Negociações identitárias dos luso-descendentes no Canadá através do futebol
português e do hóquei no gelo canadiano
A 4 de setembro de 1983, a estação de rádio de cobertura nacional Canadian
Broadcasting Corporation (CBC) transmitiu uma reportagem intitulada Quando os
adeptos do futebol imigram. Com base numa série de jogos que tiveram lugar na
cidade de Toronto entre o clube de futebol profissional dessa cidade, o Toronto
Blizzard, e duas grandes equipas europeias ' o S. L. Benfica de Portugal e a
Juventus de Itália ', e durante os quais os espetadores aclamaram com mais
energia as equipas visitantes do que o clube da casa, a reportagem radiofónica
propôs-se analisar as seguintes questões: O que acontece quando os adeptos do
futebol imigram? Será que trocam também de lealdades clubistas? Ou permanecem
ferozmente fiéis às mesmas? Para estes imigrantes, uma visita do clube
preferido do seu país natal para um recontro com uma equipa local canadiana é
mais do que um simples jogo. Por um lado, é uma ocasião para a demonstração de
nacionalismo e de lealdade étnica, bem como uma oportunidade para mostrar que
nós, imigrantes, somos superiores a vós, canadianos, nesta atividade
específica ' o futebol. Por outro lado, contudo, é também uma viagem ao passado
e às memórias felizes da infância ' a um tempo em que iam ao futebol com os
pais e em que os heróis desportivos eram maiores do que a vida nos seus
países de origem. As antigas paixões ainda pulsam com força no coração do
imigrante, explicava o repórter, não é fácil esquecer as velhas lealdades.
Em Toronto, bem como noutras cidades canadianas, os adeptos do futebol têm
ignorado os clubes profissionais locais, já que, como referido na mesma
reportagem radiofónica, muitos deles permanecem sobretudo ligados a clubes
europeus, e souberam transmitir aos filhos essas lealdades. Evidentemente, os
imigrantes de primeira geração têm laços mais fortes com os seus países de
origem ' foi aí que nasceram, cresceram, estudaram, trabalharam e, em muitos
casos, foi também aí que casaram e constituíram família antes de emigrarem. Mas
e quanto aos descendentes desses imigrantes? Quais as suas lealdades? Que
variantes participam na formação das suas identidades? Como já referimos, para
os imigrantes de primeira geração, a nova equipa representativa da nova
cidade não pode substituir os sentimentos de paixão e os momentos de alegria
proporcionados pelas equipas do velho país, às quais estão afetivamente ligados
desde a mais tenra infância. Porém, a situação dos seus descendentes é
diferente. Neste caso, falamos de indivíduos que cresceram num ambiente norte-
americano, praticando e assistindo a modalidades desportivas que os seus pais
nem sequer conheciam antes de imigrarem (por exemplo, o hóquei no gelo, o
futebol americano, o beisebol). É, pois, essencial determinar em que medida
diferem as lealdades desportivas dos descendentes dos imigrantes, bem como
definir o papel que os novos passatempos desportivos desempenham no processo de
formação de identidade desta população específica.
O presente artigo visa examinar estas questões através da análise das lealdades
e adesões desportivas, bem como do consumo e prática de desportos, entre os
descendentes de imigrantes portugueses no Canadá. Além disso, debruçar--me-ei
sobre os processos de formação e negociação da identidade através dos dois
desportos mais populares em ambos os países ' o futebol, no caso de Portugal;
o hóquei no gelo, no caso do Canadá.
As conclusões apresentadas neste artigo baseiam-se numa pesquisa etnográfica
que explorou as narrativas de imigrantes portugueses de geração 1,5 e de
segunda geração, de modo a explicitar as conceções e construções de identidade
deste grupo particular através das referidas modalidades desportivas.[1] Os
dados empíricos recolhidos mediante entrevistas semiestruturadas e conversas
informais com luso-canadianos de geração 1,5 e segunda geração durante o
período de trabalho de campo, que decorreu entre 2 de outubro e 5 de novembro
de 2009 nas cidades canadianas de Toronto, Otava-Gatineau e Montreal,
constituem assim a base da análise aqui apresentada.[2] No total foram
realizadas 30 entrevistas, 15 com participantes do sexo feminino e outras 15
com participantes do sexo masculino, cujas idades iam dos 18 aos 59 anos na
altura da realização do trabalho de campo.
O jogo canadiano (hóquei no gelo) versus o jogo dos imigrantes (futebol)
A história desportiva canadiana revela que, ao contrário de outras regiões do
antigo Império Britânico (Austrália, Nova Zelândia, o subcontinente indiano,
África do Sul e algumas partes das Índias Ocidentais), o Canadá logrou resistir
desde muito cedo ao imperialismo desportivo (Metcalfe 1987). A principal razão
para o facto é a sua proximidade geográfica com os Estados Unidos, que
rejeitaram o controlo político britânico e, desse modo, puderam desenvolver a
sua própria identidade desportiva. Por seu turno, os canadianos começaram a
interessar-se pelo passatempo desportivo mais popular dos seus vizinhos do sul,
o beisebol, que começaram a praticar. O futebol americano também tem uma versão
própria no Canadá ' o futebol canadiano ', que é similar ao seu primo
americano, mas apresenta algumas regras diferentes. Além disso, o basquete, um
desporto inventado por um canadiano residente nos EUA, é também amplamente
praticado no Canadá de hoje.[3] Porém, se perguntarmos a um canadiano qual o
desporto nacional do seu país, a resposta será indubitavelmente hóquei no
gelo, já que, como bem sabe qualquer residente desse vasto país do Norte, essa
modalidade desportiva foi inventada pelos canadianos (Bairner 2001).
Consequentemente, no Canadá, o hóquei no gelo surge com frequência associado à
própria ideia de canadianidade [Canadianess] (Gruneau e Whitson 1994; Earle
2002). Bairner (2001: 124) faz notar que juntamente com a folha de plátano, a
Real Polícia Montada e a vida selvagem nativa, o hóquei constitui uma das mais
comuns representações da identidade canadiana.[4]
Além disso, segundo Podnieks (1996: 3), É um facto simples e evidente que, no
Canadá, o hóquei toca virtualmente toda a gente, de modo direto ou indireto.
Apesar das diferentes ondas migratórias para o Canadá, este desporto tem
mantido firmemente o seu estatuto de jogo nacional do Canadá, sem ser jamais
suplantado por outras modalidades e culturas desportivas oriundas de outros
países. No caso dos luso-canadianos, conhecemos exemplos de assimilação ao
jogo canadiano através dos descendentes dos imigrantes, alguns dos quais são
hoje jogadores profissionais da NHL. É o caso de Manny Fernandez (Dallas Stars,
Minnesota Wild, Boston Bruins), de Mike Ribeiro (Montreal Canadiens, Dallas
Stars) e de John Tavares (New Iorque Islanders).[5] Nestes casos, porém,
estamos a falar de luso-canadianos de segunda ou terceira geração, nascidos e
educados no Canadá. Assim, a afirmação de Podnieks de que o hóquei toca
virtualmente toda a gente é verdadeira no sentido em que esse desporto faz
parte da cultura de massas canadiana. Porém, tal argumento pode ser contestado
se tomarmos em consideração os imigrantes recém-chegados que desconhecem o
jogo. Como defende Bairner:
É pouco provável que os canadianos mais recentemente chegados ao
país procurem confirmar a sua nova identidade nacional através da
prática do hóquei no gelo. Ao trazerem consigo as tradições
desportivas dos seus países de origem, eles permanecem indiferentes
às atrações dessa modalidade. O futebol e até o críquete constituem
opções mais prováveis, o que coloca os novos canadianos em oposição a
uma cultura nacional que rejeitou estes desportos no processo de
formação de uma identidade própria (2001: 129).
Isto levanta a questão de saber se a supremacia do jogo canadiano está de
facto em risco ou se, como aconteceu com as anteriores vagas de imigrantes
(incluindo os portugueses), os novos recém-chegados conseguirão adaptar-se à
nova cultura e apaixonar-se pelo desporto nacional do Canadá.
No que concerne ao futebol, este desporto foi introduzido no Canadá pelos
britânicos, e a partida de futebol mais antiga de que há registo é de 1859
(Ronald 2007). Contudo, na apropriação de desportos populares britânicos por
parte dos nativos canadianos, o futebol nunca alcançou grande popularidade ou
visibilidade. Ao longo do século XX, com o influxo de diferentes grupos de
imigrantes, a prática do futebol foi sobretudo mantida por estes recém--
chegados. O facto levou a que esse desporto fosse muitas vezes denominado como
o jogo estrangeiro (Hay 2006), já que são sobretudo os imigrantes e seus
descendentes que manifestam um maior entusiasmo pelo mesmo.
No Canadá, a popularidade do futebol tem oscilado ao longo dos anos, mas esta
modalidade nunca conseguiu suplantar qualquer outro dos desportos mais
apreciados na América do Norte, sobretudo no que toca à base de adeptos. Tem
surgido ao longo dos anos uma série de ligas profissionais e semiprofissionais
de futebol. A primeira foi a canadiana National Soccer League (NSL), cujas
equipas eram, na sua maioria, de base étnica.[6] A First Portuguese de Toronto
é um exemplo disso. Na esteira de um aumento de popularidade do jogo após a
transmissão global do Mundial de 1966, empreenderam-se esforços no sentido de
criar uma liga transfronteiriça (Canadá / EUA) similar às que existiam no
âmbito do beisebol, do basquete e do hóquei no gelo. Assim nasceu, em 1968, a
Liga Norte-Americana de Futebol (North American Soccer League ' NASL). Ao longo
dos anos 70 e 80, o Canadá esteve representado na NASL por equipas de cidades
como Montreal, Toronto, Calgary, Edmonton e Vancouver. Devido à baixa
popularidade do jogo, bem como a uma fraca gestão das equipas e da liga, a NASL
foi extinta em 1985. Porém, durante esse período, com as equipas de futebol
norte-americanas a oferecem contratos milionários a jogadores europeus, duas
das maiores estrelas do futebol português, Eusébio e Matateu, integraram
equipas canadianas ' Eusébio jogou no Metro-Croatia de Toronto, uma equipa da
NASL, em 1976, e Matateu na First Portuguese em 1970.[7] A única participação
do Canadá no Mundial de Futebol ocorreu em 1986, no México. No seguimento dessa
participação, e com o objetivo de substituir a defunta NASL, fundou-se em 1987
a Canadian Soccer League (CSL), que duraria até 1992. Um ano após a extinção
desta, três equipas que tinham sobrevivido tanto à NASL como à CSL ' Toronto
Blizzard, Vancouver Whitecaps (conhecidos como os 86ers na CSL) e Montreal
Impact ' aderiram à A-League dos Estados Unidos, que em 2004 seria rebatizada
como United Soccer League (USL). Por fim, em 2007, o recém-criado Toronto FC
(que veio substituir o Toronto Blizzard) aderiu à Major League Soccer (MLS),
constituindo o seu primeiro franchise fora dos Estados Unidos. As duas equipas
canadianas da USL ' Vancouver Whitecaps e Montreal Impact ' juntar-se-ão ao
Toronto FC na MLS em 2011 e 2012, respetivamente.
Contudo, embora não seja uma modalidade desportiva de grande dimensão em termos
de base de adeptos, assistência aos jogos e profissionalismo, o futebol é,
surpreendentemente, o desporto com o mais elevado número de praticantes
amadores no Canadá ' de facto, a partir da década de 1980, o futebol suplantou
lenta mas decididamente o hóquei no gelo como desporto com o maior número de
jogadores registados no país. Em 2005 havia 841.466 jogadores de futebol,
contra os 543.390 jogadores de hóquei registados no Canadá (Ifedi 2005).
Assim como outros imigrantes, os portugueses contribuíram para a crescente
popularidade do futebol no Canadá, sobretudo através da criação de equipas ao
nível amador e recreativo. Embora não existam números oficiais, sabe-se que um
grande número de homens e mulheres portugueses e luso-canadianos de todas as
idades praticam futebol ao nível amador neste país. A prova está, por exemplo,
no número de equipas de futebol ligadas a associações portuguesas, bem como no
número de equipas portuguesas (e muitas vezes com nomes portugueses) presentes
em diversas ligas recreativas de todo o Canadá.[8]
Além destas oportunidades dadas aos jovens para a prática do futebol, as
diferentes ligas profissionais e semiprofissionais do Canadá têm proporcionado
aos luso-descendentes a possibilidade de desenvolverem as suas capacidades
enquanto futebolistas numa nação onde esta modalidade desportiva não se
reveste de particular importância. Já referimos que nos anos 70 dois dos
maiores vultos do futebol português exerceram os seus talentos no Canadá, e,
mais recentemente, este país tem facultado estruturas e espaços onde os
descendentes de imigrantes portugueses podem aperfeiçoar as suas capacidades e
crescer enquanto jogadores, de tal forma que alguns chegam mesmo a integrar
equipas de futebol portuguesas ou até a seleção nacional. Foi o caso, por
exemplo, de Steven Vitória (desde 2006: F. C. Porto, G. D. Tourizense, S. C.
Olhanense, Sporting da Covilhã, G. D. Estoril Praia e seleções nacionais
jovens), de Daniel Fernandes (desde 2006: seleção nacional A), ou de Fernando
Aguiar (entre 1994 e 2009: C. S. Marítimo, Nacional da Madeira, F. C. Maia,
S. C. Beira--Mar, S. L. Benfica, União de Leiria, F. C. Penafiel, Gondomar
S. C.), no futebol masculino, e de Alexandra Valério (desde 2009: seleção
nacional A), no futebol feminino. No contexto do futebol profissional
canadiano, igualmente digno de nota é o facto de que dois treinadores
portugueses têm dirigido alguns dos clubes profissionais do país: Tony Fonseca,
antigo internacional português que fixou residência no Canadá, treinou o
Vancouver Whitecaps F. C. durante três temporadas, entre 2002 e 2004; e o atual
treinador do Montreal Impact é o luso-descendente Marc dos Santos.
No que diz respeito à base de adeptos e à assistência aos jogos, e como ficou
patente na reportagem radiofónica da CBC Quando os adeptos do futebol imigram
referida no início deste artigo, o futebol português reveste-se da mais alta
importância para os imigrantes portugueses. A prova disto está na existência de
casas e núcleos de adeptos de clubes de futebol portugueses em várias cidades
canadianas. Nas cidades de Toronto e Montreal, por exemplo, não só estão
presentes as três grandes equipas portuguesas ' F. C. Porto, S. L. Benfica e
Sporting C. P. ', como também o Vitória de Setúbal, o Gil Vicente F. C., o
Varzim S. C., o C. D. Santa Clara, entre outras. Ademais, as associações
portuguesas, além de constituírem uma força fundamental por detrás da
preservação da cultura portuguesa e de organizarem todo o tipo de atividades
dentro da comunidade luso-canadiana (criação de ranchos folclóricos,
organização de festividades tradicionais portuguesas, etc.), podem também
equipar as suas instalações com televisão por cabo ou satélite, de modo a
sintonizarem os jogos de futebol de canais portugueses como a RTPi, por
exemplo. O mesmo acontece em muitos cafés e bares portugueses, ainda que estes
não se encontrem em todas as cidades canadianas.
Porém, para os portugueses que vivem atualmente no Canadá, a ligação ao futebol
português pode ser estabelecida com um simples clique, através das novas
tecnologias da informação. A Internet permite a estes adeptos manterem-se a par
dos jogos dos seus clubes preferidos em tempo real. Alguns dos meus
entrevistados aludiram a um tempo em que era necessário esperar quatro, cinco
ou seis dias para receberem um diário desportivo português com informações que
tinham quase uma semana de atraso. Hoje em dia, a globalização do desporto, com
a ajuda das novas tecnologias, pode desempenhar um papel importante na
definição da identidade, proporcionando outras alternativas aos adeptos
(Maguire 1999). Na secção seguinte, analisarei o modo como os descendentes de
emigrantes portugueses no Canadá negociam as suas identidades através dos
desportos mais populares dos dois países que partilham.
Definir identidades através do hóquei no gelo canadiano e da adesão ao futebol
português
Em certas etapas da vida podemos deparar com contextos espaciotemporais nos
quais transcendemos fronteiras identitárias em busca de identificações
transeccionais (Christou 2004). Na formação e negociação de identidades, estes
ajustamentos de identificação transeccional constituem um fenómeno comum. Para
os descendentes de migrantes, em particular, tais construções assumem
frequentemente o caráter de guerras culturais (Nunes 1995). Tendo crescido no
país de emigração dos seus pais, os indivíduos desta população específica são
definidos por padrões de vida pluralistas e biculturais, resultantes de um
processo de bissocialização que envolve duas esferas: a interna ' o espaço
étnico e sociocultural vivido principalmente dentro da unidade familiar e da
comunidade étnica ' e a externa ' o espaço exterior à primeira (Gokalp 1988).
Na esfera interna, sobretudo dominada pelo ambiente doméstico e pelas relações
no seio da comunidade étnica, se a autoridade parental persiste, se a vida
doméstica é mantida dentro de padrões tão étnicos quanto possível (linguagem,
comida, meios de comunicação, hábitos, etc.) e se existem recursos étnicos para
ajudar os descendentes a permanecerem imersos na sua cultura de origem
(incluindo fortes laços institucionais étnicos mantidos por meio da
participação em atividades associativas ou religiosas, da escolaridade em
língua portuguesa, de visitas frequentes ao país de origem, entre outros
fatores), a aculturação torna-se muito mais difícil. O capital social das
famílias e da comunidade étnica torna-se assim fundamental na manutenção da
filiação étnica. Por outro lado, o indivíduo tem também uma vida fora dos
círculos étnicos que desempenha um papel importante no distanciamento étnico. A
escola torna-se o primeiro bastião desta rotura, já que é aqui que decorre a
maior parte da vida durante a infância e a adolescência; mais tarde será
substituída pelo ambiente de trabalho.
Para os descendentes de migrantes torna-se evidente, desde a mais tenra idade,
uma coexistência intercultural dominada por uma relação sociocultural entre as
duas esferas referidas. Em diferentes momentos e espaços da vida desses
indivíduos, os dois campos assumirão diferentes graus de significado e
importância. Esta dicotomia externa / interna é muitas vezes duradoura,
delimitada por fronteiras de envolvimento rígidas. Assim, as duas esferas estão
sempre ativas, com negociações constantes de relações e envolvimentos (por
exemplo, dominação / submissão, parceria / oposição, reconhecimento /
estranheza, etc.) que se opõem uns aos outros. É precisamente no seio desta
multiterritorialidade sociocultural que a identidade dos luso-descendentes se
joga, tornando-se o resultado de uma construção ao longo do tempo e do espaço.
As duas esferas socioculturais exigem que o indivíduo se enquadre num dos
espaços e que rejeite ou ignore todas as experiências, construções e relações
que ocorrem frequentemente na interseção dessas mesmas esferas. Se não o fizer,
o indivíduo achar-se-á numa posição de estrangeiro ou de minoria, e portanto
mais suscetível à subordinação e à exclusão.
Para os descendentes de migrantes, a formação de identidade torna-se assim um
recurso a ser moldado com vista ao favorecimento da sua inclusão social. Pang
(2000) utiliza a expressão etnicidade como arma ao descrever a natureza
elástica da identidade étnica, no sentido em que os principais agentes
pertencentes a minorias étnicas estão frequentemente envolvidos em constantes
negociações consigo mesmos e com o(s) grupo(s) maioritário(s) de uma dada
sociedade. Em resposta às forças gerais da sociedade no seu todo, estes
indivíduos alteram com frequência a sua identidade étnica ou adaptam elementos
do grupo maioritário com vista à sua inserção no mesmo. Para aqueles que estão
particularmente interessados em gozar de todos os benefícios de uma sociedade
exterior às normas e características do seu grupo étnico particular, uma
identidade étnica pode revelar-se pouco atrativa. Assim como o camaleão, que
muda de cor para melhor se confundir com o meio envolvente, também estes
indivíduos fazem por se adaptar à cultura dominante do país onde vivem (Cunha
1988).
Deste modo, ainda que a etnicidade signifique que um indivíduo partilha certas
qualidades, características ou costumes com um grupo étnico específico, a
identidade étnica é multifacetada, fluida e, mais importante ainda, pessoal.
Assim, hipoteticamente, um indivíduo pode nascer no Canadá, filho de pais
portugueses. Pode comer comida portuguesa com regularidade, já que é o tipo de
comida que se cozinha lá em casa. Pode não ter frequentado uma escola
portuguesa nem conseguir manter uma conversa nessa língua ' mas, ainda assim,
ele celebra as festividades tradicionais portuguesas juntamente com os membros
da comunidade portuguesa da sua cidade, bem como as festividades canadianas. Em
termos de nacionalidade, ele pode ser canadiano ou possuir dupla nacionalidade
' mas a questão é: que etnicidade é a sua? É canadiano? Português? Ambas as
coisas? Bom, isso dependerá de uma série de fatores. Em primeiro lugar, a
identificação é imposta por si próprio ou pelos outros? Em segundo lugar, o que
está em jogo na construção dessa identidade? E, em terceiro lugar, a propensão
para assumir uma identidade portuguesa ou canadiana num determinado momento é
condicionada por um acontecimento ou ocorrência exteriores?
Como fizeram notar diversos investigadores (Nunes 1986; Oliveira e Teixeira
2004a, 2004b; Noivo 2002; Trindade 2007), a maioria dos descendentes luso-
canadianos recai numa categoria de identidade intermédia, habitando um mundo de
contradições étnicas / nacionalistas na definição do eu. Estamos perante uma
população que sente a necessidade de valorizar positivamente a sua identidade
portuguesa e de a ver valorizada pelos outros ' consequentemente, a maioria dos
luso-canadianos fala com orgulho da sua identidade e cultura portuguesas.
Ironicamente, como referiram vários dos indivíduos que entrevistei no Canadá,
muitos luso-canadianos não praticam o que dizem, já que não participam na
vida das suas comunidades, e sentem muitas vezes embaraço em falar português
fora da comunidade, ou não veem benefícios em fazê-lo dentro da mesma (Oliveira
e Teixeira 2004a: 209-210). Isto deve-se sobretudo a algo a que Suárez-Orozco
(2000) chama espelhamento social (social mirroring), um processo que ocorre
em tenra idade e pelo qual os descendentes de migrantes se comparam com o meio
circundante, estabelecendo semelhanças ou dissemelhanças sociais em relação aos
grupos de referência. Deste modo, participar em atividades étnicas de caráter
comunitário é entendido pela maioria como uma desvantagem em termos de estatuto
social, já que os seus pares não étnicos não praticam um estilo de vida
similar.
Porém, as contradições não acabam aqui. Se bem que, na sua maioria, os
descendentes luso-canadianos sintam que fazem parte da cultura dominante, isto
não cerceia a sua identidade portuguesa, já que, tendo crescido no seio de uma
família portuguesa e de um ambiente cultural específico, as pressões a que
foram sujeitos para preservarem a sua cultura de origem contribuíram para o
desenvolvimento de uma clara e permanente consciência étnica (Oliveira s.d.;
Oliveira e Teixeira 2004a, 2004b). Tudo o que os rodeia aponta nessa mesma
direção: os pais que lhes falam em português e de Portugal, os professores, os
líderes da comunidade, os meios de comunicação e até a política multicultural
canadiana. Tudo isso lhes recorda que é importante preservarem as suas raízes
e o orgulho de serem portugueses. E mesmo na escola ou no trabalho, os amigos e
colegas referem-se a eles como portugueses e não como canadianos ' que é o
que a maioria deles é.
Principalmente no caso dos jovens luso-descendentes do sexo masculino, como
confirmado por muitos dos indivíduos com quem falei durante o meu trabalho de
campo no Canadá, o desporto constitui uma via para a integração e a aceitação.
Porém, durante a infância e a adolescência, não é o amor ao futebol português
que permite tal integração e aceitação. São antes as partidas de hóquei que se
jogam na rua com os miúdos da vizinhança; é a paixão sentida e partilhada com
amigos pela equipa local da NHL e seus jogadores; são as coleções de cromos de
hóquei no gelo e a assistência ao programa televisivo Hockey Night in Canada
todas as noites de sábado.[9] Tudo isto permite a muitos jovens luso-
descendentes serem como os outros miúdos canadianos, participarem nas conversas
e estarem tão atualizados como os seus pares num tópico de grande popularidade
e aceitação. Alguns indivíduos com quem falei em Toronto e Montreal referiram a
sua devoção pelos Toronto Maple Leafs e os Montreal Canadiens, as duas equipas
históricas do hóquei no gelo canadiano, comparando-as em importância e legado
aos dois grandes clubes de futebol lisboetas: o S. L. Benfica e o Sporting
C. P.
O exemplo acima referido evoca a conceção positiva e esperançosa do hóquei no
gelo, apresentando-o como inestimável à promoção da integração social e
cultural e, desse modo, à unidade nacional (Field 2000). Bairner (2001: 125)
faz notar que, no Canadá, o hóquei no gelo ajuda a lidar com a questão da
divisão interna, funcionando de molde a consolidar a diferença entre o Canadá
francês e o Canadá inglês. Porém, como já demonstrámos, isto transcende os dois
grandes grupos canadianos, ajudando a integrar também os descendentes de
imigrantes. Nesta perspetiva, o hóquei no gelo é comparável a um modo de
socialização que, ao apresentar aos imigrantes os valores culturais e as
preferências sociais da sociedade anfitriã, lhes oferece um meio informal mas
potente de conseguirem mobilidade social através da assimilação cultural (Dyck
2007). Contrariamente, a falta de envolvimento ou participação no passatempo
desportivo mais popular do país anfitrião pode ser interpretada como um esforço
efetivo de manter uma distinção e separação cultural dentro da sociedade
canadiana. De facto, para os imigrantes portugueses e seus descendentes, seguir
o futebol português e dar mostras desse interesse, ao invés de aderirem aos
desportos favorecidos no seu novo país, pode ser entendido como um ato
deliberado de delineação de uma fronteira, por meio do qual se estabelecem
limites à inserção no novo ambiente e se favorece uma desejada segregação
(Figueroa 2003; Dyck 2007).
Assim, as questões de pertença figuram predominantemente no caso dos
descendentes de migrantes que estão integrados no tempo e espaço reais do
ambiente onde residem e que podem assumir uma identidade nacional canadiana, ao
mesmo tempo que transportam o peso da ancestralidade e da tradição étnica.
Estes indivíduos desafiam frequentemente os modos como são vistos enquanto
outros pelos seus pares canadianos, que entendem uma identidade nacional
anglo-francófona como o resultado final e acreditam que o ser-se diferente e
identificar-se com elementos da sua própria etnicidade não equivale de modo
algum a um desejo de se ser não canadiano (un-Canadian). Jorge,[10] um
entrevistado de 33 anos de Montreal, definiu do seguinte modo esta dupla
representação, recorrendo a elementos característicos do Canadá e de Portugal
para se autodefinir:
Posso ser canadiano ' o hóquei [no gelo], a cerveja, os invernos
frios e a neve fazem parte de mim tanto como de qualquer outro que se
afirme mais canadiano do que eu. A questão é que eu sou algo mais do
que isso. Por cada jogo de hóquei [no gelo], por cada cerveja, por
cada inverno, há uma outra parte de mim que me é igualmente
importante: o futebol, o vinho e os dias de sol na praia ' coisas
portuguesas. Ora bem, se eu assisto a um jogo de hóquei [no gelo] e
bebo cerveja Hei, isso é canadiano! Mas se assisto a um jogo de
futebol e bebo vinho, isso já não é considerado tão canadiano assim.
No seu estudo pioneiro sobre os processos identitários dos descendentes luso-
canadianos, Nunes (1986) defende que esta população se debate com importantes
questões de autodefinição no que toca à formação da sua identidade. Segundo o
autor, o resultado final é muitas vezes uma construção de identificação que
conduz à criação de um terceiro espaço (Bhabha 1994), um espaço que não é nem
canadiano nem português, mas antes uma combinação de ambos. O depoimento de
Jorge exemplifica a aceitação de elementos culturais do ser-se português e do
ser-se canadiano, um processo no qual tanto o futebol (português) como o
hóquei no gelo (canadiano) constituem elementos chave. O resultado final é um
misto que integra elementos de ambos os campos, pelo que o indivíduo não se vê
forçado a escolher entre um e outro, criando em vez disso um terceiro espaço.
De acordo com Bulger (1987), porém, o principal problema desta relação dual é a
indecisão quanto à conveniência de se assumir uma ou outra identidade '
portuguesa ou canadiana. Esta escolha, como explica o autor, requer a
competência de um acrobata na corda bamba, mesmo para aqueles que estão
parcialmente integrados e que adotaram as características que admiram de ambos
os mundos, ao mesmo tempo que rejeitaram os aspetos que lhes desagradam
(Bulger 1987: 11). Partindo do mesmo argumento, Trindade (2007) defende que as
formações e construções identitárias de pertença dependem dos seus custos e
benefícios para um determinado grupo. José, um luso-canadiano de Toronto com 30
anos, descreveu esta negociação do seguinte modo:
Há que saber jogar as cartas certas. Temos de ter em atenção aquilo
que dizemos e não dizemos, aquilo que fazemos e não fazemos. Há um
tempo certo e um lugar certo para tudo. Por exemplo, não vou me pôr a
dizer aos canadianos que a minha cultura é melhor do que a deles. Há
certas pessoas que gostam de exibir a sua portuguesidade a toda a
hora e momento, como por exemplo aqueles que vestem uma camisola do
Benfica para irem assistir a um jogo dos [Toronto Maple] Leafs. Isso
não faz sentido nenhum.
As estratégias de formação de identidade dos luso-canadianos serão pensadas e
moldadas de acordo com o modo como os outros os veem. No seu depoimento, José
sugere que os descendentes de imigrantes portugueses deveriam adotar a
estratégia do tempo e lugar certos, pela qual as manifestações públicas de
portuguesidade deveriam começar por ser avaliadas quanto ao seu grau de
adequação em contextos não portugueses. Deste modo, a problematização do tempo
e lugar certos para as afirmações de identidade portuguesa poderá encontrar
uma resposta mais cabal através de uma outra questão: o que há a ganhar? Os
luso-descendentes podem preferir distanciar-se de determinados elementos da
identidade portuguesa ' como, por exemplo, o futebol português ', se sentirem
que tal identificação constitui um obstáculo potencial à sua mobilidade na
sociedade canadiana. Porém, inversamente, nos casos em que o ser-se português
é entendido como um recurso para a promoção social, os luso-canadianos optarão
provavelmente por se aproximarem e por explorarem esses elementos étnicos.
A questão é saber quais as variáveis presentes nos processos identitários desta
população, e quais as variáveis que não estão envolvidas na sua capacidade de
escolher aquilo que mais lhes convém sem perturbar o equilíbrio de aceitação
por parte da sociedade dominante (Klimt 2002). Porém, o que diferencia os luso-
canadianos dos canadianos comuns (mainstream Canadians) são as marcadas
expressões, manifestações e representações etnoculturais de portuguesidade
(Anderson e Higgs 1976; Higgs 1990; Teixeira e Da Rosa 2000; Giles 2002; Gomes
2008). Para os luso-descendentes, estes aspetos estão quotidianamente
presentes, seja em casa, através da comunidade portuguesa, seja através do
olhar dos outros que assim os identificam. As minhas conversas com luso-
descendentes no Canadá revelaram que as expressões de portuguesidade (Gomes
2008) são ativadas enquanto estratégias com vista a identificar o indivíduo
como português ou, pelo contrário, desativadas, nos casos em que o indivíduo
prefere desvincular-se dessa descrição e identificação. Isto pode incluir atos
como falar português em público, frequentar uma escola portuguesa, participar
num rancho folclórico, manter relações de amizade com outros portugueses, ou,
pelo contrário, evitar todas essas estratégias. Tais opções permitem aos
indivíduos desta população navegar livremente entre culturas sem que lhes sejam
impostos rótulos estereotipados.
Oliveira e Teixeira (2004a) observam que os indicadores escolhidos pelos
descendentes luso-canadianos para justificarem o seu orgulho étnico português
são meramente simbólicos (históricos, culturais, etc.), permitindo-lhes escapar
a quaisquer posições ou comparações desfavoráveis com a sociedade anfitriã.
Perante isto, não nos surpreende que os luso-descendentes entrevistados apontem
o futebol português como o elemento que lhes proporciona mais orgulho das suas
raízes portuguesas. O facto é particularmente notório no caso da seleção
portuguesa e do sucesso de alguns jogadores de futebol portugueses. Para
manifestarem publicamente este sentimento de orgulho, muitos referiram o uso de
vestuário alusivo ao futebol português e aos seus jogadores, sobretudo quando
estes atuam em palcos mundiais como o Campeonato Mundial ou o Campeonato
Europeu. Quanto a este tópico, Isabel, uma luso-descendente de Toronto com 31
anos, afirma o seguinte:
Na altura do Mundial [de Futebol] e do Euro [Campeonato Europeu], as
pessoas vinham todas festejar para a rua, e toda a gente usava a
camisola da seleção. Aqui há todo o tipo de grupos de imigrantes, o
que dá azo a rivalidades através do futebol. Mas, nestes últimos
anos, jogadores como o [Luís] Figo e o [Cristiano] Ronaldo têm
contribuído imenso para uma boa imagem de Portugal, e o futebol [ ]
com a sua popularidade internacional [ ] até mesmo aqui [ ] agora
usamos as camisolas e veem-se imensas do [Cristiano] Ronaldo, por
exemplo, pois as pessoas conhecem-no. É o melhor do mundo e é
português e nós queremos que toda a gente saiba disso. Dá-nos uma boa
imagem.
De acordo com as palavras de Isabel, a representação étnica revela-se um
instrumento de filiação positiva, bem como de competição étnica. Quanto a este
tópico, os entrevistados entendem o futebol português, a camisola da seleção
nacional e os futebolistas portugueses de renome internacional como
características de identidade que merecem visibilidade, uma vez que constituem
imagens e personalidades portuguesas valorizadas pelos não portugueses.[11] O
reconhecimento da portuguesidade através do futebol por parte dos não
portugueses é confirmado de modo enfático por Alberto, um luso-canadiano de
Otava-Gatineau com 43 anos:
Quando os nossos pais aqui chegaram e conheciam outras pessoas '
pessoas de outros grupos de imigrantes, por exemplo ' que lhes
perguntavam De onde és?' e eles diziam Portugal', a única coisa que
os outros conheciam de Portugal era o Eusébio: És português? Oh, o
Eusébio é fantástico!' [ ] Atualmente, a geração de hoje tem um novo
representante, e vem uma vez mais do futebol: Cristiano Ronaldo
isto, Cristiano Ronaldo aquilo ' Goste-se ou não dele, as pessoas
reagem, pois toda a gente o conhece. Ele é a cara de Portugal.
Quanto à narrativa de Alberto, dois aspetos adicionais merecem maior atenção:
em primeiro lugar, a afirmação da identidade portuguesa através do futebol é um
fator que transcende gerações e, para os portugueses, uma vez fora de Portugal
e entre indivíduos de outras etnias, o futebol português constitui uma variável
de reconhecimento positiva e bem acolhida. Em segundo lugar, como sugerido por
Jarvie (2006), a identidade permite a uma pessoa constituir-se como sujeito
individual: 1) através do autorreconhecimento; 2) ao ser reconhecido por outro
sujeito ou grupo. Nesta perspetiva, o reconhecimento por meio do desporto (no
caso que aqui nos ocupa, o futebol) é mobilizado enquanto estratégia potencial
em situações de deslocamento geográfico do grupo ou de posicionamento
minoritário, por meio de uma ação afirmativa que desafia as imagens pejorativas
ou depreciativas do grupo em questão (Jarvie 2006: 287). Assim, quaisquer
imagens ou estereótipos negativos que possam existir em relação aos portugueses
são contrabalançados por estereótipos positivos de excelência e valor através
de personalidades bem-sucedidas do futebol português ou praticado em Portugal.
Ora bem, num país multicultural como o Canadá, constituído em grande parte por
pessoas oriundas de diferentes partes do mundo, há certos fatores óbvios que
influenciam mais do que outros a identidade étnica. De acordo com Wever-Rabehl
(2006), nenhum outro fator além do futebol permite uma identificação tão
imediata dos migrantes com as suas raízes étnicas. Wever--Rabehl, uma
investigadora canadiana de ascendência holandesa, escreve sobre os seus
próprios sentimentos: Embora eu me veja a mim própria como canadiana, este
facto muda rapidamente durante o Mundial de Futebol. Quando os Leões Laranja
entram em campo, eu sou holandesa. Neste ponto, há que ter em atenção o aspeto
temporal deste tipo de nacionalismo suscitado pelo futebol. No depoimento que
citámos atrás, Isabel refere também que, aquando do Mundial e do Campeonato
Europeu, os portugueses enchiam as ruas de Toronto para celebrarem as vitórias
da seleção nacional. Naturalmente, tal como noutras cidades cosmopolitas com
uma grande tradição de migração, não nos espanta minimamente que as comunidades
de imigrantes festejem dessa forma os triunfos desportivos dos seus países de
origem (Chalip 2006).
Assim, além de proporcionar aos imigrantes e seus descendentes rótulos
positivos que reforçam a sua identidade étnica, o futebol é utilizado como uma
arma na luta pelo reconhecimento, pela promoção e pela obtenção de direitos
numa sociedade mais ampla. Nas cidades canadianas, os portugueses competem e
rivalizam muitas vezes com outros grupos de imigrantes do Sul da Europa,
incluindo (ainda que não exclusivamente) os italianos, os gregos e os croatas.
[12] Os luso-canadianos que entrevistei em Toronto, por exemplo, referiram a já
antiga rivalidade entre as comunidades portuguesa e italiana, sobretudo devido
à proximidade geográfica (Little Italy é adjacente a Little Portugal, a
norte) e social entre ambas. Esta disputa, como me foi explicado, é
frequentemente acentuada por meio das rivalidades e dos antigos sucessos das
respetivas seleções nacionais desses países. Do mesmo modo, a final do Euro
2004 entre Portugal e a Grécia, da qual a Grécia saiu vencedora, constituiu uma
oportunidade para ver qual dos grupos étnicos teria o direito de manifestar
mais ruidosamente o seu orgulho étnico entre uma população maioritária que
pouco tinha que ver com esse último jogo.
Assim, o que é que tudo isto implica? No Canadá multicultural, onde a
legislação sobre o multiculturalismo estabelece a pluralidade como norma,
apoiar o país de origem e conferir maior importância à herança e às raízes
étnicas do que à identidade canadiana (Bissoondath 1994; Gwyn 1997) é, em
grande medida, um comportamento aceite e normal, sendo certo que existem muito
poucas formas de o demonstrar que não através de um desporto como o futebol, o
qual de dois em dois anos prende as atenções do mundo e pode assim fornecer
notoriedade a determinados grupos étnicos ou países, desde que as seleções que
os representam obtenham sucesso nessas competições. Assim, para os luso-
descendentes, num país onde a preservação e as manifestações de identidade
étnica são encorajadas e onde diferentes grupos étnicos se esforçam para
promover a sua etnicidade e diferença, o sucesso futebolístico constitui uma
importante via de acesso à ribalta.
Conclusão: Seja futebol ou hóquei no gelo, na minha vida há espaço para os
dois
Nos contextos migrantes, a cultura desportiva pode enquadrar a identidade
através de uma temporalidade formalizada, atribuindo frequentemente maior
importância à herança e à origem do que aos caminhos identitários complexos
escolhidos pelos indivíduos no país de imigração. Contudo, as experiências, as
ligações afetivas e os sentimentos herdados dos descendentes luso-canadianos
sugerem uma interpretação mais crítica, oferecendo novas estruturas
identitárias em resposta a processos complexos de interação social, em que o
sentido de si pode ser definido e redefinido, assumido em determinados
contextos, dissimulado noutros e por vezes utilizado como arma com vista à
obtenção de notoriedade e até de recursos no seio da sociedade mais alargada.
Deste modo, como já vimos, a construção identitária através dos dois desportos
aqui analisados é ativamente reconstituída e representada mediante a adoção de
uma variedade de identificações e lealdades de diversos graus. No Canadá, os
luso-descendentes também se adaptam ao modo de vida canadiano, adotando
elementos de ambas as culturas, portuguesa e canadiana. O interesse pelos dois
desportos referidos, bem como a participação nos mesmos, prova-o. Assim, a
adesão e a assistência aos dois desportos nacionais dos respetivos países a que
estão ligados acaba por exemplificar o modo como, para esses indivíduos, a
formação de identidade e a integração social se tornam um caminho bifurcado.
Nestas estratégias de identidade que envolvem dois desportos, coexistem dois
mundos igualmente influenciados por filiações territoriais e processos de
identificação e aceitação social, bem como por definições impostas pelo outro
' essas que os identificam como portugueses e que levam muitos a empunhar
armas étnicas / nacionalistas nos momentos oportunos. Como vimos, não há
melhor ocasião para tanto do que o Mundial de Futebol ou o Campeonato Europeu,
momentos em que diferentes identidades étnicas se confrontam, envolvendo até
reivindicações de direitos. Porém, quando se lhes pede que definam a sua
identidade através dos dois desportos, a maioria dos indivíduos recai numa
categoria que podemos denominar identidade hifenizada. Este facto vem
confirmar o argumento de que a maioria dos luso--descendentes não possui uma
identidade étnica única e claramente definida, mas, pelo contrário, está
dividida entre diferentes culturas e diversas lealdades, pelo que a ligação
afetiva ao futebol português pode coexistir com sentimentos similares pelo
hóquei no gelo canadiano. A expressão terceiro espaço (Bhabha 1994) é, pois,
uma descrição adequada do espaço que estes indivíduos criam e ocupam.
Lidar com o hífen e saber quando posicionar-se num ou noutro dos dois
mundos são aspetos que exigem ponderação. Possuir um tal conhecimento
proporcionará provavelmente o apoio social que torna a adaptação possível. Os
descendentes luso-canadianos assumem variáveis passíveis de os favoreceram aos
olhos dos seus pares não portugueses, como, por exemplo, a identificação com
futebolistas portugueses de renome mundial. Se a sobrevivência é mais
importante do que a preservação étnica, então podemos pressupor que estes
indivíduos se encontram no caminho da assimilação, já que a questão chave é a
sua inserção na sociedade dominante. As negociações e as contestações
desenvolvem-se dentro deste meio ' negociações e contestações que desafiam a
formação identitária dos luso-descendentes e contribuem para a formação da
mesma.
Em suma, para os descendentes dos imigrantes portugueses no Canadá, os dois
desportos assumirão diferentes significados em diferentes momentos e espaços,
de acordo com a importância, a prática e o consumo de cada um. No Canadá
podemos observar que os luso-descendentes estão presentes em ambos os desportos
e que ambos os desportos estão presentes nas vidas de muitos luso-descendentes.