Le goût des autres: de l'exposition coloniale aux arts premiers
Benoît de l'Estoile
Le goût des autres:de l'exposition colonialeaux arts premiers
Paris, Flammarion, 2007, 454 páginas.
Nos últimos vinte anos, a situação dos grandes museus etnográficos franceses
alimentou acesos debates. O livro de Benoît de l'Estoile foi publicado um ano
após a inauguração, em Junho de 2006, do Musée du Quai Branly, constituído a
partir das colecções etnográficas exóticas do Musée de l'Homme. Numa língua
sempre clara, integrando referências bibliográficas cosmopolitas, estas 454
páginas notavelmente documentadas incluem úteis índices de pessoas, de temas,
de museus e exposições ' uma prática que ainda não é geral na edição francesa
de ciências sociais deplora-se, em contrapartida, a ausência de uma
bibliografia recapitulativa. A partir das questões suscitadas pela elaboração
do Musée du Quay Branly (nome ocultando a polémica designação inicial de Musée
des Arts Premiers), aborda-se problemas mais amplos: o sentido dos museus dos
Outros no mundo pós-colonial o museu enquanto catalisador de uma antropologia
do goût des Autres (alusão a um filme de Agnès Jaoui centrado nas difíceis
relações, no quotidiano, entre adeptos de gostos estéticos diferentes), das
nossas concepções da alteridade e das suas transformações (p.20). É de notar
que, como o autor aliás admite, a dicotomia museu dos Outros/museu de Nós é
demasiado esquemática, como se vê com o Museu Nacional de Etnologia de Lisboa.
Procurando um distanciamento, a análise procede por historicização e com-
paração. A primeira parte mostra como, entre as duas guerras mundiais, três
tipos de discursos (evolucionista, diferencialista, primitivista) se
entrelaçam, -nomeadamente na Exposition Coloniale de 1931, resultando num
universalismo plural consagrado em 1937 pela inauguração do Musée de l'Homme e
o triunfo da -etnologia enquanto detentora da autoridade científica sobre os
objectos dos Outros. O projecto colonialista combina-se com um reconhecimento
da diversidade cultural. E este tem por corolário a valorização estética da
arte negra. Esta forma do gosto dos Outros e a etnografia participam de um
regime diferencialista de representação da alteridade, no qual se enraiza o
Musée du Quai Branly, em continuidade com o contexto que informou a criação do
Musée de l'Homme. Mas Benoît de l'Estoile mostra como este não soube evoluir:
diluição da articulação entre antropologia física e etnografia imobilismo
resultando em óbvias divergências entre as exposições e as -realidades que
supostamente representariam e sobre as quais o públicose tornava cada vez mais
informado. O regresso a uma estratégia de reconstituição realista (que tinha
sido inicialmente rejeitada) e a uma ilusão de viagem indica a incapacidade
de transmitir um discurso antropológico. Chega-se a um contra-senso
anacrónico (p.204) usado como argumento pelos promotores de uma museografia
estética.
O olhar alarga-se na segunda parte além do caso francês, para melhor salientar
a sua especificidade. Uma história dos museus dos Outros e uma perspectiva
comparativa mostram até que ponto a actual requalificação dos museus dos Outros
em museus das artes dos Outros ou das culturas do mundo, reforçada pela crise
pós-colonial da representação etnográfica, assenta naquilo a que o autor chama
mitos contemporâneos: as artes primeiras e os povos primeiros. Promovida
por coleccionadores, a primeira noção é uma reformulação do primitivismo. Dá a
ilusão de uma ruptura com o evolucionismo e permite conciliar uma atitude de
reconhecimento dos Outros com o prazer do amador de arte, a ética com o
mercado. Supondo a existência de uma estética universal e mesmo a-histórica, a
noção permite uma abordagem descontextualizada dos objectos, transformados em
obras, tomados unicamente como vectores de deleite estético. A antropologia
perde o seu monopólio interpretativo e passa a ter no museu um papel marginal,
incapaz de vulgarizar a desconstrução do essencialismo primitivista, da ideia
de povos primeiros que teriam ficado autênticos. Benoît de l'Estoile mostra
como o programa arquitectónico do Musée do Quai Branly, da autoria de Jean
Nouvel, é a materialização de um mito hoje muito divulgado nos discursos que
aliam de maneira confusa preocupações ecológicas, busca de uma sabedoria
tradicional, defesa da diversidade cultural. O novo museu confronta-se com o
risco de ser visto como a evocação nostálgica de mundos perdidos.
De todas as maneiras, não pode evitar os paradoxos e as contradições hoje
inerentes a qualquer projecto etnomuseológico. A questão dos direitos de
propriedade (e de discurso) sobre os objectos e os saberes dos Outros e as suas
articulações com as implicações éticas e políticas do essencialismo estratégico
já são muito debatidas em antropologia. A partir de uma eficaz síntese do
assunto (capítulo ix), Benoît de l'Estoile prossegue com uma reflexão acerca da
possível evolução dos museus dos Outros e dos museus identitários para museus
centrados nas relações entre Nós e os Outros, recusando a percepção em termos
arqueológicos de sociedades vivas (p.383), feitas de processos. Especulativos,
apresentando experimentações museológicas recentes, enriquecidos por uma
experiência pessoal de elaboração de uma exposição, os últimos dois capítulos
são estimulantes.
Como sempre sucede com uma obra inspiradora, são as suas qualidades que -
salientam os seus limites. As questões levantadas são tantas e as suas
implicações tão complexas que, apesar das advertências do autor, ciente da
impossibilidade de esgotar o assunto, o leitor só pode desejar mais. O recurso
pertinente a um caderno de imagens que sintetizam o argumento e ilustram a
evolução da mise en forme museológica implementada nos museus dos Outros faz
sentir, por exemplo, o potencial de uma análise visual do manancial
iconográfico que não foi possível reproduzir. Entre os documentos apresentados,
um cartaz inspirado numa capa de Tintim: como admite o autor, um museu é,
obviamente, também sustentado por representações colectivas (p.20). Como
vimos, o considerável sucesso público do Musée du Quai Branly vai muito além do
efeito arquitecto que dá visibilidade internacional a museus recentes (como o
Guggenheim de Bilbao): a força das representações primitivistas e
essencialistas no gosto dos Outros hoje vigente tem um papel indubitável no
regresso dos parisienses ao museu etnográfico. Desde logo, será que o eventual
interesse de um largo público por uma museologia que foca os processos e a
interlocução é mais do que wishfulthinking? A convocação final da fraca
metáfora da tradução cultural, chavão já algo gasto, não ajuda a ficar
convencido do contrário.
Será preciso, também, mais etnografia para o saber. As relevantes vinhetas que
relançam constantemente a análise levam a desejar uma continuação da
observação: concluído quando o Musée do Quai Branly ainda era só uma casca
vazia, o livro não examina o seu público, nem as suas exposições temporárias.
Os defensores do novo museu insistem na necessidade de o considerar como um
todo que integra exposições permanentes e temporárias, conferências, mediateca,
concertos, etc.: um verdadeiro projecto cultural. Ao fim de alguns anos, será
que a interlocução, o diálogo intercultural, acontece? Qual é o papel do museu
na mercadorização da cultura, incluindo no mercado das artes exóticas? O que
significa o facto de ser escolhido para a organização de numerosos eventos de
prestígio? De um ponto de vista mais geral, onde (se é que algures) colocar
agora o limite entre museologia, intervenção cultural e espectáculo?
Pela sua riqueza informativa, a sistematização dos problemas que levanta, o
rigor do seu raciocínio, as suas propostas sugestivas, Le Goûtdes Autres
constitui uma leitura indispensável para quem se vê envolvido numa situação de
patrimonialização ou se pergunta o que fazer com os museus etnográficos, de
todos os tamanhos e todos os feitios. Em Portugal também, tentativas de
resposta são urgentes.
Jean-Yves Durand
CRIA-UM