Modelo teórico de análise sociológica
A sociologia necessita de teorias gerais para garantir cumulatividade no seu
desenvolvimento. A possibilidade de cumulatividade é reforçada com a combinação
de dois percursos analíticos. Por um lado, um percurso teoricamente organizado
de investigação empírica que permita gerar resultados comparáveis. Por outro,
um percurso de renovação teórica empiricamente informado que permita incorporar
resultados inovadores.
A existência de teorias gerais permite tirar pleno partido das potencialidades
daqueles dois percursos. No primeiro caso, porque quanto mais geral for uma
teoria mais vasto é o campo da sua aplicabilidade. No segundo, porque quanto
mais geral for uma teoria mais viável é a integração da variedade de
conhecimentos produzidos pela investigação empírica. As relações de reforço
mútuo entre variedade e generalização não constituem apenas uma propriedade do
mundo social, prolongam-se também no domínio do conhecimento deste.
Uma teoria é tanto mais geral quanto mais abstrata for. Uma teoria sociológica
geral é pois uma teoria sobre propriedades gerais, universais, dos processos
relacionais que ordenam o mundo social, em particular na era moderna. Numa
teoria deste tipo a abstratização deve ser elevada em todos os planos:
conceptual, metodológico e proposicional. A abstratização permite não só
garantir o grau de generalidade da teoria, e portanto um amplo campo de
aplicabilidade desta, como mantê-la simples, e portanto escrutinável.
Uma boa teoria geral deve ser simples, como sustenta Jonathan H. Turner (2010:
5-8), mas não deve reduzir a análise dos fenómenos sociais à explicação, em
última instância, por um único mecanismo ou princípio de causalidade. Por isso,
a teoria deve ser simples mas multidimensional, reconstruindo como
complementares os núcleos lógico-cognitivos das diferentes tradições
sociológicas (Alexander, 1987; Archer, 1995; Berthelot, 2001; Pires, 2007).
Neste texto propõe-se um modelo teórico de análise sociológica que permita
sustentar a elaboração de enunciados proposicionais de âmbito geral. O modelo
tem duas componentes: conceptual e metodológica. Em ambas se procura respeitar
os imperativos da abstratização, simplicidade e multidimensionalidade.
Dimensões analíticas
Identificar dimensões de análise é distinguir e definir diferentes categorias
de fenómenos sociais. Para isso são necessários conceitos. “As teorias são
construídas a partir de conceitos. Em geral, os conceitos denotam fenómenos. Ao
fazê-lo, distinguem aspetos do mundo que, num determinado momento, são
considerados importantes” (Turner, 1991: 4).
Os conceitos necessários para identificar dimensões de análise numa teoria
geral são também, necessariamente, de âmbito geral e abstrato. Isto é, porém,
diferente de serem imprecisos. Como se disse, os conceitos servem para designar
classes específicas de fenómenos, não para erodir as diferenças entre essas
classes, são instrumentos analíticos de especificação do que é distintivo, não
de diluição dessa distintividade. Conceitos que denotam tudo acabam por nada
distinguir, sendo por isso teoricamente inúteis.
O requisito de especificidade na elaboração de conceitos nem sempre é
respeitado. No caso da teoria geral, muitas vezes por razões de retórica. Por
exemplo, para acentuar a dimensão reflexiva e criativa da ação social, há
autores, como Bourdieu e Giddens, que usam o termo “estratégia” não para
designar um tipo particular de ação — a que envolve como condições mínimas uma
escolha de objetivos, um cálculo racional dos meios para atingir esses
objetivos e uma perspetiva de longo prazo — mas para se referirem a toda a ação
em geral. Em domínios mais especializados, a perca de especificidade dos
conceitos serve com frequência objetivos não analíticos mas normativos, em
regra com efeitos perversos tanto em termos analíticos como normativos. É o
caso, em definições contemporâneas do racismo, da inflação conceptual criticada
por Fernando Luís Machado, nomeadamente a propósito da introdução do conceito
de “racismo subtil” (Machado, 2000), inflação essa que pode ainda ser observada
em usos do termo “violência simbólica” e na consequente indiferenciação entre
esta e a violência propriamente dita (física).
Conceitos gerais e abstratos, para continuarem a ser conceitos, devem respeitar
o requisito da especificidade, isto é, devem servir para distinguir entre
diferentes categorias gerais de fenómenos, para denotar conjuntos disjuntos de
fenómenos, isto é, conjuntos de fenómenos tanto quanto possível sem elementos
em comum. Para tal devem, em primeiro lugar, ter um grau de abstratização
idêntico. Quando, por exemplo, num mesmo nível de elaboração teórica, o
conceito X tem um grau de abstração menor do que o conceito Y, por deficiente
definição, corre-se o risco de esse conceito denotar não um conjunto diferente
de fenómenos de Y mas um subconjunto parcial de fenómenos de Y. Ora, se X
estiver subrepticiamente incluído em Y, deixa de ser possível controlar o
significado das eventuais relações entre X e Y.
Quando o grau de generalidade e abstração é muito elevado, o requisito da
disjunção é mais facilmente respeitado se os conceitos denotarem processos em
lugar de entidades. Num esquema conceptual construído para identificar as
dimensões analíticas de uma teoria geral, os conceitos devem pois denotar
processos relacionais gerais, não entidades sociais, ainda que definidas em
termos muito amplos, pois as entidades sociais, sendo relacionalmente
constituídas, correspondem já a concretizações específicas das variações
possíveis daqueles processos. As dimensões de análise assim identificadas
constituem espaços de teorização de categorias de fenómenos para efeitos de
explicação, não ainda explicações.
O esquema conceptual delineado na figura_1, parcialmente convergente com o
apresentado por Jonathan H. Turner no primeiro volume de Theoretical Principles
of Sociology (Turner, 2010: 12-20), procura respeitar estes requisitos e
concretizá-los no domínio da teoria sociológica geral. Esta tem por objeto a
explicação dos padrões de relações sociais constitutivos do que, noutro texto,
designámos por “ordem social” (Pires, 2012). Por isso, as dimensões analíticas
mais abstratas são as que permitem distinguir diferentes tipos de relações
sociais e diferentes modos de padronização dessas relações.
Os três tipos de relações sociais identificados no esquema — relações de
interação (micro), relações de constituição de grupos (meso) e relações de
interdependência sistémica (macro) — podem ser resumidamente definidos como,
respetivamente, relações intersubjetivas e entre atos individuais (micro),
relações de coordenação e, eventualmente, estabilização de atos interativamente
combinados, e relações entre atores coletivos e atos coletivos (meso) e
relações entre propriedades das relações entre pessoas e entre grupos (macro).
A estes três tipos de relações sociais correspondem outros tantos “níveis de
integração das relações sociais” (Costa, 1999: 490) com propriedades
específicas, pelo que a distinção entre eles não é simplesmente analítica.
Os dois modos extremos de padronização — fático e normativo — precisam de ser
explicados mais em pormenor. Por facilidade de exposição, começaremos por
tratar a padronização normativa.
A padronização normativa opera por orientação dos comportamentos dos agentes
sociais. Essa orientação faz-se através de normas, que podemos definir como
regras de conduta partilhadas e internalizadas através de processos de
socialização, isto é, de aprendizagens intergeracionais comuns atualizadas ao
longo da vida, bem como de sanções, ou seja, de reações de terceiros sob a
forma de punições ou recompensas. A eficácia causal das normas resulta destes
processos de internalização e de sanção. Os efeitos de ordenação das normas,
por sua vez, têm uma dupla origem. Em primeiro lugar, a estabilização dos seus
enunciados através de processos de legitimação por referência a valores. Em
segundo, a consistência lógica das suas relações, a qual resulta da codificação
externa dos enunciados normativos enquanto sistemas simbólicos logicamente
ordenados.
A padronização normativa é um produto da reflexividade humana, pois a
existência de regras de conduta requer a produção deliberada de enunciados com
esse propósito. No entanto, os sistemas de normas, que resultam da combinação
sistemática, ao longo do tempo, de regras deliberadamente produzidas com um
propósito, apresentam propriedades nem sempre intencionais em consequência do
caráter não coordenado globalmente dessa produção, bem como dos limites
à antecipação controlada dos seus efeitos. Em consequência, o desenvolvimento
dos sistemas normativos envolve a emergência de incompatibilidades e
inconsistências que se podem constituir em focos de tensão social. Porém, a
primeira origem das tensões de âmbito normativo é, em especial nas sociedades
modernas, a perceção social de que a sua produção é humana e intencional e,
portanto, a contínua emergência de iniciativas e conflitos com o objetivo de
reformar ou mudar radicalmente as normas, os sistemas de normas ou os modos de
sanção que lhes estão associados. Ou seja, a padronização normativa é, por
definição, uma padronização dinâmica na base tanto da estabilidade como da
mudança da ordem social.
A padronização fática tem características bastante diferentes. Opera não por
orientação da conduta mas enquanto condição de realização desta. Esse
condicionamento resulta do caráter dado, herdado, das propriedades dos lugares
sociais em que os agentes se encontram posicionados. Para se perceber melhor as
diferenças entre as dimensões normativas e fáticas da padronização relacional,
é útil recordar a diferença, conceptualizada por Weber, entre dominação baseada
no controlo monopolista de recursos e dominação baseada na autoridade. No
primeiro caso, a dominação é fática, resulta da desproporção das forças em
presença. Segundo Weber (1984 [1922]: 696-697), é a dominação que resulta, por
exemplo, da desproporção de poderes entre um banco e um seu cliente em busca de
crédito. O banco consegue impor o seu interesse na concessão de crédito não com
base em qualquer relação de autoridade com o cliente mas apenas com base no
abissal diferencial de poderes de facto entre ambos. Já a dominação baseada na
autoridade requer não apenas obediência mas dever de obediência da parte do
dominado. Ou seja, requer um fundamento normativo que a justifique, sendo por
isso designada por Weber como dominação legítima (baseada no costume, na lei ou
no carisma).
Como se vê por este exemplo, a padronização fática das relações sociais
exprime-se com particular clareza nos padrões de desigualdade entre posições
sociais. Embora a estabilização da desigualdade implique processos normativos,
como é o caso da criação e garantia de direitos de propriedade, as
consequências da desigualdade são independentes da norma que eventualmente a
sustenta. Em relação à norma pode haver acordo ou desacordo, obediência ou
desobediência, conformidade ou desafetação. No limite, alguém em desacordo com
uma dada norma pode decidir, de um momento para o outro, pela oposição,
violação ou desafetação em relação a essa mesma norma. Pode decidir, por
exemplo, integrar um qualquer movimento de contestação, de desobediência ou de
“contracultura”. Alguém negativamente condicionado pela posição que ocupa não
pode, no entanto, decidir, de um momento para o outro, “ser rico”. Por outras
palavras, pode opor-se, de um momento para o outro, aos fundamentos normativos
da desigualdade mas não pode, de um momento para o outro, escapar aos
condicionamentos da capacidade para agir que resultam da desigualdade.
Do ponto de vista individual, a padronização fática das relações sociais tem
pois uma inércia maior do que a padronização normativa. Ao mesmo tempo, porém,
é atravessada por tensões endémicas, em consequência das distribuições
desiguais de oportunidades que envolve. Por isso, o seu tratamento, na história
da sociologia, esteve com frequência associado à análise da ação coletiva
enquanto modo de superar, por promoção da mudança através do conflito, a
desproporção de forças em que as assimetrias fáticas da desigualdade se
traduzem.
É verdade que a estabilização dos sistemas posicionais (fáticos) requer sempre
fundamentos normativos e, nesse sentido, todos os sistemas sociais são
complexos de posições e normas, como insiste Nicos Mouzelis (2008: 98-99).
Porém, tal não significa que os efeitos sistémicos de padronização, ou de
estrutura, sejam sempre efeitos combinados de condições e orientações. A
especificidade de cada um desses efeitos, fático no primeiro caso, normativo no
segundo, é real não apenas em termos analíticos como sociais. Os efeitos de
estrutura, ou efeitos sistémicos sobre as relações de âmbito meso ou micro,
devem pois ser tratados em termos próprios, isto é, em termos independentes dos
utilizados na análise da constituição e dinâmica interna dos sistemas sociais.
Esta é, também, a solução proposta por Margaret Archer, nomeadamente quando
distingue entre ciclo morfogenético da estrutura e ciclo morfogenético da
cultura: em traços largos, o primeiro corresponde ao que aqui designamos por
padronização fática, o segundo à padronização normativa (Archer, 1995).
Os padrões de relações sociais que constituem o objeto da sociologia têm, em
resumo, propriedades diferentes consoante o tipo de relações sociais em causa e
o modo da sua padronização. O cruzamento destas duas dimensões de análise dá
origem, por especificação dos efeitos de interação recíproca entre ambas
(Stinchcombe, 1968: 45-47), a seis categorias conceptuais que denotam outras
tantas categorias de padronização relacional (figura_1).
No eixo da padronização fática, ou das condições da ação, podemos distinguir,
em primeiro lugar, os fenómenos de sistematicidade posicional, de âmbito macro.
Estes incluem, em particular, o domínio dos sistemas de estratificação. Em
segundo lugar, os fenómenos de agrupamento em rede de âmbito meso, na origem de
circuitos latentes de informação e de recursos entre indivíduos e grupos
sistemicamente interconectados de modos variáveis. Por fim, os fenómenos
decisionais, de âmbito micro, com base nos interesses dos agentes e nas suas
oportunidades para agir, tendo esses interesses e oportunidades referência
posicional, quer nos sistemas de estratificação, quer nas redes sociais.
No eixo da padronização normativa, ou das orientações da ação, encontramos, em
primeiro lugar, os fenómenos de sistematicidade institucional, de âmbito macro.
Estes incluem, em particular, o domínio dos sistemas de normas enquanto
codificações externas que orientam a ação através da especificação de papéis.
Em segundo lugar, os fenómenos de agrupamento organizacional por coordenação e
estabilização de atos hierarquicamente combinados. Por fim, os fenómenos da
ação interpretativa, de âmbito micro, que incluem o conjunto de processos e
sistemas de interação que permitem fixar o sentido comunicacional e moral dos
atos, no âmbito do desempenho de papéis institucional e organizacionalmente
orientados.
Resumindo os argumentos desta secção:
a) para identificar as principais dimensões de análise da teoria sociológica
geral é necessário construir um conjunto de conceitos gerais e abstratos, por
um lado, mas especificadores de diferentes categorias de fenómenos, por outro;
b) no esquema conceptual proposto, as dimensões de análise mais abstratas e
gerais são os níveis relacionais de organização social e os modos de
padronização relacional;
c) na dimensão níveis relacionais de organização social são identificados
três tipos: a interação (micro), a constituição de grupos (meso) e a
interdependência sistémica (macro);
d) na dimensão modos de padronização relacional são identificadas duas
modalidades extremas: fática (condicionamento) e normativa (orientação);
e) o cruzamento destas duas dimensões de análise dá origem a seis categorias
conceptuais de menor grau de abstração mas ainda de elevada generalidade: ação
racional e ação interpretativa, agrupamento em rede e agrupamento
organizacional, sistematicidade posicional e sistematicidade institucional.
O esquema conceptual proposto permite organizar a construção de teorias
explicativas dos padrões de relações sociais, mas não constitui em si mesmo uma
explicação. Para explicar são necessários não só conceitos mas também relações
entre conceitos. Identificar as relações entre as categorias acima recenseadas
constitui por isso o objetivo da próxima secção.
Dimensões metodológicas
A seleção das relações pertinentes entre as dimensões analíticas depende do que
se pretende explicar. Alguns exemplos sobre debates clássicos e contemporâneos
no domínio da teoria sociológica ajudarão a ilustrar esta afirmação.
Primeiro exemplo. Com a definição de “ato elementar”, Talcott Parsons (1937)
propunha-se explicar a padronização das escolhas dos atores utilizando uma
fórmula do seguinte tipo: o ator interpreta a situação e escolhe meios e fins
tendo em conta as condições objetivas que defronta e as orientações ideacionais
a que está sujeito. Nesta explicação são selecionadas as relações que vão do
nível macro (condições e orientações) para o nível micro (ação) e colocadas
entre parêntesis as relações de sentido contrário (do micro para o macro).
Digamos que a ação social é aqui a variável dependente e a estrutura social a
variável independente.
Segundo exemplo, um pouco mais complexo. Para Raymond Boudon, todo o fenómeno
social macro é o produto de ações individuais, enunciado que inverte a linha
parsoniana de explicação, constituindo a ação em variável independente e o
macro em variável dependente.
Num caso como no outro o que está em jogo são menos questões de natureza
ontológica do que estratégias de explicação. Ambos os autores reconhecem a
existência de domínios sociais de âmbito macro e micro, bem como de relações
entre estes. O que os distingue é sobretudo o que definem como objeto a
explicar e como variáveis explicativas a reter nessa explicação. O mesmo é
aliás visível no aparente paradoxo com que o estudante de sociologia se depara
quando aborda a obra dos fundadores da disciplina. Durkheim, classificado como
fundador da tradição coletivista, foi o autor do estudo clássico empírico que
teve por objeto um dos mais individuais atos possíveis, o suicídio. Weber, o
fundador da tradição individualista, privilegiou, pelo contrário, o estudo
empírico de um dos objetos sociais mais macro, as religiões universais numa
perspetiva comparada. Paradoxo aparente, como se disse, porque o que distingue
aqueles autores, como o que distingue Parsons e Boudon, não é a seleção de
dimensões analíticas particulares, como o macro ou o micro, a ação ou o sistema
social, enquanto objeto da sociologia, mas a metodologia de explicação das
relações entre essas dimensões analíticas. Tal como em Parsons, encontramos no
Durkheim de O Suicídio um centramento na explicação do micro a partir do macro.
E, tal como em Boudon, o que encontramos nos estudos comparativos de Weber
sobre as religiões universais e as suas relações com a mudança económica é um
centramento na explicação do macro enquanto produto de ações individuais.
Continuando com o segundo exemplo que, como se referiu, é um pouco mais
complexo. Em rigor, Boudon não se centra exclusivamente nas relações que vão do
micro para o macro, como fica claro lendo a sua fórmula geral da explicação
sociológica: “o fenómeno M [i.e., macro] é uma função das ações m [i.e.,
micro], as quais dependem da situação S do ator, sendo essa situação afetada
por dados macrossociais M’” (Boudon, 1984: 52). Neste enunciado, estão
identificadas relações entre componentes do nível micro (S®m), do nível macro
para o micro (M’®S) e do nível micro para o macro (m®M). Há na fórmula, porém,
duas assimetrias fundamentais. Primeiro, uma assimetria metodológica entre o
estatuto das relações macro®micro — o macro afeta a situação do ator — e o
estatuto das relações micro®macro — o macro é uma função das ações individuais.
Segundo, uma assimetria ontológica entre as dinâmicas micro e as dinâmicas
macro, sendo identificadas relações micro®micro — a ação depende da situação do
ator, é uma função de adaptação do ator à situação — mas estando ausentes
quaisquer referências a relações entre fenómenos macro.
Esta segunda assimetria é também clara no célebre diagrama Coleman--Lindenberg
(Coleman, 1990: 8 e 702) sobre as microfundações do macrossocial, onde, de modo
muito simples, se estabelece que os resultados macro têm origem em ações
individuais com causas micro no plano individual (os sentidos da ação), as
quais, por sua vez, dependem de fenómenos macro (ver figura_2). Ou seja, os
resultados macro apenas indiretamente dependeriam de causas macro, tendo sempre
fundações micro expressas na sequência macrot®micro®macrot+1. Mais
concretamente, embora possam ser observadas regularidades no plano macro que
sugerem a existência de relações causais nesse plano, a explicação de tais
relações requer, segundo Coleman, a identificação sequencial do modo como os
fenómenos macro têm efeitos no plano micro da ação e, em seguida, como a ação
tem consequências agregadas, e em geral não intencionais, de âmbito macro. Em
suma, a explicação das relações macrot®macrot+1 necessitaria sempre de
fundamentos micro porque apenas a ação individual teria efeitos causais
geneticamente eficientes.
Se, nesta sequência, a relação final é do micro para o macro, assim
constituindo o macro, ou a estrutura social, em variável dependente, o passo
intermédio é o inverso deste, do macro para o micro. Nesse passo, o argumento
distingue-se mal do de Parsons sobre o ato elementar, sobretudo porque Coleman
vê a relação macro®micro como de orientação das intenções do ator num contexto
específico. Veja-se, por exemplo, o modo como Coleman exemplifica a relação
macro®micro usando o célebre estudo de Weber sobre A Ética Protestante e o
Espírito do Capitalismo (1983 [1904]): “A doutrina religiosa protestante gera
certos valores entre os seus aderentes” (Coleman, 1990: 8). Não sendo qualquer
doutrina uma entidade atuante, os efeitos sistemáticos de geração de valores
entre os seus aderentes só são explicáveis como efeitos de socialização no
sentido clássico do termo. A mesma similitude argumentativa pode ser encontrada
na analogia de Coleman entre o seu diagrama analítico e o jogo, em que o macro
seria a estrutura do jogo, em particular o seu conjunto de regras, e o micro os
jogadores e os atos do jogo. Esta é, na realidade, a analogia clássica
associada ao argumento institucionalista sobre a orientação normativa da ação
de que Parsons foi um dos promotores.
Se no modo como são mapeadas as relações macro®micro parecem ténues, num plano
muito geral e abstrato, as diferenças entre Coleman e o Parsons da primeira
fase, há contudo, se considerarmos o conjunto do diagrama Coleman-Lindenberg,
duas diferenças fundamentais entre estes autores. Em primeiro lugar, e como já
foi atrás referido, uma diferença de focagem, concentrando-se muita da
argumentação de Parsons, em A Estrutura da Ação Social (1937), na explicação do
passo macro®micro, enquanto a de Coleman se centra, em Fundamentos da Teoria
Social (1990), na explicação do passo micro®macro. Em segundo lugar, há em
Coleman uma recusa em conceptualizar as relações macrot®macrot+1 que não
encontramos nem em Parsons nem na sociologia mais estrutural em geral. Esta
recusa, porém, é menos absoluta do que parece numa primeira leitura, como
adiante se verá.
Para se perceber o que está em causa quando se fala em relações
macrot®macrot+1, é útil retomar a análise do diagrama Coleman-Lindenberg, em
particular numa das suas variantes hoje mais divulgadas, da autoria de Peter
Abell (2000: 227-231). Nesta variante, a terminologia é um pouco mais equívoca,
nomeadamente pelo uso recorrente, e indiferenciado, do termo “causas”. A
fórmula proposta por Abell pode ser resumida no seguinte enunciado: os
resultados macro têm origem em ações sociais individuais com causas micro no
plano individual, as quais, por sua vez, dependem de causas macro. A
terminologia é mais equívoca porque o uso das expressões “causas macro” e
“causas micro” para qualificar a relação do nível macro para o nível micro é
contraditória com o postulado das microfundações do macrossocial. Se o macro
não é causa porque não tem substância para além das ações (micro) que o
constituem, a expressão “causas macro” é tão equívoca quando usada para
explicar os “resultados macro” como quando usada para explicar as “causas
micro”. Ou seja, os mesmos argumentos mobilizados para questionar a existência
de causalidade macrot®macrot+1 podem também ser usados para questionar a
causalidade macro®micro quando esta é definida como uma relação entre causas
(macro e micro). Se nenhum fenómeno macro tem qualquer substância para além da
ação, e por isso não tem efeitos diretos sobre outros fenómenos macro, também
não pode ter efeitos diretos sobre fenómenos micro anteriores à ação (Vromen,
2010). E as causas macro e micro, se são causas, têm que ser anteriores à ação.
É verdade que parte do problema pode ser eliminado se as causas micro forem
definidas como interiores ao agente individual e a relação deste com o macro
for definida como de adaptação a algo preexistente mais do que como relação
causal. Neste caso, por causas micro dever-se-iam entender, como em Weber (1984
[1922]: 5), os sentidos subjetivos da ação. Porém, se, como propõe Abell,
continuarmos a seguir Weber e definirmos o sentido dos atos sociais como
intersubjetivos, na medida em que a formação do seu sentido integra a
interpretação do sentido que outros atribuem ao mesmo tipo de ato, então as
causas micro têm que incluir não apenas a subjetividade do agente individual
mas também a situação interativa de interdependência das ações individuais no
âmbito das quais se constitui o sentido social da ação individual. Ou seja, o
nível individual das causas micro não pode ser o do indivíduo singular mas o
das relações interindividuais (ou de interação).
Este é o caminho que encontramos em Boudon. A fórmula de explicação proposta
por este autor tem ainda a vantagem de evitar a terminologia indiferenciada das
causas e distinguir diferentes tipos de efeitos entre diferentes níveis de
análise. Boudon distingue, em particular, entre:
efeitos condicionadores, na relação macro®situação (macro®micro); efeitos
seletivos, na relação situação®ação (micro®micro); efeitos causais,
generativos, na relação ação®macro (micro®macro).
Note-se que, em Boudon, o nível micro não está reduzido ao plano da ação do
indivíduo singular, sendo antes constituído pela sequência situação®ação. Ou
seja, em Boudon a relação macro®micro não implica diretamente a ação, não tendo
por isso as mesmas propriedades que as relações que envolvem diretamente atos.
Ora, removida a condição de que só existem efeitos causais diretamente mediados
pela ação, tem sentido questionar o não reconhecimento de efeitos de qualquer
tipo na relação macrot®macrot+1. Porém, ao fazê-lo é necessário, a exemplo de
Boudon, identificar a especificidade dessa eventual relação em lugar de a
subsumir numa qualquer designação genérica de causalidade indistinta da
operante noutras relações analíticas.
Consideremos um exemplo simples para clarificar o que está em jogo. É frequente
a criação de novas normas que revelam incompatibilidades com normas
preexistentes. Essa incompatibilidade é, em si mesma, um facto social de âmbito
macro. Contudo, o que constitui este novo facto macro não é a nova norma mas a
interdependência entre nova e antigas normas, interdependência essa
constitutiva do domínio das relações macrot®macrot+1. Note-se que estas
relações têm propriedades diferentes das identificadas por Boudon. Não são nem
relações generativas nem relações condicionantes, mas relações lógicas
especificamente sistémicas, na origem de novas propriedades do nível macro.
Para que tais propriedades possam ter efeitos causais, é necessária uma nova
sequência macrot®situação(micro)®ação(micro)®macrot+1. Porém, nessa nova
sequência os efeitos condicionadores na relação macro®situação serão diferentes
não apenas em função dos resultados da ação no ciclo anterior — a nova norma —
mas também em função das relações sistémicas de incompatibilidade originadas
pela relação entre nova norma e normas anteriores. Ou seja, as relações de
compatibilidade ou incompatibilidade a nível sistémico são lógicas mas têm
efeitos através das novas cadeias temporais de condicionamento da ação na
relação macro®micro. Resumindo o argumento, novos fenómenos sociais no plano
macro não são apenas o resultado agregado de novos atos (micro), dependem
também do modo como esse resultado se combina sistemicamente com resultados
(macro) de atos anteriores. Interdependências sistémicas no plano macro
conduzem pois à emergência de propriedades macro, ou estruturais, não
redutíveis ao plano micro.
Na verdade, o próprio Coleman reconhece, de passagem, esta irredutibilidade por
via de um tipo particular de efeitos do macro ainda não referido: os efeitos do
macro nos processos de agregação dos resultados da ação e não apenas nos
processos de iniciação dessa mesma ação. Citando: “As outras duas componentes
do tipo de teoria social aqui em causa, através das quais ocorrem a transição
do macro para o micro e a transição de regresso ao nível macro, podem ser
concebidas como regras do jogo, regras que transmitem consequências da ação de
um indivíduo para outros indivíduos e regras que extraem resultados a nível
macro da combinação de ações individuais” (Coleman, 1990: 19). Ou seja, as
propriedades emergentes do nível macro manifestam-se em três domínios
relacionais mutuamente irredutíveis entre si: nas relações macro®micro,
macrot®macrot+1 e macro®agregação (ver setas interrogadas na figura_2).
O reconhecimento da irredutibilidade das propriedades emergentes no plano macro
(ou estrutural) é compatível com o reconhecimento de que os fenómenos macro, ou
estruturas socioculturais, só têm efeitos através da ação. Exemplo desta
compatibilidade são as propostas teóricas de Margaret Archer que sustenta,
simultaneamente, que “os agentes não esgotam a realidade social, uma vez que
existem propriedades emergentes materiais e ideacionais portadoras de poderes
causais” (Archer, 1995: 195), por um lado, e que, numa formulação muito próxima
da de Boudon, essas propriedades emergentes macro só têm efeitos através da
ação, efeitos esses que “operam através da moldagem das situações com que as
pessoas se defrontam” (idem: 201).
Como Coleman, também Archer define as relações interníveis como uma sequência
temporal [estrutura (macro)®interação (micro)®estrutura (macro)], que designa
por ciclo morfogenético. No entanto, e para além da argumentação em favor da
irredutibilidade das propriedades emergentes no plano macro (ou estrutural),
que a opõe ao individualismo metodológico em geral, Archer distingue-se ainda
daqueles autores por propor um esquema analítico com três níveis relacionais e
não apenas dois. São eles as estruturas socioculturais, os grupos e as
interações, a que correspondem, na terminologia e definições utilizadas na
presente discussão, os níveis macro, meso e micro da realidade social.
Distinguir analiticamente o nível meso é fundamental não para ordenar de forma
mais fina um qualquer contínuo entre micro e macro, mas para especificar um
tipo particular de relações sociais irredutível quer às relações de interação
entre pessoas, quer às relações sistémicas entre propriedades das relações
entre pessoas. O nível meso é o das relações de agrupamento e o das relações
entre esses agrupamentos (relações entre relações). Essas relações têm
propriedades específicas. Tal como as de interação, são relações entre atos,
âmbito que não inclui as relações sistémicas. Mas, tal como as relações
sistémicas, também as relações entre grupos não são relações de
intersubjetividade, propriedade que é exclusiva das relações de interação. Por
outro lado, a análise dos grupos, e em particular das organizações, permite
explicar, de modo mais completo do que aquele que é possível quando
considerados apenas os processos de agregação, como são estabilizadas e
combinadas, em escalas de crescente amplitude, as relações de interação.
O esquema metodológico que se propõe na figura_3 retém vários dos contributos
discutidos nos parágrafos anteriores. Retém, em primeiro lugar, a representação
trapezoidal do diagrama Coleman-Lindenberg, pois ela permite combinar de modo
particularmente feliz a especificação das relações entre níveis de análise com
diferentes escalas, por um lado, com o sentido temporal dessas relações, por
outro. É assim mais fácil evitar os círculos viciosos das setas de duplo
sentido e a consequente indeterminação dos enunciados de causalidade. Retém, em
segundo lugar, o cuidado com a especificação das propriedades das diferentes
causalidades operantes em cada tipo particular de relação (como em Boudon,
embora em termos mais alargados), quer entre níveis de análise, quer
intraníveis. Retém, por fim, a decomposição do espaço relacional nos três
níveis já definidos no esquema conceptual apresentado na secção anterior deste
capítulo e sumariado na figura_1 (como proposto por Archer e também por
Turner).
Lendo o esquema de cima para baixo e da esquerda para a direita, começamos por
encontrar as relações macro®micro e macro®meso, que podem ser definidas como de
estruturação. Por estruturação entende-se o conjunto dos efeitos padronizados
de condicionamento fático e de orientação normativa da ação nos níveis meso e
micro, já referidos na secção anterior. O mesmo tipo de efeitos opera ainda do
nível meso para o micro, nomeadamente através do posicionamento individual nas
redes sociais e da pressão normativa dos grupos sobre os seus membros. No plano
fático, a estruturação é a delimitação das condições materiais e relacionais da
ação, as primeiras de âmbito macro e meso, as segundas de âmbito sobretudo
meso. Tanto no plano da ação individual (micro) como no da ação coletiva
(meso), a estruturação fática delimita o domínio dos dilemas decisionais
racionalmente enfrentados pelos agentes em função das características da
situação. A estruturação normativa, por outro lado, exprime-se em orientações
sociais da ação individual e coletiva, mais gerais e abstratas quando macro,
mais específicas e concretas quando grupais. Tanto no plano da ação individual
(micro) como no da ação coletiva (meso), a estruturação normativa delimita o
campo dos dilemas interpretativos interativamente enfrentados pelos agentes em
função das características da situação.
É comum, mas errado pensar a estruturação sobretudo como efeito negativo, de
constrangimento macro das possibilidades da ação, erro aliás sistematicamente
assinalado pelos autores habitualmente designados como estruturacionistas (como
Bourdieu e Giddens). Como se, potencialmente, o indivíduo abstrato tivesse
todas as capacidades para agir e todas as competências para definir os sentidos
dessa ação mas o seu posicionamento social limitasse um tal potencial
ilimitado. Ora, a ampliação da capacidade para agir e para definir os fins da
ação é potenciada pelo uso de recursos materiais e simbólicos bem como pela
possibilidade de controlar a reação de outros a essa ação. Capacidade e
possibilidade que dependem do posicionamento social, não da ausência de
posicionamento. Isto é, a desigualdade fática e normativa dos posicionamentos
sociais explica tanto a maior capacidade de uns agentes como a menor capacidade
de outros. Um excessivo centramento analítico e temático nos efeitos de
constrangimento da estruturação, em detrimento dos efeitos de capacitação
desta, deve por isso ser evitado.
Entre os níveis meso e micro operam, nos dois sentidos, os efeitos causais do
poder dos agentes individuais e coletivos. Por poder de um agente pode
entender-se “a probabilidade de [esse agente] impor a sua vontade numa relação
social, ainda que contra toda a resistência e qualquer que seja o fundamento
dessa probabilidade” (Weber, 1984 [1922]: 41). Dizer que A tem poder sobre B é
o mesmo que dizer que o comportamento de A causa, intencionalmente, o
comportamento de B. No esquema metodológico representado na figura_3, o poder
pode pois ser definido como efeito causal intencional da ação, individual ou
coletiva, no plano relacional. Tal como no caso das relações de estruturação,
os efeitos causais do poder operam tanto no plano fático, por confronto com a
desproporção das capacidades para agir numa relação social específica, como no
plano normativo, por justificação das assimetrias decisionais e a consequente
conformidade com, ou mesmo aprovação consensual das, assimetrias em questão. O
poder causal dos agentes começa por ser uma função positiva do grau de acesso a
recursos e lugares de autoridade por esses agentes. É, por isso, uma
propriedade tanto dos agentes como das posições sociais que estes ocupam. Ou
seja, os diferenciais padronizados de poder são, em parte, explicáveis pelos
efeitos de estruturação fática e normativa da ação e das situações de interação
já identificados nos parágrafos anteriores.
Episodicamente presentes nas relações de interação, os efeitos causais do poder
são estabilizados pelas e nas organizações (Clegg, 1989), sendo por isso ao
nível meso que se concentram as dinâmicas de padronização das relações de poder
e a constituição da sua eficácia quer nas relações meso®micro, quer nas
relações meso®macro. As organizações, enquanto conjuntos de mecanismos formais
de coordenação, por comando e monitorização, das atividades dos seus membros na
prossecução de objetivos específicos, permitem, no primeiro caso, disciplinar o
arbítrio da agência individual e, no segundo, ampliar a capacidade de desenho
estratégico tanto por elaboração normativa como por alocação de recursos. Nas
dinâmicas de reprodução social simples, a eficácia causal do poder é pois maior
nas relações do nível meso com os outros dois níveis (meso®micro, micro®meso e
meso®macro). Já em contextos de mudança a eficácia causal do poder tende a
deslocar-se para o domínio das relações micro®macro (e micro®meso), num
primeiro momento, sendo os resultados dessa deslocação fixáveis, num segundo
momento, por regresso às dinâmicas organizacionais de nível meso e às relações
de poder meso®micro e meso®macro. A emergência de processos de liderança
carismática e de fixação dos seus resultados por rotinização do carisma,
analisados por Weber (1984 [1922]: 847-889), ilustra bem, num domínio
particular, as dinâmicas diferenciais das relações de poder interníveis em
momentos de estabilidade e de mudança social.
Por fim, no plano das relações interníveis encontramos, no esquema da figura 3,
os efeitos de agregação da ação do nível micro (ação individual) para os níveis
meso e macro e do nível meso (ação coletiva) para o nível macro. Segundo Boudon
e Bourricaud (1982: 16), por efeitos de agregação devem entender-se os
resultados não intencionais das combinações de atos intencionais. A definição é
simples mas o problema analítico que delimita é, para a sociologia, dos mais
complexos de resolver teoricamente. A própria representação diagramática o
revela pela maior concentração de relações na transição micro(®meso)®macro do
que noutras fases da explicação sociológica. A maior complexidade resulta
sobretudo do facto de os motivos dos atos não explicarem por si só os
resultados combinados desses atos, pois essa combinação é, por sua vez, afetada
pelas relações de nível macro e meso. Por outras palavras, aquelas relações não
afetam apenas a iniciação dos atos mas também, e de modo autónomo, a sua
combinação.
Este facto, porém, não permite concluir pela dispensabilidade da análise da
iniciação da ação, pois, como se disse, não há, a priori, qualquer garantia de
que os resultados agregados da ação sejam coincidentes, em maior ou menor grau,
com os motivos dos atos. Não é possível, nem deduzir os resultados agregados
dos atos dos motivos que deram origem aos atos, nem deduzir esses motivos dos
resultados agregados. O problema da agregação tem pois duas faces. O
conhecimento da iniciação dos atos, seja internamente, por identificação dos
motivos dos atores para agirem, seja externamente, por análise dos efeitos das
relações de estruturação e de poder sobre as situações da ação e sobre os
atores, e em particular sobre a constituição daqueles motivos, pode dizer pouco
ou nada sobre os efeitos agregados desses mesmos atos. Por outro lado, o
conhecimento dos efeitos agregados dos atos pode dizer pouco ou nada sobre a
sua iniciação. Em resumo, a análise da transição micro(®meso)®macro obriga à
combinação analítica das explicações sobre a iniciação e sobre a combinação dos
atos que estão na origem de efeitos aos níveis meso e macro.
Quando aquela combinação é dispensada não só aumenta o risco de falácia
argumentativa como o risco de reificação analítica. Uma ilustração simples para
clarificar ambos os riscos, utilizando para o efeito comentários-tipo sobre as
preferências do “eleitorado”, tão frequentes depois de conhecidos os resultados
de atos eleitorais. Consideremos o seguinte exemplo: (i) em datas próximas
realizaram-se eleições parlamentares e presidenciais; (ii) nas eleições
parlamentares, o partido A teve 45% dos votos e o partido B 55%; (iii) nas
eleições presidenciais inverteram-se as escolhas e o candidato apoiado pelo
partido A teve 55% dos votos e o candidato apoiado pelo partido B 45%.
Comentário-tipo: o “eleitorado” privilegiou a concertação, pelo que os
eleitores recusaram “colocar todos os ovos no mesmo cesto”. A conclusão, como
facilmente se percebe, é completamente falaciosa. Até é possível que houvesse,
nas eleições em causa, 10% de eleitores moderados que, preocupados com a
possibilidade de radicalização de uma escolha demasiado polarizada, tenham
decidido alterar o seu voto de uma eleição para a outra para fazer emergir um
sistema de pesos e contrapesos (embora seja mais provável que a diferença se
deva simplesmente aos maiores efeitos de personalização na segunda eleição).
Porém, é possível que esses 10% de eleitores convivam com 90% de eleitores com
orientações radicalmente opostas, pouco convencidos das vantagens da moderação
e da negociação. Se assim for, é possível que, a prazo, em lugar de dinâmicas
de concertação apoiadas por um sistema de equilíbrio de poderes se caminhe
antes para uma generalização do confronto que envolva os próprios titulares dos
lugares institucionais ocupados por representantes de partidos opostos, e,
eventualmente, para uma crise não só política mas também institucional. Por uma
razão, aliás, muito simples: os resultados eleitorais não têm origem numa
escolha feita por uma qualquer entidade mítica de nome “eleitorado” mas na
combinação de milhões de escolhas individuais feitas com diferentes
preferências. Falar em “eleitorado” como se de um agente se tratasse, com
preferências e capacidades de ação, é reificar um resultado agregado para
construir uma explicação fácil, porque dispensa a produção de conhecimento
sobre as razões individuais da ação, mas em geral falsa.
Como se disse, a agregação dos resultados da ação é afetada por relações de
estruturação e de poder. Depende, em particular, do grau e tipo de cooperação,
regulação e negociação que influenciam a combinação dos resultados da ação. No
exemplo do parágrafo anterior, a agregação é organizada por regras de decisão
coletiva baseadas em escolhas individuais. Já no muito citado exemplo de Merton
(1968 [1949]: 516-518) sobre a profecia autorrealizada, em que um banco
saudável vai à falência em consequência da corrida aos depósitos originada pelo
rumor de que esse banco estaria falido, o gau de cooperação, negociação e
regulação é mínimo. A combinação dos resultados dos atos é simplesmente
aditiva, do tipo reação de pânico, mas com consequências — a falência do banco
e, portanto, a perca das poupanças dos depositantes — exatamente contrárias às
pretendidas por cada ator, enquanto depositante — salvar as suas poupanças.
Consideremos agora um terceiro exemplo, em que a combinação dos atos é feita
por representação e negociação. Quando há negociação entre partes em confronto,
o resultado final pode ser diferente do pretendido pelos membros de cada parte,
sendo impossível deduzir desse resultado os motivos e objetivos desses membros.
Em rigor, há neste caso uma articulação entre efeitos de agregação e efeitos de
poder (por organização da representação), sendo que dessa articulação resulta
uma solução não intencional tendo em conta os objetivos de partida dos membros
das partes em confronto, mas intencional do ponto de vista dos representantes
das partes responsáveis pela negociação que produziu a solução.
Este último caso é útil para se perceberem quer as diferenças entre os dois
tipos de relações micro(®meso)®macro identificados no esquema metodológico
proposto, quer os ganhos de capacidade explicativa obtidos quando são
consideradas as possíveis articulações entre eles. Por exemplo, uma focagem
tendencialmente exclusiva na análise dos efeitos de agregação tende a gerar
três tipos de problemas, aliás associados.
Em primeiro lugar, tende a acentuar-se unilateralmente o caráter não
intencional da ordem social. Ora, se é verdade que não são verosímeis as
explicações da ordem social como, no essencial, o resultado de um desenho
intencional, e mais ou menos conspirativo, protagonizado por atores individuais
e coletivos poderosos, também não é aceitável a imagem oposta, de uma realidade
emergente com propriedades em geral diferentes das intenções dos atos que lhe
deram origem. A maior ou menor congruência entre razões da ação e resultados
combinados da ação deve ser tratada como variável a analisar, teórica e
empiricamente, não como a priori sobre a “natureza” da ordem social. Por
exemplo, ao nível meso, da ação organizacional, essa correspondência tende a
ser elevada, ainda que nunca completa e permanente.
Em segundo lugar, aquela focagem tende a desvalorizar a pertinência da análise
sociológica dos casos em que é elevada a correspondência entre as razões dos
atos e os resultados combinados desses mesmos atos. Veja-se o que Boudon chega
a dizer a este propósito: consideremos o caso em que “um fenómeno M [se] produz
porque os indivíduos agem de modo a que ele se produza. Isto, por vezes, é
verdadeiro. Mas então não temos grande necessidade dos serviços das ciências
sociais” (Boudon, 1984: 94). Ora, sabendo que muitas vezes não há
correspondência entre as razões dos atos e os resultados combinados desses
mesmos atos, mesmo quando tal correspondência é não só desejada pelos atores
como por estes procurada, é necessário explicar porque há casos em que essa
correspondência se verifica. A explicação de uma variação exige a explicação
dos diferentes resultados observados. Não é trivial a explicação do grau de
eficácia da ação conseguido, por exemplo, no funcionamento de uma grande
fábrica ou de uma rede de transportes.
Finalmente, uma excessiva focagem na análise dos efeitos de agregação, das
consequências não intencionais da ação intencional, tende para uma
conceptualização indiferenciada dos atores e agentes sociais em função da
categoria abstrata de indivíduo. Ora, os modos de relação dos atores com as
condições da ação variam, em particular em função dos diferenciais de poder
desses mesmos atores. Como sublinha Tom R. Burns, embora “as instituições
sociais [devam] ser conceptualizadas e analisadas como algo emergente de
transações sociais concretas em vez de algo que opera teleologicamente, […] a
produção/reprodução das ordens sociais locais — embora afetando certamente as
macroestruturas — não é frequentemente o fator principal ou dominante na
macroestruturação. […] elites poderosas e agentes poderosos atuam
estrategicamente e lutam — mobilizando os recursos do poder à sua disposição —
para estabelecer e manter arranjos institucionais que lhes parecem satisfazer
os seus interesses. Esses arranjos são tipicamente desenhados […] por atores da
elite com o objetivo de produzir padrões determinados e desejados de transações
e de resultados. Por outras palavras, pretende-se que eles operem
‘teleologicamente’” (Burns e Flam, 1987: 88, itálico no original).
Por todas estas razões, a explicação da transição micro(®meso)®macro deve ter
em conta a análise tanto dos efeitos de agregação como dos efeitos causais do
poder, tanto das consequências não intencionais como das consequências
intencionais da ação. Nuns casos, a análise deve diferenciar os processos em
que predomina um ou outro daqueles efeitos. Noutros casos, de que modo eles se
combinam, num mesmo processo, tendo em conta os diferenciais de poder entre os
diferentes atores e agentes.
Para concluir, uma breve referência às relações intraníveis. As relações de
interação, no nível micro, são relações intersubjetivas e entre atos
individuais em cujo âmbito são reelaboradas as decisões e interpretações
relativas às condições e orientações macro e meso da ação e das quais emergem
efeitos de agregação e de poder constitutivos dos níveis meso e macro. As
relações de agrupamento, no nível meso, são relações de coordenação e,
eventualmente, estabilização de atos interativamente combinados e relações
entre atores coletivos com graus variáveis de organização, bem como entre atos
coletivos, em cujo âmbito são fixadas e transformadas as condições e
orientações macro da ação e das quais emergem consequências agregadas ao nível
macro, condições e orientações que estruturam as interações no plano micro e
efeitos de poder que moldam os níveis micro e macro. Por fim, as relações de
sistematicidade, no nível macro, são relações de interdependência entre
propriedades das relações entre pessoas e entre grupos, nos domínios posicional
e institucional, das quais emergem as condições e orientações da ação
individual e coletiva nos planos meso e micro. Nos três níveis, as relações
entre as dimensões fáticas e normativas da ordem social podem ser de
complementaridade funcional ou, pelo contrário, de natureza disfuncional,
geradores de tensões sociais e sistémicas.
Os principais argumentos desta secção podem ser resumidos em seis enunciados:
a) entre os níveis micro, meso e macro operam diferentes tipos de
causalidade, cujas propriedades particulares devem ser especificadas;
b) as relações macro(®meso)®micro são relações de estruturação, isto é,
relações de condicionamento fático e de orientação normativa da ação nos níveis
meso e micro;
c) entre os níveis meso e micro operam, nos dois sentidos, os efeitos
causais do poder dos agentes individuais e coletivos;
d) as relações micro(®meso)®macro são relações de poder e de agregação, na
origem de consequências não intencionais e intencionais constitutivas do nível
macro;
e) efeitos de agregação são resultados não intencionais das combinações de
atos intencionais, combinações essas afetadas pelas relações de estruturação e
de poder com origem nos níveis macro e meso;
f) novos fenómenos sociais no plano macro não são apenas o resultado de
novos atos nos níveis micro e meso, dependem também do modo como esse resultado
se combina sistemicamente com resultados macro de atos anteriores
(macrot®macrot+1).
Com as adaptações decorrentes destes enunciados, há vantagens no uso do
diagrama Coleman-Lindenberg para representar as relações entre os níveis micro,
meso e macro, pois ele permite especificar o sentido causal dessas relações.
Claro que nem a teoria nem a análise sociológica se desenvolvem através do
acionamento sistemático de todas as dimensões conceptuais e metodológicas
mapeadas nas figuras 1 e 3. Em função do problema em estudo, deve ser feita a
seleção e combinação das dimensões para o efeito pertinentes. Nessa operação
convém, porém, ter presente a totalidade das dimensões mapeadas para
circunscrever o âmbito de aplicabilidade das explicações a construir.