O conceito de movimento social em debate: dos anos 60 até à atualidade
Introdução
Neste artigo tentar-se-á proceder a um mapeamento das diferentes abordagens
sobre o conceito de movimento social no âmbito dos principais paradigmas
teóricos dos movimentos sociais.[1]
A discussão terá como marco cronológico os debates iniciados nas décadas de
1960 e de 1970 em torno dos movimentos que ficaram conhecidos, sobretudo na
sociologia europeia, como “novos movimentos sociais”. Nos Estados Unidos da
América (EUA), a contestação social e política levada a cabo pelo movimento dos
direitos civis contribuiu para o surgimento das teorias da mobilização de
recursos (TMR) e do processo político (TPP), assim como, na Europa, os
protestos emergentes no Maio de 68 conduziram à construção das análises em
torno dos novos movimentos sociais.
Estes contributos ficaram consagrados no que se convencionou apelidar
paradigmas norte-americano e europeu e até às décadas de 1980 e de 1990 foram
observados como antagónicos no estudo dos movimentos sociais. A partir de então
passaram, segundo alguns autores (Cohen, 1985; Della Porta e Diani, 1999;
Diani, 1992), a ser perspetivados como convergentes na análise de diversos
fatores, nomeadamente na conceção face à noção de movimento social — analisado
como um tipo de ação peculiar, distinto de outras formas de ação coletiva, que
apenas se realiza ante a junção de determinadas condições.
Mas se foi em meados dos anos de 1980 e de 1990 que surgiram as análises que
tentam conciliar ambos os paradigmas, foi também por volta dessa época que se
elaboraram as suas principais críticas, dirigidas sobretudo à TPP, que se
expandiu até às pesquisas desenvolvidas em diversos países europeus e
mencionada por alguns investigadores como sendo hegemónica na análise dos
processos de ação coletiva (Jasper, 2012; McDonald, 2006). No entanto, se
desde a década de 1990 até à atualidade, os debates continuam a construir
olhares críticos face aos “paradigmas dominantes”, nomeadamente pela sua
abordagem macroestrutural, também não é menos verdade que os contributos mais
recentes continuam a ser influenciados pelos seus enfoques.
As discussões atuais tendem a sublinhar a importância da subjetividade
identitária ou da experiência pública do selfe, em certa medida, da passagem da
importância do coletivo ao individual (McDonald, 2004, 2006) ou até mesmo em
torno da importância das emoções nos protestos das sociedades atuais (Goodwin,
Jasper e Poletta 2000; Jasper, 2012).
Ao longo dos últimos anos, à medida que as diferentes análises se movem de uma
vertente macroestrutural para uma mais microcultural (Jasper, 2012), as
análises do significado conceptual de movimento social e de novas propostas
sobre a sua definição parecem ir perdendo centralidade nas abordagens sobre os
movimentos sociais. Um debate importante é se estas tendências poderão estar,
por um lado, a construir caminhos de análise que transformam as abordagens
tradicionais da noção de movimento social ou se, por outro, a utilização da sua
terminologia conceptual estará a ser preterida na análise dos processos de ação
coletiva contemporâneos.
A efervescência social e política dos anos de 1960 e de 1970 — as teorias da
mobilização de recursos, do processo político e dos novos movimentos sociais
O contexto de efervescência política desencadeado pelo movimento dos direitos
civis nos EUA, a par da sua capacidade estratégica para reivindicar para a
população afro-americana os direitos sociais e políticos vigentes para os
membros da comunidade branca, conduzia a que os teóricos da TMR (McCarthy e
Zald, 1977) propusessem uma abordagem racional dos movimentos sociais (Cohen,
1985).
A TMR começou por recusar a análise dos movimentos sociais enquanto fenómenos
de agregação de indivíduos movidos por sentimentos de irracionalidade e partiu
da premissa de que os atores envolvidos na contestação são guiados pela ação
racional onde medem a relação custos-benefícios do seu compromisso e mobilizam
estrategicamente os recursos necessários para atingirem os seus objetivos
(McCarthy e Zald, 1977). No que respeita ao movimento dos direitos civis, o
objetivo seria garantir o abandono de um contexto de exclusão social e política
através da igualdade de acesso aos direitos sociais e políticos vigentes para a
população branca (Cohen, 1985; Della Porta e Diani, 1999).
Para McCarthy e Zald, os movimentos sociais representam um tipo de ação
coletiva nos quais a participação de organizações que apoiam as suas causas é
fundamental para o seu sucesso. Aliás, a enunciação da visão estratégica e
racional de McCarthy e Zald (1977: 1217) não se reflete claramente na
formulação do conceito de movimento social — que os autores definem como “…um
conjunto de opiniões e crenças comuns a uma população que representa
preferências pela mudança de alguns elementos da estrutura social e/ou pela
distribuição de recompensas numa sociedade” — mas sobretudo na importância
conferida às organizações de movimentos sociais que desempenham um papel
importante na mobilização dos recursos necessários para a obtenção dos
objetivos delineados por tais movimentos.
O sucesso das organizações de movimento social depende dos recursos económicos
e humanos que conseguem reunir e captar. Os autores (1977) também reconhecem a
importância de outro tipo de recursos (como o conhecimento, o acesso aos media
e o reconhecimento da legitimidade e da autoridade junto das populações), mas é
principalmente através dos meios económicos que se consegue estabelecer uma
ligação profissional e contínua dos indivíduos às organizações e aos movimentos
sociais.
Na década de 1970, surgiam também os contributos associados à TPP através de
Charles Tilly e da sua obra From Mobilization to Revolution (1978). Neste livro
são lançadas as bases de uma teoria que tem vindo a sofrer atualizações e a ser
utilizada com algumas variações analíticas por diferentes autores norte-
americanos e europeus (Jenkins e Klandermans, 1995; Kriesi, 1995; McAdam, 1996;
Della Porta e Rucht, 1995; Tarrow, 1998, entre outros).
A TPP tem sido analisada como integrando uma abordagem racional dos movimentos
sociais (Della Porta e Diani, 1999), mas que, ao invés da TMR, se concentra não
na mobilização dos recursos internos aos movimentos sociais mas dos que lhes
são externos, ou seja, é valorizado o ambiente político que os rodeia para
compreender os fatores que possibilitam ou dificultam a sua expansão (Tarrow,
1998). Desta enunciação da mobilização de recursos externos decorre a
importância que a TPP confere à caracterização do contexto político
institucional para explicar a emergência de episódios de protesto ocasionais e
dos movimentos sociais.
A apreensão das condições em que um movimento social emerge implica a
compreensão da estrutura de oportunidade política (Tarrow, 1998) vigente numa
sociedade. No âmbito da TPP, Tarrow (1998) foi um dos autores que concedeu
especial atenção ao conceito de estrutura de oportunidade política, embora o
autor atribua a génese do conceito a Eisinger (1973) e afirme que as bases da
sua conceptualização se encontram em FromMobilization to Revolution (Tilly,
1978). Nesta obra, Tilly analisa um conjunto de fatores que podem ou não
fomentar a mobilização (Tarrow, 1998). Estes estabelecem-se em torno dos eixos
“ameaça-oportunidade” e “facilitação-repressão” que o contencioso
políticoenfrenta por parte dos sistemas políticos nacionais. Estes elementos
não só permitem analisar um dos temas centrais no seio da TPP — que fatores
auxiliam a construção de determinadas formas de ação política contenciosa em
cada estado-nação e em cada momento histórico —, como também ajudam a
compreender as dimensões que propiciam o sucesso ou o insucesso dos movimentos
sociais. Contudo, é principalmente sobre o binómio “ameaça-oportunidade” que
Tarrow (1998: 19) define as noções de oportunidades como “…dimensões
consistentes — mas não necessariamente formais, permanentes ou nacionais — da
luta política que encorajam as pessoas a envolverem-se no contencioso
político”. O conceito de oportunidade política é ainda composto por quatro
dimensões que enunciam mudanças para a emergência do contencioso político e,
num nível de ação coletiva mais elaborado, dos movimentos sociais (1998: 77), a
saber: (i) “a abertura do sistema político”; (ii) “a instabilidade nos
alinhamentos políticos das elites”; (iii) “a divisão das elites marcada por
divergências de governação que conduzem à procura de aliados no contencioso
político” e, por último, (iv) “a capacidade e a propensão do estado para a
repressão”.
No entanto, para os precursores da TPP, a maioria das formas de contencioso
político que ocorrem numa sociedade não podem ser observadas como movimentos
sociais (Tilly e Tarrow, 2006). Estes apenas emergem quando estamos perante “um
desafio sustentado dirigido aos detentores do poder, em nome de uma população
que vive sob a jurisdição desses detentores do poder, através de sucessivas
demonstrações públicas de respeitabilidade, unidade, número e compromisso: no
mínimo os movimentos sociais envolvem uma interação contínua entre os
opositores e os detentores do poder” (Tilly, 1999: 256).
O conceito de movimento social implica uma definição dos adversários e um
processo de ação coletiva consecutivo que tenta ter consequências políticas por
um determinado período. Esta noção de movimento social determina que os autores
da TPP (Tilly e Tarrow, 2006: 45) incluam uma série de ações que os constroem e
cujas combinações os distinguem de episódios de protestos ocasionais. Esses
processos são constituídos por: (i) “campanhas sustentadas de reivindicações”;
(ii) “um conjunto de performances públicas que incluem manifestações, comícios,
criação de associações especializadas, encontros públicos, petições, propaganda
e lobbying”; (iii) “representações públicas concertadas de respeitabilidade,
unidade, número e compromisso”.
Nos EUA, enquanto nas décadas de 1960 e 1970, o estudo dos movimentos sociais
era influenciado pelo movimento dos direitos civis e pelas abordagens
organizacional e política (TMR e TPP), na Europa as pesquisas centravam-se na
análise dos protestos do Maio de 68 em França que se estenderam a outros
países, incluindo os EUA, mas cuja “novidade” identitária e cultural foi
enfatizada pela sociologia europeia e pela teoria acionalista de Touraine
(1978).
Para se compreender o que Touraine entende ser “novo” nos modos de contestação
dos anos de 1960 e de 1970, é necessário ter em atenção a sua definição de
movimento social, assim como a análise elaborada relativamente ao movimento
operário. Para este autor (1996), os movimentos sociais desempenham um papel
fundamental na transformação social e cultural das sociedades e, tal como na
TMR ou na TPP, correspondem a um tipo de ação coletiva particular que os
distancia de simples protestos populares ou, em alusão às correntes do
comportamento coletivo, de fenómenos de massas guiados pelo pânico ou por
contágio de modas. Só podemos considerar a existência de um movimento social
mediante a articulação de três princípios: a definição do ator (princípio da
identidade — I); a identificação do adversário social (princípio da oposição —
O) e a referência a temas culturais comuns (princípio da totalidade — T).
A aplicação do seu conceito de movimento social começa por se reportar à
análise do movimento operário, reconhecido por si como o motor do
desenvolvimento da transformação e de um conflito central na sociedade
industrial. Segundo Touraine (1996), o movimento operário criou uma identidade
estruturada e coerente, capaz de travar um conflito com um ou mais adversários
sociais — neste caso, os industriais que controlavam os modos e os meios de
produção. Contudo, a enunciação do opositor não é suficiente para apreendermos
o seu conceito de movimento social. É necessário que o conflito se desenrole em
torno da historicidade, ou seja, ao nível “… da produção das grandes
orientações normativas da vida social” (Touraine, 1996: 12). Assim, só podemos
falar em movimento social quando se realiza a conjugação “de um projeto
cultural associado a um conflito social” (Touraine, 1998: 131).
No que respeita à sua conceção sobre os novos movimentos sociais, embora o
autor os diferencie por contraposição ao movimento operário — distinção esta
que se encontra na génese das expressões “novos” e “velho” movimento(s) social
(ais), em que os primeiros seriam animados pelos movimentos feministas,
estudantis, pacifistas e ambientalistas e o último pelos trabalhadores
industriais e agrícolas —, as condições que poderão elevar estes novos
movimentos a um autêntico movimento social são as mesmas delineadas para o
movimento operário.
Apesar desta extensão conceptual, o autor distingue radicalmente os “novos” dos
“velhos” movimentos sociais. Tal como o movimento operário foi o produto
da sociedade industrial, os “novos” movimentos seriam o resultado da sociedade
pós-industrial ou programada, em que os principais conflitos sociais já não
girariam à volta da divisão capital/trabalho, do controlo dos meios materiais
de produção e da dicotomia de classes, mas da produção simbólica de bens, da
informação e da cultura. Os novos movimentos sociais são animados por uma
miríade de identidades, oriundas maioritariamente das classes médias, em que a
rejeição das orientações culturais da sociedade substitui a contestação da
privação e a defesa do bem-estar económico.
Contudo, estas diferenças idiossincráticas não impossibilitam Touraine de
colocar a hipótese de os “novos” poderem vir a desempenhar um papel de
transformação social não menos importante que o do movimento operário, onde a
junção da diversidade das identidades coletivas corresponderia à união das
faces ofensiva (operários menos qualificados) e defensiva (operários
qualificados) do movimento dos trabalhadores e conduziria a um conflito central
iniciado não nas fábricas e nos locais de trabalho, mas sobre os modelos de
produção cultural e de conhecimento impostos pelos tecnocratas que governam as
sociedades pós-modernas (McDonald, 2006).
Autores como Offe (1985), Habermas (1986 [1981]) ou Melucci (1996) também
refletiram sobre os movimentos sociais que emergiram no final da década de 1960
e sobre as suas diferenças relativamente ao movimento operário.[2]
Para Habermas (1986 [1981]), os “novos” movimentos sociais surgem associados à
fase do capitalismo tardio. É nas sociedades modernas ocidentais que se
consolidam as funções sociais do estado, através da regulação das economias e
da redistribuição dos rendimentos. No entanto, a consolidação do estado
providência é acompanhada pelo desenvolvimento de um sistema burocrático e
racional que se estende a todas as dimensões da vida em sociedade e tende a
colonizar o que Habermas (ibid.) qualifica como mundo da vida, ou seja, o
espaço da reprodução simbólica, da interação e comunicação subjetiva dos
indivíduos. É por oposição a essa hegemonização do espaço do mundo da vida que
surgem as condições para o aparecimento de novos protestos.
Para Habermas (ibid.), tal como para os outros autores que teorizaram sobre os
novos movimentos sociais, estes protestos estabelecem-se em torno de questões
que ultrapassam a esfera material e são impulsionados por uma nova classe média
que tenta pôr em prática novas formas de ação política.
No espetro das novas causas sociais e políticas, Habermas (ibid.) coloca um
leque abrangente de atores onde se destacam os movimentos ambientalistas,
juvenis, pacifistas ou aqueles que defendem modos de produção e de vida
alternativos ao vigente nas sociedades dominadas pela racionalidade
instrumental. Embora estes movimentos possam ser de natureza diversificada,
Habermas (ibid.) coloca a hipótese de que serão eles a resistir e a combater a
colonização do mundo da vida pela racionalidade instrumental, particularmente o
seu domínio sobre a vida privada e individual, os papéis sociais e
profissionais dos indivíduos e o paradigma consumista que predomina nas
sociedades avançadas.
Na esteira de Habermas, Offe (1985) também sugere que os “novos” atores
coletivos são animados por uma nova classe média que age em nome de novas
formas de conceção política e de temas reivindicativos que ultrapassam os
direitos económicos e sociais elementares. Offe (ibid.) destaca-se, contudo,
pela problematização das relações entre movimentos e classes sociais. O que
caracteriza os “novos” movimentos sociais é serem protagonizados por indivíduos
provenientes de uma nova classe média altamente qualificada, com recursos
escolares elevados e que exerce a sua atividade profissional sobretudo no setor
público. Esta caracteriza-se ainda por possuir vínculos laborais estáveis e um
bem-estar económico que lhe permitem avançar com os chamados protestos pós-
materialistas, relacionados com as questões do ambiente, das relações de género
ou ainda com assuntos que tradicionalmente permaneciam fora da discussão
pública e da atuação dos movimentos sociais como, por exemplo, a identidade
sexual, a saúde ou o corpo. Para Offe (ibid.), embora os membros desta nova
classe média emergente sejam predominantes na constituição dos “novos”
movimentos sociais, nestes participam também quer indivíduos pertencentes à
antiga classe média, por exemplo, artesãos e agricultores ameaçados pelo avanço
técnico-científico, quer dos chamados grupos “desmercantilizados”, onde estão
representados indivíduos com uma integração precária no mundo laboral ou
inteiramente excluídos do mercado de trabalho.
A junção destes grupos diferenciados conduz a que os novos movimentos sociais
não ajam em nome de uma classe homogénea, tal como ocorria no movimento
operário, mas na defesa de temas tanto de índole universalista como
particularista e identitária. Esta transformação nas reivindicações dos
movimentos sociais é um dos fatores que marca a passagem daquilo que o autor
enuncia como “velho paradigma político”, típico de organizações de interesses
corporativistas e dos partidos políticos, ao “novo paradigma político”,
construído pelos novos movimentos sociais. Este contrasta com o anterior por
prosseguir repertórios de ação e processos de organização que Offe (ibid.)
adjetiva como não institucionais, horizontais, descentralizados e com fraca
diferenciação hierárquica dos papéis sociais dos seus membros.
Ainda no âmbito das teorias dos novos movimentos sociais, Melucci é referido
como um dos autores que mais contribuíram para o estudo da ação coletiva
contemporânea. No entanto, em ChallengingCodes(1996), Melucci distancia-se do
termo “novos movimentos sociais” argumentando que a sua designação provocou,
muitas vezes, discussões estéreis que pouco contribuíram para um conhecimento
analítico mais adequado e esclarecedor dos movimentos sociais contemporâneos.
Tal como para o conjunto dos autores que desenvolveram uma noção conceptual de
movimento social, também para Melucci (1996: 28) um movimento social distingue-
se de outros modos de ação coletiva. O seu conceito, comportando a conjugação
de três princípios, aproxima-se do elaborado por Touraine: “um movimento é a
mobilização de um ator coletivo (i) definido por uma solidariedade específica,
(ii) envolvido num conflito com um adversário pela apropriação e o controlo dos
recursos valorizados por ambos (iii) e cuja ação implica uma rutura com os
limites de compatibilidade do sistema em que a ação tem lugar”.
A solidariedade evocada por Melucci só pode ser atingida pela constituição de
uma identidade coletiva coesa que exige negociações constantes entre os seus
membros. Para Touraine, a identidade coletiva também necessitava de ser
(re)construída. Este processo, no movimento operário, traduzia-se em
negociações frequentes entre as suas faces ofensiva e defensiva (Wieviorka,
2003). Melucci (1996) enuncia igualmente a presença de dois atores envolvidos
num conflito pela apropriação e controlo dos recursos e de uma rutura com o
sistema de ação que podem ser comparados aos princípios de oposição e de
totalidade de Touraine. Mas, enquanto para o último autor, o conflito tinha de
se situar ao nível da historicidade, para Melucci este tem de produzir-se num
dos sistemas que enformam a estrutura social. Os movimentos sociais distinguem-
se por erigirem conflitos e tentarem romper com os limites da compatibilidade
nos diferentes sistemas societais.
Embora a conceção de movimento social seja um dos elementos centrais na análise
de Melucci (1985), este autor afirma que relativamente às mobilizações pela paz
e contra a energia nuclear dos anos de 1980 talvez seja mais adequado falar em
“áreas de movimentos” ou em “redes de movimentos”. O autor prefere utilizar o
termo mobilizações pela paz e não movimentos pacifistas, porque considera que
aquelas são ações que emergem apenas de forma episódica e sobre temas muito
específicos, em que participam grupos identitários diversos que tornam difícil
estabelecer a sua unidade. O autor prefere ainda falar de “áreas de movimentos”
devido aos seguintes atributos: o âmbito global das causas e a realização na
esfera individual através das experiências coletivas; o fenómeno da
multiparticipação, portanto, a possibilidade de os ativistas abraçarem
simultaneamente mais do que uma causa; e o seu envolvimento de curta duração ou
parcial.
Como veremos adiante, algumas das características anunciadas por Melucci como
sendo apanágio dos grupos dos anos 80 serão, décadas mais tarde, com o
despontar dos movimentos alterglobalização ou dos movimentos pela justiça
global, igualmente apresentadas como “novos” atributos no âmbito do estudo dos
movimentos sociais (Pleyers, 2010; McDonald, 2004, 2006).
Eixos de convergência e divergência nas abordagens dos movimentos sociais
A partir dos anos de 1980 inicia-se um período de reflexão sobre os eixos de
análise convergentes e divergentes nas abordagens norte-americana e europeia. A
primeira é destacada pela análise dos fatores que explicam como ocorrem os
fenómenos de mobilização coletiva (Diani, 1992, Mayer, 1995), designada
paradigma da estratégia (Cohen, 1985) ou macroestrutural materialista(Jasper,
2012). A segunda identificada por observar o porquê dos fenómenos de ação
coletiva (Diani, 1992, Mayer, 1995), o paradigma da identidade (Cohen, 1985) ou
macroestrutural culturalista(Jasper, 2012).
Quer a TMR, quer a TPP foram categorizadas como análises estruturais
concentradas em contemplar o contexto organizacional (no caso da TMR) e
político institucional (no caso da TPP) em que se desencadeiam a ação política
contenciosa e os movimentos sociais. Segundo Jasper (2012), tanto a TMR como a
TPP concebem os atores como indivíduos dotados de racionalidade e capazes de
fazer escolhas estratégicas, mas negligenciam os aspetos subjetivos conducentes
ao seu envolvimento nos movimentos sociais: “… esta abordagem teórica ignorava
as escolhas, os desejos e os pontos de vista dos atores: os potenciais
participantes estavam somente à espera de uma oportunidade para poderem agir”.
Uma das principais críticas é construída em torno do conceito de estrutura de
oportunidade política e de as suas diferentes dimensões pretenderem explicar os
fatores facilitadores na construção de movimentos sociais, descurando as
capacidades individuais e coletivas dos atores para construírem as
oportunidades que podem desencadear a sua formação. Ainda segundo Jasper
(2012), esta abordagem estrutural não permitiu aos teóricos da TPP desenvolver
uma análise sobre a importância dos processos de formação identitários na
edificação dos movimentos sociais nem sobre os cenários temáticos culturais
introduzidos pelos atores coletivos das décadas de 1960 e de 1970.
No entanto, os teóricos da TPP reconheceram algumas das críticas que lhes foram
dirigidas. McAdam (1996) admitiu que o conceito de estrutura de oportunidade
política foi utilizado de forma muito abrangente como variável que permite
explicar em contextos nacionais muito diferentes as condições em que se formam
a ação coletiva contenciosa e os movimentos sociais. Este autor socorre-se
ainda das críticas formuladas por Gamson e Meyer (1996) quando defendem que a
excessiva plasticidade do conceito pode dificultar a sua exequibilidade: “… o
conceito de oportunidade política enfrenta problemas, corre o risco de se
tornar uma esponja que absorve virtualmente todos os aspetos do ambiente dos
movimentos sociais — instituições políticas e cultura, crises de vários tipos,
alianças e mudanças políticas —, utilizado para analisar demasiado, em última
análise, pode nada explicar”.
Outro tema que sofreu reiteradas críticas no seio da TPP foi o de inicialmente
não associar o conceito de identidade ao estudo dos movimentos sociais. Segundo
McDonald (2002, 2006), nos anos 90, o aumento da visibilidade na esfera pública
da defesa dos temas culturais influenciou o interesse da TPP em estudar as
questões da identidade. McDonald (2006: 26-27) acrescenta que a pertinência de
explorar os temas da identidade decorre de transformações políticas nos EUA “…
onde, num contexto de crescente pluralismo cultural, as mobilizações políticas
possuem cada vez mais o objetivo de criar o estatuto de minorias, usando
efetivamente a ”identidade" como recurso político…". McDonald (2006:
26) tece ainda críticas ao modo como os teóricos da TPP conceptualizaram a
identidade: “como mais um recurso disponível para ser mobilizado” (no caso de
Tilly), como “um fator que reduz os custos da mobilização ou organização” (em
Tarrow) ou “um meio através do qual os movimentos politizam os seus membros
(Taylor e Whittier)”.
Comparativamente com as análises europeias sobre os “novos” movimentos sociais,
a esfera de influência da TPP sobre o pensamento de diferentes autores foi
sempre mais alargada, assim como as críticas que lhe foram dirigidas mais
contundentes.
As reflexões europeias sobre os “novos” movimentos sociais são criticadas pela
excessiva ênfase na novidade conceptual destes atores coletivos: “Os movimentos
[…] não eram inteiramente novos, especialmente nas suas táticas, nem estavam
necessariamente mais orientados para o sentido cultural que o movimento
laboral, especialmente nos seus começos” (Jasper, 2012: 22). Como observámos,
também Melucci (1996), um dos autores mais reconhecidos no âmbito dos “novos”
movimentos, acabou por abandonar a designação por considerar que nem sempre os
debates surgidos à sua volta eram profícuos e mais importante do que refletir
sobre o que era novo no surgimento de cada movimento social, era tentar
enquadrá-lo de acordo com o contexto da sua época.
Por outro lado, segundo Jasper (2012), Touraine reservou para os movimentos da
sociedade pós-industrial o mesmo papel central ao nível da historicidadeoutrora
atribuído ao “velho” movimento social da sociedade industrial e, em última
instância, o mesmo conceito de movimento social. Para Jasper (2012), quando
Touraine tentou operacionalizar esta hipótese, os ativistas dos “novos”
movimentos sociais das décadas de 1960 e de 1970 rejeitaram-na e não se
identificaram com a ideia de transportarem uma identidade coletiva congruente e
de um contraprojeto comum que teria como finalidade estabelecer um conflito com
os tecnocratas da sociedade programada, assumindo antes que cada um deles
possuía o seu programa específico.
Mas, sendo as teorias norte-americanas e europeias aparentemente antagónicas
nas suas abordagens, em que dimensões de análise poderão convergir?
Para os autores abordados, os movimentos sociais são observados como um tipo de
ação coletiva peculiar. Iniciam-se fora da esfera política institucional e
transportam um conflito entre pelo menos dois opositores (Diani, 1992).
Todavia, a noção de conflito é interpretada em diferentes sentidos: para
Touraine o conflito tem de se situar ao nível da historicidade, ou seja, não só
tem de pôr em causa os modelos normativos sociais e culturais vigentes como tem
de guiar a sua transformação; no caso de Melucci, o conflito tem de pôr em
causa e combater o sistema de dominação (Diani, 1992); no que respeita à TPP,
envolve claramente um conflito entre os indivíduos que formam uma comunidade
(lado não institucional) e as instituições que a governam (lado institucional).
Na definição de movimento social da TMR não existe declaradamente a referência
a um conflito, manifesta-se antes o desejo de mudança nalguns elementos da
estrutura social. Esta ideia de que os movimentos sociais apelam sempre a
mudanças nas sociedades está ainda presente nas reflexões de outros autores
convocados na nossa análise: em Touraine corresponde a transformações nos
modelos sociais e culturais, em Melucci a ruturas nos sistemas de dominação e
na TPP a mudanças no sentido das formas de governação. A conceção de movimento
social como envolvendo duas partes antagónicas implica, em Touraine e em
Melucci, a constituição de uma identidade coletiva coesa e homogénea e que, de
acordo com o último autor, origina a solidariedade. Na TPP, à qual foram
dirigidas críticas pela parca importância atribuída inicialmente ao tema da
identidade, o facto de se declarar que os movimentos sociais combinam uma série
de estratégias para atingir os seus objetivos onde figuram “sucessivas
demonstrações públicas de respeitabilidade, unidade, número e compromisso”,
convoca um reconhecimento da importância de uma convergência sustentada dos
envolvidos nas ações dos movimentos sociais. Para a TMR (McCarthy e Zald,
1977), um movimento social pressupõe a existência de “um conjunto de opiniões e
crenças comuns a uma população”, ou seja, a partilha de um quadro mental comum
é também uma das condições necessárias à sua formação.
Como sugere Diani (1992), embora as perspetivas teóricas invoquem diferentes
fatores na explicação do desenvolvimento dos movimentos sociais, é possível
apreender elementos confluentes na construção analítica da noção de movimento
social.
O conceito de movimento social em mutação?
Após a consagração dos modelos teóricos explanados anteriormente e dos
processos de análise críticos que estão sempre associados à consolidação de
qualquer paradigma, em décadas mais recentes o estudo dos movimentos sociais e
da ação coletiva volta a ser estimulado por um conjunto de debates sobre os
chamados movimentos alterglobalização.
O objetivo principal destas reflexões não é o de analisar os fatores
macroestruturais que explicam o surgimento dos protestos mas evidenciar o
estudo das “microfundamentações da ação política e social” (Jasper, 2012). O
seu propósito não é tanto perspetivar os movimentos sociais como os principais
atores da transformação social e cultural ou como as mudanças nos sistemas
políticos institucionais os influenciam, ou ainda distinguir o “movimento
social” de outras formas de protesto, mas sobretudo sublinhar a importância da
afirmação da subjetividade identitária e da expressão da identidade individual
(McDonald, 2004, 2006), das redes ou dos compromissos individualizados
(Pleyers, 2010)ou das emoções no desenvolvimento da ação coletiva contemporânea
(Goodwin, Jasper e Poletta, 2000), características que, quando enfatizadas no
estudo dos movimentos sociais, parecem ser contraditórias com o atributo de
“coletivo” que normalmente lhes está associado.
A discussão do conceito de “movimento social” e da sua singularidade face a
outros modos de ação coletiva tem vindo a perder a centralidade outrora tida
nos paradigmas das décadas de 1960 e de 1970, ou seja, a preocupação atual dos
investigadores não é tanto definir o que é um movimento social ou os fatores
que levam à sua formação mas refletir sobre as principais tendências das formas
de ação coletiva contemporâneas. Autores como McDonald (2004) afirmam, mas sem
avançar com uma proposta teórica, que para designarmos os conflitos atuais se
deve substituir o termo movimento social por experiência no movimento, aludindo
ao papel crucial que considera que a identidade individual possui na construção
dos protestos. No entanto, a sua proposta de passagem do conceito de movimento
social a experiência no movimento permanece ambígua e não chega a ser
concretizada de acordo um modelo de análise ou da enunciação de um conjunto de
condições que permitam a transformação do conceito. Aliás, o autor quando se
refere a experiência no movimento não renuncia inteiramente ao conceito de
movimento social, apenas enfatiza o papel da identidade individual como se cada
um no movimento, mais do que estar preocupado em viver uma experiência
coletiva, estivesse a interagir com os seus pares para vivenciar algo
individual e realizar-se mais em termos pessoais do que coletivos.
Embora se tenham produzido críticas categóricas face aos paradigmas dos anos de
1960 e de 1970, sobretudo direcionadas para a TMR e para a TPP, estes continuam
a delinear os rumos das discussões atuais e a contribuir para a construção dos
alicerces dos debates através da recuperação de alguns elementos que os autores
contemporâneos consideram ser vitais para as suas análises. McDonald (2006) e
Pleyers (2010) constroem as suas reflexões sobre os movimentos
alterglobalização na esteira de Touraine (Jasper, 2012; McDonald, 2006).
McDonald (2006) afirma recuperar o conceito de identidade de Touraine como um
campo de tensões, para defender que nos conflitos em torno da globalização é
necessária uma mudança paradigmática que substitua os termos de solidariedade e
identidade coletiva pelos de fluideze experiência pública do self.No seu estudo
sobre os grupos de ação direta juvenis, o autor sugere que estes se formam em
torno de ligações de amizade e de horizontalidade que se aproximam da
constituição de laços em rede e fluidos e se afastam das relações verticais e
burocratizadas avançadas pelo “velho movimento social” ou, ainda nos dias de
hoje, pelas organizações sindicais. Os participantes envolvem-se nos “grupos de
afinidade” com objetivos de contestação de curta duração que, na maioria das
vezes, findam assim que terminam os protestos, mas que, estando baseados em
relações afetivas, são reativados sempre que necessário. Nestes grupos é
rejeitada a nomeação de líderes e de propostas comuns a todos os membros do
grupo e, para McDonald (2004), o que é valorizado não são “as experiências do
nós mas do eu com o outro”.
Também para Pleyers (2010), as iniciativas alterglobalização apoiam-se na
criação de redes e de compromissos individualizados. O autor divide as
“identidades” do movimento em “racionais”, as que se estabelecem em torno das
organizações que desempenham o papel de peritagem técnica e crítica sobre o
funcionamento das instituições políticas e económicas internacionais, e os
atores que escolhem a via da subjetividade e da criatividade e que se orientam
pelos princípios definidos por McDonald (2006). Segundo Pleyers (2010), estes
são ativistas da experiência e do sentir onde os objetivos do protesto não
passam tanto pela dimensão política mas mais pela cultural e individual, ou
seja, a sua finalidade é criar espaços de vida que consigam opor-se à dominação
económica e cultural do modelo de globalização neoliberal.
Jasper (1998) desenvolve um campo de pesquisa tendo em atenção a importância
das emoções no estudo dos movimentos sociais. Este autor afirma que a
importância do lado emocional e menos racional dos atores foi negligenciada no
estudo dos movimentos sociais e tenta demonstrar como os fatores subjetivos
podem influenciar o seu percurso, ajudar a compreender as suas dinâmicas
internas e como as ligações afetivas que se vão gerando entre ativistas que
partilham o mesmo grupo e/ou ideário afetam o percurso do grupo. O autor
defende que a pesquisa sobre a influência da vertente emocional nos movimentos
sociais deve incidir sobre diferentes dimensões: desde a estrutura de
oportunidade política à formação de identidades até à compreensão dos processos
através dos quais as emoções dos ativistas podem transformar os movimentos
sociais.
Estes autores evidenciam como a pesquisa sobre os grupos de protesto,
mobilizações coletivas e movimentos sociais se tem concentrado mais do que no
passado sobre as dinâmicas e os processos microssociais que os enformam,
acentuando a importância de fatores que pareciam lograr a abordagem científica
destes fenómenos. Mas, se a importância de determinados temas se tem acentuado
no estudo dos movimentos sociais, perspetivá-los como atributos inteiramente
“novos” e apenas reconhecíveis nas formas de ação coletiva contemporâneas,
poderá ser uma abordagem excessivamente entusiástica de tentar trazer para as
discussões de cada “novo” ciclo de protesto a novidade conceptual já encontrada
em protagonistas de outros cenários conflituais. Esta é uma discussão que
perdura, desde os anos de 1960, nas pesquisas sobre os movimentos sociais: o
que é “novo” e “velho” nos movimentos sociais ou, mais recentemente, o que é
“novíssimo” (Feixa, Pereira e Juris, 2009).
Muitas das características dos protestos atuais eram já anunciadas como
apanágio dos “novos” movimentos sociais. Por exemplo, a presença da
heterogeneidade das identidades, a tendência para a constituição de grupos
adeptos das formas de democracia participativa que funcionam de forma
assembleária, onde existe uma tendência para a não nomeação de líderes e para
processos de decisão por consenso, eram já atributos perspetivados como “novos”
nos atores coletivos dos anos de 1960 e de 1970 (Cohen, 1985). Offe (1985)
analisou-os como o ‘’novo paradigma de ação política" por contraposição ao
“velho” tipificado nas organizações sindicais e nos grupos corporativistas: o
primeiro é baseado na “informalidade, espontaneidade e no baixo grau de
diferenciação vertical”, e o segundo manifesta-se através da “organização
formal e de associações representativas de larga escala” (Offe citado por
Plotke, 1995: 117).
Ainda que as reflexões dos anos de 1960 e de 1970 se concentrassem na
influência das transformações estruturais e de larga escala nos movimentos
sociais, a referência de autores como Touraine, Habermas e Melucci aos “novos”
movimentos sociais como atores que incluem as preocupações com a esfera
privada, íntima e individual parecia antever os contornos das reflexões dos
autores contemporâneos. Determinadas características atribuídas aos grupos de
protesto atuais podem não ser inteiramente novas, mas também é inegável que,
nos últimos 40 anos, as sociedades atravessaram mudanças sociais, políticas,
económicas e culturais que poderão ter contribuído para as tornar cada vez mais
como marcos de análise fundamentais no estudo dos movimentos sociais. Com o
consolidar da sociedade de informação e em rede, do papel das tecnologias de
informação e comunicação (TIC) na transformação de todas as dimensões da vida
em sociedade e também dos movimentos sociais (Castells, 1999), características
como a cultura das redes, da fluidez e da horizontalidade poderão estar cada
vez mais a influir nas dinâmicas de constituição e funcionamento dos movimentos
sociais.
Notas conclusivas
Ao longo das últimas décadas, o estudo dos movimentos sociais foi atravessado
por diferentes debates que permitiram pensar os movimentos sociais, os grupos
de protesto de ativistas e as mobilizações sociais e políticas dos cidadãos a
partir de diferentes ângulos. Do lado das teorias norte-americanas, num sentido
mais racionalista e organizacional, a TMR destacou os fatores da mobilização de
recursos e o papel das organizações como fundamentais no desenvolvimento dos
movimentos sociais. Tendo sido criticada por propagar uma visão excessivamente
racional dos fenómenos da ação coletiva, demonstrou que não é possível pensar a
ação dos movimentos sociais ou até de uma manifestação, por mais espontânea que
pareça, sem a ativação de determinados meios. Sem dúvida que nas sociedades
atuais a mobilização dos recursos disponíveis pode assumir outros contornos,
nomeadamente com a possibilidade de acesso às TIC e aos social media.
Ainda do lado norte-americano, a TPP demonstrou como os sistemas políticos
podem influenciar a forma como emergem os movimentos sociais, assim como os
percursos que trilham numa determinada sociedade. Embora o conceito de
estrutura de oportunidade política tenha sido alvo de diversos argumentos
desfavoráveis e o seu modelo analítico continue a ser criticado (McDonald,
2006), num contexto de erosão dos poderes políticos e económicos dos estados-
nação, a sua exequibilidade conceptual poderia ainda ser mais facilmente posta
em causa. Mas num exercício de reflexão oposto, se pensarmos sobre o estado
atual de um contexto político e económico regional — o Sul da Europa — não
continuará a ser útil convocar o conceito de estrutura de oportunidade política
para explicar as diferentes dinâmicas de protesto que emergem nos diferentes
contextos nacionais? E se observarmos as mobilizações que têm surgido na
sociedade portuguesa, o conceito de estrutura de oportunidade política não
auxiliará na compreensão da emergência de novos grupos de protesto e de níveis
de mobilização difíceis de verificar em tempos anteriores?
Do ponto de vista dos teóricos dos novos movimentos sociais, apesar de todas as
controvérsias, a utilidade em diferenciar os “novos” e os “velhos” de
diferentes épocas a partir de uma abordagem cultural e de compreender como os
movimentos sociais estão carregados não só de dimensões estratégicas e
racionais mas também de valores culturais. Estas perspetivas demonstraram ainda
a relevância de diferentes temáticas: desde a análise dos processos de
construção da identidade colectiva, de como as questões da sua formação afectam
as continuidades e descontinuidades dos movimentos sociais, (Melucci, 1996) até
à introdução das matérias do foro privado e íntimo como sendo importantes no
estudo dos ‘novos’ repertórios de ação (Offe, 1985; Habermas, 1986; Melucci,
1996).
Comum a quase todas estas abordagens foi a importância e a centralidade
atribuída ao conceito de movimento social. Como vimos anteriormente, apesar de
todas as diferenças, foi possível encontrar pontos de análise convergentes
entre as diferentes conceções: a presença da noção de conflito, a existência de
duas partes que se opõem, de uma identidade partilhada e de uma ação que exige
uma certa continuidade e coesão num determinado momento e que vai além do
significado de um protesto ou de uma manifestação. Todavia, se a necessidade de
clarificação do conceito de movimento social era uma preocupação dos diferentes
autores dos anos de 1960 e de 1970, atualmente parece não se constituir como
uma discussão central nos debates sobre os movimentos sociais. Ainda que
autores como McDonald (2006) afirmem que para se compreender os conflitos na
globalização é necessário substituir o termo movimento social por experiência
no movimento, a sua conceção de movimento social define-se mais pela exclusão
daquilo que não é do que pela afirmação daquilo que o compõe. Também para
autores como Pleyers (2010) ou Jasper (1998), a definição de “movimento social”
não se constituiu como um elemento central das suas análises, que se debruçam
sobretudo nos aspetos e nas características que se têm vindo a acentuar nos
protestos e mobilizações contemporâneas. A tendência de algumas linhas de
pensamento é a de examinar as dinâmicas internas de funcionamento e organização
dos grupos de protesto e/ou procurar explicar as “microfundamentações da ação
social e política” (Jasper, 2012), apropriando-se muitas vezes de contributos
já existentes, mas não muito explorados, e não tanto a de propor novos
conceitos para abordar as realidades atuais das formas de protesto. Estas têm
sido qualificadas cada vez mais como redes fluidas, horizontais e
descentralizadas onde a defesa da subjetividade identitária é muito importante
para o envolvimento dos indivíduos. São estas particularidades que
hipoteticamente poderão tornar menos necessária e difícil de estabelecer a
unidade empírica a que nos habituámos ser essencial na definição de movimento
social. Estará assim a noção de movimento social a atravessar um processo de
transformação ou de erosão?