A (id)entidade do ensino superior politécnico em Portugal: da Lei de Bases do
Sistema Educativo à Declaração de Bolonha
Para uma reflexão em torno do ensino politécnico
De entre todos os níveis de ensino em Portugal, o ensino superior é talvez
aquele que, nas últimas décadas, mais se transformou, sofrendo alterações a
nível estrutural, institucional, económico, demográfico e social. O ensino
superior hoje, como diz Magalhães (2004), assume-se como um produto da
modernidade, reflectindo todas as transformações ocorridas em outras áreas do
social. Depois de processos de massificação ou de abertura, como lhe prefere
chamar Balsa (2008), ao considerar exagerado o conceito de massificação e
democratização, de alteração demográfica na composição do seu corpo estudantil
(com a crescente feminização), e de diversificação institucional (com o aumento
da oferta privada), na década de 1980 surgiram modificações estruturais,
singularmente descritas na obra de Leão (2007), na sequência da construção do
modelo institucional binário para a formação superior, à semelhança do que
acontecia em alguns países europeus.
Se a duração e o estatuto dos cursos oferecidos pelo ensino politécnico se
constituía, desde logo, como a primeira grande diferença face ao universitário
com a predominância de bacharelatos em termos de oferta , em finais da
década de 1990 esse argumento deixa de fazer sentido, uma vez que, nos
estabelecimentos de ensino politécnico, muitos dos cursos de bacharelato de
três anos dão lugar às licenciaturas bietápicas de quatro anos. Com essa
transição de bacharelatos para licenciaturas bietápicas, surge também uma
alteração no movimento de procura, que poderá (ou não) ter sido induzida pela
referida mudança na oferta, acompanhada, mais tarde, por uma adaptação
curricular dos conteúdos transmitidos e das disciplinas leccionadas. Na viragem
do milénio, era o Processo de Bolonha a alterar a estrutura da formação
superior. Que efeitos tiveram, então, estas alterações nos movimentos de oferta
e procura de formação superior?
Com a problemática da relação entre oferta e procura e da sua evolução como
pano de fundo, uma das preocupações neste artigo é então a de procurar (dar a)
conhecer em detalhe o mercado da formação superior em Portugal nas décadas de
1990 e seguinte, mais especificamente ao nível do subsistema de ensino
politécnico. Nesse sentido, procurámos observar os seus indicadores da oferta e
da procura e compará-los com o subsistema universitário, à luz das alterações
registadas no ensino superior em geral.
A sociologia do ensino superior
A abordagem sociológica em torno da temática do ensino superior tem sido cada
vez mais desenvolvida entre nós. Os investimentos de pesquisa científica têm-se
focado sobretudo nos seus públicos na análise do seu trajecto entre a
escolha, o ingresso, o sucesso, e a sua saída para o mercado de trabalho e
nas suas características sociais, bem como no sistema de avaliação a que o
ensino tem sido sujeito, ou ainda nas políticas que têm, causa ou consequência,
sido definidas no âmbito da formação superior em Portugal. Da enumeração dos
estudos e problemáticas desenvolvidas em torno desta questão, sobressai no
nosso entender a escassez com que a questão do parente pobre do ensino
superior é tratada. Para além de intervenções de âmbito mais político ou de
carácter histórico, pouco ainda se conhece acerca da realidade do ensino
superior politécnico, da sua população, das motivações e razões de escolha
deste subsistema de ensino, bem como das representações sociais criadas em seu
torno. É nesse sentido que pensamos que este artigo poderá trazer algo de novo
ao que designamos como sociologia do ensino superior, ao fazer uma análise do
mercado de formação superior em Portugal, olhando em particular o crescimento
da oferta e do volume de candidaturas de formação superior politécnica.
Contextualizando o ensino politécnico no ensino superior português, e este na
Europa
Para falar sobre o ensino politécnico em Portugal necessitamos, antes de mais,
de descrever um pouco o seu processo de institucionalização, de crescimento e
de afirmação como uma vertente específica de formação superior. Importará
igualmente contextualizar as mudanças ocorridas no caso português com as que se
observaram ou observam em países europeus, vincando quer a sua singularidade
quer o processo de globalização em que se encontra, antes de fazer referência
às alterações face ao proposto na Declaração de Bolonha (alterações essas que
visam obter uma uniformização da formação superior europeia). Falamos em
singularidade, tanto pela evolução própria que teve, como por todo o contexto
social, económico e político em que se inseriu. A semelhança entre a estrutura
que encontramos ao nível do ensino superior em Portugal e aquela que surge
noutros países europeus leva a pensar num fenómeno de globalização da
institucionalização de um sistema binário no quadro europeu de formação
superior.
A estrutura de ensino superior em Portugal não é muito diferente da que existe
na maioria dos países da Europa dos 15, em que subsistemas de ensino
universitário e não-universitário constituem as alternativas para quem se quer
formar a nível superior. O Reino Unido e a Espanha são os únicos países que
formalmente apresentam um sistema unitário; tal facto não invalida, contudo, a
existência de uma diversidade informal (Teichler, 2008) no interior de um
sistema de ensino superior. De facto, se no caso espanhol apenas existem
universidades, no que se refere ao Reino Unido, uma vez abolida em 1992 a linha
binária que separava universidades e politécnicos, o sistema de ensino superior
acaba por apresentar-se como binário através da existência de um ensino
politécnico que, mesmo tendo estatuto universitário, se encontra claramente
mais centrado em cursos profissionais do que as universidades. Contrariamente,
na Europa de Leste prevalecem os sistemas de ensino superior unitários, onde
todas as instituições de ensino superior são idênticas na estrutura e na
missão.
A variedade persistente, conforme Teichler (2008) designa a situação que
caracteriza os sistemas de ensino superior europeus, está presente na maior
parte dos países, onde formalmente estão institucionalizados sistemas binários
de coexistência e relacionamento próximo entre dois subsistemas de ensino
superior, se não universitário e politécnico, pelo menos universitário e não-
universitário. Espelhando esta tendência referimos, no caso francês, os IUT
(Instituts Universitaires de Technologie) que, oferecendo uma formação
tecnológica superior de duração inferior, permitem formar técnicos que, com a
detenção crescente de responsabilidades e a profissionalização, podem, a seu
tempo, obter a qualificação de quadro superior ou de engenheiro, equiparando-
se, desta forma, à qualificação recebida nas universidades. Estes IUT têm ainda
a particularidade de fazerem nominalmente parte de universidades. Como exemplo
de ensino superior não-universitário referimos também, pela sua importância, no
caso alemão, as Fachhochschulen, ou seja, universidades de ciências
aplicadas, que se distinguem claramente das Universitäten e que apresentam uma
relação de grande proximidade às empresas, fornecendo bases de forte
especialização profissional. A Holanda, com as Hogescholen, a Bélgica e a
Dinamarca chegavam a ter, na década de 1990, uma percentagem de estudantes
bastante superior a frequentar instituições não-universitárias,
comparativamente às universitárias.
As referências além-Europa centram-se em concreto na realidade norte-americana,
por comportar um enorme número de instituições de ensino superior, desde as
desenvolvidas universidades de renome, mundialmente famosas pelo seu potencial
científico, tecnológico e humano em termos de investigação, passando pelos
four-year colleges, e indo até aos comunity colleges (colégios financiados em
parte pelas colectividades locais e adaptados às potenciais perspectivas
profissionais na região). Também o sistema de ensino superior japonês e o
canadiano se caracterizam por essa diversidade, diferindo bastante as
instituições em questões de qualidade, estratégia e selectividade. Na
Austrália, o movimento de reestruturação do ensino superior foi similar ao
britânico, com a abolição do sistema binário em prol de um sistema nacional
unificado.
E, no caso português, em que assentam o ensino politécnico e o ensino
universitário? O projecto político assente na expansão e diversificação do
ensino, apresentado por Veiga Simão em meados da década de 1970, no qual os
institutos politécnicos integrariam o ensino superior juntamente com as
universidades e outros estabelecimentos de ensino similares, constitui-se como
um marco importante. O ensino superior politécnico, sucedâneo do ensino
superior de curta duração, foi criado pela reforma Veiga Simão (com a Lei n.º
5/73 e o Decreto-Lei n.º 402/73), tendo sido consagrado em definitivo com a
alteração da designação de ensino superior de curta duração para ensino
superior politécnico, a partir do Decreto-Lei n.º 513-T/79, com dignidade
idêntica ao universitário e com objectivos de formação superior específicos.
Com os Decretos-Leis n.º 131/80 e n.º 303/80 são introduzidas alterações ao
Decreto-Lei n.º 513-L1/79, no sentido de corrigir determinados aspectos
relacionados com o regime de instalação para os estabelecimentos de ensino
superior politécnico. Com a Lei n.º 29/80 constitui-se a rede de ensino
superior politécnico em Portugal, que integra 27 escolas em 15 distritos
nacionais. Esta será, assim, uma rede fortemente regionalizada, importante para
o desenvolvimento local dessas regiões, através da formação de técnicos com uma
preparação prática, e em áreas científicas e económicas específicas de cada
região.
A Lei de Bases do Sistema Educativo de 1986 vem consagrar a existência do
ensino politécnico no ensino superior português, sendo este o marco legislativo
da construção binária do ensino superior. Várias dimensões surgem a delinear a
fronteira entre os dois subsistemas de ensino superior: os objectivos, a
profundidade científica, as componentes teórica e prática, os domínios
envolventes. A dicotomia concepção/exercício estaria na base da distinção mais
nítida entre ambos os subsistemas de ensino superior, em que ao universitário
estaria reservada a capacidade conceptual e ao politécnico a capacidade
pragmática. Há ainda apelo a uma distinção com base na dimensão temporal, na
estrutura dos programas curriculares e na afectação de cada subsistema à
comunidade envolvente. Esta última, no entanto, acaba por ser transversal aos
dois subsistemas de ensino, uma vez que tanto se verifica uma regionalização
de algumas universidades mais periféricas como uma centralização de
politécnicos mais cosmopolitas.
Se, através da integração do ensino politécnico no ensino superior, se reduziam
as distâncias entre os dois tipos de ensino, por outro lado, segundo Grácio
(1998), aumentava a ambiguidade de determinação de ambos, sobretudo do ensino
politécnico, que era definido a partir da utilização do binário é/não é, ou
seja, o politécnico não era aquilo que o universitário era. Há quem fale em
deriva académica dos politécnicos, uma vez que criam cursos existentes nas
universidades, e em deriva politécnica das universidades, com a criação de
cursos de cariz mais técnico que estariam mais no âmbito não-universitário.
A alteração à Lei de Bases do Sistema Educativo, introduzida pela Lei n.º 115/
97, onde se estipula que o ensino superior politécnico passa a conferir os
graus de bacharel e licenciado, veio colocar um novo desafio a universidades e
politécnicos, ao nivelar as suas formações de base no que se refere aos
diplomas a atribuir. A distinção dos dois subsistemas de ensino com base na
duração das suas formações deixa, então, de ser válida. Simão, Santos e Costa
afirmam que são aspectos como visão estratégica, dimensão cultural,
internacionalização, impacto regional, investigação e desenvolvimento
(I&D), inovação, especialização e interdisciplinaridade (Simão e outros,
2002: 68) que diferenciarão os subsistemas. Cabe a cada subsistema determinar
com precisão os seus campos e modos de acção, para que a estrutura binária do
sistema de ensino, em termos institucionais, faça sentido.
Sobre os diplomas legislativos mais recentes, há que referir a Lei n.º 49/2005,
definindo orientações para ambos os ensinos superiores, onde o ensino
universitário, orientado por uma constante perspectiva de promoção de
investigação e de criação do saber, visa assegurar uma sólida preparação
científica e cultural e proporcionar uma formação técnica que habilite para o
exercício de actividades profissionais e culturais e fomente o desenvolvimento
das capacidades de concepção, de inovação e de análise crítica, enquanto o
ensino politécnico, orientado por uma constante perspectiva de investigação
aplicada e de desenvolvimento, dirigido à compreensão e solução de problemas
concretos, visa proporcionar uma sólida formação cultural e técnica de nível
superior, desenvolver a capacidade de inovação e de análise crítica e ministrar
conhecimentos científicos de índole teórica e prática e as suas aplicações com
vista ao exercício de actividades profissionais.
A regulamentação do Processo de Bolonha no caso português concretiza-se
actualmente nos Decretos-Leis n.º 64/2006, n.º 74/2006 e n.º 88/2006, em
concreto sobre o acesso dos maiores de 23 anos ao ensino superior, o regime
jurídico dos graus e diplomas do ensino superior e os cursos de especialização
tecnológica (os CET). Refira-se, por fim, o Decreto-Lei n.º 114/2006, como
segunda prorrogação do regime de instalação regulado pelo Decreto-Lei n.º 24/94
no âmbito do ensino superior politécnico.
O surgimento do ensino politécnico e o crescimento do ensino superior
Impõe-se neste momento procurar perceber o porquê do surgimento desta distinção
entre ensino universitário e ensino politécnico, que vai muito para além do
plano normativo. A causa primeira surge com a extinção dos cursos de ensino
técnico (de nível médio) e a necessidade de encontrar alternativas para os
públicos afectos. Simultaneamente assistia-se, então, a uma diminuição da
oferta e a um aumento progressivo da procura. Segundo Arroteia (1996: 11), isso
levou a que a população estudantil fosse orientada apenas para o ensino
superior, levando ao alargamento brusco da rede, dos seus quadros e
instalações. Por outro lado, a abertura do sistema do ensino que se verificou
nos anos seguintes à revolução de Abril e a falta de alternativas, condignas,
ao prosseguimento dos estudos pós-secundários, nomeadamente no ensino médio
devido à sua extinção, agravou ainda mais a procura social do ensino
universitário e politécnico. Uma vez que se verificava, por um lado, uma
desproporção entre o número de matriculados em licenciaturas e aqueles que
frequentavam o ensino não-universitário e, por outro lado, um elevado grau de
selectividade social e disparidades regionais, a diversificação do ensino
superior passou pela constituição do ensino politécnico como alternativa ao
ensino universitário, opção esta que terá tido um cariz político, segundo Braga
da Cruz e Cruzeiro (1995).
Na referida obra, Braga da Cruz enumera diferentes causas da profunda
transformação ocorrida no ensino superior desde a década de 1960 em Portugal:
os cursos expandiram-se de modo significativo, deixando de se concentrar em
domínios específicos e aumentando o leque de múltiplas áreas de conhecimento,
que se estendem por todo o território nacional; para além da criação de novos
cursos e estabelecimentos, juntam-se no quadro do ensino superior
estabelecimentos que estavam fora dele, como é o caso do antigo ensino médio;
aos dois aspectos acima referidos, junta-se o processo de diferenciação do
ensino superior, com a materialização de dois segmentos o universitário e o
politécnico; a oferta de ensino superior não directamente dependente do Estado
(a oferta privada), que contribui igualmente para as transformações ocorridas,
é, em parte, gerada pela existência de uma fracção de procura manifestada que
não chega a ser servida.
No desenho da expansão da procura de ensino em Portugal, os principais momentos
de inflexão da procura de ensino terão causas demográficas, causas económicas e
causas estruturais, estas últimas referentes à própria implantação da rede
escolar, ao aumento do número de professores e da capacidade de acolhimento das
escolas, e ao prolongamento da escolaridade mínima obrigatória (Grácio, 1997).
Por outro lado, relacionando as esferas económica, social e escolar, outros
factores há na procura de ensino: a deformação da estrutura socioprofissional,
a interacção entre aproveitamento escolar e origem social, a auto-sustentação
do crescimento da procura, ou ainda o valor simbólico da educação escolar e o
seu efeito em termos de oferta.
Procurando corresponder a orientações convergentes na intenção de progresso
social, o ensino politécnico permitiria, numa lógica de democratização, o
reforço de condições de igualdade de acesso ao ensino superior, atenuando a
clivagem regional até então verificada (Simão e Costa, 2000). Com a
democratização do acesso, e consequente diversificação social de públicos
envolventes, a natureza da formação politécnica permitiria, também, a adequação
das matérias e das práticas a diferentes grupos sociais, já que envolvia agora
uma intenção mais prática e profissionalizante. Também Grácio (1998) refere que
a implementação do ensino politécnico foi, em grande parte, um modo de tentar
gerir o crescimento do ensino superior, face ao crescimento demasiado rápido da
procura. O ensino politécnico viria colmatar a escassa democratização e a falta
de diversificação do ensino superior existente até então.
Como afirma Braga da Cruz, sobre a evolução do ensino superior em Portugal, e
mais concretamente sobre o subsistema de ensino politécnico, o processo de
crescimento foi um processo de diferenciação interna do campo do ensino
superior, a partir da emergência do conceito de ensino superior de curta
duração. O processo de classificação foi vivenciado dentro do ensino superior,
nomeadamente pelas vias da passagem ao ensino universitário de estabelecimentos
criados no ensino politécnico e da questão' da concessão do grau de
licenciatura no ensino politécnico (Cruz e Cruzeiro, 1995: 210). A importância
da atribuição de licenciaturas pelos estabelecimentos de ensino superior
politécnico torna-se mais significativa se atendermos ao seu valor no mercado
de trabalho, isto é, ao facto de a licenciatura ser a habilitação que mais
contribui para o esforço da qualificação dos quadros médios e superiores.
Importa assinalar que existiu e existe ainda, de facto, toda uma polémica em
torno dos objectivos do ensino superior politécnico, e da concretização dos
mesmos. Ana Maria Seixas fala em sentimento de preconceito face ao ensino
politécnico, sendo ele próprio causador desse sentimento por existir uma
indefinição relativamente ao papel deste tipo de ensino e uma dificuldade de
afirmação da especificidade que envolve, especificidade essa que, contudo,
deveria ser salvaguardada pela necessidade e procura que tem (Seixas, 2003). Se
olharmos para o potencial público frequentador do ensino superior, em concreto
sobre as representações que constroem sobre a sua futura continuação de
formação a um nível graduado, percebemos que parte das diferenças já vêm de
trás. O estudo de Silva (1999), efectuado sobre as motivações de frequência de
diferentes tipos de ensino e sobre as aspirações dos jovens acerca de uma
formação superior, junto de uma população que frequentava o ensino secundário,
conclui que o objectivo da maioria dos jovens (inquiridos) é frequentar o
ensino superior universitário. O ensino superior politécnico surge com pouca
expressão nas suas expectativas, facto que pode dever-se, segundo a autora, ao
pouco conhecimento que têm sobre este tipo de ensino, e à associação comummente
feita a um tipo de ensino superior curto de segunda categoria.
Maria Teresa Leão, na sua obra dedicada ao ensino superior politécnico debatido
enquanto formação alternativa (Leão, 2007), traça o caminho percorrido pelo
ensino superior politécnico em Portugal entre 1973 e 2000, de onde destaca uma
certa ausência de rumo, vinda tanto das alternâncias nos cargos de
responsabilidade referentes à educação superior como da falta de planificação
política.
Perante o exposto interrogamo-nos sobre como se expressam em acções estas
diferentes representações e interpretações sobre os dois subsistemas de ensino.
E de que forma as alterações das políticas educativas em torno do ensino
superior em geral e de cada um dos subsistemas em concreto, alterações essas
vindas de mudanças políticas, económicas, sociais, acabam por produzir efeitos
em termos de oferta e procura de formação superior?
O ensino superior português em números
Procuremos, desde logo, perceber as diferenças de natureza quantitativa entre
os dois subsistemas de ensino. Reportando-nos à década de 1960, verifica-se que
o subsistema universitário tem um peso de 95%, restando somente 5% para o não-
universitário. De 1960 a 1973, o ensino superior não-universitário teve pouca
expressão a nível nacional, registando pequenos períodos de expansão e outros
de retracção, pouco significativos, na medida em que se desenrolava a uma taxa
média anual de 5,5%. Um dos factores de desencorajamento da frequência deste
tipo de ensino, segundo Braga da Cruz, é o facto de ele ter uma imagem menos
positiva em termos de estatuto social e profissional: a orientação
preferencial da procura para o ensino universitário público tem a ver com o
ancestral carácter público e universitário dos estabelecimentos, aos quais se
atribuía um maior prestígio e imagem de marca, um clube onde só entram os
melhores' (Cruz e Cruzeiro, 1995: 25). É necessário ler estes dados tendo em
conta o carácter elitista que o ensino superior assumiu em Portugal até aos
anos 70.
Em 1976, num momento de viragem, dá-se, na óptica de Braga da Cruz, uma
intensificação considerável do número total de matriculados, mercê da
integração dos estabelecimentos de ensino médio no ensino superior. Esta
tendência é semelhante à identificada por Giddens (2000), quando refere que, no
Reino Unido, a proporção de estudantes no ensino superior britânico terá
aumentado consideravelmente (nos finais dos anos 80 e inícios dos 90), devendo-
se esse aumento, em parte, ao facto de os institutos politécnicos terem sido
reclassificados como universidades. Partimos então do princípio de que a
promoção institucional conduz a um aumento da procura por parte dos actores
sociais, numa expectativa (mais ou menos consciente) de promoção social. A
promoção social será reforçada na medida em que a promoção institucional possa
ser reconhecida pelo mercado de trabalho, numa lógica de valorização da
formação superior. Além do mais, há que entender que a oferta formativa se
encontra em relação directa com o mercado de trabalho: as taxas de
empregabilidade dos cursos servem de barómetro sobre a atractividade de um
curso, viabilizando ou não a sua continuidade.
Um sistema de ensino superior está na dependência e convergência de diversos
interesses. Becher e Kogan, citados por Magalhães (2004: 218), referem-se a
quatro: o interesse profissional ligado às aspirações académicas; o interesse
dos governos e as exigências do Estado; o interesse dos valores associados ao
conhecimento e de como este se transforma em riqueza; e o interesse ligado à
utilidade pública e social do ensino. Neste último em concreto reflecte-se a
oferta formativa que é feita, em função das áreas científicas, assim como a
percepção que o público e os sectores empresariais têm das necessidades de
formação do mercado de trabalho. Magalhães questiona sobre a adequada
adaptabilidade do ensino politécnico às necessidades reais: os politécnicos
assumiram o seu papel educacional com base na assunção de que se sabia com
clareza quais eram as necessidades da indústria, dos serviços e da educação aos
mais diferentes níveis. Sem negar o sucesso de alguns casos, o objectivo geral
parece ter sido falhado, com o papel das instituições a ser mais caracterizado
pelas consequências inesperadas entretanto produzidas (por exemplo, o
desencontro entre a quantidade de graduados e respectivas qualificações e as
reais necessidades locais e regionais da indústria e do comércio) (2004: 305).
Na candidatura ao ensino superior não há critérios de distinção social à
partida: é a nota de candidatura que apura os eleitos e todos teriam igual
oportunidade de acesso. No entanto, os níveis de sucesso escolar não são iguais
entre os estratos sociais: as classificações mais elevadas, reflexo de um
assumir em pleno o ofício de aluno, encontram-se mais frequentemente em
estudantes oriundos de classes sociais mais elevadas e mais ausentes nas
classes sociais mais baixas, enquanto as desistências, as reprovações e as
classificações mais baixas tendem a estar mais sobrerrepresentadas nestas
últimas. Além do mais, tal como salientavam Bourdieu e Passeron (1981), os
critérios de escolha de cursos, estabelecimentos de ensino e, directa ou
indirectamente, subsistemas de ensino são aprendidos e herdados em cada
classe social, acabando o sistema de ensino (superior, neste caso) por
reproduzir a estrutura social.
Se, por um lado, durante décadas, oferta e procura evoluíram a par,
satisfazendo-se mutuamente, por outro lado, na década de 1970, o volume de
procura de ensino superior torna-se de tal modo elevado que, em Junho de 1977,
acabam por vir a ser instituídos (por decreto-lei) os numerus clausus, com o
objectivo de limitar oficialmente a procura e, assim, ajustar as populações
discentes à capacidade institucional (e material) para as acolher. No entanto,
esta institucionalização iria produzir o efeito perverso do congestionamento do
sistema, uma vez que a procura não diminuiu e, ano após ano, aumentava o número
de candidatos ao ensino superior, resultante do somatório das conclusões do
ensino secundário e das insistências dos excluídos nos anos anteriores. Uma
forma de resolver esta situação, e que viria a constituir-se como uma das
razões mais fortes para o desenvolvimento do ensino superior em Portugal,
juntamente com o sucedido ao nível do ensino superior privado e concordatário,
foi, como já referimos anteriormente, a institucionalização do ensino superior
politécnico.
A partir dos dados referentes a indicadores de oferta e procura de formação
superior em Portugal, propomo-nos encontrar uma interpretação para alguns
factos. Do lado da oferta de formação, procuraremos observar a evolução do
número de vagas colocadas à disposição pelas instituições de ensino superior,
sejam de estatuto politécnico ou universitário, entre os anos de 1990 e 2010.
Do lado da procura, atenderemos, mais adiante, ao volume de candidatos e à
quantidade de candidaturas em primeira opção.
Comparando os dois subsistemas públicos o universitário e o politécnico
sobre a oferta, em termos absolutos, a evolução é a que consta na figura 1.
Figura 1 Oferta (vagas) de ensino superior público por subsistema de ensino
Ao longo da década de 1990 foi crescendo de forma bastante significativa a
formação de ensino superior de base em Portugal. A entrada na União Europeia e
a exigência do cumprimento de directivas que nivelassem a percentagem de
população graduada entre os vários países europeus lembramos que Portugal era
o que apresentava a percentagem de população diplomada mais baixa da Europa dos
15, e era necessário haver alterações tanto ao nível dos investimentos feitos
como, por exemplo, através da atracção de novos públicos fez com que o
paradigma da adaptabilidade, como lhe chama Magalhães (2006), se fosse
fazendo sentir cada vez mais. Há mais oferta de ensino superior porque as
conjunturas sociais, económicas e políticas assim o exigem. E se essa oferta
quase duplica no que se refere ao ensino superior universitário, ela, em dez
anos e tendo como ponto alto a viragem do século, quase que triplica em
formação superior politécnica.
O diferencial entre formação superior universitária e formação superior
politécnica diminui substancialmente, sendo cada vez mais próximo o número de
vagas abertas em concurso nacional entre um e outro subsistema de ensino
superior. O aumento relativo do número de vagas oferecidas no ensino
politécnico traduz um acréscimo significativo da sua importância, em termos
quantitativos, no panorama da oferta de formação superior, a ponto de
arriscarmos dizer que o crescimento da oferta de formação superior na década de
1990 se deve, essencialmente, a um peso cada vez maior das instituições de
ensino politécnico no mercado da oferta de formação superior em Portugal.
Se se verifica um crescimento bastante acentuado da oferta no início da década
de 1990, esse movimento sofre, contudo, uma inflexão localizada temporalmente
na viragem do século, retraindo-se ou, pelo menos, controlando-se o volume de
vagas colocadas à disposição. Universitário e politécnico estão ambos
relacionados com essa retracção de oferta superior, o que acaba por contrariar
um pouco as directrizes a que Portugal tinha que obedecer para cumprir as metas
europeias ao nível da formação superior. As alterações demográficas poderiam
justificar um pouco essa inversão na curva da oferta; no entanto, cremos, o
facto de haver sempre, nos períodos pós-colocações, populações não colocadas, e
de, por outro lado, haver (cada vez mais) novos públicos aos quais o ensino
superior abriu as portas, não deixa que o efeito da conjuntura demográfica
seja suficiente para surgir como factor único. Para compreender melhor esta
questão, há que olhar primeiro para o movimento da procura.
Antes de nos lançarmos na análise da procura de formação superior por
subsistema, registemos ainda, em termos de oferta, o aumento para duas vezes e
meia mais da quantidade de cursos oferecidos no ensino politécnico desde o
início da década de 1990 até 2010. Aumenta em número e em diversificação.
O percurso da linha da oferta de formações privadas é ligeiramente diferente do
das públicas: a sua presença é fundamental para a vitalidade do ensino superior
na segunda metade da década de 1990, chegando a ser superior à oferta pública.
Certamente que a procura acelerada de ensino superior e o aumento do risco por
parte das famílias através de um investimento e esforço financeiro terão
permitido, viabilizado e sustentado esse volume de lugares no sector privado. É
no início do terceiro milénio que se inverte a tendência, momento a partir do
qual se começa a verificar uma quebra no número de lugares oferecidos,
percebendo-se depois uma estabilização até meados do início do último quartel
do período em análise. A mudança de rumo da oferta privada pode justificar-se
em parte por um desinvestimento real na procura de ensino privado, uma vez que
é o mais susceptível a ponderações de questões de custos financeiros e
desvalorização social por parte das famílias. Cresceu inicialmente pela
escassez de oferta face à procura de ensino superior público, e quando este se
terá ajustado à procura, o sector privado ter-se-á ressentido.
A distribuição dos cursos e das vagas por áreas científicas no sector público
não é homogénea, tal como não o é por subsistema. Comparando a oferta em função
da área científica e do subsistema, verifica-se que na área de Tecnologias,
onde há igual investimento entre os dois subsistemas, observa-se um aumento
significativo da oferta de cursos e de vagas no ensino universitário e um
crescimento exponencial no politécnico, o mesmo acontecendo em outras áreas de
oferta similar entre os dois subsistemas de ensino: a de Direito, Ciências
Sociais e Humanas e Serviços, a de Saúde e a de Economia, Gestão e
Contabilidade. É a área das Ciências da Educação e Formação de Professores a
que se caracteriza por um desinvestimento na oferta e que é transversal a ambos
os subsistemas
Não esqueçamos, porém, a ligação entre a oferta dos cursos e o contexto
regional, por um lado, e económico, por outro. Ela surge, muitas vezes, para
dar resposta às necessidades regionais ou de sectores empresariais, carentes de
determinadas especializações.
Um outro indicador utilizado relaciona-se com a quantidade de candidaturas ao
ingresso no sistema de ensino superior, e no ensino politécnico em particular,
e de que forma evoluem ao longo do período em análise. Os dados sobre
candidatos e candidaturas são referentes à primeira fase de candidaturas de
acesso ao ensino superior e, portanto, a uma parte específica da procura e não
à procura total. As tendências encontradas na procura por via do concurso
nacional não invalidam, nesse sentido, a existência de uma tendência diferente,
ainda que com expressões numéricas significativamente inferiores, por parte de
novos públicos que não fazem parte da coorte tradicional que se submete a
concurso de ingresso por esta via.
Em termos gerais, pode-se traçar quatro períodos importantes do movimento de
procura de formação superior em Portugal nas últimas duas décadas: um primeiro
período que decorre nos primeiros seis anos em análise, onde é possível
observar um aumento progressivo do volume de candidaturas e, assim, de procura
de formação superior; a partir de 1995, assiste-se a um decréscimo abrupto nos
primeiros dois anos, seguindo-se uma diminuição progressiva mas mais moderada
do número de candidaturas; apesar de não se menosprezar a diminuição de
candidatos entre a passagem do milénio e 2005/2006, este é um período que se
caracteriza mais pela regularidade da procura face ao que foram os anos
precedentes e ao que seriam os anos seguintes. Por último, com todo o ensino
superior adaptado a Bolonha, assiste-se nos últimos três anos a um aumento
interessante da procura de formação superior pública.
Conforme se pode verificar na representação gráfica da figura 2, na comparação
entre os dois subsistemas há uma aproximação cada vez maior entre a procura de
ensino superior universitário e de ensino superior politécnico, permitindo
falar num maior equilíbrio de forças ao nível da procura, se se tomar como
referência o desequilíbrio existente no início da década de 1990. Sabendo que a
informação se refere a candidaturas (no máximo de seis por candidato),
acredita-se, no entanto, que a esmagadora maioria dos candidatos esgotará as
seis possibilidades de ingresso no acto de preenchimento da sua candidatura,
uma vez que mais importante do que o ingresso no par curso/estabelecimento
desejado é o ingresso por si só, na certeza de uma garantia de formação
superior e, em função disso, de qualificação e valorização social.
Figura 2 Procura (candidaturas) de ensino superior público por subsistema de
ensino
Desta forma, a diminuição do fosso entre o volume de candidaturas ao ensino
universitário e ao ensino politécnico deverá ser entendida, se não como uma
distribuição mais equitativa do número de candidatos, como uma repartição
similar de hipóteses de candidatura por candidato. Então, essa aproximação
entre a procura aos dois subsistemas de ensino é tanto originada pela
importância que a procura de formação superior politécnica revela ter,
sobretudo a partir do momento em que há uma igualdade em termos de grau
conferido, como (e sobretudo) pelo decréscimo significativo do volume de
candidaturas ao ensino superior universitário.
A segunda década em análise é marcada sobretudo, na comparação entre ambos,
pelo acompanhamento permanente das tendências de procura de um e outro
subsistema, o que equivale a uma igualdade de significado social dos diplomas e
a uma indiferenciação entre os subsistemas por parte do público que a eles se
candidata.
A oferta de ensino superior público passa a ter uma correspondência de procura
mais próxima, nos dois subsistemas. Em termos médios, para cada vaga e em cada
subsistema existem entre três e cinco candidaturas. Esta paridade tem tanto
mais significado se não se perder do horizonte de observação o desfasamento
entre procura e oferta, e entre os dois subsistemas, existente no início da
década de 1990. O cenário em período anterior era muito mais desigual.
Numa análise por áreas científicas, fica mais clara a tendência de os
movimentos de oferta acompanharem os movimentos de procura. A oferta vai
obedecendo ao ritmo da procura. Podem as unidades de ensino lançar novos
desafios em termos de áreas ou cursos, mas estes só ganham sustento com a
resposta da procura. Possivelmente uma verdade demasiado óbvia na economia, mas
que aqui se observa de forma clara.
As assimetrias regionais levam a percepcionar diferentes perfis de procura. O
distrito de Lisboa é o que apresenta maior volume de candidaturas em termos
gerais e por subsistema, embora aí se tracem tendências opostas: nas duas
décadas em análise, o ensino universitário começa com um volume de cerca de
100.000 candidaturas, descendo para pouco mais de 50.000 até 2010; no início da
década de 1990, para cada 10 candidaturas ao universitário, havia uma ao
politécnico, enquanto no final do tempo em estudo, a proporção era de três para
um. Seguem-se, em ritmo de crescimento e importância, os distritos de Porto e
Coimbra, o que faz deles os tradicionais centros nevrálgicos, tanto para a
formação universitária como para a politécnica. Há distritos (Faro é o exemplo
mais flagrante) onde se verifica um equilíbrio de oferta dos dois subsistemas,
mas em que a procura pende de forma clara para o politécnico. Há outros (Vila
Real, Bragança e Portalegre, por exemplo) que apresentam um comportamento de
procura que se poderá designar como local, por serem distritos que, ao longo
dos anos, mantêm um volume mais ou menos constante de candidaturas.
A evolução da proporção de primeiras escolhas traduz exactamente a quantidade,
a preferência e o comportamento do público candidato. E os dados indicam que a
tradição prevalece: uma maioria clara dos candidatos conduz, por diversas
razões, a sua primeira opção de escolha para um par curso/estabelecimento de
ensino universitário, ainda que a proporção seja significativamente variável ao
longo das duas últimas décadas.
Ainda em relação a este tema, há que ter em conta que os decréscimos nos
movimentos de procura de formação superior nos últimos anos são muitas vezes
relacionados apenas com questões de ordem demográfica ou de ordem económico-
financeira para as famílias. Contudo dever-se-ia ter também em conta a não-
atracção que o ensino superior poderá ter pela dificuldade de captação dos seus
diplomados por parte do tecido empresarial e do mercado de trabalho em geral.
Observa-se um decréscimo do peso relativo da procura preferencial de ensino
universitário, o que se deve ao facto de parte da procura se ter canalizado
para o ensino politécnico. Não podendo ainda falar-se em tradição politécnica
da procura ao nível do que acontece com o ensino universitário, até porque
envolvem histórias e memórias colectivas distintas, pode-se no entanto garantir
que a oferta de ensino politécnico é sustentada progressivamente por uma
procura a ela preferencialmente direccionada: os aumentos de candidaturas
preferenciais vão-se verificando, e os decréscimos são de um modo geral menos
acentuados que os que ocorrem no subsistema universitário.
A procura preferencial do politécnico passa de valores entre os 25 e os 28% nos
primeiros anos em análise para os mais de 40% de 2000 a 2003. Tal facto
pressupõe, à partida, um poder atractivo sobre novos públicos escolares, com
características sociais e escolares e motivações específicas. A esta questão
não será alheio o facto de haver, sobretudo no ensino politécnico mas não neste
exclusivamente, o critério de preferência regional, que condicionará as
candidaturas em primeira opção.
Figura 3 Procura preferencial (candidaturas em primeira opção) de ensino
superior público por subsistema de ensino
O comportamento ligeiramente diferente que as curvas da procura preferencial
dos dois subsistemas de ensino apresentam parece poder estar relacionado com
uma certa antecipação, ou pelo menos adaptação mais dinâmica e rápida, das
alterações dos cursos universitários ao Processo de Bolonha. O timing de
alteração da formação por parte dos politécnicos poderá ter feito com que o
novo arranque ascendente da procura se desse um ou dois anos mais tarde que o
do universitário. Aliás, crê-se que os primeiros cursos adaptados a Bolonha
tiveram um movimento de procura diferente daqueles que continuaram por mais um
ou dois anos a oferecer uma formação de índole tradicional, sabendo-se que
Bolonha passaria a ser sinónimo de duração, organização curricular e
reconhecimento social distinto. Pode-se especular, perante os dados de que se
dispõe, se o ensino politécnico se voltou a constituir como um ensino de
segunda procura, no período durante a adaptação a Bolonha e até conseguir
completo ajuste ao novo modelo de formação superior. Mesmo que assim tivesse
sido, o último ano, para já, recoloca o ensino politécnico na senda que vinha a
ser traçada nos primeiros anos da última década.
Registe-se, ainda, o facto de se observar na segunda década em análise, e em
função dessa redução significativa das candidaturas preferenciais, um excesso
de vagas para a procura preferencial de ensino politécnico (a proporção de
candidaturas em primeira opção por vaga é inferior a 1), conforme se pode
observar na figura 4.
Figura 4 Rácio procura preferencial/oferta (candidaturas em primeira opção
sobre vagas) de ensino superior público por subsistema de ensino
Abordagens futuras
Da análise feita, destacamos as seguintes tendências: (a) perante um
crescimento significativo em todos os subsistemas de ensino superior, o ensino
politécnico foi o que apresentou o maior acréscimo em termos de oferta; (b)
grosso modo, as tendências registadas na oferta encontram-se relacionadas com
aquelas que são observadas em termos de volume de candidaturas; (c) regista-se
uma aproximação cada vez maior entre os valores de um e outro subsistema de
ensino, facto que tanto é válido para o indicador da oferta, como para os
referentes à procura. Se estas tendências são facilmente encontradas na década
de 1990, na primeira década do século XXI os movimentos desenhados tornam-se
diferentes, o que, à parte de alterações demográficas, socioeconómicas ou
outras, pode a determinada altura coincidir com a adaptação ao Processo de
Bolonha. Estamos em crer que o ensino superior politécnico, pelos
comportamentos manifestados ao longo do período em análise, apresenta uma maior
sensibilidade a alterações conjunturais do que o ensino universitário (ver
também Urbano, 2005; 2006).
Sabemos que a procura, mais do que um indicador estatístico, deve ser lida como
um comportamento. Nesta análise, fogem ao controlo tanto dimensões mais
caracterizadoras das formações, que nos poderiam remeter, por exemplo, para
diferenças de oferta e procura em função das áreas científicas e da sua
localização geográfica, como aquelas que tomam em conta os agentes sociais
envolvidos, no caso, os próprios candidatos ao ensino superior, e as suas
escolhas, motivações e estratégias, que variam em função do subsistema de
ensino, dependendo também elas de diversas características sociais, económicas,
geográficas, individuais. O ingresso de novos públicos, com diferentes
motivações, trajectórias escolares e sociais, modelos culturais e redes de
sociabilidade e influência, neste subsistema de ensino cria, por si só, a
possibilidade de existência de diversidades sociologicamente pertinentes e
significativas. Diversidades essas que iriam contrariar uma tendência para uma
certa diminuição da diversidade sistémica, no que se refere ao tipo de
instituições, da diversidade estrutural, de diferenças institucionais de origem
histórica ou legal, e da diversidade programática, no que se refere aos cursos
oferecidos, usando a tipologia de Birnbaum (referido por Amaral e outros, 2006:
20-21), com o novo Espaço Europeu de Ensino Superior.
A questão geográfica e que não é totalmente independente da económica tem
uma relevância elevada: não existe forte tradição de mobilidade estudantil para
além das unidades de ensino clássicas e centrais (Lisboa, Porto e Coimbra), e o
aumento da oferta local de formação superior pôde ir permitindo que as
populações fossem encontrando soluções de qualificação superior próximo de
casa, evitando deslocações permanentes em períodos lectivos e, com elas,
gastos, separações e isolamentos. As próprias unidades de ensino foram criando
critérios de atracção, ao serem definidos alguns lugares de recrutamento com
base no critério de preferência regional.
Um aspecto fundamental refere-se à esfera de representações sociais sobre os
sistemas de ensino superior. Neste ponto, a ausência de conhecimento sobre o
ensino politécnico (o que é, que formação oferece, etc.) pode condicionar os
movimentos de procura deste subsistema de ensino. Veiga Simão refere, a esse
propósito, a ausência de definição de opinião sobre o ensino politécnico, por
desconhecimento:
Não existe um estudo consistente de opinião que permita exprimir, com total
garantia de fidelidade, o pensamento dominante sobre o ensino politécnico, no
nosso país. [ ] E a primeira dessas ideias é a de um desconhecimento mais ou
menos generalizado do que representa o ensino politécnico, uma vez que, no
entendimento tradicional, o ensino superior confunde-se com o ensino
universitário [ ]. Aliás, esse entendimento tende sempre a apreciar o ensino
politécnico com base no referencial universitário. (Simão e Costa, 2000: 55)
Sendo muitas vezes representado como um ensino universitário de segunda
classe, a imagem social que é criada em torno do politécnico
teve fortes reflexos na procura do ensino politécnico por parte dos candidatos
ao concurso de acesso ao ensino superior, induzindo uma outra imagem de ensino
de segunda vocação. [ ] O risco desta imagem será induzir para o ensino
politécnico as sobras da dicotomia ensino liceal versus ensino técnico, que
se traduziram em formas de uma diferenciação social indesejável e largamente
condicionante da assunção de uma lógica estruturante do sistema de ensino,
globalmente considerado, orientada por critérios de razoabilidade vocacional e
preocupações de igualdade de oportunidades. (Simão e Costa, 2000: 58-59)
Mesmo não tendo em conta condicionantes ou conjunturas sociais, económicas,
políticas, geográficas, ou de áreas de estudo, entre outras, é notória a
evolução quantitativa do ensino superior em Portugal, e mais concretamente do
ensino superior politécnico. A institucionalização de uma duração igual para os
dois subsistemas de ensino superior, primeiro, e o Processo de Bolonha, depois,
vieram provocar alterações profundas na evolução do ensino em Portugal, quer ao
nível da oferta, quer em termos de procura. Embora se tenha verificado essa
alteração de tendências (que não conseguimos justificar apenas com uma mudança
dos comportamentos sociais face ao politécnico), achamos que ela deve ser
destacada. Ou seja, tendo em conta os indicadores aqui analisados, percebemos
que ensino superior não é, e cada vez menos parece ser, restringido e
consubstanciado apenas no conceito de universidade.
Face às alterações ocorridas na Europa no que toca à formação superior, o
ensino superior em Portugal está, uma década depois, novamente em processo de
reorganização. Perante os resultados anteriores, interrogamo-nos: como se
(re)define e se (re)posiciona, então, o ensino politécnico no panorama de
formação superior em Portugal? Desta forma, o modo como o ensino politécnico se
tem visto obrigado a se (re)construir, adaptar, modificar, em função de
alterações institucionalmente impostas, leva-nos a procurar conhecer melhor os
alicerces em que assentam tais alterações, de que forma a estrutura do
politécnico é atingida e que estratégias são por si utilizadas para se
continuar a afirmar como um corpo, sólido ou não, uniforme ou não. Esse
interesse acresce se tivermos em conta o elevado índice de competitividade que
o ensino politécnico conseguiu ganhar nas últimas décadas. Perceber como a
identidade do ensino politécnico se constrói socialmente, através dos seus
discursos, das suas estratégias no campo, da mobilização de influências, do seu
poder de atracção, da sua afirmação enquanto ensino específico e não
alternativo ou de recurso são alguns dos objectivos que procuraremos atingir a
curto prazo com a nossa investigação em curso.[1]
A constituição de redes ou consórcios por parte de instituições politécnicas
(das quais também as instituições de ensino superior universitário se servem,
uma vez que, tal como os politécnicos, não estarão em igual patamar de
prestígio e atracção de públicos escolares entre si) será outra possibilidade
que as instituições de ensino e os subsistemas em geral poderão explorar. De
resto, o relatório da OCDE (2006) sugere um maior investimento na rede de
consórcios regionais para a promoção do desenvolvimento das regiões. Dada a
diversidade dos níveis de prestígio social dos estabelecimentos de ensino
superior universitário, vinda das representações sociais construídas pela
opinião pública, surge a questão: como se associam entre si politécnicos e/ou
universidades para assegurar a sua sobrevivência? Caminha-se para uma visão
académica dos politécnicos e uma visão politécnica das universidades, ou,
apesar das aproximações, continuam a ser mundos à parte? No seguimento da
questão de Teichler (2008), é o fim das alternativas às universidades ou antes
novas oportunidades? As instituições têm uma ancoragem, têm finalidades, têm
missões, e essas também vão sendo alteradas. As instituições, construídas por
si e/ou por outros, são entidades e têm identidades. Quais os sentidos, quais
os propósitos, quais as missões, quais as acções que envolvem essas
(id)entidades? Estas são algumas das questões em que actualmente nos envolvemos
em termos de investigação e que procuraremos dar a conhecer a curto/médio
prazo.