Novos elementos para uma análise das dinâmicas de sala de aula do secundário
Considerações iniciais
A pesquisa de terreno em sala de aula encerra inúmeros desafios sociológicos,
desde logo pela aparente delimitação da ação dos agentes envolvidos. A
desmontagem dos elementos presentes na ação quotidiana de uma turma a
acontecer resgata, se seriamente analisada, processos do todo social, nem
sempre fáceis de identificar. Estudar a escola numa sociedade em rede cada vez
mais complexa (Castells, 2002), onde práticas e relações sociais se
reconfiguram a um ritmo cada vez mais intenso, torna-se tão desafiante quanto
arriscado. Neste sentido, e no que diz respeito à pesquisa de terreno feita em
sala de aula, os aspetos cognitivos constituem uma dimensão importante com
potencial heurístico crescente. Todavia, não deverão ser esquecidos elementos
próprios de um ethos emergente quando, precisamente, as atitudes face à
disciplina em sala de aula, ou a determinadas regras escolares são postas à
prova por via da presença inesperada no imediato e enquanto recurso sempre
alcançável das novas TIC. Fenómenos ilustrativos disto mesmo são o uso do
telemóvel na sala de aula e os desafios crescentes para o controlo do plágio,
no âmbito dos trabalhos escolares.
A sala de aula não é apenas um espaço de aprendizagem de conteúdos escolares. É
também um espaço de socialização de normas e regras, e ainda um meio de
comunicação e interação com processos menos explícitos de negociação; no fundo,
um jogo de forças de atores. Como tal, a pesquisa no terreno constitui uma
estratégia analítica adequada para atingir mecanismos sociais que, de outra
forma, seria impossível contemplar.
No meio disto tudo, um saldo agencial e comunicacional, certamente influenciado
por novos automatismos incorporados, derivados das novas práticas. O ritmo cada
vez mais frenético, assim como uma saturação de estímulos e solicitações da
atenção SMS, telefonemas, ecrãs de todo o tipo omnipresentes a debitarem
informação, etc. fazem desta uma condição da interação cuja gestão pessoal se
torna, porventura, desafiante no mundo contemporâneo. Assim, o potencial das
dinâmicas de atenção, no quadro da interação em sala de aula, deverá ser
explorado enquanto indicador privilegiado, a par de outros, como se verá.
A escola e o impacto das TIC
Algumas das mudanças mais visíveis no espaço escolar nos últimos anos resultam,
em boa parte, da modernização tecnológica levada a cabo com o objetivo de
inscrever a escola portuguesa na sociedade da informação.[1] As iniciativas têm
incluído a formação de docentes, a crescente implantação de computadores em
salas de aula ou outras e, mais recentemente, a instalação de quadros
interativos como meios de auxílio ao ensino de determinadas disciplinas.
As novas relações entre produção e disseminação de conteúdos, tornadas
possíveis através de uma variedade crescente de meios tecnológicos, reformulam
como é evidente na nova cultura de partilha e apropriação ilegítima as
condições de audiência e autoria. O seu verdadeiro impacto na vida escolar,
ainda está por desvendar, em larga medida. O acesso, virtualmente infinito (nem
sempre fidedigno), à informação tem também tido efeitos no espaço escolar,
nomeadamente através de uma cultura emergente de plágio, por parte dos alunos,
com vista à produção e rendimento escolares. Em Portugal, estudos como o de
Ponte e outros (2009), relatam o facto de crianças e jovens utilizarem cada vez
mais a internet para fazerem os trabalhos escolares, mais com o objetivo de
plagiar e não tanto de levar a cabo uma pesquisa cuidada e potenciadora de
aprendizagem.
Ao mesmo tempo que todas estas mudanças se foram implementando, um outro
objeto, dir-se-ia quase sub-repticiamente, instalou-se no quotidiano de
professores e alunos. Se ao início foi sendo aceite sem grandes oposições, o
telemóvel acabou por se tornar um elemento proibido pelo menos em regra nas
salas de aula.[2]
Recorde-se o mediático episódio da aluna que, em março de 2008, em plena aula,
se envolvera numa acesa discussão com a professora, tentando recuperar o
telemóvel que esta lhe havia retirado. Um vídeo gravado por um colega dessa
mesma aluna começou, rapidamente, a circular nas redes sociais. Para além do
que possa ser questionado em termos do embate entre aluno e autoridade
pedagógica, as mútiplas interrogações deste e outros fenómenos, convidam à
desmontagem de elementos disposições, circunstâncias, idiossincrasias que
estão igualmente presentes e que influenciam o curso da ação na sala de aula.
Urge analisar com mais cuidado o lugar das novas TIC no quotidiano escolar e
nos demais contextos que preenchem as vidas dos jovens com acesso privilegiado
a este tipo de tecnologias. É igualmente pertinente perceber quais os quadros
disposicionais e as dinâmicas subjacentes ativadas pelos usos em rede, numa
juventude para quem continua a ser urgente a construção da sua própria
identidade, pessoal e coletiva. Uma demanda feita de práticas que não se
limitam à casa ou à rua.
Apresenta-se, assim, em dois contextos distintos, um elo de ligação em termos
de ação (telemóvel), que representa, porventura, bem mais do que o simples
objeto em si. É importante analisar as práticas e os automatismos incorporados
que lhes sucedem (e as reproduzem), com efeitos na interação, dentro e fora da
sala de aula.
Inflexão da atenção no quotidiano juvenil: influências de fundo
O elemento mais desafiador da atenção, no quotidiano juvenil, até mesmo fora da
sala de aula, é o telemóvel. Este objeto desempenha um papel fundamental na
cultura juvenil. Os usos pessoais confundem-se com as inúmeras subculturas
específicas e que, provavelmente, variam de sociedade para sociedade (Castells
e outros, 2009: 185). Em Portugal, o estudo desta questão começa a aprofundar
aspetos pertinentes das formas de utilização deste veículo cultural, alvo de
usos distintivos e ajustamentos personalizados. Cardoso, Espanha e Lapa (2009)
descrevem alguns hábitos comunicacionais de jovens entre os 16 e os 18 anos;
designadamente a preferência pelas mensagens SMS em detrimento das chamadas
telefónicas. São descritos, ainda, aspetos como a importância da componente
afetiva nesses mesmos hábitos (Cardoso, Espanha e Lapa, 2009: 100-101).
Uma característica importante, possibilitada pelo telemóvel é o facto de ser
possível estar-se disponível e contactável de forma perpétua (Stald, 2008:
151). Neste sentido, a comunicação móvel é diferente das outras formas de
comunicação (Ling, 2008: 3). Estudos como o de Stald (2008), debruçando-se
especificamente sobre a relação dos jovens com a comunicação móvel e contando
com o testemunho de entrevistados para o efeito relatam o stresse que ocorre
quando o telemóvel não está disponível e, mais frequentemente, o cuidado
extremo para não se perder uma qualquer mensagem ou chamada telefónica (Stald,
2008: 151-153). Existe uma espécie de lealdade de contacto e o medo de não se
cumprirem, de forma urgente, as promessas feitas aos amigos que estão
permanentemente contactáveis (ibid.: 153).
Numa sociedade onde a concorrência de estímulos facilitada por uma diversidade
crescente de tecnologias é significativa, a questão da atenção constitui um
elemento importante para se analisarem as práticas e as dinâmicas de ação.
Apesar das imensas novas potencialidades e oportunidades que as novas
tecnologias têm vindo a proporcionar, o espetro da atenção é limitado em termos
do seu alcance, tornando-se vulnerável a lógicas concorrentes e verificando-se,
frequentemente, inflexões nas dinâmicas comunicacionais e normativas. De facto,
a introdução da comunicação móvel em praticamente todos os momentos da vida
quotidiana redefiniu as noções de tempo e espaço na gestão das agendas pessoais
de cada um, arrastando consigo os timings inerentes à conduta e apetrechos de
cortesia próprios da interação outro aspeto que acaba por ficar vulnerável às
transformações emergentes.
Autores como Ling (2008) chamam a atenção para o facto de o telemóvel
interromper o fluxo normal de interação em copresença. Muitos adolescentes
estão constantemente a ser interrompidos nas suas situações privadas e em
espaços públicos (Stald, 2008: 153). A interrupção abrange conversas com amigos
ou família, tomando o telemóvel, quase sempre, a precedência na ação.
Revisitação de propostas metodológicas
Vale a pena revisitar, para já, boa parte da tradição teórico-metodológica que
tem pautado todo o género de investigações em torno da pesquisa em sala de
aula. A longa tradição americana de pesquisa de terreno em contextos
institucionais fez-se sentir igualmente na escola, com vários estudos que
influenciaram a pesquisa de terreno na sala de aula (Jackson, 1968; Eggleston,
1977). No panorama português, Gomes (2009) evidencia as dinâmicas de poder e,
também, as estratégias associadas a cada uma das partes envolvidas na relação
pedagógica. Os trabalhos de Lopes (1996) e Abrantes (2003) são, igualmente,
exemplos de incursões no terreno escolar com marca na investigação sociológica
portuguesa.
Biddle sintetiza, num texto de 1967, diferentes abordagens possíveis no âmbito
da observação não participante. Alguns anos mais tarde, Delamont (1987) propõe
uma sistematização de estratégias analíticas, onde acaba por sugerir uma
abordagem próxima do interacionismo simbólico. Nas últimas décadas, Perrenoud
(2002) centra-se no trabalho escolar enquanto veículo de análise, articulando
estratégias e considerando o currículo como elemento heurístico e potenciador
do desempenho escolar.
Uma das técnicas que ganharam algum protagonismo nos Estados Unidos, durante os
anos 50 e 60 (ainda com ecos na atualidade), foi a observação sistemática
metódica. Visava contabilizar e ordenar a ocorrência de determinados fenómenos
na sala de aula, através de uma observação continuada e sistematizada. Trata-
se, na prática, de uma padronização das unidades de análise contabilizada ao
longo do tempo estabelecido de observação.
Entre as múltiplas abordagens, mais ou menos rígidas em termos de
sistematicidade da observação, interessa reter que as categorias podem ser
aplicadas a unidades de tempo arbitrárias, episódios selecionados e sequências
de eventos. Para Biddle, a dimensão dos eventos na sala de aula não deve
preocupar o observador; este é livre de escolher os atos, as sequências dos
atos, horas de aula inteiras ou mesmo um semestre inteiro para a sua unidade de
análise (1967: 341). Mas como tratar a unidade de análise em termos do seu
conteúdo? Que elementos sinalizar?
Biddle sublinha três tipos possíveis de observação: as caraterísticas objetivas
da ação; as intenções; e os efeitos (1967: 345). Numa linha semelhante, no que
toca às caraterísticas ou condições da ação, Pinto lembra os recursos que a
escola oferece: espaço físico, organizacional, relacional e de comunicação
(2007: 164). No caso das intenções é preciso especial cuidado para resistir às
tentações de juízos falsos ou enviesados. Existe ainda o risco de se substituir
a realidade observada por uma linguagem sintética, havendo necessidade de se
ponderar a questão. O desafio consiste em ir ao encontro da realidade sem se
comprometerem as linhas teóricas e metodológicas previamente trabalhadas.
Os processos observados podem ser de cariz individual ou grupal, sendo
essencial discernir os mesmos de acordo com a pertinência do acontecimento.
Saber quem diz o quê e a quem, com que intenção e com que efeitos torna-se
igualmente pertinente (Perrenoud, 2002: 47). Os comportamentos grupais ou de
equipa (Goffman, 1993) permitem aferir a posição de determinados alunos em
relação ao grupo (turma), levando a que, por exemplo, mobilizem maior apoio.
Transversais a estes processos, as lógicas de comunicação entre professor e
alunos (Watzlawick apud Perrenoud, 2002: 173) podem ser antagónicas ou
concordantes, implícitas ou manifestas, e exprimem a intenção dos atores
envolvidos. Igualmente transversais são os fenómenos paralinguísticos: a
postura, as maneiras, os gestos, a expressão facial; etc. (Goffman, 1993;
Bourdieu, 2002; Delamont, 1987; Elias, 1995; Pinto, 2007).
As dinâmicas e práticas internas da sala de aula podem incluir a estrutura
comunicacional, com ou sem recurso à linguística; a estrutura ecológica:
proximidade dos corpos, propriedades físicas dos participantes, disposição dos
objetos; os tipos de ação (por exemplo, avaliação, planeamento, negociação,
discussão, trabalho de grupo, atos de aprendizagem em geral, etc.); e também os
papéis enquanto padrões estáveis de comportamento, tipos de liderança, papéis
informais, entre outros (Biddle, 1967; Goffman, 1993). Atente-se às funções
específicas do trabalho escolar, enquanto veículo precioso de boa parte destes
processos presentes (Perrenoud, 2002).
É possível estabelecer uma divisão entre categorias de trabalho, ao nível do
seu conteúdo, e categorias expressivas ou de desempenho dramatúrgico. Importa
ter presente que a interação em sala de aula é, em parte, cognitiva (Delamont,
1987: 132), mas que os contributos tangenciais ao trabalho escolar, no presente
estudo, tornam-se absolutamente centrais. Podem ser aferidos elementos
cognitivos, da parte dos alunos que, por exemplo, deem pistas para esquemas de
pensamento relacionados com o impacto das novas TIC na aprendizagem, mas a
fronteira entre os processos cognitivos e o desempenho pode ser por vezes
ténue. Veja-se o caso do utilitarismo (Perrenoud, 2002) praticado por alguns
alunos que, tendo consciência das respostas e ações que agradam ao professor,
operam determinadas atitudes mascaradas de conteúdo cognitivo, aparentando
não haver instrumentalização alguma.
Um eixo organizador comum a quase todas as investigações feitas em torno da
sala de aula contempla as estratégias do professor e as estratégias dos alunos
(Delamont, 1987: 128). Igualmente relevante é a estrutura imposta
institucionalmente: as regras e normas definidas pelo Ministério da Educação,
as temporalidades, o currículo, o regime de faltas e sanções, a avaliação, etc.
A propósito dos timings e ritmos escolares, refira-se os três períodos de aulas
num calendário letivo determinado, avaliações, exames e testes todos estes
influenciam o comportamento em sala de aula (Burgess, 2001). Importa salientar
o enorme contraste desses tempos escolares com muitos dos ritmos e
temporalidades externos.
Um elemento de análise fundamental e incontornável reside no modelo pedagógico
e nos padrões de disciplina (Gibson apud Delamont, 1987: 84). Estes conjugam
elementos formais externos com elementos definidos circunstancialmente pelo
professor, não sendo necessariamente e, diga-se, na maior parte das vezes
padronizados e rígidos na sua aplicação. Existe aqui uma ligação forte com os
processos de aprendizagem presentes na comunicação pedagógica. As estratégias
seguidas no modelo pedagógico incidem não só no controlo que o professor possa
vir a ter da turma como também dizem respeito a técnicas que potenciem a
concentração dos alunos.
As contingências e as normas conjugam-se na sala de aula de forma mais ou menos
concordante. Note-se a especial relevância da análise de imprevistos,
contingências, eventuais disfunções ou focos de anomia que se possam fazer
sentir na relação pedagógica. A disfunção, enquanto perturbação de nível
estrutural, permite uma aproximação analítica ao estudo da dinâmica e da
mudança, tal como sugerido na tradição mertoniana. As disfuncionalidades e
condutas divergentes têm as suas normas próprias e muitas vezes processos de
sentido latente (Merton, 1970: 120, 237).
Ainda assim, para se analisar a interação na sala de aula seria insuficiente
destacar somente uma perspetiva estrutural ou sistémica, pelo que se torna
desejável recorrer, igualmente, à perspetiva dramatúrgica. Na linha de Goffman
(1993), interessa, sobretudo, o desempenho dos atores, com todos os
posicionamentos convencionados e estratégias próprias da interação com
diferentes papéis. É nesta linha que se destacam os processos de negociação.
A negociação entre professor e aluno(s) tem sido tema de análise já com alguma
tradição no âmbito da sociologia da sala de aula (Perrenoud, 2002; Eggleston,
1977; entre outros). Testa-se, entre outras coisas, a eficácia da autoridade do
professor num saldo entre padrões de disciplina e comportamentos e práticas dos
alunos. Durkheim (2001) destacou esse aspeto, com base numa aprendizagem moral
como fator central da questão educativa e, desde então, a problemática da
disciplina tem sido tratada em numerosas investigações. Em Portugal, Gomes
refere a adaptação situacional de alunos e professores às circunstâncias do
momento, que passam, inevitavelmente, pela disciplina e pelas maneiras, e em
que se testa a eficácia da autoridade pedagógica (2009: 99,184).
Tal adaptação está, analiticamente, próxima de um ajustamento entre disposições
e práticas (Bourdieu, 2002), que tornam possível um quadro de negociação. Este
tipo de análise terá, igualmente, muito a ganhar resgatando-se as ideias de
Goffman, presentes em FrameAnalysis (1976). Com efeito, e após uma explicação
dos diferentes conceitos (ferramentas) que ajudam a incluir na interação
aspetos cognitivos, Goffman analisa a interpretação dos quadros (frames)
presentes na interação. O que se está a passar aqui? ou Que atitude e
comportamento correspondem a este momento? são exemplos de questionamentos
internos sem serem necessariamente reflexivos com uma ligação grande à
definição da situação, já abordada em A Apresentação do Eu na Vida de Todos os
Dias (1993). O autor acaba por salientar a negociação ou ajustamento desses
esquemas de interpretação, subjacente aos processos de interação quando os
quadros são, à partida, discordantes (1976: 322). A aplicação deste contributo
concetual ao contexto da sala de aula revela-se, assim, promissora.
Processos gerais de interação pedagógica: uma tentativa de desmontagem
atualizada
Interação e relação pedagógica
Com base nas suas próprias observações, Gomes identifica a ideia de conceção
hierárquica da relação pedagógica, pautada por uma concentração das decisões
nas mãos dos professores (2009: 180). Certamente que tal injunção normativa
ainda percorre os esquemas de ação de professores e alunos. Saliente-se, porém,
que o estudo da relação pedagógica passa por dissecar, não só os papéis
envolvidos e a sua posição relativa, mas também por destacar as dinâmicas
inerentes à própria interação estabelecida entre professor e aluno(s).
Na comunicação pedagógica os discursos são também sinais de autoridade e não
apenas códigos, onde importam o estilo expressivo e as maneiras de comunicar
(Bourdieu, 1998a: 54). Bourdieu fala de um compromisso entre a intenção
expressiva e a censura inerente a uma relação social mais ou menos
dissimétrica, na qual o discurso depende da relação entre um habitus e um
mercado mais ou menos tenso, onde há noção do rigor das sanções que se infligem
a quem falha a correção e a compostura (ibid.: 72).[3]
Para Bernstein (1973), a análise dos discursos na sala de aula engloba aquilo a
que o autor chama princípio do enquadramento uma espécie de regulador das
práticas comunicativas das relações sociais: o princípio de enquadramento
regula os aspetos de distinção dos princípios de comunicação, isto é, a
seleção, a organização (sequência), a ritmagem da comunicação e a posição, a
postura e os atavios dos comunicantes, bem como os aspetos da localização
física (ibid.: 260). A relação desta ideia com a de definição da situação ou
do modelo pedagógico adotado pelo professor, parece clara. Nas aulas observadas
no presente estudo, verificou-se, não surpreendentemente, que o sucesso do
professor depende, na esmagadora maioria das situações, da forma como este
consegue ou não impor um ritmo de trabalho aos alunos, daí resultando um
determinado saldo normativo e cognitivo.
A noção de consenso operacionalinstaurado num dado quadro de interação sugere
uma reciprocidade de atitudes mínimas (Goffman, 1993: 21). A comunicação em
sala de aula depende deste aspeto e a atenção é um dos seus requisitos. Este
saldo pode ser interpretado enquanto o conjunto de condições mínimas e de
sintonia comunicacional dos protagonistas, muitas vezes resultante de
negociações tácitas a condição de felicidade (Austin, 1975; Bourdieu,
1998a). Pinto afirma a possibilidade de ocorrer uma incongruência entre
dispositivos de produção e de receção e interpretação de sentido (2007: 176).
Com efeito, notou-se que em praticamente todas as turmas observadas, a atenção
é muito instável, comprometendo um entrosamento normativo eficaz para a receção
da mensagem, não sendo raro assistir-se a registos e desempenhos disruptivos
que minem a comunicação pedagógica.
Alguns autores acrescentam a estas dinâmicas a existência de duas redes de
comunicação na aula: uma rede legítima, controlada pelo professor; e uma rede
paralela entre os alunos que depende da tolerância e do estilo adotados por
aquele (Sirota apud Perrenoud, 2002: 176).
Papéis na sala de aula
A importância do conceito de papel social para a sala de aula confunde-se com a
própria relação pedagógica. Não se trata apenas de um conceito abstrato
demasiado preso à teoria. A observação das turmas permitiu identificar muito
claramente alguns atributos dos diferentes papéis que se vão desenrolando na
sala de aula. São, de certa forma, instrumentos analíticos preciosos para se
operacionalizarem as dinâmicas principais da relação pedagógica. Em todas as
turmas o professor correspondeu ao papel designado institucional e socialmente.
As próprias dinâmicas da interação entre professor e aluno são processos de
sustento ou gestão do papel que é imputado ao ator que se destaca.
Os papéis sociais estão em correspondência com padrões culturais e emoções e
normas sociais que influenciam a organização de grupos e da sociedade em geral
(Merton, 1970: 118). Ao nível da interação, são expressão da sociabilidade e
pressupõem um controlo, muitas vezes cuidado (Goffman, 1993: 19). São, ainda,
uma exigência moral endereçada aos outros de acordo com a expetativa social
criada. As primeiras impressões ou a projeção inicial do indivíduo tornam-se,
assim, cruciais para a aceitação de um dado papel (ibid.: 21-24).
Ao nível dos esquemas internalizados, os papéis sugere Bourdieu surgem
associados a um intercâmbio de posições relativas e de reciprocidade simbólica
(tio/sobrinho, eu/tu, etc.). Deste modo, ao nível da socialização primária,
estariam os papéis de pai e mãe e ainda os esquemas de género (Bourdieu, 2002:
187).
Nas socializações posteriores, e também no contexto escolar, o papel de cada um
dos protagonistas da ação subjaz à própria ação e é constantemente
(re)negociado. Em contexto escolar, Gomes sugere que, relativamente à sua
postura, os alunos operam uma avaliação das suas possibilidades de liberdade
ou autonomia de movimentos na sala de aula, e [ ] da sua reação a diferentes
aspetos ligados [ ] ao desempenho dos professores (2009: 104), testando,
portanto, os limites do seu próprio papel.
A volatilidade da definição da situação e do saldo comunicacional na sala de
aula do secundário relaciona-se, não apenas com a especificidade do estilo de
cada professor, mas também, seguramente, com as diferentes disposições juvenis
face à escola relacionadas, também, com uma diversidade de ordem classista,
cultural, etc. (Pais, 1993; Abrantes, 2003). A este respeito, Abrantes
contrapõe a multiplicidade de disposições observadas à dicotomia clássica
entre conformistas ou resistentes (ibid.: 124), que está desajustada com a
realidade. O autor destaca a ocorrência de uma adesão distanciada à escola por
parte dos alunos: relação flexível e ambígua com a instituição escolar que
lhes permite, em certas situações, resistir e infringir as regras, noutras
participar com bastante entusiasmo (ibid.: 123).
Se um determinado papel, formal ou informal, for associado a uma determinada
postura ou modos, torna-se expectável a sua identificação por parte dos demais
presentes. Tal dependerá dos padrões normativos em voga na configuração
cultural e social do momento, no campo escolar, e até da sociedade em geral.[4]
Os estereótipos tradicionais associados a papéis do espaço escolar são uma
realidade estudada veja-se, por exemplo, Pais (1993), que acaba por elaborar
uma categorização de alunos (graxas, baldas, etc.). Este tipo de
categorização depende das atitudes diferenciadas relativamente à relação com o
meio escolar mas é, certamente, vulnerável a reestruturações simbólicas de toda
a sociedade. Neste sentido, torna-se útil considerar a sobreposição de vários
papéis e valências diferentes, conforme os canais de comunicação ou os quadros
de interação. No decorrer das aulas, foi com alguma frequência que se observou
que nem sempre os estereótipos correspondem a papéis homogéneos ou exclusivos
de determinado agente, situação que reforça a ideia de haver múltiplos registos
num mesmo indivíduo. Registos não apenas em termos de ação (Lahire, 2002), mas
também em termos da coexistência e modulação de papéis ou expetativas
endereçadas a si e aos outros.
Definição da situação
A definição da situação conceito basilar do interacionismo simbólico é
elaborada de acordo com os princípios de organização que regem os
acontecimentos (Burns e Flam, 2000: 41; Goffman, 1993: 14). Contribuir para
definir o que se passa aqui e agora envolve autoridade e poder com influência
suficiente para o efeito (Burns e Flam, 2000: 45). Qualquer definição da
situação projetada possui também um caráter moral (Durkheim, 2001; Goffman,
1993: 24). Do ponto de vista do indivíduo que se apresenta, é, portanto, do seu
interesse controlar de alguma forma o comportamento dos outros.
Trata-se de um processo inerente às dinâmicas de negociação e acompanha a
recolha de informação que um indivíduo faz sobre o(s) outro(s) (Goffman, 1993:
11). Isto é particularmente evidente na auscultação (tanto inicial como
posterior) que os alunos fazem do professor. A este respeito, Gomes refere que
para os alunos, a definição do que se vai passar na sala de aula com um
determinado professor depende de conseguirem ou não, de forma aberta ou
dissimulada, influenciar o rumo dos acontecimentos (2009: 103). Destaque-se,
ainda, a possibilidade de desacordos em torno da precedência na orientação da
ação (Burns e Flam, 2000: 98).[5]
Qualquer aula em curso contém ou representa uma definição da situação. Na
observação de aulas, um dos desafios maiores será o de identificar,
precisamente, que agentes têm mais peso na definição da ação pedagógica. Um
jogo dinâmico a que estão inexoravelmente ligados os processos de negociação
entre alunos e professor. Trata-se, a par do papel social, de um dos elementos-
chave da própria interpretação da ação observada.
O ascendente da autoridade e a confiança
O significado do conceito de autoridade bem como os seus elementos subjacentes
têm sido trabalhados, não por acaso, em diferentes sentidos (Weber, 1995c;
Durkheim, 2001; Bourdieu e Passeron, 1976; 1998a; 1998b; 2002; Littlejohn,
1996). De facto, a autoridade remete para inúmeros aspetos que a circundam,
direta ou indiretamente. Destaque-se, para já, um duplo sentido: a autoridade
que um indivíduo ou entidade detém por imposição de normas e regras que
reforçam uma posição estatutária; mas também um ponto de referência moral ou
até de legitimidade pericial (Giddens, 2000: 79). Em Weber, a associação de
dominação, mais próxima de uma autoridade imposta e estatutária, implica,
contudo, uma comunicação de caráter emocional (1995c: 708). Terá de haver,
portanto, uma conquista ou pelo menos uma aprendizagem a ela conducente
desse vínculo como que uma fé em qualquer autoridade legítima do ou dos
impositores (Weber, 2009: 62). Esta ideia de sentimento é partilhada por
Luhmann (2000), ao referir a fé como uma espécie de confiança apriorística
associada à legitimação simbólica da nossa cultura.
A competência legítima (e institucionalizada) de que é dotada a autoridade é
sustentada na ordem, na palavra de ordem ou no discurso ritual (Bourdieu,
1998a: 62). Os performativos explícitos atos de fala, ordens, etc. são,
frequentemente, a parte visível da autoridade estatutária, tendo como pano de
fundo as condições e circunstâncias sociais extralinguísticas que a sustentam
(ibid.: 64).
A autoridade do professor marca a fronteira entre diferentes tipos de conduta e
diferentes atitudes por parte dos alunos. Mas é também um conceito relacional,
uma vez que depende do grau de correspondência da audiência. A autoridade
(pedagógica) é, ao mesmo tempo, ponto de referência da atenção que é despendida
por quem a reconhece enquanto tal.
Um dos elementos que circunda igualmente as dinâmicas em que se encontra
envolvida a autoridade pedagógica é o da confiança. Relacionar a confiança no
professor com a autoridade associada ao papel reforça o caráter relacional de
ambos os conceitos, num contexto de interação como a sala de aula. A autoridade
dificilmente conseguirá impor-se sem uma dinâmica estável de confiança. Esta é
uma condição inerente a uma autoridade reconhecida.
Maneiras e comportamento disruptivo
No decorrer de uma aula, a incapacidade de se estancar o barulho na sala,
apresenta-se como um sinal de perda da autoridade (Delamont, 1987: 85). Ao
avaliar as dinâmicas de conflito, do ponto de vista dos professores, Gomes
salienta que estas acontecem quando os alunos não reconhecem a sua autoridade
legítima [ ]; quando os alunos contestam os métodos e as atividades letivas
decididas pelos professores [ ]; quando os alunos tentam impor as suas
definições do que deve ser a interação na sala de aula (Gomes, 2009: 160).
Pinto arrisca mesmo dizer que se assiste, atualmente, a uma diluição do papel
enquadrador da relação pedagógica escolar (2007: 158).
O desempenho dos alunos no que toca ao respeito pelas convenções da civilidade
e dos modos de cortesia é uma das valências presentes no confronto com a
autoridade pedagógica. A observação dos comportamentos dos alunos na aula é um
bom indicador de parte do saldo entre os dois lados da relação pedagógica que
ajudam a definir a situação.
Na maioria dos contextos sociais modernos, e especialmente no contexto escolar,
considera-se que se deve pôr em prática a supressão dos sentimentos
imediatamente vividos (Goffman, 1993: 20), assim como os hábitos animais se
querem transformados em lealdade e dever (ibid.: 74; Elias, 1995). A coerência
do desempenho social é diferente da volatilidade corporal (Durkheim, 2001), daí
que os modos sejam um compromisso visível que permite aferir componentes do
papel na interação imediata (Goffman, 1993: 37).
Segundo Goffman, o desempenho de fachada incorpora dois tipos de critérios: os
elementos de cortesia dirigidos aos membros e o decoro que responde
perante o campo visual e auditivo (ibid.: 130). Delamont refere a importância
dos fenómenos paralinguísticos: a postura, o gesto, a expressão facial, etc.
(1987: 105), enquanto Bourdieu destaca os esquemas posturais associados à hexis
corporal (2002: 178).
Ora, as exigências de cortesia e as disposições ascéticas escolares são, por
norma, parte integrante do quotidiano da sala de aula e de outros contextos de
trabalho. Lahire evidencia isso mesmo ao descrever a possibilidade de tais
disposições concorrerem com outras, porventura mais ligadas ao lazer ou a
contextos de informalidade (2002: 67). Refira-se que as maneiras incluem
aspetos corporais e, também, verbais (Bourdieu, 2002: 194).
O respeito pelas normas que rodeiam os fenómenos paralinguísticos não significa
uma adesão ou lealdade cegas. Importa, também, trabalhar a aparência por forma
a evitar sanções ou com o objetivo de impressionar a autoridade (Goffman, 1993:
131). Prevê-se, ainda, como é expectável, a possibilidade de infração ou mesmo
tentativas de reconfiguração normativa. Para além de tudo isto, no que diz
respeito ao desempenho em termos da atitude subjacente, é frequente que o
efeito desejado por muitos alunos na sala de aula passe por influenciar, de uma
forma ou de outra, algum ou alguns dos outros participantes.
Nos casos em que se dá a apropriação da região de fachada (ibid.: 155) por
parte dos alunos na sala de aula, a ação ganha um cunho muito mais informal. Há
uma redefinição da situação, onde a linguagem comportamental dos bastidores se
confunde com o palco normativo institucional da sala de aula. Isto gera uma
tensão objetiva do mercado (linguístico e paralinguístico), que é tanto maior
quanto mais formal for o regime normativo (Bourdieu, 1998a: 71). É nestes
moldes que se podem analisar a fundo possíveis focos de comportamento
desviante.
Dinâmicas de atenção
Num dos seus escritos recentes Pinto (2007) sugere esforços no sentido de se
analisarem as dinâmicas de atenção na sala de aula da sociedade cognitiva.
Trata-se de um elemento central da interação (e da comunicação) que ganha peso,
se se considerarem as recentes mudanças operadas pelas novas TIC, numa
sociedade onde proliferam múltiplas fontes de informação, estímulos e ações
paralelas.
É neste sentido, e na linha do que tem sido avançado até aqui, que importa
acrescentar a questão das dinâmicas de atenção na presente proposta analítica.
Uma parte importante da análise sociológica acaba por referir, de uma forma ou
outra, quer os pré-requisitos, quer as consequências, ou mesmo o processo em si
mesmo. A atenção é, de certa forma, ação focalizada. A autoridade (pedagógica)
constrói-se, também, como ponto de referência da atenção.
Embora não trate diretamente a questão da atenção, não lhe dando destaque
conceptual significativo, Goffman (1993) destacou frequentemente a importância
das condições inerentes à definição da situação. Os momentos de rutura dessa
mesma definição dependendo obviamente da audiência ou grupo que mobiliza a
orientação da ação (ibid.: 102) são indicadores pertinentes da importância
das dinâmicas de atenção subjacentes aos processos comunicacionais. A uma
sintonia comunicacional entre emissor e recetor, Bourdieu acrescenta a
necessidade de uma autoridade reconhecida por parte dos destinatários para que
tais condições subsistam (1998a: 63).
Fora do campo da sociologia, surgem contributos que invocam a necessidade de se
recolocar a questão, sob uma outra perspetiva. Veja-se, por exemplo, o trabalho
de Small e Vorgan, que estudam possíveis alterações provocadas pela utilização
das novas tecnologias. Os autores destacam um processo mental, relacionado com
um modo de ação multitarefa, a que chamam atenção contínua parcial(Small e
Vorgan: 2008). Não se trata apenas de simples ação multitarefa, mas antes do
facto de a mente moderna ser propensa a auscultar continuadamente novas
informações a qualquer momento e em qualquer lugar, muito por força da
omnipresença de gadgets comunicacionais e informacionais cada vez mais
sofisticados. Rosen (2010) numa perspetiva mais próxima das ciências sociais,
ao analisar o impacto das novas tecnologias nos jovens, hoje em dia salienta,
sobretudo, a relação da geração multitasking com as tradicionais formas de
leitura e audiência.
Embora a natureza do presente texto seja, sobretudo, teórica, importa adiantar
um breve apontamento ilustrativo da ronda de observações de aulas, levada a
cabo na investigação mais abrangente, que lhe deu origem.
Assim, e até onde a própria atenção sociológica permitiu ir, foi possível
observar dinâmicas de atenção comuns a todas as turmas observadas. A fronteira
dos 60 minutos de aula pareceu constituir uma regra de ouro da atenção em
sala de aula. Em praticamente todas as turmas, esse foi o tempo máximo tolerado
pela maior parte dos alunos. Mesmo em turmas com aproveitamento elevado,
assistiu-se a momentos de rutura súbita das condições mínimas de comunicação e
trabalho. Os momentos intermédios de desatenção, seja por força das
circunstâncias do emissor ou da matéria escolar, seja por iniciativa própria de
alguns alunos, ou por via de solicitações externas (entre as quais, o
telemóvel), denotavam uma volatilidade e, em muitos casos, fragilidade da
capacidade de investimento e continuidade da atenção dos alunos. Os próprios
alunos, quando entrevistados, admitiriam a sua própria intolerância em termos
de tempo continuado de atenção. As estratégias para se combater este fenómeno,
por parte dos professores, revelaram-se diversificadas e, frequentemente,
criativas.
Dinâmicas de negociação
Modos tradicionais de negociação
A questão da negociação de alguma forma implícita em alguns processos
entretanto analisados até aqui revelou-se, particularmente útil para a
compreensão dos termos em que a relação pedagógica se desenrola. Não sendo,
como já se viu, novidade na pesquisa sociológica, surge, de acordo com
Perrenoud, da confrontação, hora a hora, das suas estratégias respetivas, quer
haja um compromisso explícito ou a neutralização recíproca numa relação de
forças (2002: 52). Trata-se de ação experimentada que, de um lado, se
caracteriza por um conjunto dinâmico de tentativas ou estratégias de
maximização de ganhos (ou atenuação dos constrangimentos) caso dos alunos
e, do outro, uma série de limites impostos e trabalhados que variam de acordo
com o estilo de cada um, configurando um modelo pedagógico caso do professor.
Verificou-se frequentemente uma amplitude grande e flexível dos limites
impostos pelos professores observados. É frequente constatar-se, neste jogo de
forças, cedências relativamente a aspetos como prazos, disciplina, tolerância
em relação a elementos da ação descontextualizados ou desviantes, etc. , por
parte do professor, refém da necessidade de um mínimo funcional de condições
de felicidade.
Gomes refere a negociação como um fator atenuante da tensão e conflitualidade
(2009: 169). A negociação do próprio modelo hierárquico e, eventualmente, da
ordem dos papéis é, ainda, uma possibilidade constante. Vale a pena
aprofundar estes aspetos e tentar desmontar algumas particularidades das
estratégias de negociação observadas em sala de aula.
Ação reflexiva e automatismos da ação
Do ponto de vista dos atores, importa antes de se aprofundarem algumas
particularidades dos processos negociais em sala de aula contemplar a
existência de diferentes registos da ação, ambos presentes a todo o momento nas
dinâmicas próprias da relação pedagógica. A distinção entre uma ação consciente
(ou reflexiva) e uma ação inconsciente (ou pré-reflexiva) introduz na análise
um importante filtro operatório. Bourdieu (2002) contempla a possibilidade de
as respostas do habitus se fazerem acompanhar de cálculo estratégico. A
distinção entre um habitus prático e um habitus reflexivo é, ainda,
apontada por Lahire (2002: 145). A diferença entre automatismos e processos
cognitivos na ação não é uma questão pacífica em sociologia lembre-se a
disputa entre a etnometodologia de Garfinkel (1967) e a análise de quadros da
ação (frame analysis) em Goffman (1976).
Para Bourdieu, a ação é também sabedoria semiformalizada, ditados, lugares-
comuns, preceitos éticos [ ] e, mais profundamente, os princípios inconscientes
do ethos (2002: 165). O ethos, entenda-se, resulta numa disposição que
estabelece o balanço entre comportamentos razoáveis e não razoáveis (ibid.:
2002). A tradução de momentos da vida quotidiana nestes moldes conceptuais não
é tarefa fácil, sobretudo quando estão, simultaneamente, envolvidos processos
reflexivos e pré-reflexivos. Na sala de aula, o utilitarismo de alguns alunos é
apenas um dos exemplos de calculismo, de intencionalidade da ação. Sendo a sala
de aula um contexto de aprendizagem, a ação consciente decorre a todo o
momento, mas é também acompanhada de processos pré-reflexivos, de esquemas e
automatismos incorporados dos agentes.
Negociação de quadros e modulação da ação
No âmbito da sua pesquisa feita em sala de aula, Gomes chama a atenção para os
momentos de subversão dos alunos que conseguem fazer prevalecer as suas regras
e movimentos próprios (2009: 103), situação que é apresentada numa perspetiva
dinâmica, feita de adaptações e estratégias. Entender, neste sentido, a lógica
dinâmica da sala de aula, sobretudo na perspetiva do aluno, revela-se
determinante para se chegar a mecanismos de ação que estão por detrás de um
quadro de disfuncionalidade ou de desvio. Contudo, dar conta dos esquemas e
disposições incorporados e dos seus possíveis efeitos nas dinâmicas de
diferentes papéis em jogo, requer um reforço teórico que permita
operacionalizar convenientemente a pesquisa.
As simples brincadeiras ou comentários jocosos dos alunos na sala de aula podem
ser entendidos como regras de transformação, quando as ações sérias e reais são
convertidas em algo divertido (Burns e Flam, 2000: 50). As estratégias com
vista a dar a volta ao professor ou contornar as regras da aula, são exemplo
disso.
Em Frame Analysis (1976) Goffman sugere o termo framingou enquadramento para
definir uma espécie de filtro simbólico que os agentes utilizam para
entenderem, de forma partilhada, os significados da ação e do mundo. Ao
contrário da etnometodologia de Garfinkel (1967), Goffman não relegou para
segundo plano a influência da cultura prévia ou, se quisermos, da estrutura
interna dos agentes, construída de acordo com os constrangimentos da
socialização social e cultural. Não sendo a obra mais clara de Goffman, Frame
Analysis não deixa de apresentar ferramentas de análise que são compatíveis com
a pesquisa em sala de aula.
O autor refere diferentes tipos de enquadramento em jogo quando, por exemplo,
numa dada interação social, um registo de brincadeira poder ser dúbio,
coexistindo, porventura, com uma atitude mais séria ou tensa.[6]
No caso de uma disputa com um registo mais sério, a negociação de
enquadramentos é frequente. Arriscado Nunes, a propósito das propostas de
Goffman (1976), dá o exemplo dos julgamentos, nos quais acusação e defesa
competem por enquadrar os mesmos acontecimentos de forma diferente (1993:
38). O próprio Goffman refere que nestas circunstâncias é esperado que as
partes com versões opostas dos acontecimentos possam, de forma aberta, disputar
a definição do que aconteceu ou está a acontecer (1976: 322, tradução do
inglês).
Goffman disseca as diferentes dinâmicas e nuances possíveis nos vários tipos de
jogos de interação possíveis. Duas variantes operatórias do framing
(enquadramento) são o keying e a fabrication, que serão aqui traduzidas como
modulação e fabricação, respetivamente. De acordo com o autor, tanto as
modulações como as fabricações envolvem a transformação de uma porção de uma
dada atividade que já era, à partida, inteligível como enquadramento primário
(ibid.: 43, tradução do inglês).
Enquanto a fabricação corresponde a um engano ou fraude deliberada com vista a
ludibriar o outro, e isso é observado com frequência na sala de aula quando,
por exemplo, um aluno mente ou tenta enganar, de alguma forma o professor , já
a modulação (keying) é o conjunto de sinais ou artifícios que permitem moldar a
forma como um dado enquadramento é percebido pelos agentes presentes na
interação (ibid.: 43). É, portanto, uma transformação do enquadramento mais
subtil do que a primeira.
Note-se que, para Goffman, um contexto (de interação) pode ser definido como um
conjunto de eventos imediatamente disponíveis que são compatíveis com um
entendimento de um enquadramento e incompatíveis com outros (ibid.: 441,
tradução do inglês). Isto vai ao encontro da ideia da coexistência de
diferentes tipos sistemas de regras e disposições (Burns e Flam, 2000; Lahire,
2002). Goffman vai mais longe, dissecando e diferenciando as dinâmicas
cognitivas da interação.
A figura_1 resume o modelo analítico referente aos processos de interação na
relação pedagógica, sintetizando as linhas até aqui avançadas.
Breves notas finais
Certamente que a relação entre os elementos exteriores à vida escolar
nomeadamente as práticas associadas às novas TIC e as dinâmicas de sala de
aula, não é óbvia, nem sequer fácil de objetivar do ponto de vista analítico.
Ainda assim, parece evidente a necessidade de serem encontrados esforços e
tentativas para descoser algumas linhas desse novo emaranhado de transformações
que a bom ritmo se têm desenrolado, sob pena de a escola se tornar uma
instituição progressivamente fugidia ao olhar do sociólogo. A proposta aqui
apresentada visa sublinhar processos dinâmicos da ação presente na sala de aula
(do secundário), em conjunto com mudanças paralelas no todo social, motivadas
pelo uso intensivo das novas TIC. O encontro destas duas frentes é equacionado
sob a forma de uma tentativa metodológica de auscultação de sintomas de
transformação no raio de ação da relação pedagógica.
Sublinhe-se, por último, o facto de os elementos aqui apresentados deixarem de
parte uma análise aprofundada de elementos diretamente relacionados com o
conteúdo curricular. O enfoque analítico principal recai, sobretudo, em aspetos
comportamentais da interação e comunicação. A este nível, tanto as dinâmicas de
atenção, quanto as dinâmicas de negociação estão na base de uma preparação
metodológica que possa alavancar a pesquisa sociológica em sala de aula, ao
nível de mecanismos cognitivos cruzados com aspetos éticos.