Caminhos limitados ou mobilidade bloqueada?: A mobilidade socioprofissional dos
imigrantes brasileiros em Portugal
Introdução
Apesar de haver em Portugal uma longa tradição de estudos sobre migrações, a
análise específica da mobilidade social e, em particular, das trajectórias
profissionais dos imigrantes tem sido alvo de reduzida atenção. Tal sucede
tanto no âmbito da mobilidade intrageracional, relativa aos trajectos sociais e
profissionais dos imigrantes, como intergeracional, contemplando as comummente
designadas segundas gerações. A escassez de referências parece resultar da
escassez de dados estatísticos sobre o tema e, também, da dimensão temporal
ainda reduzida de Portugal enquanto país de acolhimento de indivíduos e
trabalhadores estrangeiros. Como notam Machado e Abranches (2005: 70), a
escassa informação disponível sobre trajectórias sociais de imigrantes é devida
não só à falta de quem as estude, mas também à relativa inexistência, até há
alguns anos, do que estudar.[1]
A nível internacional, porém, existem correntes teóricas bem consolidadas que
se debruçam sobre estes temas. Curiosamente, a investigação tem sido mais
frequente no contexto norte-americano do que no europeu. Tal parece resultar do
maior tempo de permanência dos imigrantes, no primeiro caso, e do entendimento
inicial dos imigrantes como temporários, no segundo. Enquanto nos Estados
Unidos da América o estudo da imigração tem sido sempre efectuado na
perspectiva da mobilidade socioprofissional das primeiras gerações e dos seus
descendentes (ver, entre outros, Chiswick, 1978; Portes, 1995 e 1999;
Papademetriou e outros, 2009), na Europa a mobilidade das primeiras gerações
tem sido alvo de reduzida atenção e só recentemente o tema das segundas
gerações ganhou relevo (ver, entre outros, Bommes e Kolb, 2006; King e outros,
2006). Apesar de, em termos institucionais, o estudo da mobilidade social e o
das migrações pouco se cruzarem, por o primeiro estar sobretudo ligado às
teorias das classes e estratificação social, as trajectórias dos migrantes têm
sido analisadas sob as perspectivas alternativas da incorporação no mercado de
trabalho, da integração social e das segundas gerações.
No que se refere à mobilidade profissional objecto deste texto , grande
parte da discussão tem resultado do confronto entre perspectivas que acentuam a
autonomia dos migrantes e outras que relevam as condicionantes estruturais.
Alguns dos contributos resultam da aplicação do modelo clássico de assimilação,
sobretudo considerando os ganhos em capital humano por parte dos migrantes.[2]
Autores como Chiswick (1978; ver também Chiswick e outros, 2005) foram
pioneiros nesta área, admitindo que o processo de migração é caracterizado por
um declínio inicial do estatuto socioprofissional, seguido de um progressivo
aumento, na sequência do maior envolvimento dos migrantes na sociedade de
destino, passando pelo domínio da língua, melhor acesso a informação sobre o
mercado de trabalho, reconhecimento de diplomas e aquisição de novas
competências.[3] Os contributos alternativos têm destacado os limites
estruturais à mobilidade. Portes (1995 e 1999, entre outros) é um dos autores
mais relevantes neste domínio, por ter caracterizado os limites à mobilidade
decorrentes dos diferentes modos de incorporação no mercado de trabalho e, mais
em geral, por ter teorizado o modelo da assimilação segmentada. Devido à
segmentação laboral e à desigualdade de recursos, muitos dos imigrantes e dos
seus descendentes ficam retidos nos segmentos mais desfavorecidos do mercado de
trabalho, não lhes sendo habitualmente possível efectuar percursos ascendentes
significativos.
Qualquer que seja o contributo teórico adoptado, o impacto das trajectórias de
mobilidade profissional nos padrões de integração social é enorme. É
relativamente frequente que, na primeira inserção no mercado de trabalho, os
imigrantes exerçam funções nos sectores mais desqualificados da economia,
efectuando por isso um percurso descendente em relação ao seu país de origem
(pelo menos considerando a sua posição na hierarquia social desse país).
Contudo, a sua permanência nesses segmentos ao longo dos anos evidencia um
problema de integração, situação que corre um elevado risco de ser reproduzida
pela geração seguinte. Por esta razão, os processos de mobilidade ascendente,
de espectro bastante variável, são de particular interesse, pelo que importa
tentar conhecer a sua amplitude e as variáveis que determinam a ocorrência
dessas situações.
Este texto pretende aprofundar a temática da mobilidade socioprofissional dos
imigrantes em Portugal, adoptando uma perspectiva intrageracional. Serão
destacados os padrões de inserção profissional em três momentos: antes da
migração, à chegada a Portugal e à data do inquérito. O caso estudado é o dos
imigrantes brasileiros, com base num inquérito realizado em 2009 a cerca de
1400 indivíduos de nacionalidade brasileira que residiam ou trabalhavam em
Portugal (ver Góis e outros, 2009). Nas secções seguintes serão, primeiro,
apresentados os principais resultados disponíveis da investigação sobre
mobilidade e trajectórias socioprofissionais em Portugal. Depois, serão
revistos os principais dados resultantes do inquérito, realçando os percursos
de mobilidade relativos à condição perante o trabalho, situação na profissão,
grupos profissionais e sector de actividade. Neste ponto serão, ainda,
discutidos alguns percursos-tipo que emergem da evidência recolhida.
Finalmente, serão apresentadas algumas notas conclusivas.
Mobilidade socioprofissional dos imigrantes em Portugal: a investigação
disponível
Segundo Machado e Azevedo (2008: 26), a mobilidade social é um dos processos
pouco ou nada investigados na área da imigração e etnicidade em Portugal. As
trajectórias profissionais, um dos vectores centrais dessa mobilidade, têm sido
observadas algumas vezes, embora raramente de forma sistemática. Alguns dos
contributos mais explícitos para o estudo da mobilidade socioprofissional são
os de Machado e Abranches (2005), Carneiro (2006) e Machado (2008). O tema tem
sido ainda analisado como parte de objectivos mais amplos por outros autores.
Entre outros, podem ser referidos contributos como os de Machado e outros
(2007) e Pereira (2010), sobre imigrantes africanos; Casa do Brasil de Lisboa
(2004), Malheiros (2007) e Xavier (2007), acerca da imigração brasileira;
Baganha e outros (2004 e 2010) e Mendes (2010), sobre imigrantes leste-
europeus; e Oliveira (2005), acerca das estratégias empresariais dos
imigrantes.
A evidência recolhida nestes trabalhos é muito diversa, por incluir indivíduos
com um tempo de permanência em Portugal muito variado, estratégias migratórias
de diferente tipo, imigrantes com níveis educacionais e profissões anteriores
muito heterogéneos. Os percursos profissionais observados têm incluído tanto a
colocação directa em lugares de topo como, maioritariamente, a ocupação de
segmentos pouco favorecidos do mercado de trabalho, bem como várias
trajectórias posteriores. Apesar da diversidade, a investigação tem apontado
para um percurso mais comum: depois de uma mobilidade descendente logo após a
chegada, existe alguma ascensão profissional por parte dos imigrantes, bem como
dos seus descendentes, mas os caminhos percorridos são limitados. Nos termos
utilizados por Machado (2008: 129), as pesquisas realizadas mostram que muitos
migrantes, apesar de trajectos longos, têm uma mobilidade profissional
limitada, que os mantém dentro dos segmentos laborais menos valorizados, embora
com algumas mudanças de ramo e alguma melhoria das condições de trabalho.
Consideremos, em pormenor, alguns dos estudos acima referidos. Machado e
Abranches (2005) partiram de uma pesquisa incidindo sobre cabo-verdianos e
indianos hindus, e procuraram perceber se a condição socioprofissional desses
imigrantes seria então (em 2004), semelhante ou contrastante com a que
apresentavam logo após a chegada a Portugal. Foi aplicado um inquérito a 600
indivíduos, que permitiu a reconstituição das suas trajectórias
socioprofissionais, tomando como referência o posicionamento dos inquiridos em
quatro momentos distintos: os dois últimos anos antes da vinda para Portugal;
um ano após a chegada; o ano de meio percurso; e o ano de aplicação do
inquérito. Posteriormente, observaram-se os processos de mobilidade estrutural
e trajectórias individuais típicas, através da comparação de um mesmo conjunto
de indicadores (condição perante o trabalho, sector de actividade e categoria
profissional), nesses quatro momentos.
Referindo-nos à empregabilidade dos cabo-verdianos, o estudo mostra que o
trabalho assalariado era não só a condição perante o trabalho mais comum antes
da partida, como continua a sê-lo logo após a chegada, sobretudo em modalidades
de trabalho precário o que revela continuidade social. Com poucos recursos
escolares e económicos, os cabo-verdianos encontram trabalho sobretudo na
construção civil (os homens) ou no serviço doméstico (as mulheres), sectores
historicamente mais receptivos a enquadrarem os trabalhadores menos
qualificados. Já o trabalho por conta própria praticamente deixa de existir.
Os hindus, por sua vez, inseriam-se esmagadoramente no sector do comércio (83%)
antes da vinda. No entanto, 21% dos homens à chegada encontraram emprego no
sector da construção civil, situação que a maioria conseguiu inverter (o seu
valor recua para os 6% em 2004): ainda que mantendo a condição de assalariados,
conseguem retornar às actividades comerciais ao longo do tempo. Na verdade,
muitos dos inquiridos nestas circunstâncias são assalariados de outros hindus
que mantiveram o estatuto de pequenos empregadores à chegada a Portugal ou que
o (re)conquistaram já no curso da estadia no país. No caso hindu, é justamente
ao nível do trabalho por conta própria, com ou sem empregados, que se verifica
uma notável continuidade, sendo de destacar o crescimento contínuo do pessoal
dos serviços e vendedores.
Em conclusão, Machado e Abranches (2005) afirmam que ambos são caminhos
limitados de integração social, embora os hindus se encontrem numa situação
mais vantajosa do que a dos cabo-verdianos. Enquanto os primeiros conseguiram,
em larga escala, reconstituir em Portugal a minoria intermediária[4] que eram
em Moçambique (sobretudo mediante a internalização gradual dos assalariados
externos, promovendo o emprego co-étnico), os últimos não se conseguiram
afastar verdadeiramente do mercado de trabalho secundário, o que levanta
questões acerca das consequências negativas que esta fraca integração pode
acarretar para as gerações futuras. A permanência da grande maioria dos
imigrantes cabo-verdianos no sector secundário do mercado de trabalho e a
reconstituição progressiva dos hindus como minoria intermediária foram
adicionalmente comprovadas através da identificação das trajectórias
individuais mais comuns nas duas populações.
Um ano após esta pesquisa foram publicados os resultados do estudo coordenado
por Carneiro (2006). Este baseia-se numa metodologia plural, que incluiu a
consulta das bases de dados dos Quadros de Pessoal (para avaliar a mobilidade
dos estrangeiros em 2000 e 2002), bases de dados do IDICT[5] (para avaliação da
mobilidade dos estrangeiros comparando dois contratos de trabalho ao longo do
tempo) e a aplicação de um inquérito a uma amostra da população imigrante em
Portugal, num total de 1588 inquiridos com 18 e mais anos de idade, dos quais
19% eram provenientes do Brasil.
Este último inquérito, aplicado entre Dezembro de 2004 e Janeiro de 2005, veio
revelar as características da primeira inserção no mercado de trabalho em
Portugal. Nesta fase, os imigrantes concentram-se em profissões não
qualificadas (49,9%), ou então especializadas (44%), sendo a importância
relativa de quadros superiores e médios bastante residual. O cruzamento das
profissões com o nível de escolaridade evidencia uma desadequação entre as duas
realidades. A título de exemplo, metade dos imigrantes com nível universitário
aceitou empregos não qualificados na sua primeira inserção no mercado de
trabalho português. Ou seja, o estudo apresenta evidências de uma forte
desqualificação no momento de entrada no mercado de trabalho em Portugal,
sobretudo por via de uma forte integração em sectores de mão-de-obra intensiva,
como a construção civil e obras públicas.
Os resultados do inquérito indicam que os sectores de actividade mais
relevantes num primeiro momento são a construção civil e obras públicas (37%),
os serviços de limpeza (15,5%), a restauração e hotelaria (12, 1%) e outros
serviços (20%).
Após a primeira inserção no mercado de trabalho nacional, caracterizaram-se os
trajectos de mobilidade em relação ao último ou actual emprego dos imigrantes.
Baseando-se em dados do IDICT, a equipa coordenada por Carneiro (2006)
construiu uma série de matrizes e de índices que permitiu concluir que as
profissões de menor qualificação foram as que mais conseguiram reter os
imigrantes ao longo do período em análise, sendo as profissões de técnicos e
profissionais de nível intermédio e pessoal administrativo as mais permeáveis à
mobilidade dos trabalhadores imigrantes. Por nacionalidade, os autores referem
que os brasileiros são dos mais propícios a terem uma inserção muito
desqualificada à chegada, se bem que numa fase posterior se encontrem entre os
que registam um maior índice de mobilidade ocupacional tratando-se, quase
sempre, de mobilidade em sentido ascendente.
Em conclusão, os dados de diversas fontes que foram analisadas por Carneiro
(2006) levam à observação de que existe uma tendência para que os imigrantes se
insiram inicialmente em profissões e sectores de qualificação inferior aos que
ocupavam nos países de origem, seguindo-se uma melhoria das condições de
emprego seguintes. Porém, o grau de sucesso das trajectórias varia muito em
função da nacionalidade dos imigrantes.
No cômputo geral, os autores inclinam-se para a refutação da hipótese
inicialmente avançada sobre o trajecto em curva em U:
Embora se verifique um potencial e lento ajustamento às habilitações/
qualificações detidas no país de origem, ainda subsiste uma desadequação entre
os empregos obtidos e as habilitações detidas, como se o movimento ascendente
da curva do U estivesse ainda incompleto e em progressão inicial. Este
gradual ajustamento tem uma incidência significativamente diferente consoante a
origem do grupo imigrante em presença, verificado pela [ ] mais célere
adequação da actual ocupação/qualificação às habilitações/profissões
anteriormente detidas pela população oriunda de países da Europa de Leste e
China. (Carneiro, 2006: 134)
Mais recentemente, Machado (2008) publicou o artigo Filhos de imigrantes
africanos no mercado de trabalho: acessos, perfis e trajectos. Este também se
debruça sobre questões de mobilidade profissional, se bem que a base de
comparação seja geracional: isto é, compara-se o posicionamento actual dos
filhos com o posicionamento actual dos pais. Ainda assim, uma pequena parte do
estudo foca a mobilidade dos indivíduos (neste caso, dos jovens), comparando a
categoria profissional da primeira ocupação com a actual. A metodologia, neste
caso, foi a realização de um inquérito a 1000 indivíduos com idade compreendida
entre os 15 e os 29 anos, residentes na região de Lisboa e Vale do Tejo, para
além de algumas entrevistas em profundidade.
Em traços gerais, no que diz respeito à mobilidade profissional dos jovens,
Machado (2008) conclui que houve alguma mobilidade ascendente: ou seja, havia
um maior número de jovens em profissões menos qualificadas (em sectores como a
construção civil e os serviços) no início do seu percurso laboral do que na
altura da inquirição, enquanto a presença nas categorias mais qualificadas
registava um acréscimo. Porém, o autor ressalva que o facto de se verificar
alguma melhoria a este nível não significa que os trajectos destes jovens
deixem de ser marcados pela instabilidade e precariedade dos vínculos laborais.
Ao comparar as trajectórias de pais e filhos, Machado (2008) apresenta quatro
tipologias: (1) trajectórias estacionárias em baixo, isto é, empregabilidade
de pais e filhos nas categorias menos qualificadas; (2) trajectórias em que as
mudanças ocorrem entre categorias próximas (por exemplo, quando os pais são
operários da construção e os filhos trabalhadores dos serviços e vendedores);
(3) trajectórias de mobilidade descendente, muito residuais; e, por fim, (4)
trajectórias de mobilidade ascendente. Relativamente a estas últimas, é
apresentado um perfil de caracterização dos indivíduos que se compara com o
perfil dos filhos de imigrantes das classes populares em geral, concluindo-se
que aquelas trajectórias de mobilidade ascendente são caracterizadas por uma
maior percentagem de mulheres, escolaridade mais elevada e maior preponderância
de detenção de nacionalidade portuguesa.
Em síntese, estes estudos revelam a existência de alguns caminhos limitados
de mobilidade, quer a nível intrageracional, quer intergeracional. Face ao
reduzido tempo de estadia de muitos imigrantes em Portugal, em particular os de
origem não africana, importa aprofundar estas observações, de forma a
determinar se, com o aumento da duração da residência, aqueles caminhos se
poderão alongar como parece ser defendido por Carneiro (2006) para algumas
nacionalidades ou se, pelo contrário, enfrentarão obstáculos insuperáveis
como Machado e Abranches (2005) sugerem para muitos imigrantes cabo-verdianos.
Noutros termos, tudo se irá jogar entre o prolongamento de trajectórias
ascendentes, na sequência de um melhor uso dos recursos individuais, e a
delimitação dos percursos a segmentos laborais bem determinados, em resultado
da segmentação do mercado de trabalho e de constrangimentos específicos dos
imigrantes. Enquanto no primeiro caso subsiste a expectativa de que, com o
tempo, se conhecerão numerosos casos de sucesso, no segundo podemos falar em
mobilidade bloqueada, sendo o sucesso da integração de imigrantes sempre
diminuto.[6]
Mobilidade socioprofissional dos imigrantes brasileiros em Portugal: resultados
de um projecto
Considerações metodológicas
Os dados apresentados nesta secção resultam de um inquérito a uma amostra de
imigrantes brasileiros em Portugal, realizado em 2009 no âmbito de um projecto
de investigação financiado pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT).
Nesta operação foram inquiridos cerca de 1400 indivíduos de nacionalidade
brasileira que residiam ou trabalhavam em Portugal. O inquérito, que abrangeu o
território nacional (todos os distritos do Continente e Regiões Autónomas da
Madeira e Açores), foi aplicado entre Janeiro e Junho de 2009.[7] As questões
foram previamente adaptadas à terminologia brasileira e a inquirição coube a
cidadãos brasileiros, sob coordenação da equipa de investigação. A técnica de
amostragem não aleatória utilizada foi a de bola de neve, o que se tornou
necessário face à inexistência de uma lista que permitisse elaborar uma amostra
representativa. A principal desvantagem desta técnica é a capacidade limitada
para proceder a generalizações para todos os imigrantes brasileiros. Porém, o
desenho final da amostra levou em conta os dados conhecidos sobre os
brasileiros com estatuto legal em Portugal, em particular o sexo e o distrito
de residência, o que permite validar as suas características face à informação
disponível. A principal limitação do inquérito foi a abundância relativa de
imigrantes recentes (entradas na última década), o que o torna pouco
representativo das vagas de imigração mais antigas.
Inserção dos imigrantes brasileiros no mercado de trabalho
Nos próximos parágrafos serão analisadas as trajectórias profissionais dos
imigrantes brasileiros em Portugal, tendo por referência a sua situação no
momento anterior à partida, à chegada a Portugal, e no momento da inquirição,
realizada em 2009. O conjunto de indicadores utilizados diz respeito à condição
perante o trabalho, situação na profissão, categoria profissional e sector de
actividade.
No que diz respeito à condição perante o trabalho no Brasil, no momento
anterior à partida, 76,1% dos inquiridos eram activos e 19,9% inactivos. Apenas
10% dos activos se encontravam desempregados, o que significa que muitos dos
que responderam à questão abandonaram os seus empregos antes de virem para
Portugal. Só por si, este é um dado bastante relevante, pois mostra que os
motivos conducentes à decisão de emigrar não se prendem apenas com a
incapacidade de encontrar trabalho no país de origem. Comparando estes
resultados com os que dizem respeito à condição perante o trabalho actual,
verifica-se que a percentagem de activos aumentou em Portugal.[8] Contudo,
enquanto o peso de indivíduos que exercem uma profissão se mantém praticamente
inalterado, o número de desempregados praticamente duplicou, o que aponta para
algum tipo de deterioração das condições de partida. O facto de o inquérito ter
sido realizado em 2009, em plena conjuntura de recessão em Portugal, pode ter,
porém, enviesado os resultados no sentido do aumento substancial do desemprego
nessa altura. O número de inactivos, por seu lado, diminuiu bastante, sobretudo
por conta dos estudantes que passaram a integrar o mercado de trabalho.
Com base nos dados da situação na profissão, focando os indivíduos com emprego,
o mais comum no Brasil era a inserção como trabalhadores por conta de outrem
(numa empresa) (59,6%), seguida dos trabalhadores por conta própria (isolados)
(20,9%). Mas em Portugal o peso dos assalariados conhece um acréscimo
considerável, absorvendo um grande número de trabalhadores que previamente se
encontravam noutra situação. No momento da inquirição, são 74,3% os imigrantes
que se encontram nessa situação. As restantes categorias diminuem de
importância, com excepção do conjunto pouco claro de outras situações, mas
que em grande parte se refere ao serviço doméstico. Noutros termos, verifica-se
um grande fluxo proveniente das várias situações na profissão em direcção ao
estatuto de assalariado em Portugal. Este é o percurso habitual de incorporação
no mercado de trabalho português por parte dos imigrantes brasileiros.
Os dados sobre categorias profissionais permitem algumas conclusões relevantes.
Considerando quatro grandes grupos de profissões, no Brasil cerca de metade dos
inquiridos enquadrava-se no grupo dos técnicos, profissionais de nível
intermédio, pessoal administrativo, dos serviços e vendedores (54,9%),
seguindo-se os quadros superiores, dirigentes e especialistas (20,1%) (ver
quadro 1).[9] Por seu lado, a proporção de trabalhadores não qualificados era
bastante inferior (11,3%). Porém, as ocupações dos imigrantes à chegada a
Portugal apontam para uma clara desqualificação o que não causa surpresa,
tendo em conta os estudos anteriores (Casa do Brasil de Lisboa, 2004;
Malheiros, 2007). Embora a inserção no grupo dos técnicos consiga manter alguma
continuidade face ao que se verificava no Brasil (47,4% à chegada), a proporção
de trabalhadores não qualificados quase triplica (atingindo 29,8%) e, em
contrapartida, os quadros atingem um valor verdadeiramente residual (4,4%).
Tomando como referência a situação de emprego mais recente, os valores já se
aproximam significativamente dos que se verificavam na origem. Porém, eles
situam-se ainda aquém entre os mais qualificados em 2009, os quadros
representam 11,6% dos imigrantes , enquanto os técnicos chegam aos 49,3% e os
trabalhadores não qualificados apresentam um valor expressivo (21,2%).
Quadro 1 Categoria profissional dos imigrantes brasileiros no Brasil, à chegada
a Portugal e à data do inquérito
Os indivíduos tendem, assim, a passar por um processo de desqualificação à
chegada, conseguindo mais tarde reverter a situação, se bem que no cômputo
geral pareçam sofrer uma mobilidade descendente face à sua situação de partida,
o que levanta questões sobre o saldo do projecto migratório. É certo que o
balanço deste projecto não se resume ao estatuto socioprofissional: factores
como o aumento no poder de compra e a melhoria na qualidade de vida, entre
outros, podem justificar para os imigrantes um percurso de sucesso que não seja
avaliado apenas com base na sua mobilidade socioprofissional. Contudo, o tipo
de inserção na hierarquia socioprofissional no país de acolhimento revela-se um
factor decisivo no que diz respeito à integração a longo prazo.
Este retrato apresenta algumas semelhanças com o que tem sido descrito na
bibliografia e o que tem sido apurado para o caso português. Do ponto de vista
teórico, verifica-se parcialmente o efeito de curva em U assinalado
anteriormente. Existe também alguma analogia com os percursos relatados para
outros grupos imigrantes em Portugal. No geral, verifica-se a mesma rigidez ou
falta de mobilidade nos percursos já encontrada nos estudos de Machado e
Abranches (2005) e Carneiro (2006): os caminhos de mobilidade existem, mas são
limitados. Contudo, existem diferenças face a outros perfis de inserção. É
certo que as trajectórias de alguns imigrantes brasileiros encontram
semelhanças com o perfil traçado para os imigrantes cabo-verdianos no estudo de
Machado e Abranches (2005), perfil caracterizado por uma inserção prolongada no
mercado de trabalho secundário. Mas a análise mais aprofundada dos percursos
parece indicar uma maior facilidade por parte de outros imigrantes brasileiros
em se libertarem dos segmentos mais desqualificados de emprego, aparentemente à
semelhança do que foi retratado por Carneiro (2006) para os imigrantes da
Europa de Leste.
O que em pesquisas anteriores não se fez em parte, admitimos, por não se
centrarem especificamente numa nacionalidade sobre a qual pudessem estabelecer
períodos temporais correspondentes a vagas diferenciadas de migração e que,
por conseguinte, é inovador no presente estudo, é a avaliação das trajectórias
por ano de chegada. Este aspecto é particularmente importante no caso da
imigração brasileira, dada a existência de diferentes vagas de imigração
(Malheiros, 2007; Góis e outros, 2009). Aí, tornam-se visíveis diferenças na
evolução dos padrões de inserção dos grupos profissionais (ver figura 1).[10]
Figura_1 Evolução da pertença aos grupos profissionais - % de quadros,
técnicos, operários ou trabalhadores não qualificados no total dos
trabalhadores, por ano de chegada, nos momentos em análise
Em síntese, verificou-se uma fase de mobilidade ascendente acentuada entre os
que chegaram durante as primeiras vagas modernas de imigração, até ao final da
década de 1990. A chegada a Portugal não deixou de passar por uma fase de
desqualificação, mas actualmente a maioria dos imigrantes que chegou nesse
período encontra-se bastante melhor posicionada do que à partida.[11] Entre
1999 e 2008, o padrão é significativamente diferente: desqualificação à chegada
com uma ligeira melhoria ao longo do tempo, mas sem nunca alcançar os valores
(mais positivos) registados no Brasil. Por fim, é difícil avaliar o ano de
2009, uma vez que se trata de um ano isolado com um número de casos reduzido.
Estes tipos diferentes de trajectórias podem suscitar, contudo, explicações não
coincidentes. Por um lado, podem resultar da duração variável do percurso
migratório. Neste caso, uma estadia mais longa favorece a subida na hierarquia
social, o que vai ao encontro das teorias baseadas no capital humano. Por outro
lado, podem estar ligadas ao tipo de empregos disponíveis: o facto de Portugal
ter incorporado mais imigração qualificada até à viragem do século,
privilegiando depois o recrutamento para tarefas não qualificadas (Malheiros,
2007; Peixoto e Figueiredo, 2007), pode ter favorecido os percursos de
mobilidade dos primeiros migrantes e bloqueado os dos segundos.
Além dos anos de chegada, a observação incidiu também sobre as categorias
profissionais presentes em cada momento (ver figura_1). A imigração de pessoal
altamente qualificado, bastante presente até final da década de 1990, decresceu
em termos relativos na década seguinte (se bem que o seu peso em 2009 tenha
voltado a subir, ultrapassando os 25% entre o total de imigrantes que chegaram
a Portugal nesse ano). A proporção dos técnicos, por seu lado, embora se tenha
mantido relativamente constante relativamente ao seu peso no Brasil, tem vindo
sempre a aumentar entre os profissionais que encontram trabalho em Portugal.
Por sua vez, os operários mostram alguma heterogeneidade em função do ano de
chegada: se entre os indivíduos que emigraram há mais tempo eles quase não
existiam, nem sequer no momento de chegada, entre 1999 e 2003 houve uma grande
vaga destes profissionais e uma grande absorção pelo mercado de trabalho, que
se mantém em 2009. Nos anos entre 2003 e 2009, os números tendem a diminuir.
Por fim, os trabalhadores não qualificados apresentam sempre uma distribuição
em U invertido, qualquer que seja o ano de chegada: a preponderância deste
tipo de ocupações é menor entre quem veio para Portugal até 1998 e atingiu o
seu máximo dos três momentos considerados no período de 2004 a 2007. Os
diferentes tipos de incorporação laboral dos brasileiros em sucessivas vagas de
imigração, estudados por diferentes autores (Casa do Brasil de Lisboa, 2004;
Malheiros, 2007; Peixoto e Figueiredo, 2007; Xavier, 2007; Góis e outros, 2009)
ficam, deste modo, confirmados.
Do ponto de vista das categorias profissionais, os dados do inquérito indicam
ainda que o género e as habilitações são variáveis a ter em conta. Em primeiro
lugar, a intensidade da relação entre a ocupação profissional e o género é mais
elevada em Portugal, o que parece apontar para uma maior segmentação da
ocupação segundo o sexo no país de destino, sobretudo no momento de maior
desqualificação: à chegada.[12] Em segundo lugar, se por um lado constatamos
que em qualquer dos países os menos habilitados tendem a ocupar profissões
menos qualificadas relativamente aos que têm níveis habilitacionais mais
elevados, também é verdade que existe uma clara sobrequalificação dos
imigrantes nas profissões que ocupam o que vai ao encontro dos estudos
anteriores (Casa do Brasil de Lisboa, 2004; Peixoto e Figueiredo, 2007) ,
apesar de os níveis actuais já se aproximarem bastante dos registados no país
de origem (quadro 2).
Quadro 2Percentagem de imigrantes brasileiros com escolaridade igual ou
superior a licenciatura nas categorias profissionais de qualificações médias e
baixas, nos três momentos
Sobre os sectores de actividade dos inquiridos no Brasil, a maioria indicou
estar ligada ao comércio, alojamento e restauração, transportes e similares
(34,4%) e a outras actividades de serviços (33%) (quadro 3).[13] Quanto ao
sector em que se inseria a primeira ocupação exercida pelos respondentes em
Portugal, além do comércio, alojamento e restauração, transportes e similares
(40,4%), surgem com expressão bastante superior à que registavam no Brasil os
sectores da construção (19,3%) e das actividades pessoais, familiares e
domésticas (15,8%). A par das outras actividades de serviços, estes continuam a
ser os principais sectores de actividade no momento da inquirição. Esta parece
também ser a principal forma de inserção para a generalidade dos imigrantes em
Portugal, tanto no momento de chegada como à data do inquérito, o que reforça a
hipótese da inserção no mercado secundário de trabalho.
Quadro 3 Sector de actividade dos imigrantes brasileiros no Brasil, à chegada a
Portugal e à data do inquérito
A análise por anos de chegada permite ainda tirar conclusões interessantes.
Independentemente do ano de chegada, o sector do comércio e similares é sempre
o que acolhe maior número de imigrantes. No entanto, emergem alguns padrões
noutras áreas. Até 1998, os inquiridos provinham sobretudo das outras
actividades de serviços e, nesse período, não emigrou ninguém que trabalhasse
na construção. Para os que chegaram entre 1999 e 2003, o sector da construção
teve, e continua a ter, grande visibilidade enquanto empregador. Para os que
imigraram depois dessa data, a empregabilidade nessa área passou a ser menos
expressiva. De 2004 a 2007, e em 2008, verifica-se entre os inquiridos um maior
peso da inserção no sector das actividades pessoais, familiares e domésticas.
Em 2008, cresce ainda a proporção de inquiridos nas outras actividades de
serviços, o que volta a acontecer entre os que chegaram em 2009.[14] O forte
peso dos fluxos de imigração feminina oriundos do Brasil (Padilla, 2007), bem
como a variação conjuntural da procura no sector da construção, poderão
explicar algumas destas tendências.
Existe ainda uma relação entre género e sector de actividade, tal como já se
tinha verificado com os grupos profissionais. Apesar de no Brasil haver
sectores mais masculinizados e outros mais feminizados, em Portugal as
diferenças são sempre mais acentuadas.[15] Também por habilitações, além das
diferenças entre sectores, encontram-se ainda diferenças nos três momentos de
análise, nomeadamente ao nível dos sectores da construção, das actividades
pessoais e das actividades financeiras. Os dois primeiros, em que tipicamente
trabalham indivíduos com baixa escolaridade, são ocupados à chegada a Portugal
por pessoas mais qualificadas do que no Brasil, o que indica um maior
desfasamento entre escolarização e empregos qualificados. No entanto, enquanto
os valores para o sector da construção se normalizaram, para as actividades
pessoais mantêm-se, ainda hoje, ao nível do ensino secundário. No sector das
actividades financeiras, que apresenta maior qualificação dos seus
trabalhadores, encontramos actualmente uma recuperação da relação inicial com a
escolaridade, ou até ligeiramente superior à que se verificava no Brasil, ainda
que o número absoluto de pessoas neste sector tenha diminuído.
Procurou-se também entender que tipos de movimentações se verificam, entre
sectores, ao longo do percurso migratório. A situação de percurso mais comum
(36,7% dos casos) diz respeito a uma continuidade no mesmo sector de actividade
nos três momentos, sobretudo entre os indivíduos provenientes do sector do
comércio, alojamento e restauração, transportes e similares. Também bastante
comum (36,0% dos casos) é a mudança de sector à chegada, face ao ocupado no
Brasil, havendo depois continuidade nesse sector inicial ao longo do percurso
em Portugal. É o caso da inserção à chegada nos sectores da construção ou
actividades pessoais, familiares e domésticas, que se mantém, apesar de no
Brasil os indivíduos trabalharem em áreas diferentes.
Trajectórias individuais típicas de mobilidade ocupacional
Procedemos ainda à observação das trajectórias individuais típicas destes
imigrantes, tomando por referência a sua categoria profissional ao longo do
percurso migratório. Com esta finalidade, recorremos a uma análise de clusters,
[16] utilizando a variável grupo profissional em três momentos: à partida, à
chegada e à data do inquérito. Reportando-se a essa mobilidade, os grupos daí
resultantes foram designados como: mobilidade descendente, que agrega os
casos que não se desviam muito do padrão tendencial da população (304 casos);
mobilidade ascendente (50 casos); recuperação (35 casos), referente aos
imigrantes que, após uma inserção bastante desqualificada à chegada,
conseguiram retomar o tipo de actividades que executavam no Brasil; e
mobilidade descendente acentuada (quadros) (22 casos). Estas designações
correspondem aos motivos que facilmente se depreendem ao observarmos a
composição de cada um dos clusters (ver figura 2).
Figura 2 Composição dos clusters (ocupação profissional de quatro grupos de
imigrantes brasileiros no Brasil, à chegada e à data do inquérito)
A observação do cruzamento entre os clusterse outras variáveis permite detectar
algumas regularidades, embora não tenha emergido daí qualquer relação
estatisticamente significativa.[17] Verificamos que a distribuição por género é
bastante equilibrada nos quatro clusters, embora as mulheres estejam
comparativamente mais representadas nos grupos recuperação (60,0%) e
mobilidade descendente acentuada (quadros) (59,1%).
O 12.º ano é a escolaridade predominante em todos os grupos, mas existem
algumas diferenças interessantes por habilitações. Os inquiridos que apresentam
um padrão de mobilidade socioprofissional ascendente têm, em média,
habilitações inferiores aos restantes. Ainda que 14,6% tenham concluído um grau
de ensino superior, este valor representa a proporção mais baixa de todos os
clusters. Por seu lado, os que mantiveram o mesmo estatuto são tendencialmente
os mais escolarizados, com 23,5% a terem concluído, no mínimo, o ensino
superior, e apenas 11,7% que estudaram no máximo até ao 9.º ano. Não é
surpreendente que os menos escolarizados apresentem um perfil de maior
amplitude na mobilidade; uma vez que terão partido de piores condições
estruturais, têm por consequência uma maior margem de aperfeiçoamento. Por seu
lado, a recuperação do estatuto original entre os mais escolarizados aponta
para uma maior facilidade de adaptação a uma nova realidade e de aceitação
destes indivíduos pela sociedade de acolhimento que não pode ser dissociada dos
seus recursos, nomeadamente escolares.
Por anos de chegada, registam-se ligeiras diferenças entre clusters. De referir
que os indivíduos com um percurso de mobilidade descendente acentuada chegaram
a Portugal, comparativamente mais que nos outros grupos, entre 2004 e 2007, e
que ninguém neste grupo chegou até 1998 nem no ano da aplicação do inquérito
(2009). Estes dados parecem traduzir as diferenças de perfil e trajectórias das
diferentes vagas de imigrantes, bem como o impacto de um período acentuado de
crise em meados da primeira década do novo século que levou a uma
desaceleração da imigração e possível nova mudança de perfil nos anos mais
recentes.
A caracterização dos clusters através de outras variáveis sociográficas faz
incidir luz sobre algumas pistas que podem ser importantes para explicar estas
diferenças de trajectória. O facto de se ter um cônjuge/companheiro de
nacionalidade portuguesa parece contribuir de algum modo para um percurso de
maior sucesso 39,1% dos casos no cluster ascendente e 45,5% no cluster
recuperação, contra 15,2% no cluster descendente e 10,0% no descendente
acentuada (Quadros). Por outro lado, a existência de contactos em Portugal
prévios à partida não parece ter muita influência no tipo de trajectória que os
indivíduos constroem, ainda que a ausência de contactos seja mais notória entre
os que acabam por ver a sua situação inicial bastante deteriorada (proporção
mais elevada no conjunto de clusters, 20,0%), e que o conhecimento prévio de
outros brasileiros além de familiares, colegas, sócios ou amigos em Portugal
tenha importância no percurso daqueles que conseguem recuperar o seu estatuto
original após uma inserção bastante desqualificada à chegada (proporção mais
elevada no conjunto de clusters, 34,0%). Por outras palavras, a importância das
redes sociais no contexto da inserção e posterior mobilidade fica, pelo menos
parcialmente, confirmada (Padilla, 2006).
As variáveis relacionadas com a inserção no mercado de trabalho, como a
situação na profissão actual, parecem ter algum poder explicativo. Verifica-se
que os empregadores são os que mais se destacam no grupo da mobilidade
ascendente, pela sua presença relativamente mais forte (mas, ainda assim, de
apenas 12,0%), e no grupo da mobilidade descendente acentuada, pela sua
ausência. Esta situação aponta para a importância do acesso à propriedade,
factor importante de ascensão social na sociedade portuguesa, que parece também
aplicar-se aos imigrantes. Já os trabalhadores isolados têm maior peso entre os
que mantiveram o mesmo estatuto (22,9%).
Por sector, os resultados são bastante elucidativos. O da construção é bastante
mais representativo na mobilidade descendente (17,6%) do que nos restantes
grupos (abaixo dos 10%). Os clusters ascendente e recuperação têm
distribuições semelhantes por sectores de actividades, com forte presença no
comércio e similares (56,3% e 57,6%), mas este último apresenta um peso maior
nas outras actividades de serviços (30,3% contra 12,5%). Por fim, 42,1% dos
indivíduos que exibem uma mobilidade descendente acentuada (e que no Brasil no
momento da partida eram quadros) trabalham actualmente no sector das
actividades pessoais, familiares e domésticas.
Conclusão
O objectivo subjacente à construção deste texto foi a procura da compreensão
dos trajectos de mobilidade socioprofissional trilhados pelos imigrantes
brasileiros em Portugal. Para tal, apresentou-se em primeiro lugar uma breve
síntese do estado da arte sobre a investigação em Portugal, à qual se seguiu a
análise dos dados recolhidos através de um inquérito aplicado a cerca de 1400
imigrantes brasileiros em Portugal em 2009. As questões que nos permitiram
avaliar o posicionamento destes indivíduos, em dois ou três momentos temporais
distintos do seu percurso, referiam-se à condição perante o trabalho, situação
na profissão, categoria profissional e sector de actividade.
Apesar da heterogeneidade da imigração brasileira e de algumas limitações
metodológicas sobretudo o carácter não representativo da amostra utilizada e
a escassa representação das primeiras vagas da imigração brasileira, que
entraram em Portugal até meados da década de 1990 , este estudo confirma as
conclusões de pesquisas anteriores sobre o tema. De facto, a tendência mais
comum aponta para uma inserção inicial no mercado de trabalho bastante
desqualificada, que a maioria dos imigrantes consegue ir revertendo, embora sem
alcançarem globalmente uma mobilidade ascendente que atinja um nível igual ou
superior ao estatuto socioprofissional anterior. Como o estudo de Carneiro
(2006) constata, é como se o movimento ascendente da curva em U estivesse
ainda incompleto e em progressão. A declaração de Machado (2008) mantém-se,
assim, válida: a mobilidade profissional dos imigrantes em Portugal é ainda
limitada.
Contudo, o presente estudo vai além dos anteriores, no sentido em que ajuda a
esclarecer alguns aspectos que poderão influenciar as trajectórias, abrindo
caminho a novas possibilidades de investigação. O ano de chegada ou, noutra
perspectiva, o tempo de residência é sem dúvida um factor a ter em
consideração. As entradas de imigrantes brasileiros há mais de 10 anos
apresentaram um potencial de mobilidade bastante superior ao dos imigrantes
mais recentes. Embora a degradação da conjuntura económica, bem como a escassez
de emprego qualificado nos últimos anos, possam ter dificultado a mobilidade
nas vagas mais recentes, é possível que o aumento de duração da residência se
traduza por maiores probabilidades de sucesso socioprofissional. Neste sentido,
não existem verdadeiros bloqueios à mobilidade. Ainda assim, face aos
constrangimentos metodológicos apontados, permanece alguma dúvida sobre se o
tempo de residência é condição suficiente para o alongamento dos trajectos de
mobilidade ou se, em alternativa, a inserção nos segmentos mais frágeis do
mercado de trabalho impõe constrangimentos a percursos mais consistentes. Esta
questão exige mais tempo de observação antes de se realizar nova investigação.
Outros factores mostraram-se ainda relevantes para a existência de mobilidade.
No plano das variáveis sociográficas, foi o caso da existência de um parceiro/
cônjuge português, das redes sociais e, embora de forma nem sempre consistente,
do grau de escolarização. Aspectos mais directamente relacionados com a
inserção no mercado de trabalho, como a situação na profissão (em particular o
acesso à propriedade) e o sector de actividade (inserção em actividades
diferentes da construção e serviço doméstico), mostraram estar também
relacionados com percursos de maior mobilidade. A verificação de alguns destes
factores nos imigrantes poderá, assim, em conjunto com o aumento da duração da
residência, beneficiar trajectórias ascendentes.
Apesar das limitações metodológicas do inquérito que esteve na base deste
estudo, que obrigam a considerar os resultados com prudência, esta parece ser a
realidade que se desenha para os imigrantes de nacionalidade brasileira. Como
os estudos anteriores referiram, cada nacionalidade tem as suas especificidades
de inserção no mercado de trabalho. É possível que, para outros grupos de
imigrantes, o tipo de trajectórias e os factores que nelas influem sejam
diferentes do retrato aqui apresentado. Para uns e outros, apenas mais
investigação empírica poderá esclarecer o potencial e os obstáculos à
mobilidade socioprofissional ascendente, isto é, a uma melhoria consolidada das
condições de vida.