Inserção profissional e razões de ingresso e reingresso no ensino superior: um
ponto de partida para uma temática em aberto
Nota introdutória
A reflexão que aqui se apresenta emerge da sistematização de trabalhos de
pesquisa anteriormente realizados pelos autores do texto (Chaves, 2010; N.
Alves, 2008 e 2009; M. G. Alves, 2007) e por outros sociólogos portugueses
(Saúde, 2008; Gonçalves, 2007; Marques, 2006). Estas investigações constituem,
em nosso entender, alguns dos alicerces de um campo de investigação sobre os
processos de inserção profissional de diplomados de ensino superior que tem
vindo a ser construído em Portugal na última década (M. G. Alves, 2010a). Nesse
domínio, um dos aspetos que parece ser consensual entre os vários
investigadores é o reconhecimento de que se tem assistido a uma transformação
acentuada das trajetórias de inserção profissional assinalando-se,
designadamente, a sua crescente complexidade e precariedade, bem como a
existência de um sentimento de insegurança generalizado relativamente ao valor
do diploma, com impacto nas estratégias, representações e processos de
socialização e de construção identitária protagonizados pelos diplomados.
Procurando contribuir para a compreensão deste contexto em transformação, o
ponto de partida para o presente artigo corresponde a uma das interrogações
que, na nossa perspetiva, importa explorar: no cenário atual, em que os
processos de inserção profissional de diplomados de ensino superior são cada
vez mais complexos e incertos, em que medida as escolhas dos diplomados ao
longo da sua trajetória académica são influenciadas por razões e considerações
ligadas à sua (futura) atividade profissional?
Para encontrar contributos de resposta para esta questão central começamos, num
primeiro momento, por caracterizar brevemente as dinâmicas contemporâneas de
inter-relação entre ensino superior e trabalho/emprego e os desafios que as
mesmas colocam, ilustrando a relevância da questão de partida já enunciada. Num
segundo momento, mobilizamos dados empíricos provenientes de estudos extensivos
sobre inserção profissional de graduados deste nível de escolaridade. O texto
termina com uma nota conclusiva na qual se reflete sobre os resultados
analisados, equacionando pistas para o aprofundamento sociológico desta
temática.
Importa explicitar desde já que o nosso contributo neste artigo se refere, por
um lado, a licenciados que se diplomaram seguindo planos de estudos anteriores
às mudanças introduzidas pelo Processo de Bolonha e, por outro lado, a
trajetórias profissionais que se desenvolveram antes do agravamento da atual
crise económica ocorrido em finais de 2010. Neste sentido, traça-se um
retrato da situação na primeira década do século XXI, o qual poderá estar a
ser objeto de profundas alterações, mas constitui, pelo menos, um ponto de
partida para analisar modificações em curso e para refletir aprofundadamente
sobre a inserção profissional e as razões de ingresso (e reingresso) no ensino
superior.
Contextualização e complexidade das trajetórias de inserção profissional de
graduados de ensino superior na contemporaneidade
Nas últimas décadas, vimos assistindo a um crescimento continuado dos sistemas
educativos, bem como a uma diversificação quer da oferta formativa, quer dos
públicos estudantis e docentes, incluindo ao nível do ensino superior. É
provável que estas tendências evolutivas continuem a intensificar-se nos anos
mais próximos, tendo em conta o efeito combinado da procura de ensino superior
e da orientação genérica das políticas educativas.
Na verdade, em pesquisa anterior centrada na análise das orientações de
política educativa europeia, constatámos o modo como o ensino superior
constitui um setor no qual se preconiza um forte investimento, como parte da
estratégia de promoção da aprendizagem ao longo da vida. Uma análise de
conteúdo de 12 documentos estruturantes da política educativa europeia
produzidos entre 2000 e 2006 revela que, de todos os níveis de escolaridade, o
ensino superior constitui aquele em que maior ênfase é colocada (Alves, Neves e
Gomes, 2010). Ainda que as orientações de política educativa emanadas da União
Europeia não tenham um caráter legalmente obrigatório, encontra-se documentada
a forma como aquelas orientações enformam as políticas educativas dos estados-
membros (Antunes, 2010), assim como contribuem para a generalização de quadros
de referência e pensamento sobre a procura e oferta educativas, nas sociedades
contemporâneas.
Com efeito, o recurso aos pareceres, relatórios e perspetivas de organismos
internacionais (de entre os quais a União Europeia) configura-se como uma forma
de legitimação de determinadas opções políticas e tem sido uma constante na
formação social portuguesa (N. Alves, 2006: 8), contribuindo para a difusão de
um discurso sobre a educação e o seu valor no contexto das vidas dos indivíduos
e das sociedades. Neste discurso, a promoção da aprendizagem ao longo da vida
vem sendo apontada como um meio crucial para incrementar quer a empregabilidade
individual, quer a produtividade e a competitividade económica das
organizações, regiões e países, reproduzindo o que tem vindo a ser defendido
nas orientações políticas da União Europeia na primeira década do século XXI.
Assim sendo, na atualidade, a continuação do aumento da procura de ensino
superior é expectável num cenário de políticas educativas centradas na promoção
da aprendizagem ao longo da vida e orientadas para o cumprimento da meta
estabelecida pela Comissão Europeia de, em 2020, atingir o patamar de 40% dos
indivíduos com idades entre os 30 e os 34 anos terem completado o 1.º ciclo do
ensino superior.
A análise de conteúdo de documentos estruturantes da política educativa
europeia, a que já aludimos anteriormente, permitiu evidenciar a existência de
uma tensão entre visões mais economicistas e mais humanistas dos processos e
finalidades de aprendizagem ao longo da vida (Alves, Neves e Gomes, 2010).
Designadamente, a visão mais economicista é particularmente significativa nos
documentos de natureza mais pragmática e direcionados para a implementação das
orientações políticas, enquanto nos documentos mais vocacionados para a
conceptualização da ideia de aprendizagem ao longo da vida aquelas duas visões
coexistem de forma mais equilibrada.
Assim sendo, poderá a procura crescente de ensino superior ser, em parte,
influenciada pelas preocupações dos indivíduos com a sua inserção profissional?
Num trabalho anterior, em que se inquiriram alunos que em 2003 frequentavam o
9.º e o 12.º anos de escolaridade em Lisboa, Porto e Portalegre, assinalou-se a
forma como estes estudantes aderem acriticamente às premissas que estruturam os
discursos sobre a educação e o trabalho, estando dispostos a investir em
trajetórias escolares prolongadas para assegurar o acesso a profissões do topo
da estrutura ocupacional (N. Alves, 2006). Poder-se-á traçar retrato idêntico
sobre o modo como os estudantes de ensino superior optam por investir no
prolongamento da escolaridade?
Reservando para a nota conclusiva o esboço de resposta a estas questões,
importa, contudo, desde já sublinhar que, a verificar-se uma tal expectativa e
motivação para a procura crescente de ensino superior, a mesma tem vindo a ser
razoavelmente correspondida para uma grande parte dos diplomados até ao
momento. Na verdade, os resultados das investigações sobre inserção
profissional em Portugal e noutros países europeus indicam que, efetivamente,
têm sido os diplomados de ensino superior que menos vezes e durante períodos
mais curtos estão sujeitos ao desemprego, mas também evidenciam que as taxas de
desemprego têm vindo a aumentar e que a precariedade de emprego afeta a grande
maioria destes diplomados (M. G. Alves, 2010a). Destacam-se ainda, nos
resultados das várias pesquisas, os contingentes elevados de diplomados que se
manifestam bastante satisfeitos com a sua situação profissional.
Todavia, como é evidente, tal não significa a inexistência de diplomados cuja
satisfação relativamente ao seu percurso profissional e/ou ao ajustamento entre
formação académica e exercício de uma profissão atinja níveis muito reduzidos.
Numa pesquisa recente, centrada no estudo de jovens advogados em Lisboa
(Chaves, 2010), assinalam-se dois casos de desajustamento particularmente
geradores de insatisfação para os seus protagonistas. Por um lado, o facto de
os sujeitos entenderem que o seu trabalho é tão desinteressante que dele não
conseguem extrair gratificações intrínsecas é um aspeto suscetível de originar
uma avaliação negativa da sua situação profissional, enquanto, por outro lado,
a ausência de obtenção de autarcia relativamente à família de origem também
tende a afetar negativamente a avaliação global dos jovens advogados sobre a
sua situação profissional.
Em síntese, as perspetivas vigentes que subjazem aos discursos públicos e
políticos em torno da empregabilidade dos indivíduos, ao crescimento
quantitativo e prolongamento no tempo das trajetórias escolares no ensino
superior e às orientações de política educativa europeia centradas na
aprendizagem ao longo da vida apresentam traços comuns que correspondem a
visões que consideramos excessivamente economicistas, de acordo com as quais
parecem ser sobretudo as necessidades e aspirações profissionais que orientam
as opções dos sujeitos nas suas trajetórias enquanto estudantes de ensino
superior.
Assim sendo, o objetivo deste artigo é explorar em que medida a preocupação com
a inserção profissional é determinante no conjunto das razões e expectativas
que os indivíduos associam ao ingresso ou reingresso no ensino superior. Para
tal, são mobilizados dados de diversas pesquisas empíricas realizadas em
Portugal sobre a inserção profissional de diplomados de ensino superior,
recorrendo-se também a alguns dados estatísticos recolhidos no quadro de
projetos de comparação europeia.
Analisando estudos sobre a inserção profissional de diplomados de ensino
superior em Portugal
Breve nota metodológica
Apesar da visibilidade social crescente dos processos de inserção profissional
de diplomados de ensino superior, a produção de dados empíricos sobre esta
temática tem ocorrido, sobretudo, por iniciativa de responsáveis e/ou
investigadores e docentes de instituições de ensino superior, escasseando
informação detalhada e abrangente a nível nacional.[1] Tendo em conta este
panorama, desenvolvemos recentemente um exercício de análise comparativa de
estudos extensivos (baseados em inquéritos por questionário) sobre inserção
profissional de diplomados de ensino superior, considerando-se apenas os que
concluíram uma formação inicial (essencialmente licenciatura mas também, em
alguns casos, bacharelato) (M. G. Alves, 2010b). Os estudos incluídos nessa
análise comparativa foram os quatro seguintes:
Trajectórias Académicas e de Inserção Profissional dos Licenciados (1999-2003),
da Universidade de Lisboa, publicado em 2005 (N. Alves, 2005); Percursos de
Inserção Profissional dos Diplomados do Ensino Superior Politécnico, do
Instituto Politécnico de Beja, publicado em 2005 (Saúde, 2005); A Inserção
Profissional dos Jovens Diplomados no Algarve entre 1999 e 2001,[2] da
Delegação do Algarve da Fundação da Juventude, publicado em 2004 (Geraldes e
Santos, 2004); Sistemas de (Des)Emprego: Trajectórias de Inserção, da
Universidade de Aveiro, publicado em 2002 (Martins, Arroteia e Gonçalves,
2002).
No quadro do presente artigo, para além destes quatro estudos, consideram-se
ainda os resultados de um inquérito por questionário aplicado, no final de
2010, a uma amostra representativa de diplomados da Universidade de Lisboa e da
Universidade Nova de Lisboa que terminaram a licenciatura no ano letivo de
2004/2005.[3]
A inclusão deste conjunto de pesquisas foi decidida tendo em conta, por um
lado, que cada um destes estudos tem a ambição de caracterizar a situação do
conjunto de licenciados (e alguns bacharéis) de uma diversidade de áreas
disciplinares, excluindo-se estudos centrados em apenas alguns cursos ou áreas
de formação. Por outro lado, as operações de recolha de dados empíricos destes
estudos foram concretizadas ao longo da última década e optaram pela inquirição
de diplomados que haviam terminado os seus cursos três ou cinco anos antes,
caracterizando os seus percursos pós-licenciatura.
Na reflexão que aqui se apresenta, a utilização que fazemos deste conjunto de
estudos e dos dados relativos aos licenciados da Universidade de Lisboa e da
Universidade Nova de Lisboa é, essencialmente, complementar e cumulativa,
extraindo uma leitura abrangente sobretudo quando verificamos que os dados das
várias pesquisas indiciam tendências comuns. Isto porque as possibilidades de
análise comparativa dos estudos relativamente às temáticas abordadas neste
texto se revelam limitadas, tendo em conta a disparidade de modalidades de
pergunta e de opções de resposta, bem como a diversidade de indicadores
utilizados pelos diferentes autores.
Com efeito, anteriormente optámos por nos centrar na dimensão de análise
correspondente à situação profissional no momento da inquirição, considerando
uma caracterização objetiva dessa situação e uma dimensão subjetiva sobre graus
de satisfação com a profissão e com o modo como esta se adequa ao diploma (ver
M. G. Alves, 2010b). No presente artigo, a nossa intenção é a de procurar
contributos para responder à questão central já enunciada: num contexto em que
os processos de inserção profissional de diplomados de ensino superior se
apresentam cada vez mais complexos e incertos, em que medida as escolhas dos
diplomados ao longo da sua trajetória académica são influenciadas por razões e
considerações ligadas à sua (futura) atividade profissional? Para este
objetivo, reforçamos, os dados dos estudos mobilizados apenas podem ser
considerados de forma cumulativa e complementar.
Para além da informação apurada nos estudos selecionados, serão também
integrados na análise alguns resultados de um projeto europeu que abrangeu 19
países e no qual foram igualmente inquiridos diplomados de ensino superior que
haviam terminado a respetiva formação inicial há três a cinco anos atrás.
Referimo-nos ao projeto Hegesco (Higher Education as a Generator of Strategic
Competences) lançado em 2007, o qual inclui um estudo extensivo com uma
amostra de mais de 30.000 graduados.[4] O trabalho empírico foi desenvolvido na
Lituânia, Polónia, Hungria, Eslovénia e Turquia e é compatível com os
resultados do projeto Reflex (The Flexible Professional in the Knowledge
Society New Demands on Higher Education in Europe). Este último, abrangendo
Portugal, Itália, Estónia, Holanda, Aústria, República Checa, Finlândia,
Noruega, Espanha, França, Reino Unido, Alemanha, Bélgica e Japão, foi lançado
em 2003 com uma amostra de cerca de 40.000 graduados. Dada a compatibilidade
das metodologias e instrumentos utilizados nos dois projetos, os investigadores
responsáveis indicam-nos que é legítima a comparação dos dados recolhidos em
todos aqueles países europeus.
Trata-se neste texto, portanto, de realizar uma análise sustentada em dados
empíricos resultantes de investigações produzidas por diferentes autores e que
se reportam a vários contextos geográficos, mas que partilham entre si o facto
de auscultarem os próprios diplomados sobre as suas trajetórias e
representações, através de questionários lançados durante a última década.
Resta indicar que a apresentação de dados é orientada por quatro subquestões,
organizadas seguindo uma lógica cronológica, que visam contribuir para
responder à questão central, designadamente: porquê ingressar no ensino
superior?, quem trabalha e porquê durante o percurso académico inicial?,
porquê regressar ao ensino superior depois da formação inicial? e que
avaliação fazem os diplomados da sua formação académica?.
Porquê ingressar no ensino superior?
Em quatro dos cinco estudos portugueses que estamos a considerar, os inquiridos
foram interrogados sobre as razões que estão na base da sua opção de ingresso
no ensino superior para realizar licenciatura ou bacharelato. Por um lado,
sublinhe-se que a informação assim recolhida corresponde a uma (re)construção
dos inquiridos diplomados há já três ou cinco anos relativamente às razões
de ingresso no ensino superior num momento já longínquo das suas trajetórias.
Por outro lado, sublinhe-se que as opções de resposta nos quatro estudos
considerados não são coincidentes, e ainda que, no caso de Aveiro, não existe
nenhuma opção que remeta para o gosto e/ou interesse pelo aprofundamento do
conhecimento permitido pelo ensino superior.
Assim, quando no caso de Aveiro são analisadas as razões indicadas pelos
diplomados, os autores concluem que as mesmas se caracterizam por um elevado
pragmatismo [ ] em que as questões do emprego e da sua rendibilidade foram
determinantes (Martins, Arroteia e Gonçalves, 2002: 29). Verifica-se que são
duas as respostas que reúnem mais consenso: era a forma mais certa de vir a
ter um emprego bem remunerado (32,2%) e era a forma mais segura de obter um
emprego (31,6%), obtendo valores residuais o prestígio social associado à
posse de um diploma (2,5%), a abundância de emprego na área de formação
(2,4%), pressão familiar (1,6%), procurei mas não encontrei emprego após o
12.º ano (0,2%).[5]
Já no caso do Algarve, de entre as motivações para ingressar no ensino superior
sublinha-se a vontade de enriquecer a formação pessoal e intelectual (26%), a
possibilidade de vir a desempenhar a profissão desejada (21%), o acréscimo
das possibilidades de encontrar emprego (17%), o facto de tal ingresso
aumentar as possibilidades de encontrar emprego bem remunerado (17%) ou de
permitir progredir na carreira profissional (14%). Outras opções de resposta
obtiveram valores extremamente reduzidos, como a família sempre esperou que
fizesse um curso de ensino superior (3%), os amigos também se candidataram ao
ensino superior (1%) e ascender socialmente (1%).
Em Beja, as razões que reúnem respostas de mais de um quarto dos inquiridos
(neste caso com uma opção de escolha múltipla) são as seguintes: por ser um
curso que permitia desempenhar uma profissão que o realizasse pessoalmente
(59,5%), por sentir vocação para as profissões a que o curso habilita
(56,3%), por ser um curso que permite aquisição de conhecimentos na sua área
de interesse (56,5%), por ser um curso que permite desempenhar uma profissão
útil (35,3%), por ser um curso com várias saídas profissionais (33,1%), por
ser um curso para o qual tinha média suficiente para entrar (26,6%). As
restantes opções de resposta obtêm valores abaixo dos 25%, em muitos casos com
uma expressão residual.
O questionário aplicado aos licenciados da Universidade de Lisboa e da
Universidade Nova de Lisboa contempla também uma pergunta sobre a mesma
temática, ainda que utilizando indicadores e escalas de medida diferentes.
Neste caso, pretendia-se saber a importância, medida numa escala de 1 (nada
importante) a 10 (muitíssimo importante), que os inquiridos atribuíam a um
conjunto de motivos para ingressar no ensino superior. Os quatro motivos a que
os licenciados destas duas universidades atribuem mais importância são
reveladores da conciliação de duas lógicas: uma mais pragmática e orientada
para o mercado de trabalho; outra mais hedonista e orientada para a realização
pessoal. Acreditava que aumentava as possibilidades de desempenhar a profissão
desejada (9,39, desvio-padrão = 3,384) é o motivo a que os inquiridos atribuem
maior importância, seguido de Contribuía para o meu desenvolvimento
intelectual (9,09, desvio-padrão = 3,099), Acreditava que aumentava as
possibilidades de encontrar um emprego (8,39, desvio-padrão = 4,538) e
Acreditava que teria mais hipóteses de progredir na carreira profissional
(8,22, desvio-padrão = 3,398). Tal como se verifica com os licenciados da
Universidade do Algarve, os motivos a que os inquiridos atribuem menor
importância são a influência dos amigos (Porque os meus amigos também se
candidataram ao ensino superior: 3,65, desvio-padrão = 2,379) e da família
(Porque a minha família sempre desejou que fizesse um curso superior: 5,31,
desvio-padrão = 4,091).
Em síntese, as razões ligadas ao exercício de uma atividade profissional,
designadamente o valor do diploma para a obtenção de um emprego, têm um
destaque significativo para ingressar no ensino superior. Não obstante, nos
casos em que as opções de resposta incluem aspetos relacionados com o gosto ou
o interesse pelo estudo ou com o aprofundamento de conhecimentos ou com o
desenvolvimento intelectual, estas são objeto de escolha por um número
igualmente elevado de inquiridos.
Quem trabalha e porquê durante o percurso académico inicial?
No plano internacional, especialmente na América do Norte, mas também em alguns
países europeus, é relativamente frequente que os jovens exerçam uma atividade
profissional durante o período em que completam a sua formação inicial no
ensino superior, mas esta prática tem sido menos expressiva em Portugal. Com
base em dados do projeto europeu Hegesco, é possível observar que a percentagem
de estudantes portugueses que tiveram experiências de trabalho durante a
frequência do ensino superior é inferior à percentagem que se verifica em média
nos países europeus, seja no caso de trabalhos relacionados com a área de
estudo no ensino superior (27,1% em Portugal e 43,2% na média europeia), seja
no caso de atividades profissionais que com ela apresentam menos afinidades
(30,1% em Portugal e 49,5% na média europeia).
Tendo em conta que algumas pesquisas documentam o contributo dessas
experiências de trabalho, durante a frequência académica, para facilitar o
processo de inserção profissional após a conclusão da formação inicial
(Marques, 2010), mesmo quando essas práticas nada têm a ver com a área de
atividade económica em que os sujeitos irão ingressar posteriormente (M. G.
Alves, 2007), importa compreender melhor essa orientação comparativamente baixa
para o contacto com o mercado de trabalho durante a formação. Que conjunto de
razões volitivas, mas também que condicionantes do mercado de trabalho ou do
sistema escolar serão responsáveis por estes resultados?
Ora, no estudo realizado na Universidade de Lisboa (N. Alves, 2005) é
interessante constatar que ainda que 63% dos inquiridos nunca tenham tido uma
atividade remunerada durante a frequência do curso universitário sendo
estudantes a tempo inteiro, os restantes 37% distribuem-se pelas categorias
estudantes-trabalhadores (24,9%) e trabalhadores-estudantes (12,1%). Os
primeiros correspondem a todos os que exercem uma atividade remunerada a tempo
parcial durante o curso, enquanto os segundos são aqueles cuja atividade
profissional foi exercida a tempo inteiro.
Refere-se no relatório deste estudo que estas três categorias de diplomados
apresentam algumas características sociográficas que lhes conferem uma
identidade própria e que corroboram a ideia de estarmos perante grupos
sociologicamente distintos (N. Alves, 2005: 21). Designadamente, a conciliação
da frequência académica com uma atividade profissional é mais comum entre os
estudantes do sexo masculino; a percentagem de trabalhadores estudantes aumenta
à medida que diminui o nível de escolaridade dos seus pais e a percentagem de
estudantes a tempo inteiro é mais elevada nos grupos em que os pais são mais
escolarizados; os estudantes a tempo inteiro tendem a ser mais novos (a idade
média situa-se nos 26,8 anos) sendo os trabalhadores estudantes os mais velhos
(em média 36,5 anos) e situando-se numa posição intermédia os estudantes que
trabalharam (28,1 anos).
Há também variações consoante a área disciplinar, constatando-se que num
extremo é em Medicina, Bioquímica e Farmácia que os estudantes a tempo inteiro
são largamente maioritários. No extremo oposto, nos cursos de Geografia,
História e Ciências de Educação, mais de um quarto dos diplomados exerceu uma
atividade profissional a tempo inteiro durante a licenciatura. Em situação
intermédia, constata-se que mais de um em cada três diplomados teve um emprego
a tempo parcial enquanto estudante de Filosofia, Pintura e Escultura, Design,
Engenharias ou Informática.
Os dados mais recentes relativos à Universidade de Lisboa e à Universidade Nova
de Lisboa parecem confirmar uma ligeira alteração no perfil dos licenciados,
patente na diminuição dos estudantes a tempo inteiro e no consequente aumento
daqueles que conciliaram os estudos com o exercício de uma atividade remunerada
(ainda que nalguns casos exercida raramente). Quando inquiridos sobre se,
durante o curso, desenvolveram algum trabalho, mesmo que pontual, ganhando com
isso algum dinheiro, 54,1% dos licenciados responde negativamente, pertencendo,
por isso à categoria dos estudantes a tempo inteiro. Entre os restantes
(45,9%), um grupo de 11,7% foram estudantes que sempre trabalharam, enquanto
34,2% foram estudantes que exerceram uma atividade remunerada de uma forma não
continuada.
Nos restantes estudos esta temática não é objeto, de modo algum, do mesmo grau
de aprofundamento. Apenas é referido no estudo na Universidade de Aveiro que
15,8% dos estudantes exerceram uma atividade profissional no último ano do
curso, registando-se os contingentes mais elevados nas licenciaturas em Design,
em Ensino de Música, em Planeamento Regional e Urbano e em Engenharia
Geológica. Adicionalmente, verifica-se igualmente que são os mais novos quem
menos trabalha durante o curso (Martins, Arroteia e Gonçalves, 2002).
Globalmente, constata-se que o exercício de uma atividade profissional durante
a formação inicial no ensino superior parece ser menos frequente em Portugal do
que na média dos países europeus, tanto quando essa atividade está relacionada
com o curso como quando não é esse o caso. Apesar de se tratar de um fenómeno
que pouca atenção tem merecido por parte da comunidade científica portuguesa,
não é de excluir a hipótese de que a reduzida presença no ensino superior de
indivíduos que conciliam o ofício de estudante com o exercício de uma atividade
remunerada esteja relacionada com os modelos de organização dos
estabelecimentos do ensino superior. Com efeito, a escassez de ofertas em
regime pós-laboral e a pouca difusão do estatuto de estudante a tempo
parcialpodem ser algumas das razões explicativas para a reduzida presença deste
grupo específico de estudantes.
Acresce, ainda, que os dados apresentados referentes à Universidade de Lisboa
permitem colocar a hipótese de que se encontrem em maior número, entre os
estudantes que trabalham durante a formação académica, indivíduos do sexo
masculino, com idades mais elevadas e provenientes de famílias com menores
níveis de escolaridade. Muito provavelmente, se tivermos em conta a composição
social dos cursos onde esse envolvimento com o mercado de trabalho é maior,
podemos acrescentar a hipótese de que este último tenderá a ser tanto mais
intenso quanto mais descapitalizados forem os agregados de origem. Tudo
indicia, portanto, que o ingresso no mercado de trabalho, ainda durante o
percurso estudantil no ensino superior, esteja associado a situações de
privação económica desses mesmos agregados, embora não nos seja possível,
naturalmente, determinar o peso explicativo deste último factor.
Porquê regressar ao ensino superior depois da formação inicial?
Em quatro dos estudos considerados, constata-se que um grupo significativo de
diplomados pretende regressar ao ensino superior em algum momento da sua
trajetória futura ou até já continuou estes estudos depois da conclusão da
formação académica inicial. Tal não nos surpreende, sabendo que a procura de
cursos de pós-graduação, mestrado e doutoramento tem estado em progressivo
aumento nas últimas décadas.
Alguns dados estatísticos recolhidos a nível europeu (Eurobarómetro, 2009)[6]
indicam que os cidadãos europeus demonstram um interesse crescente em ingressar
no ensino superior ao nível dos 2.º e 3.º ciclos. Tal é particularmente
significativo no caso dos que frequentam formação inicial, pois 75% dos
estudantes de 1.º ciclo afirmam que querem continuar em seguida para o 2.º
ciclo (50%) ou encontrar trabalho e continuar a estudar a tempo parcial no
ensino superior (25%). Quanto aos estudantes que frequentam o 2.º ciclo, quase
metade (42%) têm planos para ingressar em pós-graduações, enquanto também quase
metade (44%) não têm esses planos e 14% estão indecisos.
Relativamente aos estudos portugueses que temos estado a considerar,
encontramos também contingentes significativos de diplomados que já
reingressaram no ensino superior ou que pretendem fazê-lo no futuro, embora se
assinalem variações entre regiões do país.
No caso da Universidade de Lisboa, assinala-se que quase metade dos diplomados
se inscreveram num programa de pós-graduação (46,5%) e mais de metade estão
dispostos a fazê-lo no futuro (59,8%).[7] Os cursos de pós-graduação e os
mestrados são as formações que atraem maior número de licenciados.
No que se refere à Universidade de Aveiro, a percentagem de diplomados que já
continuaram os seus estudos académicos é de cerca de metade (23,8%)
relativamente ao que se verifica entre os diplomados lisboetas. Adicionalmente,
assinala-se que este valor é inferior em 5% ao que se havia verificado na
inquirição anterior (diplomados que terminaram entre 1984/85 e 1994/95), o que
é considerado surpreendente pelos autores do trabalho (Martins, Arroteia e
Gonçalves, 2002).
No caso do estudo realizado no Algarve, um contingente com dimensão semelhante
(22% dos diplomados) ao que se regista em Aveiro e inferior ao de Lisboa, está
a frequentar ou já frequentou cursos de pós-graduação, mestrado ou
doutoramento. Este dado é apontado, pelos autores do trabalho, como a expressão
de uma tendência crescente de prolongamento dos percursos estudantis no ensino
superior (Geraldes e Santos, 2004).
Os dados do questionário aos licenciados da Universidade de Lisboa e da
Universidade Nova de Lisboa vêm confirmar o maior investimento destes graduados
no que se convencionou chamar aprendizagem ao longo da vida: 43,3% concluíram
uma formação pós-graduada; 24,4% estavam, no momento da inquirição, a
frequentar este tipo de formação, enquanto 67,7% pensavam vir a frequentar no
futuro.
Apesar dos importantes limites que se colocam à análise comparada dos
resultados destes estudos, convirá destacar os contrastes verificados, que
poderão explicar-se em parte pelo facto de em Lisboa existirem mais ofertas
formativas e instituições de ensino superior. No entanto, o aspeto que mais
importa sublinhar, quer porque pode ser assumido com maior segurança, quer
porque converge diretamente com os propósitos do artigo, diz respeito às razões
predominantemente apontadas pelos sujeitos para continuarem o seu percurso
académico. Com efeito, no que respeita a esta matéria, os apuramentos
realizados parecem apontar num sentido comum.
No caso do Algarve, trata-se de aprofundar conhecimentos para melhor
desempenhar a profissão (33%), sempre fez parte dos projetos continuar a
estudar depois de terminar a licenciatura/bacharelato (20%), aumentar as
oportunidades de emprego (19%), progredir na carreira (17%). Têm valores
residuais as opções foi uma alternativa ao desemprego (7%), foi uma forma de
romper com a rotina (3%) ou outra (1%).
No estudo realizado em Aveiro, conclui-se que os motivos apontados pelos
indivíduos para a continuação dos estudos contrariam, de certa maneira, o
pressuposto de que esse seria um meio de ocupar de forma rentável o período
moratório até conseguir um emprego ou o emprego desejado (Martins, Arroteia e
Gonçalves, 2002: 36). E isto porque, para os sujeitos, tratou-se de: senti
necessidade de aprofundar os conhecimentos para melhor desempenhar a profissão
(31%), sempre fez parte dos meus planos prosseguir estudos (31%) e, menos
expressivamente, era uma condição para progredir na carreira (15,7%), foi
uma alternativa ao desemprego (8,2%), era uma condição para obter um emprego
bem remunerado (3,2%), era uma condição para encontrar emprego (2,5%) e
outra (8,5%).
Relativamente aos diplomados da Universidade de Lisboa destaca-se, tal como nos
outros dois estudos, a razão senti necessidade de aprofundar os meus
conhecimentos para melhor desempenhar a minha profissão (34,5%), seguindo-se
sempre fez parte dos meus projetos continuar a estudar (25,4%), foi uma
forma de aumentar as oportunidades de emprego (23,9%) e, mais residualmente,
era uma condição para progredir na carreira (9,7%), foi uma alternativa ao
desemprego (4,8%) e para romper com a rotina (1,7%).
Em síntese, a dinâmica de procura de formação pós-graduada parece ser mais
marcante no caso dos diplomados das universidades situadas em Lisboa, por
comparação com os que terminaram na Universidade de Aveiro e nas instituições
de ensino superior algarvias. Não obstante, as razões mais referidas para o
fazer são semelhantes nos vários estudos, relacionando-se com o exercício do
trabalho e com o aprofundamento de conhecimentos necessários ao desempenho da
profissão, bem como com a continuação de estudos que os sujeitos entendem como
sempre tendo feito parte dos seus projetos de vida.
Que avaliação da formação académica fazem os diplomados?
Os dados analisados revelam que os graus de satisfação dos diplomados com a
formação académica são, de um modo geral, bastante elevados, e que a mesma é
avaliada como contribuindo de diversas formas para desenvolver capacidades e
conhecimentos.
Na Universidade de Lisboa, mais de 75% dos diplomados afirmam que o curso que
frequentaram contribuiu bastante ou mesmo muito para desenvolver a capacidade
de trabalhar em grupo (85,7%), dominar os fundamentos do respetivo campo de
estudos (79,9%), desenvolver capacidades de análise e de síntese (78,4%) e
desenvolver o interesse pelo prosseguimento de estudos (75,8%). Ligeiramente
inferiores, mas ainda assim maioritárias, são as respostas desenvolver o
sentido crítico (74,4%), desenvolver a capacidade de autonomia (73,7%) e
desenvolver a capacidade de expressão (63,7%). Não obstante, assinala-se
neste estudo que a visão destes diplomados é mais crítica do que a dos colegas
inquiridos cinco anos antes (licenciados que terminaram os cursos entre 1999 e
2003), que patenteavam um maior nível de satisfação nestas diferentes
dimensões.
No mesmo estudo, uma outra pergunta solicitava a avaliação dos respondentes
sobre aspetos aí apresentados como remetendo para a preparação para a vida
ativa. Neste domínio, constata-se que mais de metade dos licenciados consideram
que o curso pouco ou nada os preparou para explorar as oportunidades de
emprego (70,9%), para se integrar na vida ativa (59,9%) e para progredir na
carreira (58,4%), ou seja, identificam dificuldade em lidar com as dinâmicas
de funcionamento do mercado de trabalho. Porém, indicadores relacionados com
capacidades mobilizadas na atividade profissional, como capacidade para
resolver problemas concretos de trabalho e capacidade para resolver
problemas, registam uma apreciação de muito ou bastante desenvolvidos,
respetivamente com 60,4% e 60,3%.
Em Aveiro, a análise da opinião dos inquiridos sobre a universidade e a
formação académica frequentada permite agrupar os indicadores em três grandes
grupos. No primeiro, que reúne as avaliações mais positivas, encontram-se a
formação na UA facilitou o encontrar de emprego, a aprendizagem feita na UA
facilitou a integração e consolidação no emprego, as componentes teóricas são
bastante desenvolvidas, a formação adquirida na UA permitiu o desempenho de
tarefas profissionais e a formação adquirida na UA permitiu a introdução de
alterações inovadoras no desempenho das atividades profissionais. No grupo com
avaliações intermédias, estão incluídos os seguintes aspetos: a UA interferiu,
de alguma forma, na sua situação face ao emprego, a aprendizagem feita na UA
está articulada com a vida ativa, as componentes práticas são bastante
desenvolvidas e existe uma boa articulação entre a teoria e a prática. Por
último, deparamos com o item para arranjar o primeiro emprego houve
interferência de algum órgão da UA, que não apenas teve uma apreciação
negativa, como também bastante consensual no conjunto dos respondentes, ao
contrário dos outros indicadores.[8]
Em Beja a maioria dos diplomados afirma-se satisfeita (71,2%) ou mesmo
totalmente satisfeita (13,3%) com o curso frequentado, contando-se 12% de
insatisfeitos e 3,6% de totalmente insatisfeitos. Não obstante, refere-se no
relatório que a opinião maioritária apontou para a necessidade de ser atribuída
maior relevância a dimensões como a realização de atividades extracurriculares,
a atualização de programas e conteúdos, a relevância dos conteúdos, a
articulação dos conteúdos das diferentes disciplinas e a componente prática.[9]
Convidados a realizar a avaliação do curso frequentado identificando as suas
lacunas e insuficiências, os inquiridos destacaram: a componente prática
insuficiente (19%), a desadequação das disciplinas à realidade empresarial/
organizacional (12%), a inexistência de algumas disciplinas relevantes (12%), a
fraca ligação com o meio empresarial/organizacional (11%), a inexistência de
variantes de especialização (10%), o número insuficiente de seminários no
âmbito das disciplinas (10%) e a falta de articulação entre os programas das
diferentes disciplinas (9%).
No caso dos licenciados da Universidade de Lisboa e da Universidade Nova de
Lisboa, pediu-se aos inquiridos que indicassem de que forma a formação
académica contribuiu para desenvolver um conjunto de capacidades, utilizando
uma escala entre 1 (nada) e 10 (muito). As capacidades mais desenvolvidas, na
perceção dos inquiridos, são: o pensamento crítico (média = 8,15, desvio-padrão
= 1,570), a capacidade de comunicação oral e escrita (média = 7,92, desvio-
padrão = 1,599), de tomar decisões (média = 7,35, desvio-padrão = 1,739), de
dominar técnicas e tecnologias (média = 7,20, desvio-padrão = 2,099), de
planeamento (média = 7,20, desvio-padrão = 1,747), de trabalhar em equipa
(média = 6, 88, desvio-padrão = 3,593). O contributo da formação académica é
menor, segundo os inquiridos, quando o que está em causa são as capacidades de
liderança (média = 6,39, desvio-padrão = 1,978), de comunicação oral e escrita
noutra língua (média = 6,01, desvio-padrão = 5,722) e de negociação (média =
5,95, desvio-padrão = 3,623)
Globalmente, mais de metade (62,9%) dos diplomados da Universidade de Lisboa
afirmam que se voltassem atrás inscrever-se-iam no mesmo curso, alguns (34,8%)
inscreviam-se noutro curso e só um grupo residual (2,3%) não se inscrevia em
curso nenhum. A mesma tendência se verifica entre os diplomados do Algarve,
pois também mais de metade (58,5%) escolheriam o mesmo curso e estabelecimento,
15,6% outro curso e outro estabelecimento, 13,7% outro curso mas o mesmo
estabelecimento, 9,2% o mesmo curso mas outro estabelecimento e 2,3% não se
inscreviam em nenhum curso superior. Questionados sobre a imagem com que ficou
do estabelecimento de ensino frequentado, a imagem com que ficou do curso em
que se diplomou e a imagem com que ficou da qualidade de ensino, classificam
em larga maioria (mais de 50% das respostas) os dois primeiros aspetos como
bons e o último como razoável. Parece constituir também um indício de
avaliação positiva, o facto de as respostas dos licenciados da Universidade de
Lisboa e da Universidade Nova de Lisboa apontarem para que uma clara maioria
dos inquiridos voltaria a escolher o mesmo curso (69,3%) e o mesmo
estabelecimento de ensino (84,9%).
A consideração de dados de comparação europeia, recolhidos no quadro do projeto
Hegesco já anteriormente referenciado, revela que a satisfação da maioria dos
diplomados relativamente aos estudos no ensino superior não é uma
especificidade portuguesa. De facto, na média europeia mais de metade (59%)
indica que escolheria o mesmo curso e o mesmo estabelecimento de ensino se
tivesse de escolher novamente. O valor obtido em Portugal (55,4%) coloca o
nível de satisfação global dos diplomados do nosso país abaixo da média
europeia e no grupo dos cinco menos satisfeitos, sendo a Turquia, a Lituânia, a
Espanha e a Estónia os quatro países em que os graus de satisfação são
inferiores.
Os resultados deste projeto permitem, ainda, através de um outro conjunto de
perguntas, analisar quais os contributos da formação académica em diversas
dimensões. Destaca-se que os inquiridos valorizam especialmente o modo como o
curso de ensino superior constitui uma boa base para o desenvolvimento pessoal
(67,4% na média europeia e 76,2% em Portugal), sendo o contributo do curso
valorizado por mais de metade dos inquiridos enquanto base para aprender mais
na profissão (57,6% na média europeia e 69,2 % em Portugal), para iniciar uma
atividade profissional (54,9% na média europeia e 66,6% em Portugal) ou para
desenvolver uma carreira futura (52% na média europeia e 61,2% em Portugal). Os
aspetos menos valorizados correspondem ao curso como contributo para o
desempenho das tarefas profissionais atuais (49,4% na média europeia e 63,7% em
Portugal) e para o desenvolvimento de capacidades de empreendedorismo (21,5% na
média europeia e 31,8% em Portugal).
Em síntese, a informação empírica que temos vindo a analisar indicia que os
níveis de satisfação dos diplomados com a formação académica são bastante
elevados, sendo notório que a maioria afirma que se pudesse recuar no tempo se
inscreveria no mesmo curso e instituição, ao passo que são residuais os grupos
que se inclinam para a não frequência do ensino superior. Contudo, no plano
europeu os níveis de satisfação expressos pelos diplomados portugueses são
inferiores aos que se registam na maior parte dos países.
A diversidade de modalidades de perguntas e opções de resposta presentes nos
vários estudos, no que respeita à avaliação mais detalhada da satisfação com a
formação académica, dificulta enormemente a sistematização dos resultados dos
estudos. No entanto, as avaliações tendem a ser claramente mais positivas do
que é comum presumir-se, ainda que alguns aspetos referentes à componente
prática da formação e à capacidade dos indivíduos para estabelecer relações com
mecanismos e dinâmicas do mercado de trabalho tendam a ser objeto de uma
avaliação ligeiramente menos positiva.
Nota conclusiva
Recorde-se a interrogação central que orienta a reflexão que se procurou
produzir neste texto: no cenário atual em que os processos de inserção
profissional de diplomados de ensino superior são cada vez mais complexos e
incertos, em que medida as escolhas dos diplomados ao longo da sua trajetória
académica são influenciadas por razões e considerações ligadas à sua (futura)
atividade profissional?
Como afirmámos anteriormente, trata-se, em nosso entender, de uma questão
relevante na sociedade contemporânea, no sentido em que entre os pontos de
partida deste artigo se destacou, precisamente, a ideia de que o ensino
superior constitui um setor que é objeto de um investimento significativo no
quadro das orientações políticas centradas na promoção da aprendizagem ao longo
da vida. Adicionalmente, sublinhou-se que o ensino superior tem sido também
alvo de uma procura estudantil crescente, ainda que as trajetórias de inserção
profissional dos diplomados se apresentem cada vez mais incertas e complexas.
Os dados empíricos sistematizados neste texto permitem, no seu conjunto,
identificar alguns contributos de resposta para a questão orientadora. Por um
lado, evidenciam que para explicar o ingresso no ensino superior, seja em
formação inicial seja em formações pós-graduadas, os indivíduos apontam razões
diversas. Algumas estão relacionadas com projetos e aspirações profissionais,
mas outras correspondem a expectativas centradas no desenvolvimento de
conhecimentos e no gosto pela aprendizagem, sendo todas estas razões muito
escolhidas pelos inquiridos. Estes resultados são consistentes com os que
obtivemos numa pesquisa centrada no caso de mestres e doutores (M. G. Alves,
2009), em que se concluiu que mais do que uma estratégia para fazer face ao
desemprego e/ou à precariedade do emprego, a opção de continuar o percurso
estudantil no ensino superior é apresentada pelos graduados como um meio para
desenvolver conhecimentos e competências, alguns dos quais permitem desempenhar
melhor as suas atividades profissionais.
Por outro lado, os dados empíricos sistematizados neste texto permitem
evidenciar que o exercício de uma atividade profissional enquanto se estuda no
ensino superior é (ainda?) pouco frequente em Portugal, colocando-se a hipótese
de que aqueles que trabalham o fazem sobretudo como resultado de
constrangimentos que se colocam à frequência deste nível de ensino numa idade
mais jovem ou por grupos sociais com menores recursos, mais do que como uma
estratégia intencional de articular percurso profissional com percurso
académico. Estará este cenário em alteração face às mudanças associadas ao
Processo de Bolonha e tendo em conta o contexto de recessão económica?
Por outro lado ainda, a análise de dados revela que os diplomados tendem a
manifestar-se bastante satisfeitos com o seu percurso e formação académica,
sendo muito poucos aqueles que indicam que não frequentariam o ensino superior
caso tivessem de escolher novamente. Estes níveis de satisfação atingem valores
mais elevados na generalidade dos países europeus do que os que se registam em
Portugal. Contudo, note-se que entre os aspetos menos apreciados na avaliação
da formação académica, os diplomados apontam a articulação desta com os
contextos organizacionais e profissionais, bem como as componentes práticas
dessa formação. No extremo oposto, são muito valorizados os contributos da
formação académica para o desenvolvimento pessoal, para a formação teórica e
para o desenvolvimento de vários conhecimentos e competências, alguns dos quais
necessários ao desempenho das atividades profissionais.
Globalmente, os dados e reflexões apresentadas permitem constatar a
insuficiência de perspetivas, frequentemente subjacentes aos discursos públicos
e políticos, que postulam a linearidade das articulações entre educação e
trabalho/emprego, sugerindo, por exemplo, que o investimento e opções dos
diplomados no ensino superior se orientam, exclusiva ou predominantemente, por
razões que se relacionam com a inserção profissional. Com efeito, neste texto
reúnem-se evidências empíricas que contribuem para questionar aquelas
interpretações lineares das relações entre educação, trabalho e emprego,
ilustrando a sua complexidade.
Sugere-se, por exemplo, que quer a decisão de frequentar formação inicial no
ensino superior, quer a opção de a ele regressar no decorrer das trajetórias de
vida dos sujeitos não são simplesmente alternativas ao desemprego, como por
vezes se sugere nos discursos correntes. Essas decisões e opções correspondem,
genericamente, a motivações para o alargamento de conhecimento e/ou
enriquecimento intelectual que os sujeitos consideram intrínsecas a si, as
quais se entrelaçam com a procura de aprofundar conhecimentos que lhes permitam
desempenhar melhor a sua profissão. Também a título de exemplo, refira-se que a
conciliação entre o ofício de estudante e o exercício de uma atividade
remunerada durante a formação inicial não é maioritária, sobretudo no caso
português. Contudo, ficam por esclarecer as razões que estão na origem da
reduzida expressão que este público estudantil tem no contexto do ensino
superior em Portugal e também se questiona em que medida esta situação poderá
estar a ser alterada na atual conjuntura.
Assim sendo, consideramos que a reflexão produzida neste artigo não permite
apoiar a ideia de que os diplomados de ensino superior sejam orientados na sua
escolha de ingresso nesse nível de ensino por opções quase exclusivamente
instrumentais, de caráter economicista, centradas na inserção no mercado de
trabalho e, dentro deste, pela conquista de posições económica e
estatutariamente destacadas. A valorização dos aspetos intrínsecos, tanto ao
nível escolar quanto do próprio emprego, tem, de resto, sido por nós salientada
(Chaves, 2007; 2010; Chaves e Morais, 2008; Morais, Chaves e Batista, 2010; N.
Alves, 2009; M. G. Alves, 2009), na senda de outros autores que já a haviam
destacado (Baudelot e Gollac, 2003; Cabral, Vala e Freire, 2000; Freire, 2000;
Pais, 1998; Twenge e outros, 2010), embora, em bom rigor, continue a ser
tendencialmente descurada na análise sociológica, mas mais ainda nas pré-noções
de senso comum acerca das razões de frequência do ensino superior e das
relações dos indivíduos com o trabalho remunerado.
Não obstante, é obviamente necessário manter estas afirmações conclusivas sob
vigilância crítica, confrontando-as com resultados de pesquisa empírica
porventura mais extensiva, bem como (re)analisando-as no futuro. As
modificações na oferta formativa entretanto introduzidas na sequência do
Processo de Bolonha, bem como as profundas transformações económicas que marcam
a atualidade e que têm consequências significativas nas dinâmicas dos mercados
e contextos profissionais, não deixarão de afetar o modo como se estruturam as
trajetórias académicas e profissionais e as expectativas e aspirações
relativamente ao ensino superior nas sociedades contemporâneas.