Futuros prováveis: um olhar sociológico sobre os projectos de futuro no 9.º ano
O 9.º ano de escolaridade representa, no sistema de ensino português, o ano da
primeira opção vinculativa na trajectória escolar. Os alunos confrontam-se, ao
finalizarem a escolaridade obrigatória, com um leque heterogéneo de opções
formativas inseridas em diferentes tipos de ensino. A eleição de uma área de
estudos para o 10.º ano de escolaridade pressupõe uma primeira dupla escolha
(entre o ensino geral, o tecnológico e o profissional e, nestes, a escolha de
uma áreaoptativa), e assume um importante papel no processo de escolarização
ulterior, constituindo o primeiro estreitamento objectivo do espaço de
possibilidades oferecido pelo sistema de ensino, comportando implicações no que
diz respeito às saídas escolares ou profissionais subsequentes. A primazia no
monopólio da formação levou a escola a adaptar-se às exigências sociais e à
lógica laboral, através do desdobramento do ensino secundário em múltiplas
opções de formação, pretendendo dar resposta não só às necessidades económicas,
mas também à diversidade de valores, competências e de projectos dos alunos.
As heterogeneidades de escolha e diferentes opções de percurso dos alunos são
encaradas como interesses, necessidades e preferências individuais' cujas
fronteiras a educação escolar deve preservar e, através da oferta de distintas
oportunidades de formação, traduzir na formação de recursos humanos com as
competências e capacidades para as múltiplas funções sociais e laborais que o
sistema produtivo, a estrutura ocupacional e a organização da vida colectiva
exigem (Antunes, 1998: 134). A escola torna-se assim não só o lugar por
excelência da transmissão e aquisição de saberes mas, também, da construção de
futuros socioprofissionais, isto é, o espaço de encontro dos projectos e
aspirações individuais com as possibilidades, as regras e os procedimentos
impostos aos alunos pelo sistema educativo (Alves, 1998).
As escolhas escolares inerentes à transição para o ensino pós-básico podem ser
entendidas como parte integrante de um sistema mais vasto de projecção/
construção do futuro profissional individual. É, por isso, importante
questionar a dimensão sócio-institucional das mesmas. Se, teoricamente, se
considera que todos os alunos têm a mesma probabilidade de seguir qualquer das
vias que se lhes apresentam na etapa subsequente do percurso escolar, o que
acontece na realidade é uma auto-orientação, não dissociável de auto-selecção,
impulsionada a partir dos diferentes trunfos (de ordem escolar, socioeconómica,
pessoal e outras) sustentados pelos jovens (Pinto, 1991). Deste modo, para os
alunos que transitam do 9.º para o 10.º ano de escolaridade, nem todas as vias
de opção que existem na nova etapa escolar são igualmente acessíveis. O
processo de escolha entre as diversas opções de ensino põe assim em jogo um
conjunto de factores que questionam a comum percepção de escolha individual.
A pesquisa, que aqui se apresenta numa síntese, pretendeu de algum modo
reconstituir o cenário de emergência dos projectos de futuro de jovens alunos
do 9.º ano de escolaridade, questionando uma das mais importantes facetas da
relação estabelecida entre os agentes juvenis e a escola a construção de um
projecto de futuro.
Escolhas escolares, projectos de futuro e campo de possibilidades
Perante os diferentes pontos de bifurcação do sistema escolar, é pedido aos
alunos que inscrevam as suas escolhas escolares deste modo justificando-as e
legitimando-as num projecto de futuro mais vasto. Este processo traduz o que
Giddens (1994) denomina como colonização do futuro, ou arrastamento do tempo
futuro para o presente. Este arrastamento é um traço dominante da época actual,
em que se vive uma moda do projecto ou cultura do projecto, em que o
sentimento de existência está intimamente ligado com a capacidade de projecção
no futuro (Boutinet, 1990). É neste novo tempo operatório que as opções com que
os indivíduos são confrontados ganham sentido e consistência. É através dos
projectos que as trajectórias individuais se vão construindo, o que faz dos
mesmos um instrumento pertinente do seu estudo (Velho, 1994).
O projecto pode ser conceptualizado como a representação de objectivos ou
desejos futuros que, partindo de um conjunto de experiências passadas, organiza
e confere sentido às acções presentes e quotidianas.1 Na sua elaboração
encontra-se uma dinâmica que é fruto do cruzamento das dimensões individual e
social. Individual porque o mesmo implica uma avaliação, uma estratégia, um
plano de realização, uma noção de tempo com etapas de encadeamento, uma
selecção em função das experiências, necessidades e estratégias particulares.
Social pela existência de um conjunto específico de possibilidades
socioculturais, ou seja, de um campo de possibilidades, fortemente estruturante
do mesmo. Os projectos individuais não são fenómenos puramente internos e
subjectivos, são elaborados dentro de um determinado contexto social e
cultural, e jogados na interacção com outros projectos. O campo de
possibilidades representa assim, segundo Gilberto Velho (1994), o campo
disponível das alternativas, o conjunto das circunstâncias e das experiências
socioculturais. O projecto de futuro depende fortemente da natureza e dinâmica
do campo referido, de onde o mesmo emerge, e no qual é inspirado.
As escolhas escolares dos alunos em transição para o ensino secundário,
consideradas parte integrante de um projecto de futuro, emergem então de um
campo de possibilidades onde elementos como a família, as sociabilidades e a
escola formam um quadro dinâmico, específico e determinante. A sua construção,
momento importante da autonomização do jovem, em grande parte impulsionado pela
necessidade de efectuar uma escolha escolar, irá estruturar-se, entre outros,
de acordo com as estratégias e trajectórias de vida das famílias ou em
oposição a elas; integrando referências recolhidas durante a escolarização ou,
pelo contrário, primando pela sua ausência (Benavente, Campiche, Seabra e
Sebastião, 1994: 122).
As opções escolares e as futuras inserções socioprofissionais pretendidas por
um conjunto de alunos vão assim, nesta pesquisa, ser observadas a partir da
origem social e experiências escolares dos mesmos experiências entendidas num
sentido amplo, onde são consideradas a trajectória, o processo de orientação e
as sociabilidades escolares , consideradas como constitutivas, em grande
medida, do campo de possibilidades a partir do qual o projecto de futuro
individual se irá estruturar. Abordá-lo, ultrapassando a circunscrição à
perspectiva individual e de livre arbítrio que de modo genérico se atribui ao
projecto, constituiu o objectivo deste trabalho.
Neste sentido, analisaram-se os discursos que alunos do 9.º ano de escolaridade
de uma escola de 2.º e 3.º ciclos do ensino básico, localizada na periferia de
Lisboa, formulam quanto às suas opções de futuro, escolares e profissionais.2
Esta análise tem como objectivo balizar e equacionar o papel da escola na
definição dos projectos de futuro, num contexto como o actual, em que, por um
lado, é inequívoca a sua importância na produção de qualificações e preparação
para a vida activa e, por outro, as heranças sociais e culturais dos jovens,
desiguais no momento da entrada na instituição escolar, têm a possibilidade de
ser actualizadas dentro da mesma, o que remete para as potencialidades
enriquecedoras e transformadoras da escola enquanto instituição de passagem
obrigatória.
Este questionamento estrutura-se em duas etapas: numa primeira procede-se a uma
revisão e categorização dos projectos escolares e profissionais dos alunos (não
sem antes se traçar a sua caracterização socioeconómica e a sua trajectória
escolar); numa segunda etapa desenvolvem-se dois eixos distintos, de algum modo
constituintes da experiência escolar, no que mais ou menos directamente diz
respeito à construção dos projectos de futuro: 1. os serviços de orientação
escolar e profissional, e as expectativas dos actores em torno do seu trabalho;
2. as sociabilidades permitidas e estimuladas no espaço escolar, e o modo como
estas influenciam os projectos de futuro dos alunos.
Turma A e turma Z: caracterização, recursos e referências
Na recolha dos dados que enformam este trabalho, mais que a contabilização e
enumeração das opções dos alunos, interessou apreender o modo como estas são
vividas, em que personagens e factos se inspiram, onde e com quem são
debatidas, com que apoios (institucionais ou não) se estruturam.3 Como técnica
principal recorreu-se às entrevistas semidirectivas, ou conversas
direccionadas, durante as quais os alunos foram convidados a pensar as suas
opções, a descrevê-las e criticá-las, reconstruindo-as.
Do total de turmas do 9.º ano existentes na escola em estudo, foram
seleccionadas duas, e dentro destas procurou-se entrevistar a totalidade dos
alunos. A selecção das turmas teve como critério central o tipo de trajectória
escolar: a turma A (ou a turma da excelência), cujo núcleo duro de alunos
se conserva desde os primeiros anos de frequência da escola, e cujas
trajectórias escolares se apresentavam globalmente pautadas pelo sucesso, com
um baixo índice de reprovação; a turma Z (ou a turma do fracasso),
constituída por elementos não só provenientes de turmas diversificadas, como
caracterizados na generalidade por trajectórias de insucesso escolar e
reprovação. Heterogéneas do ponto de vista quer das trajectórias escolares,
quer dos seus bairros de residência, estas turmas apresentam uma relativa
homogeneidade na sua composição interna a caracterização social dos alunos
entrevistados permitiu constatar a polarização de recursos escolares, sociais e
culturais entre as mesmas , o que possibilita a sua análise enquanto grupo-
turma.
Procurou-se assim captar a significativa variedade de situações que
caracterizam a população escolar, nomeadamente as resultantes da actuação de
mecanismos de selectividade escolar.4 Esta polarização remete para a
problemática dos critérios de constituição de turmas, consolidados em torno do
agrupamento de semelhantes no tipo de trajectórias escolares, de recursos,
entre outros numa homogeneização que terá consequências a vários níveis,
nomeadamente ao nível do alargamento ou estreitamento do campo de
possibilidades dos alunos, e da definição dos seus projectos de futuro.
Na turma A foram realizadas entrevistas a 12 jovens, oito do sexo masculino e
quatro do sexo feminino, cuja média de idades rondou os 14 anos. Na turma Z
foram realizadas 10 entrevistas, 5 a alunos do sexo masculino e 5 a alunas do
sexo feminino, cuja média de idades se situou entre os 16 e os 17 anos; o que
perfaz um total de 22 entrevistas.5 Nos registos relativos às entrevistas, e
com o intuito de garantir a privacidade dos alunos, os nomes, a designação das
turmas e dos bairros de residência foram alterados.
Posicionamentos no espaço social
É possível afirmar que a concepção dos projectos de futuro se sustenta em
grande medida no meio social de onde estes emergem. O futuro projectado
configura-se, grosso modo, como um futuro de classe, reportado aos meios
sociais, e é atravessado pelos seus referentes, pelos percursos escolares e
profissionais dos seus familiares. A família é, particularmente na faixa etária
dos jovens confrontados com a primeira escolha escolar, uma referência social
determinante, um contexto onde, de forma mais intensa e contínua, se partilham
recursos e experiências, se formam disposições e projectos, se desenvolvem
práticas quotidianas e estratégias de vida (Costa, 1992: 84). A relação
estreita entre a condição da família de origem e a condição social dos próprios
jovens, ajuda a compreender as trajectórias que os mesmos projectam, orientadas
pela família através dos recursos de que dispõe e das referências que
transmite. Os contornos desta orientação dependem quer da origem social, e do
modo como as diferentes famílias gerem as modalidades de controlo, as
finalidades, motivações e os graus de autonomia dos seus jovens, quer da
experiência profissional dos seus elementos (Kellerhals, Troutot e Lazega,
1989; Seabra, 1997 e 1999). Sendo que os projectos de futuro emergem da
confrontação entre as representações da escolaridade, das profissões e de si, a
consideração não é feita sobre todas as possibilidades de escolha existentes,
já que o jovem só poderá explorar aquelas sobre as quais tem conhecimento,
mesmo que superficial. Deste modo, uma atenção maior será dispensada às
possibilidades que são familiares, que correspondem às orientações tradicionais
dentro do meio de pertença.6 Os determinantes sociais ganham uma redobrada
importância na construção de um projecto de futuro, já que os jovens de meios
populares conhecem menos profissões prestigiadas, valorizam-nas menos e
atribuem a si próprios menos competências para as desempenhar (Huteau, 1992).
Não ignorando o importante papel do núcleo familiar na concepção dos projectos
de futuro, e a pertinência do seu estudo, optou-se, neste item, apenas pela
circunscrição à caracterização social do grupo de alunos entrevistados. Para
além dos dados sociográficos referidos anteriormente (distribuição dos alunos
entrevistados por sexo e idades, em cada turma), a compreensão do seu
posicionamento no espaço social, ou seja, a partição dos entrevistados segundo
uma estrutura de classes de origem,7 permitiu compreender as diferenças sociais
entendidas como os recursos económicos e culturais da família de origem, e
seu universo profissional presentes na estruturação dos projectos de futuro.
Considerando-se que os recursos das famílias de origem, não só escolares e
culturais, mas também socioprofissionais e económicos, são determinantes no
desenvolvimento de estratégias sociais, individuais e colectivas, e no
desenrolar das trajectórias de vida dos seus membros, o nível de escolaridade
do pai e da mãe
8 constituiu um dos indicadores, a par com a profissão e a situação na
profissão, utilizados para a operacionalização da classificação dos grupos
domésticos dos alunos entrevistados em classes sociais de origem.9
Nomeadamente no que diz respeito à distribuição por grupos profissionais,
assinala-se na turma A uma maior diversidade. Tanto os pais como as mães dos
alunos da turma A distribuem-se por cinco grupos profissionais diferentes, de
onde se pode destacar o peso das profissões intelectuais e científicas e dos
empregados administrativos, e a ausência de trabalhadores não qualificados. Na
turma Z, a distribuição circunscreve-se a três grupos, onde se encontram quatro
trabalhadores não qualificados. Os pais são essencialmente operários, e um
número considerável de mães são domésticas.
A conjugação dos dados permite chegar a uma distribuição dos entrevistados por
classe social de origem.
É observável uma forte clivagem entre os dois grupos-turmas: a turma Z
essencialmente composta pelo operariado, a turma A apresentando uma grande
diversificação, e uma forte incidência da pequena burguesia intelectual e
científica.
Trajectória escolares
Considerando que os tempos próprios de progressão escolar fazem com que existam
idades modais para a frequência de cada grau de ensino, e que a média de idades
entre as duas turmas é distinta (14 anos na turma A, 16-17 anos na turma Z), o
número de reprovações foi um dos pontos tidos em conta na análise das
trajectórias escolares. Através desta foi possível apurar que na turma A apenas
dois alunos reprovaram uma vez. Pelo contrário, na turma Z não existe nenhum
aluno que não tenha sofrido um desvio na progressão da sua carreira escolar,
podendo ele significar até três ou quatro anos de reprovação. Nos dois casos da
turma A, as reprovações acontecem no 3.º ciclo; na turma Z, as reprovações
distribuem-se por toda a escolaridade obrigatória.
Outro dos pontos apurados foi o aproveitamento escolar dos alunos. Nesta
análise desenvolveram-se alguns procedimentos, que permitiram constatar a
diversidade de desempenhos entre os alunos.10 Apesar de não levar em conta
dados relativos à progressão dos níveis escolares, ou seja, o número de
reprovações, e colocar lado a lado níveis qualitativos com diferentes
especificidades, esta categorização articula essencialmente o que diz respeito
à variável aproveitamento escolar, fortemente determinante nas escolhas para o
10.º ano de escolaridade.
Nesta sintética caracterização dos alunos entrevistados pode constatar-se a sua
polarização em dois grupos com distribuição desigual, quase antagónica, de
recursos de origem e capital escolar, distribuição coincidente com a divisão
por grupos-turmas.
Colonização do futuro: opções escolares e profissionais
O conceito de projecto de futuro engloba as decisões subjacentes a dois tipos
de projecto o escolar e o profissional, que foram individualizados na
análise. O projecto escolar, calculado a curto prazo, prende-se com a escolha
de opções e vias de ensino, e liga-se em larga medida aos percursos escolares,
ao seu maior ou menor sucesso e, mais particularmente, às aspirações e
motivações dos indivíduos. O projecto profissional, pensado a médio/longo
prazo, refere-se ao grupo de inserção profissional propriamente dito.
Aos alunos entrevistados foi solicitado que descrevessem e fundamentassem, em
primeiro lugar, o seu projecto escolar, ou seja, a escolha de um dos tipos de
ensino que o sistema oferece: numa vertente mais científica/vocacional o ensino
geral, o ensino tecnológico numa vertente mais operacional, o ensino
profissional claramente voltado para a prática e inserção no mercado de
trabalho. Entre o primeiro e os dois últimos é possível identificar uma
segmentação escolar, que passa pela natureza da formação, e pela atribuição de
um diferente prestígio social, dicotomizado entre a primeira, mais prestigiada
e de âmbito acentuadamente teórico-intelectual, e as segundas, menos
prestigiadas, de âmbito mais prático.
Como é observável no quadro_3, as opções dos alunos entrevistados diferenciam-
se segundo a turma. Na turma A, a grande maioria tenciona matricular-se no
ensino geral; na turma Z as preferências recaem sobretudo sobre a vertente
tecnológica/profissional.
Os alunos que optaram pelos cursos gerais elegeram na sua maioria (5 alunos) o
agrupamento 1 dominante científico-natural como opção de formação.
Seleccionada apenas na turma A, esta é uma opção caracterizada por um currículo
com alto nível de exigência escolar, que permite um alargamento (mais do que um
estreitamento) das possibilidades de escolha no que diz respeito ao ensino
superior, englobando áreas socialmente prestigiantes e concomitantes com fortes
recursos simbólicos, culturais e económicos, como a medicina ou as engenharias.
Quer dizer, eu gosto de informática. Gosto das cadeiras relacionadas com o
espaço. Não sei ainda bem o que é que vou seguir. ( ) Eu sempre gostei de
computadores. Não sei. Agora estou a afastar-me um bocado disso, e quero seguir
outras coisas. ( ) Outras coisas sem ser, pronto, explorar o computador. Já não
me apetece muito fazer isso. ( ) Ciência, espacial, coisas dessas 11 [Bernardo,
turma A]
Nos discursos destes alunos é observável uma relativa indefinição, possível
para quem através da sua escolha alarga em vez de reduzir o leque de
possibilidades futuras. Não se encontram nos discursos a pressão da definição
imediata de opções profissionais, o que em parte se justifica pela longa
trajectória escolar ambicionada. Por outro lado, o grau de dificuldade dos
currículos nunca é mencionado como relevante na escolha a considerar. Outros
alunos da mesma turma (4 alunos) elegeram o agrupamento 3 dominante
económico-social como área de estudos. Os argumentos para a escolha passam
essencialmente pela experiência escolar anterior, e ao contrário do grupo
abordado anteriormente, pela consideração da maior facilidade de desempenho nas
disciplinas que compõem o currículo do agrupamento.
Noutro grupo as implicações dos currículos são consideradas apesar de um menor
grau de facilitismo, ou mesmo com uma clara consciência do nível de
dificuldade. Menciona-se também, nestes casos, a intervenção de outros
protagonistas no processo de decisão (a psicóloga dos serviços de orientação,
uma prima, o pai), que funcionam como impulsionadores ou desmobilizadores para
a escolha escolar.
Apenas os alunos da turma Z (2 alunas) escolheram o agrupamento 4 dominante
humanidades. Trata-se da área menos prestigiante, considerada (pela ausência de
expressão das ciências exactas) de menor complexidade, logo menor exigência.
Esta opção restringe acentuadamente o campo de escolhas posteriores. Os
discursos destas alunas demonstram um nível de ponderação que passa pela
aceitação da indicação de terceiros ou pela fuga à disciplina que representa
maior dificuldade, como a matemática.
Relativamente às opções no ensino tecnológico, para os alunos da turma A, a
informática foi a área eleita, pensada a partir do nível de aproveitamento
escolar conseguido até então e da opinião de familiares directos, revelando um
alto nível de acesso à informação. Trata-se de uma estratégia de rápida e
qualificada entrada no mercado de trabalho, com um prejuízo mínimo para a
continuação dos estudos ao nível superior, se essa se vier a demonstrar a opção
mais viável no momento.
Aliás, já tenho um curso de informática, gosto de computadores e tudo o que
tenha a ver com computadores ( ) Eu vou seguir agora um curso tecnológico, e
perguntei ao meu irmão o que ele achava melhor porque muitos dos meus colegas
Eu não sou um aluno bom, prontos, estou sempre naquela do 3 e coisa assim.
Então para um tecnológico já ia, em vez de estar a perder mais anos, do que me
meter no secundário (geral). E o meu irmão disse-me olha, acho que sim, faz o
que eu fiz. Mete-te no técnico, e depois faz o que quiseres. [Tiago, turma A]
Na turma Z existe uma acentuada preferência pela química, distribuindo-se os
restantes alunos por áreas como a mecânica e electrónica, a administração ou as
artes. A entrada no mercado de trabalho parece ser o argumento forte para a
opção pelo tecnológico, bem como uma maior excelência numa disciplina
específica, num quadro global de fraco nível de aproveitamento. O
envolvimento numa determinada disciplina, o seu domínio e uma boa relação com
o docente parecem constituir a base de alguns dos processos de decisão.
Conscientes das limitações impostas por um sistema de ensino acentuadamente
selectivo, estes alunos parecem ter conseguido, com a opção pelo ensino
tecnológico, maximizar a única excelência efectivamente reconhecida pelo
sistema através de uma boa nota, definindo os projectos escolares a curto
prazo e numa vertente acentuadamente prática, que possa ser valorizada no
mercado de trabalho.
Porque comecei a ver que percebia de química, que gostava, entendia O
principal da química é entender aquilo, não é decorar. Então comecei a ver que
entendia, gostava de experiências, decidi seguir. P- E tiveste uma boa nota? R-
Sim. Vou ter 5.
[Susana, turma Z]
Quando, através do desempenho escolar, não é proporcionado ao aluno qualquer
sentimento de excelência e competência, os motes para a construção do projecto
procuram-se no exterior da instituição escolar, definindo-se nas (mais
gratificantes) experiências quotidianas, e nas capacidades que pouco a pouco,
afinal, se descobrem entre acasos e brincadeiras contextualizadas em universos
contíguos ao universo familiar, que se vê deste modo reproduzido.
Eu tenho um terreno, no outro lado. E tenho sempre lá um vizinho meu, que
arranja isso, que arranja os carros. É mêmo mecânico auto. E eu tive lá um
bocadinho com ele, ele começou lá a mexer naquilo, nas peças, andou lá a
desmontar o carro, fiquei lá a ver, comecei-me a interessar por aquilo, comecei
a ajudá-lo, começou-me a pedir as chaves, comecei a ajudá-lo: aperta aqui,
aperta ali Liga aí o carro, não sei quê, comecei lá assim com ele. A brincar,
como se aquilo fosse uma brincadeira, e se a gente tivesse lá a brincar
Começamos lá, depois desmontamos o carro, que aquilo tinha lá um problema acolá
num filtro, do ar ou o que era, já não me lembro, era no filtro de ar acho eu.
( ) e a gente depois montamos aquilo, limpamos aquilo tudo, e depois já ficou a
funcionar bem. [Zé-Manuel, turma Z]
A opção pelas áreas técnicas tem forte expressão no ensino profissional.
Através da escolha deste tipo de ensino pretende-se um contacto imediato com o
mercado de trabalho, e uma formação essencialmente prática. Se, por um lado, é
reconhecida, por estes alunos, a necessidade de ter uma formação para poder
ter um futuro, por outro, as suas capacidades foram já (e continuam a ser)
repetidamente questionadas pela avaliação escolar. A opção pelo ensino
profissional revela assim a aceitação, por parte dos alunos, de um negativo
veredicto escolar, e a fuga à escola, tal como a conhecem, uma auto-exclusão
das vias de escolaridade que não tenham uma vertente operativa acentuada.
P- O que é que é necessário fazer para ser educadora de infância? R- Tinha que
fazer o 12.º, resolvia fazer um curso, e acho que não vou chegar lá. Acho que
não vou chegar. Até acabar o 12.º! ( ) Por causa das notas. Eu falei com a
orientadora e ela disse que eu podia agora optar por fazer um curso de auxiliar
de educadora de infância. [Rosalina, turma Z]
Na figura_1 distribuem-se as opções dos alunos entrevistados pelas diferentes
vias de ensino existentes, segundo a sua classe social de origem.
Às classes de maiores recursos parecem corresponder as opções no ensino geral,
mais valorizado e potencializador de futuros posicionamentos igualmente dotados
de recursos. É ao nível do operariado que se encontra a maior diversidade de
opções e possíveis trajectórias. Se por um lado a opção pelo ensino tecnológico
sobressai claramente (7 alunos), por outro também são significativos os casos
de opção pelo ensino geral.
Este tipo de decisões tendem a ser interpretadas como fortemente dependentes do
aproveitamento escolar. Quanto mais elevado for o aproveitamento, maior será a
probabilidade de investimento escolar em áreas privilegiadas e de maior
complexidade, maior será a sensibilidade em relação à reputação das diferentes
opções (Grácio, 1997; Bulle, 1996). Por outro lado, aproveitamento escolar e
origem social interagem: a influência da origem social nas opções é tanto maior
quanto mais baixo for o aproveitamento. De facto, os alunos entrevistados
pertencentes aos grupos sociais mais privilegiados, com os melhores níveis de
aproveitamento, são os que mais optam pelo ensino geral, enquanto os grupos
menos privilegiados, sujeitos a veredictos escolares negativos, optam pelo
ensino tecnológico e profissional.
Outra das dimensões observadas para a caracterização dos projectos escolares
foi o nível de qualificação escolar a que os alunos aspiram. Um dos elementos
que actualmente caracteriza os jovens é a aposta em trajectórias escolares
prolongadas. Em relação aos alunos entrevistados, assinalam-se as elevadas
qualificações ambicionadas pela quase totalidade da turma A (10 alunos, num
total de 12, tencionam seguir para o ensino superior), e uma segmentação dos
alunos da turma Z em duas posições: os que sabem que só querem cumprir o 12.º
ano (6 alunos), e os que não sabem se poderão prosseguir para a universidade (4
alunos). Para os alunos que aspiram a uma qualificação de nível superior, as
engenharias revelam-se as áreas mais escolhidas.12 Em conjunto com a medicina,
são áreas claramente tradutoras das trajectórias sociais, associadas a altos
níveis de recursos económicos, culturais e simbólicos, pretendidas por estes
alunos. Nos alunos pertencentes ao operariado, com o mais baixo nível de
aproveitamento (nível 4), as certezas de não continuação para além do 12.º ano
sobrepõem-se às dúvidas.
Interessante, coincidente com o valor actual da certificação escolar para a
entrada no mercado de trabalho, é a inexistência de referências a
possibilidades alternativas ao cumprimento do 12.º ano, como a desistência ou o
terminar apenas a escolaridade obrigatória. Atingido o patamar de fronteira
constituído pelo 9.º ano de escolaridade, a tendência dos alunos entrevistados
parece ser o investimento na finalização da escolaridade secundária.
Segundo Machado Pais (1994), entre os jovens de grupos sociais menos
favorecidos, as aspirações acalentadas não se encontram muito distanciadas da
realidade, ou seja, dos níveis de qualificação e das profissões que
efectivamente poderão vir a ocupar. A maior preocupação nestes grupos é
obtenção de compensações monetárias, pela obrigação de contribuir para o
aumento dos rendimentos da família, e o acesso a um certo tipo de consumismo.
Parece ser de suma importância destacar, no entanto, para além desses factores,
e no caso dos alunos entrevistados, a resignação aos veredictos escolares e a
necessidade de preservar (ou construir) uma imagem de si favorável num outro
campo que não a escola. Por outro lado, os que desejam prosseguir os seus
estudos ao nível superior não são necessariamente os que detêm o melhor nível
de aproveitamento, o que levanta novas interrogações sobre quais os referentes
condicionantes destas aspirações.
Para além do projecto escolar, a análise do projecto profissional permitiu não
só a compreensão das escolhas escolares, mas também a observação das
expectativas dos entrevistados quanto ao seu futuro, as imagens profissionais
que os mesmos adoptam para si, o tipo de grupos profissionais e respectivos
recursos a que aspiram, as diferenças que, nesta etapa, se começam a afirmar.
Para a análise dos projectos profissionais dos alunos, foi definida uma
tipologia tradutora das principais lógicas subjacentes aos projectos
observados.
13Deste modo, agruparam-se os projectos profissionais descritos segundo três
categorias: projecto optimista, projecto realista e projecto disperso.
Por projecto realistacategorizaram-se os projectos que evoluem em torno de
soluções praticáveis. Neste encontram-se condutas de realização que visam
objectivos ponderados e imediatos, estruturados em torno da confiança em
capacidades e aptidões específicas, muitas vezes descobertas fora da escola,
que se pretendem potencializar em opções escolares de cariz tecnológico e
profissionalizante, às quais está subjacente uma perspectiva de maior
facilidade curricular. Aos alunos cujos projectos se inserem nesta categoria é,
de uma maneira geral, reconhecida menor excelência escolar. São também
frequentes as referências a outros intervenientes no processo de decisão (para
além do próprio aluno). Para os alunos em que a referida excelência não
constitui um mote para a adopção de uma área, parece tornar-se muito importante
a existência de referentes exteriores, que funcionam como rede de suporte das
decisões. A orientação escolar, os familiares e outros protagonistas
afectivamente importantes na vida quotidiana dos alunos, revelam-se
impulsionadores para o amadurecimento das decisões, e também, no caso destes
últimos, como um modo de acesso informado aos diferentes mundos profissionais,
aos seus códigos e procedimentos.
Em alguns destes projectoso (impressionante) realismo da procura de soluções
praticáveis não deixa de revelar as fortes limitações estruturais a que o mesmo
está sujeito. Nos discursos destes alunos encontram-se, de um modo explícito e
recorrente, os contornos da passagem do (ou das ainda ténues fronteiras entre
o) projecto utópico da infância, muitas vezes inspirado nos media,a um projecto
maduro, estruturado em função do peso das trajectórias escolares de fracasso, e
das (in)capacidades que estas revelam. Sobressai assim uma renúncia a
aspirações profissionais anteriores, desmobilizadas pelos fracos resultados
escolares.
Pronto, quando era miúdo, quero ser futebolista, quero ser Quando era
miúdo!. Agora prontos, já tive Quero tirar um curso de electrónica, de coiso,
eu gosto muito de mexer assim em máquinas e tal. ( ) Por exemplo, eu quero ser
uma coisa mas, ah quero ser aquilo e vou ser aquilo, não! Eu quero ser aquilo
mas tenho que batalhar com aquilo e com aquilo, não é só o que é que queres
ser? Quero ser futebolista!' ( ) Depois eu pensei, ah, eu até gosto de mexer
assim E depois pensei naquela coisa do vídeo, que eu arranjei o vídeo, pronto
a porta estava mal. Era a cabeça, assim coiso tinha que ser. Fiquei assim um
bocado a pensar nisso [Paulo, turma Z]
O segundo tipo definido de projecto, o projecto optimista, revela uma outra
lógica de orientação para o futuro. Neste observamos uma forte confiança na
organização e no sistema escolar, e um pronunciado optimismo quanto às
possibilidades de realização dos projectos pessoais. Ao futuro está associada
uma planificação, mas que nesta etapa passa essencialmente pela continuação dos
estudos.
Eu quero tirar o curso de gestão, não é, porque apesar de ser um bocado difícil
a matemática, ainda que eu não seja má aluna, mas é difícil, mas gosto imenso
de gestão. Então gerir uma empresa, eu acho que deve ser espectacular! Não é
preciso ser uma empresa grande mas, sei lá, mas só de saber que a empresa
depende de nós, não é, das nossas ideias [Vanessa, turma A]
Neste discurso as compensações implicadas no desempenho da profissão, o
entusiasmo sentido, parecem revelar um optimismo que substitui, pelo menos por
agora, o peso dos possíveis obstáculos. O gosto, ou o interesse, contrariamente
ao saber fazer que se encontram nos projectos anteriores, parecem ser os
factores mais pertinentes para a escolha. A componente vocacional não parece
ser posta em causa, mas antes reforçada, pelo trajecto escolar.
P- Tu tens ideia do que é que faz um contabilista? R- Sei. P- Conheces algum
contabilista?
R- A minha mãe é. ( ) É na Câmara (Municipal). Já lá fui várias vezes. P-
Porque é que escolheste a economia? R- Foi o que eu gosto mais. Mas eu ainda
não tenho muito bem a certeza. Em princípio é contabilidade, porque eu ainda
não conheço muito bem os cursos que há. Primeiro ainda só preciso de saber o
agrupamento, depois vê-se os cursos que existem. Mas de momento é
contabilidade. [Tomás, turma A]
As realidades profissionais dos pais constituem uma fonte de inspiração, o que
não acontecia no projecto anterior. São realidades conhecidas, e em muitos
aspectos atractivas, ao contrário do que poderia acontecer em famílias com
menores recursos.
O discurso destes alunos revela uma segurança e determinação que não se
encontram nos restantes entrevistados, tal como não são feitas referências a
outros intervenientes nos processos de decisão. Estes entrevistados assumem, de
modo natural, que as suas escolhas não estão ainda claramente definidas. O
período de experimentação vai prosseguir ao longo da longa trajectória escolar
esperada. Substancialmente mais dotados de meios para decidir (em comparação
com os restantes), estes são os entrevistados que menos necessidade sentem de
delimitar rigorosamente os seus projectos. O mercado de trabalho é ainda uma
realidade muito distanciada, onde se espera entrar provido de uma certificação
valorizada.
Mais do que os obstáculos existentes no sistema escolar, a estes alunos
preocupam as suas disposições individuais para o desenvolvimento de determinada
área profissional. Perante um leque alargado de possíveis futuros a considerar,
importante parece ser a sustentabilidade individual, com sucesso, de uma
actividade profissional. Ou seja, enquanto os alunos que constroem um projecto
realistatêm, em termos genéricos, um saber/capacidade específicos,
consequentemente excluem parte considerável das escolhas possíveis, estes
alunos com projectos optimistasparecemter o campo das escolhas em aberto, e
necessitam apenas de dirigir a construção do seu saber para a área que
considerarem mais atractiva.
Na categoria projecto dispersoforamenglobados dois tipos de orientação, a
primeira caracterizada pela utopia, a segunda pelo equívoco e pela ausência de
informação. Na primeira os objectivos dos alunos situam-se ao nível do
imaginário, ao mesmo tempo que entre os mesmos e as possibilidades de
realização se observa uma substancial distância, e uma ausência de estratégia.
Nestes projectos o tempo futuro caracteriza-se ainda por um certo
encantamento, inspirado nas imagens veiculadas pelos media. Os protagonistas
destes projectos são, de entre o grupo de entrevistados, os jovens menos
providos de recursos. Nestes parece ainda não estar completamente definida a
fronteira entre o sonho e a realidade acessível. Os alunos parecem assumir o
que Giddens (1994) denomina como um sentido de invulnerabilidade, um
bloqueamento das possibilidades negativas em favor de uma atitude generalizada
de aparente esperança quanto às oportunidades futuras, um pôr entre parênteses,
ao nível da prática, as decisões passíveis de ameaçar as visões românticas do
futuro. Segundo o autor, a barreira protectora acaba geralmente por ser
quebrada, temporária ou permanentemente, por acontecimentos que demonstram a
realidade das contingências negativas.
A renúncia que encontramos nos projectos realistas não está ainda assumida
nestes entrevistados. Na inexistência de referentes, tanto dentro da escola
como fora dela, os alunos não conseguem estruturar um projecto coerente,
realista ou inovador. Não obstante a imaturidade dos projectos, o nível etário
destes alunos é o mais elevado de todo o grupo de entrevistados.
A outra orientação possível remete para enunciados em que, se por um lado
existe uma concordância lógica entre objectivos e meios para a realização dos
mesmos, ou seja, uma continuidade entre o projecto escolar e o projecto
profissional (o que à partida os distingue dos projectos utópicos), o
raciocínio inerente apresenta contornos de equívoco, tradutores de uma clara
insuficiência de informação.
Olhe, para ser cabeleireira, por vezes não se ganha muito, não é um emprego
muito certo. Também é preciso ter dinheiro para investir. E para ser massagista
tenho que estudar muito, por vezes também uma pessoa não pode estar sempre a
estudar, porque a vida também está mais difícil do que é antes. P- Por exemplo,
achas que com a engenharia química vais estudar menos como massagista? R- Não
preciso estudar tanto porque, aquele acho que é para tirar um curso e não
precisa de ser engenharia química. Posso tirar só um curso, de professora de
físico-química e depois posso continuar, e posso começar a trabalhar.
Massagista não, tenho que tirar o curso até ao fim e só depois é que posso
começar a trabalhar. [Susana, turma Z]
A urgência na entrada no mercado de trabalho é um dos pontos mais salientes dos
discursos, tal como os equívocos, sobretudo pela consideração de diferentes
níveis de dificuldade para áreas dissonantes, quer pelo nível considerado de
facilitismo, quer ainda pela aceitação, sem um efectivo questionamento, de uma
opção sugerida por terceiros.
Em síntese, os projectos optimistas encontram-se apenas na turma A,
constituindo a sua grande maioria, enquanto a turma Z se distribui, de modo
desigual, pelos restantes 2 tipos de projecto. Com projectos realistas
encontram-se 5 alunos (ou seja, metade dos alunos) da turma Z e 3 da turma A.
Com projectos dispersos encontram-se 5 alunos da turma Z.
A distribuição dos projectos por classe social de origem permite constatar que
aos grupos mais providos de recursos económicos e culturais está claramente
associada uma perspectiva de maior optimismo.
É aos alunos pertencentes ao grupo com menos recursos, o operariado, que estão
associados o total de projectosdispersos, que constituem metade dos alunos
deste grupo. Os restantes apresentam projectosrealistas, pensados numa
perspectiva estratégica da actividade que estes alunos julgam ser possível
desenvolver com algum sucesso.
Escola, desigualdades sociais e processos de escolha
A escola assume um papel incontornável e estruturante nos processos de escolha
dos seus alunos. Os currículos propostos e a sua maior ou menor complexidade
são um dos elementos considerados de maior peso na consideração das escolhas
escolares. Para alguns autores, será através dos currículos que os alunos
procederão ao que denominam como escolha negativa: o fenómeno da selecção por
eliminação (Berthelot, 1993; Duru e Mingat, 1987; Dubet, 1994, Coleman e Husén,
1990).
Estes processos de escolha têm sido amplamente debatidos sob o ponto de vista
das desigualdades sociais. O desdobramento em inúmeras áreas e especializações
de estudo introduziu um princípio de diferenciação social no sistema de ensino,
em que as classes mais informadas retiram mais vantagens das oportunidades
oferecidas pelo sistema, transformando em privilégio escolar aquilo que para
outros pode constituir uma dificuldade (Bourdieu e Champagne, 1992). A
igualdade de tratamento de todos assegura vantagens às classes médias
cultivadas e informadas, que aprendem rapidamente a medir os seus investimentos
e quais os recursos a mobilizar no que pode ser chamado como luta de opções
de formação no seio do sistema de ensino. O desigual valor das mesmas faz com
que a escola se constitua como um mercado dentro do qual se fazem escolhas mais
ou menos vantajosas (Dubet e Martuccelli, 1996).
14Considera-se que, ao obrigar a decisões precoces, com consequências tardias,
transformando os percursos de insucesso em destinos pessoais (ainda mais
estigmatizantes), a diversificação das áreas de estudo tem implícitos processos
de selecção e exclusão.
Simultaneamente à imposição da escolha de uma opção de formação, a escola
desempenha um papel significativo na concepção que o jovem tem de si e das suas
competências, não só profissionais, mas também sociais. O projecto do aluno
será definido a partir das suas experiências pessoais quotidianas e, em
particular, da sua experiência escolar. Tomando em consideração as exigências
do sucesso escolar, o aluno vai determinar as áreas escolares e restringir o
espaço das escolhas. Os alunos a quem não é reconhecida excelência escolar são
obrigados a renunciar a motivações profissionais anteriores e a procurar um
compromisso entre as suas aspirações e as áreas escolares que lhes são
permitidas (Postic, 1995). Este compromisso não é mais que um processo de
interiorização dos futuros possíveis (Pinto, 1991).15
A exigência escolar de construção de um projecto de futuro pode, deste modo,
ser entendida como particularmente injusta para alguns grupos sociais, para os
quais a escola acaba por se impor mais enquanto espaço de dissolução que de
construção de projectos (Dubet e Martuccelli, 1996). O projecto vai
racionalizar a posteriori as orientações assumidas mediante a pressão
institucional da escola. Passa-se assim de uma problemática psicológica de
identificação, de construção da pessoa, a uma problemática escolar e social.
Neste quadro o aluno é arrastado das preferências pessoais e aspirações
imaginárias, até ao compromisso de aceitação ou resignação perante o desempenho
escolar.
A orientação institucional
No espaço escolar, os processos de escolha desenvolvem-se através do apoio
institucional dos serviços de orientação escolar e profissional, que têm como
objectivo proporcionar aos alunos um apoio para a construção dos seus projectos
de futuro, a partir do auxílio para as tomadas de decisão impostas pelo
sistema, e da promoção do acesso à informação sobre a natureza e a forma dos
diversos tipos de trabalho. Desenvolve para isso a ligação entre as aptidões e
as opções de formação, através de um processo em que a escola terá duas fontes:
o pessoal escolar, fonte tradicional; a psicologia e os especialistas, fontes
científicas, que pretendem ter um papel certificador, traduzindo
cientificamente as noções de mérito e ajustando as qualidades individuais a
cada profissão.
Apesar da sua importância ser actualmente bastante reconhecida, a contribuição
da orientação escolar para o acentuar das desigualdades escolares e sociais
encontra múltiplos desenvolvimentos em trabalhos no âmbito da sociologia e da
psicologia. Nesta perspectiva, a orientação é analisada como um processo de
escolhas negativo, com fortes implicações sociais, e como o resultado de uma
relação de força desigual, principalmente para as famílias mais desfavorecidas
(Baluteau, 1998; Berthelot, 1993; Dubet e Martucelli, 1996; Duru e Mingat,
1987; Antunes, 1998). Mais do que um jogo de aproximação entre diplomas,
competências e funções, a orientação escolar tende a ser interpretada como um
espaço de itinerários construído institucionalmente, passível de ser percorrido
de modo desigual de acordo com os recursos escolares e socioculturais dos
alunos.
Depois de revistos os projectos escolares e profissionais dos alunos
entrevistados, retomou-se a experiência escolar, questionando o processo de
orientação escolar desenvolvido pelos Serviços de Psicologia e Orientação
(SPO), na tentativa de compreender quais os mapas de percursos possíveis
transmitidos por estes serviços.16
Constatou-se que nos dois grupos-turmas existem diferentes situações em relação
ao processo de orientação, distribuindo-se os alunos de acordo com o que se
observa no quadro_5.
Verifica-se que, apesar de 6 alunos não terem completado o processo, o mesmo
não ocorre com a maioria. Para a generalidade dos alunos, a inscrição no
processo de orientação obedece a motivações que passam essencialmente pelo
esclarecimento de dúvidas, pelo descobrir o que é que se pode ser, pela
curiosidade. Paralelamente, é reconhecida a importância do acesso, através
deste, à informação relativa às áreas de opção e escolas onde estas existem,
pouco sistematizada e de difícil consulta sem a mediação de um actor escolar
habilitado para o efeito.
Outro dos motivos apontados pelos alunos é a procura de uma confirmação de
ideias prévias, estruturadas em torno de referentes como os resultados
escolares ou os contextos familiares. Ainda que os alunos que seguem esta
lógica, os mais dotados de recursos de todo o grupo de entrevistados, tenham
uma ideia pré-concebida, procuram certificar cientificamente as suas aptidões.
Na turma Z o número de alunos que não se inscreveram ou abandonaram o processo
de orientação é comparativamente mais alto. Na opinião da psicóloga, esta não
inscrição acontece quando existe, da parte do aluno, uma concepção autónoma já
muito estruturada do futuro, pelo cariz voluntário do processo, e pela pouca
disposição ou empenhamento individuais, explicações unilaterais que não põem em
causa o papel dos próprios serviços neste afastamento dos alunos. Para a não
inscrição ou abandono do processo, cuja importância se tende a reconhecer
tardiamente, os alunos apontam para razões como o desinteresse, a falta de
tempo, ou o aborrecimento inerente às sessões.
Por outro lado, a acção orientadora pode não fazer corresponder as expectativas
dos jovens a uma profissão por eles considerada ideal, e a antecipação dessa
desadequação pode também levar ao abandono do processo. Outras críticas dos
alunos apontam para a falta de um acompanhamento individualizado e para o
carácter discursivo das sessões, pouco atractivas e muito semelhantes às
sessões escolares.
O debruçar também sobre as fontes escolares não científicas que de alguma forma
intervêm na construção dos projectos, permite observar nos discursos dos alunos
expectativas quanto ao papel da escola. À pergunta sobre quais as iniciativas
de apoio que a escola devia desenvolver, grande parte dos alunos e em
especial os alunos cujos grupos domésticos apresentam baixos níveis de
escolaridade, o que poderá revelar um reforço, nestes casos, do papel de
modelo que os professores constituem frequentemente referiram que seria
importante um reforço do papel dos professores, e a inserção de temas
relacionados com o futuro profissional nos planos curriculares escolares. A
valorização e o reforço do papel dos professores neste processo, na perspectiva
dos Serviços de Psicologia e Orientação, seriam desejáveis e necessários, já
que, no modelo de orientação vigente, este varia de acordo com o perfil dos
mesmos e com o seu voluntarismo.
Outro desejo assinalado, ou iniciativa proposta, passa por um maior contacto
com o mercado de trabalho, principalmente no que diz respeito aos alunos da
turma Z. O mundo laboral, nomeadamente para os que nele se projectam a curto
prazo, apresenta contornos indefinidos, que a escola parece não ajudar a
clarificar.
A abordagem realizada na escola às questões relacionadas com o futuro não é,
segundo os alunos entrevistados, exaustiva, e poderia ser ainda mais
desenvolvida. A função informativa é a que revela o maior sucesso efectivo. A
falta de tempo em todo o processo de orientação e o carácter voluntário,
informal e pontual da participação de outros protagonistas e fontes no processo
não parecem, para o conjunto dos entrevistados, permitir a abertura de espaços
efectivos, exclusivamente escolares, de debate e ampliação de perspectivas. Ao
mesmo tempo, a natureza pouco individualizada do processo impede o
acompanhamento personalizado, desejado pelos alunos, nomeadamente por aqueles
que, pelo seu perfil social e escolar, deveriam beneficiar de mais apoio.
As sociabilidades escolares na familiarização com múltiplos universos
profissionais
Outro referente importante na elaboração dos projectos de futuro são as redes
de sociabilidade sustentadas nos diversos contextos onde o jovem se insere, um
dos aspectos mais valorizados do quotidiano juvenil. Já que os jovens se
caracterizam pela construção de uma autonomia face à família e instituições,
aquelas possibilitam simultaneamente que outros elementos se possam intrometer
na eficácia dos processos de socialização, nomeadamente através do contacto com
sistemas de valores concorrentes originários de outros grupos sociais, de
pares, ou difundidos através dos meios de comunicação social (Sebastião,
1998b: 19). Estes outros elementos, aquilo que Machado Pais (1994) designa como
elementos de cultura marcadamente geracional, constituem para os jovens uma
influência de valor paralelo à do meio social de origem, e revestem-se da maior
importância na compreensão dos projectos de futuro. Importa por isso
equacionar, para além da família de origem, espaços de inserção social,
contextos de socialização, grupos de referência e parceiros de interacção, ou
seja, as redes de sociabilidade.17 Estas permitem a importação de novos
elementos para os processos de decisão e negociação da realidade, assim como
induzem reestruturações nos sistemas de disposições, através da partilha de
valores e de representações. Como afirmam Costa, Machado e Almeida, neste
sentido, afinidades activas, sintonias grupais, acordos implícitos, objectivos
comuns, comuns experiências, tudo contribuirá para a incorporação de sistemas
de disposições. Sociabilidade é socialização e contágio. (1990: 200).
As sociabilidades, principalmente as proporcionadas pela escola, podem assumir
características distintas do grupo social de origem, contribuindo para uma
socialização cruzada e transformadora, a partir da riqueza de troca implícita
nas relações de amizade interclassistas. Esta socialização contagiante,
estimulada pelas sociabilidades escolares, ocorre apenas quando os critérios de
formação das turmas não separam irremediavelmente os alunos de acordo com o seu
aproveitamento escolar. As redes de sociabilidade podem introduzir mudanças no
trajecto pessoal, constituindo um trampolim para mobilidades desejáveis e
projectos de futuro dinâmicos (Garcia, Castro e Garcia, 1994). Como afirma
Madureira Pinto, a autonomização do espaço social e de sociabilidade da escola
é responsável, em contexto de democratização do sistema de ensino, por
fenómenos de reidentificação de grupos de referência e estilos de vida que, ao
nível do imaginário juvenil, tendem a fazer deslocar para cima o feixe de
trajectos de mobilidade profissional considerados plausíveis (Pinto, 1991:
27).
Deste modo, um segundo eixo de questionamento da experiência escolar centrou-
se, por sua vez, neste aspecto particularmente relevante do quotidiano juvenil.
Quis-se, em primeiro, apreender quais as redes de sociabilidade sustentadas
pelo aluno. Foi possível constatar que os alunos identificavam e diferenciavam
os dois grupos: o escolar e o do bairro de residência. Quando confrontados com
a eleição do grupo preferencial de convívio, e utilizando como unidade de
análise os dois grupos-turmas, verifica-se que, na turma A, o grupo de pares
preferencial se encontra entre os colegas da escola (8 alunos em 12), enquanto
na turma Z a maioria das respostas aponta para os amigos do bairro de
residência (6 alunos em 10). Por outro lado, ao distribuir-se os alunos segundo
o nível de aproveitamento pelo grupo de pares que privilegiaram, observa-se
que, para os alunos com níveis elevados de aproveitamento, as sociabilidades
escolares constituem a preferência.
Observa-se ainda que nos alunos de baixo nível de aproveitamento o destaque vai
sobretudo para o bairro de residência. Nos níveis intermédios a distribuição
apresenta-se mais equilibrada. Sendo que estes alunos são oriundos de bairros
de residência com características bastante diferenciadas, será também
pertinente observar, para cada grupo-turma, a distribuição dos alunos por
bairro de residência e por sociabilidade privilegiada.
Os alunos da turma A são na sua maioria oriundos do Bairro dos Arcos, o bairro
que goza do maior prestígio, ao nível local. Trata-se de uma urbanização
relativamente recente, e à semelhança da Quinta da Amora (onde reside um outro
aluno entrevistado, da mesma turma), caracterizada pela construção em altura, e
medianamente dotada de equipamentos. Parte da turma reside na Portelinha Velha,
bairro de construção mais antiga, também em altura, e que ocupa uma posição de
fronteira com o Bairro da Fonte,vulgarmente designado por bairro degradado.
Deste modo, destacam-se duas situações: por um lado, os alunos residentes no
Bairro dos Arcos que maioritariamente elegem as sociabilidades escolares, o que
eventualmente pode indiciar uma coincidência entre ambos os grupos (da escola e
do bairro), representando a escola o espaço onde o convívio é mais intenso. Por
outro, observa-se que os alunos residentes em Portelinha Velha se dividem entre
os dois tipos de sociabilidades. Neste grupo, elegendo a escola como espaço de
convívio por excelência, encontram-se alunas provenientes de grupos sociais
comparativamente menos dotados de recursos que os restantes colegas. Alunas
que, pelo projecto optimista apresentado, parecem ter sido contagiadas pelas
ambições dos colegas, socializadas para contextos profissionais e concepções de
futuro mais valorizados socialmente, que não encontram reflexo no seu contexto
de origem. Estas alunas usufruem do que se pode denominar sociabilidades
alargadas, ou seja, sociabilidades diversificadas estimuladas no espaço
escolar.
Na turma Z, a matriz de distribuição apresenta características distintas: uma
maior dispersão no entrelaçado entre bairro e preferências, um peso mais
significativo na ligação com os amigos do bairro.
Os alunos da turma Z são na sua maioria oriundos da Portelinha Velha, onde se
encontra uma distribuição quase equilibrada entre as diferentes sociabilidades
privilegiadas. Dois dos 3 alunos residentes neste bairro que preferem as
sociabilidades escolares apresentam níveis de aproveitamento escolar
comparativamente mais altos. Os restantes alunos distribuem-se pela Quinta da
Amora, pelo Bairro da Fonte, bairro caracterizado por uma população
maioritariamente de baixos recursos e origem africana, e pelo Vale dos Figos,
que reúne as mesmas características do bairro anterior.
As representações das realidades profissionais dos jovens são determinadas em
grande parte pelas situações profissionais que conhecem e pela relação afectiva
que estabelecem com os sujeitos que as vivem. Do mesmo modo, os percursos de
irmãos mais velhos, de amigos, de vizinhos, o ouvir dizer', podem apresentar-
se como condições objectivas responsáveis pelas estruturas objectivas de
avaliação das situações de vida (Carvalho, 1998: 24). Pode, assim, considerar-
se que os vários universos profissionais com que o jovem tem contacto
constituem-se como inspiradores (ou não) dos projectos de futuro do mesmo.
Procurou-se por isso indagar e diferenciar dois universos profissionais (para
além do familiar) próximos do entrevistado: o do bairro de residência
18 e o das sociabilidades escolares (profissões dos pais dos amigos da escola).
Com a definição destes universos (a partir das profissões enumeradas),
complementados com o universo familiar, procurou-se elencar a diversidade do
tipo de imagens profissionais existentes, as suas limitações e potencialidades.
No quadro_9 é possível observá-las lado a lado, no que diz respeito à turma
A.19
Pode neste quadro verificar-se, para os alunos residentes no Bairro dos Arcos,
uma certa uniformidade e coerência entre as profissões referidas nos diferentes
universos. Em todos se encontram referências aos mesmos grupos profissionais,
que apresentam uma grande diversidade, e incluem sempre as profissões técnicas
intermédias e as profissões intelectuais e científicas. Não existem referências
a trabalhadores não qualificados. As sociabilidades escolares e o bairro de
residência representam uma continuidade do universo familiar, caracterizado por
elevados recursos culturais e económicos.
No que diz respeito aos alunos de Portelinha Velha, pode destacar-se a expansão
dos referentes profissionais introduzidos, primeiro, pelo bairro onde os
alunos identificam, não só grupos menos qualificados que o familiar (o caso dos
trabalhadores não qualificados da construção civil), como mais qualificados
e, depois, pela escola. As sociabilidades escolares são alargadas, ou seja,
proporcionam a estes alunos um contacto, ainda que indirecto, com profissões
diversificadas e mais valorizadas socialmente, como o demonstram a introdução
de outras PTI, ou das profissões intelectuais e científicas, que se distinguem
claramente, pela sua qualificação, do universo de origem, implicando uma
expansão e um enriquecimento do mesmo. Este contacto terá certamente
repercussões na consideração dos seus projectos de futuro.
Se por outro lado se observar a comparação dos universos profissionais, agora
para a turma Z, as características encontradas são distintas (quadro_10). Em
primeiro, pode apontar-se o bairro de residência como a principal fonte de
diversificação do universo das profissões conhecidas. Nos alunos oriundos tanto
da Quinta da Amora como da Portelinha Velha, é no bairro de residência que
encontramos o maior número de grupos profissionais, associados a um leque vasto
de qualificações (que vão do engenheiro ao trabalhador não qualificado da
construção civil).
Esta diversidade contrasta com uma relativa regularidade nos grupos
profissionais encontrados nos núcleos familiares, e também com os dados
relativos às sociabilidades escolares. Estas últimas constituem-se como um
campo de possibilidades mais estreito, e as profissões enumeradas levam a
questionar se a escola proporcionará a estes alunos uma rede de relações
interclassistas, cuja existência e influência se verifica na anterior turma. As
sociabilidades escolares podem assim denominar-se restritas. Este
questionamento é reforçado pelo exemplo dos alunos residentes no Bairro da
Fonte.
Observa-se, no quadro_10, que os diferentes universos profissionais descritos
por estes alunos apresentam uma regularidade, que pode também denominar-se como
um estrangulamento do universo profissional: os mesmos grupos profissionais
são referidos nos três universos (destaque-se, como exemplo significativo, a
vendedora de peixe), caracterizados estes pelas baixas qualificações e
recursos, o que, de algum modo, permite referir um fechamento ao contacto com
outros universos profissionais, recursos e oportunidades. Esta é uma tendência
que a escola parece, para estes alunos, não contrariar, nem mesmo ao nível das
sociabilidades que proporciona, o que remete de novo para os critérios de
formação das turmas e as suas consequências.
Parece assim ter sido possível ilustrar que as redes de sociabilidade são
efectivamente importantes e diversificadas (poderia também dizer-se
polarizadas), mais restritas ou alargadas, segundo os alunos entrevistados e a
turma onde se inserem. As sociabilidades escolares parecem constituir, quando
têm implícitos cruzamentos interclassistas, um universo privilegiado de
referências profissionais. Ao não proporcionar este cruzamento enriquecedor, o
que acontece quando a formação das turmas isola e reúne os alunos da
excelência escolar num só grupo (como é o caso da turma A), a escola perde em
parte o seu potencial enriquecedor, limitando a diversificação de referências
culturais e profissionais, e contribuindo para o estrangulamento e para a
cristalização dos universos referenciais dos alunos, nomeadamente dos menos
providos de recursos.
Projectos de futuro: uma tipologia interpretativa
O desenvolvimento das dimensões analíticas seleccionadas permitiu chegar a um
conjunto de perfis diversificados de projecção no futuro. Estes perfis
constituem uma perspectiva compreensiva, integrada e interpretativa, dos
processos de escolha dos alunos e dos seus projectos, articulando o essencial
da informação recolhida e problematizada, sintetizada no quadro_11.
Individualizaram-se, deste modo, quatro tipos de projecto: o projectosucessor,
o projecto dinâmico, o projectodifusoe o projectoestacionário. Com estas
designações pretende-se ilustrar as lógicas e dinâmicas identificadas nos
projectos analisados.
Ao primeiro tipo de projecto referido, o projectosucessor, pertencem 5 alunos
da turma A. Estes alunos estão inseridos, exclusivamente, em famílias da
pequena burguesia intelectual e científica, pautadas por níveis de escolaridade
elevados e pela actividade em grupos profissionais diversificados e socialmente
valorizados. São pois dotados com recursos culturais, económicos e simbólicos
muito valorizados no universo escolar. As trajectórias escolares destes alunos
inscrevem-se em níveis altos de excelência, e o processo de orientação escolar,
finalizado pela quase totalidade dos mesmos, constituiu uma validação
científica das aptidões já confirmadas pelos veredictos escolares. As escolhas
escolares, assumidas como vocacionais (ou seja, escolhidas porque se gosta),
são realizadas no ensino geral científico, que apresenta o currículo mais
exigente e selectivo também, a via de formação que mais opções possibilita,
posteriormente, no ensino superior. A escola é parte integrante, não
questionada, do futuro destes alunos. O seu futuro profissional é pensado a
partir de projectos essencialmente orientados para a frequência do ensino
superior. Existe uma consciência clara do tipo de trajectória que se pretende
construir, um optimismo quanto às possibilidades oferecidas pelo sistema de
ensino, e uma assumida incerteza quanto à profissão pretendida, cujas hipóteses
se consideram sempre em grupos profissionais valorizados socialmente e
associados a recursos económicos privilegiados. Usufruindo de condições
objectivas de partida onde a situação económica, o contexto cultural e o acesso
à informação constituem uma rede de suporte e estímulo, no qual a escola é
apenas uma das partes integrantes, a trajectória destes alunos inscreve-se numa
lógica de predestinação, de continuidade (mais do que de mobilidade) e
manutenção dos privilégios de origem.
No segundo tipo, o projecto dinâmico, inserem-se 3 alunas da turma A, cujas
famílias têm níveis de escolaridade comparativamente mais baixos que no grupo
anterior. As realidades profissionais assumem-se no campo técnico-operativo, e
são também caracterizadas por uma iniciativa estratégica individual (pequenas
burguesias independentes e proprietárias). As trajectórias destas alunas
englobam níveis de aproveitamento que podem, ou não, ser altos, assim como
podem, ou não, comportar reprovações, mas onde os processos de orientação
escolar são realizados, e as escolhas escolares, vocacionais são pensadas em
função do ensino superior, apesar da dificuldade curricular reconhecida. Mais
do que a certificação da excelência, a escola proporciona a estas alunas uma
experiência de socialização e abertura para novas realidades sociais e
profissionais, nomeadamente através das sociabilidades interclassistas que
induz, onde as trajectórias ascendentes são impulsionadas e adquirem sentido.
Pertencendo à turma A e privilegiando as sociabilidades escolares (de
características sociais distintas das sociabilidades de bairro), na escola são
concedidos, a estas alunas, referentes inovadores do ponto de vista do seu
contexto de origem. A permeabilidade a estes novos referentes, um relativo
investimento familiar, e resultados globalmente favoráveis no que diz respeito
ao aproveitamento escolar constituem, no seu conjunto, uma dinâmica que permite
superar as limitações estruturais, que impulsiona e inspira projectos
ascendentes.
Na categoria projectodifusoinserem-se 6 alunos, 5 pertencentes à turma Z, 1 à
turma A. Nas famílias destes alunos encontram-se escolaridades que não
ultrapassam (e podem mesmo não atingir) o 1.º ciclo do ensino básico, as mais
baixas do grupo total de entrevistados. A classe social de origem é, para
todos, o operariado industrial, e na família vive-se um divórcio em relação à
escola, o que está de algum modo patente nas próprias trajectórias dos alunos:
todos já reprovaram pelo menos uma vez (podem ir até 4 reprovações), e a
maioria apresenta níveis baixos de aproveitamento. Apenas um destes alunos
completou o processo de orientação escolar, e alguns não chegaram a inscrever-
se. As suas escolhas escolares, dirigidas para o ensino tecnológico e para o
ensino geral não científico, obedecem a critérios como a fuga a disciplinas com
elevado grau de exigência, a valorização de disciplinas onde lhes foi
reconhecida alguma excelência escolar ou a indicação de pessoas próximas,
exteriores ao espaço escolar. Pensam, na maioria, seguir para o ensino
superior, ou não sabem se o conseguirão. No entanto, como denominador comum,
todos apresentam uma grande desarticulação entre projecto escolar e
profissional, e informação equivocada ou ausência da mesma quanto às realidades
profissionais, aos currículos escolares e ao seu grau de exigência e, em alguns
casos, uma perspectiva ainda utópica do futuro. A distância familiar face à
escola, uma relação difícil com a mesma (que não estimula a comunicação com os
actores escolares), e a não realização do processo de orientação escolar formam
um contexto estrutural que limita o acesso à informação, o que se reflecte nos
projectos e condiciona fortemente o seu desenvolvimento.
No último perfil definido, o projectoestacionário, estão presentes 8 alunos
entrevistados, pertencentes, em larga maioria, à turma Z. As famílias destes
alunos, cuja classe de origem é essencialmente o operariado industrial,
apresentam níveis de escolaridade que se centram no 1.º ciclo do ensino básico,
embora existam dois núcleos familiares onde o ensino secundário é a
escolaridade dominante.
Grande parte destes alunos apresenta trajectórias escolares onde existem
reprovações, assim como níveis de aproveitamento médios ou baixos. As escolhas
escolares, orientadas para o ensino tecnológico e profissional, obedecem a
critérios como a orientação para uma entrada rápida no mercado de trabalho, o
desenvolvimento de uma disciplina em que a excelência escolar foi reconhecida,
ou são inspiradas nas experiências vividas na vida quotidiana extra-escolar,
que proporcionam uma imagem de si válida e capaz, contrastante com a que é
transmitida pela escola.
As sociabilidades privilegiadas por estes alunos são, sobretudo, as do bairro
de residência, onde os universos profissionais são contínuos aos do grupo
familiar. O processo de orientação escolar foi realizado pela maioria, e
contribuiu para o nivelamento das expectativas às possibilidades consideradas
possíveis, ou seja, para que estes alunos entrassem em conformidade com os
veredictos escolares desfavoráveis, que não lhes reconhecem aptidões e
capacidades para a construção de uma trajectória de que a escola seja parte
integrante. A maioria destes alunos quer apenas acabar o 12.º ano, ou não sabe
se conseguirá ingressar no ensino superior. Deste modo, os limitados recursos
estruturais de origem, o tipo de trajectórias escolares vividas e a acção
niveladora do processo de orientação escolar contribuem para que não integrem
uma perspectiva de dinamismo no seu projecto de futuro, e o concebam dentro de
uma conformidade que é estimulada e certificada pelo seu contexto envolvente.
Algumas notas finais
Enquanto notas de síntese, é possível realçar que os jovens entrevistados
revelaram, a partir da sua caracterização, perfis sociais diferenciados,
pautados pela diversidade de recursos de origem (económicos e culturais) e de
universos profissionais. Esta diversidade apresentou uma polarização nos dois
grupos-turmas. O seu significativo contraste revelou um modelo de organização
escolar em que a homogeneidade representa um critério para a formação de
turmas. Ao serem agrupados os alunos em função da sua área residencial e da sua
trajectória escolar, as turmas constituem-se com homogeneidade interna e
heterogéneas entre si. A escola demonstrou assim importar a diferenciação
socioespacial que atravessa o território educativo, contribuindo para a
manutenção e estrangulamento dos universos profissionais e sociais de origem
dos alunos, estimulando processos de diferenciação e hierarquização do público
escolar.
A análise dos discursos relativos às opções escolares e profissionais
pretendidas pelos alunos entrevistados permitiu constatar a existência efectiva
de um estabelecimento de objectivos futuros (eleição de uma área profissional),
organizadores das acções presentes (escolhas escolares), das quais decorre a
escolha de um agrupamento e tipo de ensino para o 10.º ano de escolaridade.
Esta definição de objectivos realiza-se a partir de um campo de possibilidades,
em que se cruzam dimensões, tais como a experiência escolar, o contexto
familiar ou as redes de sociabilidade sustentadas.
No contexto envolvente que impulsiona e influencia a construção do projecto, a
escola representa um papel crucial através, seja das certezas transmitidas pelo
veredicto escolar e pelo reconhecimento de excelência ou fracasso implícito
neste, seja pelo desenvolvimento de processos positivos de construção de
futuros profissionais para além das disposições de origem, comprovados nesta
pesquisa pela existência do projectodinâmico. As imagens positivas de si,
apreendidas no espaço escolar, são efectivamente incorporadas, e tornam-se
estruturantes. São os alunos com projectosdinâmicos que fazem a manutenção, na
sua passagem pela escola, do princípio da igualdade de oportunidades amplamente
divulgado pelo sistema. No sentido inverso, as trajectórias de insucesso
escolar contribuem para que a escola assuma um papel, de algum modo, embargador
na concepção dos projectos. Como exemplo encontram-se os alunos com projectos
estacionários e alguns dos alunos com projectosdifusos, perdidos na matriz de
opções propostas, remetidos para aquelas consideradas menos prestigiantes, não
considerando o ensino superior na sua trajectória, preparando inserções futuras
em universos profissionais predominantemente de âmbito executante. No que diz
respeito aos alunos com projectossucessores, a escola mais do que dinamizar
ou embargar legitima, certifica e reforça percursos escolares e profissionais
concebidos, enformados e ponderados em contextos sociais privilegiados, no seu
exterior.
A acção que a escola exerce sobre a rede de sociabilidades do jovem tem também
de ser equacionada. As redes de sociabilidade revelaram-se associadas intra-
escola à turma, e extra-escola ao bairro de residência. Sendo os universos
simbólicos, culturais e profissionais dos dois grupos-turmas distintos, a
escola parece não permitir o seu cruzamento, que proporcionaria novas
socializações e um alargamento dos referentes. No que diz respeito aos alunos
entrevistados, as sociabilidades apresentam-se constrangidas estruturalmente,
restringindo-se às que os critérios de organização escolar e às que o bairro de
residência permitem. Quando o cruzamento interclassista é possibilitado e
estimulado, a acção socializadora da dimensão relacional, renovadora face às
disposições dos alunos, reflecte-se positivamente nos projectos dos mesmos.
Através da divisão do ensino pós-básico em especializações, da orientação
escolar, dos currículos que propõe e da experiência escolar que proporciona,
das sociabilidades que possibilita (ou impossibilita), a escola orienta as
trajectórias, nivela as expectativas, condiciona as aspirações, ou seja,
contribui de modo significativo para a construção dos projectos de futuro dos
alunos. É possível afirmar que, para os alunos entrevistados, a par com a
família de origem e as sociabilidades na configuração do campo de
possibilidades, a escola constitui uma sua dimensão fortemente estruturante.
Os projectos de futuro dos alunos entrevistados parecem assim depender
fortemente da sua trajectória escolar, e das disposições transmitidas pelo seu
grupo social de pertença, ou seja, é possível afirmar que a colonização do
futuro realiza-se a partir de constrangimentos de classe e escolares. Estes são
os principais condicionantes dos alunos no jogo através do qual estes constroem
as suas trajectórias, no espaço escolar, em direcção a uma futura inserção
socioprofissional.
Notas
1 Os projectos de futuro podem assumir diferentes tipos, consoante o seu âmbito
(por exemplo, escolar, profissional ou de vida), o seu grau de elaboração e
precisão, o seu grau de projecção (a longo termo ou a curto termo), o contexto
onde são elaborados (dentro ou fora de instituições), os seus atributos, entre
outros, de acordo com o tipo de análise que se pretenda fazer (Boutinet, 1990;
Guichard, 1993; Dubet, 1973).
2 Este trabalho de investigação, realizado no ano lectivo de 1998/1999, partiu
de um objectivo genérico de abordagem aprofundada e multidimensional de uma
realidade escolar urbana (Sebastião, Seabra, Campos, Mateus, Reis, Teixeira, e
Delgado, 2000), e foi desenvolvido no âmbito do projecto Educação Para Todos
(PEPT 2000).
3 Recorreu-se para isso a técnicas como a observação participante, as
entrevistas semidirectivas e a recolha de informação documental (processos
escolares e documentos relativos à organização das turmas e horários). A
observação participante constituiu um instrumento poderoso na familiarização
com o ambiente da escola, os seus diferentes cenários de interacção e os seus
actores, contribuindo, simultaneamente, para o alargamento e aperfeiçoamento
das perspectivas de análise.
4 A sua actuação traduz-se na constituição de turmas quase homogéneas, sendo as
protegidas constituídas por alunos com trajectórias escolares marcadas pelo
sucesso, e as desprotegidas turmas em que os alunos partilham traços que
aparentemente os tornam semelhantes, pois são constituídas quase exclusivamente
por aqueles que possuem percursos marcados por uma relação difícil com a
escolaridade (o que esconde uma grande diversidade de situações face à
aprendizagem).
5 De forma complementar, foi também realizada uma entrevista à psicóloga
responsável pelo processo de orientação escolar e profissional dos alunos
entrevistados desenvolvido no âmbito dos Serviços de Psicologia e Orientação
, na qualidade de importante interveniente na vivência dos processos de
escolha dos mesmos, e enquanto testemunha privilegiada das dificuldades e
dilemas que se colocam aos jovens. Todas as entrevistas foram realizadas no mês
de Junho de 1999.
6 A motivação para a escolha pode partir seja da profissão, seja dos atributos
e capacidades individuais reconhecidas. As profissões existentes vão dividir-se
em dois grupos: as que parecem acessíveis, familiares, e as mal conhecidas,
pouco diferenciadas, que constituem uma espécie de estrangeiro enevoado, não
considerado (Huteau, 1992).
7 Por classe social entende-se uma categoria social cujos membros, em virtude
de serem portadores de montantes e tipos de recursos semelhantes, seja de
propriedade económica, de qualificações escolares e profissionais, de poder e
prestígio social, tendem a ter condições de existência semelhantes e a
desenvolver afinidades nas suas práticas e representações sociais (Almeida,
1994: 225).
8 A distribuição dos progenitores pelos diferentes níveis de escolaridade
revelou uma forte polarização nos recursos que caracterizam, globalmente, os
grupos-turmas. Na turma A, as licenciaturas e o ensino secundário têm uma forte
expressão. Na turma Z, a concentração observa-se nos níveis mais baixos, sendo
que apenas um pai concluiu o 3.º ciclo do ensino básico (o nível de
escolaridade mais elevado do grupo). As mães apresentam-se globalmente menos
escolarizadas que os pais. Esta distribuição acentuadamente desigual dos
recursos escolares tem efeitos repercussivos, amplamente debatidos no âmbito
sociologia da educação, observáveis nas trajectórias escolares dos
entrevistados.
9 Estes indicadores foram conjugados a partir de uma tipologia, apresentada por
João Ferreira de Almeida, António Firmino da Costa e Fernando Luís Machado
(1988). Efectuaram-se, no entanto, alguns ajustamentos, decorrentes quer da
utilização do Código Nacional das Profissões 94, quer da agregação para 11
categorias, apresentada pelos mesmos autores em artigo posterior.
10 À semelhança dos procedimentos desenvolvidos por Sérgio Grácio (1997) no
tratamento e análise de trajectórias escolares, definiu-se o aproveitamento
escolar segundo uma categorização em quatro níveis distintos: 1) alto/médio em
letras e em ciências; 2) alto/médio em letras e baixo em ciências; 3) baixo em
letras e alto/médio em ciências; 4) baixo em letras e ciências. Estas
categorias permitiram um cruzamento posterior com os projectos de futuro.
11 Na exposição dos resultados da análise de conteúdo optou-se pela maior
proximidade possível ao discurso dos entrevistados, tentando preservar as
expressões em que se cruzam o cognitivo e o afectivo e onde se reconhece o
capital' discursivo disponível dos sujeitos (Carvalho, 1998: 69). Isto, de
forma a reconstruir os projectos de futuro descritos pelos entrevistados,
preservando as suas especificidades, o seu enquadramento e as lógicas
estruturantes que os atravessam.
12 As opções apontam para âmbitos tão diversos como a engenharia informática, a
engenharia ambiental, aeroespacial, mecânica ou electrotécnica.
13 Tipologia essa que partiu inicialmente de um conjunto de categorias
propostas por Dubet (1973), posteriormente alteradas para uma mais correcta
adequação à realidade observada.
14 Refere neste âmbito Berthelot que existe um inacreditável angelismo ou uma
insuportável perversidade na ideia que as fileiras de ensino poderão, sem
transformações societais radicais, ser equivalentes. Que elas têm, do ponto de
vista da ética social, uma igual dignidade, é uma evidência democrática. Que
elas são susceptíveis de trazer aos indivíduos vantagens sociais idênticas é,
há tanto tempo como as formações resultam em empregos diferentes em estatuto,
em remuneração, em possibilidades de carreira, em modalidades de realização de
si, um maldoso gracejo (1993: 165).
15 Afirma neste sentido Madureira Pinto que consubstancialmente à trajectória,
existe um processo de interiorização do que é possível, mais ou menos provável
ou impossível de atingir em termos profissionais, há uma construção de futuros
socioprofissionais plausíveis (vividos sob a forma de destinos pessoais e,
eventualmente, de vocações), a qual, não excluindo em absoluto uma margem de
avaliação estratégica e de indeterminação estrutural, reforça a probabilidade
efectiva de a cada uma das posições notáveis da estrutura de classes (pontos de
acumulação de vantagens e handicaps sociais) corresponder um feixe limitado de
oportunidades de emprego (Pinto, 1991: 22).
16 Foi realizado um conjunto exploratório de perguntas às duas partes
envolvidas no processo: por um lado, um dos membros que constitui a equipa dos
SPO, neste caso, a psicóloga que orientou os dois grupos-turmas em questão, por
outro, os alunos entrevistados.
17 Definidos por contactos não anónimos, repetidos e duradouros, que se
estabelecem no quadro de distintas referências, como as familiares, as de
amizade, as profissionais, as de vizinhança, as de associação. (Costa,
Machado e Almeida, 1990: 198)
18 Profissões dos vizinhos, pais dos amigos do bairro e adultos que frequentam
a sua casa.
19 As profissões enumeradas foram associadas em grupos profissionais, e
subjacentes a cada grupo profissional encontram-se um ou dois exemplos do tipo
de profissões citadas, que permitem um contacto mais directo com as realidades
em causa.