Escolhas escolares e modalidades de sucesso no ensino secundário: percursos e
temporalidades
Introdução
O mundo escolar encontra-se frequentemente associado a binarismos conceptuais,
muitas vezes redutores. Tal é o caso da parelha de conceitos sucesso/insucesso
escolar, estritamente associada ao cumprimento de requisitos institucionais de
desempenho académico e comportamental. Esta abordagem é, a nosso ver, limitada,
pois impede de captar outras dimensões que subjazem ao processo de construção
da trajetória escolar enquanto elemento cada vez mais central da construção
biográfica.
Com efeito, nas sociedades contemporâneas, as biografias, os seus tempos e
transições (Pais e Ferreira, 2010) têm cada vez mais como referentes
estruturadores os espaços institucionalizados em que decorre o curso de vida
(Beck, 1992 [1986]). Por isso, a individuação[1] dos sujeitos, nomeadamente das
crianças e dos adolescentes, tem como cenário fundamental, em grande medida, a
escola (Singly, 2006) e exprime-se (também, mas não só) através de diversas
opções escolares (Breviglieri, 2007).
Utilizando uma abordagem multidimensional, envolvendo métodos de tipo extensivo
(inquérito por questionário) e intensivo (entrevistas individuais a alunos),
este artigo pretende contribuir para uma análise mais holista das trajetórias
escolares no ensino secundário, combinando dimensões institucionais com
percursos e narrativas biográficas dos adolescentes que o frequentam.
Num primeiro momento, são clarificados os principais argumentos desta pesquisa:
equaciona-se a escolha escolar no ensino secundário como prova biográfica
(Martuccelli, 2006) e defende-se uma abordagem não restritiva do lugar do
sucesso (escolar) na construção de projetos e trajetos trilhados na (e por
intermédio da) escola. Com base nestas propostas teóricas e tendo como
referência o ensino secundário, é então construída, num segundo momento, uma
tipologia plural de percursos escolares assente em dimensões objetivas
(institucionais) e subjetivas (exploração e ajustamento biográfico). A partir
dela apuram-se características sociais e académicas dos seus protagonistas e
exploram-se subjetividades que subjazem ao processo de escolha. O artigo
termina, por fim, com a sistematização dos principais resultados desta
pesquisa.
A escolha escolar como prova biográfica
Em Portugal, e no caso de desejarem prosseguir os seus estudos, à entrada do
secundário os estudantes são “convidados” a formular uma escolha escolar,
idealmente autónoma (Dubet, 2002; Singly, 1996, 2004).
Ora, ao constituir-se elemento central de uma “prova”biográfica (Martuccelli,
2006; 2010)(no quadro de um processo de individuação em marcha), a escolha
vocacional e o projeto (de futuro) que os jovens têm de construir estão longe
de ser uma tarefa simples, pois têm de ser “desenhados” num dado tempo e num
espaço, amplificado e desdobrado em inúmeras opções oferecidas pelo sistema
(Maroy, 2002)[2] — embora desigualmente distribuídas pelo território nacional
(Almeida e Vieira, 2006).
Ainda assim, e apesar dos constrangimentos que questionam a cada passo o
ideário normativo da escolha livre e autónoma dos alunos, continuamos a estar
perante um momento crítico de escolha e decisão, o que reveste esta passagem
(do básico para o secundário) de uma enorme importância, quer para os percursos
escolares quer para as trajetórias de vida como um todo. E isto pode ser tão ou
mais problemático quanto o adolescente que é “forçado” a escolher está
mergulhado num duplo processo de crescimento e amadurecimento (Breviglieri,
2007; Pappámikail, 2009). Exibirá, em muitos casos, uma identidade ainda muito
provisória (hesitante ou dubitativa, nos termos de Breviglieri) quando tem de
enquadrar a sua escolha num projeto de vida que dê forma e sentido àquilo que
vai estudar, isto é, um projeto que vá ao encontro da obrigação (normativa) de
buscar a mais plena realização de si (Taylor, 2009).
Este processo acarreta, portanto, algumas ambiguidades que merecem ser
exploradas, nomeadamente aquelas que gravitam em torno de um incontornável
paradoxo: de que forma as temporalidades institucionais (inscritas nas normas
que regulam o sistema de ensino) se articulam com os tempos de construção de
si, isto é, como se ligam as temporalidades institucionais com as biográficas?
Por um lado, as temporalidades institucionais, na sua concretização ideal,
assentam num percurso linear, sem falhas, hesitações ou intermitências
(retenções e abandonos). As estruturas dos sistemas de educação modernos
plasmam, ainda hoje, um uso do tempo enquanto dimensão socializadora
característico de uma modernidade organizada (Wagner, 1996). Nesta o mecanismo
de “diferimento de recompensas” constitui a base do “processo moderno de
socialização” escolar (Leccardi, 2005: 35): ciclos sequenciais relacionados com
idades-padrão, trajetórias predeterminadas e supostamente irreversíveis
(Charbonneau, 2006) (isto é, opções não questionadas pelos alunos), etapas que
se atingem superando outras previstas na estrutura curricular. Este mecanismo,
ao assumir uma conceção linear de tempo, inspira uma dada conceção de sucesso
escolar — medido e aferido de acordo com este modelo. Isto significa que, de
uma perspetiva institucional, qualquer desvio desta norma — sequencial, linear
e cumulativa — de trajetória escolar dos alunos é entendida como insucesso.
Por outro lado, devendo a escolha escolar implicar o sujeito num projeto de
vida, entreveem-se algumas dificuldades, pois a busca de si, a construção de
uma identidade e a definição de um projeto mais ou menos provisório de futuro
em que o adolescente se reveja pode ocorrer a outros ritmos, não
necessariamente compatíveis com o calendário institucional imposto pelo
sistema. Na verdade, não se deve incorrer no erro de isolar o aluno das outras
esferas da sua existência onde também se constrói, e onde a experiência é
regulada por outras injunções normativas tão ou mais prementes do que a
estritamente escolar, claramente orientada para o futuro, para a eficácia e
para uma dada visão de sucesso. Os jovens tendem a estar profundamente
engajados num processo de afirmação da sua condição juvenil, o que implica
simultaneamente uma ancoragem ao presente, que é habitualmente acompanhada pela
adoção de éticas de vida orientadas para a autenticidade, para a experimentação
e para a celebração (do e no presente) de um hedonismo convivial, que emerge
aliás como traço geracional (Pais, 1998; Ferreira, 2009). Com efeito, do ponto
de vista relacional, o centramento nos grupos de pares constitui a integração
nas redes amicais, numa missão em que muitos jovens se empenham, não raras
vezes em detrimento do investimento no trabalho escolar (Jarvin, 2004;
Pasquier, 2005; Pasquier, Buzzi e Cavalli, 2008). Uma dupla ancoragem (ao
presente e ao futuro) que se traduz em dúvidas e hesitações, que podem ser
compreensivelmente difíceis de gerir. Tanto mais que hoje o futuro emerge
sobretudo como um território de incertezas.
Em suma, manter o futuro em aberto, suspender o tempo (Charbonneau, 2006) das
escolhas definitivas, mesmo correndo o risco de possíveis reorientações
vocacionais que impliquem retrocessos no percurso, pode constituir o desígnio
de muitos. Desde logo para os bons alunos, cuja ambição é permanecer na escola
com bons desempenhos de forma a manter ampliadas as margens de escolha (Dubet e
Martuccelli, 1996), remetendo para um futuro longínquo (o ensino superior) um
compromisso definitivo com uma opção vocacional. Depois, de todos aqueles (com
melhores ou piores desempenhos) que ainda buscam a sua “verdadeira” vocação.
Neste caso, a não linearidade das trajetórias escolares, ao invés de ser
interpretada como insucesso, pode antes significar a condição necessária para a
construção mais bem-sucedida da sua autonomia individual. Nesta perspetiva quem
é, afinal, mais bem-sucedido? O indivíduo capaz de “ser verdadeiro consigo
mesmo” (Taylor, 2009: 30), de procurar a sua autorrealização e perseguir os
seus objetivos, não obstante um percurso escolar sinuoso? Ou o sujeito com um
percurso linear e aparentemente bem-sucedido, mas que não se sente realizado
nas suas escolhas (eventualmente mais “eficazes” mas produtoras de angústias
biográficas)?
Projetos, (in)sucessos e percursos plurais
A ênfase conferida ao (in)sucesso escolar constitui, na verdade, uma questão
relativamente recente.
Durante décadas, a permanência duradoura na escola dependia bem mais de causas
sociais — resultantes de uma dada origem social e, muitas vezes, de uma
condição de género — do que de resultados escolares. A questão do (in)sucesso
escolar só emerge como problema social a partir do momento em que a
massificação do ensino vem transformar radicalmente esta paisagem educativa.
Agora, e por força da permanência duradoura de todos na escola, os diplomas
académicos deixam de ser bens raros e a sua posse passa a ser requisito
indispensável de acesso às posições sociais. É no interior da escola, através
do desempenho académico e da orientação escolar a que ele conduz, que se ancora
agora a seleção social — um dos princípios em que assenta a prova escolar.
A mobilização para o sucesso escolar passa a representar, desta forma, uma
dimensão chave das práticas educativas das famílias e um desígnio que cada
aluno é convidado a perseguir. Como bem explicita Glasman (2001), no atual
contexto concorrencial já não basta apenas ir à escola, é também necessário ter
bons resultados. E, idealmente, ter melhores resultados do que os outros —
embora o contexto de crise atual questione a eficácia deste esforço. É
justamente com o propósito de prevenção e combate ao insucesso escolar que o
sistema de ensino tem vindo a pôr em marcha uma série de dispositivos de
acompanhamento (diagnóstico, apoio, orientação, monitorização), que envolvem
diferentes especialistas (Dionísio, 2009; Glasman, 2001) cuja intervenção
pressupõe que o aluno se assuma como parceiro (Rayou, 2007) na prossecução de
objetivos comuns.
Ora essa injunção institucional para o sucesso escolar investe cada jovem aluno
de uma responsabilização acrescida — a responsabilização pelo seu eventual
insucesso, mesmo que esta se alie a frustração ou arrependimento. E esta
atribuição individual do desempenho é, afinal, expressão de um outro pilar
associado à prova escolar: a produção da “confiança institucional em si”
(Martuccelli, 2006). Contudo, este sentimento originado no julgamento escolar
pode assumir vários matizes e declinar-se por efeito de composição de outros
fatores. É importante não esquecer que a escola atual, tendencialmente
massificada e programaticamente inclusiva, transporta agora consigo a promessa
da reversibilidade do erro através da sua reparação — oferecendo ao indivíduo o
ensejo de repetir (ilimitadamente?) provas, no presente ou no futuro, ao longo
da vida, ou de trilhar percursos formativos alternativos. Nesta densa teia que
a espessura temporal biográfica vai entretecendo, a prova escolar pode mesmo
refratar-se em figuras mais híbridas (id., ibid.), complexificando os termos de
que se constrói subjetivamente o sucesso a ela associado. Para alguns, o
sucesso escolar pode vir a revelar-se responsável por alguns fracassos
existenciais — quando a excelência escolar obtida dita a inevitabilidade de
(per)cursos não verdadeiramente desejados. Para outros, o insucesso escolar
pode estar na origem da descoberta de outros caminhos de sucesso — trilhados
fora da escola. Mas essas “disritmias” (Pais e Ferreira, 2010) de tempos e
modalidades (institucionais e subjetivas) de sucesso só reforçam a importância
de uma abordagem não binária do lugar do sucesso (escolar) na construção dos
percursos de vida na e através da escola.
A construção de uma tipologia de percursos escolares
Como afirmámos, uma noção plural de sucesso (escolar) introduz no estudo da
individuação adolescente o confronto entre duas temporalidades distintas.
Por um lado, uma temporalidade institucional, imposta pelo sistema escolar, em
que a escolha do aluno à entrada do ensino secundário (visto como livre,
autónomo e capaz de se projetar no futuro) surge como um momento preciso que
decorre de um percurso linear. O sucesso, nesta perspetiva, decorrerá da
eficácia dessa escolha entrevista numa performance bem-sucedida.
Por outro lado, na outra temporalidade, a biográfica, a escolha surge antes de
mais como um processo que decorre a montante e a jusante daquele momento
preciso, ancorado aos tempos de construção de si por um sujeito que se
experimenta e se divide por múltiplos territórios de existência. Neste caso, o
sucesso será medido sobretudo pelo grau de ajustamento da escolha ao projeto
identitário em construção.
Para testar estas hipóteses, recorremos a parte do material empírico recolhido
ao longo do projeto “O Futuro em aberto: incerteza e risco nas escolhas
escolares”(Projeto FCT n.º PTDC/CED/67590/2006). Por um lado, socorremo-nos de
resultados do inquérito por questionário aplicado em abril de 2008 ao universo
de 1793 alunos que frequentavam o 10.º e o 12.º anos de escolaridade em seis
escolas secundárias públicas portuguesas, escolhidas em virtude dos perfis
sociais e culturais contrastantes dos seus públicos. Por outro lado,
mobilizamos dados resultantes da análise de 24 entrevistas semidiretivas
recolhidas entre abril e maio de 2009 junto de 24 alunos (12 rapazes e 12
raparigas) de três das seis escolas da amostra (oito entrevistas por escola).
[3] Com vista a captar os processos de escolha e respetiva justificação, com
base na acumulação de experiências às quais não é alheia a passagem do tempo,
entrevistaram-se alunos do 10.º e do 12.º ano (12 entrevistas respetivamente).
Importa salientar que cada entrevista corresponde a uma narrativa de
escolarização: explorou-se a vivência de toda a trajetória escolar,
reconstituída pormenorizadamente, nomeadamente aferindo obstáculos, dilemas e
justificações para escolhas passadas e futuras. Os planos de futuro e as redes
de apoio foram elementos igualmente importantes retidos ao longo da entrevista.
Com base nos resultados preliminares construímos assim um modelo que procura
precisamente enquadrar (heuristicamente) a tensão potencial entre
temporalidades e o desenrolar dos trajetos individuais que permite a posteriori
abordar as dimensões objetivas e subjetivas que lhes estão associadas.
Primeiramente cruzámos a linearidade do percurso (aferida a partir da
existência ou não de mudança de curso e/ou escola) com o sucesso numa
perspetiva institucional. Devido à ambiguidade conceptual e interpretativa que
termos como “repetência” e “retenção”, utilizados no questionário, pareceram
gerar nos alunos inquiridos, optámos por tomar como indicador de sucesso
institucional a correspondência da idade do aluno com a idade padrão de
frequência dos anos escolares em análise (10.º e 12.º). A coincidência indica
que o aluno nunca repetiu nenhum ano ao longo do seu percurso (no básico e
secundário), ao passo que quando se verifica um desvio (de um ou mais anos) é
certo que o aluno repetiu, seja por insucesso no seu desempenho, seja por
escolha voluntária em repetir um ano aquando, por exemplo, uma mudança de curso
ou escola. Este indicador permite, pois, aferir objetivamente quais os alunos
cujos percursos não registam intermitências ou retenções.
Num segundo momento, procurámos situar neste modelo as temporalidades
dominantes: o ritmo mais institucional (tempo padrão, lógica linear e
cumulativa) e o ritmo mais biográfico (exploratório, de ritmo individualizado).
De reiterar, porém, que não se trata de ritmos mutuamente exclusivos, pois se é
verdade que pode ocorrer uma divergência entre os ritmos institucionais e os
biográficos de construção de si, também é verdade que em muitos casos haverá
convergência, mitigando-se assim as tensões e os potenciais dilemas.
Ao invés de um percurso padrão (ideal — linear e sem repetência) e a sua
exceção (linear, mas com repetência) abre-se assim espaço para abordar uma
maior pluralidade de percursos.
Obtivemos quatro perfis distintos (figura_1).
Figura_1 Modelo tipológico de percursos escolares
No primeiro plano (acima do eixo das abcissas) encontramos as carreiras focadas
e carreiras atrasadas, que funcionam segundo uma lógica do plano (ou seja,
orientadas para a projeção no futuro) e estão sintonizadas pela temporalidade
mais institucional. Designámos este primeiro conjunto de percursos carreiras
porque, como salienta Martuccelli (2006: 423), o termo carreira evoca
justamente uma lógica de promoção contínua que é indissociável de um sentimento
de conquista de etapas (com maior ou menor sucesso).
Já no segundo plano (abaixo do eixo das abcissas) apresentam-se ositinerários
exploratórios e os itinerários erráticos, os primeiros orientados pela busca de
um sentido biográfico em que o (re)ajustamento da escolha vocacional não
resulta necessariamente de um desempenho ineficiente mas antes de uma mais
“feliz” expressão de si no projeto escolar,[4] os segundos já marcados pela
ausência de um sentido claro. Por contraste com a ideia de carreira,o vocábulo
itinerário procura precisamente evocar, como acrescenta Martuccelli (ibid.:
243), a sinuosidade e o movimento errático de que estes trajetos se tecem.
Itinerários serão, nesta perspetiva e ao contrário das carreiras (focadas e
atrasadas), regulados sobretudo por uma temporalidade biográfica.
Veremos mais à frente que a noção de exploração e de procura de um sentido
biográfico não exclui a incorporação de preocupações instrumentais, nem uma
certa dose de manipulação do sistema educativo com vista à adequação permanente
da opção escolar aos níveis de desempenho, restando assim uma larga margem de
ajustamentos estratégicos que não decorrem necessariamente de uma submissão
essencialista do projeto escolar ao projeto identitário…
Visto este modelo tipológico sob o prisma do grau de constrangimento a que cada
tipo de percurso está sujeito (e todos estarão sujeitos a constrangimentos,
ainda que diversos), é possível afirmar que o desempenho escolar negativo (aqui
medido a partir da divergência da idade padrão que pressupõe, algures no
percurso, um desvio da norma — à esquerda do eixo das ordenadas) introduz uma
maior dimensão de constrangimento, traduzida num crescente afunilamento
institucional de opções possíveis (uma “orientação pelo insucesso” — Dubet,
2004) e num esfriar das expetativas escolares ou, em menor grau, no
desenvolvimento do percurso sob ameaça de fracasso (na perspetiva
institucional).
No plano oposto (à direita do eixo das ordenadas) verifica-se que o desempenho
positivo (mais uma vez na perspetiva institucional, que aqui corresponde à
sobreposição da idade do aluno com a idade padrão prevista) mantém ou alarga o
leque de possibilidades escolares ou profissionais, inclusivamente de
diferimento da escolha, sobretudo no caso das carreiras escolares que se
pretendem longas (ou seja, adiar o compromisso com uma escolha profissional
para o ensino superior). Esta liberdade de escolha pelo desempenho desdobra-se
em duas possibilidades: uma que submete a construção biográfica à temporalidade
escolar (não perder tempo) e a uma certa lógica da eficácia; e a outra que
submete a temporalidade institucional ao desenvolvimento de um projeto
identitário (sujeito a uma lógica de experimentação e a uma busca de sentido
biográfico não compatível com a rigidez do calendário escolar imposto).
Este modelo não se esgota numa leitura estática e sincrónica dos percursos — de
resto, mesmo deste ponto de vista podem ocorrer sobreposições entre percursos,
isto é, verificarem-se num dado momento situações híbridas do ponto de vista
objetivo e narrativo —, o que reforça, a nosso ver, a sua aplicabilidade
empírica enquanto mapa de leitura e enquadramento de percursos escolares. Com
efeito, olhados estes percursos diacronicamente concluímos que pode existir
mobilidade entre percursos. Uma mobilidade que é alimentada, sobretudo, pela
experiência: uma carreira focada pode converter-se num itinerário exploratório,
quando o aluno se confronta com disciplinas com que não se identifica; uma
carreira marcada por retenções no ensino básico pode redundar num itinerário
errático, quando más experiências se sucedem e o controlo sobre as opções
diminui (constrangimentos institucionais) num movimento centrífugo que empurra
o aluno para as margens do sistema ou para lá das suas fronteiras.
Com efeito, além destes percursos evidenciados pela tipologia, todos eles de
prosseguimento dos estudos, há ainda um outro que não coube nesta pesquisa nem
é espelhado neste modelo, mas que importa referir: trata-se do percurso de
abandono da escola. Frequentemente assente na articulação e acumulação de
múltiplos constrangimentos (económicos, culturais, académicos) que pesam por
vezes de forma extrema sobre os indivíduos, não se pode aqui em bom rigor falar
verdadeiramente de escolhas…
Resta, pois, texturizar este modelo com os dados empíricos recolhidos.
A distribuição dos alunos da nossa amostra (10.º e 12.º) pelos percursos-tipo
assim desenhados revela uma prevalência quase maioritária (48,3%) do percurso-
norma (figura_2).
Figura_2 Modelo tipológico de percursos escolares: 10.° e 12.° anos (%)
Se somada a sua exceção (as carreiras atrasadas) verifica-se que este tipo de
percursos ascende aos três quartos da amostra, o que significa que a grande
maioria dos alunos inquiridos estão de alguma forma sintonizados com a lógica
escolar. Por sua vez, uma minoria relativa (24,1%) trilha outros percursos,
mais divergentes do padrão institucional. Todavia, o facto de serem
minoritários e por isso menos representativos daquilo que parecem ser os
trajetos mais frequentes não lhes retira importância. O que não têm de
representativos têm de significativos para a caracterização quer de emergentes
quer de tradicionais fenómenos sociais e culturais (porventura relativamente
marginais no quadro do sistema de ensino, embora em espetros opostos, uns de
reprodução e outros de inovação). Fenómenos que se traduzem em experiências
vividas por um número não negligenciável de adolescentes por nós inquiridos.
No caso dos itinerários erráticos (16,5%), encontramos alunos marcados pelo
insucesso académico a que se associam aparentes dificuldades de navegação no
sistema. São, entre os alunos inquiridos, aqueles mais próximos da exclusão/
abandono do projeto escolar, como se revela nas palavras de Paula, quando
interrogada sobre uma eventual mudança de curso para uma outra área mais
motivante:
Não dá… não tenho possibilidades disso, já perdi três anos da minha vida e não
vou estar a perder mais um. Então…é continuar neste, é até me fartar, depois me
fartando lá vou trabalhar na área que tirei o outro curso. [Paula, 19 anos,
10.º ano, curso profissional, escola A]
Já no caso dos itinerários exploratórios, a exploração de percursos
alternativos (não necessariamente motivada pelo insucesso) parece ser feita
dentro do sistema, o que aparentemente significa que a rejeição da
temporalidade escolar não quer dizer falta de empenho no projeto escolar.
Sim… o meu instinto era ir para Artes mas depois fui mais pela opinião dos
outros e não sei quê e escolhi Humanidades, mas como não gostei…pois era só
aulas teóricas e não sei quê e assim Artes… sempre desenho, e gostei mais de
Artes… e mudei […] nesse mesmo ano eu mudei… estava a fazer uma coisa que eu
não gostava e então [mudei]… [Maria dos Anjos, 18 anos, 12.º ano, curso
profissional, escola A]
Protagonistas: um retrato…
Identificada a pluralidade de percursos, interessou-nos perceber quem são os
seus protagonistas. Quando se observa a distribuição dos tipos de percurso por
sexo dos alunos, verificamos que o desempenho negativo, com todas as
consequências que daí advêm em termos de liberdade de escolha, constrangimento
institucional e afunilamento dos percursos escolares, afeta mais os rapazes.
Este resultado vem, de resto, ao encontro de uma tendência já identificada em
muitos outros estudos (Almeida e Vieira, 2006; Duarte e outros, 2008; Grácio,
1997; Ribeiro, 2007; Silva, 1999) reveladores de uma dupla vantagem escolar (em
termos de desempenho e de longevidade de percurso) conquistada pelas raparigas
no sistema educativo português nas últimas décadas. No caso dos percursos
marcados por alguma forma de insucesso as diferenças entre rapazes e raparigas,
em desfavor dos primeiros, ascendem a 7,6 (carreiras atrasadas) e 11,6 pontos
percentuais (itinerários erráticos). Não sendo novidade que o insucesso escolar
é vivido mais no masculino, não deixa de ser interessante verificar que nos
percursos mais bem-sucedidos numa perspetiva institucional a distribuição é
mais equitativa (ainda que beneficiando as raparigas em 5,6 pontos
percentuais). Já a sobrerrepresentação destas nos itinerários exploratórios (em
mais 15,6 pontos percentuais) permite questionar a tese de que as raparigas,
aderindo mais facilmente a uma lógica conformista, seriam pouco dadas à
exploração…
Abordar os percursos de individuação a partir de uma perspetiva de sucessão de
provas realçou o papel da experiência no diálogo constante que estabelece com
os processos de construção de si. Não é por isso de estranhar o peso que o
desempenho revelou na modelação dos percursos, visível na distribuição por tipo
de curso que se apresenta nas figuras_4 e 5.
Figura 3 Tipo de percurso (10.° e 12.° ano, por sexo) (%)
Figura_4 Tipo de percurso, por tipo de curso (10.°ano) (%)
Figura_5 Tipo de percurso, por tipo de curso (12.°ano) (%)
Verifica-se, sem grande surpresa, que as carreiras focadas, independentemente
do ano em que aluno se encontra, são sobretudo protagonizadas pelos alunos dos
CCH, o que é coerente com o perfil curricular desta via de ensino, orientada
para a prossecução dos estudos e baseada em saberes de cariz mais académico.
Por contraste, os itinerários erráticos são praticamente reservados aos alunos
de cursos profissionalizantes. Este dado parece comprovar pistas teóricas e
evidências empíricas já consolidadas, nomeadamente a de que a oferta
institucional de fileiras educativas constitui uma forma de organização e
hierarquização dos alunos, apresentando-se em alguns casos os CTP como solução
de recurso para os já marcados pela experiência do insucesso. Essa evidência
afirma-se, de resto, à escala nacional (Duarte e outros, 2008): a “orientação
pelo insucesso” justifica-se escolarmente por aquilo que o aluno não tem, não
em função daquilo que o aluno procura ou deseja, o que mais uma vez desafia o
discurso ideológico em que se baseia todo o sistema…
Do mesmo modo se verifica que os itinerários exploratórios são protagonizados
preferencialmente pelos alunos dos CCH (que, como se sabe, em média têm origens
sociais relativamente mais favorecidas — Duarte e outros, 2008) e são
potenciados com o avançar no ensino secundário (passam de 79% no 10.º ano para
82% no 12.º) à medida que a experiência escolar confronta os jovens com o
conteúdo objetivo das suas opções. Não se tratará, porém, de uma associação
linear entre experiências individuais e (re)formulação de escolhas, pois se a
adesão a éticas de vida em que os valores do individualismo expressivo ocupam
um lugar de destaque está relativamente disseminada, os meios que permitem
concretizar esses modelos normativos de indivíduo estão desigualmente
distribuídos, como se sabe. A figura_6 demonstra precisamente que os percursos
não são fabricados ao acaso e não deixam de estar ancorados ao volume de
recursos disponíveis na família.
Figura_6 Tipos de percurso por escolaridade mais elevada dos pais (%)
No sentido de aprofundar e testar esta hipótese tomou-se a escolaridade dos
pais como proxy da complexa aferição dos contextos socioeconómicos de origem
dos alunos e cruzámo-la com os percursos escolares. Desse cruzamento se conclui
que, efetivamente, é em relação aos percursos escolares mais próximos do padrão
institucional de sucesso (carreiras focadas) que a proporção de alunos com
background familiar mais escolarizado (40%) se revela superior. Também para os
alunos com itinerários exploratórios esta proporção se revela comparativamente
superior (50%). Inversamente constatamos que é em relação aos percursos
escolares mais vulneráveis do ponto de vista institucional (carreiras atrasadas
e itinerários erráticos) que a proporção de alunos provenientes de famílias com
menores recursos escolares (até quatro anos de escolaridade) se mostra superior
— 19% e 17%, respetivamente.
Mas, por outro lado, a figura_6 evidencia, igualmente, algum grau de
capacitação dos alunos para além dos constrangimentos estruturais, uma vez que
em todos os contextos sociais coexistem diferentes tipos de percursos,
relevando a importância do desempenho individual apesar dos constrangimentos
que afetam mais uns e as oportunidades que beneficiam mais outros. De salientar
que os percursos escolares mais próximos do padrão institucional de sucesso
(carreiras focadas) incluem uma proporção razoável (16%) de alunos cujos pais
detêm até ao máximo de seis anos de escolaridade. Por sua vez, os percursos
escolares mais sinuosos e marcados por alguma desorientação (itinerários
erráticos) atingem uma proporção não negligenciável (25%) de alunos cujos pais
atingiram o ensino superior.
Estes resultados vão justamente na direção das propostas analíticas defendidas
por Martuccelli (2006), segundo as quais os processos de individuação se situam
no cruzamento de constrangimentos associados a uma dada posição estrutural e de
diferenciais capacitadores (estados sociais) que cada sujeito pode acionar para
enfrentar as provas. Estes diferenciais compõem-se de vários elementos —
competências cognitivas distintas, diversidade de meios práticos (ou
“amortecedores”, como os direitos sociais, os recursos, as ajudas e os
suportes) de que se pode dispor e, ainda, o controlo que se tem sobre o decurso
das provas. Ora, a ênfase nos percursos (e na sua natureza), apesar de ancorada
à partilha desigual de riscos que as posições sociais comportam, não se esgota
nela. A diversidade social interna de percursos assim o demonstra: a inscrição
individual através das provas dadas no sistema escolar evidencia a elasticidade
que os estados sociais emprestam ao processo de individuação.
Escolhas e decisões: subjetividades, contextos e processos
Apresentados os protagonistas dos percursos nos aspetos que melhor determinam a
sua posição social, importa agora abordar as subjetividades subjacentes ao
processo de escolha, no sentido de ultrapassar a dimensão factual e assim
aceder à própria experiência da escolha. Convidados a situar a sua opção à
entrada do secundário face a uma série de cenários hipotéticos relativos ao
processo de definição vocacional (numa escala de 1 a 5 em que 1 corresponde a
“não se aplica nada” e 5 a “aplica-se totalmente”) os protagonistas destes
percursos apresentaram algumas convergências, quer ao nível dos contextos de
escolha, quer ao nível dos fatores e valores que tomaram em consideração nesse
momento.
Os valores máximos e mínimos registados neste conjunto de perguntas apontam
sobretudo para o facto de os jovens inquiridos sentirem que a sua escolha foi
totalmente livre, e nada constrangida pelos pais e pouco ou nada influenciada
pelos pares, média ou professores, o que reforça a assunção por parte dos
indivíduos da responsabilidade e autonomia sobre a sua opção singular ao nível
dos discursos, indiciando igualmente a incorporação da própria ideologia do
sistema educativo, que não é questionada. Mas, mais do que a “frieza” destes
indicadores estatísticos, foram essencialmente os testemunhos qualitativos a
reforçar estas narrativas de livre escolha, apesar dos constrangimentos que
diferentemente pesam sobre cada um dos jovens e que se refletem no grau de
liberdade de que efetivamente dispõem. Seguem-se alguns exemplos.
Salvador, a frequentar, por opção, o 12.º ano do CCH de ciências e tecnologias
numa escola secundária em Lisboa, apesar de viver em Vila Franca de Xira,
reafirma uma escolha há muito construída com base numa “vocação” puramente
individual
Eu decidi prosseguir os estudos porque desde pequeno sempre quis ser
veterinário, e sempre tive esse sonho…
mas que, na realidade, se forja no cruzamento da “naturalização”, no seio da
família, do prosseguimento dos estudos até ao superior, e da inserção num
contexto de socialização propício ao contacto com profissionais do ramo
— Tinha sempre esse sonho, mas eu falei com os meus pais e os meus pais têm
amigos relacionados com a veterinária — De onde é que veio [esse gosto] … — Não
sei, sempre gostei de animais, tenho uma casa bastante grande e sempre tive
animais, sempre gostei de animais, o meu pai tem uma profissão ligada aos
animais, sempre que visitava quintas de amigos tinha sempre animais. [Salvador,
18 anos, 12.º ano, curso CCH ciências e tecnologias, escola B]
O testemunho de Carina revela-nos um percurso contrário, com o ajustamento a
posteriori do “gosto” a uma área curricular. A ausência de informação
(nomeadamente no seu contexto familiar) para a elaboração de um projeto escolar
ditou a construção passo a passo da sua “escolha”, por tentativa e erro,
ultrapassando inúmeros constrangimentos. Aluna de uma escola secundária de
Lisboa com vocação profissionalizante desde o 3.º ciclo, nem sequer colocou a
hipótese de mudar de escola na transição para o secundário. Para a sua escolha,
e após realizar testes psicotécnicos pouco esclarecedores, começa por
identificar um gosto inicial — informática —, área na qual se pretende
inscrever. Considerando que foi “mal informada” no momento da matrícula, viu-se
colocada num curso de gestão de equipamentos tecnológicos com o qual não sentiu
qualquer empatia.
E não gostava muito porque era, acho o curso mais coiso… Mais tipo… Eu achei o
curso mais para rapaz do que para rapariga e então não me identificava…
A meio do ano, depois de assistir a algumas aulas de um curso afim (multimédia)
frequentado por uma amiga da escola e ter gostado, decidiu falar com o conselho
executivo para mudar de área. Mesmo forçada a repetir o 10.º ano para recuperar
desse erro de escolha, não está arrependida dessa mudança, pois descobre a sua
“autêntica vocação”:[5]
Não, eu estou a gostar porque acho que é uma coisa mesmo que, mudei de curso e
acho que fiz bem mesmo mudar de curso, porque é uma coisa mesmo que eu gosto.
[Carina, 17 anos, 10.º ano, curso profissional de Multimedia, escola C]
Já no que diz respeito aos constrangimentos, o que emerge como mais premente é
justamente o de natureza institucional (ofertas de cursos, áreas vocacionais
por escola ou território educativo). Com efeito, apesar de a cotação neste
indicador não ser muito elevada (de 1,23, em média, para as carreiras focadas,
até 1,75 e 1,71 para as carreiras atrasadas e para os itinerários erráticos,
respetivamente) o facto é que penaliza mais aqueles que já têm percursos débeis
(com algum tipo de insucesso). Aqui reside precisamente um dos paradoxos do
sistema: estamos perante um sistema educativo construído com base no princípio
da escolha livre e individual, que responsabiliza o aluno por uma opção que
este é na verdade constrangido a fazer, nomeadamente porque o sistema não
oferece localmente todas as opções previstas. Tal é precisamente o caso de
Rafael, aluno do 12.º ano do curso científico-humanístico de Humanidades numa
escola de um concelho rural alentejano. O leque limitado de opções oferecido
pela escola, única secundária de todo o concelho, aliado à recusa dos pais da
hipótese de frequentar o almejado curso profissional de informática noutra
escola mais longínqua, empurra-o para uma escolha ziguezagueante — inscrição no
CCH de ciências e posterior transferência para o cch de humanidades para “fugir
à matemática” — para aí se obrigar a construir uma “vocação”.
A Polícia Judiciária já pus de parte há algum tempo, pensei que me poderia dar
alguma estabilidade, mas acho que não era mesmo isso que eu queria. Aqui…
durante a minha estadia na secundária tive contacto com outras pessoas que se
calhar me influenciaram noutras áreas. Então, pensei agora, há um tempo — no
11.º ano ainda — em ciências políticas, talvez fosse essa área que eu gostaria
de seguir. [Rafael, 18 anos, 12.º ano, curso CCH de humanidades, escola A]
À procura de uma expressão quantitativa mais forte de algum grau de
constrangimento, fomos cruzar estes elementos por tipo de cursos (CCH e CTP), e
o que os dados nos revelam é que são estes últimos (alunos em média com
percursos mais vulneráveis) a sentirem na pele mais dificuldades em encontrar o
seu lugar no sistema. Com efeito, os resultados salientam que, em média, o
constrangimento em relação ao curso em termos de contexto/oferta local pesou
mais para os alunos de CTP (1,96) no processo de escolha do que para alunos de
CCH (1,27). Adicionalmente, também para aqueles a dimensão que remete para o
menor grau de exigência se revelou, em média, mais pertinente do que para os
que frequentavam CCH (2,44 e 1,60, respetivamente).
Isto não significa afirmar que outros alunos, como os de CCH (mais favorecidos
de uma forma geral) não se deparem com constrangimentos, mas, como nos
mostraram as entrevistas, dispõem de outro tipo de suportes e apoios que os
ajudam a contornar estas dificuldades — nomeadamente facilitando a mobilidade,
promovendo o “zapping escolar” (Langouet e Léger, 1997) entre estabelecimentos
de ensino, caso se afigure necessário. Veja-se o caso de Margarida, boa aluna
durante todo o período em que frequentou, no básico, um colégio religioso
privado da capital. Antecipando que a passagem para o secundário iria elevar a
níveis absurdos a fasquia da exigência, decide “mudar do privado para o
oficial”, contando com o apoio dos pais, apesar das expetativas iniciais da
família (alargada) acerca da sua permanência no colégio.
— Foi, em grande parte foi minha… eles apoiavam a decisão porque eu acho que no
privado forçam estudar muito mais… desnecessário porque também acho que é muito
exigente… mas tem exigências que às vezes passam do normal e estamos a
concorrer para entrar na faculdade e estamos a concorrer com pessoas de todo o
lado, não são só com pessoas… do colégio…portanto achei que valia a pena
trabalhar o mesmo e estar no oficial… acho que seria mais beneficiada e essa
foi a grande questão. — os teus pais queriam que te mantivesses no colégio? — A
mãe e o pai… o pai não interferiu muito… mas por exemplo os avós… preferiam que
eu me mantivesse no colégio… essa foi a grande questão do 9.º ano… [Margarida,
18 anos, 12.º ano, CCH de ciências socioeconómicas, escola B]
Um dos resultados da regressão logística (ver quadro_1) a que procedemos para
testar esta hipótese é precisamente o facto de entre os principais fatores
preditores de uma mudança de escola no secundário estar a escolaridade dos
pais: quanto mais elevada for a escolaridade destes, maior a probabilidade de o
aluno ter condições para mudar de escola, no sentido de ir ao encontro daquilo
que são as suas opções.
Quadro_1 Preditores de mudança escolar e vocacional (regressão logística)
É de referir que esta variável — o “capital escolar” familiar, tendo em conta o
mais elevado de um dos pais — apresenta-se estatisticamente significativa
apenas em relação à mudança de escola. Assim, uma condição social mais elevada
tende a favorecer a mobilidade escolar quando ela é vista como útil ou
necessária para melhorar o enquadramento social ou escolar do aluno face aos
seus objetivos a médio prazo (escapar a uma iminente retenção ou obter médias
mais elevadas para entrar em determinado curso ou instituição de ensino
superior). Isso mesmo revela o testemunho de um aluno que habita uma quinta
fora de Lisboa, indicando as razões para ter escolhido frequentar uma escola
secundária no centro da capital, em detrimento da escola secundária local:
Não sei, eu moro em Vila Franca Xira, só que eu acho que em termos de
ambientes… como sabe os ambientes são diferentes nas zonas do país, não é por
não me identificar tanto, as pessoas são diferentes… não sei, não consigo
explicar bem e eu estava mais identificado com as pessoas de Lisboa […] e
decidi vir para Lisboa, depois também no ensino superior quero entrar em
Lisboa, não estou a pôr outra hipótese, se puser outra é estudar para fora […]
fora do país, Espanha ou EUA. Se não entrar em Lisboa. Basicamente foi isso,
como Lisboa… pensar que se calhar era bom arranjar ambiente logo em Lisboa
porque… ser mais aquele choque, o 1.º ano, assim já se tem mais noção.
[Salvador, 18 anos, 12.º ano, curso CCH de ciências e tecnologias, escola B]
No entanto, a mudança de escola, bem como a mudança de curso podem assumir
diferentes contornos. Com efeito, a prática do zapping escolar pode decorrer de
uma decisão própria do aluno e respetiva família — como se observa nas
situações anteriormente invocadas — ou, ao invés, resultar da submissão à opção
de outrem, por insuficiente domínio do sistema (ser transferido pela escola
para outro estabelecimento de ensino…).
Ora, tanto para a mudança de escola como para a mudança de curso se registam
diferenças estatisticamente significativas em relação ao tipo de curso
frequentado e se o curso escolhido no 10.º ano corresponde à primeira opção. Os
alunos a frequentar cursos CTP são, mais do que os dos CCH, aqueles para quem a
mudança de escola ou de curso é mais provável. O mesmo sendo aplicável aos
alunos que frequentam no 10.º ano um curso que não corresponde à sua primeira
opção. Dado os recursos de informação sobre o sistema de ensino serem,
genericamente, mais limitados no caso dos contextos familiares e sociais dos
alunos que frequentam os CTP, pode-se legitimamente aventar que a mobilidade
ocorrida no interior do sistema decorrerá, neste caso, do próprio
desconhecimento do sistema. O testemunho de Carina sobre os equívocos que a
levaram a frequentar um curso profissional (de gestão de equipamentos
tecnológicos) com o qual não se identificava é elucidativo deste ziguezaguear
no sistema sem grande rumo.
Eu acho que fui um bocado mal informada ao princípio, porque eu quando fui
fazer a minha inscrição eu expliquei o que queria e havia dois cursos e então,
depois eu expliquei, e a senhora disse-me, e eu depois vi que não era bem
aquilo que eu queria e então acho que também fui um bocado mal informada. Mas
pronto… [Carina, 17 anos, 10.º ano, curso profissional de multimédia, escola C]
Assim sendo, poder-se-á falar de duas lógicas de mudança: uma voluntária e
eventualmente estratégica e outra (in)voluntária e tendencialmente errática (ao
sabor da maré). Ou seja, uma enforma os percursos exploratórios, outra alimenta
os percursos erráticos…
Todavia, os constrangimentos não se reduzem à dimensão institucional de oferta.
Como temos vindo a sublinhar, o próprio veredito escolar condiciona grandemente
as escolhas: verifica-se ainda na figura_7 que fatores como a facilidade das
matérias ou a exigência dos cursos pesam diferenciadamente para os diferentes
protagonistas destes percursos. É justamente para os alunos que estão
relativamente mais perdidos no sistema (marcados pelo insucesso e/ou pela falta
de um sentido claro para os seus estudos) que estes fatores são mais relevantes
no momento de fazer a escolha (itinerários erráticos e carreiras atrasadas).
Figura_7 Fatores, valores e contextos determinantes das escolhas, por tipo de
percurso (médias)
Figura 8 Fatores, valores e contextos determinantes das escolhas, por tipo de
curso (médias)
Apesar de as diferenças serem algo tímidas, não nos surpreende o facto de serem
alunos com carreiras focadas aqueles que mais certeza sentiram no momento de
tomar a decisão (porque muitos sempre souberam o que queriam seguir). Do mesmo
modo são preferencialmente alunos a desenvolver itinerários exploratórios que
declaram algum tipo de indecisão no momento da escolha. Tal como também nos
vieram a demonstrar as entrevistas, o compromisso com uma escolha mais
definitiva é remetido para o futuro, optando no secundário por cursos que
ofereçam maior leque de opções futuras no caso de haver dúvidas no momento da
decisão. Esta é aliás uma das formas preferenciais de lidar com a incerteza,
como está patente no testemunho de um dos entrevistados. Indeciso entre o CCH
de humanidades e o de ciências socioeconómicas, por gostar de línguas e
história, mas ao mesmo tempo “ser mais para números”, decide optar pela segunda
hipótese, já validada institucionalmente como a melhor decisão — “pelos vistos
acho que foi a melhor, porque as minhas notas mais altas são às específicas,
quer dizer que estou bem integrado na área” — e que lhe abre um leque mais
amplo de possibilidades de escolha:
— Tenho três hipóteses. — Ai é? — Direito, relações internacionais ou gestão
hoteleira […], por acaso acho que ia gostar imenso, é todo o meu género.
Gostava imenso de ir para Gestão Hoteleira, mas ao mesmo tempo gostava de ir
para relações internacionais, porque sempre gostei imenso e acho que tenho
jeito, sempre tive à vontade a falar com as pessoas, e acho que é um bocado…
género. Mas sei que sempre tive um bocadinho de jeito — é de família — para
advocacia, a minha família é toda advogada, desde os meus avós, menos a minha
mãe, toda a minha família é advogada. [Martim, 16 anos, 10.º ano, curso CCH de
ciências socioeconómicas, escola B]
Na nossa perspetiva emerge sobretudo dos dados a tradução empírica do “paradoxo
do projeto” como definido por Dubet e Martuccelli (1996): os mais bem-sucedidos
academicamente e os alunos que mais meios têm para se projetar no futuro são os
que mais tendem a delegar o seu futuro nos seus (bons) desempenhos escolares e
a diferir para mais tarde a sua escolha (o secundário surge como antecâmara do
ensino superior, para onde remetem o momento do compromisso vocacional mais
definitivo); pelo contrário, aqueles que não revelam tais atributos são
forçados a abraçar (mais precocemente) as únicas vias escolares que para eles
estão disponíveis. Ou seja, as “narrativas de projeto” produzidas pelo sistema
educativo obrigam a escolher e a ser responsáveis pelas suas escolhas
justamente aqueles que menos possibilidades de escolha têm.
Por último, os percursos tendem a ser fabricados numa combinatória de
referências normativas que à primeira vista podem parecer paradoxais, se
acolhêssemos uma visão essencialista da “identidade” assente exclusivamente
numa ideia pura de vocação autêntica e prévia à experiência. No quadro do
singularismo societal que se vive na contemporaneidade (Martuccelli, 2010),
essa ideia tornou-se a trama estrutural de perceção de si a partir da qual se
entretecem as gramáticas que os indivíduos preferencialmente usam para
comunicar narrativamente com os outros (Martuccelli, 2006: 334). Com efeito, o
que os dados nos demonstram, e as entrevistas por seu turno confirmam, é que,
se é verdade que a missão de se realizarem a si próprios na escolha vocacional
que fazem é central nos seus discursos, isso não significa que o futuro não
seja também ponderado de forma mais instrumental, ou seja, em termos de
oportunidades de carreira. Vários são os testemunhos que o evidenciam: aliar o
gosto desde “sempre muito vincado” por economia com a ideia de que prosseguir
os estudos é “fundamental para conseguir uma vida melhor, principalmente em
termos financeiros, e até mesmo sociais” [Cristina, 18 anos, 12.º ano, CCH de
Ciências Socioeconómicas, escola A]; ou seguir o que se quer — “direito” — com
a obtenção dos melhores resultados visando um futuro profissional que se
antecipa como competitivo — “hoje em dia é tudo tão competitivo, é preciso ir
um bocado mais além” [José Maria, 19 anos, 12.º ano, CCH de humanidades, escola
B]; ou ainda compatibilizar o gosto pela “área das tecnologias […] por esses
funcionamentos, essa transformação de energia para uma energia mecânica”, com a
descoberta, desde o estágio profissional, de que a faculdade pode trazer mais
do que a vida inicialmente almejada de técnico numa fábrica oferece: “vou ficar
sempre limitado ao facto de não poder assinar, acho que é isso que ir para a
faculdade nos dá, poder assinar, sermos certificados para criar de certa forma
e é isso que me agrada porque o espírito criativo é o criar as coisas” [Joel,
19 anos, 12.º ano CTP de mecânica, escola C].De salientar que a “capacidade” de
antecipar as vantagens de um percurso encontra-se hoje seriamente afetada pela
mutabilidade constante do mercado de trabalho, acrescida do problema da
precariedade e do desemprego juvenil…
O que se vê então é a uma lógica de composição da narrativa de si próprios que
procura articular subjetivamente diferentes desígnios normativos, igualmente
importantes (Pappámikail, 2009). E este processo de articulação, que emerge
também no confronto analítico entre o registo factual e o registo narrativo dos
adolescentes entrevistados, denuncia as tensões que podem ocorrer no processo
de construção biográfica.
Perspetivar a escolha como um processo que ocorre a montante e a jusante do
momento em que a decisão é tomada reforça a importância de se perceber os
contextos em que são feitas as escolhas, bem como as motivações e sentidos que
lhes são atribuídos.
Em conclusão
Questionar uma abordagem restritiva, limitada, binária da noção de sucesso
escolar constituiu o cerne deste artigo.
Começámos por identificar os pressupostos que enformam a (tradicional)
definição institucional do sucesso, assente na imposição de uma temporalidade
linear, sequencial, de trajetos-padrão escolares, segundo a qual se afere do
progresso (ou não) de cada aluno. Desta abordagem estão ausentes considerações
que levem em conta o facto de os percursos escolares — e as provas que neles se
jogam — estarem profundamente imbricados nos processos de individuação.
De facto, no caso dos adolescentes que prosseguem os estudos e que, por isso,
são obrigados institucionalmente a escolher uma opção vocacional à entrada do
secundário, as decisões tomadas podem confrontar-se com dúvidas, incertezas e
questionamentos. A temporalidade biográfica, mais densa e potencialmente
complexa, assente num processo subjetivo de exploração visando a busca
(normativamente obrigatória) da plena realização de si pode colidir com a
temporalidade institucional imposta no momento preciso da escolha.
Adicionalmente há que contabilizar a volatilidade dos contextos sociais,
económicos e políticos que, mesmo marginalmente, não deixam de interferir na
avaliação pelos sujeitos daquilo que é uma escolha boa e/ou uma escolha certa,
uma vez que não estão ausentes, como verificámos, preocupações com os aspetos
mais instrumentais da escolha.
A partir do reconhecimento das potenciais tensões associadas às duas
temporalidades, explorámos então um modelo de percurso escolar no secundário
que permite dar conta das formas de acomodação, mas também de eventuais
“disritmias” de tempos e modalidades (institucionais e subjetivas) de sucesso,
plasmadas em quatro itinerários-tipo, entendidos numa perspetiva dinâmica — as
“carreiras focadas”, as “carreiras atrasadas”, os “itinerários exploratórios” e
os “itinerários erráticos”.
Os resultados do inquérito demonstram que uma boa parte dos alunos encontra-se
em convergência, quer com o padrão-norma de sucesso escolar, quer com o seu
inverso, ou seja, o padrão-norma do insucesso. Não obstante, o modelo permite
também entrever outras modalidades de percurso — percursos mais agitados,
pautados por mobilidade, ruturas, reversibilidades — que escapam à lógica
escolar convencional e, por isso, de inegável interesse para entender
modalidades (emergentes?) de relação com a escolaridade que questionam a noção
institucional de sucesso. Curioso é notar que os protagonistas de cada um
destes quatro percursos escolares se, por um lado, não se organizam ao acaso,
demonstrando tendencialmente atributos sociais e académicos relativamente
diferenciados entre si, o que parece evidenciar o peso dos constrangimentos
sociais sobre a escolaridade, por outro lado, revelam igualmente margens de
capacitação para, através dos seus desempenhos, contrariar semelhantes
constrangimentos, o que fica demonstrado no facto de encontrarmos alunos com
perfis diferenciados nos vários tipos de percursos.
Para lá dos percursos, fomos ainda perscrutar os sentidos que os protagonistas
lhes conferem — para entender, assim, a avaliação subjetiva dos mesmos. À
afirmação da livre escolha dos seus (per)cursos, que celebra os valores da
autonomia individual e da realização de si a que estes alunos tão fortemente
aderem, pelo menos narrativamente, contrapõem-se referências a alguns
constrangimentos institucionais presentes (opções e cursos não disponíveis na
escola frequentada) ou futuros (antecipação das diferentes oportunidades
profissionais que cada opção oferece) que afetam a plena realização de sonhos e
justificam, pelo menos em parte, o sentido dos percursos trilhados. Mais do que
uma narrativa unívoca, é de uma composição de referências normativas (mais
expressivas, umas, mais instrumentais, outras) que as escolhas e os percursos
escolares tendem a ser fabricados.