Grupo reflexivo de professores da educação superior: Estudo sobre seus
movimentos construtivos
Delineamento do estudo
A formação para a docência universitária tem sido amplamente discutida, havendo
reconhecimento quanto à necessidade de formação pedagógica para os professores
da educação superior. Dentre os aspectos considerados relevantes nessa
discussão, destacamos os escritos de Nóvoa (2007) ao referir que pensar a
formação de professores carece transcender capacitações docentes incipientes e
descontínuas, pois não se tolera mais escrever sobre a prática como referência
do fazer docente se não se consolida a presença e ocompromisso do professor na
sua formação.
Desse modo, propostas e processos formativos permanentes para professores da
educação superior são indispensáveis, pois a importância em proporcionar
espaços e lugares de formação qualifica o desenvolvimento da docência superior,
entendendo-a como uma atividade que requer conhecimentos próprios, em que a
inter-relação do saber e do fazer vão se consolidando durante a trajetória
formativa do professor. Entendemos que a docência superior envolve, além dos
conhecimentos prévios e específicos do professor, os conhecimentos pedagógicos
e sua relação com a prática pedagógica desenvolvida no cotidiano universitário.
Neste estudo procuramos compreender a constituição de um grupo reflexivo e os
movimentos construtivos deste grupo no caminho da aprendizagem de ser
professor, entendendo essa aprendizagem como elemento relevante da qualificação
profissional para a docência superior. Para tanto, apresentamos os pressupostos
teóricos que sustentam o estudo a partir da abordagem grupal e professor
reflexivo, articulando-os com a aprendizagem docente e, finalmente, procuramos
entrelaçá-los para a compreensão do objeto do estudo, os movimentos
construtivos do grupo.
Entendemos que o professor da educação superior precisa colocar-se em constante
aprendizagem, exercitando a reconstrução reflexiva da sua experiência docente
ao longo da vida. Colocar-se como aprendente pressupõe ir ao encontro do outro,
relacionar-se e, destas inter-relações estabelecidas na docência, extrair os
pressupostos que delineiam o trabalho cotidiano do professor, transformando o
sentir, o pensar e o agir.
Zabalza (2004b) comenta que toda a aprendizagem requer o estabelecimento de
conexões e relações entre novas informações e sobre o que já se sabia. Isaia
(2007) acrescenta que a aprendizagem docente estabelece-se na relação de três
processos inter-relacionados: o processo formativo, o desenvolvimento
profissional e a docência, entendendo que cada um desses três processos exige
um professor aberto, reflexivo, flexível e receptivo a novas maneiras de se
constituir professor, mas que está entretecido das trajetórias de vida e de
profissão dos professores, no entrelaçamento do que se sabia das experiências
anteriores, somadas às vivências formativas atuais (Isaia, 2007, 2008). Essa
perspectiva remete a conceituação do trabalho grupal, que pode ser compreendido
como "campo de interconexiones, de entrecruzamientos de lo individual, lo
institucional, lo social, etc. donde surgen acontecimientos y procesos
compartidos (imaginarios, reales, etc) entre sujetos que persiguen objetivos
comunes de aprendizajes" (Souto, 2007, p. 58).
Kurt Lewin (1890-1947) é um dos precursores da abordagem grupal. Trabalhou com
o grupo, considerado unificador em suas obras, como constituinte da base das
percepções, ações e sentimentos do indivíduo, ou seja, a base do grupo social
produz a personalidade e a subjetividade do mesmo. Em seus estudos com grupos,
Lewin (1948) centrou sua discussão no processo democrático como complexo, mas
necessário ao mundo social, e unificou as leis e a dinâmica do comportamento
humano. Suas obras constituem-se em referências para trabalhos grupais até os
dias de hoje.
Contemporaneamente, estudos vêm demonstrando marcos conceituais, possibilidades
e benefícios da abordagem grupal. A especificidade do trabalho em grupo centra-
se nas características peculiares dos objetivos, dos meios, da evolução, que
agrega configurações subjacentes específicas de acordo com seus membros (Souto,
2007). A concepção de Souto (2007) pressupõe que ensinar e aprender levam em
conta processos diferenciados, dialéticos e em inter-relação permanente, sendo
o grupal um campo de recursos e meios para satisfazer as necessidades dos seus
membros numa perspectiva de reciprocidade e mediação.
A vida em grupo impõe certas particularidades que envolvem a dimensão pessoal
de cada participante, na qual o desejo, as subjetividades e as objetividades
são gradativamente afloradas. Sentimentos, aspirações, conhecer-se e fazer-se
conhecer, transpor as dificuldades e limitações pessoais, comunicar-se e
experimentar-se, entram em jogo e carregam as diferentes personalidades que a
formam. Desenvolve-se a partir de confrontos de opiniões e concepções,
envolvendo uma espécie de evolução de atitudes educativas que gradativamente
incorporam um processo de troca intelectual (Ferry, 1974). Assim compreendido,
o trabalho em grupo pode ser incorporado como dispositivo de aprendizagem
docente, na medida em que se estabelece o encontro e se institui a reflexão dos
professores sobre si e sobre sua prática socialmente construída e
[re]significada, tendo como premissa a possibilidade de mudança, transformação
e aprendizagem.
No que concerne à reflexão, Nóvoa (1992) refere que a formação do professor
"não se constrói por acumulação (de cursos, conhecimentos ou técnicas), mas sim
através de um trabalho de reflexibilidade crítica sobre as práticas e de
reconstrução permanente de uma identidade pessoal" (p. 25). Nessa perspectiva,
a reflexibilidade surge como condição necessária ao fazer docente e,
consequentemente, à aprendizagem da docência.
O conceito de professor reflexivo foi sistematicamente referenciado por John
Dewey, na década de 30. Conforme Dewey, o pensamento reflexivo envolve
necessariamente um estado de imprecisão, hesitação, perplexidade e até mesmo
dificuldade, o que origina o ato de pensar. A necessidade de solucionar algo
consiste no fator orientador do pensamento reflexivo, da mesma maneira que "a
natureza do problema a resolver determina o objetivo do pensamento e este
objetivo orienta o processo do ato de pensar" (Dewey, 1959, p. 24). O
pensamento reflexivo deriva de partes sucessivas que procedem e se sustentam
umas às outras ordenadamente: "A correnteza, o fluxo, transforma-se numa série,
numa cadeia. Em qualquer pensamento reflexivo, há unidades definidas, ligadas
entre si de tal arte que o resultado é um movimento continuado para um fim
comum" (Dewey, 1959, p. 14).
O conceito de professor reflexivo também foi desenvolvido a partir das
contribuições de Zeichner, em meados de 80. A essência do conceito, para
Zeichner (1993), reside na experiência do próprio professor, quando este
adquire consciência e compreensão da necessidade de melhorar a sua ação. Essa
concepção remete para a aprendizagem ao longo da vida, pois significa que o
professor aprende e ensina, ao aprender, a ensinar. Na década de 90, um dos
grandes protagonistas da reflexividade foi o norte-americano Donald Schön. O
autor propõe a formação profissional para além dos currículos normativos, que
trazem a ciência separada de sua prática (Schön, 2000), uma vez que os
profissionais com esse modelo formativo não atendem as demandas cotidianas, já
que estas ultrapassam os conhecimentos postos pela ciência. No entanto, o
professor, para ser reflexivo, precisa desenvolver atitude interativa,
investigativa, de troca, avaliação, análise, compreensão, enfim, de reflexão, a
fim de que possa construir e reconstruir seus próprios planejamentos, em função
dos diferentes contextos, das diversidades dos alunos, das mudanças
curriculares, dos limites das próprias instituições e das parcerias e
cooperações firmadas (Zabalza, 2004b).
Neste estudo, enfocamos a reflexão sobre a ação docente, entendendo que esta
ocorre por meio de mediações e que leva ao desenvolvimento quando o professor
sistematiza um processo reflexivo sobre si, sobre o que tem feito e como tem
feito (Ferry, 2004). Assim, a temática exposta nos remete aos seguintes
questionamentos: Como se constitui um grupo de professores que refletem sobre a
docência superior no caminho da aprendizagem da docência? Quais os movimentos
construtivos do grupo reflexivo?
Para identificar os movimentos construtivos do grupo reflexivotomamos por
referência a concepção de movimentos construtivos da docência superior
identificada nos estudos de Isaia e Bolzan (2007a, 2007b). Por movimentos
construtivos compreendemos os diferentes momentos e fases que,
entrelaçadamente, vão se estabelecendo ao longo do tempo. No campo da docência
superior, referem-se aos distintos espaços e tempos que surgem ao longo da
carreira do professor, os quais envolvem o campo pessoal, profissional e
institucional, e as transformações ocorridas ao longo da trajetória dos
professores (Isaia & Bolzan, 2007a, 2007b). Ao longo dessa produção,
pretendemos elucidar o caminho seguido no decorrer do processo, demonstrando
como se constituiu o grupo reflexivo e os movimentos construtivos dele
decorrentes, no caminho da aprendizagem da docência superior.
Caminhos percorridos para compreensão do objeto de estudo
O estudo realizado caracteriza-se como qualitativo narrativo com
características de investigação-formação (Maciel, 2006). Qualitativo narrativo
uma vez que a narrativa constitui-se como estratégia de vinculação do
conhecimento do profissional com sua prática, ou seja, a narrativa representa a
organização, o conhecimento e as habilidades para (re)construir uma história,
esta entendida como o relato de atos, ações ou acontecimentos, apresentando
conexão moral e substancial (Gudmundsdottir, 1995). A investigação narrativa
pode ser entendida como um processo temporal e socialmente interativo, em que
os professores estão continuamente implicados numa tarefa, cuja história
experiencial é contada com palavras que permitem ao narrador refletir sobre
suas vivências, explicando-as aos demais. Assim, o professor está envolvido, ao
mesmo tempo, em viver, explicar, reexplicar e reviver suas histórias e as
histórias dos pares (Connelly & Clandinin, 1995).
Quinze encontros constituíram o grupo reflexivo formado por dezesseis
professores de um curso da área da saúde de uma instituição confessional do Rio
Grande do Sul, Brasil. Mediante conversas, compartilhamento de anseios e
sugestões, organizámos encontros com o objetivo de refletir sobre a docência
superior. Os encontros mensais foram pensados e programados com horário
determinado para seu início durante, aproximadamente, uma a duas horas,
conforme o grupo se desenvolvia. O diário de campo, de natureza descritiva,
constituiu um instrumento de registro dos apontamentos do grupo, sendo que a
descrição dos acontecimentos foi fundamental para a interpretação dos achados.
O diário de aula foi adotado pelos professores participantes do grupo
reflexivo, pois estes se constituem em "documentos onde os professores anotam
suas impressões sobre o que vai acontecendo em suas aulas" (Zabalza, 2004a, p.
13). Segundo Zabalza (2004a), o sentido básico do diário de aula é de "se
tornar um espaço narrativo dos pensamentos dos professores" (p. 41). É um
instrumento que permite explorar desde o planejamento até a execução, assim
como os resultados de uma aula, com suas conquistas e inquietações. O diário de
aula foi utilizado como um instrumento de reflexão coletiva, pois apesar de se
constituir em um instrumento individual e pessoal do professor, ele é fruto de
intersubjetivação e inter-relação entre os sujeitos no seu contexto de vida
docente.
A reflexão dos professores foi desencadeada mediante a realização de vivências.
As vivências foram previamente planejadas para cada encontro, entendendo-as
como uma estratégia, um modo de abordagem/condução do grupo, elaborada ou
adaptada de uma situação real ou até mesmo imaginária, geradora e instigadora
da reflexão, a partir da qual os professores experenciam determinada situação,
ou seja, sentem, vivem e revivem, experimentam e, a partir daí, aproximam-se do
cotidiano docente, (re)conceituam a atividade docente, propondo mudanças,
transformações.
As narrativas dos professores registradas do diário de campo, diário de aula e
transcrições do grupo reflexivo a partir das vivências constituíram-se no
corpus da investigação, que foi analisado via análise textual discursiva
(Moraes & Galiazzi, 2007). A análise textual discursiva traz como premissa
o transcurso de quatro momentos. O primeiro é um momento detranscrição das
narrativas oraisexpressas nos encontros de reflexão do grupo de professores. O
segundo momento é a leitura exploratória de todos os textos, através da análise
minuciosa dessas narrativas, seguidas de possíveis anotações e grifos das
informações consideradas relevantes acerca da temática pesquisada, o que se
denomina de unitarização dos termos ou desmontagem dos textos. Nesse segundo
momento, ainda consideramos relevante comentar que o recorte das narrativas
consistiu em um momento peculiar, pois os grifos e as análises anteriormente
realizadas foram sistematicamente reinterpretados e compilados em tabelas,
conforme a proximidade dos significados das vozes dos professores. O terceiro
momento se caracteriza pela construção de relações entre as unidades,
combinando-as e classificando-as, no intuito de permitir a compreensão das
mesmas e a eleição de categorias (Moraes & Galiazzi, 2007), que permitiu a
identificação dos movimentos construtivos. Consideramos que essa análise
constitui um trabalho denso no qual recolhemos as temáticas por repetições,
assim como os eventos que caracterizam as evoluções das situações expressas nas
narrativas dos professores. O quarto e último elemento constitui-se na produção
do metatexto. De acordo com Moraes e Galiazzi (2007), o metatexto pode ser
considerado como a construção de um novo texto que se origina a partir dos
textos originais, expressando a compreensão do pesquisador sobre os
significados e sentidos construídos a partir destes achados. Conforme os
autores:
Uma vez que as categorias estejam definidas e expressas
descritivamente a partir dos elementos que as constituem, inicia-se
um processo de explicitação de relações entre elas, no sentido da
construção e da estrutura de um metatexto. Nesse movimento, o
pesquisador, a partir dos argumentos parciais de cada categoria,
exercita a explicitação de um argumento aglutinador do todo. Este é,
então, empregado para costurar as diferentes categorias entre si, na
expressão da compreensão do todo (Moraes & Galiazzi, 2007, p.
30).
O conjunto de elementos que constituem esse método de análise se constituiu em
um processo capaz de organizar, orientar e sistematizar a análise e
interpretação dos dados coletados na pesquisa. As narrativas foram gravadas,
transcritas, analisadas e interpretadas e permitiram identificar a constituição
de um grupo de professores reflexivos (expressas no texto por meio de
pseudônimos). Essa abordagem organizou-se com o intuito de explorar as diversas
formas de expressão e reflexão do grupo, permitindo compreender a sua
constituição e os movimentos construtivos do mesmo.
O processo de constituição do grupo reflexivo
O tema da investigação teve como mote central os movimentos construtivos de um
grupo de professores que refletem sobre seu fazer no caminho da aprendizagem da
docência superior. Para tanto, buscamos compreender inicialmente a constituição
deste grupo. Assim, colocamos as seguintes indagações, que orientam a descrição
da dinâmica do grupo reflexivo: Como surge um grupo de professores reflexivos?
Como se organizam os encontros? O que os professores refletem? Qual abordagem
do grupal?
O grupo reflexivo surge pela necessidade identificada pelos professores de um
Curso Superior da área da saúde acerca de sua formação para a docência
superior, ou seja, através do diálogo inter-pares emerge a constituição de um
grupo disposto a refletir sobre o ser professor. Os momentos de convivência do
grupal foram delineando-se conforme o desenrolar dos encontros e necessidades
identificadas no grupo e pelo grupo. Todo o percurso se caracterizou como um
processo transversal e democrático em que os professores, como autores de suas
vidas e de sua aprendizagem, sugeriram temáticas, bem como participaram do
planejamento das vivências. As vivências constituíram-se em estratégia que
valorizou a participação de todos os professores, não os reduzindo a meros
informantes ou ouvintes, mas proporcionando um lugar em que se estabeleceu um
sistema ativo de interação e mediação entre os pares, que caracteriza a
situação investigada. Assim, acreditamos que esse movimento de vivência e
produção de si mesmo se constituiu em ferramenta para a [re]significação da
pessoa professor, identificando a dinâmica e os movimentos construtivos do
grupo reflexivo, uma vez que os professores tiveram a oportunidade de deixar
emergir para si e para o grupo as fases, as mudanças e as transformações
ocorridas durante sua trajetória docente.
A dinâmica do grupo reflexivo
Elegemos a descrição dos fatos, dos acontecimentos que permearam o acontecer
grupal, para a compreensão da dinâmica do grupo reflexivo. Utilizamos as
narrativas dos professores, que vêm ao encontro das interpretações realizadas,
no intuito de elucidar a explanação.
O grupo foi se constituindo a partir da narrativa geradora do pensamento
reflexivo dos professores. Ao narrar o diário de aula ou mesmo uma situação
vivida provocada pela vivência, observamos a dinâmica de atividade do grupo. Na
medida em que um professor narra sua vivência, revive-a e reconstrói numa outra
perspectiva. Isso quer dizer que, ao narrar um acontecimento vivido aos
colegas, o professor tem a possibilidade de afastar-se da situação, trabalhando
sobre suas representações mentais, reconstruindo-a a partir de um olhar mais
crítico, reflexivo. As narrativas dos professores demonstram essa constatação:
(...) ela me provocava e eu aceitava a provocação, e daí isso foi
extremamente ruim e eu sei que grande parte disso foi porque eu
estava entrando, porque eu ainda não me enxergava como professora
(Sirius).
Sabe, eu estava pensando, porque eu fui olhar nas questões dos exames e
realmente, embora eu acho que elas estejam certas, a forma de perguntar eu acho
que dei um nó na cabeça deles (Alkaid).
Os relatos demonstram percalços no exercício da docência e como, nesse momento,
conseguem perceber os acontecimentos numa outra perspectiva, nesse instante
voltando o olhar para si como professor. O distanciamento tomado no momento da
narrativa permite ao docente recorrer a sua memória, colocando-se como outro,
fazendo-se compreendido por aqueles que o escutam (Ferry, 2004). Na medida em
que o professor narra sua experiência, os demais, que estão na escuta cuidadosa
do colega, refletem sobre o acontecimento, buscando compreender a situação,
ponderando questões de natureza pessoal e profissional, "revivendo" ou
aproximando-se da vivência do colega, como explicitam as falas:
Talvez não tenha sido bem claro, tu não tenhas conseguido deixar bem
claro para a turma o diferencial que é essa disciplina. Talvez a
turma não tenha entendido (Giove).
Eu faço uma leitura bem diferente, na verdade, do que tu estás falando, eu acho
que eu volto a bater no mesmo ponto inicial, porque todo mundo tem disciplinas
e todo mundo já passou por situações de aperto aqui, mas o que mais me chama a
atenção é a tua insegurança (...). Tu dominas os métodos, tu sabes disso, mas
tu estás insegura, não sei se como pessoa ou como professora, nesse momento
(Errai).
Os professores passam a mediar a própria existência do grupo, participando e
procurando trazer à tona questões não percebidas pelo professor ou então
mantidas implícitas. Neste momento, percebe-se a mobilização de questões
profissionais e pessoais, que são indissociadas da vida do professor. Esse
caminho consiste em uma dinâmica de desenvolvimento que também é pessoal.
Assim, a aprendizagem da docência envolve o itinerário existencial na profissão
docente, mas também o desenvolvimento da capacidade de raciocínio a partir das
representações que adquire do mundo, descobrindo suas próprias capacidades,
seus próprios recursos (Ferry, 2004).
Na medida em que o grupo reflete sobre o problema narrado pelo colega, os
professores iniciam um movimento no qual "revivem" as suas experiências,
compartilhando-as e complementando com seu aprendizado na situação em foco. Ao
reviverem, reconstroem a sua própria vivência e passam a refletir sobre o seu
acontecimento vivido, ou seja, a reflexão de um professor gera a reflexão dos
demais colegas acerca de diferentes situações da docência superior. Seguem as
vozes dos professores:
Eu também ajo dessa maneira, mas eu, com o passar dos anos, a vida
vai ensinando a gente (Polaris).
O que eu fazia era tentar valorizar a pergunta dos outros, eu falava assim
"pessoal a pergunta que a colega está fazendo é muito importante (Alnair).
Percebemos que, a partir da narrativa docente, o grupo apresenta suas memórias,
seus percursos e suas vivências, conferindo circularidade ao acontecer do grupo
reflexivo. Esse dinamismo atribui momentos reflexivos oportunos que orientam
para o aprender a ser professor (Ferry, 2004).
A dinâmica do grupo reflexivo partiu das próprias experiências profissionais
dos professores e das necessidades evidenciadas a partir do cotidiano docente.
A estrutura e a constituição do grupo sofrem transformações de acordo com a
especificidade de cada componente e do momento vivido pelo grupo, pois geram
experiências, constroem aprendizados, assim como criam representações internas
desse grupo e dos seus membros (Souto, 2007). Em todo esse processo de
constituição do grupo, destacamos como relevante os papéis que os participantes
assumiram durante seu percurso. Dentre esses papéis, enfatizamos a figura do
pesquisador, do coordenador, que possui a função de conduzir as atividades do
grupo. Consideramos que a função de coordenar pressupõe a capacidade de não se
omitir, de conduzir sem monopolizar, orientar sem privar, valorizar sem expor
nem subjugar o outro, incitar sem constranger; enfim, mediar a participação no
e pelo grupo, fazendo com que ele se efetive como tal e não simplesmente como
uma reunião de pessoas. A ideia de coordenar o grupo reflexivo que assumimos
esteve em favorecer a análise e o desvelar das problemáticas e das soluções
pelos próprios professores, de maneira compartilhada e contextualizada,
envolvendo-os no permanente compromisso de reflexão sobre a ação.
De acordo com Ferry (2004), a condução de um grupo pode ser: cooperativa, na
qual a figura do coordenador coopera com o grupo na produção, organização e
regulação do mesmo; diretiva, ou centralizada no problema, quando este se
abstém de qualquer intervenção no conteúdo da discussão, limitando-se em
assumir as funções de organização e regulação do grupo; e não-diretiva, ou
centralizada no grupo, quando o coordenador contribui apenas para a regulação
do grupo, não assumindo outra função além da elucidativa. É possível, ainda,
conforme esclarece Ferry (2004), que haja formas mistas de conduzir um grupo;
como exemplo, cita a forma cooperativa na fase inicial e diretiva ou não-
diretiva posteriormente.
O acontecer grupal vai se estabelecendo pelo conjunto de docentes envolvidos
nas suas chegadas e despedidas, tendo em vista a incorporação de novos membros
no grupo, bem como o afastamento de outros professores que se arredam da
instituição. As características pessoais dos docentes que compõem o grupo
proporcionam momentos especiais de encontros e desencontros, que têm a
perspectiva de realmente discutir para aprender, mantendo e respeitando a
existência pessoal profissional de cada professor.
A constituição de um grupo está intimamente atrelada à motivação e implicação
pessoal pela docência e pelo compromisso que os profissionais assumiram em ser
professor e constituir-se verdadeiramente como tal, apesar dos percalços e
tropeços apresentados. O desafio da escolha de manter-se na docência superior
é, em alguma medida, amenizado pelas mediações e interações pessoais que vão se
estabelecendo nas velhas e novas parcerias que se instituem ao longo da
trajetória de ser professor. É importante ressaltar, também, que o grupo se
constituiu nas mediações, mediações essas que desencadeiam processos reflexivos
promissores na descoberta de si, do outro e da docência em todas as suas
dimensões. As mediações e interações do grupo, na medida em que seus membros se
conhecem e reconhecem no outro, estabelecem a possibilidade de seu aprender.
Desse modo, podemos inferir que todo esse processo reflexivo grupal
possibilitou o delineamento dos movimentos construtivos, os diferentes momentos
da vida em grupo que envolveram o percurso pessoal e profissional dos membros
que dele fizeram parte.
Movimentos construtivos do grupo reflexivo
As vivências grupais e a disposição de um professor capaz de refletir sobre a
sua aprendizagem permitem que ele adquira uma nova postura e estabeleça novas
redes de interações para a transformação da docência superior. A partir das
chegadas e despedidas, o grupo reflexivo se constituiu da narrativa e do
silêncio que foram se estabelecendo e consolidando a partir das vivências
pessoais e profissionais e das reconstruções mentais conscientes e
inconscientes que, gradativamente, são despertadas no processo grupal.
A partir do acontecer e da dinâmica grupal, foi possível identificar os
movimentos construtivos do grupo reflexivo. A definição de movimentos
construtivos do grupo decorre da conceituação de Isaia e Bolzan (2007a, 2007b)
sobre os movimentos construtivos da docência. Por movimentos construtivos do
grupo reflexivo compreendemos as distintas fases, momentos, que ocorrem ao
longo da trajetória de vida do grupo, assim como as transformações peculiares
advindas destas, conforme os acontecimentos e entrecruzamentos dos campos
psicológicos que vão se estabelecendo no espaço de vida grupal. Referem-se aos
momentos do próprio campo grupal que abarca as dimensões pessoais,
profissionais, individuais e sociais, envolvendo o contexto institucional bem
como as transformações que vão ocorrendo no campo grupal. Os movimentos
construtivos do grupo reflexivo delineiam-se a partir da dinâmica grupal
entrelaçada nos diferentes espaços de vida que compõem o grupo. Os movimentos
construtivos ' articulação inicial; aproximações e afastamentos; e continuum
reflexivo ' demonstram a circularidade do processo grupal, na medida em que se
transversalizam, apresentam-se mutantes tendo em vista as constantes
progressões e regressões, avanços e retrocessos.
A articulação inicialconstitui-se no movimento caracterizado pela dependência
dos participantes no desencadeamento do grupo, do processo reflexivo. Uma fase
caracteristicamente mais passiva, onde poucos falam e muitos ouvem, mas em que,
independentemente disso, os espaços de vida começam a entrecruzar-se, mesclando
o eu e o outro. Desejos e interesses, aspirações e concepções, surgem e vão
estabelecendo gradualmente o campo grupal. Nesse contexto, o silenciamento
assume distintos significados, como sentimentos grupais indicativos de
reflexão, inquietude, tranquilidade, insegurança, dúvida, medo ou vergonha.
Esses sentimentos também podem representar a resistência apresentada pelo
individual no processo grupal, um misto do eu e do outro que se conhecem,
desconhecem e reconhecem no desenrolar do grupo. O silêncio também pode
representar fuga de si mesmo ou do outro, pois o grupo torna-se revelador da
condição humana que aos poucos começa a emergir.
Os conflitos são inerentes ao processo grupal e nessa fase inicial são
dispostos pela contradição do eu individual e do eu grupal, ou seja, o que de
pessoal se apresenta no grupo e o que do grupo se incorpora no pessoal. Apesar
deste conflito, o objetivo de pertencer ao grupo e de manter-se no grupo
prevalecem, com base na implicação de aprender a ser professor. O diálogo que
segue demonstra essa constatação:
(...) eu acho que esse é um exercício que todos nós podemos fazer e
em que proporção a gente está conseguindo articular conhecimento
teórico/prático, esse conhecimento do fazer (Atria).
O curso é muita técnica (Giove).
Mas Giove, aí que está a verdadeira articulação da teoria com a pratica. Nós
conseguimos fazer isso nas nossas avaliações? Vamos dar uma olhada nas nossas
questões, se a gente realmente está conseguindo? (Atria)
O movimento de aproximações e afastamentos constitui-se na fase em que o grupo
desencadeia reflexões que, paulatinamente, assumem "corpo", e por meio das
quais se fomenta a aprendizagem docente. Este movimento demonstra os constantes
avanços e retrocessos, idas e vindas pertinentes ao encontro e desencontro dos
diferentes espaços de vida das pessoas/professores que constituem o grupal.
Nessa trajetória de aprender a ser professor, uma das características marcantes
que aproxima é o olhar para si, uma espécie de introspecção individual a partir
do grupal que encontra as fragilidades, as angústias, os medos, mas também as
motivações pessoais e profissionais com a docência superior:
(...) quando a gente consegue se ver, se enxergar com as nossas
limitações e com as nossas possibilidades, a gente consegue também
perceber isso mais próximo no outro, aceitar e trabalhar isso no
outro. Porque não é só ver, perceber e criticar, avaliar, mas é
perceber e trazer pra si. (...) eu acho que no momento em que você
começas a te olhar um pouco mais, refletir sobre tuas atitudes,
sentimentos, acredito que você aprimora o teu olhar sobre o outro
(...) (Talitha).
Nessa caminhada de olhar para si, percebe-se, há o reconhecimento do eu
professor e da sua prática. Na medida em que os professores colocam-se para o
grupo, mostram-se como pessoa e como profissional, o que remete ao movimento de
aproximação do grupal. Para Ferry (2004), a perspectiva de trabalho grupal
pressupõe também a dinâmica de desenvolvimento pessoal, o que está além da
aquisição de conhecimento e da aprendizagem de habilidades para o
desenvolvimento de uma profissão.
Outra característica desse movimento construtivo é a indissociabilidade pessoa/
professor. Incontestavelmente, o professor é uma pessoa que evolui
constantemente e, nessa dinâmica de aprender, precisa aprender a perceber-se, a
construir uma visão de si mesmo em busca de autorrealização (Abraham, 1986). As
falas a seguir são representativas deste posicionamento.
(...) Estou com a percepção de vida e mundo alterada ou perturbada,
estou em conflito, coisa que não é novidade, nem o último, estou
sempre em conflito (...) realmente estou com problemas pessoais,
talvez até não tão reais, mas emocionais, como se não sentisse
fisicamente (...) (Errai).
(...) esse semestre eu passei por algumas crises, por alguns momentos assim, eu
acho que isso é normal com a gente que está vivendo nessa prática reflexiva,
justamente o expor, no caso para vocês, um pouco do que aconteceu comigo em
alguns momentos (Sirius).
Apesar das importantes aproximações manifestadas pelo grupo, incorrem também
alguns afastamentos. Esses são interpretados a partir dos movimentos de
resistência apresentado pelo grupo nas suas idas e vindas. Resistência essa
gradativamente manifestada, na medida em que se instituem momentos de
conflitos, de forças de maior tensão no grupal. Seguem as vozes.
Eu vou falar aquilo que eu percebi (...) percebi uma ênfase, um apego
ao conhecimento específico em detrimento do pedagógico. Eu acredito
que isso está aparecendo em todos os momentos; não vejo como uma
falha, não é isso que estou dizendo, vejo como uma característica
forte e falo para que a gente possa sair daqui refletindo sobre isso
(Atria).
(....) eu continuo pensando assim, talvez eu consiga entender hoje, de tanto
vocês falarem, mas acho que por repetição (...) (Giove).
É pertinente à constituição do grupal a origem de conflitos; crises, juízos,
sentimentos, crenças, valores, conhecimentos representativos do eu pessoal e
profissional se aproximam e se afastam na busca em aprender a ser professor.
Esse movimento demonstra o confronto, as tensões do mundo interior de cada
professor com aquelas que emergem do campo grupal, diferentemente das crises
manifestadas no movimento de articulação inicial, por sua dimensão, intensidade
e profundidade alcançadas. Relevante é destacar que as forças que aproximam o
grupo precisam ser maiores do que aquelas que afastam. Assim, o movimento de
aproximações e afastamentos toma um duplo sentido, pois apresenta forças
opostas mas que mantêm o professor no grupo, na busca pela sua aprendizagem
docente (Lewin, 1965).
O continuum reflexivo é marcado por dois elementos a considerar: (1) a reflexão
grupal para o grupal e (2) a reflexão grupal para a reflexão individual. O
primeiro elemento refere-se à retomada da reflexão do grupo trazida novamente
para o grupo, no final do encontro, abordando componentes implícitos, não
ditos, e explícitos, manifestos. O segundo diz respeito ao que cada professor
leva do grupo para si, manifestado a partir da significação e da representação
do grupo na vida desses professores.
Segundo Ferry (2004), reflexão denota o ato de refletir e tratar de compreender
o objeto de estudo, num determinado tempo e espaço, para o trabalho de si
mesmo. Isto se dá para além do individualismo reflexivo e da hegemonia
autoritária, nos quais o professor reflete somente em torno de si próprio, pois
esse pensar sobre si germina do coletivo devidamente apropriado, através da
compreensão da gênese e da circunstância que gerou tal reflexão. Apresentam-se
as vozes dos professores, reconhecendo o grupo reflexivo como dispositivo que
desencadeia reflexões contínuas e demonstrando o movimento do grupal para o
grupal e do grupal para o individual:
Eu acho que a nossa participação, a conversa, isso agrega bastante. A
gente consegue trocar, eu não vou ter as tuas ações como minhas
experiências, mas já consigo refletir um pouco mais sobre outras
situações (Alkaid).
Na prática reflexiva de hoje eu senti duas coisas diferentes, bem antagônicas.
Um, achei perfeita a discussão, ótima oportunidade, só que por outro lado eu
fiquei chocada (...). Quantos anos tem o curso e é a primeira vez que está
acontecendo isso? De ver que algumas coisas precisam ser colocadas antes,
outras depois. Hora de ajuste do curso! (Polaris)
O continuum reflexivo representa o eco da reflexão grupal na vida do professor,
que se refere ao movimento consecutivo de todo o processo grupal. Cada membro
leva do grupo aquilo que era do coletivo, mas interioriza conforme a sua
essência, possibilidade e desejo. Allport (1948), ao reportar-se à teoria
lewiniana sobre grupos, apresenta a metáfora: "assim como o leito do rio talha
a direção e o ritmo do fluxo d´água, o grupo determina o curso da vida do
indivíduo. Esta interdependência entre a base e o curso configurado é
inevitável, íntima, dinâmica, mas também indefinível" (p. 8), ou seja, não há
como prever o curso da vida e as repercussões do grupo reflexivo no constituir-
se professor dos integrantes do grupo em longo prazo, mesmo havendo essa
interdependência do pessoal com o grupal e dos distintos campos psicológicos de
seus membros.
Reflexões finais
O grupo de professores reflexivos foi se constituindo e demarcando suas
expectativas em relação ao processo da docência superior e se manteve a partir
das próprias vivências e experiências, que deram a tônica, o motivo e a
finalidade para pertencer a esse grupo. As reflexões grupais realizadas
tornaram-se mais ricas a partir das experiências de vida e de formação dos
próprios professores. Indicaram, assim, que a sistematização de um grupo
reflexivo precisa, necessariamente, considerar as expectativas nele contidas,
além de proporcionar o envolvimento dos participantes, ou seja, as narrativas
surgidas da reflexão coletiva precisam ser exploradas de maneira natural,
espontânea, compartilhada com seus pares, pois as vivências pessoais
profissionais constituem uma excelente fonte para essa reflexão.
Entendemos que o grupo reflexivo constitui-se em dispositivo que contribui para
a aprendizagem docente, à medida que a reflexão grupal sobre o cotidiano do
professor, a interação com os sujeitos e com o meio [re]significam a docência
superior. Porém, a constituição do grupal exige conhecimentos e habilidades
próprias ao campo teórico conceitual envolvido, mas, acima de tudo, a
disposição e o compromisso das pessoas/professores com sua formação. Esta
implica um permanente processo de aprendizagem. O professor só se transforma se
ele aceita aprender, o que envolve um itinerário vivencial-profissional.
Para a efetivação do grupo propriamente dito, foi preciso considerar as suas
fases de constituição bem como administrar os eventos inerentes a estas. Assim,
os movimentos construtivos do grupo reflexivo ' articulação inicial;
aproximações e afastamentos; e continuum reflexivo ' constituíram-se nas fases,
nos momentos da vida em grupo que gradativamente foram se instituindo. Conforme
o grupo foi aumentando vínculos e afetos, tornou-se a âncora para aprender a
docência superior, propagando a reflexão nas dimensões individual e grupal,
desvelando o eu pessoal e profissional dos professores.
Desse modo, o grupo de professores reflexivos constitui-se no tempo e lugar de
seus participantes articulados com o contexto institucional. Demonstra-se
favorável à formação para a docência superior, uma vez que emergem
necessidades, expectativas e limitações que são evocadas e reconstruídas
coletivamente, proporcionando a reflexão e possível transformação do saber e do
fazer docente.
A partir do exposto, podemos inferir que mobilizamos novas construções para o
campo teórico, uma vez que descrevemos a constituição e a dinâmica do que
denominamos grupo de professores reflexivos, no qual delineamos os movimentos
construtivos desse grupo. Este construto teórico torna-se relevante, pois pode
se constituir em suporte teórico conceitual para pesquisas futuras.
O diagrama apresentado a partir da análise da dinâmica grupal sistematiza e
demonstra o caminho apreendido mediante as reflexões dos professores no grupo
que levaram aos movimentos construtivos delineados, mobilizando novas
construções metodológicas para a área estudada. Os caminhos escolhidos para
efetivação do grupo representam possibilidades emergentes para que espaços-
lugares de formação do professor sejam gradativamente instituídos, nos
distintos territórios da educação superior, acenando para a melhoria da
qualidade da docência universitária.