Automedicação: algumas reflexões sociológicas
A automedicação é um fenómeno em crescimento nas sociedades europeias (Who,
1988), cuja expressão actual está estimada em 30,0% da totalidade dos
medicamentos consumidos (Richard e Senon, 1996).
Em Portugal, os dados do Inquérito Nacional de Saúde registam também essa
tendência de crescimento. Do total de procedimentos adoptados perante problemas
de saúde, o recurso à automedicação representava, em 1984, 21,3%, e em 1995,
33,5% (DEPS, Ministério da Saúde, 1984, 1995).1
Embora este tipo de prática não seja um fenómeno específico da modernidade,
pois constituiu, desde sempre, um dos recursos leigos na gestão dos problemas
de saúde, as suas actuais proporções conferem-lhe novos contornos.
Visando conter o seu tendencial crescimento e circunscrever a sua incidência
aos problemas de saúde considerados de menor gravidade, múltiplas campanhas
institucionais têm vindo a alertar para os riscos da automedicação. As
principais apostas de eficácia destas medidas têm elegido a educação para a
saúde e a promoção de estilos de vida saudáveis como os meios privilegiados
para a readequação dos comportamentos da população neste domínio.
As dimensões a que tem sido circunscrita a visibilidade pública do fenómeno,
isto é, o seu crescimento, o risco que lhe está associado e os mecanismos
desenvolvidos para a sua contenção e regulação, têm feito subsumir as
complexidades sociológicas que se inscrevem nas práticas de automedicação, com
consequências sobre o alcance de qualquer intervenção neste campo e sobre a
compreensão do próprio fenómeno.
Neste artigo, e com base num projecto de investigação em curso,2 apresentam-se
algumas reflexões sociológicas sobre a automedicação, que representam um
primeiro patamar de aproximação analítica a este fenómeno e à sua constituição
em objecto sociológico. Numa primeira linha de reflexão, equacionam-se as
estratégias profissionais de poder que se desenvolvem em torno da
automedicação, procurando dar visibilidade às transmutações sociais de que vem
sendo objecto. Numa segunda linha de reflexão, e a partir de alguns dados
empíricos já analisados, o fenómeno é enunciado como uma expressão da
apropriação leiga dos saberes profissionais, em que se revelam diferentes
modalidades de apropriação e de percepção social do risco, com desiguais
configurações em diferentes grupos sociais. Numa última linha de reflexão,
equacionam-se um conjunto de contributos teóricos para a interpretação das
pistas analíticas encontradas.
Automedicação: plataforma de estratégias profissionais de poder
Pela sua própria definição, a noção de automedicação, entendida como o uso de
medicamentos sem prévia indicação médica (Who, 1988), delimita e estabelece o
quadro de normatividade institucional quanto à legitimidade e autoridade na
decisão de tomar medicamentos, circunscrevendo-a à profissão médica. Logo, nos
termos desta enunciação, não só fica excluída qualquer legitimidade leiga no
domínio das opções medicamentosas, como fica também excluída qualquer
legitimidade profissional exterior à medicina, no sentido em que, mesmo quando
o medicamento é usado por recomendação de qualquer outro profissional de saúde,
designadamente pelo farmacêutico, continua a ser uma prática de automedicação.
A questão do poder constitui, assim, uma das dimensões sociológicas em que o
fenómeno se inscreve, e que remonta à consolidação do processo de
profissionalização da medicina no séc. XIX e ao consequente monopólio da
legitimidade no plano do diagnóstico e decisão terapêutica consubstanciado na
noção de acto médico (Freidson, 1970; Chauvenet, 1972).
Significa, então, que sob a aparente neutralidade da definição de
automedicação, oculta-se uma semântica social que reafirma e reactualiza o
monopólio do saber e poder médico quanto à legitimidade da decisão do uso de
medicamentos.3 É nesta semântica social que a automedicação adquiriu o estatuto
de prática desviante, tornando-a objecto de diversas modalidades de rejeição
formal.
Contudo, o estatuto desviante que lhe é conferido e, através deste, a dicotomia
que é estabelecida entre ilegitimidade leiga e legitimidade médica, oculta a
natureza objectiva desse desvio. De facto, as práticas de automedicação não
constituem propriamente uma forma de desvio à lógica de intervenção médica, mas
antes uma forma de desvio ao poder e autoridade médica.
Desde logo, porque as práticas de automedicação constituem uma expressão da
crescente medicalização e farmacologização das sociedades modernas. Quer no
sentido em que cada vez um maior número de situações e problemas do quotidiano
dos indivíduos entram no domínio médico, quer no sentido em que as formas
privilegiadas de intervenção médica se caracterizam pelo recurso aos fármacos
(Crawford, 1980; Helman, 1997; Lowenberg e outros, 1994).
Consequentemente, as últimas gerações têm incorporado na sua socialização uma
crescente familiaridade com os fármacos, os quais, nas gerações anteriores,
representavam um recurso raro e de utilização excepcional. Simultaneamente, a
rotinização e padronização da sua prescrição foram possibilitando uma gradual
apropriação leiga dos critérios de decisão médica, que é accionada e
reproduzida nas resoluções leigas sobre os problemas mais comuns de saúde.
Integram também as condições para essa apropriação a própria emergência e
declínio do estado providência. O desenvolvimento de sistemas universais de
saúde, a partir dos anos 60, em diversos países europeus, e no caso português a
criação do Serviço Nacional de Saúde, em 1974, aumentou enormemente a
frequência dos contactos da população com a profissão médica (Campos, 1991), o
que induziu as condições propícias a uma progressiva apropriação leiga dos
procedimentos mais rotinizados da medicina e, sobretudo, das suas opções
farmacológicas. Com o declínio do estado providência, a partir dos anos 80,
traduzido ao nível da saúde, entre outros factores, pela descomparticipação de
um quantitativo crescente de medicamentos, ficaram criadas condições propícias
à iniciativa leiga de reprodução das opções famacológicas mais rotinizadas pela
intervenção médica.
É na confluência deste conjunto de factores que a natureza desviante das
práticas de automedicação se inscreve no plano do poder e das formas de
controlo social em que este se concretiza, e não no plano da lógica de
intervenção. Isto é, trata-se de um desvio ao controlo médico e não de um
desvio à lógica de intervenção médica, o que significa que se trata de um
fenómeno produzido no interior do mesmo sistema social e técnico que lhe
confere o estatuto desviante.
O carácter endógeno ao próprio sistema que a automedicação adquiriu e a
ineficácia das medidas para a sua contenção, têm vindo a dar lugar a novos
reposicionamentos profissionais neste domínio e a novas estratégias de
recolocação de poder, tanto por parte do sector médico como do sector
farmacêutico. A principal expressão desses reposicionamentos profissionais é
constatável na redefinição de que tem sido objecto o tradicional estatuto
desviante atribuído a estas práticas, com a criação de novas dicotomias que
introduzem a distinção entre a designada automedicação responsável e
automedicação não responsável.4
Não obstante os diferentes entendimentos que confrontam ambos os sectores
profissionais quanto ao conteúdo substantivo de cada uma destas categorias, o
seu surgimento é revelador de que a automedicação está a constituir uma
plataforma de estratégias profissionais de poder, que se consubstancia na
disputa de novos espaços de controlo profissional, fazendo deslocar para as
suas respectivas tutelas um campo de práticas que tradicionalmente se
desenvolveu à margem do seu controlo.
No que respeita ao sector médico, esse reposicionamento passa por dois tipos de
estratégias, aparentemente contraditórias. Formalmente, e como princípio, a
profissão médica rejeita qualquer forma de automedicação, evocando que o
recurso a qualquer solução terapêutica pressupõe sempre um diagnóstico, e que
estes são domínios exclusivos da competência médica, cuja usurpação pode
colocar em risco a saúde dos indivíduos (Christopoulos, 1996). Porém, esta
posição de princípio não exclui uma crescente tolerância e aceitação do recurso
à automedicação para os considerados sintomas menores, isto é, sem suposta
gravidade.
Que para estes casos o acto médico de diagnóstico seja delegado pelos próprios
médicos aos leigos e à sua competência para avaliarem o carácter mais ou menos
sério dos sintomas, não deixa de, objectivamente, traduzir estratégias
profissionais de recentramento da intervenção médica nas situações clinicamente
mais valorizadas e de resistência à desqualificação que a rotinização dos
procedimentos para os problemas de saúde mais vulgares representa.5
No entanto, esta tolerância à automedicação é legitimada nos argumentos médicos
com a evocação de um novo requisito, que é a prévia educação do doente. Esta
educação é entendida como a transmissão de um conjunto de recomendações quanto
às circunstâncias em que o recurso aos medicamentos pode ser feito, acentuando
a sua restrição aos sintomas mais comuns e alertando para o contacto imediato
com o médico face a qualquer alteração no quadro estabelecido. Trata-se,
portanto, de uma tolerância que não pressupõe o reconhecimento de competências
leigas em matéria de decisão terapêutica, mas sim que cria um novo espaço de
penetração do controlo médico num campo de práticas tradicionalmente marginal a
esse controlo, que é assegurada pela centralidade atribuída à educação do
doente. É nesta configuração que emerge a reconversão médica do estatuto
desviante da automedicação, confinando-a às práticas leigas sob o seu controlo
e remetendo ao estigma da irresponsabilidade as práticas que subsistem à margem
desse controlo.
Contrariamente ao sector médico, desde há muito que o sector farmacêutico tem
assumido uma posição de grande flexibilidade relativamente à automedicação,
advogando mesmo as suas vantagens nos designados sintomas menores, por
permitir economia de tempo, de custos e uma mais rápida recuperação do bem-
estar (Soares, 1995; Ahlgrimm, 1996).
Para além dos interesses de natureza estritamente económica que a automedicação
possa ter para os farmacêuticos, esta representa também uma nova oportunidade
para o alargamento do seu campo de intervenção e revalorização profissional. A
evocação da centralidade do seu papel no aconselhamento ao cliente constitui o
eixo fulcral das suas estratégias neste domínio.
Essa centralidade é reiteradamente abordada nas publicações do sector, com
construções ideológicas que articulam solidamente a orientação para o cliente e
o alcance estratégico dessa orientação, como o ilustra particularmente o
seguinte excerto:
Os farmacêuticos devem entender que a sua grande oportunidade de se mostrarem
conhecedores, a par com o seu dever profissional, é a orientação dos doentes
para a automedicação, a par com toda a informação que lhes deve ser dada e todo
o processo educativo que deve ser feito aos utentes das farmácias, para que
tenhamos clientes mais educados e conhecedores do ambiente do medicamento,
aceitando melhor todas as instruções que lhes dermos relativas às necessidades
terapêuticas ( ) (Soares, 1995: 32).
Novamente, o requisito da educação do doente volta a figurar, tal como no
sector médico, enquanto mecanismo de recolocação do controlo profissional e de
reafirmação das fronteiras entre a incompetência dos leigos e a competência dos
profissionais. Uma vez mais, são essas fronteiras que convertem o tradicional
estatuto desviante da automedicação em prática responsável.
As condições propícias à emergência destas estratégias de reposicionamento
profissional do sector médico e farmacêutico passam também pelas mudanças nas
políticas de saúde ao nível do medicamento.
A introdução no mercado dos chamados medicamentos de venda livre, i. e.,
medicamentos cuja aquisição não está sujeita à obrigatoriedade de prescrição
médica, constituiu a principal expressão do interesse político em flexibilizar
o recurso à automedicação. Em Portugal o processo teve início em 1983 (Who,
1988), com posteriores e sucessivos alargamentos do volume de medicamentos
classificados de venda livre.
A legitimidade evocada para esta medida política tem tido como principal
argumento o reduzido, ou mesmo nulo, risco dos medicamentos incluídos nessa
categoria. É um argumento que não reúne total consensualidade, e que no sector
médico tem dado lugar a alguns contra-argumentos:
( ) existe a possibilidade de o recurso à automedicação poder mascarar doenças
graves, com o consequente atraso no diagnóstico ou prejuízo no seguimento
médico de situações potencialmente graves. Existe ainda a possibilidade de
utilização inadequada dos medicamentos por parte de alguns doentes,
nomeadamente, doentes idosos ou com défices cognitivos significativos. Também a
interacção entre medicamentos prescritos e não prescritos é uma possibilidade
que não pode ser esquecida (Maria, 2000: 11).
Apesar das posições controversas em torno do risco associado aos medicamentos
de venda livre, a defesa do seu reduzido risco continua a manter-se como
argumento legitimador de duas outras ordens de razão: a contenção da despesa
pública com os medicamentos e uma maior racionalização do recurso às consultas
médicas por problemas de saúde de menor gravidade.
É na confluência destas diversas estratégias políticas e profissionais que o
estatuto da automedicação tem sido reconfigurado, dando lugar a um novo
enquadramento destas práticas leigas.
As fronteiras que progressivamente têm sido estabelecidas entre a considerada
automedicação responsável e a automedicação não responsável, introduzem um
novo recorte neste campo entre práticas leigas sob controlo profissional e
práticas leigas marginais a esse controlo. É nesta fronteira que as estratégias
de reposicionamento profissional se alicerçam e que a evocação do risco se
dilui ou reforça consoante a categoria em questão.
Contudo, a emergência destas duas categorias, embora sirva as estratégias de
reposicionamento profissional, aumenta a opacidade das dinâmicas sociais que
presidem às lógicas leigas de automedicação. Por um lado, porque a lógica que
preside à substantivação dessas categorias não garante a sua total coincidência
com as concepções leigas quanto às fronteiras entre o responsável e o não
responsável; por outro lado, porque fazem ocultar as formas de automedicação
que não se circunscrevem à aquisição de medicamentos sem orientação
profissional, como são, por exemplo, a alteração das posologias prescritas ou o
uso de medicamentos prescritos em situações posteriores à sua prescrição.
Circunscrever a discussão e o debate sobre a automedicação em torno da
automedicação responsável e da automedicação não responsável, como tem sido
a tónica dominante nos discursos dos sectores profissionais, é circunscrevê-la
ao campo das estratégias de poder e descurar as lógicas que presidem às
práticas e às representações leigas neste domínio.
É sobre essas lógicas que se desenvolvem seguidamente as reflexões deste
artigo.
Automedicação: as representações e práticas leigas
Uma primeira aproximação às representações e práticas leigas de automedicação
foi realizada com a aplicação de um questionário a uma amostra de 309
indivíduos de diferentes estratos sociais, com os limites etários entre 18 anos
e 64 anos. A amostra foi internamente constituída por três subgrupos, de cerca
de 100 indivíduos cada, diferenciados pelo estatuto de saúde, correspondendo um
subgrupo a indivíduos sem doenças crónicas, e correspondendo os dois outros
subgrupos a indivíduos com uma doença crónica, respectivamente diabetes e
hipertensão.6
Com estes critérios de constituição da amostra pretendeu-se, por um lado, que a
sua heterogeneidade social permitisse captar os diferentes contornos sociais
das relações leigas com a automedicação. Por outro lado, com a inclusão dos
três subgrupos de estatuto de saúde pretendeu-se captar os diferentes contornos
dessas relações na comparação entre indivíduos saudáveis e, portanto, com uma
relação menos continuada com os fármacos e com os serviços médicos, e os
indivíduos com uma doença crónica que, embora compatível com uma vida activa,
requer uma gestão continuada dos seus efeitos e um controlo médico frequente.
Os dados obtidos nesta primeira fase de investigação permitiram identificar
três grandes eixos analíticos, indiciadores das complexidades sociológicas que
estruturam este campo. Constatou-se que há uma forte assimilação nos discursos
leigos da ideia de risco associada à automedicação, mas que esta se reduz
substantivamente à medida da maior familiaridade com os medicamentos;
constatou-se também que existem nítidas descontinuidades entre essa assimilação
e as práticas concretas, com diferentes contornos nos diferentes grupos sociais
e nos grupos com diferentes estatutos de saúde; constatou-se ainda que a
expressão mais substantiva das práticas de automedicação não se circunscreve à
sua dimensão institucionalmente visível, isto é, aos medicamentos adquiridos
sem prescrição médica.
A demonstração dos dados que configuram cada um destes três eixos analíticos
permitirá identificar novas pistas de reflexão e de problematização deste
campo.
Sobre as representações leigas
Como primeira abordagem às representações sociais sobre o risco da
automedicação e sobre as relações de dependência e de autonomia que os leigos
estabelecem com os sistemas periciais, neste caso o sistema profissional médico
e farmacêutico, incluiu-se no questionário um conjunto de proposições
relativamente às quais era pedido para se situarem numa escala de cinco níveis
em termos de concordância ou discordância. O tratamento dos dados através de
análise factorial revelou uma estrutura de representações sociais com desiguais
proximidades ao discurso institucional, como se pode constatar a partir dos
resultados que se apresentam no quadro 1.
O maior domínio de consensualidade nestas diversas categorias de representações
respeita à ideia de que o recurso à automedicação representa um risco para a
saúde (factor 2), expresso na elevada média do factor e no correspondente nível
aproximado de adesão (90,0%). Revela-se nesta elevada consensualidade a forte
impregnação do discurso institucional nas referências leigas mais imediatas
sobre a automedicação.
Porém, a adesão à ideia de risco relativiza-se substancialmente quando os
inquiridos são situados na automedicação circunscrita a medicamentos conhecidos
(factor 3). O facto de cerca de 42,0% dos inquiridos considerar reduzido o
risco quando se trata de medicamentos conhecidos, e apesar de cerca de 58,0%
continuarem a considerar que é um risco, expressa a redução da consensualidade
leiga quando se trata de domínios sobre os quais consideram ter algum controlo
cognitivo e prático. Poder-se-á admitir, provisoriamente, que o efeito de
familiaridade social com o objecto, neste caso com o medicamento, redefine a
percepção do risco e, consequentemente, a adesão e assimilação do discurso
institucional.
Os contributos teóricos de Douglas (1985) sobre a construção social da
percepção do risco e sobre a construção da imunidade subjectiva que os
indivíduos desenvolvem relativamente aos riscos que supostamente estão sob o
seu controlo, serão referentes analíticos indispensáveis para o ulterior
aprofundamento destas aparentes descontinuidades nas percepções leigas sobre o
risco da automedicação.
Quanto à relação com os sistemas periciais, captada através dos níveis de
adesão ao controlo profissional médico e farmacêutico (factores 1 e 5), os
resultados obtidos revelam a existência de uma acentuada dualidade neste
domínio. Se, por um lado, cerca de 55,5% dos inquiridos reconhece no
farmacêutico competências bastantes para propor soluções em matérias que
formalmente têm sido monopólio da medicina (factor 1), por outro lado, uma
percentagem equivalente dos inquiridos (52,0%) assume o discurso da necessidade
de um total controlo médico em tudo o que está relacionado com a saúde,
incluindo a sujeição de todos os medicamentos a prescrição médica (factor 5).
Se bem que quaisquer conclusões sobre esta dualidade em torno dos sistemas
periciais careçam de futuros aprofundamentos, torna-se evidente, para já, a
existência de um fraccionamento da dominância médica nas representações leigas
sobre as legitimidades profissionais no domínio da saúde. Sobretudo, torna-se
evidente que a confiança em torno dos sistemas periciais segue uma lógica não
totalmente coincidente com as fronteiras de competências institucionalmente
estabelecidas.
A elucidação destas descoincidências irá convocar, como referências analíticas,
os contributos teóricos de Giddens (1992), sobre a ambivalência das relações de
confiança e de cepticismo dos leigos relativamente aos sistemas periciais e
sobre o nexo entre essa ambivalência e a existência de diferentes autoridades
periciais num mesmo problema.
Uma última dimensão desta estrutura de representações respeita à resistência a
tomar medicamentos (factor 4). É particularmente significativo que em
sociedades crescentemente medicalizadas e farmacologizadas, como no caso da
sociedade portuguesa, a maioria dos inquiridos (63,5%) assuma, pelo menos no
plano das representações sociais, a desejabilidade de evitar tomar
medicamentos. Ainda assim, atendendo a que a expressão percentual dos que
discordam desta resistência não é de todo menosprezável (36,5%), é de admitir
estar-se perante a emergência de um novo quadro de valoração do medicamento no
quotidiano dos indivíduos nas sociedades modernas.
Efectivamente, a questão da recomposição da relação dos indivíduos com o(s)
medicamento(s) constitui um dos planos analíticos fulcrais para o
aprofundamento sociológico da problemática da automedicação, na medida em que,
paralelamente à legitimidade do controlo da prescrição, a subversão dessa
legitimidade inscreve-se também na construção colectiva da percepção da
eficácia do medicamento e da sua inserção e banalização na vida quotidiana.
Um outro nível de leitura sobre este conjunto de dimensões são as diferentes
correlações que apresentam quando analisadas em função das variáveis
independentes, constituídas pelo estatuto de saúde, pelas habilitações
escolares e pelas categorias etárias, cujos resultados se apresentam no quadro
2.
Torna-se evidente que, tanto a ideia de risco associada à automedicação, como a
relação com as formas de controlo profissional, são dimensões que assumem
incidências diferenciadas nas diferentes categorias sociais.
Os indivíduos com doença crónica são a categoria em que há maior vinculação à
ideia de risco associada à automedicação, mas são também aqueles em que se
indicia um maior esbatimento dessa ideia de risco quando a automedicação é
circunscrita a medicamentos conhecidos. Correspondem também à categoria em que
há maior adesão à ideia da indispensabilidade do controlo médico em todos os
problemas de saúde e em que é menor a adesão à legitimidade da confiança na
orientação do farmacêutico.
Constata-se ainda que o sentido da incidência destas tendências globais se
regista, não só entre os indivíduos com doença crónica, mas ainda entre os
indivíduos das categorias etárias mais altas, assim como entre os indivíduos
com menos habilitações escolares.
As razões que fazem convergir o sentido destas três categorias sociais, e
estando excluída a probabilidade de enviesamento estatístico, na medida em que
a análise desagregada dos dados por estatuto de saúde mantém a mesma
convergência, requerem futura elucidação. Será necessária a sua reconfirmação
em ulteriores aprofundamentos qualitativos da informação empírica, bem como o
recurso a novos enfoques analíticos que permitam diferenciar a natureza dos
processos sociais que lhes estão subjacentes.
Sobre os indivíduos que constituem a categoria saudáveis verifica-se uma
inversão das tendências anteriores. Há uma menor adesão, quer à ideia de risco
associada à automedicação, quer à desejabilidade da omnipresença do controlo
médico e acentua-se a adesão à legitimidade da confiança na orientação do
farmacêutico. Estas mesmas tendências apresentam também uma maior incidência
entre os indivíduos das categorias etárias mais jovens e entre os indivíduos
com mais habilitações escolares, o que, tal como nas categorias anteriores,
constitui uma convergência cuja elucidação requer futuros aprofundamentos
empíricos e analíticos.
Em todo o caso, os resultados obtidos nestas correlações revelam uma estrutura
de representações sociais sobre a percepção do risco e sobre a relação com os
sistemas periciais, que delimitam duas configurações diferenciadas
relativamente à automedicação. Uma, com maior expressão, entre as três
categorias sociais representadas pelos indivíduos com doença crónica, pelos
indivíduos com habilitações escolares mais baixas e pelas categorias etárias
mais altas, cuja estrutura interna levou a designá-la como uma configuração de
resistência controversa à automedicação. A outra, com maior expressão, quer
entre os indivíduos saudáveis, quer entre os indivíduos com habilitações
escolares mais altas e entre os indivíduos mais jovens, apresenta uma estrutura
interna que remete para uma configuração de permeabilidade à automedicação.
As diferentes categorias sociais de ancoragem destas duas configurações são,
por si sós, um indicador dos complexos processos sociais que estruturam e
diferenciam as assimilações leigas dos discursos institucionais sobre a
automedicação e que evidenciam a existência de diferentes lógicas e
racionalidades neste domínio.
Quanto à dimensão resistência aos medicamentos, a única associação com
significância estatística é com a categoria saudáveis, embora também indicie,
ainda que sem significância estatística, uma maior incidência entre os
indivíduos com habilitações escolares mais altas e entre os indivíduos das
categorias etárias mais jovens.
Se, por um lado, esta maior incidência na categoria saudáveis deverá ser
futuramente explorada tendo em conta a maior dependência vital dos indivíduos
com doença crónica face aos medicamentos e, portanto, um maior reconhecimento
dos seus benefícios para a sua qualidade de vida, já no que respeita à
associação com as outras categorias parece indiciar-se que a resistência
farmacológica, que tradicionalmente esteve associada às gerações mais velhas e
menos escolarizadas, é hoje composta de outras racionalidades. O culto do
natural pode ser aqui uma pista a explorar, enquanto expressão de uma pós-
modernidade que não exclui a sua coexistência com a crescente massificação da
adesão ao farmacológico.
Ainda no domínio das representações sociais, um último dado a considerar
respeita à auto-avaliação dos inquiridos sobre a frequência com que recorrem à
automedicação, cujos resultados se apresentam no quadro_3.7
Constata-se que a maioria dos inquiridos considera que raramente ou nunca
recorre à automedicação (62,2%), sendo significativamente mais reduzida a
percentagem dos que consideram fazê-lo com alguma frequência e praticamente
inexpressiva a percentagem dos que consideram fazê-lo com muita frequência.
Assinala-se, nesta auto-avaliação, que a tendência dominante é no sentido de
não admitir práticas frequentes de automedicação, o que se revela em
consonância com o sentido das representações sociais anteriores. E essa
consonância mantém-se quando se analisa a incidência das respostas nas
diferentes categorias sociais.
De facto, são os indivíduos da categoria saudáveis quem mais admite recorrer à
automedicação com alguma ou muita frequência (49,5%), e são os indivíduos da
categoria doentes crónicos quem menos admite fazê-lo (28,3%) (p<0,01). Por
outro lado, e independentemente do estatuto de saúde, verifica-se sempre uma
forte associação entre o maior recurso à automedicação e os indivíduos com mais
habilitações (p<0,05), assim como com os indivíduos mais jovens (p<0,057).
O recurso à automedicação é, portanto, no plano das representações sociais, uma
prática que se segmenta entre a resistência e a relativa adesão, e que
estabelece um recorte entre as diferentes categorias sociais em análise.
Contudo, quando se passa do domínio das representações sociais para o domínio
das práticas efectivas, a segmentação identificada adquire novas configurações
e, por vezes, revela claras descontinuidades entre as representações sociais e
as práticas.
Sobre as práticas leigas
A identificação das práticas de automedicação efectuou-se a partir das
respostas a dois tipos de questões. A primeira referia-se à solução adoptada
para o último problema de saúde e a segunda referia-se ao último medicamento
usado sem prescrição médica.
Relativamente à primeira questão, as respostas obtidas revelam que, apesar do
recurso ao médico ou hospital ter sido a solução mais adoptada, a maioria dos
indivíduos (53,5%) recorreu a outras soluções, conforme se apresenta no quadro
4.
Se atendermos a que o recurso a medicamentos usados em situação semelhante e o
recurso ao conselho farmacêutico entram no domínio da automedicação, constata-
se que 29,1% dos inquiridos optou pela automedicação no seu último problema de
saúde.
Os problemas de saúde em que houve esta opção são de natureza diversa, embora a
sua maior incidência seja nas situações de sintomas mais comuns, como é o caso
das gripes/constipações e tosse(conf. quadro_5).
Ao analisar-se a incidência do recurso à automedicação nas diferentes
categorias sociais verificou-se que os indivíduos com doença crónica, e
particularmente os hipertensos, recorreram mais à automedicação que os
indivíduos saudáveis (saudáveis 26,5%, diabéticos 29,1%, hipertensos 31,4%;
p<0,01. Os indivíduos saudáveis foram os que mais recorreram ao médico ou
hospital.
Desde já, estes primeiros indicadores de práticas de automedicação tendem a
contrariar, pelo menos parcialmente, as tendências expressas nas representações
sociais, nas quais os indivíduos com doença crónica tendem a valorizar, mais do
que os saudáveis, o estrito controlo médico para todos os problemas de saúde,
sendo também os que na auto-avaliação sobre o recurso à automedicação
predominam na categoria nunca ou raramente.
Estas descontinuidades entre representações e práticas estão igualmente
presentes quando se consideram as habilitações escolares. Embora os dados não
tenham apresentado significância estatística, a sua distribuição indica um
maior recurso à automedicação nos indivíduos com habilitações mais baixas (
[<9.º ano]: 30,0%; [10.º-12.º ano]: 28,6%; [cursos superiores]: 27,1%),
enquanto os indivíduos com habilitações mais altas tendem a recorrer mais ao
médico ou urgência hospitalar.
Já no que respeita às categorias etárias, mantém-se, nas práticas, o recorte
geracional verificado ao nível das representações sociais. Efectivamente, são
os mais jovens que predominam nas práticas de automedicação, independentemente
do estatuto de saúde e das habilitações escolares ([18-29]: 35,1%; [30-40]:
28,6%; [41-50]: 28,8%; [51-65]: 24,4%).
Para o aprofundamento das tendências reveladas nesta primeira aproximação às
práticas introduz-se, seguidamente, a análise dos resultados relativos à
questão sobre o último medicamento utilizado sem prévia indicação médica.
Sobre esta última questão é de salientar que apenas 7,0% dos inquiridos
indicaram não poder responder por nunca terem usado medicamentos sem prévia
indicação médica. É também significativo que, dos restantes inquiridos, apenas
19,4% não tenha conseguido recordar-se do nome do medicamento. O facto de a
larga maioria se ter recordado não deixa de ser revelador, quer de uma certa
fidelização ao medicamento usado, quer de um certo controlo cognitivo sobre a
opção medicamentosa.
Tanto a fidelização como o controlo cognitivo afiguram-se, desde já, como dois
vectores endógenos das práticas de automedicação e, simultaneamente, das
modalidades sociais que configuram a percepção do risco, e que poderão explicar
as aparentes descontinuidades entre as representações sociais sobre o risco da
automedicação e as práticas sociais neste domínio.
Quanto ao tipo de medicamentos referidos nas respostas, predominaram largamente
os analgésicos e antipiréticos (56,2%), seguidos de anti-inflamatórios
(23,3%) e, com expressão mais reduzida, os antibacterianos e antissépticos
(4,8%), os psicofármacos (4,0%) e os medicamentos para o sistema
respiratório superior (4,0%). Os restantes medicamentos (7,7%) distribuíam-se
por mais sete categorias de reduzida expressão percentual. Refira-se que a
predominância dos analgésicos no tipo de medicamentos mais frequentes em
automedicação é uma tendência que tem sido constatada em diversos estudos
realizados pelo sector farmacêutico (Quaeyhaegens, 1996; Apifarma, 2000).
Quanto aos problemas de saúde que originaram o último recurso à automedicação
(quadro_6) verificam-se algumas diferenças significativas quando comparados com
os problemas referidos na pergunta anterior.
De entre essas diferenças sobressai o facto de os problemas relacionados com
dores representarem 50,8% (dores diversas e dores de cabeça), enquanto na
pergunta anterior, relativa ao último problema de saúde, apenas representavam
18,2%. Note-se também a elevada percentagem que representam as dores de cabeça,
e que nas respostas anteriores nem sequer foram referidas, o mesmo sucedendo
com os problemas relacionados com insónia/ansiedade/cansaço,quetambém não
figuraram nas respostas anteriores.
Não assumir como último problema de saúde grande parte dos diferentes tipos
de dores e de fadiga psíquica que levaram à automedicação, poderá ser revelador
de que muitas formas de mal-estar não entram nas categorizações leigas como
verdadeiros problemas de saúde, designadamente por não terem sido valorizadas
como tal em anteriores queixas nas consultas médicas, o que legitima a sua
gestão através da automedicação. Afigura-se, neste âmbito, que as questões de
saúde que não alcançam o estatuto de verdadeiroproblema de saúde e que, por
isso, entram no domínio da automedicação, não só produzem a legitimidade leiga
deste tipo de recurso, como ao entrarem nesse domínio perdem a possibilidade de
os leigos os virem a requalificar como verdadeiros problemas de saúde
justificativos do recurso a cuidados médicos. Denota-se aqui a existência de um
duplo efeito que, tal como outros factores já anteriormente identificados, vão
configurando as complexidades sociológicas que organizam as racionalidades
leigas no domínio da automedicação, e cuja elucidação torna indispensáveis
futuros aprofundamentos com metodologias qualitativas.
Um outro domínio de informação relevante para a compreensão das racionalidades
subjacentes a estas práticas respeita à questão sobre quem recomendou o
último medicamento utilizado sem prescrição médica (quadro_7).
Um primeiro nível de leitura, que de imediato é suscitado por este quadro,
prende-se com o facto de, na larga maioria das situações de automedicação, os
indivíduos recorrerem a medicamentos que já têm em casa (70,3%). Indicia-se
nesta tendência, quase generalizada, de aprovisionamento de medicamentos em
casa, por um lado, a deslocação do tradicional estatuto do medicamento de
recurso raro e de utilização excepcional para o estatuto de bem de consumo, de
banalização equivalente a outros recursos de consumo doméstico; por outro lado,
também se revela nesta prática uma das formas de autonomia leiga relativamente
aos sistemas periciais na gestão quotidiana dos problemas de saúde, na qual se
reproduz e reactualiza a lógica de intervenção desses mesmos sistemas. Mas
atente-se igualmente que, de entre os diferentes meios de automedicação, o que
assume maior expressão é o recurso a medicamentos já receitados pelo médico
noutra ocasião (47,7%), o que representa uma das dimensões ocultas da
automedicação e estabelece a sua irredutibilidade à tradicional dicotomia entre
medicamentos prescritos pelo médico e medicamentos não prescritos, à qual tem
sido circunscrita a abordagem deste fenómeno.
Para além destas evidências mais imediatas, o quadro_7 permite também
identificar um recorte distintivo entre dois modos de automedicação. O seu
vector diferenciador é a existência, ou não, de alguma forma de controlo
profissional, o que aplicado às modalidades indicadas dá lugar a duas
configurações distintas que se designaram de automedicação com remoto controlo
profissional e de automedicação sem controlo profissional, cuja composição
interna e expressão percentual é apresentada no quadro_8.
Não obstante a automedicação com remoto controlo profissional ser o recurso
dominante, não deixa de ser significativa a expressão percentual do recurso à
automedicação sem controlo profissional. Coexistem, portanto, dois modos de
automedicação, com desigual incidência, nos quais se revelam processos
distintos de apropriação leiga dos saberes periciais e da lógica de intervenção
pericial.
Na correlação destes dois modos de automedicação com o estatuto de saúde,
embora os resultados não apresentem significância estatística, verificou-se uma
maior tendência para o recurso à automedicaçãosem controlo profissional nos
indivíduos com doença crónica, e particularmente nos hipertensos (saudáveis:
34,7%; diabéticos: 35,9%; hipertensos: 38,1%); enquanto os indivíduos saudáveis
tendem a recorrer mais à automedicaçãocom remoto controlo profissional
(saudáveis: 65,3%; diabéticos: 64,1%; hipertensos: 61,9%).
Esta desigual incidência dos dois tipos de automedicação confirma a
descontinuidade entre representações e práticas já anteriormente registada nas
soluções para o último problema de saúde. Isto é, são os doentes crónicos que
ao nível das representações sociais mais rejeitam a automedicação e mais
valorizam o controlo médico e, nas práticas, são os que mais tendem a recorrer
à automedicação e à automedicação sem controlo profissional.
Em relação às habilitações escolares, embora também sem significância
estatística, regista-se uma nítida tendência para a predominância dos
indivíduos com habilitações mais baixas na automedicação sem controlo
profissional(<=9.º ano: 39,2%; cursos superiores: 28,6%), enquanto os
indivíduos com habilitações mais altas predominam na automedicação com remoto
controlo profissional. Esta tendência mantém-se independentemente do estatuto
de saúde.
Na correlação com as categorias etárias mantém-se a ausência de significância
estatística, mas regista-se, tanto na análise global como na análise no
interior de cada grupo do estatuto de saúde, uma tendencial predominância da
geração mais velha na automedicação sem controlo profissional(<=29anos:
37,0%; =>51anos: 41,6%), enquanto a geração mais jovem predomina na
automedicação com remoto controlo profissional. É, portanto, constante a
existência de um recorte geracional, tanto no recurso à automedicação como no
tipo de automedicação privilegiada.
Estas tendências reforçam-se quando se consideram outras formas de
automedicação, mais ocultas, para além das já anteriormente referidas, como é o
caso das práticas face a efeitos secundários ou a contra-indicações de
medicamentos prescritos. De entre as várias opções habitualmente tomadas nestas
circunstâncias, a decisão de não tomar o medicamentoapresenta-se como a mais
frequente (quadro_9).
Deste conjunto de opções são os indivíduos com doença crónica que predominam em
deixa de tomar o medicamento, enquanto os indivíduos saudáveispredominam em
todas as restantes opções (p<0,01).
Predominam também em deixa de tomar o medicamento os indivíduos com menos
habilitações escolares (p<0,05) e os indivíduosmais velhos (p<0,05).
Constata-se, portanto, que as categorias sociais em que se registou a maior
incidência do recurso à automedicação sem controlo profissional são as mesmas
em que se regista a maior incidência destas outras formas mais ocultas de
automedicação.
Contributos teóricos para a reflexão sobre os dados
As várias pistas analíticas suscitadas pelos dados obtidos nesta primeira
abordagem ao fenómeno da automedicação enunciam três grandes eixos de reflexão
e problematização teórica.
O primeiro decorre das descontinuidades encontradas entre as representações
sociais e as práticas efectivas, cuja elucidação convoca como referência
teórica central a perspectiva da modernidade reflexiva (Giddens, 1992) e os
seus contributos analíticos sobre as relação dos leigos com os sistemas
periciais.
Nas actuais condições de modernidade se, por um lado, os indivíduos integram
cada vez mais nos seus sistemas de referências as informações difundidas pelos
sistemas periciais, por outro lado, as suas atitudes para com a ciência e o
conhecimento técnico são, em geral, tipicamente ambivalentes (idem: 69). Esta
ambivalência traduz-se por relações de confiança e cepticismo relativamente aos
sistemas periciais, e é resultante, tanto do facto de existirem diferentes
autoridades periciais sobre um mesmo problema, como do facto de as
assimilações referenciais dos leigos serem produto de um ajustamento pragmático
aos requisitos dos seus contextos sociais quotidianos de inserção e dos seus
recursos sociocognitivos.
No caso da automedicação e da sua regulação institucional podemos admitir a
existência, não só de diferentes autoridades periciais, como de orientações
periciais contraditórias. Isto é, do ponto de vista médico a automedicação é
considerada geralmente indesejável, enquanto do ponto de vista farmacêutico é
considerada geralmente aceitável em situações controladas (o que equivale a
diferentes autoridades periciais); ao mesmo tempo, o quantitativo de
medicamentos de venda livre tem aumentado, o que traduz um claro incentivo à
automedicação (o que equivale a orientações periciais contraditórias). Se, por
um lado, é por referência a esta constelação de desconvergências periciais que
os leigos constroem as suas concepções de automedicação, por outro lado essa
construção é também o produto do ajustamento pragmático aos requisitos dos seus
contextos sociais e cognitivos.
É neste equacionamento que se poderá entender a existência de diferentes
concepções leigas de automedicação e, portanto, de diferentes perfis de
práticas de automedicação, e que se poderá igualmente entender a diferenciação
dessas concepções e práticas quando analisadas a partir do estatuto de saúde
dos indivíduos, do seu estatuto geracional e do seu capital escolar.
Naturalmente que cada uma destas últimas variáveis não intervém de modo
estático, com efeitos per se, mas funciona como factor interactuante e com
potencial estruturante, no conjunto mais vasto das condições organizadoras do
quotidiano dos indivíduos.
Um segundo eixo de problematização situa-se no recorte encontrado entre os dois
perfis de práticas de automedicação sem controlo profissional e com remoto
controlo profissional.
A este nível, não deixa de ser aparentemente paradoxal o facto de serem os
indivíduos com doença crónica os que apresentam maior incidência nas práticas
de automedicação sem controlo profissional, sobretudo se atendermos a que os
problemas de saúde sobre os quais recaem essas práticas são genericamente os
mesmos para os indivíduos saudáveis e para os que têm doença crónica. De facto,
seria de supor que, encontrando-se os indivíduos com doença crónica geralmente
sob um controlo médico mais frequente, isso tenderia a inibi-los mais de
práticas de automedicação auto-reguladas e implicaria uma maior receptividade
aos alertas de risco da automedicação emanados do corpo médico.
As lógicas sociais que organizam as opções leigas por cada um destes perfis de
automedicação requerem, para a sua elucidação, o recurso aos contributos
teóricos sobre a percepção social do risco e sobre a especialização dos saberes
leigos.
Qualquer prática de automedicação, como, aliás, qualquer prática de intervenção
leiga ou profissional sobre a saúde, inscreve-se sempre no domínio da incerteza
quanto aos seus resultados. Logo, inscreve-se sempre no domínio do risco, o
qual é tanto maior quanto menor a pericialidade de quem decide a intervenção.
Este é um dado relativamente interiorizado nas sociedades modernas.
Quando os indivíduos se automedicam fazem-no em condições de incerteza (formal)
quanto aos seus resultados, o que implica reconhecerem, mais ou menos
conscientemente, a existência de risco.
Então, se a automedicação é genericamente reconhecida como uma prática que
comporta risco, será necessário compreender como se constrói e diversifica a
percepção social do risco, para se descodificar como é que os dois perfis de
práticas de automedicação identificados podem ser uma expressão de diferentes
percepções sociais de risco e, concomitantemente, de diferentes formas de
gestão do risco.
Colocar a questão nestes termos significa procurar as racionalidades que
subjazem a estas práticas e excluir liminarmente as interpretações mais
simplistas que consideram a automedicação como irracionalidade/ ignorância a
ser combatida com mais informação/educação para a saúde.
De entre os diversos contributos teóricos sobre o risco e a sua percepção
social saliente-se a ênfase dada por Douglas (1985) à sua natureza socialmente
construída, o que implica considerar as pressões contextuais a que os
indivíduos estão sujeitos para se compreender a sua tolerância/intolerância ao
risco (idem: 50).
A necessidade de deslocar a análise da percepção do risco do seu confinamento
às interpretações individualistas ou essencialistas é igualmente enfatizada
por Lupton (1995), quando critica os modelos de determinação da aceitação do
risco com base nas características do próprio risco, os quais deixam de fora os
contextos socioculturais em que a percepção do risco é produzida, os seus
significados culturalmente partilhados, ou mesmo a natureza simbólica do
próprio risco (idem: 79).
A natureza socialmente construída e partilhada da percepção do risco dá lugar a
que a aceitação e gestão do risco e a definição dos seus limiares aceitáveis
sejam também socialmente partilhados, o que cria nos indivíduos uma espécie de
imunidade subjectiva(Douglas, 1985: 29).
No caso da automedicação trata-se de um domínio de práticas em que, mais do que
em qualquer outro, a partilha social e o sentido de imunidade subjectiva se
reforçam mutuamente. Acontece ainda que qualquer prática de automedicação é
sempre uma opção entre dois (ou mais) riscos: o risco de tomar um medicamento
que pode não resolver, ou pode agravar, o problema de saúde, mas que se espera
que o resolva, e o risco de não tomar nada e o problema de saúde impedir de
responder às obrigações quotidianas ou reduzir significativamente o bem-estar
pessoal (físico e/ou psíquico).
Colocar a automedicação, não como um risco, mas como uma opção entre riscos,
tem subjacente o critério de pacote de riscos utilizado por Giddens (1997). A
aceitação do risco é sempre o produto de um cálculo dos vários riscos em jogo e
não de cada risco isoladamente:
os indivíduos nem sempre, ou talvez mesmo normalmente, avaliam os riscos como
itens separados, cada qual no seu domínio. O planeamento de vida leva mais em
conta um pacote de riscos do que o cálculo das implicações de segmentos
distintos de comportamento de risco (idem: 116).
Se estes diversos contributos teóricos são indispensáveis para recolocar a
automedicação como uma forma de racionalidade leiga por contraposição à ideia
de irracionalidade/ignorância, já no que respeita à interpretação dos
diferentes perfis de práticas de automedicação é necessário associar a estes
contributos a questão da especialização dos saberes leigos. Na verdade, de
entre os recursos mobilizados para a avaliação dos riscos, os recursos
cognitivos têm uma renovada centralidade na actual era da modernidade
reflexiva.
É, então, no domínio da especialização dos saberes leigos que se situa o
terceiro eixo de problematização.
As tradicionais abordagens sociológicas sobre os saberes leigos, designadamente
no âmbito da saúde, têm-se colocado numa perspectiva de dicotomização entre
saberes leigos e saberes especializados ou saberes científicos (Williams e
Popay, 1994; Bury, 1997).
Se bem que essas abordagens tenham tido o mérito de evidenciar que a diferente
natureza destes saberes inscreve na relação médico-doente, e também nas
práticas de saúde exteriores a essa relação, uma lógica não redutível aos
critérios médicos, contudo, a absoluta dicotomia em que assentam dificilmente
permite dar conta da actual recomposição da relação entre saberes leigos e
saberes científicos.
O saber leigo foi tradicionalmente um saber rotinizado, alimentado nas crenças,
no hábito e na tradição, e como tal diametralmente oposto ao saber científico,
e como tal fundador de autoridades (leiga e pericial) diametralmente opostas.
Nas actuais condições de modernidade, e como tem sido salientado pelos
diferentes contributos teóricos neste domínio (Giddens, 1992 e 1997; Beck,
1992), assiste-se a uma crescente difusão dos sistemas periciais e à sua
penetração em todos os domínios da vida dos indivíduos. Paralelamente, o
colapso das metanarrativas (Lyotard, s. d.), nas quais reside a legitimidade
da ciência, tornou menos automática a deferência dos leigos face à autoridade
dos especialistas (William e Popay, 1994).
Estas duas novas realidades, embora não nos coloquem perante uma diluição das
fronteiras entre saber leigo e saber científico, colocam-nos, pelo menos,
perante a impossibilidade de manter uma separação radical entre estes dois
tipos de saberes.
Quer pela crescente difusão dos sistemas periciais, quer pela crescente
escolarização da população, quer ainda pelo crescente acesso leigo a fontes de
informação de conhecimento especializado, de entre as quais, no caso da saúde,
os meios de comunicação de massas assumem um lugar central, o saber leigo vai
incorporando de forma contínua franjasdo saber especializado (Bury, 1997).
É neste sentido que podemos falar de uma especialização do saber leigo. Este já
não é só o produto das crenças, dos hábitos, dos modos de vida, é também o
resultado de assimilações, mesmo que parcelares, do conhecimento científico,
através das quais os indivíduos reinterpretam as suas práticas.
Na verdade, o saber leigo continua a ser leigo, as componentes que o constituem
é que se diversificaram, dando-lhe novas possibilidades de interagir com a
informação cientificamente produzida e de descodificá-la.
Em todo caso, o que resulta da especialização do saber leigo não é uma mera
coexistência de saber científico e de saber comum. Ao contrário, o saber
científico assimilado pelo saber leigo é sempre uma reapropriação, o que
significa que o primeiro é reinterpretado e reutilizado em função das
experiências quotidianas dos indivíduos.
A este propósito, Giddens (1997) refere-se à desqualificação dos saberes leigos
que tem sido produzida pela disseminação do saber científico, para mostrar como
essa desqualificação tem funcionado como motor para a reapropriação:
os sistemas abstractos desqualificam não só no local de trabalho, mas em
todos os sectores da vida social em que tocam ( ). A reapropriação de
conhecimento e controlo por parte dos actores leigos é um aspecto básico
daquilo a que por vezes chamei dialéctica do controlo ( ). A competência e o
conhecimento quotidianos estão, pois, em conexão dialéctica com os efeitos
expropriadores dos sistemas abstractos, influenciando continuamente e
remoldando o próprio impacto de tais sistemas na existência do dia-a-dia (idem:
128).
Por outro lado, a reapropriação é indissociável da capacitação(idem). Isto
é, a reapropriação traduz-se numa forma de poder (de capacidade para) que
aumenta o leque de possibilidades de acção dos indivíduos (idem: 128).
Nesta fundamentação de que, efectivamente, estamos perante um novo tipo de
saber leigo nas sociedades modernas, é o momento de ressalvar que a
especialização do saber leigo não é transversal a todos os grupos sociais ou
indivíduos.
De facto, a reapropriação leiga do conhecimento científico e a capacitação que
esta produz não acontecem de forma homogénea. Estas são, muitas vezes,
diferenciadamente acessíveis aos que se encontram em posições de poder
(Giddens, 1992: 34). Certamente que essa acessibilidade diferenciada não se
confina apenas às posições estruturais de poder, mas também às diferentes
possibilidades sociais objectivas, de que uma das expressões são os diferentes
capitais escolares dos indivíduos (Bourdieu, 1979).
Equacionados estes diversos contributos teóricos, está delimitado o domínio de
problematização em que se podem interpelar as lógicas estruturantes dos dois
perfis de práticas de automedicação.
Por um lado, o recorte entre automedicação sem controlo profissional e com
remoto controlo profissional, parece remeter para uma relação diferenciada com
os sistemas periciais. No primeiro perfil dir-se-ia que predomina o que
Freidson (1970) designa de sistema referencial leigo, organizado em torno da
confiança interpessoal (medicamento recomendado por alguém conhecido), ou pela
tradição do recurso a determinados medicamentos (já tinha em casa). No segundo
perfil dir-se-ia que predomina o que Giddens (1992) designa de acção
reflexiva, organizado em torno da reapropriação das orientações periciais
(indicado pelo farmacêutico; receitado pelo médico noutra ocasião), aplicado em
circunstâncias avaliadas pelo leigo como adequadas.
Enquanto no primeiro perfil parece reflectir-se um distanciamento relativamente
aos sistemas periciais, no segundo parece existir uma maior interacção entre o
sistema leigo e o pericial. Por outro lado, ambos os perfis expressam formas de
autonomia relativamente ao controlo pericial, neste caso o controlo médico ou
farmacêutico. Só que no primeiro perfil é uma forma de autonomia que parece
inscrever-se no modelo tradicional da dissociação entre saber leigo e saber
especializado, ou dito de outra forma, da mobilização do que Giddens (1997)
designa de confiança básica, dada pelo hábito e pela partilha social das
experiências, e da sua aplicação rotinizada em situações equivalentes. No
segundo perfil está-se perante um tipo de práticas que parece mais inscrever-se
no modelo da reapropriação leiga do saber especializado, no sentido em que os
indivíduos não prescindem totalmente das fontes de informação especializada e
utilizam-nas para eles próprios avaliarem a situação e decidirem a sua acção.
Se considerarmos que os dados sobre ambos os perfis apresentam uma
predominância do perfil com remoto controlo profissional (64,0%) relativamente
ao perfil sem controlo profissional (36,0%), poder-se-á admitir que as formas
de automedicação nas sociedades modernas tendem a ser cada vez mais do tipo do
primeiro perfil.
Ainda que na predominância deste perfil se enunciem novas modalidades de
relação com os sistemas periciais, este não coincide necessariamente com o
modelo de automedicação responsávelintroduzido por esses sistemas.
As suas divergências residem nas diferentes lógicas que os subscrevem, e que
ficaram expressas nos três eixos de problematização teórica que se
identificaram. O seu futuro aprofundamento empírico e analítico será
indispensável para prosseguir na desocultação das complexidades sociológicas
que configuram as racionalidades leigas das práticas de automedicação nas
sociedades actuais.
Notas
1 As percentagens de recurso à automedicação foram estimadas a partir das
respostas aos itens tomou medicamentos já conhecidos e tomou medicamentos
indicados por outra pessoa.
2 Este artigo tem por base um projecto de investigação em curso sobre as
dinâmicas sociológicas da automedicação. O projecto decorre pelo CIES e foi
financiado pelo Infarmed e pela FCT/MCT Programa de Apoio a Projectos de
Investigação em Todos os Domínios Científicos, 1999 (36479/99).
3 Sobre a noção de saber-poder médico, conf. Carapinheiro, 1993.
4 A designação de automedicação responsável começou a surgir recentemente nas
publicações farmacêuticas (Soares, 1995). Também nas entrevistas já realizadas
a médicos, no âmbito do projecto em curso, esta designação é recorrentemente
utilizada por estes profissionais.
5 Sobre as estratégias de revalorização profissional através da delegação de
trabalho desqualificado / dirty work, conf. Hughes (1958); Hugman (1991);
Abbott (1998); Lopes (2001).
6 Os questionários foram aplicados, para os indivíduos com diabetes, na
Associação dos Diabéticos Portugueses e na Associação de Defesa dos Diabéticos,
para os indivíduos com hipertensão, no Instituto de Cardiologia de Almada, para
os indivíduos saudáveis, na Empresa Serviços de Contentores, SA, em Alverca.
Neste último caso, a impossibilidade de conhecer previamente se os inquiridos
não tinham alguma doença crónica, foi resolvida com a posterior anulação dos
inquéritos em que à pergunta sobre se tinham alguma doença crónica responderam
afirmativamente; no caso dos dois outros subgrupos também foram posteriormente
anulados os inquéritos em que os indivíduos indicaram mais do que uma doença
crónica.
7 Na pergunta sobre a frequência do recurso à automedicação era indicado que se
estava a designar como automedicação o uso de medicamentos sem prévia
indicação médica, para que a questão fosse interpretada com o mesmo sentido
por todos os inquiridos.