Juventude e visualidade no mundo contemporâneo: Uma reflexão em torno da imagem
nas culturas juvenis
Na sua própria desordem a imagem serve de pólo de agregação às diversas
tribos que formigam nas megalópoles contemporâneas. (Maffesoli, 1996: 135)
Pensar a juventude em termos visuais
A juventude tem ocupado um lugar relevante na produção académica, nos discursos
políticos e nos conteúdos mediáticos ao longo dos últimos 50 anos. As ciências
sociais dedicaram esforços à tentativa de compreensão de diversos fenómenos
sociais e culturais, directamente associados a esta categoria etária.
Diferentes paradigmas e modelos de análise foram aplicados à exploração deste
objecto que tanto fascínio tem despertado, pelas ambivalências que transporta,
pelas tensões que desperta e pelas questões que levanta, que parecem atingir o
fulcro do nosso momento civilizacional. [1]
A juventude parece reflectir aquilo que de melhor e pior a condição humana
encerra. Apesar das ambivalências que carrega, esta parece representar a idade
de ouro, propagandeada pelo mercado e matéria de desejo de uma sociedade que
tenta a todo custo ressuscitar o velho mito da eterna juventude. Os modernos
circuitos de comunicação de massas e o mercado parecem estar fortemente
implicados na forma como esta juventude é socialmente erigida. Diferentes
imagens e imaginários veiculados, desde a invenção da cultura teenager no pós-
guerra, tendem a fornecer coordenadas para a forma como a sociedade representa
os jovens (e estes se representam). Imagens e imaginários globais, que aspiram
a transpor fronteiras geográficas, sugerindo práticas e pensamentos por esse
mundo fora. A visualidade, os circuitos de comunicação de massa, as tecnologias
audiovisuais e digitais são, por isso, elementos fulcrais para a constituição
da representação de juventude que conhecemos actualmente.
A visualidade é, indiscutivelmente, uma componente relevante da vida social,
sendo que a imagem enquanto veículo de comunicação e representação do mundo tem
acompanhado o homem ao longo da sua história (Joly, 2001; Chaplin, 1994;
Sauvageot, 1994).[2] Pensamos o mundo em termos visuais, conferindo a
dissemelhantes entidades, agentes e instituições predicados imagéticos,
situando-os num universo visual particular. Como afirma Sauvageot (1994: 7), a
visão é um facto social maior. Apesar da magnitude que esta dimensão assume
na vida quotidiana, na formação das identidades pessoais e colectivas, dos
universos simbólicos e ideológicos, esta é uma matéria geralmente ignorada pelo
discurso sociológico.[3]Todavia, defendo que esta é uma problemática central
para uma compreensão das culturas juvenis contemporâneas, situadas num contexto
cada vez mais globalizado e tecnologicamente mediado.
Com este artigo procuro trazer à discussão uma questão que, apesar de central
para a reflexão em torno das culturas juvenis, tem sido abordada de relance
pelo meio académico. Refiro-me ao modo como a imagem e a cultura visual
contemporânea participam da construção da juventude, sendo igualmente
componentes fundamentais da forma como os jovens comunicam, conferindo sentido
ao mundo e a si próprios. Sugiro, ainda, que os atributos visuais que
contribuem para distinguir a juventude enquanto categoria social e cultural
singular desempenham um papel vital na constituição de uma cultura visual que
se expõe primordialmente nos media e nas novas tecnologias, nas indústrias
culturais e de lazer, que atravessa a publicidade, o cinema, a Internet, a
música, entre outros territórios de produção e consumo de bens culturais.
A questão central que lanço é, pois, como pensar a juventude em termos
visuais? Esta não é, contudo, uma questão peregrina. Outros autores, de forma
mais ou menos saliente, foram apontando a ascendência da imagem ou da
visualidade na representação da juventude. No contexto desta discussão merecem
especial destaque as propostas teóricas dos autores ligados ao Centre for
Contemporary Cultural Studies (CCCS) de Birmingham, que nos anos 70 produziram
alguns dos estudos mais significativos sobre as denominadas subculturas
espectaculares (Hebdige, 1979; Hall e Jefferson, 1976). Os autores do CCCS
criaram espaço para uma nova interpretação do nexo complexo que se estabelece
entre as culturas juvenis e a estrutura social, integrando as origens sociais
num quadro de interpretação das lógicas de resistência, produção e consumo
cultural. Exploraram uma imagem juvenil visualmente possante e ideologicamente
paradoxal. As subculturas juvenis eram apontadas como formas de resistência
simbólica produzidas pelos jovens das classes dominadas, como reacção a
processos socioeconómicos e culturais mais vastos. A afirmação das identidades
juvenis, através da adopção de uma estética e postura determinadas, aquilo que
ficou conhecido como estilo subcultural(Clarke, 1976; Hebdige, 1979), servia
como resposta de um colectivo que procurava resolver magicamente as
contradições entre a cultura de massas (e o consumismo) e as suas culturas de
origem (na classe trabalhadora, na cultura dos pais). A criação estilística,
que ocorre quando actividades, práticas e aparências se cristalizam' em torno
de certas formas expressivas, coerentes e muito limitadas (Clarke, 1976: 175),
contraía uma função basilar na consolidação da auto-identidade e consciência de
grupo.
É de salientar a proeminência que a esfera visual assume neste registo teórico,
pois a evidência empírica de uma visualidade distinta e espectacular era
desvendada como indício de resistência simbólica. O exotismo visual e agregador
da imagem engendrada colectivamente por estes grupos (mods, skinheads, teds,
rastas, etc.) era identificado como um elemento chave para a descodificação de
dinâmicas conflituais de classe mas, igualmente, de distinção entre grupos. Na
obra The Meaning of Style (1979), Dick Hebdige explora o alcance do signo
visual nesta guerrilha semiótica.[4] O estilo era avaliado como um mecanismo
de desordem semântica, sugerindo violações dos códigos autorizados através
dos quais o mundo social é organizado e experienciado (Hebdige, 1979: 91).
Hebdige reconhecia nesta operação uma apropriação mágica dos objectos,
reconfigurados e utilizados com um novo significado, com um talento invulgar
para provocar e chocar, questionar o pensamento hegemónico e desafiar o poder.
Tanto Clarke como Hebdige, que examinaram os estilos subculturais, deram conta
da relevância da criatividade dos grupos na adaptação dos bens de consumo,
inventando novos discursos que anulavam ou subvertiam os regimes discursivos
hegemónicos. Destacaram, no entanto, a relação ambivalente que o mercado e as
indústrias culturais celebram com os estilos subculturais notando, por um lado,
o modo como as subculturas se apropriam das mercadorias mas, igualmente, a
forma como os media e o mercado aproveitam as inovações estilísticas marginais
para produzirem novos bens e imaginários.
Muitas fragilidades foram apontadas à abordagem subcultural por diversos
autores (Muggleton, 1997; Bennett, 1999; Wullf, 1995; Amit-Talai e Wulff, 1995;
Weinzierl e Muggleton, 2004). De uma forma geral estas críticas denunciavam uma
visão da juventude demasiado determinada por factores de ordem classista;
limitada às culturas juvenis espectaculares e supostamente masculinas;
exacerbando a dimensão política destes grupos no âmbito de dinâmicas de
resistência. O esgotamento do pensamento de inspiração marxista da escola de
Birmingham e, simultaneamente, a emergência de contextos socioculturais juvenis
renovados levam muitos investigadores a adoptarem quadros conceptuais
regenerados, organizados em torno de conceitos como estilo de vida, cena ou
neotribo (Bennett e Kahn-Harris, 2004), abarcando aquilo que, de forma algo
genérica, é entendido como estudos pós-subculturais (Weinzierl e Muggleton,
2004).
Comum às abordagens mais recentes parece ser o reconhecimento do poder da
estética e da visualidade no contexto juvenil. Todavia, ao contrário daquilo
que era depreendido pelo paradigma subcultural, a imagem é concebida como um
recurso ao dispor do indivíduo, passível de uma aplicação estratégica e lúdica,
mais associada a operações de inventividade pessoal e colectiva do que,
propriamente, a vínculos socioculturais de natureza estrutural. Deste modo,
contra uma perspectiva que salientava os traços de rigidez, autenticidade e
homogeneidade das respostas estéticas dos grupos juvenis, as perspectivas pós-
subculturais destacam o carácter fugaz, mutante e híbrido da imagem e da
representação visual. Esta leitura do uso da imagem e da visualidade na
juventude está em consonância com uma profunda reavaliação da natureza dos
vínculos sociais e da construção identitária na contemporaneidade. O carácter
mais fluido e instável dos laços, a mutabilidade e porosidade das identidades,
a reflexividade da vida social, a centralidade do consumo e a crescente
estetização do quotidiano conduzem a novos usos e adaptações dos recursos
imagéticos. Neste contexto os significados e associações semióticos (Chaney,
2004: 43) convertem-se em elementos capitais para a produção de cultura,
apelando à performatividade e representação como expedientes fundamentais à
edificação de sentido. Daí a relevância de um conceito como o de estilo de
vida (Bennett, 1999; Chaney, 2004), que enfatiza a natureza fabricada do
consumo e das opções estilísticas, a vitalidade do agente na composição de
experiências ficcionadas (Chaney, 2004: 43) que, em grande medida, relevam
para um aproveitamento estratégico da imagem e da visualidade, para o jogo
estilístico (Muggleton, 1997). Aquilo que é privilegiado nas abordagens pós-
modernas, sustenta Muggleton, é o absoluto poder da imagem (1997: 193). Uma
imagem apolítica, híbrida, mutante e fragmentada. Uma imagem que, longe de
estar ideologicamente comprometida, deriva do jogo estético, do hedonismo, do
prazer e do espectáculo.
O conceito de tribo, ou neotribo, tomado de empréstimo a Michel Maffesoli
(1987), surge, igualmente, neste movimento de reavaliação de paradigmas, com
uma moldura analítica mais consentânea com os novos contextos empíricos onde se
localizam os jovens. Enquanto as subculturas eram percebidas como um todo
internamente coerente, relativamente rígido e uniforme, com uma sustentação
ideológica que remetia para o conflito de classes, as tribos parecem existir
mais pelo efémero, contraditório, pela ligação emocional aparentemente
despolitizada, pela metamorfose e fusão gregária de contornos híbridos. A noção
de tribo juvenil não ignora, também, o vigor da imagem e da representação
visual, na medida em que vincula os indivíduos a uma linhagem que não resulta
de determinantes estruturais mas mais de opções estético-estilísticas,
emocionais e gregárias, que se denunciam em grande medida no domínio do
performativo e da aparência. Aliás, o termo tribo não pode deixar de evocar
um imaginário repleto de exotismo, que reconhece na superfície dos corpos
indícios de diferença e distância. Diz-nos, a este propósito, Machado Pais:
O que a metáfora da tribosugere é a emergência de novas formações sociais que
decorrem de algum tipo de reagrupamento entre quem, não obstante as suas
diferenças, procura uma proximidade com outros que, de alguma forma, lhe são
semelhantes de acordo com o princípio qui se ressemble s'assemble.(Pais, 2004:
19)
Diversos autores que se têm dedicado ao estudo da juventude contemporânea
parecem salientar, de facto, o peso crescente do campo visual na determinação e
negociação de identidades e práticas culturais (Hebdige, 1988; Willis, 1990;
Pais, 1993; Abramo, 1994; Lury, 1997; Boethius, 1997; Simões, 1999; Ferreira,
2008; Feixa, 2006; Delgado Ruiz, 2002; Maffesoli, 2002; Martin, 2002; Reguillo,
2004; Muñoz Carrión, 2007; Feixa et al.,2008; Campos, 2009a; 2009b). Quer o
consumo quer os fenómenos de produção cultural decorrem, em grande medida, numa
arena onde a visualidade e a comunicação (áudio)visual imperam. Após esta breve
deambulação por entre alguns dos contributos mais significativos para esta
reflexão, importa retornar aos objectivos deste artigo. Mais do que procurar
respostas seguras, neste artigo pretende-se desbravar um campo emergente,
explorar vias de análise e lançar debates, convocando o património teórico da
sociologia da juventude, da antropologia visual, dos estudos culturais e, mais
recentemente, dos estudos visuais.
Visualidade, representação e identidade: entre imagens construídas e
incorporadas
Diversos autores defendem que a modernidade ocidental promove a visão como
sentido hegemónico, primordial para a forma como percepcionamos e configuramos
o mundo (Classen, 1997; Synnot, 1992; Jenks, 1995; Mirzoeff, 1999; Messaris,
2001), facto que estaria patente nos desenvolvimentos da tecnologia óptica e
visual que, por sua vez, reforçariam o domínio da visualidade no mundo
contemporâneo.[5] O nosso imaginário é, hoje, visualmente estimulado por
múltiplas instâncias e tecnologias que alimentam, ininterruptamente, os nossos
horizontes perceptivos com conteúdos em permanente renovação. Da imprensa aos
mundos virtuais do reino digital, passando pela televisão, cinema, fotografia e
poderosos aparelhos ópticos, vários são os apetrechos que se dedicam a
facilitar a nossa observação e manipulação do real, concorrendo para uma
verdadeira visualização da existência (Mirzoeff, 1999). Poderemos, ainda,
detectar o peso desta dimensão na forma como a vida quotidiana e o nosso
ambiente físico se estruturam, na crescente estilização e estetização do
quotidiano, na mediatização e globalização, no consumo de massas, etc.
Entendo a relação das culturas juvenis com a visualidade, enquanto objecto de
inquirição científica, partindo do pressuposto de que existe um vínculo
poderoso entre os exercícios de construção identitária e de representação
visual do mundo. Identidade e representação são conceitos que nos permitem
investigar eventuais conexões entre os circuitos de produção, difusão e consumo
de significado e os mecanismos de configuração identitária, nomeadamente
através dos sistemas de simbolização visual.
Devemos divisar os mecanismos de representação como acções colectivas através
das quais as comunidades e grupos sociais outorgam sentido ao mundo (Hall,
1996). A representação está intimamente vinculada a discursos, a sistemas de
linguagem e comunicação através dos quais concedemos significado às nossas
práticas e àquilo que nos rodeia. Como refere Hall (1996: 3), é pelo uso que
fazemos das coisas, pelo que dizemos, pensamos e sentimos sobre elas como as
representamos que lhes atribuímos significado. Ou seja, à forma como lidamos
em termos práticos com os artefactos e seres que nos rodeiam junta-se uma
actividade permanente de representação sobre os mesmos, de estruturação de
discursos e imagens, de arquitecturas de signos que medeiam a nossa interacção
com o meio.
Representação visual é, neste contexto, interpretada como um dispositivo
através do qual, através de determinadas convenções e instrumentos, reflectimos
visualmente o mundo, conferindo-lhe uma ordem sígnica. A visualidade presente
neste modo de representação remete, em primeiro lugar, para a existência de
certas técnicas, tecnologias e media e, em segundo lugar, para linguagens
precisas que se supõe basearam-se exclusivamente (ou maioritariamente) na
visualidade. Ou seja, estaríamos a falar de uma longa genealogia de
mediavisuais(ou audiovisuais) com os seus idiomas específicos, como sejam o
desenho, a pintura, a gravura, a fotografia, o cinema, a televisão, o vídeo, os
videojogos, entre outros. Estaríamos, igualmente, a falar principalmente de
imagens, com as suas desiguais ramificações e modos de expressão (imagens
gráficas, ópticas, perceptivas, etc.).[6]
As representações visuais encerram, ainda, determinados modos de ver e julgar
visualmente o que nos rodeia (Chaplin, 1994; Sauvageot, 1994; Berger, 1999).
Uma representação visual, mesmo sendo contemplada como uma realização de autor,
denuncia um momento histórico preciso, nas suas convenções, tecnologias e
técnicas de figuração, no modelo cognitivo e ideológico. Revela, ainda, as
particularidades sociais que animam as relações específicas entre sujeito e
objecto representado. É, para todos os efeitos, testemunha histórica de um acto
simbólico profundamente expressivo daquilo que são o agente da representação e
o agente representado. Se assumirmos que, no mundo contemporâneo, a visão e a
imagem têm adquirido uma preponderância crescente na forma como ilustramos o
mundo, então devemos ter em atenção os modos, os processos e os agentes que
convergem para a elaboração das representações visuais do nosso mundo social e
das multíplices categorias de entidades que o compõem.[7]
Este procedimento de representação é simultaneamente causa e efeito de
fenómenos sociais ou, como refere Chaplin (1994: 1), os processos sociais
determinam a representação mas são, também, por consequência, influenciados e
alterados por esta. Ou seja, sendo relativamente autónoma dos fenómenos
sociais que retrata ou modela visualmente, uma vez que pode ser abordada
enquanto artefacto, actua sobre a realidade, nutrindo-a continuamente,
contribuindo para a sua metamorfose e recebendo em retorno os ecos destas
mudanças. Uma representação nunca é, portanto, imutável. A realidade social
muda, os diferentes agentes que competem pela sua representação também. Da
parte daqueles que detêm os dispositivos, o poder e a legitimidade para
ilustrar a realidade, deparamo-nos com interesses, objectivos e funções
diferenciadas, historicamente contextualizadas, que são acompanhadas por
alterações significativas nas convenções pictóricas, textuais e nas tecnologias
utilizadas.
Entendo, neste contexto, representação e identidade como dois conceitos que
podem ser examinados conjuntamente com vantagens para uma análise mais densa
das características das dinâmicas de construção identitária na actualidade. A
identidade pessoal e cultural é alimentada permanentemente por significados
provenientes de textos e agentes que amparam uma ordem ontológica delimitada,
situando o indivíduo e os grupos em sociedade. É neste circuito que tanto a
identidade como a representação se vão mutuamente enredando e metamorfoseando.
O tema da construção identitária tem assumido maior protagonismo na agenda
académica das ciências sociais a partir da década de 1990 (Cerulo, 1997;
Calero, 2003), sendo reavaliado a partir de novas problemáticas teóricas e
contextos empíricos que desvendam as insuficiências de anteriores molduras
conceptuais. Ao contrário da concepção tradicional de identidade cultural, que
remetia para uma entidade sólida e estanque, umbilicalmente ligada a um
território e a uma história colectiva, actualmente devemos ter em atenção o
temperamento volátil das identidades que procede, cada vez mais, de fluxos
desterritorializados, das permanentes inovações tecnológicas, da mobilidade de
pessoas, bens e ideias, da reflexividade da vida moderna (Giddens, 1992;
1994), que tendem a acentuar a natureza plástica do ser humano e o carácter
provisório dos papéis e vínculos sociais (Hall, 1996; 2004; Featherstone, 1991;
Hannerz, 1996; Kellner, 1998).
Os mecanismos de representação, modos através dos quais produzimos discursos
sobre os Outros e sobre Nós, estão intimamente ligados às dinâmicas de
construção identitária (Hall, 1996; 2004; Woodward, 2005). A identidade vive
das fórmulas de representação, pois é assim que se exprime, se manifesta
socialmente, servindo como matéria de comunicação. Os processos de
monitorização e transformação identitária abastecem-se dos diversificados modos
de representação, sendo o contrário também verdadeiro. A forma como nos vemos e
expressamos está estreitamente associada à forma como os outros nos contemplam
e o exteriorizam, num jogo de olhares cruzados (Goffman, 1988; 1999). O olhar
dos outros, reflectido nas enunciações daqueles que nos são próximos ou
expresso nos numerosos mass media (televisão, cinema, publicidade, jornais,
etc.), funciona como um espelho que nos leva a configurar a imagem que temos de
nós (enquanto indivíduos singulares ou membros de algum grupo ou comunidade).
[8] Logo, a representação visual de alguém, pessoa, grupo ou comunidade tem
implicações no modo como esse alguém se representa e apresenta visualmente e,
portanto, naquilo que poderíamos definir como a sua identidade visível ou
visual. Este processo, aparentemente simples, é antes extremamente complexo,
dado que, por um lado, a identidade é hesitante, mutável, flexível,
contraditória, multissituada, desfecho momentâneo de um conjunto disperso de
descoincidentes filiações e que, por outro lado, os sistemas de representação
são, cada vez mais, múltiplos e diversificados, compostos a partir de uma
pluralidade de agentes, canais e aparelhos de comunicação. A identidade em
elaboração é o resultado transitório da sinalização e avaliação de múltiplas
representações e de um processo diligente de negociação, à luz daquilo que são
estas variadas possibilidades de apresentação/representação.
É neste contexto que situo a importância da visualidade, tomada enquanto
recurso empregue pelos jovens e por diferentes instâncias capacitadas para
produzirem e veicularem discursos sobre o real. Atribuo, inclusive, um lugar
destacado à juventude na formatação da cultura visual contemporânea. Isto por
duas razões. Em primeiro lugar, acredito que os jovens se encontram entre os
agentes culturais com maior dinamismo e criatividade na produção, manipulação e
consumo de objectos e imagens de diversa ordem, sendo porventura detentores de
uma visualidade singular.[9] Por um lado porque, tal como assinalou Georges
Friedmann nos anos 60 do século passado (Porcher, 1977), os mass media afirmam-
se como uma verdadeira escola paralela, entidades poderosas na socialização
das jovens gerações. Passadas quatro décadas, as tecnologias visuais e
audiovisuais, e mais recentemente as linguagens e tecnologias digitais,
continuam a representar terrenos onde as gerações mais jovens, incluindo as
crianças, fazem uma série de aprendizagens e adquirem competências, constroem
imagens do mundo, comunicam e experimentam identidades (Simões, 1999; 2006;
Stahl, 2004; Bennett, 2004).[10] Não podemos, por outro lado, ignorar a forma
como as culturas juvenis têm utilizado a visualidade como território
privilegiado de diálogo, campo de combate ideológico e simbólico, de afirmação
identitária, de jogo e prazer, aproveitando aparelhos especializados como o
corpo (com as suas desiguais expressões que passam pelas tatuagens, piercings,
posturas e movimentos), os adornos e o vestuário, o consumo (de televisão,
cinema, música, etc.) e a criação de objectos culturais diversificados
(graffiti, stickers, tatuagens, fanzines, weblogs, fotologs, etc.). A
visualidade é, assim, cada vez mais, uma arena de prospecção criativa, de
afinação de competências sociais, culturais e simbólicas que, tantas vezes, é
desconhecida ou censurada pelo universo adulto.
Em segundo lugar, os meios de comunicação social e a denominada cultura de
massas converteram a juventude num dos seus objectos predilectos. No cinema a
presença da juventude, de uma certa juventude, paradigmática da forma como a
sociedade vai inventando esta categoria social, tem sido marcante ao longo dos
últimos 50 anos, erigindo mitos e modelos identificadores de estilos, atitudes
e práticas sociais da juventude. Não é difícil, aliás, relembrar algumas
figuras cinematográficas mitificadas, que personificaram determinadas formas de
viver e agir na juventude, servindo de modelo a muitas das culturas e
subculturas juvenis entretanto surgidas no panorama cultural. A televisão
funciona igualmente como veículo difusor e construtor de imagens da juventude
(Simões, 1999), ora propagando discursos sobre a juventude, ora edificando
géneros televisivos especialmente dirigidos aos jovens. A poderosa indústria
musical inventou muitos dos mitos contemporâneos, personificados por
exuberantes estrelas de rock e pop que ganharam fama e visibilidade através
dos, entretanto banalizados, videoclips. A aliança evidente entre indústria
musical, cinematográfica e televisiva, vocacionada para o mercado global,
reforça, ainda mais, o poder deste circuito na configuração de modelos juvenis.
Sintetizando, ao falar da correspondência entre cultura juvenil e cultura
visual, parto de três pressupostos:
a) em primeiro lugar, os jovens, nas suas variadas locuções culturais e
filiações socioculturais, participam dos processos de produção e consumo de
mercadorias e gramáticas visuais, comunicando e expressando-se em termos
visuais;
b) em segundo lugar, a juventude é alvo de diversificados processos de
representação visual que a convertem num objecto visual de consumo e
manipulação simbólica;
c) por último, estes dois campos comunicam e interpenetram-se, alimentam-se
reciprocamente.
Ao conceder um lugar destacado à juventude, enquanto protagonista de uma ordem
visual, assumo que a sua fundação enquanto agente sócio-histórico, com uma
identidade social autónoma, está intimamente associada à configuração de um
universo visual e imagético próprio.[11]
Juventude: a fabricação de uma imagética singular
Ao longo destas primeiras páginas tenho empregado profusamente os termos
juventude e juvenilsem grande preocupação de índole crítica ou conceptual,
situação propositada que, neste momento, importa inverter. Este apenas é um
termo inequívoco e transparente no discurso comum do quotidiano, que tende à
naturalização e reificação de condições e conceitos, em benefício de uma
economia de comunicação. Como sabemos, a idade serve para ordenar a realidade.
No entanto, o critério etário é insuficiente para a classificação da juventude
como categoria universal, uma vez que esta é uma invenção histórica e não um
dado natural (Pais, 1993; Feixa, 2006; Frith, 1984). Um olhar mais atento
demonstra-nos que não temos uma, mas muitas juventudes. Que estas se dispersam
pelo espaço geográfico e social, confrontam-se com problemas, condições e
expectativas distintas, assumem configurações peculiares. Um olhar mais
abrangente demonstra-nos que em particulares regiões do globo dificilmente
vislumbramos a juventude, tão abrupta é a passagem da condição infantil às
agruras do mundo adulto.
A edificação da juventude não deve ser interpretada apenas como resultado de
movimentos sócio-históricos de natureza estrutural,[12] mas igualmente como
consequência de processos de representação. Longe de negarmos a conjunção de
uma série de factores e fenómenos históricos que convergiram no sentido de
criar as condições favoráveis à emergência daquilo que hoje, de modo lato,
denominamos juventude com o seu modo de vida próprio, temos de reconhecer que
esta é igualmente um reflexo de laborações simbólicas mais complexas que visam
imputar sentido às diversas categoriais sociais de acordo com uma determinada
ordem ontológica.
Como é geralmente retratada a juventude no discurso comum? Quais os factores de
ligação entre a diversidade de vozes presente nos numerosos media e circuitos
de comunicação? De um modo geral, parecem destacar-se duas visões,
relativamente autonomizadas mas em estreita ligação, que coexistem na
representação socialmente forjada de juventude. Encontramos uma incorporação de
imagens aparentemente antagónicas, configurando uma juventude que ora é
invocada como modelo ora como antimodelo, cindida entre o céu e o inferno. Uma
imagem mitificada de juventude que, em descoincidentes momentos históricos, nos
pode levar a reforçar o carácter anómico, turbulento e disfuncional, como nos
pode, por oposição, levar a glorificar o estado juvenil. Os limiares que
delimitam estes dois universos são relativamente fluidos e irregulares,
reflectindo a índole instável da natureza juvenil. Esta é uma representação que
persiste e que tende a contrair diferentes cambiantes, não sendo difícil
encontrar no nosso imaginário recente figuras prototípicas que reúnem esta
duplicidade. Quer nos movimentos colectivos que marcam peculiares momentos da
narrativa juvenil dos últimos 50 anos, quer em distintas personagens juvenis de
referência (geralmente resultado de constante exposição mediática), a
coexistência destas duas facetas de uma mesma condição ontológica parece
incarnar o verdadeiro espírito juvenil.
Parece-me indiscutível, e foi a pensar essencialmente neles que elaborei toda a
reflexão precedente, que os mass media desempenham um papel extremamente
relevante, para não dizer dominante, nos processos de fabricação de
representações (visuais) do mundo.[13] Na verdade, estes são dispositivos
nevrálgicos para a produção, reprodução e circulação de formas simbólicas no
mundo contemporâneo (Thompson, 1999; Morley e Robins, 2002; Lull, 2000). Estes
favoreceram grandemente a globalização cultural acelerada que vivemos ao longo
do século XX, compondo mediapaisagens(Appadurai, 2004) que alojam imagens e
imaginários desterritorializados.
Ora, a construção social da categoria juvenil, sobretudo a partir de meados do
século passado, está francamente associada aos mass media, às indústrias
culturais e à denominada cultura de massas, que promoveram um determinado modo
e estilo de vida jovem (Pais, 1993; Feixa, 2006; Frith, 1984). Daí que Machado
Pais (1993: 27) nos assegure que:
A juventude é um mito ou quase mito que os próprios media ajudam a difundir e
as notícias que estes veiculam a propósito da cultura juvenil ou de aspectos
fragmentados dessa cultura (manifestações, modas, delinquência, etc.)
encontram-se afectadas pela forma como tal cultura é socialmente definida.
Os media são uma inesgotável fonte de informação sobre a realidade dos mais
jovens, meios que ajudam a identificar e distinguir as tendências mais recentes
dos semblantes juvenis. No entanto, como argumentam Flórez e Cárrion (2002),
neste circuito a juventude está geralmente votada ao silêncio, apesar de ser um
objecto privilegiado da verve mediática, um dos temas mais frequentes. Daí que,
segundo os mesmos, a juventude tenda a adquirir uma representação
fantasmagórica; sendo um meio de intercâmbio para a cultura institucional, é um
valor simbólico que carece de realidade enquanto tal, na medida em que a noção
de juventude vende-se, adquire-se, consome-se e manipula-se.[14]
A juventude enquanto signo com elevado valor comercial e simbólico é
permanentemente reinventada ao sabor das lógicas comerciais, tendências
estéticas e ideológicas do momento. Nos media generalistas aparece em distintos
conteúdos, ora demonizada, como é frequente surgir nos noticiários que nos
relembram os fenómenos da toxicodependência, desemprego, delinquência ou
hooliganismo, ora idolatrada por campanhas publicitárias que exaltam a beleza,
o exotismo, a sensualidade, a festividade, o prazer, a espontaneidade e o vigor
dos jovens. Se os media de grandes dimensões e as indústrias culturais e de
lazer ignoram geralmente a voz deste grupo etário, jogando com uma
representação do jovem enquanto outro, a maior acessibilidade a meios de
produção, difusão e reprodução de mensagens, permite a proliferação de
actividades de natureza subcultural e de microculturas distintas que, deste
modo, procuram fazer valer as suas representações, ideologias e estéticas
(Simões, 2002; Bennett, 2004).
A imagem enquanto recurso estratégico
Os jovens estão todo o tempo a expressar ou a tentar expressar algo sobre a sua
actual ou potencial significância cultural. (Paul Willis, 1990: 1)
A juventude não serve apenas de inspiração a imagens fabricadas, é igualmente
protagonista de uma intensa produção de natureza visual que se situa no âmago
da sua constituição enquanto categoria sociocultural. A imagem, entendida como
o modo como os jovens se apresentam visualmente ao mundo, socorrendo-se de
diferentes elementos como o corpo, o vestuário e apetrechos diversos, objectos
de consumo, etc., é indispensável à organização simbólica desta categoria
social (Feixa et al.,2008). A estetização do quotidiano é evidente no universo
juvenil, com uma forte presença da visualidade que tudo abarca, da expressão
corporal ao estilo, passando pela musicalidade, pela poesia e inventividade que
absorvem os escassos recursos do dia-a-dia na criação de monumentos à
imaginação.
Neste contexto, a metáfora dramatúrgica que o termo representação invoca
permite-nos percorrer outros caminhos. A representação concebida não apenas
como figuração, retrato, mas igualmente como actuação. Existe uma forte
componente performativa na forma como as culturas juvenis actuam no quotidiano,
que pode ser vislumbrada como evocação de um sentir colectivo, uma
exteriorização de singularidade cultural (Reguillo, 2004; Feixa et al.,2008;
Ferreira, 2008). Neste âmbito faz todo o sentido equacionar a vertente visual e
a visualidade em articulação com a metáfora dramatúrgica que, como nos
demonstrou Goffman (1999), é um poderoso auxiliar conceptual para descodificar
os processos de interacção social. Ao abordar as culturas juvenis Paul Willis
(1990) apercebeu-se desta dimensão dramatúrgica que, segundo o mesmo, é vital
para uma particular ordenação do mundo e sinalização dos lugares simbólicos. O
trabalho simbólico dos jovens invoca uma pluralidade de instrumentos como a
linguagem, o corpo e o drama, ao serviço da criatividade simbólica, no
sentido de estabelecer lugares e posições reconhecíveis, de delinear limiares
simbólicos a partir de um investimento criativo nas matérias do quotidiano.
As propostas de alguns dos autores anteriormente referidos (Goffman, 1999;
Willis, 1990; Hebdige, 1979) revelam-se extraordinariamente úteis ao debate, ao
oferecerem leituras teóricas inspiradoras para uma revisão deste nexo entre
juventude e visualidade. Neste quadro, parece-me particularmente pertinente
conjugar a ideia de apresentação do eu e de representação visual,
articulando-a com as noções de palco, encenação, máscara e guarda-roupa,
dispositivos ao serviço de uma dramaturgia muito particular. A representação
visual, concebida enquanto o modo através do qual nos representamos mobilizando
expedientes essencialmente visuais, está especialmente associada a
manifestações que são produzidas num contexto comunicacional que reclama o
olhar e as suas capacidades de descodificação simbólica. As expressões visuais
das diversificadas culturas juvenis são compêndios animados que testemunham
modos de viver e representar o mundo, são encenações e estratégias visuais que
servem para situar os sujeitos em conjuntos sociais mais vastos e complexos
(Feixa et al.,2008). Os jovens na actualidade parecem recorrer a novos modelos
de comunicação, novas gramáticas mais próximas da fugacidade e do presentismo
vivido por estes no quotidiano, locuções estéticas com profundo significado
simbólico (Muñoz Carrión, 2007). A dimensão performativa converte-se em
mecanismo de enunciação visível que reforça e aperfeiçoa os subtis códigos de
diálogo que se trocam através do olhar.
A ideia de encenação. Agir para algo ou alguém com um sentido performativo
implica conhecer e manejar os matizados recursos da arte, reconhecer as
máscaras e os demais atributos dos actores. Neste sentido os jovens
representam, representam-se (para si e para os outros), fortalecendo no próprio
acto a profundidade do seu sentir e das suas solidariedades. Neste contexto o
corpo tem sido abordado como um elemento de vulto na forma como os indivíduos e
grupos anunciam uma certa opção de índole pessoal ou condição de natureza
social e cultural (Vale de Almeida, 1996; Featherstone, 1999; Sweetman, 1999;
Turner, 1992; Frank, 1992; Ferreira, 2008). O corpo é lugar de inscrição
simbólica, operador social (Ferreira, 2007) que não sendo completamente
determinado pode ser vislumbrado como recurso estratégico ao dispor dos
sujeitos. O corpo, como extensão visível de identidade pessoal, enquanto
expressão idiossincrática e concreta do eu' (Ferreira, 2007: 304), pode ser
matéria de resistência, como o evidenciam os exemplos das tatuagens e do body-
piercing (Ferreira, 2007; 2008), desvelando formas distintas de interpretar o
mundo social.
As máscaras e os guarda-roupas são aparatos poderosos que condensam qualidades
pessoais e colectivas, carregam indicadores sociais e culturais. Enquanto
actores do quotidiano todos convocamos estes instrumentos nos diferenciados
papéis que desempenhamos. Nas culturas juvenis estes elementos são
particularmente valiosos. O mercado globalizado e uma cultura de consumo
fornecem grande parte das coordenadas e das matérias-primas para esta
actividade de composição de figurinos.[15] Aquilo que aprendemos a tratar como
o estiloconsubstancia, de certa forma, o vigor da imagem no contexto juvenil.
No fundo, o estilo agrega um conjunto de referentes semióticos que se traduzem
num discurso imagético (conjunto organizado de atributos visuais), crucial para
configuração do mosaico grupal, se quisermos tribal, que identificamos na
sociedade contemporânea. Desde as abordagens pioneiras dos estilos
subculturais, profundamente inspiradas pela semiologia (Hebdige, 1979; Clarke,
1976), que este tem sido um elemento incontornável dos discursos científicos
sobre a variedade interna da juventude (Abramo, 1994; Feixa, 2006; Pais e
Blass, 2004; Delgado Ruiz, 2002).
Os palcos que os jovens atravessam são por estes trabalhados, são enclaves
físicos aos quais são outorgados predicados simbólicos. Estes são terrenos
visualmente cunhados, imageticamente pujantes, como se a própria apresentação
do lugar fosse uma espécie de representação cenográfica. Sabemos como a
dimensão espacial é importante numa fase da vida marcada pela gradual
emancipação e pelas tentativas de aquisição de autonomia cultural (Skelton e
Valentine, 1998). Como diferentes estudos têm demonstrado, a cidade tem sido
apropriada por variados grupos de jovens que constroem os seus múltiplos
palcos, refúgios de encenações particulares. Lembremo-nos dos bares e
discotecas destinados a certas clientelas (Magnani, 2005), dos bancos e arcadas
do bairro (Pais, 1993), dos viadutos e ruelas grafitados (Campos, 2009a; 2009b;
Spinelli, 2007), entre outros territórios urbanos.
As culturas juvenis parecem singularmente vocacionadas para ensaiar novos
idiomas mais apropriados a uma condição contemporânea vivida no imediatismo e
na efemeridade, formatos expressivos mais criativos, móveis e lúdicos, em
ruptura com as instituições formais e o mundo adulto. Diz Munõz Carrión, ao
avaliar as novas gramáticas que regem a forma como os jovens se exprimem na
sociedade contemporânea, que grande parte das intervenções comunicativas da
cultura juvenil converteram-se em práticas do espaço e do corpo (2007: 22). A
estetização do quotidiano, o retorno a arcaísmos fundadores, por oposição às
aproximações racionalistas do mundo (Maffesoli, 1987; 2002), a filiação pela
aparência (Delgado Ruiz, 2002) sugerem novos vínculos comunitários e regimes
expressivos que reproduzem nas diferentes ritualidades visíveis do mundo um
lugar social.
Os mecanismos descritos, envolvendo formas complexas de representação visual,
estão, a meu ver, integralmente comprometidos com a fabricação de identidades
pessoais e colectivas. A imagem é, numa sociedade ocularcêntrica e imersa no
visual, componente central para a forma como estruturamos mentalmente e
fisicamente o nosso mundo. Num contexto onde as bases herdadas para o
significado social, pertença, segurança e certeza psíquica, perderam a sua
legitimidade para uma boa proporção de jovens (Willis, 1990: 12-13), onde não
temos outra escolha senão escolher (Giddens, 1994: 75), os jovens tendem a
traçar identidades pessoais e culturais valendo-se de uma série de substâncias
materiais e simbólicas, que funcionam como matéria-prima para o ensaio de
estilos de vida. Considero mesmo que as ideias de reflexividade (Giddens,
1994) e de projecto individual (Velho, 1987) estão intimamente implicadas nos
processos de representação visual. Num contexto de superabundância de signos
proporcionado por um imenso bancode imagens (Muggleton, 1997) disponibilizado
pelos media,[16] podemos argumentar que existe uma maior propensão para a
monitorização dos visuais (Ferreira, 2008) e para a enunciação de projectos
visuais, modos flexíveis e inventivos de os indivíduos se apresentarem ao
mundo, ostentando uma identidade visível conciliada com fantasias e ideologias
particulares. As distinções são, cada vez mais, de natureza imagética.
O domínio da visualidade parece, então, adquirir um relevo acrescido no âmbito
daquilo que McDonald (1999) define como lutas pela subjectividade. A
experiência fragmentada do Eu, particularmente problemática no caso dos jovens,
justifica a busca de vias individuais que imponham alguma coerência ao mundo. A
agência e a criatividade, muitas vezes mobilizadas no contexto de estratégias
performativas, podem ser entendidas como fórmulas de aquisição de
reconhecimento e soberania, são políticas de existência (Ferreira, 2008) que
operam no campo da visibilidade. Nestes actos podemos vislumbrar dinâmicas de
reacção a estruturas que, longe de indicarem balizas culturais consistentes,
parecem exigir cada vez mais indivíduos móveis e versáteis. Como diz McDonald
(1999: 216), não somos mais induzidos a adoptar um papel, devendo antes
procurar o nosso herói interior. Na performatividade e na ocupação de campos
de visibilidade os jovens encontram congruência, fortalecem identidades e
testam competências individuais que são valorizadas pelos seus pares.
Não posso deixar de referir, a mero título de exemplo, aquilo que considero ser
um dos casos mais interessantes da forma como os jovens empregam, actualmente,
a imagem e a visualidade como expedientes fulcrais para a comunicação entre
pares e para o ensaio de identidades sociais. Este exemplo empírico permitir-
nos-á entender o alcance que a imagem e a utilização do campo visual podem
adquirir no quotidiano de certas culturas juvenis. Refiro-me ao graffiti
urbano. O graffiti que prolifera pelas nossas cidades é o resultado de uma
prática cultural que palmilhou os circuitos da mediatização, comercialização e
globalização que atingem grande parte dos produtos e bens simbólicos com que
lidamos actualmente. Com origem em Nova Iorque e um percurso de quatro décadas,
o graffiti é hoje uma linguagem aparentemente universal, presente nos locais
mais insuspeitos, funcionando como uma espécie de código translocal dominado
por jovens habitando longínquas geografias.
Enquanto acto e formato de comunicação simbolizou um idioma novo, na
intersecção de desiguais circuitos, códigos e linguagens. O graffiti é,
seguramente, o produto de uma geração que cresceu ao lado da televisão e do
cinema, leu banda desenhada, domina a lógica publicitária e circula por uma
cidade visualmente explosiva. Revolucionário, pois constrói uma nova linguagem,
inspira-se na cultura de massas e na indústria do espectáculo, mas também na
arte, na publicidade e propaganda. O graffiti deriva de uma prática de certo
modo paradoxal, pois vive na obscuridade a ilegalidade do acto, mantido secreto
pelo uso de pseudónimos (os tags), utilizados como uma espécie de nomes de
guerra, usados com o intuito último de tornarem visível e ostensiva a presença
do actor no cenário urbano.[17] A invisibilidade da acção é requisito à
prossecução de uma actividade que busca a visibilidade, que procura inundar o
campo visual com siglas que consagram o poder dos diferentes actores neste jogo
complexo e perigoso. O estatuto dos actores nesta trama é definido,
principalmente, pela capacidade demonstrada no bombardeamento da cidade,
apropriada por grupos que vão deixando a sua marca como manifestação de poder
sobre o espaço.[18]
O poder da visualidade neste contexto social é, na minha perspectiva, revelador
da capacidade inventiva dos actores no aproveitamento dos recursos ao seu
dispor para tecerem sentido e estabelecerem hierarquias simbólicas. Por um
lado, a cidade é utilizada enquanto tela. A aprendizagem do graffiti pressupõe
uma aquisição de competências básicas no uso da cidade, tomada como magnífico
repositório publicitário aguardando a escrita dos mais empreendedores e
audazes. Por outro lado, o graffiti assume-se como um idioma essencialmente
visual. Este é um acto de índole conflitual que deriva de uma concepção
estética do vandalismo (Figueroa Saavedra, 2006), uma espécie de sabotagem
estética (Ferrell, 1996) que manipula as linguagens da cultura de massas e dos
media, que reconfigura a funcionalidade dos objectos urbanos e, em última
instância, da cidade. Como sustenta Ferrell (1996), o graffiti não é uma
simples actividade criminal, é um crime de estilo, deve ser julgado em termos
de crime, poder e resistência, mas igualmente em termos dos imperativos
estéticos que regem a actuação dos writers.
Mas curiosamente, apesar do que as palavras anteriores possam insinuar, o
graffiti contemporâneo não se resume ao espaço físico da cidade (Campos,
2009b). Esta é uma prática social que confirma a enorme habilidade que os
jovens detêm no uso das tecnologias. Indispensável para a compreensão das
culturas juvenis contemporâneas é, como alguns autores fizeram notar (Stahl,
2004; Weinzierl e Muggleton, 2004; Feixa, 2006), a centralidade que as novas
tecnologias e os sistemas de informação vêm adquirindo. Estas obrigam a
reformular uma conceptualização da juventude cultural e territorialmente
demarcada, acentuando a constituição móvel e global das redes sociais. Esta
situação leva-me a sugerir que a literacia visual (e audiovisual) das novas
gerações, à qual se acrescenta a facilidade de interacção e manuseio
tecnológico, favorece a expressão visual dos jovens que, actualmente,
multiplicam os seus vasos comunicantes, bem como os formatos comunicativos.[19]
Estes não receiam a experimentação partindo dos recursos disponíveis,
transformando adereços sortidos do quotidiano em matérias para o diálogo e
construção de identidades grupais. A máquina fotográfica digital, por exemplo,
tornou-se uma ferramenta banal entre oswriters,convertendo-se em testemunha
privilegiada da prática do graffiti, contribuindo para a constituição de
acervos de informação e para o fortalecimento de redes de comunicação entre
actores. A digitalização da imagem reforça a relevância da Internet na cultura
graffiti. Os recentemente aparecidos weblogs e os photologs tiveram um impacto
profundo, actuando como nódulos de uma extensa cadeia de comunicação. Os
websites operam como mostruários visuais das façanhas dos diferentes grupos e
da sua realização pictórica. Através destes meios os jovens partilham imagens
dos graffitis mais recentes, conhecem novos protagonistas, fortalecem laços
sociais e disseminam ideias e tendências. Aleguei, por isso, que estes podem
ser reconhecidos como tecnologias de memória, tecnologias de comunicação,
tecnologias de representação e narração (Campos, 2009b).
Este exemplo sustenta a tese de Bennett que sugere que a Internet se converteu
num valioso recurso criativo, na medida em que abre possibilidades criativas
para os jovens que vão significativamente além daquelas associadas aos media
mais convencionais (Bennett, 2004: 168). O universo online é, deste modo, uma
continuidade do offline, servindo como eficaz auxiliar no desempenho e
intercâmbio entre membros de determinados círculos culturais. Não é por acaso
que Carles Feixa (2006) define os jovens da actualidade como a Geração@. Os
apetrechos digitais assistem à exploração, comunicação e criatividade, sendo
que através da Internet os jovens acedem a redes alargadas e a um vasto
conjunto de informações sobre enunciados culturais distantes. Este pode, ainda,
tornar-se num vigoroso instrumento de activismo, como ficou demonstrado pela
capacidade de mobilização verificada recentemente no contexto dos movimentos
antiglobalização (Khan e Kellner, 2004), indiciando que existem fórmulas novas
de resistência, de activismo político e ideológico que encontram refúgio nestes
circuitos virtuais.
Notas finais
Propus-me, ao longo desta linhas, contribuir para o debate sobre as culturas
juvenis contemporâneas. Esta reflexão inacabada tem um interesse exploratório.
Sugeri vias renovadas de captação das culturas juvenis que decorrem do gradual
destaque que tem sido facultado à imagem e à visualidade nas ciências sociais,
patente na emergência de novas áreas disciplinares (por exemplo, cultura
visual, estudos visuais) e na proeminência crescente de outras (antropologia
visual, sociologia visual). Esta é uma proposta que deriva, então, de algo que
me parece incontornável no contexto da sociedade contemporânea e que tem sido
examinado por autores proeminentes das mais diversas áreas disciplinares o
papel capital das imagens e dos imaginários visuais na edificação de sentido e,
portanto, na fabricação da cultura. A acreditar na existência de uma sociedade
ocularcêntrica, intensamente dependente do olhar e das suas ramificações
tecnológicas para transmitir informação, perscrutar o mundo e discorrer sobre
ele, não vejo como podemos ignorar uma esfera tão crucial quando nos empenhamos
no estudo da juventude. Diz Machado Pais (2008: 20) que na realidade
quotidiana, o visual torna-se um centro polimórfico' que deve ser
interpretado, mas também pode ser meio de interpretação: objecto e método' de
pesquisa. Apesar desta advertência, julgo que a abordagem da imagem e da
visualidade, apesar de não representar uma novidade, raramente granjeou um
papel central nos discursos sobre a juventude. Vários autores destacaram a
função do estilo, da comunicação não verbal, do consumo e da moda como
elementos vitais para a constituição de culturas juvenis ou tribos urbanas,
contribuindo para tornar mais premente a necessidade de definir programas de
pesquisa que conceptualizem as dinâmicas sociais e culturais em redor do olhar
e do visível mas que ampliem, igualmente, a discussão em torno da aplicação das
denominadas metodologias visuais. Estes são territórios que merecem mais
consideração por parte das ciências sociais e, nomeadamente, da sociologia,
disciplina que vem prestando especial atenção à juventude. Esta é uma tarefa
complexa e que, certamente, não se esgota na modesta contribuição que este
texto apresenta.
Sugeri uma linha de pesquisa que articulasse, por um lado, as instituições e
dinâmicas de representação visual da juventude que podem ser identificadas como
externas aos círculos juvenis e, por outro lado, os mecanismos através dos
quais os próprios jovens se apropriam de recursos vários que são manipulados no
campo de uma produção cultural de natureza essencialmente visual. Assim, se por
um lado, como muitos daqueles que se têm devotado ao estudo da juventude
salientam, os media e as indústrias culturais têm desempenhado uma função
capital para a definição da juventude e para a forma a como as distintas
culturas juvenis se imaginam, por outro lado os jovens não são actores passivos
neste cenário global. Sob os consumidores de imagens e imaginários globais,
encontramos indivíduos e grupos que empregam a visualidade na invenção do
quotidiano, na configuração das distinções simbólicas, na descoberta de novas
linguagens e produtos estéticos.
Há, pois, que repensar esta articulação e o papel cada vez mais determinante da
visualidade para a construção desta categoria etária. Devemos reequacionar a
expressão visual enquanto forma de resistência eminentemente política tal como
foi romantizada pelos autores do CCCS, que concebiam as subculturas como
emancipadas das estruturas mediáticas, mas devemos igualmente ponderar a
pertinência da manifestação visual enquanto expediente essencialmente
apolítico, lúdico e narcísico, seriamente dependente dos media e do mercado,
como foi sendo retratada pelos estudos pós-subculturais e pelas abordagens pós-
modernas. Na verdade, a agência e a criatividade simbólica dos jovens, para
usar o célebre termo de Paul Willis (1990), parecem assentar em grande medida
na sua capacidade de ocupação e gestão estratégica de um campo de visibilidade,
tal como este é entendido por Brighenti (2007), que o descreve como um campo
social que conjuga os domínios da estética e da política.
Entre o ser e o aparentar definem-se jogos, estabelecem-se cenários,
cenografias, palcos e máscaras onde os actores jogam com o poder da agência num
mundo estruturalmente determinado. O quotidiano, particularmente marcado pelo
lazer e ócio, pelo uso da cidade e dos seus refúgios, revela-se o território
por excelência para a performance visual. A superfície dos corpos e dos espaços
ocupados pelos jovens, numa dramaturgia visualmente poderosa, significa
identificação e diferenciação. A linguagem da imagem e do visível parece
peculiarmente adequada ao seu mundo. É um recurso que estes dominam com
mestria, conhecedores dos símbolos e códigos visuais de um mundo globalizado e
em rápida mudança, familiarizados com as tecnologias e experientes na
readaptação de linguagens. Os suportes (o corpo, a cidade, etc.) são espaços de
autonomia e reivindicação, tomados como telas expressivas de uma vontade. Não
devemos ignorar a natureza política de muitos dos actos que ocorrem ao nível
desta enérgica produção cultural. Através de gestos tão elementares como o
graffiti de rua ou uso de estéticas subversivas, vislumbra-se não apenas um
jogo de prazer e performance mas, também, de resistência a normativos, de
desordem temporária de estruturas de sentido. Particularmente interessante
parece ser esta redescoberta da capacidade de acção política ou ideológica dos
jovens, enjeitada pela corrente pós-subcultural e que parece adquirir novo
fôlego pela irradiação das novas ferramentas tecnológicas. A Internet é, neste
contexto, recurso vigoroso para a capacitação e mobilização política de
actores, convertendo as redes virtuais e os dispositivos audiovisuais em
sustentáculos de comunicação e activismo, como parecem confirmar as múltiplas
subculturas virtuais ou a eficaz mobilização política registada em determinados
contextos.