Percursos de Estudantes no Ensino Superior: Fatores e Processos de Sucesso e
Insucesso
RECENSÃO
Percursos de Estudantes no Ensino Superior. Fatores e Processos de Sucesso e
Insucesso [António Firmino da Costa, João Teixeira Lopes e Ana Caetano (orgs.),
2014, Lisboa, Editora Mundos Sociais]
Pedro Abrantes*
* Investigador no CIES-IUL, Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE-IUL),
Avenida das Forças Armadas, 1649-026 Lisboa. Email: pedro.abrantes@iscte.pt
A obra Percursos de Estudantes no Ensino Superior, lançada no VIII Congresso
Português de Sociologia, apresenta e discute os principais resultados de um
projeto desenvolvido entre 2007 e 2010, a partir de uma parceria entre o Centro
de Investigação e Estudos de Sociologia do Instituto Universitário de Lisboa e
o Instituto de Sociologia da Universidade do Porto, no qual participaram cerca
de 30 investigadores. Surge, aliás, em continuidade com uma linha de estudos
que, desde os anos 90, tem vindo a analisar diferentes características do
ensino superior e dos seus estudantes (e. g. Almeida e outros, 2003), mas que,
até ao momento, não se havia focado no tema do (in)sucesso.
A relevância deste enfoque resulta, desde logo, da intrigante escassez de
estudos científicos, ou mesmo de relatórios institucionais, sobre o insucesso e
o abandono no ensino superior português. Ou seja, ainda que uma grande parte
dos estudantes não obtenha sucesso ou acabe mesmo por abandonar os estudos
superiores sem completar a sua formação, é espantoso como existem tão poucos
dados e análises sobre um fenómeno que, ainda para mais, ocorre no próprio
espaço por excelência da produção de conhecimento. Trata-se de um fenómeno que
se encontra notavelmente naturalizado nas “casas do saber” e que, no entanto,
representa um obstáculo não despiciendo ao desenvolvimento do país, não apenas
pelo desperdício de recursos individuais, familiares e públicos que supõe, mas
também pela preservação de desigualdades, hiatos e tensões, entre doutores e
senhores, doutoras e donas, que continuam a marcar o país. Aliás, em termos
educativos, o que tem diferenciado Portugal dos restantes países europeus não é
tanto a percentagem de alunos inscritos, nem as competências reveladas pelos
diplomados, mas, sobretudo, a escassa taxa de diplomados, tanto no ensino
secundário como no superior (Martins, 2012).
Aspecto este tão mais importante quando, arrepiando caminho depois de uma
abertura gradual de várias décadas, as instituições educativas portuguesas
voltam a conhecer políticas favoráveis à sua retração, baseadas numa visão do
ensino superior como um nicho de distinção social e consagração intelectual,
apenas ao alcance de uma minoria privilegiada e iluminada. A esta visão,
segundo a qual o insucesso e o abandono seriam uma consequência natural
(desejável?) da qualidade e da exigência, os autores contrapõem uma perspetiva
aberta e democratizante do ensino superior, enquanto motor de cidadania e
desenvolvimento, através da produção alargada de capacidades e liberdades, no
sentido que Amartya Sen (2000) atribui a estes conceitos. Assim, o projeto não
esconde uma preocupação ética e reformista, propondo uma perspetiva científica,
relacional, multidimensional e contextual do fenómeno, em que a exigência e a
qualidade são entendidas, ao invés, como a capacidade dos indivíduos, das
instituições e do sistema, no seu todo, de promover a integração e o sucesso
alargado nos percursos académicos.
A este propósito, é muito interessante o duplo movimento analítico proposto.
Por um lado, os autores exercitam o princípio sociológico de transformação do
problema social em problema sociológico, deslocando o foco de análise do
insucesso e do abandono para a questão mais ampla dos discursos e, sobretudo,
dos percursos dos estudantes no ensino superior, observados e analisados, tanto
em termos quantitativos-extensivos como qualitativos-intensivos. Assim, António
Firmino da Costa, João Teixeira Lopes, Ana Caetano e Eduardo Alexandre
Rodrigues dedicam o primeiro capítulo à explicitação de um quadro teórico-
metodológico sólido e inovador para a análise dos percursos dos estudantes do
ensino superior, inspirado em trabalhos anteriores de Vicent Tinto, José
Madureira Pinto e Bernard Lahire, entre outros, e focando a relação desses
percursos com diversos fatores sociais, incluindo a condição social de origem,
o percurso escolar anterior, a integração na vida universitária, a relação com
o saber, as expetativas e oportunidades do mercado laboral, as práticas das
organizações do ensino superior ou a própria política governamental. Mas, por
outro lado, não deixam de mostrar como uma análise mais profunda das políticas
organizacionais e dos percursos individuais (e, sobretudo, das relações entre
ambos) é útil para informar os discursos e estratégias de combate ao abandono e
ao insucesso no ensino superior.
Esclarecido o quadro teórico-metodológico, a obra desdobra a análise do
fenómeno em três níveis de escala. Num primeiro momento, a dimensão extensiva-
quantitativa é privilegiada, com uma análise estatística da evolução recente do
ensino superior em Portugal, da autoria de Nuno de Almeida Alves (capítulo 2),
e outra que busca fatores explicativos para o insucesso neste nível de ensino,
de Susana da Cruz Martins, Helena Carvalho e Patrícia Ávila (capítulo 3). No
primeiro caso, com base nos dados oficiais, podemos observar como o número de
inscritos e de graduados no ensino superior aumentou de forma significativa na
primeira década do século XXI, mas a proporção entre uns e outros não se tem
alterado de modo substancial: isto é, em cada ano, o número de diplomados tem-
se mantido cerca de 2/3 do número daqueles que se inscreveram no 1º ano, três
anos antes, o que nos dá uma medida (ainda que grosseira) do insucesso e do
abandono. No segundo caso, com base num inquérito lançado pelo CIES-IUL, as
investigadoras concluem que a experiência de reprovação ocorre, em maior
proporção, nas áreas de ciências e engenharias, entre os rapazes, entre os
estudantes mais velhos, assim como entre aqueles que são provenientes dos
cursos profissionais e tecnológicos. É óbvia certa associação entre estes
fatores. Embora estes dois capítulos apresentem pistas muito valiosas,
ressentem-se da referida negligência das autoridades, até ao momento, na
recolha de dados mais finos sobre o fenómeno, bem como da ausência de recursos
para o lançamento de um inquérito nacional. Possivelmente devido a esse caráter
exploratório e muito generalista dos dados, o quadro teórico-metodológico
encontra-se também subaproveitado, não se testando algumas das hipóteses
enunciadas na discussão teórica.
Um segundo nível de análise, do qual se ocupa o capítulo 4, assinado por
Hernâni Veloso Neto, Ana Carolina Mendonça, Ana Isabel Couto, Sandra Lima
Coelho e Tânia Leão, diz respeito ao modo como as organizações do ensino
superior constroem o fenómeno do (in)sucesso no seu seio, aferido através de
estudos de caso em algumas instituições, assentes na recolha de documentos
institucionais, bem como em entrevistas a dirigentes, professores e estudantes.
Com base nas visões cruzadas destes vários atores, desenha-se uma perspetiva
ampla do sucesso, que se inicia na atração gerada pelos cursos, passando pelas
competências que estes desenvolvem e terminando na integração laboral. Além
disso, o capítulo inclui uma análise de práticas inovadoras, em algumas
instituições, para orientar, acompanhar e apoiar os estudantes, promovendo
assim o sucesso. Ainda que sejam interessantes estes avanços recentes,
sobretudo motivados por uma pressão crescente sobre as instituições para a
cativação de estudantes, em tempos de crise económica e demográfica, esta
análise institucional não entra, infelizmente, num estudo mais profundo sobre o
modo como o insucesso e o abandono escolar se encontram naturalizados na
cultura das instituições de ensino superior português, sendo usados inclusive
como símbolo de poder e de prestígio em algumas escolas e cursos.
Por fim, do quinto ao nono capítulos, apresentam-se os resultados dos “retratos
sociológicos” (Lahire, 2002) de 170 estudantes do ensino superior, assentes em
entrevistas em profundidade, pela mão dos investigadores bolseiros do projeto:
Ana Caetano, Ana Isabel Couto, Catarina Egreja, Jorge Horta Ferreira, Sandra
Lima Coelho, Denise Esteves, Tânia Leão, Vanessa Rodrigues, Patrícia Amaral,
Tânia Cardoso e Jerusa Costa. O capítulo 5 destaca-se por sintetizar fatores
que, nos discursos e trajetórias destes estudantes, surgem como explicativos do
(in)sucesso no ensino superior. Neste caso, a articulação com o ensino
secundário, a preparação e orientação pedagógica dos docentes, o caráter
teórico ou prático dos cursos ou a relação com o mercado laboral surgem como
fatores preponderantes. Nos restantes capítulos, uma tipologia dos percursos no
ensino superior é esboçada, a partir da importância que assumem quatro
diferentes dimensões: a) a relação com as origens sociais, geradora de
percursos tendenciais e outros de contratendência; b) a centralidade e
linearidade (ou não) da educação, face a outros contextos de vida; c) os
problemas de transição no sistema educativo e de conciliação com outras esferas
da vida; d) as dificuldades de integração e de estudo no ensino superior. O
reconhecimento desta diversidade e complexidade dos percursos é fundamental,
tanto para compreender sociologicamente o fenómeno do insucesso no ensino
superior, como para encontrar estratégias eficazes e equitativas para reduzi-
lo.
Nas conclusões, os coordenadores do projeto fazem um breve resumo e uma
reflexão sobre os principais resultados obtidos. Neste caso, retomam alguns
debates sociológicos contemporâneos, enfatizando que os dados recolhidos não
apontam para uma primazia tout courtdas estruturas sociais, mas também não
sugerem a diluição dessas estruturas. Mais do que apenas se reproduzirem ou,
pelo contrário, se dissolverem, as desigualdades sociais parecem reconfigurar-
se no ensino superior, de acordo com dinâmicas próprias, em grande parte
identificadas nesta obra. Ganha particular relevância aquilo que os autores
designam como “efeito de percurso”, no sentido em que o campo de possibilidades
dos indivíduos se vai abrindo ou fechando, no decurso dos seus trajetos
biográficos, em relação com os distintos campos da vida social e de acordo com
as diferentes políticas institucionais.
Uma última nota tem a ver com o modo como a obra reflete a dimensão coletiva
deste projeto, incluindo capítulos de um grande número de autores, sobre
distintas dimensões da investigação, mas nos quais está patente uma profunda
continuidade, ao nível dos conceitos, das perspetivas e dos argumentos
centrais. Assim, as vozes que se ouvem ao longo da obra são várias, mas
encontram-se em profunda sintonia, enriquecendo-se mutuamente, resultado de um
trabalho de colaboração ao longo de vários anos, sob a orientação atenta e
entusiasta dos coordenadores do projeto (e do livro) e que permitiu a formação
de uma nova geração de investigadores. Trata-se, então, de uma obra coletiva,
na verdadeira aceção da palavra, e não de uma mera coletânea de capítulos. Esta
não é uma questão secundária, pois se a investigação nas ciências naturais se
tende a fazer-se hoje em grandes equipas de investigadores, já as pesquisas e
as obras em ciências sociais, paradoxalmente, parecem padecer de uma relativa
individualização ou, pelo menos, de uma estrutura assente em “laços fracos”
entre investigadores, o que não deixa de enfraquecer as próprias ciências
sociais e as suas produções.
Em síntese, trata-se, pois, de um livro útil e equilibrado, com base num
projeto consistente e amplo, sobre uma problemática central e ainda pouco
trabalhada da sociedade portuguesa, e que apresenta várias pistas para a
intervenção reformista no ensino superior. Pode (e merece) ser lido tanto por
aqueles que pretendem conhecer as dinâmicas sociais contemporâneas, como por
aqueles que pretendem gerir e transformar as instituições do ensino superior.
Em muitas passagens, os autores adotam um registo mais exploratório e
descritivo, do que explicativo e propositivo. Porém, mais do que uma
fragilidade, isso resulta da prudência e respeito dos autores ante um tema
complexo, delicado e ainda pouco estudado, em Portugal, constituindo assim um
convite a futuros aprofundamentos analíticos.