Decifrando a cidade: sociabilidade e espaços públicos em São Paulo e Lisboa -
Entrevista com Heitor Frúgoli Jr.
Decifrando a cidade: sociabilidade e espaços públicos em São Paulo e Lisboa -
Entrevista com Heitor Frúgoli Jr.
Por Graça Índias Cordeiro*, João Pedro Silva Nunes**, Lígia Ferro*** e Patrícia
Pereira****
*CIES-IUL, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. E-mail:
graca.cordeiro@iscte.pt
**DINÂMIA'CET-IUL, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa,
Portugal. E-mail: jplsn@iscte.pt
***CIES-IUL, ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa, Portugal. E-mail:
ligia.ferro@iscte.pt
****CESNOVA, Faculdade de Ciências Sociais e Humanas, Universidade Nova de
Lisboa, Portugal. E-mail: patricia.pereira@fcsh.unl.pt
Heitor Frúgoli Jr. é uma figura marcante na consolidação do diálogo em língua
portuguesa em torno da prática da antropologia urbana. Professor do
Departamento de Antropologia da Universidade de São Paulo, onde coordena o
Grupo de Estudos de Antropologia da Cidade (GEAC), tem obra variada que é já
uma referência nos estudos urbanos em português. As questões ligadas à
sociabilidade urbana[1] e suas configurações no contexto dos espaços públicos
[2] e outros espaços de interação[3] constituem o núcleo mais coeso da sua
investigação, pois tem vindo a desenvolvê-las desde o início da sua carreira em
diferentes contextos, como São Paulo e Lisboa. A investigação dos processos de
constituição de novas centralidades em São Paulo,[4] realizada no âmbito do
doutoramento, complementa o seu olhar sobre a metrópole contemporânea. Desde
2006 que se tem aproximado de Portugal e da sociologia e antropologia urbana
portuguesas, integrando a Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos,[5] cuja
equipa portuguesa se encontra sediada na Universidade de Coimbra, coordenando
um painel no último congresso da Associação Portuguesa de Antropologia (2009)
e, mais recentemente, participando num conjunto variado de atividades no ISCTE-
IUL, entre as quais o lançamento da edição em língua portuguesa de um dos mais
recentes livros de Michel Agier, do qual é um dos revisores conceptuais.[6]
Aproveitámos uma das estadias de Heitor em Lisboa, na primavera de 2011, para
realizar esta entrevista. A conversa interrompeu por uma manhã o seu trabalho
de campo ' no âmbito do qual tem contactado com novos e velhos residentes e
comerciantes, notívagos e outros frequentadores do Bairro Alto ' e o nosso
próprio trabalho de preparação da SICYurb: Second International Conference of
Young Urban Researchers (ISCTE-IUL, 11-14 de outubro de 2011). O que agora se
publica é apenas um fragmento de um diálogo que gostaríamos de continuar a ter
por muitos e longos anos.
GRAÇA ÍNDIAS CORDEIRO Gostávamos de saber como é que chegaste à antropologia
urbana e aos temas que tens estudado. Sabemos que fizeste algumas incursões em
várias cidades, que estás neste momento a fazer uma pesquisa em Lisboa, que
nasceste e tens vivido em São Paulo. Pode-se dizer que São Paulo se impôs na
tua vida?
HEITOR FRÚGOLI JR Eu nasci em São Paulo mas não vivi sempre ali. Na infância
saí, fui viver em cidades do interior do estado e voltei para São Paulo na
época da faculdade. Na verdade, fiz uma opção de faculdade equivocada e depois
decidi, então, fazer o curso de ciências sociais na Universidade de São Paulo.
Foi quando voltei para São Paulo, num momento particular em que ainda havia a
ditadura militar no Brasil, em final dos anos 70. Apesar disso, São Paulo era
uma cidade com uma efervescência cultural muito significativa: música, teatro,
cinema. Então, essa decisão de fazer o curso de ciências sociais acabou por ser
uma escolha de certo modo também política, não é? Quer dizer, foi o momento de
entrar em contacto com um curso que tematizava a realidade sociocultural e, ao
mesmo tempo, retomar também uma relação com São Paulo, no que ela tinha de
metrópole. Eu tenho uma relação com São Paulo por ter nascido lá, mas o momento
da faculdade foi uma espécie de retomada da cidade e isso tem um significado
particular. E à medida que eu comecei a fazer a faculdade vários temas foram
aparecendo, foram-se delineando como temas de interesse, até que num certo
ponto comecei a voltar muito mais a minha atenção para a questão urbana e para
a cidade.
GIC Antes propriamente da antropologia?
HFJ Antes da antropologia. Num certo sentido, para mim a cidade era uma
temática de interesse e de investigação, tanto que a primeira experiência de
pesquisa que tive, um pouco mais detida, aconteceu no final da minha graduação,
quando fiz o que chamamos no Brasil de iniciação científica. Foi uma pesquisa
no largo da Concórdia, na cidade de São Paulo. Uma espécie de praça, mas uma
praça peculiar no sentido que era um espaço encravado numa região quase
central, com uma migração nordestina muito significativa e com usos informais
do espaço: o comércio informal, a prostituição, entre outras coisas. Foi minha
primeira experiência de pesquisa, que se dava no espaço de uma praça, de ruas,
de interações que aconteciam nesse lugar. Lembro, inclusive, que logo no
primeiro dia aconteceu uma espécie de drama social. Foi o que no Brasil que se
chama de rapa, ou seja, eu estava lá fazendo a pesquisa e chegou a polícia
para apreender as mercadorias dos comerciantes informais, dos ambulantes.
Aquilo foi uma fiscalização de grande porte e criou um conflito muito negativo
GIC E tu estavas lá, no meio
HFJ Eu cheguei ali e o que fiz, instintivamente, foi começar a anotar a
coisas que aconteciam, não é? E logo na sequência fui abordado por algumas
pessoas, como se eu fosse uma espécie de fiscal. E ao invés de eu começar a
perguntar, eles começaram a me inquirir: o que estava fazendo ali e se eu era
da polícia, se eu era da prefeitura e se eu era E eu falei: Não! Sou da
faculdade, estou fazendo uma pesquisa e tal Quer dizer, foi interessante
porque logo de cara já lidei com algumas questões que me fizeram aprender
várias dimensões ' até essa ilusão de iniciante de que a gente está invisível
quando faz trabalho de campo. Foi interessante porque, à medida que eu fazia o
trabalho no largo da Concórdia, ia-me deparando com uma questão, que era uma
certa insatisfação com as teorias, sobretudo sociolóGICas de grande porte, para
explicar aqueles aspetos que estavam se passando. Foi a partir daí que comecei
a entrar em contacto inclusive com a teoria etnográfica e me interessei por
estudar mais sobre essa questão da prática etnográfica.
GIC Esse era um trabalho final de graduação, uma espécie de mémoire de
ciências sociais?
HFJ Não exatamente. O trabalho teve início numa disciplina optativa, de
sociologia urbana. E foi algo que me levou a pensar na necessidade de construir
algum tipo de aproximação disciplinar mais adequada para aquilo que estava
efetivamente observando. Essa relação entre teoria e observação era um problema
já presente para mim naquele momento específico. Então, acho que isso foi-se
construindo passo a passo. Logo que terminei a faculdade tive uma experiência
de trabalho na prefeitura, era uma assessoria. Na verdade, fazíamos visitas a
inúmeras favelas em São Paulo. Não era uma pesquisa científica, era um
trabalho, mas algo me chamou a atenção na época: a diversidade de contextos com
que a gente deparava.
GIC Era um trabalho de apoio social?
HFJ Era um trabalho de levantamento sociodemográfico. Tinha uma intenção de
mapeamento de alguns temas
LÍGIA FERRO Já não estavam num contexto de ditadura nessa altura?
HFJ Ainda estávamos sob a ditadura, num período de redemocratização. Já
havia eleições para o governo do estado, mas não para a presidência do país. Em
meados dos anos 80 surgiu o movimento pelas eleições diretas, que foi muito
expressivo, embora tais eleições só tenham ocorrido efetivamente em 1989
Enfim, nessa experiência, o que me chamou a atenção foi uma enorme
heterogeneidade de contextos para uma coisa que chamávamos de favela, mas que
abrigava muitas situações. Quer dizer, aos poucos despertei para essa ideia de
como alguns conceitos, às vezes, abarcam de forma muito totalizante algo e não
levam em conta as diferenças. Retomando a pesquisa do largo da Concórdia: o que
é uma praça? Quando se pensa numa praça, no senso comum é um espaço de
encontro, de lazer, de contacto com a vegetação O largo da Concórdia, nesse
sentido, era uma antipraça, atravessada por fluxos de trabalhadores, por um
viaduto com automóveis, com toda uma utilização informal, etc. Foi quando
resolvi fazer um mestrado em antropologia urbana e realizei a pesquisa sobre os
shopping centers em São Paulo,[7]
com a orientação do professor José Guilherme Magnani. Era um tema que naquele
momento me chamava a atenção: o crescimento dos shopping centers na cidade e o
modo como esses espaços estavam se tornando lugares de interação para uma
quantidade crescente de pessoas. Nesse momento específico, eu tinha interesse
por esse tema da interação nos espaços públicos e os shoppings me despertavam
uma certa curiosidade porque seriam espaços, num certo sentido, que
substituiriam certos espaços públicos. Seriam espaços privados de acesso
público, que passavam a ser frequentados por grande quantidade de pessoas e,
naquele momento específico, também começavam a ser frequentados pelas classes
populares. Fiz uma etnografia de três shoppings, comparando o Iguatemi, o
Center Norte e o Morumbi, todos em São Paulo e que são shoppings com tipologias
distintas: o Iguatemi era o primeiro shopping, ligado a um público de maior
poder aquisitivo; na época, o Center Norte era um shopping que dava início a
esse processo de massificação, abrangia regiões não necessariamente de maior
poder aquisitivo; e um shopping intermediário, o Morumbi, ao mesmo tempo que
abrangia públicos de grande poder aquisitivo, também incorporava classes
populares de algumas áreas. Então, naquele momento, desenvolvi uma pesquisa
justamente sobre essa temática da interação, dado que também os shoppings eram
apresentados, na época, como se fossem espaços totalmente fechados, um pouco
parecidos com o modelo do condomínio fechado. Na verdade eu discordo desse tipo
de aproximação. Embora você possa até ver certa similaridade entre ambos, eles
são espaços, num certo sentido, distintos. Então, gradativamente fui-me
interessando pelo tema da cidade e, ao mesmo tempo, percebendo que o modo como
eu fazia certas perguntas, o modo como eu investigava, passava muito por uma
relação com a antropologia e com a antropologia urbana.
LF Como é que você deu o salto dos estudos dos shopping centers para o
bairro da Luz, a cracolândia?
HFJ Existem questões recorrentes, como, por exemplo, os temas da interação,
da sociabilidade, do espaço público, mas há também ruturas, buscas marcadas por
interesses um pouco distintos. Depois de fazer a pesquisa sobre os shopping
centers, no meu doutorado voltei-me a uma discussão na área da sociologia
urbana, para pensar a questão da centralidade de São Paulo. Nesse momento
estava um pouco insatisfeito, quer dizer, já tinha feito vários trabalhos a
partir de contextos, digamos, mais microscópicos. Na época que desenvolvi a
pesquisa sobre centralidade, fiz um pouco o caminho inverso, pois queria a
princípio pensar questões mais abrangentes, mas acho que implicitamente acabei
por desenvolver uma pesquisa empírica com determinados agentes. Nos anos 90, em
São Paulo, começou a aparecer de forma mais significativa a questão da
revitalização das zonas centrais. Logo depois, apareceu o tema da
requalificação e esses temas se desdobraram e ganharam muita visibilidade, em
meados dos anos 90. Eu me interessei por investigar isso, com enfoque no tema
da centralidade. Isso porque em São Paulo, nessa época, por um lado, o centro
histórico passava por um processo de renovação, por intervenções urbanas
pontuais que tentavam redefinir esse espaço; por outro, a grande imprensa
ressaltava a região em torno da avenida Paulista, que abriga edifícios ligados
ao setor financeiro e patronal, além de museus e outras instituições, como uma
espécie de novo centro de São Paulo, principalmente quando esta fez 100 anos,
em 1991. No entanto, tal apogeu foi rapidamente seguido por sinais de
decadência, e a imprensa logo passou a falar de um outro espaço, delimitado
pela avenida Luis Carlos Berrini, com dezenas de edifícios de escritórios
construídos por uma única empresa, e pela avenida Marginal Pinheiros, próxima
dali, marcada pela existência de vários edifícios de multinacionais. Essa área
veio também a ser chamada de o novo centro de São Paulo. Então, tal pesquisa
levou-me a aproximar das associações representativas de cada uma dessas regiões
que estavam, num certo sentido, concentrando um certo discurso a respeito
desses espaços em São Paulo. A associação Viva o Centro, naquele momento,
tentava interferir na opinião pública sobre o que era o centro, quem devia
ocupá-lo, que processos deviam acontecer nesse espaço. Ao mesmo tempo, no outro
polo, na avenida Berrini, também havia grupos empresariais e associações com o
poder público, que tentavam legitimar aquele local como um espaço de maior
investimento em função dos negócios e tudo o mais. Então procurei, na verdade,
comparar esses três espaços e os discursos acionados por essas organizações.
Depois de terminar esse trabalho, eu continuei a me interessar pela questão
urbana, mas novamente retomei um contacto maior com a antropologia. Na verdade,
quando fiz essa pesquisa sobre centralidade, tive a oportunidade de fazer um
doutorado sanduíche[8]
na Universidade da Califórnia, em San Diego. E lá tive uma relação muito
significativa com antropólogos que trabalhavam com a questão urbana. Quer
dizer, eu continuara com essa questão da antropologia presente. O facto é que,
quando terminei o doutorado, me voltei novamente para a antropologia e comecei
a trabalhar, a dar aulas em antropologia, e esse campo voltou a ser de grande
interesse, até eu chegar à questão do bairro, uma dimensão que tenho estudado
um pouco mais: no caso, o bairro da Luz, em São Paulo, e o Bairro Alto, em
Lisboa. Como configurar antropoloGICamente ou etnograficamente um bairro? O que
é um bairro, como é que ele pode ser pensado, como se pode fazer uma etnografia
a respeito desses espaços? E a ponte que existe com os trabalhos anteriores é
que são bairros situados em áreas centrais. Eu acho que essa é uma dimensão que
está muito presente no meu trabalho.
LF Quando o Heitor diz que no doutoramento se aproximou mais da
sociologia, isso quer dizer que a temática da sociabilidade estava menos
presente nesse trabalho?
HFJ Sim. Na verdade, acho que me aproximei mais da sociologia, a princípio
porque estava preocupado em circunscrever, naquele momento, questões mais
abrangentes que não passavam tanto por um exame etnográfico mais detido. E a
investigação naquele momento estava mais ligada à prática da entrevista do que
propriamente àquilo que observava no campo. Implicitamente eu tinha questões
que observava, que me chamavam a atenção, mas às quais eu não dei maior relevo
porque a preocupação era outra. Hoje já não tenho interesse em desenvolver
isso. É mais comum que eu tente articular a observação com, eventualmente, a
entrevista. Quase que dá para dizer que hoje a entrevista ocupa um lugar cada
vez menor. Não que ela não deva existir, mas ela só deve acontecer depois de
você ter amadurecido outras questões ligadas à observação.
GIC Sobre esta relação entre a sociologia e a antropologia, pões, de certa
forma, a antropologia do lado da observação e a sociologia mais do lado da
entrevista, mas eu estou a ver a coisa pelo teu percurso do shopping à
centralidade e agora ao bairro. Para além de achar um processo muito
interessante, também vejo aqui um jogo de escalas. Quando vais fazer o
doutoramento em sociologia é porque sentes que a centralidade está numa escala
de fenómenos em que a antropologia não vai lá, não chega lá? Não será também um
problema de escala, esta relação entre a antropologia e a sociologia? E não
continuarás com este problema de escala, agora que estás a estudar um bairro?
HFJ Eu acho que hoje, com base nos meus trabalhos mais recentes, essa
questão da escala se coloca de um outro modo. A escala é uma questão que também
pode ter um tratamento etnográfico. Durante muito tempo eu fiquei ligado a essa
dimensão do microscópico e do macroscópico e, num certo sentido, relacionava
perspetivas disciplinares mais afeitas para um ou para outro plano. Acho que,
hoje, isso se coloca de uma outra maneira. Eu entendo que, do ponto de vista
antropolóGICo, você pode trabalhar com distintas escalas, dependendo do modo
como você confere, àqueles que você pesquisa, uma dimensão ou outra. Por
exemplo, na pesquisa que estou desenvolvendo hoje no Bairro Alto, é possível
prestar atenção ao plano local, pois existem certas ruas nas quais tenho feito
uma etnografia mais detida, com observação do que acontece ali entre as
pessoas, ao passo que, com outros agentes com quem tenho contacto, eles têm-me
mostrado dimensões mais abrangentes, que envolvem outros planos da cidade e aí
se pode, a partir de certas escolhas, começar a entender como essas pessoas
situadas num determinado espaço se apropriam de uma forma mais abrangente da
cidade. E com isso, essa relação entre o micro e o macro se redefine. Eu
concordo com você, mas acho que a gente tem de prestar atenção, na hora da
etnografia, ao princípio de variação de escala.[9]
Só que eu acho, por outro lado, que sempre existe uma escolha no modo como
você amplia ou situa isso, porque os seus agentes podem vir a mostrar dimensões
muito abrangentes. Num certo sentido, podem fazer explodir o seu objeto.
Então, acho que existe uma dimensão de escolha, que depende do modo como você
orienta o seu interesse. Por exemplo, nessa minha pesquisa atual, podem-se
eleger questões mais locais no sentido de interações que acontecem num dado
espaço. Por exemplo, um tema que tem aparecido às vezes no meu trabalho é a
relação entre portugueses e brasileiros. Você tanto pode tentar entender como
isso se dá num espaço específico, como isso ocorre, como você pode também, a
partir de certas falas, ver como essas redes se expandem para contextos mais
abrangentes. Mas aí facilmente pode virar uma outra pesquisa, não é? Você pode
tomar, por exemplo, um brasileiro no Bairro Alto e ver como ele constrói certas
relações cotidianas locais ali ou mesmo em Lisboa. Mas a partir de certas
falas, também se poderia começar a pensar o modo como ele reconstitui as redes
ligadas ao Brasil. Por isso, nesse caso específico, tenho tentado fazer uma
abordagem de interações numa perspetiva mais intensiva e nem tanto extensiva
(embora entre intensivo e extensivo também haja algo que você precisa dosar e
ver como enfrenta). É um desafio, uma dimensão importante. Acho que uma outra,
quando você fala da relação entre sociologia e antropologia, tem a ver com a
questão do significado da etnografia para essas duas disciplinas.[10]
Quer dizer, eu venho de uma formação, de um determinado tipo de antropologia
onde o diálogo com a sociologia e a ciência política foi bastante
significativo, se pensarmos em Eunice Durham, em Ruth Cardoso e nas pessoas que
vieram desse tipo de orientação. Havia uma espécie de diálogo que eu sempre
considerei frutífero, tendo a etnografia como uma espécie de polo de tensão
positivo, ou seja, quando você começa a teorizar demais, os dados etnográficos
podem mostrar uma outra coisa. Ainda mais porque acho que não se pode ficar com
essa ideia de que a antropologia tem o monopólio da prática etnográfica, na
medida em que existem outras disciplinas que também a fazem. De toda forma,
temos que pensar também em como cada disciplina incorpora a etnografia no seu
fazer teórico. Acho que a antropologia tem uma especificidade de dar mais
espaço àquilo que se encontra etnograficamente, enquanto outras disciplinas,
talvez alguns setores da sociologia, tendem a controlar um pouco mais esses
impactos. Num certo sentido, eu diria que hoje tento fazer uma etnografia mais
antropoloGICamente orientada.
GIC No fundo, a relação entre etnografia e teoria tem mais espaço na
antropologia, do que, eventualmente, na sociologia ?
HFJ Sim, ainda mais porque, de um certo ponto de vista da antropologia, nem
faz muito sentido você separar etnografia e teoria, pois elas estão
articuladas. Só que esse campo de diálogos entre antropologia e sociologia é,
pelo menos no Brasil, muito tensionado. Ou seja, aquilo que havia de
interlocução entre antropologia e sociologia, hoje acho que é um diálogo mais
áspero e muito mais difícil. O diálogo interdisciplinar é sempre áspero, mas
acho que hoje ele está particularmente
GIC Mais áspero do que há 20 anos?
HFJ Mais, mais Eu acho, por exemplo, que para as gerações mais recentes de
antropologia, a sociologia não é uma referência significativa, pelo contrário,
passa a ser uma ciência, uma disciplina muito rejeitada. E é preciso lidar com
isso também no modo como me relaciono com meus orientandos. Claro que,
pessoalmente, hoje começo a me interessar cada vez mais por uma aproximação com
outras áreas da própria antropologia. Mas, enfim, tenho uma relação, uma
história com isso.
JOÃO PEDRO SILVA NUNES Regresso à escala dos bairros e à escala da observação.
Lendo Espaços Públicos e Interação Social e Centralidade em São Paulo,uma das
questões que ressalta é a da diversidade de populações e de grupos ' da
população sem-abrigo, aos vendedores ambulantes, no largo da Concórdia,
passando pelos porta-vozes do que deve ser o centro da metrópole. Como é que o
Heitor lê esta relação entre grupos e espaços na grande cidade e como é que, na
pesquisa, faz jogar esta transversalidade metropolitana?
HFJ Acho que esse é um dos desafios de trabalhar sobretudo com bairros, com
situações ou com agentes situados nessas áreas, digamos, mais centrais. Isso é
importante pontuar porque existe uma tradição, pelo menos em São Paulo, mais
voltada a trabalhar, por exemplo, com bairros situados em áreas periféricas. A
periferia como um tema de interesse significativo é algo que se firmou bastante
em São Paulo. Ao passo que no Rio, por exemplo, existe uma certa tradição de
trabalho com favelas, ainda que no Rio, na área da antropologia urbana, tenha
havido também uma dimensão mais voltada, por exemplo, às camadas médias
urbanas, por influência de Gilberto Velho, um olhar para outras áreas que não
as favelas. Mas existe uma certa tendência em trabalhar com aquilo que estaria
fora da cidade, por estar sem os equipamentos, sem os direitos, etc. Isso é
importante, mas há uma outra dimensão, que é justamente não o que se separa da
cidade, mas o que constituiria a cidade nas suas várias dimensões. Talvez eu
venha enfrentando um pouco essas dimensões quando trabalho com esses temas que
você sublinhou. Penso também nas múltiplas determinações que nós pesquisadores
definimos de uma forma contextual e apriorística. Daí o desafio, numa
aproximação sucessiva com esses agentes, de entender o que efetivamente está em
causa para eles, quais são suas questões, como é que essas perguntas se
redimensionam. Às vezes, por exemplo, a noção de bairro é algo que acionamos
mas que não é significativa para os nossos agentes. Outras vezes, não achamos
que sejam importantes, mas eles acionam. Também tenho tentado prestar muita
atenção ao modo como esses grupos, na verdade, ressignificam aqueles conceitos
que nós, a princípio, achamos que seriam importantes. Por exemplo, no caso de
São Paulo começamos a eleger o chamado bairro da Luz como uma temática. Mas não
existe nada mais escorregadio do que essas noções de bairro naquele caso
específico, porque as fronteiras são múltiplas. Existem fronteiras com o Bom
Retiro, a Santa Efigénia, os Campos Elísios [11] A ideia de bairro nesse caso
não se sustenta muito, os agentes recorrem a identificações que são múltiplas.
Portanto, é comum que iniciemos com certa referência, para depois entendermos
como os agentes pesquisados impactam essa dimensão. Não sei se eu respondi
JPSN Respondeu, sim. Outro aspeto que também me parece muito significativo é o
facto de boa parte dos contextos urbanos que o Heitor tem estudado terem sempre
presente o trabalho, embora não necessariamente colocado por si como problema
de pesquisa. Para além de os seus interlocutores em situação de observação
trabalharem na cidade, de ser na cidade que têm os seus meios de vida e que as
suas relações com os outros se espacializam, parece também haver como que um
trabalho de levantamento acerca do que é ou não problemático para os urbanitas
nas suas zonas de interesse. Como vê, na sua pesquisa, esta dimensão do fabrico
da cidade pelos seus habitantes?
HFJ No geral, acho que a dimensão do trabalho é uma dimensão importante mas
não sei se seria sempre a dimensão determinante. Por exemplo, na pesquisa sobre
o largo da Concórdia, a ideia da praça como espaço de encontro, lazer e
sociabilidade era negada na prática por aqueles que ocupavam aquele local para
práticas de trabalho. Os engraxates com quem tive contacto na época, que eram
quase todos nordestinos, concebiam aquele espaço de uma forma bastante
peculiar, como se fossem uma pequena empresa. Já na pesquisa sobre os
shopping centers, minha preocupação era justamente sobre o consumo e o lazer.
Essa dimensão não estava muito presente, embora ela aparecesse como pano de
fundo, para os lojistas. Mas acho que estou sempre tentando confrontar
múltiplas determinações que se entrelaçam. Na pesquisa sobre o Bairro Alto,
também aparece um pouco essa dimensão. Você tem, por um lado, uma série de
grupos e de pessoas que usam aquele espaço para lazer, ao mesmo tempo que ali
os donos dos bares ou dos estabelecimentos pensam aquilo do ponto de vista do
rendimento, do trabalho. É importante frisar que às vezes a gente tende a
identificar, por exemplo, um ator social como ligado ao mundo do trabalho mas
na pesquisa se percebe que essas identificações se multiplicam, se fragmentam.
JPSN E a cidade permite ler isso, não é?
HFJ Exatamente. Às vezes você começa a lidar num local com a identidade de
moradores, só que você aos poucos percebe que um morador também é alguém que se
move por determinados espaços. Aí a questão da situação predomina, ou seja, a
depender do contexto situacional, a pessoa pode acionar algum outro tipo de
identificação onde às vezes a questão do trabalho perde o relevo e noutras,
ganha. Tudo depende da situação que você enfoca e daquilo a que você presta
mais atenção.
PATRÍCIA PEREIRA De São Paulo para Lisboa: o que o atraiu em Lisboa e no Bairro
Alto em particular?
HFJ Minha vinda para Lisboa foi, primeiro, ocasionada por atores
institucionais. Eu faço parte da Rede Brasil-Portugal de Estudos Urbanos, que
propicia o intercâmbio entre pesquisadores brasileiros e portugueses. Isso
permitiu que eu viesse a Portugal e pudesse começar a eleger alguns sítios para
desenvolver pesquisa. E dentro dessa preocupação de trabalhar com bairros
situados em áreas centrais, com um conjunto significativo de determinações e
questões, o Bairro Alto me chamou a atenção como espaço de possível
aprofundamento. Fiz algumas vindas para cá, mas sempre muito pontuais. Aí, por
conta própria decidi, com uma bolsa da FAPESP,[12]
ficar em Lisboa por alguns meses, para acumular um conhecimento mais
aprofundado, não só do bairro mas do contexto mais abrangente, da inserção do
bairro numa cidade específica, numa sociedade específica. E é isso que estou
fazendo agora, trabalhar de forma mais detida e pela primeira vez num contexto,
digamos, mais distanciado, porque minhas pesquisas em geral estavam localizadas
em São Paulo
PP Em casa, não é?
HFJ Exatamente, em casa. Já fiz pesquisas fora de São Paulo, mas com uma
certa proximidade. Acho que Lisboa me insere um pouco em algo presente na
antropologia, que é você se deslocar significativamente do lugar ao qual está
habituado, no caso, ir além-mar. Ao passo que é também interessante porque o
facto de estar em Lisboa traz novamente outras ilusões, porque você pensa:
Bom, eu falo português, e eles também; então, num certo sentido, temos alguma
coisa que nos aproxima. Mas isso pode ser ilusório. Há um bar que tenho
frequentado no Bairro Alto. É, ao mesmo tempo, uma casa de pasto, depende do
horário. Mas há um momento em que as pessoas se reúnem ali e são pessoas das
classes populares, que conversam entre elas, com piadas que eu capto muito
pouco. E eu também não posso ficar pedindo para eles explicarem o tempo todo o
que estão falando [risos] Então tal esforço para entender me faz pensar na
ilusão que se tem em achar que, pelo facto de estar num contexto onde se fala a
mesma língua, se pode compreender tudo. É interessante porque esse é um outro
grau de estranhamento que venho enfrentando. Quando você vai fazer uma pesquisa
noutro lugar, em geral você tem de enfrentar o aprendizado de uma outra língua.
Aqui você não tem, num certo plano, mas num outro tem, à medida que se tem de
enfrentar valores e referências culturais desconhecidos. E isso tem sido um
aprendizado importante: a possibilidade de enfrentar gradativamente uma série
de estranhamentos.
PP Pode falar um pouco mais desta experiência de fazer trabalho de campo
em duas cidades tão diferentes e contar alguns episódios ?
HFJ Por exemplo, no caso da pesquisa da Luz,[13]
na cidade onde moro, em que a princípio haveria uma certa familiaridade
Trata-se de um bairro superexposto à mídia, à grande imprensa, por conta de uma
série de questões e conflitos, o que passa a impressão de que todos o conhecem.
Sinteticamente, há dois aspetos que polarizam o debate: por um lado, a ideia de
que a Luz é alvo de uma série de intervenções urbanísticas que vêm acontecendo
já há muitos anos por parte do Estado, que quer dotar aquele espaço de
instituições culturais e tornar aquilo um bairro cultural; na outra ponta
dessa polaridade, existe a ideia de que é um bairro degradado. A degradação é
uma contrapartida da revitalização. A revitalização e a degradação estão sempre
juntas, não é? E um dos aspetos que se frisa muito dessa degradação seria a
quantidade significativa de usuários de crack pelas ruas que ajudaram a cunhar
o termo cracolândia para aquele espaço específico. Então, por um lado, é um
bairro conhecido, muito exposto à mídia, e o desafio etnográfico tem sido
justamente trazer à tona aspetos não tão visíveis à primeira vista. Quando se
lê as notícias, tem-se a impressão de que já se sabe o que está em jogo na Luz.
Num certo sentido, essas dimensões estão ali presentes, mas, na pesquisa, temos
tentado entender, por exemplo, uma população que mora, que circula por ali e
que não aparece nem no discurso da intervenção urbanística, nem no discurso da
criminalidade ou do uso das drogas. E nem são necessariamente militantes,
embora revelem novas questões políticas. Quer dizer, nos enfrentamentos
políticos, as identidades tendem a se polarizar, reforçando-se a ideia de dois
mundos em oposição. O que a pesquisa tenta mostrar é que, para além disso, há
outras questões nesse entremeio que também devem ser compreendidas. E ali é uma
experiência, digamos, mais partilhada de pesquisa. Ou seja, tenho levado
adiante essa pesquisa com uma equipe de pesquisadores. Como existem várias
dimensões relevantes, tem havido investigações concomitantes. E como são o
tempo todo partilhadas, elas ajudam a definir novos rumos, bem como se revelam
uma série de conexões. Vou dar um exemplo. Na Luz, existe um bar chamado Nova
Luz, o que já seria inquietante porque se trata do nome do projeto da
prefeitura para revitalizar o bairro. Então como um bar situado quase na área
das demolições pode se chamar Nova Luz?[14] Você chega lá e percebe o
seguinte: o dono do bar administra uma equipe de futebol amador chamada
Portuguesinha da Luz. Essa equipe foi disputar um campeonato e se ausentou de
uma partida, por causa de um grande atraso, o que resultou numa
grave eliminação da competição; quando foram participar num novo torneio,
tiveram de criar um novo nome e aí foi criada a Nova Portuguesinha da Luz. E
a Nova Portuguesinha da Luz virou Nova Luz Bom, essa equipe de futebol,
por sua vez, abarca moradores de ocupações da região, organizadas por
movimentos sociais, que já tínhamos pesquisado numa outra ocasião.[15] Então é
interessante porque é um nome que parece fazer alusão ao projeto da prefeitura,
mas se trata de uma equipe de futebol que conta em boa parte com participantes
de movimentos políticos de ocupação da área. Para além disso, há também uma
outra coisa interessante. Esse bar quase fora demolido pelos projetos de
intervenção. Mas, uma vez que não foi atingido, hoje a área demolida está sendo
reconstruída e aí centenas de operários, que ali fazem o trabalho, vão almoçar
no bar por conta de um convênio entre o dono e a prefeitura, e tal bar passou a
ter um rendimento enorme a partir de então. Numa reflexão polarizada, você
ficaria sem referência para compreender a inserção do proprietário desse bar em
tal contexto. Porque ele não é nem um militante contra a revitalização ' embora
tenha relação com os militantes ' e também não é um agente do poder público
voltado à transformação da área. Desse modo, na pesquisa da Luz existe uma
investigação partilhada onde, na verdade, vão se cruzando uma série de
descobertas que levam a certos nós de condensação. Um dos exemplos é o dono
desse bar, que é também síndico de um prédio que temos pesquisado. É o exemplo
de uma pesquisa que cruza redes mas numa perspetiva intensiva, que se
territorializam num certo plano. No caso de Lisboa, é uma experiência
diferente
PP Mais solitária? Mas também encontra, à partida, dois mundos em
oposição, que tenta desconstruir
HFJ Exatamente. Por um lado, ela é solitária, pois se volta um pouco a essa
ideia clássica da etnografia de que você articule as várias dimensões
observadas e coloque isso num plano de experiência individual. O que é
interessante, por um lado, porque no caso da Luz é preciso trabalhar o tempo
todo com as diferenças individuais dos pesquisadores para se criar uma espécie
de ethos comum de investigação. No caso do Bairro Alto estou fazendo uma
pesquisa, nesse momento, sozinho, embora tenha contado com um auxílio inicial.
[16] Por outro lado, concordo com você que aqui em Lisboa tenho também
enfrentado uma certa polarização. No caso do Bairro Alto, o conflito tem outros
contornos, mas basicamente a ideia muito veiculada e muito falada pelas pessoas
é que o Bairro Alto tem dois mundos, não é? O mundo do dia, dos moradores, com
pessoas idosas, principalmente senhoras (demograficamente existem mais mulheres
idosas do que homens), e o mundo da noite, que seria o dos bares e do lazer
noturno, da boémia, e que seriam mundos em oposição. Claro que existe
efetivamente essa dimensão, mas o que chama a atenção na etnografia são
justamente as articulações entre esses mundos. Por exemplo, existem senhoras,
não aquelas mais velhas, mais doentes, mas as senhoras que, depois de se
aposentar, têm em bares uma das suas fontes de trabalho. Ou seja, senhoras que
moram no Bairro Alto, que se queixam do barulho noturno e tudo o mais, mas que,
por outro lado, trabalham durante muito tempo em bares, na limpeza, durante o
dia. A primeira senhora com quem conversei contou que trabalhara na casa de
loucos. Eu imaginei que era um tipo de asilo, depois descobri que tinha sido o
nome de um bar no Bairro Alto! [risos] Ou então o senhor Nelson, um idoso muito
jovial que mora no Bairro Alto mas cujo trabalho é transportar coisas, objetos
ou géneros, de um bar para outro. Ele é muito conhecido entre os jovens. Então,
na verdade, o que tem aparecido na pesquisa são justamente as conexões entre
esses mundos, de certa forma em oposição. Por outro lado, outros tipos de
conflito têm-me chamando a atenção. Em 2009, quando fiz uma vinda aqui de mais
de três semanas, estava prestes a ser aplicada a lei que ia redefinir o horário
do funcionamento noturno dos bares, o que era uma reivindicação já antiga.
Então nesse momento o conflito era muito definido pela polaridade moradores
versus frequentadores. Eu diria que hoje, dois anos depois, o conflito mais
visível ocorre entre os donos dos bares e os donos das lojas de conveniência,
em torno da venda de bebidas alcoólicas. Porque hoje existe um fenómeno, a
compra em massa da litrosa, e o botelhão, que é uma palavra inspirada no
botellón ' aliás, é interessante como o Bairro Alto nos anos 80 já era
inspirado na movida espanhola [17] Aquele fenómeno define também um conflito,
não apenas entre moradores e frequentadores, mas entre aqueles que teriam os
bares mais legalizados, com equipamentos e que cobram um determinado preço pela
bebida, e esses outros espaços que, num certo sentido, burlariam a lei,
venderiam bebidas mais baratas e que levariam a que uma grande população,
principalmente jovem, utilizasse o espaço de forma problemática.
LF Centrando-nos agora na experiência da etnografia partilhada na
cracolândia, que julgo que também envolve alunos seus, gostava muito de saber
como se articula a docência e a investigação nessa experiência etnográfica
coletiva e qual a sua projeção noutros campos como, por exemplo, o
jornalístico. Coloco a hipótese de esse trabalho ter contribuído para a
construção de uma imagem alternativa do bairro da Luz
HFJ Começando por essa última questão que você fez: em geral, abordagens
antropolóGICas dão visibilidade a lugares não muito conhecidos, ou não muito
visíveis. Por exemplo, em muitos casos de abordagens de bairros periféricos de
São Paulo, era isso que estava em jogo: como é que você dá visibilidade a algo
que não é conhecido? No caso da Luz, existe uma overdose de informações a
respeito. É difícil você imprimir uma mudança de uma imagem muito consolidada.
Então, no caso da Luz, o que tenho às vezes falado na grande imprensa repercute
às vezes de forma um pouco estranha, porque procuro dar relevo ao entremeio que
existe entre esses mundos, enquanto os jornais muitas vezes querem, na verdade,
ressaltar a polarização. E não é só a grande imprensa. Já houve determinados
momentos de diálogo, por exemplo, com arquitetos ligados, em São Paulo, ao
campo de oposição a certas intervenções urbanísticas, articulados a movimentos
populares à esquerda, etc. Quando eles falam da Luz, querem justamente compor
um mundo dual: existe o lado de lá, o campo da intervenção urbana, os ricos, o
capital imobiliário e tudo o mais, e, do outro lado da trincheira, os
movimentos populares, a população, as classes populares, quase como que
articuladas contra isso. E as nossas descobertas etnográficas questionam
parcialmente isso, mesmo admitindo que existam momentos de radicalização, em
que esses processos se polarizam. Nos embates entre o poder público e as
populações possivelmente atingidas pelas demolições, têm surgido associações
que se colocam contrariamente a esse projeto. Recentemente têm surgido
associações de moradores da Luz, que não existiam mas que passa a haver por
causa do conflito. O conflito institui certas realidades, dentro de um campo
mais complexo de agentes que por vezes não estão ligados nem a um campo, nem ao
outro. Eu acho que isso não é de fácil absorção. O conhecimento antropolóGICo
sobre a cidade, num certo sentido, concorre com muitos outros. Não tenho
expectativas de que a mídia vá levar em conta ou rever essa posição, mas é
importante pontuar as diferenças. No caso da Luz, num campo extremamente
politizado, é preciso atentar a aspetos para além dessas dualizações. Sobre a
relação entre docência e investigação, acho que uma pesquisa como essa ajuda,
num certo sentido, a definir alguns temas das disciplinas que são ministradas,
principalmente na área da antropologia urbana, com a qual trabalho na
Universidade de São Paulo. Desse modo, isso delimita certos interesses dos
cursos a partir das experiências etnográficas de pesquisa. Mas na pesquisa
sobre a Luz só participam orientandos, não alunos. E o enfrentamento
etnográfico dos usuários de crack acabou por ser feito apenas pelo Enrico, um
dos antropólogos que fazem parte dessa equipe, e por mim.[18]
Nesse caso, como era um trabalho que envolvia uma aproximação delicada, acabou
por ser uma investigação mais restrita quanto à participação de outras pessoas,
embora os temas tratados fossem cruzados com o que era pesquisado pelos outros.
PP O seu trabalho Espaços Públicos e Interação Social, um livro sobre São
Paulo, faz referência a uma tendência, e estou a citar, para a redução
considerável da diversidade e heterogeneidade dos espaços de interação social
interclasses. Gostaríamos de saber se também encontra esta tendência em Lisboa
e como é que ela se declina.
HFJ Penso que essa afirmação hoje merece certa relativização. Nesse livro,
em 1995, eu estava mais permeável à ideia de que haveria uma espécie de
desertificação de boa parte dos espaços públicos, com o reforço do controle, e
que isso levaria, num certo sentido, a uma diminuição da diversidade. Hoje
revejo essa ideia, bastante discutida na época, de uma cidade muito apartada. O
trabalho de Teresa Caldeira,[19]
por exemplo, caminhava muito nessa direção, ao falar que São Paulo é uma
cidade de muros, uma cidade apartada, uma cidade onde haveria na verdade uma
crescente separação entre os mundos sociais. Eu concordava parcialmente com
esse argumento. Hoje vejo de uma outra forma. Acho que mesmo os condomínios
fechados implicam relações, interações, que estão presentes mesmo quando
aparentemente não estariam. Por exemplo, Jessica Sklair foi minha orientanda de
mestrado, quando ela pesquisou justamente a relação de grupos ligados às
classes de maior poder aquisitivo na região do Morumbi e os projetos
filantrópicos voltados a regiões carentes ' sua pesquisa resultou num livro
chamado A Filantropia Paulistana.[20]
O interessante é que ela mostra que nesse campo entre pobreza e riqueza, na
verdade, existe muita interação, muita relação. Em geral tratamos como se
fossem mundos totalmente separados. Eu tendo a achar hoje que essa é uma
questão frutífera do ponto de vista das abordagens etnográficas. Eu não tomaria
o pressuposto da separação, mas, do ponto de vista de uma relação, mesmo que
ela seja conflitiva, assimétrica.
GIC O trabalho do antropólogo na cidade passa muito por uma tentativa de
localizar e encontrar as suas unidades de observação, com todo um trabalho de
focalização. Nesta dupla inserção em Lisboa, por um lado, a focalizares-te num
problema, num objeto e num bairro, e há já bastantes meses a viver em Lisboa,
como é que vês o trabalho do antropólogo urbano noutra cidade? Achas que o
tempo de estadia é importante para agarrar o ambiente urbano, o seu ethos?
HFJ Eu vou dar exemplos da própria etnografia. Por exemplo, o facto de eu
estar aqui há algum tempo permite que eu acompanhe algumas pessoas que eu
contactei em situações específicas. Quando comecei o trabalho de campo, conheci
uma artista plástica que tinha tido uma relação forte com a Galeria Zé dos
Bois, circulou muito nesse espaço específico, mas que vinha pensando na crise
em Portugal e, ao mesmo tempo, na crise ambiental, o que a levou a pensar num
projeto de morar fora da cidade. Bom, interessante que eu recentemente a
encontrei e ela realmente tinha feito isso. Quando você fica um tempo maior,
você acompanha melhor as trajetórias. Uma outra coisa que eu acho importante:
você passa a entender melhor os termos que são falados, as palavras Algumas
coisas incompreensíveis num primeiro momento vão-se tornando mais familiares.
Você passa a entrar em contacto com algumas expressões, com significados que só
com o tempo se pode adquirir. Por outro lado, acho que isso também traz novas
questões. O facto de você ficar em Lisboa ' eu estou aqui há alguns meses ' dá
a ilusão de que Ah, bom! Eu me sinto lisboeta [risos] Então, na Semana
Santa, por exemplo, o que se falava é que no Bairro Alto e na cidade viriam
muitos turistas espanhóis. Eu estava aqui nessa semana, num bar ali no largo de
Camões e realmente muitos dos clientes eram espanhóis, ingleses, pedindo
coisas E o rapaz do balcão falou ironicamente: Vou precisar fazer curso de
espanhol e curso de inglês para entender essas pessoas Aí, eu falei com ele:
Pois é, tem muito gringo [risos] Aí ele falou: Inclusive brasileiros!
[risos] Então, na verdade, acho que a relação entre familiaridade e
estranhamento coloca-se o tempo todo como uma questão. O facto de poder estar
mais tempo aqui permite perceber certas regularidades e como essa dimensão se
impõe aos poucos como tema. O facto de estar mais tempo aqui vai-me fazendo
perceber certas questões que numa visada mais rápida talvez eu nem me desse
conta, ou nem percebesse que fossem temas importantes. Não sei se isso responde
exatamente ao que você perguntou. Por outro lado, acho também que toda
construção, toda definição de um objeto implica a construção de um determinado
espaço e de situações que são também um problema teórico. No Bairro Alto eu
consegui definir algumas ruas ou espaços onde posso fazer uma observação mais
recorrente, onde em geral eu não entrevisto, eu não pergunto. Na verdade, eu
interajo.
GIC Eu estava a tentar identificar aquilo que é o contexto urbano ou o
contexto comunicacional de uma cidade, coisas que são difíceis de definir.
HFJ Com certeza. Eu consegui, no Bairro Alto, acompanhar etnograficamente os
ensaios e a apresentação dos integrantes das marchas populares desse ano, o que
acabou também por ser um esforço gradativo de aproximação. Eu tinha definido
uma estratégia de aproximação no começo que não resultou, só depois de várias
tentativas e alguns acasos. Mas é claro que essa observação ficou muito
enriquecida pelo facto de eu poder acompanhar também em Lisboa a conceção, por
exemplo, da Câmara Municipal sobre as festas populares, sobre os eventos que
tomam parte dessa festa, eventos que se entende não serem apenas populares mas
também voltados à apresentação de Lisboa a um contexto mais abrangente, e assim
compreender como esses temas se articulam. De modo que acho que isso me ajuda a
situar algo mais abrangente. O que faz com que Lisboa acabe por se tornar
também objeto da pesquisa, mas não numa perspetiva totalizante de tentar
entender a cidade como um todo, mas em que medida Lisboa pode emergir a partir
daquilo que venho observando. Vou dar outro exemplo: o Rossio, há um mês e
meio, como vocês sabem, se tornou um espaço de uma manifestação política muito
interessante.[21]
Certo dia eu encontrei ali um rapaz que estava no meu rol de relações de
pesquisa, o que me despertou um novo interesse. Para além do evento em si, que
é importante, se tornou também significativo ver como essa pessoa entrava ali,
a participação dela
GIC As redes
HFJ Exatamente. Eu acho que o esforço tem sido ver como é que, a partir
dessa pesquisa, ela se abre para outros aspetos também relevantes.
LF E para outros espaços
HFJ E para outros espaços, sem dúvida. E isso aparece de muitas formas,
inclusive como o próprio espaço do Bairro Alto é ressignificado pelos agentes.
Estava comentando agora há pouco com a Patrícia como, por exemplo, a ladeira da
Bica, a ladeira do funicular, como é o nome ?
GIC Rua da Bica de Duarte Belo.
HFJ Exato. Como é um espaço de crescente utilização de lazer e para alguns
agentes aquilo é significado como
PP Uma extensão?
HFJ Como uma extensão do Bairro Alto. É intrigante Mas por que seria uma
extensão do Bairro Alto e não um espaço da própria Bica? Existem, por exemplo,
alguns bares no Bairro Alto, como o Maria Caxuxa, ou o Majong, esse mais no
passado, frequentados por pessoas ligadas à classe artística, que também têm
frequentado alguns bares da Bica, como o Funicular e outros. E eles definem
entre eles essa articulação. Então, o espaço do próprio Bairro Alto vai se
redefinindo. Inicialmente, eu achava que essas fronteiras estavam mais nítidas,
em comparação com São Paulo. Por exemplo, se você olha certos guias do Bairro
Alto ou o livro de Helder Carita,[22]
aquela delimitação é muito categórica, não é? Mas recentemente eu estava numa
reunião de preparação de eventos para o próximo aniversário do Bairro Alto e
tinha uma senhora que, para ela, a calçada do Combro, lá em baixo, na Santa
Catarina, aquilo é Bairro Alto. Quer dizer, ela tinha uma outra definição. Hoje
inclusive vou fazer uma fala na livraria Círculo das Letras e o cartaz que
prepararam para a minha fala tem a escada da Bica
GIC Mas tem as escadinhas, não tem a rua da Bica de Duarte Belo. Isso faz a
diferença
HFJ Claro. Existe também uma dimensão que tem-me chamado a atenção mais
recentemente. Por exemplo, em 2007 eu tinha visitado a Cova da Moura através de
um grupo que apresentava tal bairro para as pessoas de fora. Era uma ONG local,
ligada ao Moinho da Juventude, com um jovem que fazia uma espécie de
apresentação com um discurso político. Mais recentemente o Bairro Alto, que não
estaria na alçada dos bairros sociais, tem uma ONG também, a +Skillz, situada
lá e que também faz roteiros para apresentar às pessoas o verdadeiro Bairro
Alto, com um discurso que, num certo sentido, tenta produzir uma espécie de
essencialização: Nós hoje vamos apresentar o verdadeiro Bairro Alto, vamos ver
os moradores, o comércio local e tudo o mais Interessante como você tem hoje
ali uma certa agenda de apresentar o bairro para a população. Então há esse
desafio de cruzar um conjunto multifacetado de representações sobre esse
espaço.
GIC Uma última pergunta. Situando-nos no espaço da antropologia urbana em
língua portuguesa, eu considero que a tua vinda a Lisboa ajuda a criar uma
ponte muito importante entre a antropologia urbana brasileira e a portuguesa ao
nível da investigação comparada, das colaborações, diálogo, algo coletivo, em
conjunto. Esta ponte não é nada óbvia, apesar das supostas facilidades
linguísticas. Pergunto-te como te situas, como é que vês esta colaboração.
Tenho de relembrar que esta mesma revista, a Etnográfica, publicou no seu
primeiro ano de vida, em 1997, uma entrevista a Gilberto Velho, que foi uma das
pessoas que mais ajudou a desenvolver esta relação luso-brasileira.[23]
Estamos em 2011 e muitas pequenas coisas foram feitas neste âmbito
HFJ Acho importante poder fazer parte de um campo de interlocução entre
Brasil e Portugal, que está em construção e do qual vocês também fazem parte.
Bom, a antropologia urbana no Brasil se institucionalizou um pouco antes de
isso acontecer em Portugal, não é? Quer dizer, nos anos 70 isso já vinha se
articulando, primeiramente no Rio e em São Paulo e depois noutros centros. O
que está acontecendo mais recentemente é uma intensificação desses
intercâmbios. Se a gente mapear, por exemplo, aqui em Lisboa, a vinda do
Gilberto Velho ' que representa, num certo sentido, muito da antropologia
urbana carioca ' e depois a vinda do José Guilherme Magnani, a convite de
vocês, então eu acho que isso tem criado uma espécie de campo de interlocução a
partir do qual, num certo sentido, eu já me sinto beneficiado. Talvez exista
uma contribuição minha, em parte por fazer aqui uma etnografia mais a longo
prazo. Se isso ajuda, num certo sentido, a estabelecer uma ponte, do ponto de
vista não apenas teórico, mas que também passe pela pesquisa, fico muito
contente. E acho que o próprio esforço que a Graça fez de traduzir o livro do
Michel Agier ' que envolveu também a participação do Magnani e minha na revisão
conceptual, para além de ter ocorrido aqui também o seu lançamento, com debate
' também ajuda no fortalecimento dessas relações. Eu fico contente por poder
participar de um campo que está em construção e espero que essa interlocução
possa aumentar.
NOTAS
[1] Heitor Frúgoli Jr., 2007, Sociabilidade Urbana, Rio de Janeiro, Jorge
Zahar Editor.
[2] Heitor Frúgoli Jr., 1995, São Paulo: Espaços Públicos e Interação
Social, São Paulo, Marco Zero.
[3] Heitor Frúgoli Jr. e Silvana Maria Pintaudi (orgs.), 1992, Shopping
Centers: Espaço, Cultura e Modernidade nas Cidades Brasileiras, São Paulo, Ed.
da Unesp.
[4] Heitor Frúgoli Jr., 2000, Centralidade em São Paulo: Trajetórias,
Conflitos e Negociações na Metrópole, São Paulo, Cortez/Edusp/Fapesp.
[5] Rede originada no âmbito do Programa Comunidades dos Países de Língua
Portuguesa (CPLP) do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e
TecnolóGICo (CNPq/Brasil).
[6] Michel Agier, 2011, Antropologia da Cidade: Lugares, Situações,
Movimentos, São Paulo, Terceiro Nome (tradução de Graça Índias Cordeiro). O evento de lançamento em Lisboa ocorreu em maio de 2011
(organizado pelo CIES-IUL e Biblioteca do ISCTE-IUL) com o debate Antropologia
da cidade em língua portuguesa, no qual participaram, além do autor,
pesquisadores portugueses e brasileiros.
[7] Heitor Frúgoli Jr., 1992, Os shoppings de São Paulo e a trama do
urbano: um olhar antropolóGICo, em Heitor Frúgoli Jr. e Silvana M. Pintaudi
(orgs.), Shopping Centers: Espaço, Cultura e Modernidade nas Cidades
Brasileiras, São Paulo, Ed. da Unesp, 75-92.
[8] Doutorado sanduíche é o nome dado, no Brasil, ao programa de
doutoramento parcialmente realizado numa universidade estrangeira.
[9] Ver, a respeito, Bernard Lepetit, 1998, Sobre a escala na história,
em Jacques Revel (org.), Jogos de Escalas: A Experiência da Microanálise, Rio
de Janeiro, Ed. FGV, 77-102.
[10] Heitor Frúgoli Jr., 2005, O urbano em questão na antropologia:
interfaces com a sociologia, Revista de Antropologia, 48 (1): 107-124.
[11] Nomes de bairros limítrofes à Luz, todos situados na região central
paulistana.
[12] Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo.
[13] Esta pesquisa conta com o apoio do Conselho Nacional de
Desenvolvimento Científico e TecnolóGICo (CNPq).
[14] As demolições referidas ocorreram em 2007, no âmbito do projeto de
intervenção urbanística em questão.
[15] As ocupações referidas dizem respeito a edifícios vazios ocupados
pelos sem teto (ou sem-abrigo), atores sociais ligados aos movimentos de luta
pela habitação, cujas ações levam a embates e negociações com o poder público
para a obtenção da casa própria.
[16] Em breve será publicado, numa coletânea organizada pela já citada Rede
Brasil-Portugal de Estudos Urbanos, um artigo de Heitor Frúgoli Jr. em parceria
com Jessica Sklair, que participou na pesquisa sobre o Bairro Alto nas visitas
anteriores, de caráter mais pontual.
[17] Litrosas são as garrafas de cerveja de um litro, mais baratas para o
consumo; botelhão refere-se ao consumo coletivo e denso de álcool por grupos
juvenis em espaços públicos, que teria a sua origem em Espanha.
[18] Heitor Frúgoli Jr. e Enrico Spaggiari, 2010, Da cracolândia aos
noias: percursos etnográficos no bairro da Luz, Ponto Urbe, 6, http://
www.pontourbe.net/edicao6-artigos/118-da-cracolandia-aos-noias-percursos-
etnograficos-no-bairro-da-luz.
[19] Teresa Caldeira, 2000, Cidade de Muros: Crime, Segregação e Cidadania
em São Paulo, São Paulo, Edusp/Ed. 34.
[20] Jessica Sklair, 2010, A Filantropia Paulistana: Ações Sociais em Uma
Cidade Segregada, São Paulo, Humanitas/Fapesp.
[21] Em maio de 2011, a praça foi ocupada por dezenas de jovens, vários
deles ali acampados, em aparente diálogo com um movimento que ganhara forte
visibilidade em Espanha, como protesto dirigido ao capitalismo, ao sistema
político, à falta de perspetivas acarretada pela crise europeia, etc.
[22] Helder Carita, 1994, Bairro Alto: Tipologias e Modos Arquitectónicos,
Lisboa, Câmara Municipal de Lisboa.
[23] Ver <http://ceas.iscte.pt/etnografica/docs/vol_01/N2/
Vol_i_N2_09gilbertovelho.pdf>. Gilberto Velho viria a falecer após a realização
desta entrevista, a 14 de Abril de 2012.