Medicamentos e Pluralismo Terapêutico: Práticas e Lógicas Sociais em Mudança
Medicamentos e Pluralismo Terapêutico. Práticas e Lógicas Sociais em Mudança
[Noémia Lopes (org.), 2010, Porto, Afrontamento]
David Tavares*
* Docente na Escola Superior de Tecnologias da Saúde de Lisboa (ESTeSL). E-
mail:david.tavares@estesl.ipl.pt
Em termos gerais, a problemática em análise no livro organizado por Noémia
Lopes, intitulado Medicamentos e Pluralismo Terapêutico. Práticas e Lógicas
Sociais em Mudança, insere-se numa área temática específica do campo da
Sociologia da Saúde que se reporta à medicação e aos medicamentos, pouco
explorada em Portugal ou mesmo em termos internacionais, pelo menos com a
complexidade e profundidade com que é nesta obra.
O produto da presente publicação representa, de certa forma, uma continuidade
da profícua investigação anterior desenvolvida pela sua autora/organizadora nos
últimos anos, cujos resultados têm sido divulgados em diversas publicações que
incluem as principais revistas de referência sociológica em Portugal
(Sociologia, Problemas e Práticas; Revista Crítica de Ciências Sociais). Trata-
se de uma continuidade dinâmica, pois acrescentam-se um conjunto significativo
de novos dados e de novas pistas de reflexão, resultantes do trabalho de
investigação recentemente concluído, que se consubstanciam como um forte
contributo para o conhecimento desta problemática, centrada nas práticas de
pluralismo terapêutico, definidas como “o consumo conjugado ou alternado de
recursos medicamentosos de natureza diversa” e por vezes “de sinal contrário”,
que não se restringem aos medicamentos químicos mas abrangem igualmente os
medicamentos naturais e os alimentos terapêuticos, categorias onde se incluem,
por exemplo, a gama variada de medicamentos naturais tradicionais e os
nutracêuticos ou alimentos funcionais.
O livro está organizado em cinco capítulos referentes às quatro dimensões
abordadas relativamente aos consumos terapêuticos, nomeadamente o pluralismo
terapêutico, as fontes de informação, a percepção e gestão do risco e os
investimentos na saúde, acrescentando-se um último referente à reflexão
metodológica. A bibliografia referenciada no final de cada capítulo constitui,
aliás, um excelente ponto de partida para os futuros interessados no estudo
desta problemática. Vale a pena referir, relativamente à organização do livro,
que da sua leitura ressalta uma forte continuidade entre os vários capítulos,
provavelmente devido ao facto de ter sido adoptada uma estrutura comum a todos
eles, contrariando a tendência frequente para se verificar alguma
descontinuidade e dispersão da análise quando as diferentes partes são
redigidas por autores diferentes (Noémia Lopes, Telmo Clamote, Hélder Raposo,
Elsa Pegado e Carla Rodrigues).
Tendo como referencial permanente o trabalho de investigação realizado, os
autores procedem a um mapeamento rigoroso das formas plurais que caracterizam
os consumos terapêuticos, a partir de uma análise quantitativa elaborada com
base nos resultados de um inquérito aplicado a amostras muito amplas (n = 1500
+ 400) e, por outro lado, operam uma categorização exaustiva dos discursos dos
indivíduos, a partir de uma análise predominantemente qualitativa, realizada
com base nos depoimentos expressos nas entrevistas semiestruturadas (75).
Num e noutro caso, os resultados apresentados traduzem de forma minuciosa as
diferentes lógicas do consumo terapêutico, fornecendo, por um lado, importantes
indicações acerca das tendências gerais relativamente a estes consumos, nas
diferentes dimensões que se constituíram como objecto de estudo (pluralismo
terapêutico, fontes de informação e investimentos informacionais, percepção e
gestão do risco, investimentos na saúde), bem como acerca das tendências
relativas à distribuição por sexo, idade, escolaridade e território
(predominantemente rural e predominantemente urbano) e, por outro lado,
caracterizam os diferentes consumos terapêuticos nas várias dimensões em
estudo, através da criação de um conjunto rigoroso e exaustivo de categorias/
tipologias.
Não cabendo no espaço desta recensão a referência pormenorizada ao amplo
conjunto de resultados apresentados nem aos aspectos mais específicos da
reflexão aprofundada a que esses resultados deram origem, vale a pena
explicitar algumas tendências gerais, nomeadamente a coexistência de tendências
(só) aparentemente contraditórias e paradoxais, como o aumento do pluralismo
terapêutico e simultaneamente o aumento da circulação e do consumo de
medicamentos químicos, num quadro de “farmacologização do quotidiano”; a
articulação entre “critérios tradicionais, como a experiência corporal […] com
novas possibilidades de apropriação, comparação e validação da informação
pericial”, na relação que os indivíduos estabelecem com as diversas fontes de
informação; “as formas complexas e contraditórias de percepção e de resposta
face ao risco que os indivíduos assumem no dia-a-dia dos seus contextos
circunstancialmente situados”; “o carácter contingencial e processual de
orientações e de investimentos de saúde”.
Ao longo do livro, o leitor é remetido para um permanente rigor teórico e
metodológico, que preside à apresentação dos resultados do trabalho de
investigação realizado e ao debate das questões elencadas, com uma “lucidez
crítica” considerável, se tivermos em conta estarmos perante um tema
susceptível de múltiplas mistificações e generalizações mais ou menos
simplistas que, como é sabido, circulam na sociedade e também em diversos meios
científicos, a propósito dos consumos terapêuticos. Neste sentido, a análise
aqui encetada tem o valor acrescentado inerente ao seu carácter
desmistificador.
A análise sobre os consumos terapêuticos realizada neste livro contribui também
para o debate mais vasto de questões transversais que se afiguram como centrais
e emergentes na agenda actual da Sociologia da Saúde, nomeadamente as que se
reportam aos processos sociais e ao contexto das transformações sociais. Entre
essas questões, figura seguramente o modo como a tendência para o progressivo
crescimento da pluralização dos consumos terapêuticos se inscreve em novas
percepções, investimentos e práticas relativamente à saúde e à doença,
construídas num quadro de recomposição e reconfiguração da relação entre os
universos periciais e os universos leigos.