurou à civilização a sua selvageria [savagery] (Taussig 1993: xviii).
Civilização e selvajaria não podem merecer tratamento em separado. Constituem
núcleos de termos interdependentes, integrados e dinâmicos, em volta dos quais
se joga a história política e epistémica da expansão colonial do Ocidente na
modernidade. Deste ponto de vista, a história colonial europeia tem entre as
suas chaves de compreensão o díptico mimese e alteridade e, com ele irmanado, o
díptico civilização e selvajaria' afinal, esse referente central da
autoconsciência europeia nas suas gestas imperialistas desde o Iluminismo
(Elias 1989).[20]
Neste artigo, segui no encalce destas pistas, dirigindo a atenção para formas
de mimese praticadas nos encontros coloniais, não na perspetiva de
manifestações nativas de contrapoder, mas sim na qualidade de relação e de
prática colonial material, protagonizada por europeus autoproclamados
colonizadores e civilizados.[21] Aprofundando um episódio do império português
como estudo de caso, averiguei esta hipótese abrangente e experimentei novas
linhas conceptuais, propondo o conceito de mimetismo parasitário. Concentrei-me
no complexo de transações miméticas entre civilização e selvajaria que os
agentes coloniais portugueses mantiveram com esses ritos de violência chamados
festa das cabeças, em Timor, durante os séculos XIX e XX. Foquei essas
transações no contexto dos atos de governo de Afonso de Castro com a intenção
ainda de assinalar a produtividade política do imbricamento colonial em ritos
nativos ' mas também as profundas tensões políticas, simbólicas e identitárias
que essa ligação igualmente acarretava.[22]
O meu olhar sobre o regime de transações coloniais com a selvajaria não foi
guiado por uma ideia convencional de mimese no seu sentido estrito de imagem ou
representação simbólica. Inspirado em metáforas que cruzam a biologia com a
filosofia, guiei a análise por uma conceção mais material da relação mimética
enquanto modo prático de assimilação ao espaço envolvente, uma relação ao e uma
posição no meio, relação em que meio e sujeito se interpossuem. Inspirando-me
em Caillois e Serres, conceptualizei o mimetismo colonial como uma relação
espacial de contacto do colonizador com o meio selvagem, um modo prático e
vivido de possessão por, e assimilação a, circunstâncias. Ao experimentar aqui
esta abordagem não pretendo esgotá-la nas especificidades de Timor ou nas do
colonialismo português, vendo-o como uma espécie de traço excecional ou de
constante do império. Ao invés, penso que esta abordagem pode abrir caminhos de
interpretação na investigação circunstanciada, histórica e antropológica, do
colonialismo europeu em geral ' em Timor, no império português e, julgo, para
além deles. O meu objetivo foi, assim, ensaiar instrumentos analíticos de
alcance geral e comparativo, capazes de permitir a produção de relações
coloniais, nos exatos pontos em que civilização e barbárie se cruzam,
fertilizam, colidem, independentemente da inscrição nacional dos impérios. Para
concluir, gostaria brevemente de destacar dois pontos deste programa analítico,
ciente, porém, de que o seu teste comparativo foge ao alcance deste ensaio.
O primeiro aspeto aponta para a seguinte ideia: o mimetismo exprime, ao nível
das subjetividades coloniais, uma tensão dinâmica entre assimilação ao espaço e
preservação reflexiva da diferença. Este ponto é especialmente válido no
tocante ao contacto colonial (contacto físico ou simbólico) com coisas, lugares
e domínios classificados como bárbaros, abjetos, impuros, e dos quais decorrem
ameaças de poluição simbólica, como diria Mary Douglas, para o sujeito
colonial (Douglas 2002 [1966]). Tais perigos de queda moral e perda de
identidade viram-se associados à ideia de tornar-se nativo, tópico marcante do
imaginário colonial, em especial no século XIX e na primeira metade do século
XX. Vimos como essa tensão se enunciou nos esforços do governador para dirimir
acusações de perda de identidade europeia, civilizada e cristã e subsequente
conversão (quer individual ' de si mesmo; quer coletiva ' do império enquanto
todo) ao barbarismo, em resultado da assistência que prestou à festa das
cabeças. Um gesto reflexivo de suspensão de si servia o propósito de manter a
integridade do eu civilizado e suster a contaminação simbólica derivada da
momentânea entrega à alteridade do ritual. Assim, abordar a relação mimética
nesta e noutras situações análogas implica perceber as estratégias, os
discursos e as práticas acionadas para lidar com os efeitos gerados pelos
riscos de consubstanciação e de dissolução da individualidade no meio Outro. No
coração desta conceção, portanto, antes, durante e após os momentos do
contacto, está o problema da produção prática da diferença e, logo, da
existência do agente colonial, como diria Gabriel Tarde (1999 [1893]). Porque
refletir sobre mimetismo obriga a considerar a problemática da diferença em
conjunto com a problemática da semelhança (cf. Melberg 1995); compreendê-lo no
contexto colonial implica ultrapassar o imaginário teórico do hibridismo. Este
imaginário, apanágio do luso-tropicalismo e agora moeda corrente nos estudos
pós-coloniais contemporâneos, acentua (e enaltece) o amalgamamento e a mistura,
eliminando dos emaranhados interculturais os processos de diferenciação e poder
que os atravessam (cf. Coombes e Brah 2000; para um esboço crítico nesta
direção: Roque 2010: 17-39, 216-222).
Este aspeto remete para o segundo ponto geral que gostaria de realçar, a saber:
a ideia aqui avançada de que o mimetismo colonial pode exprimir um gesto
político legível numa estratégia de poder de caráter parasitário. O caso da
relação mantida pelo governador Afonso de Castro com a festa das cabeças
permitiu explorar a prática mimética como indissociável do que, na esteira de
Serres e no seguimento de anteriores trabalhos (Roque 2010, 2012), tratei como
relação parasitária, isto é: a relação presidida por uma racionalidade política
de extração abusiva, ainda que subtil, das energias da alteridade do
hospedeiro, para proveito próprio. A cedência ao Outro articulava uma vontade
de poder. O princípio mimético de sujeição às circunstâncias via-se aqui unido
ao princípio parasitário de subtil extração das energias do meio. Mimetismo e
parasitismo conjugam-se, então, para compor relações coloniais marcadas pela
difícil gestão da dualidade civilização e barbarismo. No caso que
acompanhei aqui, o governador permitia e entregava-se a um ritual (que sabia)
bárbaro, na expetativa de que a sua copresença e participação aumentasse o
poder e autoridade colonial. Pois era assimilando a selvajaria desse espaço,
mutuamente participado por europeus e por nativos, que a administração colonial
parecia ir encontrar as forças de que carecia. Com as festas, o governador
continuaria a ser referência ilustre entre os reinos timorenses; mais
guerreiros se juntariam ao governo, novas guerras poderiam voltar a ser
vencidas. O parasitismo mimético de Afonso de Castro garantia, assim, ao
império português na ilha a selvajaria sem a qual este não podia manter-se
vivo.