Políticas públicas de energia e ambiente: rumo a um país sustentável?
Introdução
No contexto de crise em que Portugal se encontra, o debate em torno das
políticas públicas de energia adquire particular acuidade.
A importância estratégica e económica das políticas de energia é inegável. Não
foi por acaso que, na génese da União Europeia, estiveram duas organizações
orientadas para a temática energética, a Comunidade Europeia do Carvão e do Aço
e a Comunidade Europeia de Energia Atómica.
Uma reflexão sobre as políticas de energia em Portugal não pode ser feita sem
ter em atenção o contexto internacional e mais concretamente europeu. Mas
igualmente importante é imprimir uma visão integrada e multidisciplinar à
análise, associando outras áreas das políticas públicas, nomeadamente as
relacionadas com ambiente e clima, que adquirem um peso crescente nos processos
de desenho e concretização das políticas de energia.
Neste artigo, pretende-se traçar o percurso das políticas de energia e ambiente
em Portugal nos últimos quarenta anos, identificar tendências de convergência
entre as duas áreas de política, bem como os principais desafios que têm que
ser enfrentados para transformar Portugal num país mais sustentável.
As políticas públicas de energia e ambiente em Portugal, no contexto europeu e
internacional
Com a revolução industrial, os combustíveis fósseis tornaram-se o suporte
principal das sociedades e das economias ocidentais. Portugal foi o último dos
países da Europa ocidental a conhecer os efeitos da industrialização: só a
partir de meados do século XX a produção industrial conseguiu suplantar o peso
da agricultura na economia portuguesa (Lains, 1994).
A industrialização tardia é um fator essencial para compreender a evolução da
matriz energética em Portugal: na primeira metade do século passado, o carvão
era a principal fonte de energia, complementada, de forma crescente, pela
hidroeletricidade, na sequência de um importante programa de investimentos em
novas e maiores centrais hidroelétricas. Só a partir da década de 60, durante a
fase de maior crescimento industrial nacional, se verificou um aumento
significativo do uso do petróleo (Lains, 1994).
No entanto, é a partir de 1973, com o primeiro choque petrolífero e o aumento
exponencial do preço do petróleo, que entra verdadeiramente no debate político
o problema da dependência externa de combustíveis fósseis.
As principais fases que caracterizam as políticas energéticas e de ambiente em
Portugal desde então são apresentadas de seguida.
1973-1986, o problema da dependência energética
O choque petrolífero de 1973 teve como consequência o aumento da perceção da
dependência e das fragilidades do país, quer ao nível da segurança do
abastecimento quer das flutuações dos preços dos combustíveis fósseis.
O embargo ao fornecimento de combustíveis afetou fortemente o país, o que fez
emergir a consciência da necessidade estratégica de assegurar o acesso às
fontes de energia.
Todo este contexto teve impactos significativos no desempenho das indústrias
petroquímica e de refinaria nacionais, que, embora em expansão desde a década
de 60, não tinham capacidade para enfrentar a concorrência internacional; como
consequência, foi reforçada a legislação protecionista a este setor da
atividade económica.
Após a mudança de regime político em 1974, Portugal registou um crescimento
demográfico expressivo, resultado do decréscimo da emigração e do regresso
maciço de população das ex-colónias, o que teve como consequência inevitável um
acréscimo do consumo de energia no país.
As empresas do setor energético, consideradas de importância estratégica para a
economia nacional, foram então nacionalizadas, passando a ser exploradas em
regime de serviço público de titularidade pública (Silva, 2011).
A revisão constitucional de 1984 estabeleceu como prioridade para o país adotar
uma política nacional de energia, com preservação dos recursos naturais e do
equilíbrio ecológico, promovendo neste domínio a cooperação internacional.
Nesse mesmo ano, é aprovado o Plano Energético Nacional, que faz um diagnóstico
da situação energética do país e fomenta o debate e a reflexão sobre o tema. O
discurso político começou a evidenciar a preocupação com a dependência
energética externa e com a necessidade de recorrer a fontes de energia
alternativas. Veja-se o debate que, no âmbito deste plano, foi feito em torno
da opção nuclear.
Ao nível comunitário, a política de ambiente teve início antes de qualquer
política de energia. Com efeito, a atenção pública e política às preocupações
ambientais surgiu após uma série de catástrofes ambientais no final da década
de 60 do século XX (como o derrame do petroleiro TorreyCanyon) (McCormick,
2001). A Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, em Estocolmo,
em 1972, e o Relatório Meadows do Clube de Roma, sobre os limites do
crescimento asseguraram também essa atenção.
No entanto, as crises energéticas (e económicas, que se lhes seguiram)
ocorridas não só com o choque petrolífero de 1973 mas também com o de 1979,
condicionaram o desenvolvimento da política de ambiente, ao nível comunitário.
Também os estados-membros, escudados no Tratado de Roma, que não continha uma
referência explícita ao ambiente e à sua preservação, resistiam à transposição
das primeiras diretivas comunitárias neste âmbito e à implementação de medidas
de proteção do ambiente, consideradas onerosas e por isso obstaculizadoras do
crescimento económico e da competitividade.
A preocupação com questões energéticas, nomeadamente com a segurança do
abastecimento e as suas implicações económicas, adquiriu uma expressão
significativa e definitiva neste período.
Paralelamente, a Comunidade Europeia foi dando os primeiros passos em matéria
de política ambiental, com uma abordagem essencialmente temática e setorial,
através de algumas diretivas, e surgem os primeiros Programas de Ação das
Comunidades Europeias em Matéria de Ambiente (Scheuer, 2005).
No que respeita a Portugal, neste período caracterizado pela mudança do
regime político, em 1974, pela crise do défice público e pelas intervenções do
Fundo Monetário Internacional (FMI), em 1977 e 1983 foi dada prioridade ao
controlo dos défices orçamentais e à recuperação da economia portuguesa, pelo
que as preocupações públicas e políticas com as questões ambientais eram ainda
reduzidas.
1986-1999, a atenção política aos problemas ambientais e climáticos
Foi com o Ato Único Europeu, em 1986, que a Comunidade Europeia passou a ter
competências específicas na área da política de ambiente, que passou a ter uma
dimensão própria e uma atenção particular (McCormick, 2001). Foi introduzido o
princípio do poluidor-pagador e implementada a diretiva de avaliação de impacte
ambiental (AIA), relativa à avaliação dos efeitos de projetos públicos e
privados no ambiente.
No mesmo ano, efetivou-se a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia.
O significativo crescimento económico que o país registou então refletiu-se na
modernização da indústria nacional e no forte desenvolvimento dos setores das
obras públicas e construção civil. Também o setor dos transportes conheceu uma
forte expansão, fruto da aplicação de fundos comunitários em infraestruturas,
em particular rodoviárias.
Como consequência do crescimento económico, o consumo de energia no país
continuou a aumentar, com claro predomínio do uso do petróleo. O investimento
na construção de novas centrais térmicas a carvão e gás permitiu diminuir o uso
do petróleo na geração elétrica, mas essa diminuição não teve expressão devido,
em especial, ao aumento do consumo de energia associado ao crescimento
exponencial do parque automóvel, dada a clara opção pelo transporte rodoviário
em detrimento do ferroviário.
Foi neste período que os problemas ambientais se começaram a evidenciar mais em
Portugal. Em 1987, foi publicada a Lei de Bases do Ambiente e a Lei das
Associações de Defesa do Ambiente, e o final da década de 80 foi marcado por
uma grande produção de legislação de ambiente, sobretudo por pressão
comunitária.
Em 1986, foi também aprovada legislação que estimula a diversificação das
fontes de energia, incluindo recursos renováveis, nomeadamente através da
criação de um sistema de estímulos à utilização racional e ao desenvolvimento
de novas formas de energia, sendo ainda estabelecido um regime de produção de
energia elétrica por produtores independentes, desde que fossem utilizados
recursos renováveis, combustíveis resultantes de resíduos industriais,
agrícolas ou urbanos ou utilizadas instalações de cogeração.
O Programa do XI Governo Constitucional (1987-91) veio preconizar, pela
primeira vez, o aproveitamento dos recursos naturais para produção de energia,
referência que passou a ser matéria constante nos programas de governo que se
lhe seguiram.
Em 1988, teve início o processo de reprivatização de uma parte substancial do
capital das empresas de energia, nacionalizadas na década anterior (Silva,
2011).
Foi nesta fase que, a nível internacional, começou a ser dada maior atenção
pública e política ao problema do aquecimento global e das alterações
climáticas, tendo em 1988 sido constituído o Intergovernamental Panel on
Climate Change (IPCC). A publicação do seu primeiro relatório, em 1990, foi
determinante para a evidência da consciencialização da ameaça daquele fenómeno
induzido pelo homem.
O Tratado de Maastricht, assinado em 1992, incorporou o conceito de
desenvolvimento sustentável e imprimiu uma abordagem transversal e integradora
das várias temáticas ambientais, o que aliás a diretiva de AIA já preconizava.
Foi este o sentido dado ao V Programa de Ação das Comunidades Europeias em
Matéria de Ambiente (1992-2000) (Scheuer, 2005) e foi esta a perspetiva central
da Conferência das Nações Unidas sobre Ambiente e Desenvolvimento, realizada no
Rio de Janeiro (1992), onde é ressaltada a perspetiva global dos problemas
ambientais, em particular das alterações climáticas.
Naquele âmbito, foi assinada, por mais de 150 países, a Convenção-Quadro das
Nações Unidas sobre Alterações Climáticas, que encorajava os países
industrializados a estabilizar as suas emissões de gases com efeito de estufa.
Com efeito, foram apresentadas evidências de que a temperatura média global da
atmosfera estava a aumentar devido ao aumento assinalável dos gases com efeito
de estufa, com origem antropogénica. Uma das principais fontes apontadas é a
queima de combustíveis fósseis, identificando-se então a necessidade de fontes
de energia alternativas. Refira-se, aliás, que o setor da energia foi um dos
domínios cobertos pelo já mencionado V Programa de Ação, por ser considerado um
dos mais suscetíveis de causar pressão sobre o ambiente.
Em 1992, Portugal exerceu a presidência do Conselho Europeu, tendo a Convenção-
Quadro sido aprovada ao nível interno no ano seguinte. Trata-se do primeiro ato
legislativo e político relacionado com alterações climáticas no país. Além do
mais, a primeira referência a esta problemática num programa do governo surge
no XII Governo Constitucional (1991-95), onde são evidenciados os impactes
ambientais decorrentes do setor da energia, no âmbito desta política setorial.
Em 1997, foi assinado o Tratado de Amesterdão, que reforçou o objetivo de
desenvolvimento sustentável e veio afirmar a necessidade de integração das
preocupações ambientais e sua preservação no estabelecimento de todas as outras
políticas da União Europeia.
Nesse mesmo ano, foi assinado o Protocolo de Quioto (que entrou em vigor apenas
em 2005), marco fundamental na política internacional de combate às alterações
climáticas, vinculando os países industrializados a diferentes metas de redução
das emissões de gases com efeito de estufa, no período 2008-2012, relativamente
ao ano base (1990).
Acresce que o período do final dos anos 90 observou uma produção legislativa de
ambiente assinalável ao nível comunitário, tendo o desenho das políticas
contado com uma participação crescente de organizações não governamentais de
ambiente (ONGA), em comités, redes de peritos e processos de consulta.
Simultaneamente, verificam-se as primeiras iniciativas europeias relacionadas
com a investigação e promoção das energias renováveis.
Em Portugal, as preocupações ambientais, nomeadamente as relacionadas com as
alterações climáticas, ganham relevo no debate político e público, e o país é
confrontado com a necessidade de reduzir a emissão de gases com efeito de
estufa, em resultado das conclusões e da Convenção-Quadro da Conferência do Rio
e do Protocolo de Quioto.
Neste sentido, os anos 90 foram marcados por uma maior perceção pública dos
problemas ambientais e pelo desenvolvimento da estrutura do estado para o
exercício da política de ambiente, em grande medida para dar resposta às
exigências comunitárias, mas também para utilização dos financiamentos
comunitários canalizados para estas matérias. De destacar a criação do
Ministério do Ambiente e dos Recursos Naturais, em 1990, e do Conselho Nacional
do Ambiente e do Desenvolvimento Sustentável (CNADS), o primeiro órgão
governamental direcionado para as questões de sustentabilidade (Queirós, 2002).
Assim, em 1998, e tendo Portugal para o período 2008-2012 a meta de um
aumento máximo de 27% das suas emissões de gases com efeito de estufa
relativamente a 1990, foi criada uma entidade pública interministerial dedicada
a esta temática a Comissão para as Alterações Climáticas coordenada pelo
Ministério do Ambiente, no sentido de mobilizar todos os setores da economia
para este objetivo. Neste contexto, teve especial importância o programa do XIV
Governo Constitucional (1999-2002) que, no âmbito da política energética,
estabelece a promoção das energias renováveis e a redução das emissões de
dióxido de carbono e do efeito de estufa.
Foi ainda na sequência do Tratado de Maastricht e de posteriores diretivas
europeias, que visavam a constituição do mercado energético europeu, que
tiveram lugar em Portugal as primeiras iniciativas legislativas visando a
abertura do setor elétrico nacional ao mercado (Silva, 2011).
A meio da década de 90, foi iniciado o processo de liberalização do mercado de
energia e, em 1995, foram instituídos os contratos de aquisição de energia
(CAE), que garantiam aos produtores de eletricidade das centrais a carvão e gás
um rendimento (por períodos variáveis, mas nunca inferiores a 15 anos), que
lhes permitia manter uma rentabilidade idêntica à do período anterior à
liberalização, e cujo cálculo incluía os custos fixos associados à operação e à
manutenção, as amortizações e remunerações do capital investido e ainda os
custos variáveis com a produção de energia (Silva, 2011).
Neste período, foi regulada a utilização do gás natural e deu-se início à sua
introdução em Portugal, decisão que se revestiu de uma importância crucial, não
só porque o gás é, de entre os combustíveis fósseis, o menos poluente, mas
também porque constituiu o primeiro grande passo para a estratégia de
diversificação da matriz energética portuguesa.
2000-2010, as preocupações ambientais e o desenho das políticas de energia
Ao nível europeu, esta década foi dominada pela associação das políticas de
energia e das políticas climáticas, nomeadamente ao nível da promoção de
energias renováveis, da eficiência energética e da promoção do uso de
biocombustíveis. É ainda estabelecido o regime de comércio europeu de licenças
de emissão (CELE) e entra em vigor o Protocolo de Quioto.
A imensa maré negra que se seguiu ao afundamento do petroleiro Prestige ao
largo da Galiza em 2002, provocando uma catástrofe ambiental que afetou uma
vasta área, desde a costa norte de Portugal até França, contribuiu também
significativamente para o aumento da consciência ambiental na Europa, mas
também em Portugal.
Neste período, assiste-se a uma disseminação alargada de conhecimento sobre as
alterações climáticas, através nomeadamente do Relatório Stern de 2006, sobre
os impactos económicos das alterações climáticas e os custos da inação.
Igualmente importantes foram os relatórios do IPCC e a intervenção pública de
Al Gore sobre esta temática, a quem foi atribuído, ex-aequo, o Prémio Nobel da
Paz em 2007.
É ainda desenhado e aprovado o Pacote Europeu Energia/Clima 20-20-20, que
define as seguintes metas, a atingir em 2020, por todos os estados-membros da
União Europeia (UE): (i) redução de 20% de emissão de gases com efeito de
estufa, face aos volumes emitidos em 1990, (ii) aumento em 20% de energias
renováveis no mix energético, e (iii) menos 20% de consumo energético, em
resultado do aumento da eficiência, ao que acrescia a utilização de pelo menos
10% de biocombustíveis nos transportes.
Em 2007, o Tratado de Lisboa reafirma os objetivos de desenvolvimento
sustentável e de resolução de problemas ambientais globais, como as alterações
climáticas, dando especial relevância aos compromissos assumidos no âmbito do
Protocolo de Quioto.
A política europeia de energia adquire então uma base jurídica própria, com
enfoque não só no funcionamento do mercado energético, mas também na eficiência
energética e no recurso às energias renováveis, na linha de uma política
europeia comum em matéria de energia sustentável.
A preocupação europeia com o ambiente e com as alterações climáticas em
particular teve, naturalmente, reflexo não só na política nacional de ambiente,
mas também no desenho e implementação das políticas públicas de energia em
Portugal.
Com efeito, surgiram novos instrumentos de política de ambiente, mais
integradores e de cariz procedimental (como sejam o licenciamento ambiental, a
avaliação ambiental estratégica ou a responsabilidade ambiental), para além do
desenvolvimento de legislação temática associada nomeadamente ao ar, água,
resíduos, ruído, entre outros. De assinalar, também, a publicação, em 2007, da
Estratégia Nacional de Desenvolvimento Sustentável (ENDS).
Adicionalmente, esta década foi marcada pelo estabelecimento de instrumentos
legais, de estruturas institucionais e de ferramentas operacionais que
suportaram a política climática nacional, muito alicerçada na política
europeia. Com efeito, em 2001, foi aprovada a Estratégia para as Alterações
Climáticas, em 2004, o Programa Nacional para as Alterações Climáticas (PNAC) e
em 2005 o Plano Nacional de Atribuição de Licenças de Emissão (PNALE),
associado à transposição do regime de comércio europeu de licenças de emissão
de gases com efeito de estufa (MAOTDR, 2009). Em 2006, foi criado o Fundo
Português de Carbono (FPC) e em 2010, foi aprovada a Estratégia Nacional de
Adaptação às Alterações Climáticas.
Ao nível da política pública de energia, em 2001, foi aprovado o Programa E4,
Eficiência Energética e Energias Endógenas, que visava a redução da intensidade
energética do PIB, a diminuição da dependência externa em energia primária, a
melhoria da segurança do aprovisionamento, a redução da fatura energética e a
proteção do ambiente. Uma das medidas então adotadas foi o aumento da
remuneração da eletricidade produzida com base em energias renováveis,
diferenciada por tecnologia e regime de produção.
Em 2004, foi assinado um acordo entre Portugal e Espanha, para constituição do
Mercado Ibérico de Energia Elétrica (Mibel). Consequentemente, foram adotadas
regras comuns para o funcionamento dos mercados da eletricidade e foi
antecipada a cessação dos CAE, cuja manutenção se tornou insustentável; foram
criados novos instrumentos compensatórios para os produtores de energia os
custos para a manutenção do equilíbrio contratual (CMEC) que, embora fossem
baseados em pressupostos distintos dos adotados para os CAE, continuavam a
garantir aos produtores de eletricidade com base em combustíveis fósseis a
remuneração contratualizada para o período de vigência dos contratos (Silva,
2011).
Em 2005, foi estabelecida a primeira Estratégia Nacional para a Energia, com as
primeiras grandes diretrizes da política energética portuguesa no quadro do
mercado único europeu.
Em 2007, teve início o processo de preparação do mercado ibérico do gás natural
(Mibgas).
Foi aprovado, em 2008, o Plano Nacional de Ação para a Eficiência Energética
(PNAEE), com o objetivo de criar as condições necessárias ao cumprimento, por
Portugal, da diretiva comunitária 2006/32/CE, que fixava objetivos de
eficiência para a utilização final de energia e para os serviços energéticos.
Em 2010, foi aprovada a Estratégia Nacional para a Energia 2020, que integrava
os compromissos assumidos no âmbito do Pacote Europeu Energia/Clima para
Portugal (em 2020, 60% da eletricidade produzida, 31% do consumo de energia
final deverá ter como base fontes renováveis e o consumo de energia final
deverá ser deduzido em 20%) e foi lançado o Plano Nacional de Ação para as
Energias Renováveis (PNAER), que fixa os objetivos do país, no que respeita à
percentagem no consumo final de energia proveniente de fontes renováveis.
Paralelamente, foram implementadas medidas com o objetivo de induzir uma
mudança no comportamento dos consumidores de energia, nomeadamente: campanhas
de substituição de lâmpadas incandescentes por lâmpadas eficientes e adoção de
regras e requisitos de construção visando o aumento da eficiência energética
dos edifícios e a obrigatoriedade de informar o consumidor sobre a eficiência
energética dos aparelhos elétricos.
Em 2010, a União Europeia lançou a Estratégia Europa 2020, para um Crescimento
Inteligente, Sustentável e Inclusivo que, no que respeita às políticas
energéticas e ambientais, confirma as metas e objetivos definidos no âmbito do
Pacote Europeu Energia/Clima, o que reforça a necessidade de os países
estabelecerem políticas que lhes permitam atingir os compromissos assumidos.
2011-2012, a crise económica e financeira
Na sequência da crise económica e financeira internacional que eclodiu em
finais de 2008 e da posterior crise das dívidas soberanas, que se agravaram
substancialmente a partir de 2010, Portugal viu-se obrigado a recorrer à ajuda
internacional, tendo assinado, em maio de 2011, o Memorando de Entendimento no
âmbito do Mecanismo Europeu de Estabilização Financeira, que, no que às
políticas de energia diz respeito, incluía as seguintes medidas que o país se
obrigava a respeitar: (1) concluir a liberalização dos mercados da eletricidade
e do gás; (2) reduzir a dependência energética do exterior; (3) limitar os
sobrecustos associados à produção de eletricidade; (4) garantir a consistência
da política energética nacional, através da revisão dos instrumentos
existentes, nomeadamente os incentivos fiscais; e (5) tornar efetiva a
integração no Mibel e Mibgas e promover a concorrência nos mercados
energéticos.
O cumprimento destas medidas e a crise financeira e económica do país têm
intensificado o debate em torno da política energética nacional.
Neste contexto, têm sido alvo de contestação as opções estratégicas que
caracterizaram as políticas de energia nos últimos anos, designadamente aquelas
que se relacionam com o incentivo à utilização de recursos endógenos e
renováveis na produção de energia. O decreto-lei n.º 25/2012, de 6 de
fevereiro, veio, designadamente, suspender novas licenças de energias
renováveis.
Já as preocupações ambientais parecem não estar atualmente nas prioridades
políticas.
Políticas públicas de energia e ambiente em Portugal: que resultados?
A análise da evolução das políticas públicas de energia e ambiente desde a
década de 70 do século passado mostra bem a crescente atenção que estas
temáticas têm merecido por parte dos decisores políticos em Portugal.
No entanto, a matriz energética portuguesa continua fortemente assente nos
combustíveis fósseis (petróleo, carvão e gás), o que não permitiu ainda reduzir
substancialmente a forte dependência externa do país e a associada
instabilidade causada pelas oscilações do preço do petróleo.
Em todo o caso, como é possível observar na figura_1, verifica-se uma
diminuição do consumo de combustíveis de origem fóssil desde 2005, acompanhada
de uma crescente utilização de energias renováveis (hídrica, eólica, solar,
geotérmica e biomassa) na produção de energia.
Com efeito, entre 2005 e 2010, registou-se um decréscimo acentuado da taxa de
dependência energética, como evidencia a figura_2, o que poderá ser atribuído
em grande medida às políticas de promoção e apoio ao uso de energias renováveis
na produção de eletricidade, concretizadas nesse período, mas também à
diminuição do uso de combustíveis fósseis, provocado pelas sucessivas crises e
pelos elevados preços do petróleo.
No entanto, é importante ter em conta que o contributo das energias renováveis
para a produção de energia está praticamente limitado ao setor da eletricidade.
E se é um facto que o setor elétrico tem sido alvo de intenso debate e atenção
política na última década, importa realçar que o preço da eletricidade em
Portugal é, desde 2007, inferior ao da média da União Europeia, quer para os
consumidores domésticos, quer para o segmento industrial. Em 2011, Portugal era
o décimo segundo país com preços mais baixos ao nível do consumidor doméstico e
o décimo terceiro no segmento industrial, posicionando-se abaixo da média da
UE27 (dados do Eurostat). É previsível que o recente aumento do IVA da
eletricidade venha a alterar esta realidade, mas não há ainda dados que o
confirmem.
As políticas públicas direcionadas ao setor da eletricidade tiveram resultados
positivos. No entanto, e apesar de ainda haver muito a fazer, sobretudo ao
nível da regulação do mercado (que é liberalizado no início de 2013), não
parece ser neste setor que residem os maiores problemas energéticos e
ambientais do país.
Com efeito, enquanto a eletricidade constitui 21% da matriz energética
portuguesa, o setor dos transportes representa cerca de 40% do consumo final
total de energia, sendo uma parte significativa associada ao modo rodoviário.
Este é, assim, um dos setores que mais contribui para a dependência energética
externa que, apesar de estar em decréscimo, em 2010 ainda se situava nos 76,7%.
De notar que, em 2009, o rácio entre o consumo de energia no setor dos
transportes e o PIB se encontrava acima da média da UE27 e era o sexto maior
entre os estados-membros.
Acresce que o setor dos transportes é um dos principais emissores de gases com
efeito de estufa, carecendo de medidas de política que promovam,
designadamente, a utilização de fontes de energia menos intensivas, a maior
utilização de transportes públicos e um maior investimento no setor
ferroviário. De facto, enquanto para a indústria, nomeadamente, foi criado o
CELE, como instrumento para promover a eficiência económica, tendo em vista a
redução de emissões de gases com efeito de estufa, para o setor dos transportes
não existe um instrumento de mercado que promova a eficiência.
Que estratégia para Portugal?
A extrema volatilidade do preço do petróleo e a instabilidade geopolítica e
económica que caracteriza alguns dos principais países produtores e
exportadores de petróleo deixam Portugal numa situação de grande
vulnerabilidade, dada a enorme dependência que o país tem do exterior. O caso
do gás, nomeadamente, é preocupante: apenas dois países Argélia e Nigéria
abastecem Portugal, pelo que eventuais problemas nestes países podem deixar
Portugal numa situação muito complicada.
No entanto, e contrariamente ao que acontece com os recursos energéticos de
origem fóssil, Portugal é rico em recursos naturais: o sol, o vento, o mar, as
florestas e a biomassa representam um enorme potencial que pode e deve ser
explorado, com base em mecanismos que assegurem a competitividade económica do
mix energético nacional.
Os primeiros passos neste sentido já foram dados. Desde 2005, o país regista
uma persistente tendência de redução da utilização de energia de origem fóssil,
fruto da aposta na diversificação das fontes de energia, incorporando recursos
endógenos e renováveis.
Com efeito, a tendência de diminuição da taxa de dependência energética externa
observada desde 2005, o aumento da produção de energia a partir de fontes de
energias renováveis, que representavam em 2010 cerca de 23,1% do consumo total
de energia (dados da DGEG) e, ainda, a redução consistente das emissões de
gases com efeito de estufa desde 2005, encontrando-se pela primeira vez em 2009
abaixo da meta do Protocolo de Quioto (dados da APA/CECAC), parecem confirmar a
relevância da aposta que a União Europeia e Portugal, em concreto, fizeram na
interligação entre as políticas de energia e de ambiente.
No entanto, as medidas de política já implementadas não parecem ser suficientes
para reduzir significativamente a importação de combustíveis fósseis e, deste
modo, a dependência externa.
A atual crise económica e financeira internacional, que culminou com uma nova
intervenção do FMI em Portugal, não pode deixar de suscitar apreensão quanto ao
desenvolvimento futuro das referidas políticas. Com efeito, questionamo-nos se
o contexto de austeridade poderá ser condicionador de políticas de energia
sustentável, como preconiza o Tratado de Lisboa, nomeadamente de diversificação
de fontes de energia.
É necessário, portanto, persistir e reforçar o caminho já iniciado, porque
políticas eficientes de energia e ambiente não são uma ameaça à economia, pelo
contrário, podem contribuir para aumentar a competitividade económica do país,
para o desenvolvimento dos recursos endógenos, para criar valor acrescentado,
gerar emprego e preparar o futuro.
É necessário construir plataformas de consenso, que permitam ultrapassar
ruturas e descontinuidades nas políticas.
É necessário definir uma matriz energética mais flexível, que combine de forma
eficaz e eficiente as diferentes fontes de energia.
É necessário induzir comportamentos mais racionais do consumo de energia.
É necessário definir uma estratégia consistente, continuada e de longo prazo
para a política energética.
É necessário encarar as políticas de energia, de ambiente, de transportes, de
ordenamento do território de forma integrada e não como caixas estanques, com
metas e objetivos próprios e desconexos.
E é urgente não permitir que a crise seja um pretexto para travar passos já
dados e para adiar decisões que permitam ao país ultrapassar a sua situação de
dependência energética.
Em todo o caso, importa ter presente que a política de ambiente na UE e também
em Portugal tem assistido desde a sua génese a um crescimento assinalável, quer
em termos institucionais quer de ferramentas legais e procedimentais, e ainda
ao nível das matérias abrangidas, apesar das crises económicas, financeiras e
políticas que, de forma cíclica, se têm vindo a sentir.
Deste modo, e dado o caminho consistente que as políticas de energia e de
ambiente têm vindo a percorrer no sentido da integração de todos os componentes
energia, ambiente, eficiência, economia e sociedade com resultados
mutuamente positivos, a persistência nessas políticas pode contribuir, de forma
decisiva, para a transição para a sustentabilidade económica, social e
ambiental do país.