Reputação, mercado e território: o caso dos arquitetos
Considerações iniciais
A extensa literatura e as investigações empíricas desenvolvidas no domínio das
artes têm vindo a explorar a riqueza da temática da reputação e as suas
componentes, como o reconhecimento, o renome (Lang e Lang, 1988), a
visibilidade e o sucesso (Menger, 2009, 2012), mostrando tratar-se de um
fenómeno com o qual lidamos na vida de todos os dias e que tem consequências
para toda a sociedade (Cowen, 2000: 1-13; 130-161). No caso da arquitetura,
destaca-se desde logo a importância da cadeia de agentes associados à
consagração dos arquitetos e das obras de arquitetura — dos colegas aos
clientes, investidores e utilizadores dos edifícios ou espaços públicos,
curadores, críticos, jornalistas —, passando pelo impacto de um prémio, pela
publicação de fotografias das obras ou artigos teóricos em revistas
conceituadas e a sua discussão pelos especialistas e pelo consumidor que
comenta, publicita, promove e celebra publicamente os “melhores” (Gadanho,
2010).
[1]
Muitas das ideias, debates teóricos, metodologias de pesquisa e evidências
empíricas em torno da reputação são mobilizados e mesmo oriundos de outros
universos. No entanto, os diálogos teórico-empíricos em torno deste conceito
nas artes, nos estudos histórico-sociais agroalimentares, cultura material e
consumo (Appadurai, 1986; Miller e Rose, 1997; Probyn, 1998), nos média
(Harrington e Bielby, 1995), na gastronomia (Surlemont e Johnson, 2005), no
desporto (Scully, 1995; Amis, 2003), na ciência (Merton, 1968 e 1988; Huber,
2001), entre outros, não se realizam ou realizam-se ainda de forma muito
incipiente.
[2]
Na literatura sobre a reputação o foco é, regra geral, o estudo de indivíduos,
objetos e instituições célebres, parecendo descurar-se os processos quotidianos
que estão subjacentes à conquista, perda e reconquista de reputação. Este
artigo pretende relançar esse mesmo debate.
Se, por um lado, os premiados arquitetos portugueses Álvaro Siza Vieira e
Eduardo Souto de Moura, as suas obras, esquissos e projetos são cientificamente
examinados, por outro, raramente ficam para a história os processos de
conquista, perda e reconquista da reputação dos outros arquitetos. Os nomes
reconhecidos detêm mais crédito e os seus ateliêsde arquitetura beneficiam
dessa transferência de valor dos indivíduos para as instituições e para os
territórios onde os objetos arquitetónicos se inscrevem.
[3]_De_igual_modo,_parece_ser_dada_maior_atenção_à_construção_de_estados_de
reputação_do_que_à_compreensão_dos_processos_de_ida_e_volta_nas_diferentes
posições_ocupadas_na_pirâmide_reputacional_e_às_consequências_dessas_alterações
de_estatuto._É,_pois,_na_compreensão_da_volatilidade_de_estados_e_processos_de
construção_da_reputação_e_na_sua_vivência_quotidiana_que_este_artigo_se
enquadra,_tendo_como_ponto_de_partida_a_arquitetura_e_os_arquitetos
portugueses.
Este artigo procura, de uma forma introdutória, compreender os efeitos da
reputação na estruturação das trajetórias individuais de carreiras, no
funcionamento dos mercados de trabalho e, de uma forma ulterior, na organização
de territórios urbanos. Assim, interessa-nos questionar: como se constrói a
reputação de indivíduos, instituições e mercados? Como circula a reputação
entre o mercado das artes e os outros mercados? E o que conta para a sua
flutuação? Qual é o impacto de um prémio, os constrangimentos e as
oportunidades que daí advêm para os indivíduos e para as organizações onde
trabalham? A partir do caso específico dos arquitetos e da forma como relatam e
reconstroem os acontecimentos que consideram ter marcado a sua carreira,
procuramos avaliar que processos quotidianos ampliam, sustentam e ensombram a
sua reputação? Mostraremos como arquitetos com percursos inicialmente muito
próximos acabam por progressivamente se afastar, colocando-se numa dependência
estreita das suas redes de colaboração e do lugar que o seu nome ocupa na
arquitetura.
Por último, o artigo discute as perspetivas da pesquisa em curso que avalia os
mecanismos reputacionais e a evolução dos seus efeitos na dinamização dos
mercados de trabalho e dos territórios urbanos.
Um quadro teórico cruzado: reputação, mercado e território
A literatura produzida em torno da reputação está fortemente associada aos
mundos da arte, da cultura, da criatividade e das suas indústrias (Caves, 2000)
e muito implicada no escrutínio de temáticas paralelas, como a fama (Gamson,
1994; Cowen, 2000), as culturas da celebridade (Marshall, 1997; Rojek, 2001;
Heinich, 2011), o poder dos winner-take-all-marketse os ingredientes para uma
carreira “excecional” (outliers)(Rosen, 1981; Frank e Cook, 1995; Gladwell,
2008), no tempo (Lang e Lang, 2001[1990]). Do lado da sociologia da arte e da
cultura, a temática tem sido amplamente escrutinada, destacando-se o trabalho
de P. Bourdieu (1992, 1993, 2003[1979]), que entende os fenómenos reputacionais
como resultado de lutas internas, por exemplo, no campo literário, onde alguns
agentes acumulam mais “capital simbólico” do que outros. H. Becker (1982: 351-
371), no capítulo que dedica ao estudo da reputação, segue outra via: mostra-
nos como o indivíduo reputado pode ser dotado e desenvolver um trabalho
excecional; contudo, pode também ser alguém que segue as regras e faz um
trabalho competente que se distingue e é consagrado pela qualidade das suas
associações a outros profissionais — appariementselectif,na expressão de P.
Menger (2009) —, pelo valor dos resultados finais e pela forma como isso é
entendido pelo público. Adianta ainda que a reputação depende dos consensos que
existem num dado momento histórico e da linha de participantes que ajudam o
indivíduo a construir a obra: a sua ideia é mostrar os “indivíduos a fazerem as
coisas em conjunto”, ou seja, as cadeias de cooperação em que o artista está
envolvido com muitos outros profissionais.
G. E. Lang e K. Lang (2001 [1990]) seguem a linha beckeriana e consideram que o
que preside à construção da reputação artística depende das avaliações do
outputartístico, realizadas pelos programadores e curadores que permitem a sua
visibilidade, pelos pares ou outros stakeholders(intervenientes) importantes
para ampliar a reputação, como, por exemplo, os críticos. Apenas alguns chegam
ao topo da celebridade, e isso acontece quando um artista consegue obter
“renome”, isto é, quando o seu nome está estabelecido fora do mundo mais íntimo
dos seus colegas e clientes admiradores. É o grau de visibilidade de um
indivíduo ou de uma instituição, fora desse mini art world,que define o seu
“renome” (Becker, 1982; Lang e Lang, 1988).
Na sociologia francesa, além de P. Bourdieu, destaca-se ainda R. Moulin (1992),
que avaliou o diferente posicionamento da arte, das instituições e dos seus
artistas no tempo,
[4]_e_P._-M._Menger_(2009),_que_parte_da_realização_dos_indivíduos_na
incerteza,_uma_incerteza_intrínseca_à_condição_do_agir_humano,_que_transporta
para_a_análise_do_trabalho_dos_artistas_e_profissionais_da_cultura,_as_suas
relações_de_trabalho_e_cadeias_colaborativas._A_incerteza_existe,_pois,_do
princípio_ao_fim_das_atividades_criativas._“Nobody_knows”,_afirma_R._Caves
(2000:_3)_na_introdução_do_seu_célebre_livro.
Já N. Heinich (1991) utiliza uma metodologia compreensiva e observa, através
das entrevistas aos escritores, as recorrências sobre como é vivida a
consagração individual, entre a mitologia do sacrifício e a elite dos artistas
(Heinich, 1991, 2005 e 2011). Destaca-se ainda a sociologia da mediação e do
intermediário de A. Hennion (1993).
Por seu turno, a economia da cultura de D. Throsby (2001) e F. Behamou (2002)
discute os perfis dos artistas e o star-system,enquanto A. Markusen e os seus
estudos de economia da arte e da cultura introduzem com originalidade as
questões do reconhecimento do território e do placemaking(Markusen, 2006;
Markusen e Gadwa 2010). A sociologia económica que avalia os sinais que chegam
aos mercados e os seus efeitos na escolha de um produto por parte dos
consumidores é desenvolvida também por um amplo número de autores, entre os
quais destacamos os franceses Chauvin (2010), François (2011) e Karpik (2007).
De resto, os estudos americanos clássicos já discutiam as questões da reputação
e do sucesso, associados a uma confluência de múltiplos fatores; destaca-se,
por exemplo, o modelo de R. Merton (1968 e 1988) e o “efeito Mateus”, onde se
discute como as desigualdades de reputação e sucesso na ciência se devem a
diferenças inicialmente insignificantes na qualidade intrínseca dos indivíduos,
que aumentam com o passar do tempo e ampliam as distâncias entre os mesmos na
hierarquia dos talentos científicos. Os consumidores e a comunidade
profissional percecionam a diferença, por muito pequena que seja, da qualidade
dos indivíduos; e é essa perceção que orienta as suas escolhas (Adler, 1985;
Merton, 1988). Se o artista fizer uso das inovações tecnológicas que hoje tem
ao seu dispor e que lhe permitem uma projeção planetária e mercados cada vez
mais alargados, essa perceção estende-se a um número mais elevado de
indivíduos. A situação terá consequências mais importantes para a carreira do
artista se este se associar a equipas com reputação elevada: a associação de
talentos tem um efeito multiplicador, nomeadamente em domínios que se organizam
por projeto (Menger, 2012).
Nas artes avalia-se o valor artístico e a originalidade em termos relativos;
por isso utilizam-se os prémios, os rankings,as audições dos atores e
bailarinos, para fazer comparações e competições incessantes na “hierarquia de
talentos” (Rosen, 1981; Menger, 2012). É no mesmo sentido que A. Collins e C.
Hand (2006) descrevem a atribuição de prémios como o resultado de pequenos
sucessos acumulados: receber o Prémio Pritzker, o Nobel da Arquitetura, como é
designado, pode dizer-nos que o indivíduo já granjeou a atenção de um círculo
maior de indivíduos e que foi consensualmente considerado o mais talentoso. C.
Camerer e D. Lovallo (1999) consideram que em todo este processo de
reconhecimento figuram os “outros” que desenvolvem um sentimento de confiança,
por vezes excessiva, nas suas características individuais e na sua vocação
criativa. A originalidade, a criatividade, o prazer de realizar uma atividade
criativa, a tenacidade e a sua resiliência ajudam a explicar a persistência de
atores e bailarinos no mercado de trabalho artístico (Borges e Pereira, 2012) e
a tensão que reside no binómio profissão/vocação.
É o que acontece também com os arquitetos, conforme ficou demonstrado no estudo
anterior, que ilustrámos com o preceito bíblico: “muitos são os chamados,
poucos os escolhidos” (Cabral e Borges, 2006, 2010). No entanto, convém
acentuar que, sendo a arquitetura uma profissão de índole artística, a
especificidade dos trabalhos aí produzidos, os objetos arquiteturais — ao
contrário dos quadros ou dos espetáculos que circulam no mercado de bens
artísticos —, os edifícios, têm uma inscrição num espaço e um universo
simbólico que lhes fica associado. De facto, como Magali Sarfatti Larson tem
mostrado para os Estados Unidos, o ressurgimento do “arquiteto heroico” foi
estimulado a partir da década de 1980 pelo boomda construção pós-moderna
visível. Foi igualmente estimulado com fins políticos e de competição económica
entre cidades, onde os arquitetos foram convidados a deixar a sua marca em
territórios urbanos recém-criados (Larson, 1993: 218-242). Da mesma forma, “a
lionização de arquitetos tornou-se parte da estratégia de marketingdo cliente e
um sinal de convergência da arquitetura com a indústria da cultura” (Larson,
1993: 248). O Prémio Pritzker, equivalente ao Prémio Nobel da Arquitetura,
funciona desde 1979 como o gatekeeperpara as novas tendências arquitetónicas à
escala global, incluindo Portugal: Álvaro Siza Vieira recebeu o prémio em 1992
e Eduardo Souto de Moura em 2011.
O reconhecimento que fazemos aqui desta particularidade, a inscrição da obra
arquitetónica como marca, é relevante para compreender e testar: (i) os efeitos
da obra num território; evoca-se a este propósito o “efeito Guggenheim”, em
Bilbau (ver D. Ponzini, 2010), e, no caso português, a reconstrução da cidade a
partir da Expo98, procurando criar uma nova “imagem da cidade”, para utilizar o
contributo de K. Lynch (1960) e repensar a reputação num contexto competitivo
internacional; (ii) a evolução da própria profissão de arquiteto — destaca-se
aqui o estudo de P. Brandão (2006), do qual faz também parte um subcapítulo
dedicado ao stars-team da arquitetura e o paradigma mediático da autoria — e a
mudança da posição social dos arquitetos, entre outros profissionais. Não sendo
uma exceção deste grupo profissional, não deixa de ser emblemática da forma
como o mesmo se inscreve no profissionalismo moderno (Larson, 1983) e da sua
inclusão no debate mais geral em torno das “profissões da forma urbana” (Blau,
Gory e Pipkin, 1983; Kostof, 2000).
Uma estratégia metodológica em mosaico
No estudo anterior, Profissão: Arquiteto/a (Cabral e Borges, 2006, 2010),
encomendado pela Ordem dos Arquitetos, optámos por um questionário fechado,
enviado a 12. 632 indivíduos inscritos na referida Ordem. Obtivemos na altura
um total de 3.198 respostas válidas. O modelo interpretativo que construímos
nesse estudo (baseava-se nas propriedades sociodemográficas e profissionais dos
arquitetos inquiridos) apurou os fatores mais importantes para o sucesso
profissional. No centro do modelo, o sucesso profissional contribuiu para
explicar os sentimentos de satisfação pessoal e satisfação material dos nossos
inquiridos. Entre os fatores que contribuíram para explicar o sucesso
profissional aquele que teve maior peso foi a idade (ou seja, o tempo de que
todas as carreiras carecem para se consolidarem); depois o facto de ter
trabalhado durante a licenciatura, que tem uma relação virtuosa com a entrada
na carreira e com o sucesso na mesma, devido não só à aprendizagem (saber-
fazer) mas também à inserção nas redes colaborativas. Por seu turno, o fator
género tinha um peso menor e jogava contra as arquitetas que se concentravam
nas modalidades assalariadas e estavam sub-representadas no fator que mais peso
negativo teve no nosso modelo: a acumulação de atividades profissionais. Ou
seja, a arquitetura quando é exercida em regime de exclusividade constitui-se
como um fator positivo para o sucesso de uma carreira.
No presente artigo analisamos as primeiras 23 entrevistas, realizadas nessa
altura e às quais voltámos para fazer uma análise diacrónica, que decorre de
uma nova recolha de testemunhos junto dos mesmos entrevistados, para testar a
evolução das carreiras. Assim, utilizaremos aqui excertos dessas entrevistas
realizadas junto de 17 arquitetos e 6 arquitetas que responderam a questões
semiestruturadas, organizadas em torno da carreira, a escolha do curso, o tipo
de trabalho realizado dentro e fora do ateliê, os principais obstáculos
sentidos no exercício da profissão e as condições de êxito na carreira. Com
isto, compreendemos como falam os arquitetos da sua experiência na profissão,
as comparações com os seus pares e a relação com fotógrafos, jornalistas,
clientes; e, claro está, o efeito do tempo.
[5]_Utilizamos_uma_abordagem_qualitativa,_apreendendo_mais_do_que_um_aspeto_da
socialização_dos_arquitetos_e_procurando_descrever_e_comparar_as_configurações
e_a_“pluralidade_de_contextos”_possíveis_(Revel,_1996:_26)_das_suas_carreiras.
Pode_entender-se_este_procedimento_à_luz_do_importante_trabalho_de_N._Elias
(1993)_e_da_sua_sociologia_de_um_génio._Sublinhamos_ainda_os_importantes
trabalhos_de_M._L._L._dos_Santos_(2012)_e_I._Conde_(2012,_2013),_que_discutem_e
analisam_os_grandes_temas_da_sociologia_da_cultura_e_desafios_teórico-
metodológicos,_a_relevância,_singularidade_e_reconhecimento_nas_“fases_dos_seus
percursos_de_carreira”.
A nossa intenção é, em particular, problematizar e compreender sociologicamente
os percursos dos arquitetos, como se fossem uma mistura de mosaicos, “pequenas
partes da realidade” (Becker, 1970).
A palavra dos arquitetos é fonte de conhecimentos sociológicos (Demazière e
Dubar, 1997: 38) para vermos como se inscreve nas linhas e hipóteses de
trabalho que privilegiamos, para “dar a conhecer o processo interativo de
apropriação de formas sociais e o seu caráter sempre provisório e inacabado. ”
Esta operação permite-nos comparar, a todo o momento, os dados das entrevistas
uns com os outros. O tipo de escrita e análise sociológica que adotamos neste
artigo é essencialmente tributário do contributo de B. Lahire (2002) — utiliza-
se mais a perspetiva de Portraits sociologiques(Lahire, 2002) e menos a
configuração familiar de Tableaux de familles(Lahire, 1995), passando pelos
casos específicos em contexto português (V. Borges, 2008, com os percursos dos
atores, e J. T. Lopes et al.,2010, com as “experiências, percursos e ‘retratos’
de mulheres clubbers”).Neste sentido, conciliamos pelo menos três perfis
profissionais que concorrem e se misturam no mundo da arquitetura. Primeiro, os
mais jovens, com 10 anos de carreira, que descrevem a “inocência” do seu
trabalho, a dedicação, resiliência, compromisso, e o ateliê em casa, contam as
“experiências que falham”, o estágio internacional e a forma como entendem
“servir o cliente”. Segundo perfil, os arquitetos com mais de 10 anos de
carreira, que descrevem a necessidade de internacionalizar os seus ateliês,
exigindo-se para tal que sejam pivôs com capacidade para analisar o mercado,
concentração na atividade, especialização e escala. É no terceiro perfil que
residem as gerações que ilustram o glamour da profissão, que consideram ocupar
“lugares de poder”, acumular oportunidades (como a conservação de obras
nacionais, a requalificação de espaço público) e caminhar para o reconhecimento
internacional.
Entre as “pequenas forças” e a transferência de valor
A. Abbott (2001: 1-33), na introdução autobiográfica de Time Matters,escreveu o
artigo mais longo do livro. Apresentou a sua história profissional e discutiu
criativamente as “pequenas forças” que atuaram no seu percurso até chegar à
posição que ocupa no sistema de investigação. A nossa intenção não é produzir
aqui a lista de “ingredientes” que fazem as carreiras de sucesso na arquitetura
ou as ruturas biográficas que alteram as trajetórias de carreira dos
indivíduos,
[6]_mas_antes_observar_os_transfertsque_se_operam_em_etapas_decisivas_da
constituição_da_reputação_através_dos_passos_e_dos_acontecimentos_que_são
valorizados_pelos_indivíduos_entrevistados_(a_este_propósito,_ver_Davies_e
Schmiedeknecht,_2005).
A. Abbott (2001) e P. -M. Menger (2009: cap. 6; 2012: cap. 2) convergem na
importância que atribuem a estas “pequenas forças”. Nas entrevistas que
realizámos descrevem-se algumas delas, com resultados notáveis e geradores de
diferenças nas trajetórias de carreira, observáveis depois com o passar do
tempo. Os exemplos de Gustavo e Rodrigo exprimem a ambivalência desses
resultados. Nos anos 50, Gustavo entrou em Belas-Artes, que descreveu como
sendo “um curso de artistas”. Quando terminou o curso, foi trabalhar para o
estrangeiro. Inesperadamente foi-lhe passado um projeto e, a partir daí,
conseguiu outro e mais outro, sem parar, durante mais de uma dezena de anos:
[Fui para fora] Aquilo era um meio muito pequeno, havia poucos arquitetos e os
correios tinham uma série de trabalhos para fazer. Éramos quatro. Um deles era
difícil e o diretor não se entendeu com ele. Como os outros eram mais
acessíveis, cada um teve um trabalho. Um deles disse: por que é que não dá esse
ao Luís, que é casado e tem filhos? Fiz isso para os correios, fiz um centro de
telecomunicações […] a seguir fiz uma torre que vi onze anos depois construída
[…] fiz um edifício para a rádio que ainda hoje existe. Aquele foi um episódio
muito importante na minha vida [Gustavo, 68 anos, dirige um pequeno ateliê].
Por seu turno, Rodrigo reconhece que no início aceitava todo o tipo de projetos
e que “com o tempo é que se começa a selecionar”. No entanto, sublinha a
importância do lastro familiar, que, com o passar dos anos, lhe permitiu
mobilizar um stock de ligações fortes, redes de apoio que sustentaram e
ampliaram a sua reputação:
Venho de uma família de arquitetos. O meu avô foi um arquiteto bastante
importante dos anos 30-40 […] e na minha família, da parte da minha mãe, temos
arquitetos de várias gerações e, depois, tias minhas que casaram com arquitetos
[…] Era miúdo e ia muito com o meu avô às obras, o meu avô tinha muito trabalho
[…] Foi uma escolha orientada pela família? Sim, ao princípio foi, mas depois o
meu avô dizia: ah, não venhas para arquitetura, não se ganha nada. Mas eu acho
que era o bichinho que estava lá e transmitiu-me imensos ensinamentos [Rodrigo,
67 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].
A reputação aparece associada à visibilidade do nome de um indivíduo e de um
ateliê. Fombrun e Mark Shanley (1990) descrevem o que pode estar nas
entrelinhas de um nome de uma “firma”, cujos diretores procuram influenciar os
stakeholderse, nesse sentido, mostrar as suas vantagens competitivas, dar
sinais para ajudar os consumidores a escolher, atraindo-os e procurando no
mercado “os melhores” trabalhadores. Tal como antes fora entendido por R.
Merton (1988), a visibilidade alimenta-se, multiplica-se e os seus sinais são
evidentes aos olhos dos consumidores, dos investidores, das instituições e do
mercado em geral. O testemunho de Rodrigo é disso um exemplo. Tornou-se
responsável por um ateliêcom seis arquitetos associados e mais de uma dezena de
“arquitetos flutuantes” e estagiários. A propósito do trabalho desenvolvido no
seu ateliê,Rodrigo destacou a importância de “ir a concurso” pelo caráter
formativo das equipas e considerou que os concursos mais importantes são
realizados por convite e destinam-se aos arquitetos mais prestigiados,
argumentos que acentuam o caráter cumulativo da reputação:
Isto depois é a chamada “pescadinha de rabo na boca”, porque é assim: uma
pessoa, para poder ir a um grande concurso de arquitetura, tem de ter no ateliê
outros a trabalhar para o ateliê poder estar quatro, cinco meses num grande
projeto de arquitetura e muitas vezes, ou grande parte das vezes, corre-se o
risco de não ganhar […] é uma experiência que foi feita e uma pessoa consegue
ver se o ateliê está a trabalhar bem [Rodrigo, 60 anos, dirige um ateliê de
grandes dimensões].
O seu caráter circular, acentuado por R. Merton (1988), citando H. Zuckerman
(1965): “O mundo é peculiar na forma como dá crédito. Tende a dar crédito a
pessoas que já são famosas”, o que tem importantes repercussões no mercado de
trabalho pelo valor dos bens assinados pelos mais reconhecidos e pelas suas
remunerações simbólicas e ganhos efetivos. P. -M. Chauvin (2010) mostra que
esta situação é semelhante à vivida no mundo da vitivinicultura: a assinatura
dos consultores vitivinícolas é uma fonte de reputação que se transfere para as
organizações produtivas. O que Rodrigo deixa ver quando refere a concentração
das grandes obras nos ateliêsde renome e traça o movimento de “ida e volta” das
reputações individuais e organizacionais:
Lançam-se sozinhos, mas não têm capacidade financeira para aguentar um
concurso, ou então vão a concursos muito pequeninos, não estão nas obras top.As
grandes empresas institucionais raramente darão uma obra a um ateliê que não
tenha prestígio, porque hoje em dia, e isso deve-se muito ao arquiteto S.
Vieira, ao arquiteto S. Moura e a G. Byrne, é o prestígio do arquiteto que
conta. Há pessoas que querem ter uma casa feita por nós e usam-na
comercialmente. Eu vejo as casas utopia, foi o M. A. Mateus que lançou,
convidou uma série de arquitetos, o primeiro standardda publicidade tem sido o
nome dos arquitetos, não é o local. Se eles não são conhecidos, não chegam lá
[Rodrigo, 60 anos, dirige um ateliê de grandes dimensões].
L. Karpik (2007) descreve os sinais que guiam o consumidor nos seus julgamentos
sobre a qualidade dos produtos no mercado — por exemplo, o reconhecimento de um
trabalho anterior facilita, uma nota dada por um crítico transmite confiança e
amplia a possibilidade de ser escolhido para novos prémios. R. Merton (1988) e
P. -M. Menger (2009 e 2012) consideram que o sinal mais importante que o
indivíduo dá ao mercado de trabalho reside na capacidade que demonstra ter para
desenvolver outras competências. Deste modo, a visibilidade é um fator
potencial de crescimento das competências pelas fontes relacionais que confere
aos indivíduos, o que é sugestivamente ilustrado na pesquisa de C. Ollivier
(2011) sobre os efeitos das relações sociais nas trajetórias profissionais dos
arquitetos de interior. Na entrevista de Marco é notada a sua capacidade para
se associar ao ateliê de outro arquiteto igualmente reconhecido, considerando
que em associação concorre “mais forte” aos concursos que abrem em Portugal e
no estrangeiro. Cada um dos ateliês dispõe de equipas próprias que colaboram na
conceção e construção de “projetos top”:
Em vez de este ateliê aumentar para 50 ou 60 pessoas, os dois ateliês juntos
têm quase 50 arquitetos; portanto, têm uma capacidade maior, temos uma parceria
para uma série de projetos grandes em Lisboa e no estrangeiro e tem corrido
otimamente […] O grande problema dos ateliêsé que quando se fecham muito sobre
si não têm um poder crítico muito grande […] Eu acho que o meio da arquitetura
em Portugal é muito fechado e depois acontece o seguinte: muitas vezes os
arquitetos que fazem mais trabalho são um bocado escorraçados, porque há aquela
coisa de small is beautiful[Marco, 65 anos, dirige um ateliê de grandes
dimensões].
As experiências formadoras aumentam as competências; se o número e a variedade
de experiências aumentam, também as redes de colaboração mobilizadas pelos
indivíduos se alargam. A formação na escola e o trabalho ainda durante o curso
no interior dos ateliês aparecem como variáveis correlacionadas com o êxito de
uma carreira, sobretudo quando se apresentam como momentos paralelos e combinam
eventos básicos do contexto escolar e do aprender-fazendo no ateliê com a
progressão técnica dos arquitetos, que aperfeiçoam conhecimentos sobre os
materiais, fazem a apropriação do vocabulário específico e as primeiras “saídas
para a obra” com o arquiteto principal e conhecem outros arquitetos e
ateliês;aventa-se, desta maneira, a capacidade para durante esses momentos de
formação paralela se produzirem contactos de trabalho (Cabral e Borges, 2010).
Foi o que aconteceu a Carlos, 27 anos, quando descreveu o início da sua
carreira, difícil e demorado na aprendizagem das “sínteses próprias da
arquitetura”, mas aberto a “pequenas forças”:
Eu fui para Madrid, foi o meu primeiro trabalho. O que é que um jovem arquiteto
faz quando acaba o curso? Faz o que pode […] Estive em Paris e, durante o
Erasmus,conheci pessoas e convidaram-me para ir para Madrid porque precisavam
de um arquiteto que falasse português e francês para colaborar nos projetos das
antigas colónias portuguesas em África [Carlos, 27 anos, ateliê próprio que
partilha com um colega].
João é outro jovem arquiteto que trabalha por projeto. Na sua entrevista conta
que esses projetos surgem no interior de um grupo de colegas e amigos que se
associam quando existe uma oportunidade de trabalho ou quando há um concurso
para desenvolverem ideias. Esta associação informal dos jovens arquitetos tem a
vantagem de tornar regular, tanto quanto possível, a prática da arquitetura e
fazer nascer mais depressa as ideias. João gostaria de trabalhar num ateliê em
Lisboa em obras de grande envergadura que possibilitassem aprender, conhecer e
saber como se utilizam novos materiais, mas isso não acontece. As expetativas
sobre o seu futuro são moderadas, seis ou sete colegas já saíram do país,
encontrando-se em Madrid, Londres, Roterdão, Barcelona, Suíça. Alguns deles
estão a fazer o estágio através de um patrono português que se responsabiliza
pela sua formação. Todos são remunerados. Porém, o fraco investimento
relacional, muitas vezes decorrente de ausência prolongada (por exemplo,
necessidade de sair do país por falta de trabalho), não permite fazer circular
informação sobre o nome e as respetivas obras. O reconhecimento dos pares
demora tempo e exige o reforço dos mecanismos de engagemente investimento ativo
em redes específicas. Luís regressou do estrangeiro e não viu reconhecido o seu
trabalho. As “pequenas forças” que lhe permitiram trabalhar e construir obras
arquitetónicas fora do país não tiveram impacto interno junto dos seus pares:
Não, antes pelo contrário. Quando saí de lá foi esquisito porque havia muito,
ainda hoje há, essa desvalorização das pessoas, dos arquitetos que tinham feito
a sua prática, a sua experiência, no estrangeiro… Mas quem tem mais aspirações,
quem não se contenta com a malfadada sorte, quem tem projeto, acaba por ir
procurar um sítio onde se possa realizar como pessoa humana […] Fui ignorado,
sim [Luís, 67 anos, dirige um ateliê de pequenas dimensões].
No fundo, as vantagens que as redes e as associações de nomes reconhecidos
produzem funcionam como um mecanismo concorrencial que pode gerar monopólios no
mercado de trabalho da arquitetura, à semelhança daquilo que acontece noutros
mercados.
Da altura das barreiras às “vantagens acumuladas”
Como vimos anteriormente, três importantes estudos em sociologia da arte
examinam a construção da reputação, o problema da sua definição e de como esta
persiste no tempo (Becker, 1982; Lang e Lang, 1988 e 2001 [1990]). Lang e Lang
(2001) definem duas das mais importantes componentes da reputação: o
reconhecimento e o renome. O primeiro amplia-se quando uma convenção acerca do
valor de um artista, instituição ou mercado é partilhada por um número mais
amplo de indivíduos. O “renome” de um indivíduo avalia-se, em geral, pela sua
visibilidade na imprensa, nas vendas ou noutro tipo de atenção que o trabalho
ou o artista conseguem obter, como veremos nesta secção.
No mercado da arquitetura há um grande número de aspirantes que se confrontam
com um sistema de triagem implacável que deixa a maior parte pelo caminho
(Cabral e Borges, 2010) ou obriga a criativas mas difíceis alternativas de
carreira: Rui e Catarina, da geração intermédia, trabalham por conta própria na
sua casa, que criativa e rapidamente transformam num ateliêtodas as manhãs:
“para não sermos papados pelos grandes”, justificam. Duarte lamenta a
estagnação de muitos colegas e considera que esse é o maior risco da profissão,
a “estagnação criativa” daqueles que não assinam os projetos, mas permanecem
nos grandes ateliêse ajudam a montar os projetos, e são por vezes afastados
pelos responsáveis dos ateliês,sempre à procura de “sangue novo”, para utilizar
a sua expressão:
Acabei o curso, fui trabalhar. Durante nove anos estive a colaborar com um
arquiteto que tinha sido meu professor. Nove anos nesse gabinete e aí o
problema que se põe é que não há evolução, ficamos estagnados… Acaba-se por
entrar num processo onde tudo já está decidido […] É um trabalho de desenhador
um bocadinho mais qualificado… Tenho colegas que permanecem a trabalhar para
outros, mas depois acontece que quando chegam a esta idade começam a ser
despedidos e a ser trocados pelos mais novos. O problema é que ou têm
conhecimentos pessoais que lhes permitem angariar trabalho ou ficam mesmo sem
trabalho [Duarte, 40 anos, trabalha em casa].
Para os artistas, ou, se quisermos, para os arquitetos reconhecidos, os ganhos
simbólicos e materiais, que resultam do reconhecimento em círculos mais
alargados, são muito fortes (sobre os efeitos masterpieces, ver Galenson,
2002). Numa discussão crítica sobre este tema, R. Frank e P. Cook (1995)
descreveram o poder dos indivíduos mais reputados, os “açambarcadores de
mercados”, em profissões onde o talento é um fator multiplicador que conta com
as avaliações produzidas pelos pares e por toda a cadeia de opinion-makers,como
os críticos (Moulin, 1967: 183; Lang e Lang, 1988: 84-85) e o colega e a
proximidade que cada um consegue manter com os mesmos (Ollivier, 2011):
Depois há aquele império do Norte…, quem não fizer arquitetura branca e pura e
neorrealista e neonacionalista não só não…, como é uma ameaça ao poder
estabelecido, porque é fácil as pessoas instalarem-se nos chavões, a
arquitetura do Siza é bestial, está dentro do modelo, do padrão, é reconhecida
no estrangeiro […] O diferente tem de passar por uma aceitação que vem sempre
de fora, dos média… […] A dinâmica da sociedade contemporânea não vai no
sentido da confrontação, vai muito mais no sentido da pacificação, do
mainstream[Pedro, 64 anos, dirige um ateliêde pequenas dimensões].
Por seu turno, as palavras de um casal de arquitetos, Mário e Deolinda, mostram
as diferentes fases de duas carreiras: a entrada na arquitetura, o
reconhecimento dos colegas e, por fim, a importância dos fotógrafos de
arquitetura para a consolidação da sua reputação e a divulgação dos trabalhos.
Mário começa a sua entrevista assinalando a importância do capital familiar
como fonte de concorrência que assegura a posição dos indivíduos contra a
inevitabilidade de ficar na sombra. De outro modo, Deolinda começa a entrevista
descrevendo a “altura das barreiras” no início da carreira de uma arquiteta que
tentava provar a si mesma que conseguiria “vencer”:
O arquiteto ou tem uma família ligada à arquitetura ou uma família muito metida
no meio, um pai arquiteto, ou então tem de ele próprio fazer o seu marketing,
dar todos os pequenos passos para ser persuasivo, dizer “estou aqui”, dizer o
que pode fazer […] O meu pai era o desenhador de província conceituado que fez
durante muitos anos o papel de arquiteto. O bichinho estava lá desde o
princípio [Mário, 58 anos, responsável pelo ateliê].
Vencer as primeiras barreiras é logo a seguir, quando se acaba o curso. Eu vejo
muito poucas arquitetas em obra, muito poucas. Acabei de sair de uma reunião
com cinco homens, eu não me importo nada, eles já se habituaram à minha
presença. Já tenho alguma idade, já estou a trabalhar com este cliente há
muitos anos. Mas não é fácil. Não há mulheres em obra… [Deolinda, 56 anos,
responsável pelo ateliê].
No mesmo sentido, as palavras de Clarisse, arquiteta sénior, quando recorda a
sua resposta a um anúncio que pedia arquitetos, no final dos anos 70:
Claro que senti alguma segregação no princípio. A primeira vez que respondi a
um anúncio publicado num jornal mandei o curriculume depois chamaram-me, havia
dois arquitetos, eu e outro, e perguntaram-me como é que me sentia, sendo
mulher, num meio onde só havia homens… [Clarisse, 64 anos, trabalha numa câmara
municipal].
Voltemos a Mário e Deolinda. Depois dos primeiros anos começaram a acumular-se
“vantagens” no seu percurso. Em conjunto, descreveram duas formas de
reconhecimento do trabalho de um arquiteto no mercado: a arquitetura publicada
(que pode ser construída ou não, inscrevendo-se no âmbito dos projetos) e a
arquitetura fotografada (Corbusier e o fotógrafo Lucien Hervé são o exemplo de
uma dupla de renome). Estes exemplos mostram-nos até que ponto o engagementde
diferentes profissionais num continuumde práticas amplia a reputação de uns e
outros:
M — A mais pequena moradia que nós fizemos foi para um amigo. D — Deu mais
projeção e tem sido publicada em todo o sítio. Reconhecida e publicada. Quem é
que faz esse reconhecimento? M — São os outros. Tem a ver também com os
fotógrafos que divulgam muito o seu próprio trabalho. Eles próprios são os
divulgadores das suas fotografias. D — Depois aparece uma, e então, e não têm
mais trabalhos? E nós começamos a mostrar. Temos uma série de publicações.
H. Becker (1982: 351-371) chama a atenção para que, com o tempo, os mundos das
artes fazem e desfazem as reputações de indivíduos, escolas, trabalhos,
géneros. O tempo, tal como é descrito por Mário, da antiga geração de
arquitetos, mostrará o valor de “uma boa cerejeira”. O tempo que leva a
construir a “boa cerejeira” contrasta com a rapidez com que esta pode consumir-
se.
Costumo dizer que a arquitetura é como uma boa cerejeira: se as cerejas são
boas, não se tira apenas uma, vai-se buscar outra, e outra, até que ela comece
a ter algum problema […] O que se constrói demora muito, muito tempo, constrói-
se pedra a pedra, mas a demolição de um gabinete pode ser muito rápida [Mário,
58 anos, dirige um ateliêde grandes dimensões].
ou, simplesmente, alterar-se. Jorge, da antiga geração de arquitetos, assumiu,
num tom nostálgico, o “império dos jovens”, “as superstars”, “os ídolos
efémeros” dos dias de hoje:
Praticamente, não tenho trabalho… Nós estamos num período do triunfo dos
jovens, um tipo está muito na berra… Os ídolos hoje consomem-se muito
rapidamente, mas o André ainda há poucos meses era uma superstarcom aquele
livro que trazia coisas dele. É um património ser novo [Jorge, 65 anos, dirige
um pequeno ateliê].
Os concursos: quanto é preciso experimentar até ganhar?
No trabalho anterior (Cabral e Borges, 2010) verificámos que cerca de um terço
dos arquitetos concorreram a um ou mais concursos públicos nacionais, com uma
média inferior a um concurso por ano. Na realidade, porém, só um quarto
participou num máximo de três concursos, enquanto menos de 7% participaram em
mais de três. Temos aqui uma medida aproximada da forma drástica como o acesso
à procura de novos bens arquitetónicos promovida pelo maior cliente do país — o
Estado central, regional e local — se restringe a uma percentagem pequena de
ateliês.Considerámos que esta concentração de oportunidades refletia,
necessariamente, a concentração de recursos por parte de um segmento pequeno da
profissão. Predominam os vencedores de prémios entre os mais velhos: 23% dos
homens já ganharam pelo menos um prémio; só 12% das arquitetas estão nessa
situação.
Em 2011, quando Eduardo Souto de Moura ganhou o Prémio Pritzker, estiveram
expostos na Faculdade de Arquitetura do Porto, onde estudou e lecionou, cerca
de 50 trabalhos seus realizados para os concursos nos quais participou — e nem
sempre ganhou — nos últimos 31 anos (1979-2010). Este conjunto de trabalhos dá
a noção de quanto é preciso experimentar até ganhar um prémio de prestígio.
Para Miguel, jovem arquiteto, os fatores de êxito numa carreira relacionam-se
com o tempo de trabalho (uma carreira demora a fazer-se), o volume de trabalho,
a “obra feita” ou simplesmente publicada nas revistas da especialidade e a
dimensão do ateliê:
Para se alcançar êxito é preciso trabalhar muito. O meu primo, que neste
momento tem cerca de 40 anos, já trabalha há quinze e só agora começa a ter
clientes mais importantes, até aqui foram sempre pequenos trabalhos […]
Relativamente ao panorama geral, ele é um arquiteto com êxito, porque tem um
ateliê já grande, com trabalho suficiente. O que eu acho é que não tem aquelas
obras… marcantes. Obra feita é sempre um privilégio […] Outro fator de êxito,
falando não só em Portugal, mas no mundo inteiro, são os arquitetos que
aparecem nas revistas. Pode ser um arquiteto que tem pouquíssima obra
construída e pode ser conhecido por ter muita obra publicada, isso é
importante, obra publicada em revistas da especialidade… São projetos. Essa
obra publicada pode ser acompanhada por um pensamento teórico ou não, pode ser
puramente exploração de imagem, novas formas, novas abordagens. Há muitas obras
que não chegam a ser construídas, mas que são importantes para o avanço da
teoria da arquitetura [Miguel, 30 anos, trabalha por projeto].
Todos os fatores reunidos não chegam ao impacto que um prémio prestigiado tem,
pelo consenso sobre o valor de uma obra. Os prémios representam para os seus
vencedores um lugar no topo da pirâmide reputacional. Rui, arquiteto sénior,
chegou a ficar bem colocado nos concursos nacionais, mas assinala que nunca
ganhou e mostra-nos a expressão do seu profundo desapontamento:
Eu ia a concursos… Ficava sempre em segundo lugar… não ganhava e depois até
isso mesmo me tiraram [Rui, 60 anos, dirige um ateliêde pequenas dimensões].
Conclusão e perspetivas
Este artigo apresenta algumas das dinâmicas mais fortes e intrínsecas à
reputação, os seus mecanismos e efeitos nas trajetórias individuais de
carreira, num grupo profissional específico, os arquitetos. A arquitetura e o
nome de alguns arquitetos portugueses estão hoje associados a importantíssimos
prémios internacionais, a uma participação intensa e de grande qualidade (assim
entendida também pelos pares) nas bienais internacionais de arquitetura. Tendo
como pano de fundo as trajetórias individuais de carreira de alguns dos
arquitetos que entrevistámos, procurámos mostrar como se organiza, amplifica ou
altera a reputação destes indivíduos e o que isso pode significar para a
valorização desta área de trabalho e para a organização geral desta profissão.
Desde logo, como tivemos oportunidade de discutir na primeira parte, quer a
discussão teórica, quer as evidências empíricas estão muito para além daquelas
que têm sido as perspetivas mais convencionais e consolidadas sobre os
processos de reputação, apontando-se aqui o caminho de um estudo dinâmico em
torno da reputação de indivíduos, organizações, mercados e territórios. Os
processos reputacionais necessitam de uma análise consistente e aprofundada dos
mecanismos da sua construção e sustentabilidade, associando o reconhecimento
dos artistas, das obras, das organizações onde se movimentam e dos territórios
onde se inscrevem (cidades, países), seguindo os pressupostos de uma
investigação mais alargada, como aquela que se está a realizar.
A diversidade de lógicas, formas e objetivos inerentes aos processos de
reputação requer ainda uma análise comparativa destes mecanismos de construção
das reputações e das lógicas em que assentam ao longo do tempo. É o que
procuraremos fazer, articulando nomeadamente os mundos da arquitetura e do
teatro.
No caso dos arquitetos, que sustentam aqui a vertente empírica desta
investigação preliminar, mostra-se que a sua vivência da reputação está
profundamente ligada às “pequenas forças”, como a saída para outro ateliê,a
sugestão de um colega, e a um conjunto de “vantagens acumuladas”, como a
associação a redes colaborativas de diferentes profissionais num continuumde
práticas que ampliam o conhecimento de uma obra — um fotógrafo que faz uma boa
imagem, um projeto que é publicado numa revista — ao longo do tempo. O prémio é
o culminar do processo. No caso da arquitetura, os sinais que se emitem para um
mercado singular como este passam pela inscrição de um nome reconhecido no
mercado, capaz de “iluminar” e chamar a atenção para um território.