Clivagens, economia e voto em portugal, 1999: uma análise das eleições
parlamentares com dados agregados
Introdução
Em Outubro de 1999, o Partido Socialista (PS), liderado por António Guterres,
obteve a sua maior vitória de sempre em eleições legislativas: 44% dos votos.
Este resultado deixou o PS doze pontos percentuais acima do segundo maior
partido, o PSD, e com um largo apoio eleitoral em quase todas as regiões do
país, confirmando e reforçando o seu tradicional perfil de partido catch-all
(Kircheimer, 1990). Contudo, esta vitória foi algo insatisfatória, pois o
Partido Socialista ficou a apenas um deputado da maioria absoluta no parlamento
e a abstenção oficial atingiu o seu valor mais elevado de sempre, 38,2%. A
abstenção afectou todos os quatro grandes partidos, embora, como demonstraremos
a seguir, em termos relativos, tenha afectado mais os dois partidos de direita
(PSD e CDS/PP) do que os dois partidos de esquerda (PS e PCP/CDU).
Os resultados invulgares das eleições de 1999 deixaram o governo do PS,
liderado pelo primeiro-ministro António Guterres, com um apoio parlamentar (115
deputados) exactamente igual ao do conjunto de deputados da oposição.
Indisponível para formar uma coligação pós-eleitoral com algum dos pequenos
partidos da oposição e completamente protegido da eventualidade de ser deposto
por uma moção de censura da oposição, Guterres tem negociado questão a questão,
voto a voto, o apoio de diferentes partidos da oposição (Diário de Notícias,
25/7/00: 4). Esta prática política tem dificultado a prossecução de importantes
reformas para o país, quer em termos do sistema político, do sistema fiscal, da
justiça, da saúde ou da segurança social reformas cuja necessidade é
consensual entre os fazedores de opinião e os eleitores , pois os partidos
estão em desacordo quase em todas as matérias. Todavia, durante o segundo
semestre de 2000, o PS parece ter inflectido um pouco para a ala esquerda do
parlamento, em termos de apoio preferencial, tendo aprovado alguns importantes
projectos de lei de reforma do sistema de segurança social, do sistema fiscal e
de descriminalização da droga, com o apoio do PCP/CDU e do BE (Público, 6/7/
00; Expresso, 8/7/00).
Todavia, em 1999 foi o CDS/PP que permitiu a passagem do orçamento de estado
para 2000, abstendo-se na votação do mesmo. Em 2000, foi a vez de um único
deputado do CDS/PP (Daniel Campelo) se abster na votação do orçamento de
estado, ainda que desobedecendo às directrizes do partido e do líder
parlamentar. Este facto custou a Campelo a suspensão das funções partidárias
até ao fim da VIII legislatura (a decisão do órgão de fiscalização da
legalidade interna no CDS/PP foi conhecida em Maio de 2001) e o episódio da
aprovação do orçamento por Daniel Campelo ficaria conhecido por orçamento do
queijo limiano. Daniel Campelo trocou a abstenção no orçamento pela garantia
de apoios e vantagens (obras, etc.) para o distrito por onde foi eleito e,
entre estas vantagens, estava o retornar da fábrica de queijo limiano para
Ponte de Lima, concelho onde Campelo é presidente da Câmara Municipal.
Portanto, a política dos acordos pontuais (à esquerda e à direita) tem
continuado a ser prosseguida pelo governo do PS nesta VIII legislatura.
Actualmente (verão de 2001), vislumbra-se uma certa tendência para que o apoio
a algumas medidas importantes venha da ala direita do hemiciclo de São Bento.
Por exemplo, o orçamento rectificativo passou com a abstenção da bancada
parlamentar do PSD, em Julho de 2001.
Apesar de os diferentes estudiosos não porem em questão a consolidação do
regime democrático português (Bruneau, 1997; Manuel, 1996; Maxwell, 1999; Linz
e Stepan, 1996), e abstraindo das teorias que encaram a abstenção eleitoral
como um sintoma da normalização do sistema democrático e da diminuição da
conflitualidade política (Cruz, 1995), o crescimento em cerca de 25% da
abstenção, face ao total de abstencionistas que se verificou em 1995, é um
indicador de uma crescente alienação, apatia e criticismo por parte do
eleitorado.
De qualquer modo, os resultados das eleições de 1999 tiveram um certo sabor
amargo para o governo do PS, pois este beneficiou de uma série de
circunstâncias favoráveis, quer durante o mandato 1995-1999, quer no período da
campanha eleitoral, que depois não conseguiu capitalizar nas urnas.
Este artigo analisa os resultados das eleições de 1999, comparando-os com os
que se verificaram em eleições anteriores (especialmente em 1995), bem como o
contexto social, económico e político das eleições e os determinantes
sociológicos e económicos do comportamento eleitoral. As análises serão sempre
enquadradas pelas tendências recentes no comportamento eleitoral dos
portugueses e pelas respectivas implicações para o funcionamento da democracia
portuguesa. Antes de apresentarmos o quadro teórico e as opções metodológicas,
faremos uma breve descrição e análise dos resultados das eleições de 1999, quer
para o conjunto do país quer para as regiões.
Resultados das eleições de 1999
Em termos do comportamento eleitoral dos portugueses, as três mudanças mais
importantes verificadas nas eleições de 1999 foram: 1) o enorme crescimento da
abstenção, mesmo descontando o elevado número de eleitores-fantasmas que
ainda persiste no censo eleitoral (ver quadros_2 e3); 2) o aparecimento da nova
coligação de extrema-esquerda Bloco de Esquerda , que duplicou as suas
votações face a 1995 e conseguiu obter dois lugares no parlamento (ver quadro
1); 3) a espantosa vitória do PS na Região Autónoma dos Açores (ver quadro_3).
Para além destes três elementos, poucas foram as mudanças na distribuição do
voto partidário entre 1995 e 1999, pelo que facilmente poderíamos considerar as
eleições de 1999 como eleições de manutenção (Campbell e outros, 1980: 531-
538).
Abstenção eleitoral
Em 1999 a abstenção atingiu o seu nível mais elevado face a todas as eleições
parlamentares anteriores (cerca de 3,3 milhões dos eleitores inscritos, 38,2%):
ver quadros_1 e2.1
Todavia, estes números têm de ser considerados com precaução devido aos
elevados valores da abstenção técnica em Portugal. Isto é, tal como em outros
países do sul da Europa, Portugal tem um número de eleitores inscritos no
recenseamento eleitoral (RE/STAPE) inflacionado face ao total de indivíduos
em idade de votar (18 e mais anos). Esta inflação deve-se, sobretudo, aos
óbitos e às transferências de residência não eliminadas dos cadernos eleitorais
(Freire, 2000d e 2001a: 85-87; Vasconcelos e Archer, 1991; Archer, 1996;
Miguéis, 1997; Machado, 1999). Antes da limpeza dos cadernos eleitorais, em
1998, as estimativas quanto ao número de eleitores-fantasmas (RE/STAPE), face
ao total de indivíduos com 18 e mais anos (INE), variava entre 1,0 e 1,4
milhões de eleitores.2
No quadro_3 podemos verificar que a abstenção real nas duas eleições
legislativas mais recentes (1995 e 1999) ficou 7 a 9 pontos percentuais abaixo
da abstenção oficial (STAPE).3 Por outro lado, entre o referendo sobre a
liberalização do aborto, em Junho de 1998, e o referendo sobre a
regionalização, em Novembro de 1998, foram aditados cerca de 150 mil novos
eleitores ao RE/STAPE. Tendo em conta que as estimativas de crescimento
demográfico levam a considerar tal evolução absolutamente irrealista, estes
números apontam para o grande sucesso das autarquias locais do interior em
tornar a aditar muitos dos eleitores-fantasma abatidos imediatamente antes
do primeiro referendo.
Em termos comparativos, embora a abstenção eleitoral dos portugueses tenha
crescido bastante, entre 1975 e 1995, a respectiva taxa média colocava Portugal
numa situação intermédia face às democracias ocidentais sem voto obrigatório
(Freire, 2000d: 87). Freire também mostrou que, entre 1985 e 1995, o incremento
da abstenção real foi moderado, ou seja, terá subido de cerca de 21% para
cerca de 24% do conjunto de indivíduos com 18 e mais anos (Freire, 2000d: 87).
Contudo, as eleições legislativas de 1999 apresentaram uma significativa subida
na taxa de abstenção real dos portugueses: de 24% para 31,9%, ou seja, uma
taxa de crescimento de cerca de 25%. De facto, foi a evolução da abstenção,
mais do que as mudanças no sentido de voto dos portugueses, que determinou os
resultados das eleições de 1999. Os dois partidos que disputam o centro
político, PS e PSD, foram os mais penalizados pela abstenção, em termos
absolutos; em termos relativos, ou seja, em proporção dos respectivos
eleitorados, os dois partidos da ala direita (PSD e CDS/PP) foram os mais
prejudicados (ver quadro_1).
Que factores explicam este forte declínio da participação eleitoral em
Portugal? Estaremos perante uma crescente apatia face à política nacional e
face aos partidos políticos ou estaremos perante um agravar da tendência
anterior para o crescimento da abstenção política (Freire, 2000a e 2000d)?4
Terá este crescimento da abstenção resultado de factores conjunturais ligados
às eleições de 1999?
De vários pontos de vista, o crescimento da abstenção foi tão surpreendente
como a dificuldade em o Partido Socialista alcançar uma maioria absoluta de
deputados no parlamento. Quando questionado sobre os resultados eleitorais, na
noite das eleições, sobre o que tinha falhado, Guterres respondeu:
sinceramente não sei (Expresso, 16/10/99: 66).
Em primeiro lugar, o contexto das eleições era extremamente favorável a um
governo minoritário que tinha sido capaz de levar a legislatura até ao fim. A
popularidade de Guterres era extremamente elevada; a oposição estava dividida e
o maior partido desta, o PSD, vivia numa aparentemente interminável crise de
liderança; o crescimento económico situava-se acima da média europeia (em
grande parte graças aos fundos estruturais), enquanto a taxa de desemprego se
situava bastante abaixo da média dos 15 países da UE; outros indicadores
macroeconómicos permaneciam dentro dos parâmetros fixados pelo Tratado de
Maastricht para a moeda única, a qual Portugal tinha sido um dos primeiros 11
países a integrar, durante o governo do PS, 1995-1999; os funcionários públicos
e os reformados/pensionistas tinham recebido substanciais aumentos nos seus
salários/reformas/pensões; o rendimento mínimo garantido tinha sido
instituído na sequência das eleições de 1995, beneficiando alguns dos estratos
mais desfavorecidos da sociedade portuguesa; as taxas de juros estavam baixas,
estimulando um aumento dos níveis de consumo nunca antes visto na sociedade
portuguesa; e, como se tudo isto não fosse bastante, pouco antes das eleições o
governo pôde reclamar para si uma vitória diplomática no caso da independência
de Timor-Leste, na sequência das mediáticas visitas de Xanana Gusmão e do bispo
Belo a Portugal, as quais foram extremamente participadas pela população
portuguesa. Finalmente, dias antes da data das eleições, faleceu a mais famosa
fadista portuguesa, Amália Rodrigues. Este evento proporcionou mais um
espectáculo televisivo de coesão nacional e permitiu uma nova oportunidade
para Guterres encarnar o sentimento nacional de consternação tal como no
caso de Tony Blair e da morte da princesa Diana. Apesar de tudo isto, a
abstenção cresceu bastante face a 1995 e o PS ficou a um deputado da maioria
absoluta no parlamento.
Uma das explicações possíveis para o crescimento da abstenção terá sido a
vitória anunciada do PS em todas as sondagens publicadas antes das eleições,
muitas delas dando mesmo como praticamente adquirida a maioria absoluta. Neste
contexto, os eleitores terão porventura considerado desnecessária a sua
deslocação às mesas de voto. De qualquer modo, só análises mais aprofundadas
com dados individuais (inquéritos por amostragem) nos permitiriam aferir com
precisão as razões da abstenção em Outubro de 1999. Na ausência de tais dados
individuais, as nossas análises com dados agregados (ecológicos) permitirão
apenas determinar quais as características sociológicas e económicas dos
concelhos com maiores taxas de abstenção e qual o impacto de tais padrões da
distribuição espacial da abstenção no voto partidário. Contudo, antes de
passarmos a estas análises, vamos comentar dois outros fenómenos de grande
relevo nas eleições de 1999: o aparecimento do BE e a vitória do PS nos Açores;
para tal procederemos a uma análise regionalizada dos resultados eleitorais.
Análise regional dos resultados eleitorais
No quadro_4apresentamos os resultados das eleições legislativas de 1995 e 1999
para as sete regiões do continente e para as regiões autónomas. Apenas as duas
regiões autónomas correspondem a círculos eleitorais, sendo as regiões
continentais resultantes de uma agregação de distritos segundo a metodologia
delineada por Gaspar e outros (1990).
Em termos da evolução da abstenção entre 1995 e 1999, o sul do país (Alentejo e
Algarve) e as regiões autónomas registaram os maiores incrementos. Contudo,
pode constatar-se no quadro_4 que a abstenção continua a ser mais elevada no
norte e centro interiores e nas ilhas do que no Alentejo. No caso do Algarve, a
taxa de abstenção só é menor face àquela que se registou no norte interior e
nos Açores. A Madeira registou também um notável incremento na abstenção. Uma
análise mais detalhada da abstenção será desenvolvida nas secções seguintes,
nomeadamente em termos de determinantes sociológicos e económicos.
Para além do crescimento da abstenção, as eleições de 1999 confirmaram uma
outra tendência do comportamento eleitoral dos portugueses: a regionalização de
certos partidos políticos. Pelo menos duas formações partidárias, uma nova e
outra velha, podem ser vistas como fortemente regionalizadas. A nova
coligação de extrema-esquerda (Bloco de Esquerda/BE) fez a sua primeira entrada
no parlamento na sequência das eleições de 1999, obtendo dois deputados.5 O
resultado obtido em 1999, em termos de votos, representou uma duplicação do
resultado eleitoral de dois dos partidos que compõem a coligação, e que tinham
já concorrido às eleições legislativas de 1995 (PSR e UDP). Todavia, estes
resultados do BE centraram-se, sobretudo, no distrito de Lisboa foi por esse
círculo eleitoral que os seus dois deputados foram eleitos , onde a coligação
obteve pouco mais de 4% dos votos. O crescimento do BE foi mais marcado nos
grandes centros urbanos de Lisboa e Porto, tendo a coligação registado um
resultado neste distrito que quase lhe permitia eleger um terceiro
representante (2,3% dos votos). Na medida em que Portugal continue a registar
crescentes taxas de urbanização, o enviesamento regional na distribuição do
voto BE poderá não ser um óbice para o seu crescimento eleitoral futuro, tal
como é para a outra formação política fortemente regionalizada (PCP/CDU), cuja
base de apoio é em grande medida rural e envelhecida.
Na nossa perspectiva, a credibilização do BE e o seu crescimento eleitoral
futuro passarão também pela sua capacidade de se afirmar no parlamento e de se
mostrar uma formação política coerente mas pragmática. Ou seja, lutando
coerentemente pelos temas políticos que se propôs defender (reforma fiscal,
direitos das minorias, imigrantes, liberalização da droga, etc.) e demonstrando
a sua capacidade para, apesar da sua reduzida dimensão parlamentar, se afirmar
como um partido capaz de contribuir para a estabilidade governativa recorde-
se que o PS está apenas a um deputado da maioria absoluta e que, tal como
demonstraremos à frente, grande parte dos novos eleitores do BE foram captados
ao PS. A aprovação de vários projectos de lei importantes (lei de bases da
segurança social, reforma fiscal e descriminalização do consumo de
estupefacientes) ao lado do PS e do PCP/CDU apontava nesse sentido
Todavia, na aprovação dos orçamentos de estado para 2000 e 2001 o BE não
conseguiu afirmar-se como um partido capaz de funcionar como garante da
estabilidade governativa (cedendo o passo ao CDS/PP e a Daniel Campelo,
respectivamente). A deterioração das condições económicas do país, que se tem
sentido, sobretudo, em 2000 e 2001, e a necessidade de políticas de alguma
austeridade (contenção da despesa pública) tornam a hipótese de orçamentos
aprovados à esquerda menos plausível do que no início da legislatura. Mais,
neste contexto, e para se demarcar do governo, em Maio de 2001 o BE foi mesmo a
ponto de apresentar uma moção de censura ao governo no parlamento: a moção foi
chumbada, pois apenas o BE e a CDU/PCP votaram a favor.
O mais velho partido político português (PCP) (Cunha, 1992), quer em termos
históricos quer em termos do perfil demográfico do seu eleitorado, confirmou o
seu perfil de partido eminentemente regional, representando sobretudo os
interesses dos eleitores alentejanos.6 Apesar de o PCP/CDU ter sido o partido
menos prejudicado pela abstenção (ver quadro_1), sofreu a maior sangria de
eleitores nos seus bastiões alentejanos (ver quadro_4). Em termos de bons
indicadores para o futuro, registe-se que o PCP/CDU obteve 9% dos votos
nacionais, tendo-se tornado o terceiro maior partido português ao desalojar
dessa posição o CDS/PP. Por outro lado, o PCP/CDU conseguiu eleger um deputado
no distrito de Braga, resultado que não conseguia alcançar desde 1987 (STAPE,
1999). De qualquer modo, as perspectivas de longo prazo do PCP/CDU não são
muito animadoras, na medida em que as tendências demográficas apontam para uma
crescente perda de população nos seus bastiões alentejanos.
O PCP tem conhecido uma disputa entre renovadores e ortodoxos, a qual, mais
do que as tendências demográficas, poderá ser determinante para os seus
resultados eleitorais futuros (Expresso, 1/7/00 e 8/12/00; Público, 8/12/00 e
14/12/00; ver também Cunha, 1997). Se no congresso de Dezembro passado (8 e 9
de Dezembro de 2000) tivesse vencido a ala renovadora, o PCP poderia
modernizar-se, adaptando-se às tendências sociais e políticas actuais, e
constituir-se como um partido crucial para soluções governativas à esquerda,
tal como acontece actualmente com o PCF em França. Todavia, a ala ortodoxa
saiu claramente vencedora do último congresso do PCP (Expresso, 8/12/00;
Público, 8/12/00 e 14/12/00) e, por isso, a hipótese de este partido se afirmar
como um actor importante para soluções governativas à esquerda é muito menos
provável, pelo menos no curto/médio prazo.
Em todas as regiões, excepto nos Açores, o voto no PS mudou muito pouco entre
1995 e 1999. Nos Açores, este partido obteve uma espantosa vitória, com 53% dos
votos. O facto de o governo regional dos Açores ter mudado de mãos (do PSD
para o PS) nas eleições regionais imediatamente anteriores (1996), na sequência
do abandono do líder carismático do PSD/Açores, Mota Amaral, que transitou para
o parlamento nacional, terá sido um factor determinante nesta vitória. Todavia,
esta vitória ficou ensombrada pela elevada taxa de abstenção registada nesta
região: quase 50% dos eleitores não foram às urnas. A capacidade de mobilização
dos partidos está aí em manifesto declínio, fenómeno que tanto pode significar
um declínio do apoio difuso ao sistema (Easton, 1963) como uma via de saída
(temporária) para os eleitores do PSD que não se reviam no candidato
apresentado às eleições pelo seu partido.
Enquanto as três formações políticas de esquerda (BE, PCD/CDU e PS) viram
crescer a sua quota do voto nacional, entre 1995 e 1999, os dois partidos da
ala direita (PSD e CDS/PP) viram a sua declinar. No caso do PSD, o declínio da
sua percentagem de votos só não aconteceu no Algarve e na Madeira, esta última
um tradicional bastião do partido. Os contínuos desentendimentos entre os dois
partidos de direita, que culminaram no colapso da anunciada coligação pré-
eleitoral entre eles (Alternativa Democrática/AD), terão com certeza
contribuído para estes resultados. As eleições de 1999 foram o primeiro acto
eleitoral a que o PSD concorreu após a substituição de Marcelo Rebelo de Sousa
por José Manuel Durão Barroso. Todavia, as disputas pela liderança agravaram-se
após as eleições de 1999, elemento que, a manter-se, não augura bons resultados
para o PSD. Por outro lado, a popularidade do actual líder do PSD continuou a
ser muito sofrível em 2000 e 2001.
O CDS/PP também perdeu votos entre 1995 e 1999, não tendo conseguido aumentar
as suas votações em nenhuma região. Todavia, conseguiu manter os 15 deputados
que tinha em 1995, e apenas sofreu severas perdas de votos nas ilhas dos Açores
e da Madeira, 48% e 25% dos votos respectivamente. Por outro lado, apesar das
perdas, deve sublinhar-se que a campanha eleitoral conduzida pelo líder do
partido, Paulo Portas, conseguiu uma votação muito boa face aos muito maus
resultados que as sondagens lhe prometiam. Desde as eleições de 1999 o líder do
CDS/PP tem conseguido crescente visibilidade, sobretudo à custa do líder do
PSD. Quer através do apoio ao orçamento de estado do PS para 2000, quer através
da moção censura que apresentou ao governo, em Julho de 2000, o líder do CDS/PP
tem conseguido colocar o líder do PSD na defensiva, dando a impressão de ser o
partido mais importante da oposição (ver Expresso, Diário de Notícias e
Público, vários números em Julho de 2000). Todavia, a partir do verão de 2000,
a proeminência do CDS/PP face ao PSD perdeu algum relevo. Por outro lado,
durante o ano de 2001, nomeadamente com as coligações para as autárquicas deste
ano, a hipótese de uma coligação eleitoral (ou pós-eleitoral) para as próximas
eleições legislativas entre o PSD e o CDS/PP tem ganho maior consistência.
Teoria e hipóteses
O objectivo das secções seguintes é testar o impacto da estrutura de clivagens
e da conjuntura económica sobre a abstenção e o voto partidário, analisando a
evolução destas determinações entre as eleições legislativas de 1995 e 1999.
De acordo com o modelo das clivagens (Lipset e Rokkan, 1992), os alinhamentos
dos eleitores dependem do respectivo posicionamento na estrutura social
(centro-periferia, secularização-religiosidade, urbano-rural, capital-
trabalho), dos sistemas de valores associados e da acção socializadora e
mobilizadora das organizações sociais e políticas respectivas (idem).
Um elevado nível de recursos materiais e educacionais permite um maior domínio
do universo da política, o qual se traduz numa maior propensão para a
participação (Lipset, 1987; Campbell e outros, 1980; Bourdieu, 1979); por outro
lado, este estatuto social objectivo está geralmente associado a um maior
sentido de eficácia política, o qual implica geralmente maior participação
(Campbell e outros, 1980; Prewitt, 1968; ver também Bourdieu, 1979). Assim, a
clivagem centro-periferia, que se sobrepõe à divisão urbano-rural, estará
ligada a maiores níveis de participação (centro/urbano) ou de abstenção
(periferia/rural).7
Freire verificou que, entre 1983 e 1995, apesar de a abstenção continuar a ser
maior nas zonas periféricas/rurais, esta característica tem vindo a esbater-se,
fruto do maior crescimento da abstenção em meio urbano (Freire, 2000a e 2000d).
O autor considerou que se tratou do crescimento de uma abstenção política
(Memmi, 1985; Subileau, 1997; Freire, 2000a e 2000d). Isto é, uma abstenção
protagonizada por indivíduos com razoáveis níveis de recursos (materiais e
educacionais) e com um razoável nível de integração social, os quais assumem a
abstenção como uma opção estratégica para mostrar o seu descontentamento com o
funcionamento do sistema político e/ou com o partido com que mais simpatizam
(Freire, 2000a e 2000d). As oscilações nos níveis de participação eleitoral
entre eleições remetem também para este tipo de abstenção política (Subileau,
1997). Portanto, podemos considerar que, quando há descidas no poder
explicativo das variáveis sociológicas sobre a abstenção, entre eleições,
estaremos perante a subida de uma abstenção política.
Quanto às clivagens religiosa e capital-trabalho, espera-se que a direita (PSD
e CDS/PP) esteja mais próxima do pólo religioso e do capital (classes
proprietárias); pelo contrário, espera-se que a esquerda (PS, PCP/CDU e BE)
esteja mais próxima do pólo secular e do trabalho (classes assalariadas).
Quer seja em termos do resultado de uma determinada vivência pessoal (voto
egoísta), quer seja em resultado da avaliação das condições económicas
nacionais/locais (voto sociotrópico), as questões do desemprego e da inflação
assumem especial relevo na vida dos indivíduos. Em geral, os eleitores mais
atingidos pelo desemprego ou que o percepcionam como uma prioridade política,
em determinada conjuntura, tenderão a votar mais nos partidos de esquerda; pelo
contrário, os eleitores mais atingidos pela inflação ou que percepcionam o
combate a ela como uma prioridade política, em determinada conjuntura, tenderão
a votar mais nos partidos de direita (hipótese das prioridades políticas)
(Tufte, 1994; Kieweit, 1983; Anderson, 1995). Assim, espera-se que nos
concelhos com maiores taxas de desemprego, os eleitores tendam a apoiar mais
os partidos de esquerda (PCP, PS e BE) e menos os partidos de direita (PSD,
CDS).
Por outro lado, no fim de cada mandato, o governo cessante e o(s) partido(s)
que o apoia(m) incumbentes , também são julgados pelo desempenho da
economia. Segundo a hipótese da responsabilização, os eleitores tenderão a
penalizar os incumbentes em períodos recessivos, deslocando o seu voto para
os partidos da oposição, e a votar neles em períodos de prosperidade económica
(Tufte, 1994; Lewis-Beck, 1990; Kieweit, 1983; Anderson, 1995).8 Assim, espera-
se que nos concelhos onde se registam os piores indicadores económicos, os
eleitores tendam a penalizar o(s) partido(s) (governo) incumbente(s) (PSD, em
1995; PS, em 1999), beneficiando os partidos da oposição.9
Há que ter presente que as influências da conjuntura económica sobre o voto são
efeitos de curto-prazo. Assim, para aferir o carácter independente destes
efeitos é preciso controlar as influências de longo-prazo (religiosidade,
estrutura de classes, habitat, etc.) (Tufte, 1994; Kieweit, 1983; Lewis-Beck,
1990; Bellucci, 1991; Rattinger, 1991). Tal será o procedimento que adoptaremos
através da regressão múltipla.
Metodologia e dados
Este estudo baseia-se numa análise de dados agregados, geralmente designada por
metodologia ecológica (Langbein e Lichtman, 1978; King, 1997; Justel, 1995;
Freire, 2000a). Ou seja, as nossas unidades de análise são espácio-
administrativas e não indivíduos; neste caso trata-se dos 275 concelhos de
Portugal continental (N=275).10 Esta opção foi ditada pela disponibilidade dos
dados. Os riscos de falácia ecológica, ou seja, os riscos quando tentamos
extrapolar as conclusões dos dados agregados para os dados individuais são bem
conhecidos e têm sido amplamente analisados (King, 1997: 12-17; Langbein e
Lichtman, 1978; Freire, 2000a). Consequentemente, para evitar os riscos de
falácia ecológica, as extrapolações para o comportamento individual são
consideradas como meras aproximações que carecerão sempre de comprovações
adicionais por outros métodos.
Indicadores compósitos da estrutura de clivagens
Tendo em conta que temos um elevado número de indicadores das clivagens (20
variáveis), vamos primeiro reduzir os dados através da análise de componentes
principais (ACP), com rotação ortogonal varimax (Dunteman, 1989; Bryman e
Cramer, 1992). Não incluímos neste processo os três indicadores da conjuntura
económica, cujo impacto pretendemos medir em separado.
Após a redução da informação, as dimensões extraídas servirão como indicadores
compósitos das clivagens, cujo impacto sobre a abstenção e o voto partidário se
irá avaliar através de regressões lineares múltiplas (método dos mínimos
quadrados). Para além dos factores, os três indicadores da conjuntura económica
funcionarão também como variáveis independentes nas regressões.
Por motivos de espaço não podemos apresentar aqui a matriz factorial que deu
origem aos 5 factores que utilizaremos na regressão. Essa matriz poderá ser
consultada em Freire (2000b e 2000d).
Clivagens, economia, abstenção e voto nos partidos
Em termos de variância explicada (R2)11pelas estruturas de clivagem,12verifica-
se que, entre 1995 (50%) e 1999 (33%), houve uma descida de cerca de 17%
(quadro_5). Ou seja, tal descréscimo na determinação sociológica da abstenção
só pode ser explicado por factores políticos (abstenção política) e não por
alterações na estrutura social, pois esta goza de uma tal estabilidade que a
torna incapaz de explicar tais mudanças em tão curto espaço de tempo.
Para além de este fenómeno poder indiciar um certo descontentamento com o
funcionamento do sistema político, alguns factores políticos de conjuntura
poderão contribuir para explicar tal evolução: uma campanha eleitoral pouco
mobilizadora, nomeadamente por parte do PS e do seu líder, António Guterres;
uma vitória do PS antecipadamente anunciada em todas as sondagens; a fraca
capacidade de afirmação política do maior partido da ala direita (PSD) e do seu
líder, bem como as constantes divisões entre este partido e o CDS/PP.
Entre 1983 e 1995, a abstenção foi sempre maior no espaço rural do que nas
zonas terciarizadas e semiurbanas (betas/F2) (Freire, 2000d e 2001a).13 Entre
1983 e 1985, este elemento foi o que maior importância tinha na explicação da
abstenção. Entre 1987 e 1995, o factor 2 (F2) passou a ser o segundo mais
importante para explicar a abstenção (Freire, 2000d e 2001a). Entre 1995 e
1999, esta clivagem urbano/rural (F2) não só perdeu enorme importância
explicativa como passou a ser, de entre todos os factores com impacto
significativo, o menos importante para explicar a abstenção. Sabemos que os
dois maiores partidos de esquerda (PS e PCP/CDU) têm estado sempre melhor
implantados nestas áreas (Freire, 2000a e 2000b). Portanto, podemos daqui
deduzir que, embora em termos relativos a abstenção tenha prejudicado mais os
partidos de direita (PSD e CDS/PP) (ver quadro_1), os partidos de esquerda
terão sido também prejudicados pelo declínio da participação em proporções não
negligenciáveis.
Em 1999, a participação eleitoral foi mais elevada nas zonas com maiores
proporções de operários industriais (betas/F5), nos grandes centros urbanos
(betas/F1) e nos concelhos mais envelhecidos (betas/F3).14 Estes foram os três
elementos da estrutura de clivagens com maior importância para explicar a
participação eleitoral, por ordem de importância respectiva. Tal como Freire
pôde observar (2000d), a maior participação registada nos bastiões operários
infirma as hipóteses que põem a tónica da explicação da abstenção no grau de
centralidade e urbanidade dos concelhos. Ou seja, apesar de os operários
industriais serem indivíduos de baixos recursos materiais e educacionais, as
influências mobilizadoras dos sindicatos e dos partidos de esquerda revelam-se
mais determinantes que as propensões sociológicas ao abstencionismo.
Por último, refira-se que os indicadores da conjuntura económica não tiveram
impacto significativo no binómio participação/abstenção, quer em 1995 quer em
1999.
Entre 1983 (56%) e 1995 (71%), verificámos que, no caso do PSD, se verificou um
aumento da variância explicada pelas estruturas de clivagens, fenómeno este
devido à captação de eleitorado ao CDS/PP, bem como à mobilização de
abstencionistas do norte e centro do país (Freire, 2000a e 2000c). Entre 1995
(71%) e 1999 (67%), verificou-se uma pequena inversão de tendência (quadro_5).
Só posteriores eleições nos poderão dizer se se trata efectivamente de uma
inversão de tendência ou de uma mera oscilação conjuntural.
Quanto à importância relativa dos vários elementos da estrutura de clivagens
para explicar o voto no PSD, refiram-se apenas os três mais importantes, por
ordem respectiva:
- maior implantação relativa em habitat rural e nas zonas com maior
religiosidade (betas/F2);
- menores votações nas zonas de grande propriedade agrícola e com maior
presença dos proletários rurais/Alentejo (betas/F4);
- maiores votações nas zonas com maior peso dos camponeses (betas/F5).
Este padrão não só se manteve, entre 1995 e 1999, como representa um traço de
continuidade face ao período 1983-1991 (Freire, 2000a e 2000c). Todavia, entre
1995 (2%) e 1999 (4%), verificou-se um pequeno aumento do impacto da conjuntura
económica em detrimento dos factores sociológicos. Ou seja, entre 1995 e 1999,
diminuiu ligeiramente o perfil sociológico do eleitorado do PSD, pelo menos em
termos de implantação concelhia, tendo ganho maior relevo o impacto da
economia.
Em 1999, não tendo o PSD sido incumbente, parece-nos que o impacto negativo
do desemprego sobre o voto neste partido será explicável à luz da hipótese das
prioridades políticas (Tufte, 1994; Kieweit, 1983; Anderson, 1995). Aliás, as
menores votações do PSD nos concelhos com maiores percentagens de desempregados
foram um traço permanente entre 1983 e 1995 (Freire, 2000a e 2000c). Portanto,
tudo parece apontar para a inexistência para um efeito de responsabilização
no voto do PSD. Todavia, gostaríamos de sublinhar que isto não significa que
estes resultados sejam necessariamente transponíveis para o nível individual,
até porque existe um efeito estrutural do desemprego que não podemos
negligenciar (Cabral, 1997), apesar de o termos minimizado através do controlo
das variáveis sociológicas.
No caso do CDS/PP, o declínio da determinação sociológica do respectivo voto
entre 1995 (36%) e 1999 (33%) representa um forte traço de continuidade com o
período eleitoral 1987-1995 (Freire, 2000a e 2000d) (quadro_5). Esta redução do
perfil sociológico do CDS, nomeadamente com a diminuição da importância da sua
penetração nas zonas rurais, com maior integração religiosa e com maiores
proporções de camponeses (betas/F2 e F4), explica, aliás, o aumento da
polarização do voto no PSD entre 1987 e 1995 (idem). Ou seja, as perdas
eleitorais do CDS/PP, em 1987 e 1991, alimentaram o agravamento da determinação
sociológica do voto no PSD. Mais, a recuperação eleitoral do CDS/PP em 1995 e
1999, face ao período 1987-1991, verificou-se fora dos seus tradicionais
bastiões, permitindo uma maior hegemonia do PSD sobre esses segmentos do
eleitorado: entre 1995 e 1999, o elemento com maior importância para explicar o
voto no CDS/PP passou a ser a clivagem geracional, com uma maior penetração
deste partido nos concelhos com mais jovens (betas/F4).
Entre 1995 (2%) e 1999 (5%), verificou-se um pequeno aumento da importância da
economia no voto CDS/PP. A taxa desemprego continuou a implicar menores
votações neste partido, dado que é apenas interpretável à luz da hipótese das
prioridades políticas, pois o partido não foi incumbente, quer em 1995 quer em
1999. Já o impacto positivo da taxa de variação do desemprego (maiores
votações no CDS/PP nos concelhos onde mais cresceu o desemprego) pode ser
interpretado segundo a hipótese da responsabilização, ou seja, o CDS/PP,
enquanto partido da oposição, capitalizou o crescimento do desemprego entre
1998 e 1999. Note-se que, ao contrário daquilo que se verificou em 1995, em
1999 este elemento não só passou a ter um efeito significativo, como revelou
uma inversão de efeito.
No caso do PS, verificou-se um pequeno declínio do impacto das clivagens entre
1995 (29%) e 1999 (26%) (quadro_6). Este facto terá ficado a dever-se à
penetração do BE no eleitorado do PS nos grandes centros urbanos (betas/F1):
entre 1995 e 1999, o PS deixou de ter maiores proporções de voto nos grandes
centros urbanos em quantidade relevante o betadeixou de ser significativo;
pelo contrário, este elemento passou a ser o mais importante para explicar o
voto no BE quando em 1995 era apenas o terceiro factor mais significativo.
Face a 1983 (24%), a situação verificada em 1999 (26%) continua a atestar um
aumento da polarização do eleitorado do PS, o mesmo não se podendo dizer face
às eleições de 1991 (31%). O declínio da política das clivagens, entre 1995 e
1999, foi claramente compensado por um aumento do efeito da economia no voto
neste partido: em 1995, 2%; em 1999, 8%.
Quer em 1991 quer em 1995, verificou-se uma crescente penetração do PS no
terreno preferencial do PCP, nomeadamente com a relevância crescente das suas
votações nas áreas semiurbanas, terciarizadas e secularizadas (betas/F2)
(Freire, 2000d e 2001a). Entre 1995 e 1999, verificou-se uma certa inversão de
tendência, pois aquele elemento deixou de ser o mais importante para explicar o
voto no PS, dando lugar a uma importância crescente do voto dos operários
industriais (betas/F5), bastião tradicional do PS entre 1983 e 1987 (idem).
Todavia, se diminuiu a penetração do PS no eleitorado do PCP/CDU em meio
semiurbano, continuou a sua penetração nos bastiões comunistas do Alentejo:
apesar do beta(F4) não ser estatisticamente significativo, parece-nos relevante
sublinhar que, pela primeira vez, no período 1983-1999 (Freire, 2000c), passou
a ter um sinal positivo.
Entre 1995 (2%) e 1999 (8%), há ainda a registar o aumento da importância da
economia no voto no PS. Se as suas maiores proporções de voto nos concelhos com
mais desempregados são apenas interpretáveis segundo a hipótese das
prioridades políticas, pois o partido foi incumbente em 1999, já o mesmo não
se pode dizer do impacto negativo do crescimento do desemprego entre 1998 e
1999. Ou seja, neste caso parece ter-se verificado uma penalização dos
incumbentes (hipótese da responsabilização).
No caso do PCP/CDU, verificou-se uma perfeita estabilidade da política das
clivagens entre 1995 (64%) e 1999 (64%), traço este que travou a tendência de
declínio verificada entre 1983 (70%) e 1995 (Freire, 2000a e 2000d). Todavia,
verificou-se um pequeno aumento do efeito da economia entre 1995 (1%) e 1999
(2%) (quadro_6). Nesta matéria, à tradicional implantação do PCP nos concelhos
com mais desempregados juntou-se um efeito positivo do crescimento do
desemprego, 1998-1999. No segundo caso, podemos dizer que existe um efeito de
responsabilização, pois o crescimento do desemprego não só penalizou o PS,
como beneficiou dois dos partidos da oposição (CDS/PP e PCP/CDU). Todavia, já o
impacto da taxa de desemprego nos parece apenas interpretável à luz da
hipótese das prioridades políticas: só assim se explica que o impacto desta
variável seja positivo para a esquerda e negativo para a direita,
independentemente de qual(is) o(s) partido(s) incumbente(s) (Freire, 2000d e
2001a).
Entre 1995 e 1999, tal como no período 1983-1991 (idem), as votações no PCP/CDU
foram claramente maiores nos concelhos semiurbanos, terciarizados e
secularizados (betas/F2), bem como nas zonas onde predomina o proletariado
rural/Alentejo (betas/F4). Estes mantiveram-se como os dois factores mais
importantes para explicar o voto no PCP, por ordem de importância respectiva.
Todavia, pode dizer-se que, apesar desta estabilidade, se verificou um pequeno
recuo da implantação do PCP no seio do operariado agrícola, ao passo que
cresceu a sua penetração em habitat semiurbano.
Um dos fenómenos mais relevantes das mudanças verificadas entre as eleições de
1995 e as de 1999 foi o crescimento das votações no Bloco de Esquerda. Esta
coligação de três partidos de extrema-esquerda, que se autoproclamou como
representante da nova política (Diário de Notícias, 11/10/99; Público, 11/10/
99; Expresso, 16/10/99), não só obteve representação parlamentar como viu
aumentar enormemente a determinação sociológica do respectivo voto: de 44%, em
1995, para 81%, em 1999 (quadro_6). Todavia, este crescimento da polarização
sociológica do voto no BE foi acompanhado por um ligeiro decréscimo do efeito
da economia: em 1995, 2%; em 1999, 1%. Tal como no caso dos outros dois
partidos da ala esquerda, também o BE aparece beneficiado pelo desemprego
(hipótese das prioridades políticas).
Em termos do perfil sociológico dos eleitores do BE, em 1995, os três factores
com maior relevo foram as maiores proporções de voto nas zonas semiurbanas,
terciarizadas e secularizadas (betas/F2), nas zonas mais envelhecidas (betas/
F3) e nos grandes centros urbanos (betas/F1). Em 1999, os dois factores de
maior relevo passaram a ser a maior implantação relativa nos grandes centros
urbanos (betas/F1) e nas áreas semiurbanas (betas/F2). Já tivemos oportunidade
de referir que aumento do relevo do voto urbano no BE se terá concretizado
sobretudo à custa do PS.
O aumento da penetração do BE nos grandes centros urbanos poderá também
explicar a inversão do sinal do coeficiente associado ao factor 3: de 1995 para
1999, o BE passou a ter maiores votações nos concelhos com mais jovens. Por
outro lado, em 1995 esta coligação tinha maiores proporções de voto nas zonas
onde predomina o proletariado rural/Alentejo (beta/F4); em 1999 esta relação
inverteu-se.
Conclusões
Entre as eleições legislativas de 1995 e 1999 registaram-se quatro fenómenos
especialmente marcantes: 1) o enorme crescimento da abstenção eleitoral; 2) a
eleição de dois deputados do BE, em resultado do forte aumento das respectivas
votações; 3) a vitória do PS nos Açores; 4) o empate no número de deputados do
partido que apoia o governo (115) e dos partidos da oposição (115).
No caso da abstenção eleitoral, o seu crescimento foi tanto mais importante
quanto houve uma limpeza dos cadernos eleitorais, em 1998, que terá expurgado
uma parte não negligenciável da abstenção técnica. Apesar disso, conforme
demonstrámos no início deste trabalho, a referida limpeza ficou bastante aquém
do desejável.
A evolução da abstenção, entre 1995 e 1999, ilustra claramente o fenómeno da
abstenção política. Factores específicos das eleições de 1999 contribuíram
para explicar este padrão: a vitória do PS antecipadamente anunciada em todas
as sondagens; uma campanha eleitoral pouco mobilizadora; a falta de liderança e
as divisões entre os dois partidos de direita.
Este crescimento da abstenção política, já detectado por Freire para o
período 1983-1995, contraria claramente as teorias tradicionais (Lipset, 1987;
Campbell e outros, 1980; Bourdieu, 1979), embora não seja um fenómeno
exclusivamente português (Memmi, 1985; Justel, 1995; Subileau, 1997). Ou seja,
cada vez mais a abstenção surge como uma opção estratégica dos eleitores
(Downs, 1957), quer face às condições de concorrência no mercado eleitoral,
quer como uma forma de penalização de determinadas forças políticas, e menos
como uma resultante do seu isolamento social e geográfico.
Dois estudos recentes baseados em inquéritos por amostragem (dados individuais)
permitem-nos contrastar os resultados (com dados agregados) a que chegámos
quanto ao perfil dos abstencionistas. O estudo de Freire (2001d) analisou as
legislativas de 1995; o trabalho de Magalhães (2001) debruçou-se sobre as
legislativas de 1999. O estudo de Freire concluiu que mais do que o nível de
recursos e as atitudes políticas, em 1995 o déficit de integração social foi o
melhor preditor do abstencionismo eleitoral. Para 1999, o trabalho de Magalhães
revelou que foram as atitudes políticas os melhores preditores da abstenção.
Aparentemente, as conclusões destes dois estudos são coincidentes com as
nossas: de 1995 para 1999 os factores sociológicos perderam terreno perante as
atitudes políticas abstenção política. Todavia, a diversidade de
indicadores utilizados nos estudos de Freire (2001d) e de Magalhães (2001)
impedem-nos de ser tão taxativos nesta conclusão, pois os dois trabalhos não
são rigorosamente comparáveis em termos da hierarquização dos factores
explicativos do abstencionismo (Freire, 2001d).
O fenómeno BE foi o segundo acontecimento mais marcante das eleições
legislativas de 1999. Esta coligação conseguiu eleger dois deputados no maior
círculo eleitoral do país (Lisboa), sobretudo à custa da captação do voto
urbano ao PS; no círculo do Porto esteve à beira de eleger mais um deputado.
Num contexto de uma muito previsível vitória do PS, muitos dos seus eleitores
ter-se-ão sentido mais livres para votar ideologicamente (prescindindo de
quaisquer estratégias de voto útil), penalizando o partido pelos seus acordos
com os dois partidos de direita.
O efeito das estruturas de clivagens sobre o voto funcionou no sentido
previsto: maior proximidade da direita (CDS/PP e PSD) ao pólo religioso e do
capital; maior proximidade da esquerda (PS, PCP/CDU e BE) ao pólo secular e do
trabalho.
Quanto ao efeito da economia no voto, encontrámos dois tipos de impactos. Em
primeiro lugar, a taxa de desemprego esteve associada a maiores votações nos
partidos de esquerda e a menores votações nos partidos de direita. Ou seja,
independentemente de qual o partido incumbente, o impacto da taxa de
desemprego revelou-se acomodável na hipótese das prioridades políticas. Ao
contrário, o impacto do crescimento do desemprego, entre 1998 e 1999, revelou-
se claramente interpretável segundo a hipótese da responsabilização:
penalizou o partido incumbente, PS, e beneficiou dois dos partidos da
oposição, o CDS/PP e o PCP/CDU.
Em 1999, face à estrutura de clivagens, foi no PS (8%) e no CDS/PP (5%) que o
voto económico teve maior peso para a variância explicada. No PSD (4%), no
PCP/CDU (2%) e no BE (1%), o peso relativo do voto económico foi ainda mais
reduzido. Mais, a dimensão que o voto económico atingiu no PS e CDS/PP
representa um razoável crescimento face ao que se tinha verificado no período
1983-1995 (Freire, 2000a, 2000c e 2001a). Neste período, nunca o peso do voto
económico foi superior a 4%, em qualquer dos quatro maiores partidos.
Significa isto que o voto económico tem um reduzido impacto nas opções dos
eleitores portugueses, sobretudo face às clivagens. Todavia, estes resultados
devem ser restringidos à análise de dados agregados que aqui se apresenta. Ou
seja, não devemos extrapolar estes resultados para o nível individual, no qual
o peso relativo do voto económico poderá revelar-se diferente.
Apesar do seu reduzido peso face às clivagens, parece-nos relevante o impacto
do voto económico em Portugal. Quer porque actua no sentido previsto pelas
hipóteses clássicas, quer porque se mantém significativo após controlarmos uma
extensa bateria de indicadores das clivagens, quer ainda porque o seu impacto
foi sempre estatisticamente significativo ao longo do período 1983-1999
(Freire, 2000c e 2001a).
Em termos comparativos, podemos dizer que vários estudos têm revelado que o
voto económico é bastante importante, mantendo-se significativo quando
controlados os efeitos de longo prazo. Na Grã-Bretanha e em Espanha, o voto
económico tem maior peso do que as clivagens e o posicionamento ideológico
(Lewis-Beck, 1990). Nos EUA, em França e na Alemanha o seu impacto é mais forte
do que as clivagens, embora mais reduzido do que o da identificação
partidária (EUA). Só em Itália as clivagens se revelam mais poderosos
preditores do voto do que a economia (Lewis-Beck, 1990; Bellucci, 1991).
Portanto, poderíamos dizer que a situação portuguesa se aproxima mais da
situação italiana. Todavia, os estudos referidos baseiam-se todos em dados
individuais e, portanto, as suas conclusões não são estritamente comparáveis
com os resultados portugueses. Por outro lado, como usámos dados agregados, não
pudemos controlar o posicionamento ideológico dos eleitores. Os estudos com
dados agregados sobre o voto económico, na Europa e nos EUA, também não são
estritamente comparáveis com os resultados portugueses, pois utilizam
estratégias metodológicas muito diversas, nomeadamente não usam as variáveis
sociológicas como variáveis de controlo (Owens e Olson, 1980; Bellucci, 1984;
Rattinger, 1991; Paldam, 1991; Anderson, 1995).
Portanto, diríamos que o voto económico tem um impacto significativo face às
clivagens, embora o seu peso relativo aparente seja reduzido em termos
comparativos, aproximando Portugal da situação italiana. Todavia, só estudos
com dados individuais poderão esclarecer definitivamente estas matérias. Esta
é, pois, uma importante linha de investigação a ser desenvolvida em futuras
pesquisas.
Notas
1 Para uma análise longitudinal e comparativa da abstenção portuguesa, ver
Freire (2000d).
2 A estimativa mais elevada foi realizada pelo Institute for Democracy and
Electoral Assistance (IDEA), que trabalha para as Nações Unidas (ver Cabral,
Diário de Notícias, 29/5/99: 25; e Machado, 1999). A necessidade urgente de
limpeza dos cadernos eleitorais resultou do facto de o primeiro referendo
nacional do período democrático se estar para realizar em Junho de 1998. Em
Portugal, os resultados dos referendos têm de ter uma participação mínima de
50% mais um dos eleitores inscritos, para que sejam considerados vinculativos.
Nenhum dos referendos realizados em 1998 atingiu tal patamar (para uma análise
detalhada dos dois referendos, ver Freire e Baum (2001) (no prelo). No final,
apenas cerca de 400.000 eleitores-fantasmas foram retirados dos cadernos
eleitorais (Expresso, 15/11/97; Público, 24/4/98). Tal resultado, bastante
aquém do necessário, deveu-se a vários factores: ineficiência burocrático-
administrativa do processo; falta de fundos para a realização de um novo
recenseamento eleitoral e receios quanto à adesão dos eleitores ao mesmo; o
desejo das autarquias locais (municípios, freguesias), sobretudo no interior,
em conservarem tantos eleitores quantos possivel para manterem o mesmo nível
de apoios financeiros do Fundo de Equilíbrio Financeiro (FEF) e idênticos
números de autarcas.
3 A abstenção real é calculada face ao total de indivíduos com 18 e mais anos
(INE/Estimativas Intercensitárias) e não face ao total de inscritos no RE/
STAPE.
4 Por abstenção política entende-se uma acção estratégica dos eleitores no
sentido de não comparecerem às urnas, quer como expressão de uma crescente
deslegitimação do sistema político, quer como expressão de uma insatisfação
conjuntural com o funcionamento do mesmo (Memmi, 1985: 349; Subileau, 1997;
Freire, 2000a e 2000d).
5 O Bloco de Esquerda (BE) é composto pelo PSR, pela UDP e pela Política XXI.
6 Esta formação política continuou também a receber forte apoio eleitoral em
Setúbal e nos concelhos da margem sul do Tejo. Recorde-se que muitos dos
habitantes destas zonas são oriundos pelo menos em termos de ascendência
familiar de migrantes alentejanos.
7 Em Portugal, a clivagem centro-periferia per se não tem relevância político-
partidária, pelo que não faz sentido formular hipóteses sobre a matéria (Cruz,
1988: 212-224; Gaspar e André, 1990; Gaspar e outros, 1990; Nataf, 1995: 117-
118; Baum, 1997; Schmitter, 1999: 97; Freire, 2000a).
8 Tendo em conta que utilizamos dados agregados, não podemos distinguir o
voto egoísta do voto sociotrópico; nem podemos distinguir devidamente as
duas hipóteses: da responsabilização e das prioridades políticas
(Rattinger, 1991: 50-51; Bellucci, 1984: 396 e 398-400).
9 O impacto da conjuntura económica sobre a participação/abstenção eleitorais
não é muito claro: o agravamento das condições económicas tanto pode gerar uma
maior participação como uma maior apatia, especialmente entre os atingidos pelo
desemprego (Lipset, 1987; Anderson, 1997; Freire, 2000a e 2000d). Por isso não
formulamos quaisquer hipóteses sobre a matéria.
10 Para optimizar a comparabilidade com as eleições de 1995, os resultados
referentes aos três novos concelhos criados em 1999 (Vizela, Trofa e Odivelas)
foram fundidos com os dos municípios originais: Guimarães, Santo Tirso e
Loures, respectivamente. A não consideração das regiões autónomas deveu-se à
insuficiência de dados sociodemográficos.
11 A regressão linear múltipla é uma técnica estatística multivariada que
permite determinar em que medida as variações na variável dependente Y
(abstenção ou voto em cada um dos cinco partidos) são explicáveis pelas
variações nas variáveis independentes X1, X2, etc. (clivagens e economia).
Todavia, assenta no pressuposto que a relação entre as variáveis é linear, ou
seja, que o efeito das variáveis independentes sobre a variável dependente é o
mesmo qualquer que seja o valor das primeiras (Carrión, 1995: 411). Portanto,
através deste modelo apenas podemos chegar à conclusão sobre se há ou não há
relação linear entre as variáveis independentes e a variável dependente. Se a
conclusão for negativa (teste F não significativo), isso não significa que não
haja qualquer tipo de relação entre as variáveis, mas apenas que não há relação
linear. Todavia, poderá haver uma relação de outro tipo: curvilinear, etc. Em
nenhum dos casos em análise tal se verifica, ou seja, os resultados dos testes
F revelam sempre que o modelo linear é adequado. Para cada variável
independente, o nível de significância associado ao beta respectivo indica-nos
se o impacto dessa variável independente sobre a variável dependente é, ou não,
significativo. Uma outra medida importante nas análises de regressão é o R2 ou
variância explicada (ou ainda coeficiente de determinação). Esta medida indica-
nos a parte da variabilidade na variável dependente que é explicada pela
variação nas variáveis independentes. Para uma descrição exaustiva e
exemplificada desta técnica, ver Carrión (1995: 409-456).
12 Apresentamos sempre dois tipos de R2. Na penúltima linha dos quadros_5 e 6
apresentamos a variância explicada, na abstenção e no voto partidário, pelo
conjunto dos indicadores (factores 1 a 5: clivagens, conjuntura económica). Na
última linha dos quadros_5 e 6, a variância explicada diz apenas respeito às
clivagens como variáveis independentes (factores 1 a 5).
13 A hierarquização da importância explicativa de cada um dos elementos das
estruturas sociais faz-se através da análise dos coeficientes de regressão
estandardizados (betas). Utilizamo-los porque não são influenciados pelas
diferentes unidades de medida de cada uma das variáveis e pelas diferenças nos
respectivos valores médios. Os betas são interpretados como mudanças em
unidadesde desvio padrão na variável dependente Y, associados à mudança de uma
unidade de desvio padrão na variável independente X, mantendo constantes todas
as outras variáveis independentes (Carrión, 1995: 397-398). Tomemos como
exemplo as eleições legislativas de 1995. O desvio-padrão da abstenção foi de
5,09 (variável dependente). Os factores (variáveis independentes) são
indicadores compósitos estandardizados, ou seja, média 0 e desvio-padrão 1.
Assim, para o primeiro factor (F1/beta: -0,151), centralidadee urbanidade, o
acréscimo de uma unidade de desvio-padrão (1) traduz-se num decréscimo de -
0,76859 na abstenção (-0,151*5,09=-0,76859). O sinal do beta indica-nos a
proximidade do fenómeno da abstenção com cada um dos pólos da clivagem
(factor). O sinal negativo do coeficiente (beta) associado ao factor 1 indica-
nos que, quando crescem os valores dos indicadores referentes à centralidade e
urbanidade (+),desce a abstenção. No caso do factor 2, cada um dos pólos da
clivagem tem associado um sinal: o pólo terciário/semi-urbano/secular(+) tem
associado um sinal positivo. O pólo oposto, rural(-), tem associado um sinal
negativo. Assim, como o sinal do beta(-0,445) é negativo, concluímos que quando
sobem os valores do factor (terciário/semi-urbano/secular(+)), descem os
valores da abstenção. Isto é, a abstenção está associada ao pólo rural (-) da
clivagem. Note-se que, em cada factor, o sinal negativo ou positivo remete para
os sinais negativos e positivos dos pesos factoriais (loadings) das variáveis
que mais carregavam o factor em causa.
14 Em Portugal, os concelhos com maiores proporções de jovens situam-se
predominantemente no norte do país. Todavia, a clivagem geracional permite
também distinguir o litoral e o interior do país. No interior, o peso das
populações mais envelhecidas é claramente mais importante, embora ainda mais a
sul que a norte (ver Freire, 2000a, apêndice II, quadro A2.1; ver também
Machado e Costa, 1998: 22-23).