Orquestra da Boba: lugar de sonoridades plurais
Introdução
A Orquestra Geração, designação portuguesa para um modelo de orquestras criado
na Venezuela, surgiu em Portugal, na escola E.B. 2, 3 Miguel Torga, do Casal da
Boba, no concelho da Amadora, em meados de 2007. Recorrendo a processos de
aprendizagem musical em contexto de orquestra este projeto foca-se em
populações que vivem em circunstâncias sociais, culturais e económicas
vulneráveis. Atualmente a Orquestra Geração em Portugal tem mais de 800 alunos
e 90 professores, organizados em 16 núcleos distintos, que se localizam na sua
maioria em escolas públicas. A participação dos jovens nas orquestras e coros é
voluntária e gratuita, e os instrumentos são fornecidos pelas autarquias ou
pelos mecenas envolvidos.
A Orquestra Geração teve como fonte de inspiração o sistema nacional de
orquestras infantis e juvenis da Venezuela, designado “El Sistema”,
desenvolvido para oferecer oportunidades sociais, artísticas e intelectuais a
jovens e crianças de poucos recursos que, de outro modo, não teriam forma de
experimentar o exercício dessas atividades. Diane Hollinger (2006), que fez um
estudo sobre o modelo do “El Sistema”, destaca a flexibilidade das orquestras
junto das comunidades por procurarem combinar as melhores ferramentas dos
métodos de ensino musical — Suzuki, Orff, Kodaly, Dalcroze — usando canções,
dança e movimento numa filosofia de ensino integrado. Para além disso são
reforçados os valores da assiduidade, esforço, abertura à comunidade e
compromisso continuado entre alunos e professores, que iniciam a aprendizagem
através da execução de peças musicais em conjunto nas orquestras, incentivando
desse modo a reciprocidade nos objetivos delineados.
A orquestra do Casal da Boba, na escola E.B. 2, 3 Miguel Torga, surgiu em 2007
por intermédio de alguns atores institucionais, nomeadamente a Câmara Municipal
da Amadora, a escola de música do Conservatório Nacional, o Ministério da
Educação e a Fundação Calouste Gulbenkian. Posteriormente, o aparecimento de
outros núcleos das orquestras distribuiu-se por diversas zonas do país:
Amadora, Oeiras, Sintra, Vila Franca de Xira, Sesimbra, Loures, Coimbra,
Mirandela, Amarante. Em determinados concertos os núcleos estão preparados para
integrarem ensaios e estágios conjuntos. Em 2010, no concerto do fim do ano
letivo na Aula Magna da Universidade de Lisboa, estavam presentes 700 alunos.
Os principais objetivos para a escolha destas práticas musicais como objeto
empírico da investigação que está na base deste artigo passam pela análise das
oportunidades sociais daqueles que participam no projeto. Por isso foram
acompanhadas de perto a diversidade das relações de interação e as trajetórias
dos indivíduos ao longo das suas experiências vividas na orquestra da Boba.
Nesse sentido o foco nuclear da investigação e as observações realizadas nos
diferentes níveis da orquestra A (principal), e orquestras B, C e D
(categorizadas em função das capacidades e conhecimentos dos intervenientes)
incidiram sobretudo nos cerca de 40 elementos da orquestra A. Estes graus nas
orquestras servem para distinguir quem tem os reportórios mais bem estudados ou
aqueles que apresentam uma aprendizagem mais desenvolvida em relação aos que
ainda denotam pouca experiência ou conhecimento, como no caso da orquestra D.
No entanto, esta circunscrição toma em consideração as alterações dos percursos
individuais entre os níveis de organização, dado que estes não acontecem de
forma hermética, e são valorizadas as passagens e relações entre as diferentes
avaliações.
A observação no terreno organizou-se em dois períodos distintos: o primeiro,
entre outubro de 2010 e janeiro de 2011, e o segundo, de outubro de 2011 a
abril de 2012. A estratégia da pesquisa orientou-se pela metodologia
etnográfica, através de entrevistas aprofundadas e semidirigidas, mobilizando
os processos teóricos, metodológicos e estratégicos de uma abordagem
qualitativa e intensiva. Deste modo, foi possível observar, registar e
interpretar as atividades entre alunos e professores das aulas individuais e de
grupo, dos ensaios e dos concertos.
A orquestra do Casal da Boba foi definida como lugar crucial de focagem deste
percurso analítico, o que permitiu observar e compreender o modo como se
combinaram a pluralidade de valores, capacidades e relações que estão em jogo
naquelas práticas orquestrais, acrescentando os contextos sociais dos
protagonistas.
Em que medida a pluralidade cultural e social da orquestra da Boba contribui
para um processo de resposta à adversidade das condições sociais desiguais
vividas pelos seus participantes? A possibilidade de que se clarifiquem as
hipóteses, na análise das situações orquestrais e dos contextos do bairro, está
enraizada na estratégia da presente investigação.
Voz do bairro, ecos da orquestra
No seu conjunto, a maior parte dos alunos da orquestra do Casal da Boba vive no
bairro ou nos arredores. O bairro social do Casal da Boba, construído em 2001,
está situado no topo de uma colina, num dos limites da fronteira norte do
concelho da Amadora, na freguesia de São Brás. As ruas do bairro são amplas e
desafogadas, com espaços exteriores organizados de forma geométrica e
funcional. Os edifícios têm entre três a cinco andares de altura, com uma
arquitetura contemporânea de linhas direitas e volumetria cúbica.
Embora possamos localizar o bairro num espaço geográfico periférico
relativamente ao centro do concelho, na sua configuração interior observamos a
existência de serviços e equipamentos sociais. Mesmo na área central do bairro
está situada a escola E.B. 2, 3 Miguel Torga, a esquadra de polícia, a junta de
freguesia e a associação Amigos de Cabo Verde. Por outro lado, os habitantes do
bairro do Casal da Boba, na sequência de um processo de realojamento, são
provenientes de diversos locais de habitação ilegal ou degradada do concelho:
as Fontainhas, o bairro 6 de Maio, o Alto do Trigueiros, entre outros. Sabendo
que a cidade foi destino de diversos fluxos migratórios desde os anos 70,
nomeadamente oriundos do centro do país, de Cabo Verde, Angola, Moçambique e
Guiné-Bissau, tais processos de integração e realojamento, no concelho da
Amadora, foram focos estruturantes da demografia do bairro, assim como da
paisagem urbanística.
Num olhar mais pormenorizado sobre o padrão socioeconómico da população do
bairro deparamos com as reduzidas qualificações escolares das famílias e
insucesso escolar prematuro dos jovens, que tendem a exercer profissões pouco
qualificadas. Mais de metade da população está dentro desta faixa etária, com
cerca de dois terços de origem africana, sobretudo cabo-verdiana, cuja maioria
não chegou a frequentar o ensino secundário e superior (Machado e Silva, 2009).
O estado de coisas descrito nos dados anteriores sustenta a análise do contexto
de desajustamento entre o universo escolar e o familiar, que leva em muitos
casos ao aumento da tendência para a reprovação e insucesso no ensino formal.
De maneira similar, algumas das trajetórias de abandono precoce da escolaridade
obrigatória (52,3% não concluíram o 9.º ano) também se mostram frequentes;
muitos jovens acabam por sair do sistema de ensino devido a um acesso desigual
aos recursos disponíveis (sociais, económicos e culturais) e, como
consequência, entram no mercado de trabalho em profissões pouco qualificadas,
sem projetos e com as suas possibilidades de transição entre diferentes
universos sociais e simbólicos diminuídas.
Assim, de acordo com Machado e Silva (2009), 23,7% dos indivíduos residentes no
bairro encontram-se desempregados, porém apenas 2,2% recebem subsídio de
desemprego, sendo a média nacional 7,3%. Podemos evidenciar na configuração das
profissões do bairro a ausência significativa de quadros superiores,
dirigentes, especialistas e profissionais intermédios.
Por um lado, as redes de sociabilidade existentes no meio social do bairro, na
família, nos grupos de pares e na escola têm em comum a mesma condição social
desfavorecida, o que acentua a probabilidade de fechamento dos jovens em
quadros de interação de mobilidade social descendente (Costa, 2008 [1999]).
Nesse sentido, a limitação desses recursos, reforçada pela convergência de
processos, aponta para que a probabilidade de transformação dos reduzidos
capitais sociais, as possibilidades efetivas de poder fazer escolhas sejam
afetadas negativamente. Por conseguinte, as oportunidades de mobilidade social
ascendente estão condicionadas por fenómenos sociais que os indivíduos têm
dificuldade em identificar e controlar, uma vez que se encontram demasiado
longe dos mesmos.
Teoricamente, estamos perante três dimensões fundamentais de análise, que se
intersetam naquilo que se poderia designar como diálogos entre culturas
juvenis, desigualdades sociais e processos de mudança social.
Tal como no estudo realizado por António Firmino da Costa — Sociedade de
Bairro: Dinâmicas da Identidade Cultural (2008 [1999]) —, que articula padrões
culturais, classes sociais e quadros de interação numa longa e aprofundada
investigação do bairro de Alfama, ou como no estudo de William Foote Whyte —
Street Corner Society (1993 [1943]) —, que descreveu e equacionou as relações
de grupos de jovens num bairro pobre de Boston, também no nosso estudo,
inspirado por aquelas obras, foram procurados os contextos de vulnerabilidade
social dos protagonistas da orquestra da Boba, os padrões de conduta, as
orientações de vida e os seus códigos simbólicos.
Por outro lado, procurámos compreender as relações mantidas com o modelo
complexo de organização cultural e simbólica de uma orquestra, no sentido de
serem propiciadas trajetórias de mobilidade social ascendente por via da
participação conjunta nessa rede de relações.
Assim, compreender as nuances das diversas escalas de complexidade que se vão
disseminando na morfologia de uma orquestra, de modo a clarificar as suas
interligações com os contextos e as situações sociais adversas do bairro do
Casal da Boba foi uma das preocupações que atravessou todo o trabalho de
pesquisa.
Na sequência das propostas sugeridas por Gilberto Velho (1987, 1994), a
orientação das entrevistas e das observações realizadas na densa rede de
relações da orquestra seguiu as noções de campo de possibilidadese deprojeto,
com ligeiras afinações conceptuais que se foram estruturando na relação
recursiva entre teoria, método e empiria (Beaud e Weber, 1998). Deste modo, as
configurações relacionais que é possível observar e interpretar na presente
investigação assinalam a tendência para o aparecimento de contextos de
interação específicos. O esforço individual e coletivo assumia, aqui, uma
importância fundamental para o alcance das aspirações planeadas entre
protagonistas e orquestra. A relação dos conceitos de projeto e campo de
possibilidades (Velho, 1987, 1994) permitia organizar a interpretação das
trajetórias sociais dos protagonistas, mesmo quando estes participavam em
diferentes esferas simbólicas e culturais.
Neste sentido, a noção de projeto encontra-se ligada às explorações, aos
desempenhos performativos e às decisões ancoradas em avaliações e definições da
realidade, sendo de notar que a complexidade das relações na orquestra e a
interseção dos objetivos desta com os projetos individuais implicam uma
reinterpretação dos estilos de vida. Os atores veem potenciada, dessa forma, a
mudança das suas redes de sociabilidade, uns em relação aos outros. Nesta ordem
de ideias são observados os movimentos de partilha entre as decisões
individuais e os vínculos a um contexto reticular e interdependente de
oportunidades sociais e simbólicas, nas convenções elaboradas no longo processo
histórico de racionalização da notação musical, que facilitou o florescimento
da música complexa, tal como aquela que temos numa orquestra sinfónica.
Entre concertos e aprendizagens
Podemos afirmar, segundo a terminologia elaborada por Tia DeNora (2003), que o
manuseamento de conteúdos musicais é uma das formas de ter acesso a modelos de
preservação da complexidade, o que por outras palavras significa que estes
modelos revelam relações entre as partes e o todo e, em simultâneo, mostram os
modos como estas podem ser concebidas ou configuradas. De modo sucinto, a
organização da aprendizagem musical na Orquestra Geração, do Casal da Boba,
denota uma sofisticada e rigorosa elaboração. Por conseguinte, as aulas
dividem-se e subdividem-se de forma a alcançar de forma diferenciada sentidos
simbólicos, sociais, pedagógicos e culturais. Podemos destacar três níveis
principais de interação nas práticas da aprendizagem musical: as aulas
individuais, os naipes e, por último, os ensaios da orquestra, que reúnem todas
as técnicas e idiossincrasias das práticas subdivididas dos vários
instrumentos, conjugando os diversos naipes musicais numa perceção do todo.
Importa realçar que estas atividades têm lugar depois das aulas do ensino
formal, num horário intenso, cerca de quatro horas diárias, e aos sábados de
manhã com os ensaios da orquestra. Reforçamos que as aulas individuais aferem e
desenvolvem o esforço intraindividual de cada um dos protagonistas, através de
métodos de leitura das notas musicais (solfejo), técnicas de execução
instrumental, dinamismos interpretativos, sentidos expressivos das peças
musicais, e outros significados ligados à esfera da atividade musical. Noutro
sentido, os naipes designam a constituição de secções que compõem as
caraterísticas morfológicas da orquestra e nas quais os músicos tocam em
conjunto, integrando uma especificidade de práticas determinadas pela própria
família de instrumentos musicais.
Não sabia como pegar, era um objeto desconhecido. Primeiro comecei a
tocar sem dedos, aprendi o nome das cordas, mais à frente aprendi a
afinar, a respiração. Quando se começa uma música deve-se respirar
para iniciar, depois aprendi melhor o vibrato. [Mónica, 16 anos, toca
violino]
Além das aprendizagens quotidianas, a realização de concertos assume uma
importância crucial para os protagonistas sentirem a autenticidade de todo o
seu esforço e empenho numa troca partilhada com a audiência. A participação nas
práticas da orquestra, nos ensaios, na arrumação e preparação dos instrumentos,
nos concertos implica, de certa forma, esta incorporação das noções de
backstagee frontstage de Goffman (1993), dado que a interação pressupõe a
manutenção expressiva da situação e assim a aprendizagem de determinadas
condutas sociais está presente no próprio trabalho performativo da orquestra.
Numa viajem de autocarro, num final de tarde de outono, com nuvens de
chumbo e chuva densa, a orquestra da Boba dirigiu-se para mais um
concerto. Os cerca de 30 alunos falaram durante todo o trajeto com os
professores de forma cúmplice e a excitação nervosa de irem tocar
novamente para um público desconhecido invadia a atmosfera. Conhecer
os bastidores, a vivência de saírem em conjunto do bairro, da escola
onde fazem os ensaios, ganhava cada vez mais importância para
perceber os sentimentos de pertença nessa mudança de contexto, dessa
aventura vivida em conjunto. No local onde se fizeram as últimas
afinações, onde ainda imperavam os movimentos informais do backstage,
na linha de Goffman (1993), observavam-se os gestos de ajuda para
encerar um arco de violino, as mãos que compunham a roupa, que
arranjavam o cabelo antes de entrar em palco, uma canção que era
entoada, uma ondulação que embalava o corpo num ritmo invisível. As
brincadeiras para libertar a tensão e os semblantes concentrados
coexistiam lado a lado. Na preparação de todo este aparato necessário
para atuar no concerto, um certo caos inicial foi dando lugar à forma
como os instrumentos estavam dispostos, as estantes com as partituras
e os lugares a serem ocupados pelos protagonistas da orquestra. Os
sinais do corpo, a forma de andar, de segurar os instrumentos, a
concentração e o silêncio assumiam uma expressão mais coordenada
quando entravam em palco. [Notas de campo, 26 outubro de 2011]
A morfologia da orquestra sinfónica ocidental, que está na base da organização
e da criação da orquestra da Boba, permite aceder a um lugar de códigos e
modelos complexos de interação. Estes “modelos” podem de alguma forma
equilibrar uma tendência para ocorrerem processos de desigualdade social dentro
do bairro, como de seguida será referido. Desta forma, são propiciados, através
da criação de redes de relações e significados, acessos a redes de
sociabilidade mais alargadas (Agier, 2009), colocando em ação códigos
simbólicos e culturais criadores de capacidades, disposições e visões de uma
empatia cosmopolita que vive as diferenças partilhadas como um dos sinais
positivos das sociedades contemporâneas, nas possibilidades desta para combinar
relações de proximidade e distância.
Numa das aulas de violino cerca de seis ou sete alunos começavam por fazer o
aquecimento das mãos, uma ginástica de dedos com pequenos exercícios que eram
repetidos pela observação e imitação dos movimentos do professor. Depois liam a
partitura (de forma cantada) respeitando os códigos da notação musical, uma
prática designada solfejo. Os alunos iam repetindo uma variação multíplice de
leituras que facilitava a memorização da peça que estavam a estudar, e em
paralelo as práticas de leitura da notação musical com a identificação das
notas e dos seus tempos eram desenvolvidas sem quase darem por isso. Existia um
sentido muito prático e coordenado nas atividades da aula: num momento estavam
concentrados nos movimentos do professor, no outro estavam a imitar os mesmos
movimentos num som conjugado e uníssono. As dificuldades na leitura de um
determinado compasso, um atraso na ligação entre notas, a pulsação errada de um
andamento eram correções feitas na altura pela orientação focada do professor.
No entanto, depois de repetidos e interiorizados os compassos fragmentados das
peças, os arcos dos violinos erguiam-se no espaço vazio desenhando uma
coreografia onde as ligações ao todo se faziam corpo, movimento, sentido e voz.
Eles ajudam-se muito uns aos outros […] Para a próxima pode ser
aquele que está em dificuldades a ensinar o outro. Agora nem é
preciso dizer nada e isso acontece constantemente por aqui nos
corredores […] Na orquestra A temos cerca de 40 alunos. Às vezes
alguns alunos da A vão para a B e pode ser positivo para ambos porque
ensinam um repertório que já sabem. Gostávamos de ter uma orquestra
sinfónica de mais ou menos 80, eu gostava muito. [Sandra,
coordenadora da orquestra da Boba, 27 de outubro de 2010]
Esta abertura a múltiplas possibilidades de negociação da realidade através de
atividades cooperativas e convenções (que simplificam e ajudam a reduzir
recursos) permite aprender a organizar experiências estéticas e sociais não
familiares. Assim, se houver desconhecimento das convenções não há comunicação
possível entre quem tenta fazer algo, e quem supostamente pode vir a colaborar
ou a entender essa expressão. Se por acaso tal suceder, isso significa que a
cooperação entre ambos está desligada. Por outro lado, como afirma Howard S.
Becker (1982: 301): The history of art deals with innovators and innovations
that won organizational victories, succeeding in creating around themselves the
apparatus of an art world, mobilizing enough people to cooperate in regular
ways that sustained and furthered their idea.
Neste aspeto, acresce a relevância crucial da cooperação como processo de
negociação e transformação das visões do mundo, e este encadeamento teórico
aparece inclusivamente como essencial na própria modificação das regras e
códigos simbólicos que mantêm uma determinada convenção. No caso da criação das
redes de relações e significados da orquestra da Boba podemos articular os
critérios de cooperação com os diferentes esquemas de desenvolvimento e
dimensão de análise da rede. Na escala microssocial, na atenção focal mútua
(sem a qual as disposições e as capacidades plurais dos protagonistas não
seriam atualizadas por falta de congruência), seguindo as pistas de Randall
Collins (2004); na escala mesossocial, na negociação de projetos no campo de
possibilidades da orquestra; e a nível macro, nos potenciais de metamorfose
gerados pelas redes de interação na criação de encontros entre aspirações e
oportunidades dentro e fora da orquestra.
Ao princípio senti-me longe de casa. A escola no início era um bocado
esquisita, não havia grades nem nada disso, podíamos entrar e sair
livremente. A Miguel Torga por exemplo está cheia de grades. Foi um
bocadinho esquisito porque aqui tinha muitos amigos, e depois lá [no
Conservatório] senti muita diferença. Aqui tinha muitos amigos e
colegas de origem africana e lá era quase o único. [Diogo, 15 anos,
toca tuba e é aluno da escola de música do Conservatório Nacional]
Na aprendizagem das práticas musicais na orquestra da Boba são enfatizadas as
virtualidades de começar a tocar logo nas primeiras sessões. Os processos
performativos passam por imitar o professor e o grupo de pares por observação e
repetição. Porém, a entrada na esfera de sentido das práticas das orquestras
sinfónicas ocidentais e da música em geral aí executada só acontece, em certa
medida, quando as primeiras leituras da notação musical começam a ser
compreendidas.
As redes de relações e significados em formação no processo criativo da
orquestra mostram aos protagonistas as hesitações, os fracassos, as vitórias
alcançadas por aproximação, por etapas graduais, por repetição e superação.
Deste modo, o que se alcança neste “fazer de coisas” passa por desvelar a
opacidade do que é aparentemente apresentado como terminado, sem mácula nem
erro. As hierarquias de um palco distanciado, as receções passivas de uma peça
musical ganham contornos vivos de arestas e descontinuidades que se escondem na
superfície das coisas. Desta maneira, a facticidade das performances musicais
repousa num significado intersubjetivo que é mantido e recriado pelas relações
mediadoras da interação com os sistemas de tonalidade convencionados.
Alguns dos protagonistas entrevistados explicaram que depois de terem entrado
para a Orquestra Geração da Boba fizeram provas e integraram escolas
vocacionadas para o ensino profissional da música, como a escola do
Conservatório Nacional de Música, ou a Metropolitana de Lisboa. Embora alguns
deles sejam modelos que os outros pretendem seguir, e assim, desse modo, sejam
fortalecidos laços de interação na partilha de conhecimentos e afetos dentro da
orquestra, por outro lado também ocorrem tensões e conflitos quando se fazem
escolhas, de quem fica de fora e de quem participa, nas apresentações de um
concerto agendado, por exemplo. Sendo necessário gerir rivalidades, expetativas
e desejos frustrados.
No entanto, embora nestes casos a pertença a múltiplas instituições no âmbito
da aprendizagem musical apareça como uma realidade, a importância fundamental
do projeto da orquestra da Boba é para os protagonistas inquestionável, mesmo
quando questionados sobre as novas possibilidades em perspetiva. A orquestra é
vista como ponto de partida e como lugar ao qual posteriormente se regressa.
A orquestra para mim faz parte da minha vida. É uma grande oportunidade que nos
deram […] Nas trompas é mais complicado estar a estudar, os harmónicos estão
muito juntos, para treinar as flexibilidades e afins. Na viola de arco era mais
estudar as partituras. Eu dou ao meu colega de naipe as partituras de primeira
trompa para ele aprender os meus papéis, para eu também poder fazer os outros
lugares. Os sopros são mais brincalhões. As cordas acho que têm mais
disciplina. As partes que têm para tocar são mais rápidas e complexas por isso
precisam de mais treino. As percussões também gostam de brincar, mas nós, os
sopros, somos mais fixes [risos]. [Patrícia, toca trompa, 16 anos]
Jazzband e projetos paralelos
No decurso das práticas da Orquestra Geração do Casal da Boba, nasceu um
projeto de aprendizagem musical, a Big Jazz Band (Gerjazz), que ensaiava os
seus temas em paralelo com as peças da orquestra da Boba. Por esta via, a
partir do modelo inicial da orquestra sinfónica, surgiram outros processos de
interação, nos quais os protagonistas experimentavam diferentes práticas
musicais.
Na Gerjazz uma evidência ressaltava de imediato quando comparávamos de forma
genérica as suas práticas com as da orquestra da Boba. Os protagonistas eram
incentivados a improvisar por cima da cadência rítmica que os pares mantinham
continuamente, mesmo que ocorressem pausas repentinas nos solos, “erros” nas
ligações das notas ou bloqueios embaraçosos nos gestos performativos. Aliás,
eram pedidas capacidades de improvisação a cada um dos intervenientes deste
ensaio, sem que ninguém ficasse excluído de expressar a voz singular do
contrabaixo, da tuba, do trompete, do trombone ou das percussões. Esta
singularidade emergia do pano de fundo sonoro que o grupo de pares engendrava
como se fosse uma dança disposta em círculo. Lugar onde um de cada vez se
dirigia ao centro de uma circunferência imaginária para partilhar a linguagem
improvisada do seu movimento. Em sentido inverso, nas práticas da orquestra, os
solistas traduziam as intenções e emoções da notação prévia de uma dada
composição, como forma de controlar o acaso. Nas esferas simbólicas do jazz era
a apropriação do inesperado, a combinação de motivos e ritmos que surgiam no
momento da própria atuação que propiciava a ligação expressiva entre os
músicos.
De facto, no caso dos músicos de jazz a mestria da sua improvisação está
apoiada por um vasto contexto de suporte social, seja por via de mentores,
relações privilegiadas no grupo de pares, ou linguagens congruentes que
sustentam sentidos comunicacionais entre os participantes do processo
performativo. Nos ritmos ondulantes de uma versão composta por Miles Davis,
sentíamos as pulsações e as intermitências instrumentais dos solos mais agudos
e mais graves a contrastarem nas paredes nuas do refeitório da escola E.B. 2, 3
Miguel Torga. Noutra ocasião, ouvia-se num pátio exterior da escola a paisagem
sonora do trompete a ensaiar as mesmas frases melódicas, disseminando notas e
melodiosas texturas no espaço etéreo do bairro. Desta maneira, seguindo as
reflexões enfatizadas por António Pinho Vargas (2011: 508), “[a]s vozes de
novas músicas e novos cânones só podem produzir uma comunidade mais
interessante e diversa se, de facto, o poder estiver distribuído com mais
igualdade”.
Neste aspeto, importa realçar como a diversidade de trajetórias e experiências
nas quais alguns protagonistas da orquestra da Boba participam se evidenciam
pela hipótese de abertura a uma multiplicidade de possibilidades de interação
frequentes e duradoiras. Logo, podemos representar desta maneira o cariz
fundamental do desenvolvimento de disposições e capacidades plurais no contexto
de uma organização que de facto procura criar relações ativas entre os
professores, os alunos e a sociedade.
Poderíamos considerar que a participação dos protagonistas da orquestra da Boba
em festivais de música contemporânea — como foi o caso do Big Bang, em 2011, no
Centro Cultural de Belém, com a colaboração de um músico de jazz da cena
americana, workshops que decorreram no Hot Club, em Lisboa, arranjos inusitados
de peças musicais de Cabo Verde (um funáná), de música cigana — desvendava
modos de saber, províncias de significado até esse momento ocultas e por
transitar. Para além disso, acrescentaríamos os encontros ocasionais que
relatavam as experiências de terem tocado num descampado do Casal da Boba, com
as pessoas dos prédios em frente que na altura ouviam as invenções sonoras,
partilhando, desse modo, as capacidades que saíram à rua e faziam do espaço
público uma “apropriação simbólica”. Importa ainda referir que alguns dos
projetos construídos pelos protagonistas da orquestra nasciam destes contactos
exploratórios e das negociações dos interesses divergentes ou convergentes,
semelhantes ou contrastantes.
Nesta conjugação de influências, ter preferência por música rap, heavy metal,
pop rock, erudita ou eletrónica, embora pareça ser à primeira vista um fator de
fechamento em tribos diferenciadas por culturas e significados díspares,
adquire, pelo contrário, um caráter de composição e recombinação no campo de
possibilidades (Velho, 1994) da orquestra da Boba.
O desempenho institucional da orquestra e as suas convenções modificam-se. Como
consequência destas orientações, as qualidades flexíveis, diversas e
estruturantes da organização num processo bottom-up, referido por Sieber e
Centeio (2010), rompem com noções de hierarquia assentes em visões demasiado
centradas nas origens elitistas das orquestras sinfónicas, sedimentadas por
movimentos históricos de longa duração. A proximidade das relações na orquestra
forma um conjunto de sentido simbólico mais fluido e partilhado com as
populações onde se inscrevem. Neste caso específico através do encadeamento de
atividades centradas no equilíbrio cooperativo dos seus protagonistas.
Nesta linha de raciocínio, considero a probabilidade de a orquestra da Boba
ilustrar a ultrapassagem de alguns dos pressupostos convencionais que poderiam
em princípio impedir a estrutura institucional de uma orquestra, em termos
gerais, de se adaptar a um meio social mais distante e adverso, por via de
favorecer a “expressão polifónica” de projetos multidisciplinares e
contemporâneos no interior das disposições e atividades negociadas pelos
agentes.
Desta maneira, o enquadramento das possibilidades de ação e a sua diversidade
expressiva no manuseamento desses conteúdos simbólicos tendem a contornar as
limitações das vias de sentido único ou a paralisia excessiva dos labirintos
económicos, sociais e culturais dos contextos sociais desfavorecidos, nos quais
estes atores se encontram, em consequência de, porventura, existir
permeabilidade dos modelos complexos da orquestra relativamente aos seus
processos de interação com os padrões culturais e sociais das redes de
sociabilidade do bairro. Desta concomitância de linguagens musicais (clássica,
contemporânea, popular, jazz) que atravessam as práticas dos alunos e
professores da orquestra da Boba nascem focos propiciadores de percursos
singulares e diferenciados.
Numa das observações realizadas foi possível assistir à preparação das
condições necessárias para os alunos se apresentarem em forma de audições, aos
professores e às famílias. A sala do refeitório da escola Miguel Torga era um
frenesim de cadeiras, estantes (para as partituras) e instrumentos musicais. A
efervescência emocional daquele grupo diverso e extenso era sentida nos
diálogos, nas expetativas de irem revelar ao grupo de pares, aos professores e
aos familiares a aprendizagem alcançada durante as aulas e os ensaios. Durante
alguns dos ensaios, antes das audições, o Daniel (clarinete), o Diogo (tuba), e
o Isalcino (trombone) abordavam os professores e negociavam o plano de
terminarem as audições com uma música criada por eles (neste caso um rap sobre
a Orquestra Geração). Os professores pediram para ouvir, de modo a entenderem o
resultado da ideia. A composição misturava os teclados eletrónicos do Daniel,
as sonoridades do trombone do Isalcino e a voz do Diogo. Desta maneira,
expressavam um tema de agradecimento à Orquestra Geração (professores, alunos,
e funcionários) através da pluralidade de capacidades e disposições (Lahire,
2008) atualizadas no próprio campo de possibilidades da orquestra.
Nos corredores da escola, no espaço de recreio e durante as pausas entre as
aulas de naipes viviam-se improvisações experimentais inerentes à sensibilidade
exploratória dos instrumentos musicais. Deflagrações sonoras, “interferências”
das cordas de um contrabaixo, de um violino, nas frases musicais estudadas por
alguém que tocava tuba ou trombone. Gramaticalidade exercitada num ato
expressivo de comunicação sem palavras, mas com um código partilhado por
sentimentos, vozes, ritmos e harmonias.
Desta forma, a música criada pelo Daniel, o Diogo e o Isalcino, para lá das
livres associações mais imediatistas, supõe a perceção de fazer uma escolha
livre e de exercer as oportunidades de concretização das ações planeadas, dos
projetos e emoções. As aspirações convergem no sentido das oportunidades, dando
espaço à atualização de capacidades e à possibilidade efetiva de ter
alternativas, de poder realizar discernimentos.
Origens e possibilidades da orquestra
Bernard Lehmann (2002), na sua pesquisa sobre as principais orquestras
parisienses, elabora um conjunto de classificações nas orientações dos
protagonistas em relação às orquestras por ele analisadas, que mostram grupos
de origem social com condutas diferenciadas dentro da orquestra: “os
promovidos”, “os desclassificados” e “os herdeiros”. Por essa via compreensiva,
o autor depara com a existência de uma tensão polar, de atração e repulsa, que
reflete um sentimento de ambivalência em relação às disposições da orquestra.
Na sua ótica analítica identifica, “os promovidos” (oriundos de um estrato
social baixo) e “os desclassificados” (de origem social média alta) com um
conjunto de aspirações que vai para além do que é oferecido pela organização e
pela posição em que se encontram na rede relacional da orquestra.
Neste sentido, torna-se frequente serem indivíduos que dinamizam outras formas
de expressão musical para lá das fronteiras da orquestra, como a música
popular, ou registos alternativos de música erudita (jazz, música de câmara,
contemporânea, etc.). Em contraposição, “os herdeiros” são os filhos de músicos
que estão desde muito cedo sob a influência e as predisposições das práticas
musicais dos seus progenitores. Revelam a tendência deste ideal-tipo para se
integrarem melhor nas posições que ocupam na orquestra e ajustam a sua
trajetória ao que de algum modo é esperado.
No encadeamento teórico de Lehmann (ibid.), “os herdeiros” reproduzem os
conhecimentos e as práticas adquiridas no contacto com o meio familiar e
adequam esses conteúdos ao papel que têm na orquestra, quer tenham mais
inclinações para serem solistas ou intérpretes de grupo (tuttistes) na criação
de sonoridades uníssonas.
Então, se numa determinada perspetiva importa explorar a complexa rede
morfológica e disposicional de uma orquestra, de forma a elucidar o cruzamento
de elementos históricos, sociais e simbólicos, de outro ângulo torna-se
fundamental reforçar que a pertença à orquestra não advém apenas do
conhecimento dos códigos culturais estéticos e técnicos que permitem uma boa
interpretação musical da peça em questão. As relações sociais de amizade,
competição, conflito e entreajuda entre os pares da orquestra são cruzadas com
as posições simbólicas da organização da própria orquestra.
Deste modo, seguindo ainda a análise do mesmo autor, podemos esquematizar, de
forma sintética, a morfologia das orquestras sinfónicas ocidentais nas
seguintes vertentes: as famílias instrumentais (cordas, madeiras, metais e
percussões), a relação de mais ou menos exposição dentro da orquestra (primeiro
violino e segundo violino, por exemplo), a abordagem dos compositores na
utilização dos instrumentos (solistas, melódicos, harmónicos e rítmicos) e uma
divisão entre instrumentos agudos e graves.
Na orquestra da Boba teríamos de considerar, seguindo as perspetivas
anteriores, que a maioria dos seus protagonistas se encontrava defronte dum
modelo complexo de valores, de códigos de interação e relações culturais que
estavam ausentes das redes de sociabilidade quotidiana do bairro do Casal da
Boba.
Que tipo de interdependência se encontra em jogo? Como é que as mudanças
intraindividuais e interpessoais acontecem dentro de um determinado quadro
sociocultural? Como é que ocorre o trânsito entre projetos e redes de
significados?
Podemos destacar a tendência, por intermédio de uma consciência desperta para a
consciência dos outros, de as disposições plurais dos protagonistas encontrarem
nesse entrelaçado de relações um lugar para se atualizarem. Neste universo de
atividades da orquestra existe uma reciprocidade inerente às próprias práticas;
uma vez que não é possível o exercício dos desempenhos individuais de forma
aleatória ou ocasional, o foco das capacidades e disposições individuais
alterna de modo polifónico com as configurações do grupo. Ou seja, o
desenvolvimento da singularidade melódica das vozes individuais progride de
forma autónoma, na medida em que a expressão das diversas vozes observe a
rigorosa unidade da composição musical, a par das múltiplas gradações que ligam
os gestos simbólicos e performativos entre si.
Como consequência, aduzimos que nos campos de possibilidades é que se podem
elaborar projetos (Velho, 1994), o que assinala a hipótese de existirem campos
de possibilidades específicos, campos de possibilidades criativas. Estes
desenvolvem formas de interação potenciadoras de mediação (Velho, 2012), ou
seja, práticas que permitem a negociação e o desenvolvimento da capacidade de
transitar entre diferentes códigos e grupos, colocando em evidência a
possibilidade de ponderar e questionar a natureza das complexas redes de
interdependência que englobam as trajetórias individuais. Tendo em vista esta
orientação teórica, as práticas de interação, as redes de interconhecimento
analisadas no âmbito da orquestra da Boba revelam um processo de criação de
empatia, uma dimensão cosmopolita capaz de se colocar no lugar do outro e de
organizar mudanças nos estilos de vida e na visão do mundo dos atores
implicados.
Embora seja possível constatar que nas sociedades contemporâneas os indivíduos
se movimentem em diferentes esferas sociais sem prejuízos de maior,
argumentamos que a expansão de redes de interdependência cada vez mais
complexas e menos controláveis (Elias, 1993: 174) pode, pelo contrário, limitar
as margens de manobra dos indivíduos. Como, por exemplo, por via de “processos”
criadores de desigualdade, no sentido em que são referidos por Göran Therborn
(2006), de distanciamento, exclusão, hierarquização e exploração das relações
humanas, que marcam ininterruptamente diferenças injustas nas trajetórias
condicionadas da vida social. Se, por um lado, os jovens e os diferentes grupos
de sociabilidade revelam uma tendência plural e heterogénea nas experiências
que vivem e exploram, nas sociedades contemporâneas, por outro lado, essas
multiplicidades de disposições (Lahire, 2008), conjugadas com as complexidades
dos contextos do nosso mundo multidiferenciado, nem sempre encontram as formas
de se atualizarem. Admitindo uma tendência genérica para ocorrerem nas
sociedades complexas contemporâneas processos criadores de desigualdade social,
na sequência do desenvolvimento reflexivo de Göran Therborn (2006) podemos
constatar que, no caso específico dos contextos sociais, culturais e económicos
da população do bairro do Casal da Boba, esses fenómenos de distanciamento,
hierarquização, exclusão e exploração manifestam-se em diferentes escalas e
intensidades.
Desse modo, encontramos no baixo nível de ensino da população do bairro em
geral, nos recursos económicos limitados, nas redes de sociabilidade fechadas e
direcionadas para profissões pouco qualificadas, sentidos de incapacidade de
atingir determinados padrões culturais inerentes à vida em sociedades complexas
e heterogéneas. Essa perda de coesão social e de horizontes de sentido tende,
num caso limite, para o aparecimento de fenómenos de anomia inter e
intrageracional, seguindo as pistas teóricas de Robert Merton (1938) quando
este observa a relação entre fins ou interesses culturais e os meios
institucionais que regulam os modos de alcançar esses propósitos, analisando os
desequilíbrios dos tipos de interação nos quais se verificam dissociações entre
os intuitos culturais de um determinado grupo e as estruturas socialmente
formadas para lhes dar resposta.
A dificuldade em consolidar ou criar normas, a ausência de uma relação
congruente entre indivíduos e instituições e a falta de coesão social referida
por Durkheim (1973 [1897]), tal como a classificação reificadora das condutas
desviantes e os estigmas sociais a elas associados (Becker, 1985) convergem de
modo diverso para o entendimento da noção de anomia. Em contraponto, mas também
em diálogo com esta multiplicidade de visões, proponho o conceito de pronomia
como uma relação na qual os indivíduos e grupos colaboram na construção de
tecido social. Este sentido de coesão dos laços sociais, onde as instituições
estimulam e favorecem as capacidades individuais, solicita uma nova forma de
pensar as interligações entre a estrutura de oportunidades e a liberdade de
fazer florescer as potencialidades humanas em conjunto. Assim, esta procura de
um modo justo de distribuir os recursos e o bem-estar social em geral permite
medir aos movimentos das diferentes organizações sociais. Uma vez que as
sociedades mais igualitárias, para além aumentarem a profusão das relações
entre redes, através da confiança face ao desconhecido, estimulam diálogos de
invenção entre indivíduos, valorizando a dignidade da interação e as
capacidades de cada um, contrariamente a modos de exploração que tendem a criar
desigualdade e pobreza.
Desta forma a criação de elaboradas redes de interação, os lugares de encontro
entre aspirações e oportunidades, as dimensões intermédias de mediação entre
estrutura e ação podem ser vistos como manifestações das práticas presentes na
orquestra da Boba. Na mesma linha, argumentamos que o acesso a campos de
possibilidades criativas, para onde convergem aspirações e oportunidades,
traduzem um processo social de pronomia. Neste quadro, os sonhos e aspirações
individuais no fluxo desordenado da imaginação e da esfera complexa de
oportunidades, onde os projetos se estruturam, encontram a hipótese de
metamorfosear o que antes eram meras possibilidades em formas e sentidos
atualizados de expressão social, articulando dimensões micro, meso e
macrossociais.
Conclusões
Podemos afirmar que a pluralidade de disposições desencadeada através da rede
de relações e significados presentes na complexidade relacional da orquestra
está necessariamente atravessada pelos constrangimentos do meio social no qual
ela se encontra inserida. Porém, e em sentido contrário, as interações e
interdependências sociais, formadas pelas relações e significados da orquestra,
permitem reduzir o peso das desvantagens sociais herdadas. Por se apoiarem numa
gramaticalidade simbólica partilhada, em desempenhos e projetos congruentes na
negociação da realidade (Velho, 1994), através de campos de possibilidades
criativas que emergem das relações estabelecidas nas configurações da própria
orquestra.
Em resumo, as disposições e capacidades plurais dos protagonistas na orquestra
da Boba seguem uma orientação para projetos, que são negociados na esfera de
modelos de preservação de complexidade (DeNora, 2003), lugares de encontro
entre aspirações e oportunidades, campos de possibilidades criativas que se
estabelecem em múltiplas dimensões: interações frequentes e prolongadas nos
ensaios individuais, de naipes (cordas, sopros, ou percussões), na orquestra,
ou na jazzband. Podemos ainda acrescentar a interpretação de reportórios
diferenciados, a combinação de gostos pessoais com capacidades instrumentais
entretanto adquiridas, os concertos, a organização logística dos grupos e dos
instrumentos.
Nesta dimensão interpretativa assinalamos: “No plano individual, a participação
em mundos diferenciados e o desempenho de múltiplos papéis levam ao
desenvolvimento de um potencial de metamorfose particularmente rico” (Velho,
1994: 68). Por outras palavras, os contextos de interação da orquestra da Boba
apontam no sentido de facultar o alargamento das redes de sociabilidade. Estas
disposições para outros modos de saber, outros valores e interesses abrem em
simultâneo o horizonte social dos seus protagonistas para inesperadas visões do
mundo. Desta maneira, a hipótese de os sentidos singulares das redes de
interação orquestral (estéticos, técnicos, históricos e expressivos) se poderem
vir a configurar em campos de possibilidades criativas aparece como um modo
criador de igualdade social. Logo, um lugar potenciador de capacidades e
disposições plurais, num encontro entre aspirações e oportunidades sociais, ou
seja, mecanismos de coesão e transformação social, processos de pronomia.