O ensino da Expressão Musical e Dramática no 1.º CEB - O caso da Região
Autónoma da Madeira: Uma visão curricular
RESUMÉ
En revisitant les lieux communs du curriculum, proposés par Schwab (1973)
(l'étudiant, l'enseignant, le contenu, le processus de développement du
curriculum et le contexte), nous proposons de faire une révision globale du
curriculum de l'Expression Musicale et Dramatique dans le 1er Cycle de
l'Éducation Basique dans la Région Autonome de Madère (RAM), Portugal, en
concernant particulièrement l'Expression Musicale, mais avec des références
occasionnelles au 2ème Cycle de l'Éducation de Base et à l'Éducation Artistique
en général. On part d'une étude de cas, dans lequel on utilise des
questionnaires, des interviews, un focus group et l'observation, pour obtenir
informations des multiples personnes qui participent au projet (les
coordinateurs, les professeurs, les élèves et leurs parents)..
Mots-clé: Curriculum; Régionalisation; Éducation Musicale; Éducation Artistique
Introdução
Partindo dos lugares-comuns do currículo ' o aluno, o professor, os conteúdos,
o processo de desenvolvimento curricular e o contexto ', procurámos analisar a
situação do ensino da Expressão Musical e Dramática na Região Autónoma da
Madeira (RAM), tomando o 1.º CEB como ponto de partida, e com ênfase na
Expressão Musical, ainda que englobando referências ao 2.º CEB e à Educação
Artística em geral. Para tal, começaremos pelo contexto, referindo-nos à
problemática da regionalização do currículo, mais premente ainda quando tomamos
por referência uma região insular, periférica e dotada de maior autonomia
curricular. Ao nível do ensino da música, verifica-se, na RAM, uma preocupação
pela recuperação de património local, quer ao nível de práticas instrumentais
regionais, quer de composições de autores locais.
Ao nível do processo de desenvolvimento curricular, analisaremos a estrutura
organizacional que sustenta todo o processo curricular, as formas de regulação
curricular presentes e a articulação dos conteúdos ligados à Educação Musical
com o currículo do Ensino Básico. Faremos uma breve apresentação dos conteúdos
focalizados e da organização curricular eleita. Destacaremos ainda o papel
desempenhado pelos professores, desde a caracterização da sua formação inicial
e contínua, passando pelas suas perspetivas pessoais de identificação com o
projeto e valorização profissional. Por fim, será feita uma breve referência
aos alunos e respetivos encarregados de educação.
A Educação Artística no 1.º CEB tem sido alvo de atenção por parte de teóricos
e práticos da educação em muitos países ocidentais. Apesar da sua inclusão no
plano dos discursos, a prática revela ainda uma consciência deficiente da
necessidade de proporcionar programas de formação musical coerentes a todas as
crianças desde o início da escolaridade. O Governo Regional da Região Autónoma
da Madeira, através do Gabinete Coordenador de Educação Artística (GCEA), tem
desenvolvido, ao longo dos últimos 30 anos, um projeto de Educação Musical e
Dramática direcionado a todas as crianças do 1.º CEB. O conhecimento e a
análise da experiência de ensino acumulada por este projeto pode ser
particularmente relevante para a reflexão que atualmente tem vindo a ser
realizada no continente, resultante da introdução das Atividades de
Enriquecimento Curricular do 1.º CEB, em 20061. Atualmente, todas as crianças
que frequentam o 1.º CEB na RAM recebem aulas de Expressão Musical e Dramática,
em regime de monodocência coadjuvada, assegurada essencialmente por professores
de música2. As orientações curriculares, a seleção, contratação e formação
contínua desses professores, assim como a prestação de contas sobre os
resultados do projecto, são da responsabilidade do GCEA.
Perante este contexto, foi desenvolvido um projeto de investigação, contando
entre os seus objetivos o de caracterizar o projeto desenvolvido pelo GCEA
quanto aos princípios fundamentais a nível da estrutura, organização,
orientações curriculares e pedagogia, e o de compreender o papel da formação
contínua de professores no mesmo. O presente artigo pretende resumir alguns dos
contributos a esse nível, posicionando-se numa perspetiva exclusivamente
curricular3. Ao nível metodológico, optou-se por uma metodologia de índole
sobretudo qualitativa, embora com contributos de natureza quantitativa. A
recolha de dados ocorreu mediante observação de aulas, notas de campo dos
investigadores, análise documental, entrevistas semi-estruturadas e inquéritos
por questionário a professores generalistas, professores de Expressão Musical e
Dramática e encarregados de educação, entrevistas não estruturadas a
responsáveis do GCEA e entrevista focus group com crianças. Os dados foram
recolhidos entre Novembro de 2007 e Setembro de 2009.
O contexto: regionalização do currículo
Atravessamos um período de intensa globalização, com crescente influência de
instâncias supra-nacionais ao nível da decisão curricular (Seabra, 2010). No
entanto, ainda que o contexto global ganhe influência, a globalização não é um
processo homogéneo e bottom-up, antes se encontrando intimamente ligado com os
contextos locais. Na medida em que o currículo é um veículo produtor de
identidades, a crescente consciência da necessidade de construir identidades
nacionais e locais num mundo em franca globalização tem vindo a crescer ao
mesmo tempo que as pressões hegemónicas para a homogeneidade (Pacheco &
Pereira, 2007). A Lei de Bases do Sistema Educativo prevê a existência de
componentes regionais e locais no currículo, as quais poderão contribuir para
esse desígnio.
A discussão do currículo regional requer uma perspetiva curricular que se
posicione face ao currículo enquanto construção dinâmica e permanente, na
medida em que "o currículo regional só se torna possível se rompermos com os
processos uniformes e estandardizados de decisão curricular" (Pacheco, 2003, p.
1). As conceções estruturalistas e funcionalistas do currículo assentam numa
perspetiva baseada na atuação de especialistas ao nível da administração
central para a definição de um currículo nacional, de natureza normativa, que
deverá ser implementado em todas as regiões de igual modo. Atravessando nós um
momento de forte recentralização do controlo curricular, como é evidenciado
pelo recurso crescente à avaliação externa, ou aos rankings, que pressionam no
sentido da uniformidade curricular, a discussão da regionalização do currículo
é desafiante, apelando ao recurso a modelos abertos do currículo, apoiados nas
teorias pós-estruturalistas.
Ao nível nacional, têm ocorrido iniciativas no sentido da regionalização do
currículo nos contextos insulares, tendo a Região Autónoma dos Açores
introduzido o conceito de currículo regional' em 2001 (Sousa, 2007) e
publicado um currículo regional do Ensino Básico (RAA/SREC, 2005), subsidiário
do currículo nacional, o qual se baseia no pressuposto de que a insularidade
ultraperiférica contribuiu para a criação de características culturais
próprias. Este currículo regional enfatiza aspetos do património histórico,
cultural, linguístico e artístico da Região Autónoma dos Açores. Baseia-se numa
lógica de diferenciação curricular assente na profissionalidade docente e,
consequentemente, no esforço de adequar o currículo às características dos
estudantes, incluindo a sua identidade local e regional. Visando uma
aprendizagem significativa, não se limita a transmitir conteúdos próximos dos
estudantes açorianos, antes englobando diferentes níveis de proximidade:
competências para a cidadania (nacional), para a insularidade, e para a
açorianidade (Sousa, 2007). No caso da RAM, embora não existindo um currículo
regional, emprega-se a expressão regionalização do currículo', a qual aponta
para um processo mais do que para um resultado final, e para a qual contribui a
Educação Artística proporcionada pelo GCEA.
O currículo nacional inclui em si uma fragmentação entre as áreas curriculares
disciplinares, áreas curriculares não disciplinares e de complemento
curricular, sendo estas últimas facultativas e de natureza cultural (Pacheco,
1994). Esta divisão carece de sentido na medida em que todas estas atividades
devem ser entendidas como esforços convergentes no sentido da formação integral
dos educandos (Ribeiro, 1990, cit. por Pacheco, 2004). Neste sentido, a
descurricularização que tem vindo a afectar as áreas expressivas e a componente
cultural do currículo enferma do risco de desculpabilizar a escola na sua
integralidade de prosseguir objetivos de natureza cultural. O espaço do não
disciplinar e do complemento curricular tem sido perspetivado como o espaço por
excelência para a componente local, regional e cultural do currículo, desde o
advento da Área-Escola, passando pela Área de Projeto (Pacheco, 1994) e pelas
Atividades de Enriquecimento Curricular, cuja coordenação tem vindo a
desenvolver-se ao nível da escola e do município, permitindo maiores margens de
autonomia (Pacheco, 2008; Pereira, 2008).
Foi assim com a Educação Artística, introduzida nas escolas do Ensino Básico do
continente em 2006, pelo Ministério da Educação, como atividade de complemento
curricular. Ora, sendo a Educação Artística, nomeadamente a Educação Musical,
parte integrante do currículo nacional do Ensino Básico, regulamentada pelo
Decreto-Lei n.º 344 de 1990, e definida no documento "Currículo Nacional do
Ensino Básico ' Competências Essenciais", de 2001, gerou-se então uma situação
curricular ambígua, em que um mesmo elemento surge como parte integrante do
currículo, a ser trabalhado pelo professor titular de turma, e como complemento
curricular, a ser ministrado por um professor especialista, redundando no
reconhecimento tácito de que, enquanto elemento curricular, a Educação Musical
não tem sido implementada com sucesso pelos professores do 1.º CEB (Mota, 2001,
2007; Boal-Palheiros & Encarnação, 2008), que, na sua maioria, se sentem
incapazes de lecionar as áreas artísticas, considerando as suas competências
nesse domínio insuficientes para fazer face às exigências do currículo (Mota,
2003).
Um efeito secundário desta política, constatado no terreno, tem sido a
desresponsabilização de muitos dos professores do 1.º CEB pela Educação
Artística, com a correspondente subalternização curricular destas áreas face às
áreas científicas que correspondem ao core curriculum, e cuja lecionação ganhou
terreno à custa das Expressões, relegadas ao plano de complemento curricular.
Esta situação é particularmente perigosa na medida em que, como complemento
curricular, estas atividades são de natureza facultativa. Nas palavras de Mota
(2007, p. 4), "o lugar da Música no currículo do EB continua a ter contornos
pouco claros e a ser encarado como algo que, embora esteja aparentemente
assumido, se situa numa zona de alguma marginalidade tanto em termos
conceptuais como pragmáticos". Fortes implicações para a formação inicial e
contínua, quer dos professores do 1.º CEB, quer dos professores especialistas '
contratados a nível municipal, e nem sempre portadores de habilitações para a
docência, além de privados das condições profissionais dos restantes colegas de
profissão ', devem ser retiradas desta situação. O facto de os professores
responsáveis pelas atividades de enriquecimento curricular terem condições
laborais e por vezes grau académico e preparação pedagógica4 inferior ao dos
professores do 1.º CEB coloca-os numa posição de relativa marginalidade
profissional.
Contrastando com a realidade vivida no continente português, na RAM a Educação
Artística tem vindo a receber atenção considerável, englobando uma forte
perspetiva regionalizante. Em 2003, no I Encontro Regional dos Professores de
Educação Musical da Madeira, foi tomada a decisão de regionalizar o currículo
de Educação Musical do 2.º CEB na RAM. Os objetivos visados por esse processo
de regionalização foram: "(1) Inserir no currículo práticas musicais que
ajudassem o aluno a integrar-se nas estruturas sociais que o rodeiam; (2)
conservar o património musical madeirense, disperso por várias fontes e em
risco de se perder, através da educação; e (3) fortificar a identidade
regional, numa época de forte globalização económica e cultural". Os conteúdos
regionais deveriam representar 30% do currículo e, após experiências em
escolas-piloto, este projeto foi alargado a todas as escolas da região em 2006/
2007 (Esteireiro, 2007, p. 3).
No âmbito deste projeto, foi feita a recolha e produção de material didáctico
sobre música madeirense, editado sob a forma de livro didático. Foi realizada
formação de professores para a implementação das propostas de atividade
compreendidas neste material. Os estudantes envolvidos no estudo-piloto foram
incentivados a colaborar na recolha de músicas tradicionais e tiveram
oportunidade de conviver de perto com músicos madeirenses (idem). Esta
iniciativa foi alargada ao 3.º CEB em 2009, e tem sido motor da recolha
continuada de património musical madeirense. Para além de dois manuais de apoio
ao professor, apoiados por CD-ROM e CD áudio, foram ainda publicados diversos
livros com pautas de músicas da região e um livro com biografias de músicos
madeirenses.
A par desta iniciativa, focalizada, como referimos, nos 2.º e 3.º CEB, as
Modalidades Artísticas oferecidas como complemento curricular a todas as
crianças (incluindo as do 1.º CEB), com o objetivo de "fomentar as práticas
artísticas nas escolas, visando a dinamização dos eventos organizados dentro e
fora da escola" (Secretaria Regional de Educação e Cultura, 2010, p. 9),
incluem a modalidade de Cordofones Tradicionais Madeirenses, que conta entre os
seus objetivos específicos para o 1.º CEB:
Reconhecer a diversidade do panorama musical madeirense, português, europeu e
mundial através da visionação, audição e análise de trechos tradicionais ou
provenientes da música étnica (europeia e mundial);
Adquirir um conhecimento geral dos vários instrumentos tradicionais madeirenses
(ibidem).
Entendemos, desta forma, que a Educação Musical levada a cabo sob a orientação
do GCEA, que é realizada no 1.º CEB, inclui elementos regionalizantes do
currículo, ainda que a presença da região se faça sentir de forma mais presente
e estruturada nos 2.º e 3.º CEB. A modalidade artística de Cordofones
Tradicionais Madeirenses, embora seja de complemento curricular e, como tal,
facultativa, permite a parte dos estudantes desta região conhecer e contribuir
para a preservação de práticas musicais culturalmente relevantes no contexto
madeirense. Realçamos ainda o facto de o intuito de contribuir para a
regionalização do currículo do 2.º CEB ter sido motor de um trabalho de recolha
e manualização de músicas tradicionais madeirenses, contribuindo assim
diretamente para a preservação do património artístico e cultural da região.
O processo de desenvolvimento curricular
Todo o processo de desenvolvimento curricular é levado a cabo por atores
dotados de relativa autonomia e inseridos em estruturas organizativas que
importa descrever de forma a facilitar a compreensão do modelo curricular em
questão. O programa tem uma magnitude muito significativa, abarcando toda a
ilha da Madeira, o que só é possível na presença de uma organização bem
estruturada, neste caso corporizada pelo GCEA. Este gabinete depende da
Direcção Regional de Educação da Secretaria Regional de Educação e Cultura. Na
sua dependência encontram-se, entre outros, o Gabinete de Apoio à Educação
Artística (DAEA) e a Divisão de Expressões Artísticas (DEA)5.
O projeto nasceu em 1980 envolvendo um pequeno grupo de professores do 1.º CEB,
sob a direção de um então professor do Conservatório de Música e de uma
professora do 1.º CEB especializada em Expressão Dramática, mas rapidamente
passou a dirigir-se a estudantes de música, embora continuasse a trabalhar com
professores do Pré-Escolar e 1.º CEB. Este núcleo veio a dar origem ao GCEA,
que contou com o apoio do Governo Regional. A hierarquia do GCEA inclui o
Diretor (Carlos Gonçalves, um dos mentores originais do projeto), três
coordenadores das várias divisões de intervenção, os coordenadores concelhios,
os professores de apoio à Expressão Musical e Dramática e os alunos. Cada
coordenador concelhio é responsável, ao nível do concelho, por um número
variável de professores de apoio, com quem reúne a cada duas semanas para
planificar conjuntamente as actividades letivas e cujas aulas supervisiona,
sendo cada aula assistida alvo de um relatório enviado ao GCEA. Por sua vez, os
coordenadores concelhios reúnem quinzenalmente com a coordenadora do DAEA e com
a Coordenadora Regional de Áreas Artísticas, recebendo indicações, discutindo
problemas encontrados e dando conta da aplicação do projeto ao nível do
terreno.
Verificamos, assim, a existência de uma estrutura curricular fortemente
centralizada no GCEA, com formas de regulação curricular direta, através dos
coordenadores concelhios, que funcionam, na prática, como sistemas
desconcentrados mas não descentralizados, uma vez que a decisão e a prestação
de contas emerge de e dirige-se ao gabinete, sendo os professores de apoio e os
próprios coordenadores concelhios mais executores das decisões centralmente
tomadas do que propriamente decisores curriculares. As entrevistas realizadas
aos elementos do GCEA revelaram quatro temas emergentes, dos quais três são
consistentes com esta perspetiva, importando ser referidos quanto a este ponto:
a) agentes de inovação; b) magnitude do programa; c) liderança e pertença.
Estando envolvidos na génese e desenvolvimento do projeto, estes elementos têm
o sentimento de terem originado um projeto inovador. As entrevistas revelaram
também a magnitude do programa, abrangendo toda a ilha, assente numa estrutura
hierárquica de coordenação e organização que permite ao GCEA controlar
globalmente as práticas docentes, com base numa liderança forte.
Os quatro manuais escolares produzidos pelo GCEA surgem como instrumentos
reguladores do currículo, uma vez que, embora não sejam obrigatórios, a
realização de atividades dos manuais é fortemente aconselhada6 e verificada
pelos coordenadores concelhios. Estes manuais revelam, a nível do seu conteúdo,
predomínio da performance, em detrimento das atividades de composição e
audição. A observação de aulas (n=34) por elementos do projeto confirmou esta
posição: observou-se um predomínio de atividades de canto ou prática
instrumental, estando as atividades de audição e composição praticamente
ausentes. As componentes referidas (performance, audição e composição) integram
quer o currículo nacional (ME/DEB, 2001), quer as orientações programáticas
para a Expressão Musical (DEB, 2004), ao nível do 1.º CEB.
A Educação Musical e Dramática chega às crianças do 1.º Ciclo de duas formas
claramente demarcadas: por um lado, as aulas curriculares de Expressão Musical
e Dramática, com presença de uma hora semanal na matriz curricular e de
natureza obrigatória, contribuindo para a avaliação dos estudantes, que deve
ser feita em colaboração pelo professor de apoio e pelo professor titular de
turma; por outro lado, as Modalidades Artísticas, de complemento curricular,
facultativas e com a duração de 90 minutos por sessão semanal. São oferecidas
às crianças 5 modalidades artísticas: Canto Coral, Grupo Instrumental,
Cordofones Tradicionais Madeirenses, Dança e Expressão Dramática.
As orientações curriculares encontram-se definidas no documento "Projecto
Curricular: Áreas Artísticas no 1.º Ciclo do Ensino Básico. Curricular e
Enriquecimento Curricular", da autoria da Divisão de Apoio à Educação Artística
do GCEA (2010). Este documento compreende 11 objetivos gerais, formulados sob a
forma de competências (ex.: Desenvolver competências e conhecimentos aos
níveis: vocal e instrumental), revelando alguma indefinição conceptual que não
lhe é exclusiva, antes parecendo caracterizar as práticas curriculares ao nível
do Ensino Básico (Seabra, 2010). Estes objetivos gerais são próprios a este
documento, não sendo decalcados da Organização Curricular e Programas do 1.º
CEB (DEB, 2004), ou do Currículo Nacional do Ensino Básico (ME/DEB, 2001),
sendo posteriormente operacionalizados em tabelas que, para cada ano
curricular, elencam conteúdos, aos quais correspondem competências de natureza
específica. O mesmo documento elenca os objetivos gerais para cada uma das
Modalidades Artísticas e um conjunto de critérios de avaliação, de natureza
genérica, a considerar, sem indicação das ponderações que cada um desses
elementos deve convocar. A margem de autonomia curricular deixada ao professor
é, assim, muito mais ampla nas atividades de complemento curricular do que no
tocante à componente curricular, e, nesta, está menos definida no que respeita
à avaliação do que no que respeita aos conteúdos a trabalhar e competências a
promover. A centralização da decisão curricular parece, no entanto, residir de
forma mais premente nas práticas de planificação e supervisão, que preveem um
acompanhamento muito próximo por parte dos coordenadores concelhios, e nos
próprios manuais, do que do projeto curricular em si mesmo.
Embora sejam lecionadas pelos professores de apoio à Expressão Musical e
Dramática, as aulas curriculares devem contar com a presença obrigatória do
professor titular de turma. As observações de aulas realizadas por elementos da
equipa de investigação revelaram que, embora esteja sempre presente nas aulas,
o professor titular de turma raramente se envolve nas atividades desenvolvidas.
Os dados recolhidos por inquérito, adiante apresentados em maior detalhe,
apontam no mesmo sentido. Assim, o modelo preconizado no artigo 8.º da LBSE, de
monodocência coadjuvada (Mota, 2007), é claramente o previsto para o projeto,
embora possa encontrar dificuldades ao nível da implementação.
Ainda ao nível extra-curricular, o GCEA promove a realização de Encontros de
Modalidades e de um espetáculo anual, transmitido pela televisão regional, o
MusicaEB. Estas atividades contribuem fortemente para a visibilidade social do
projeto e, em última análise, através da prestação de contas que a apresentação
de resultados finais comporta, para a sobrevivência do próprio projeto. Se, por
um lado, estas iniciativas presenteiam as crianças com a oportunidade de levar
para o palco as suas performances musicais e dramáticas, deixando marcas
importantes nos seus percursos pessoais, por outro, entendemos haver grande
investimento nestes produtos, em detrimento do processo (e, uma vez mais, da
audição e da composição). A preparação do MusicaEB esteve muito presente nas
reuniões a que assistimos com os coordenadores concelhios e destes com os
professores, ocupando boa parte do ano letivo. Esta ideia foi reforçada por um
dos elementos do GCEA entrevistados, que afirmou verificar-se um exacerbar em
torno do MusicaEB, que, mais do que um mostruário do trabalho desenvolvido ao
longo do ano, se transformou, no seu entender, num espetáculo preparado desde
Janeiro. Acresce, à preparação deste produto final, a dinamização de inúmeras
festas a nível escolar e local, para as quais a colaboração dos professores de
apoio é convocada. Pese embora o facto de o Documento Orientador das
Actividades Artísticas no 1.º Ciclo explicitar que a responsabilidade da
organização de tais festas não compete ao professor de apoio, devendo este, no
entanto, colaborar com o Conselho Escolar nos projetos de Natal, Páscoa e Final
de Ano, na prática as aulas parecem incidir muitas vezes sobre a preparação de
um produto (festa da escola ou MusicaEB), em detrimento da preocupação com o
processo.
O papel dos professores
Entre 1980 e 2009, 261 professores de apoio ensinaram nas escolas do 1.º CEB na
Madeira, tendo recebido o apoio do GCEA sob a forma de workshops regulares,
supervisão e reuniões de trabalho. A participação dos professores em atividades
institucionais, sobretudo nos grupos vocais e instrumentais, é fortemente
incentivada, visando contribuir para o desenvolvimento das suas competências
musicais. Verifica-se um cuidado importante em proporcionar boas condições de
trabalho a estes professores. O professor de apoio às actividades artísticas
integra o Conselho Escolar, no qual tem direito a voto, existe um conjunto de
preocupações no sentido de lhe garantir um horário organizado e deve lecionar
as atividades de complemento curricular às mesmas turmas a que leciona
atividades curriculares. Há ainda forte investimento ao nível da formação
contínua dos professores: aqueles que lecionam no projeto há menos de dois anos
devem frequentar formação no GCEA uma vez por mês, aqueles que pela primeira
vez atuam ao nível do Pré-Escolar são obrigados a fazer formação, e todos são
obrigados a frequentar no mínimo uma ação de formação por ano no GCEA. Os
contactos tidos com os professores de apoio, a par da documentação consultada,
sustentam um quadro de forte valorização profissional dos professores de apoio
integrados no projeto. Esta situação contrasta, no entanto, com a reduzida
autonomia curricular, que, como vimos, lhes é deixada.
Os questionários enviados a professores titulares de turma confirmam a posição
sustentada por Mota (2003) quanto à sua falta de confiança na realização de
atividades formativas nas áreas artísticas, a par de insuficiência da sua
formação de base a este nível, bem como a sua participação apenas marginal nas
atividades de ensino artístico desenvolvidas pelos professores de apoio.
Foram enviados 132 questionários a professores titulares de turma, tendo-se
obtido um retorno de 107. Mais de 60% destes professores afirmaram não ter
qualquer preparação em termos de música e drama. Aqueles que, pelo contrário,
referiram possuir formação a este nível (aproximadamente 33%) receberam
formação contínua proporcionada pelo GCEA, que se evidencia como a instituição
formadora mais relevante para os professores do 1.º Ciclo na RAM. Questionados
sobre a sua possibilidade de assumir responsabilidade pelas aulas de música e
drama, 64,5% consideraram ter falta de confiança e preparação para o fazer. Ao
nível das práticas, a grande maioria (mais de 90%) dos professores titulares de
turma nunca participou em atividades formais de música ou drama. Quase todos
(92,5%) afirmam permanecer na sala de aula durante as atividades curriculares
de música e drama; no entanto, apenas 9,3% reconhecem participar ativamente nas
mesmas.
No que respeita aos questionários enviados a professores de música e drama
(n=71, num total de 83 enviados), estes confirmam a baixa participação dos
professores titulares de turma nas aulas de Expressão Musical e Dramática, e
revelam um quadro docente jovem e, em boa parte, qualificado: cerca de metade
(49%) tem licenciatura em Educação Musical, 14% em Ensino Básico ' 1.º Ciclo e
10% em Educação de Infância (em ambos os casos, com formação musical pelo
GCEA); 10% são profissionais de música e drama sem licenciatura (formados pelo
GCEA); e 13% têm formação pelo Conservatório de Música. Na sua maioria (51,4%),
têm idade inferior a 30 anos e menos de 5 anos de experiência profissional
(n=41). Muitos participam em atividades extra-curriculares de música e drama
organizadas pelo CGEA, com o objetivo de aumentar as suas competências
artísticas. A maioria considera que os professores titulares de turma são pouco
colaborativos, inviabilizando a continuidade do trabalho por eles desenvolvido
ao longo da semana.
As entrevistas aos professores de apoio permitiram identificar dois perfis
distintos: por um lado, os professores oriundos do continente, e por outro os
locais (muitos dos quais estudaram no continente e regressaram). Os professores
do continente tendem a perspetivar a docência na RAM como uma experiência
transitória; poucos são os que permanecem mais de uma década. Assim, o seu
nível de envolvimento no projeto tende a ser mais superficial e procuram evitar
o confronto direto com o GCEA. Já os professores madeirenses revelam um
envolvimento mais profundo com o projeto (por vezes, já experienciado por eles
enquanto alunos do 1.º Ciclo), que se sentem mais capazes de flexibilizar e
adaptar.
Os alunos
Foi realizado um focus group (n=50) com crianças, inquirindo-as a respeito da
sua participação no MusicaEB e nas aulas de Expressão Musical e Dramática. Os
resultados indicam que a generalidade dos alunos que connosco colaborou aprecia
as aulas de Expressão Musical e Dramática. Aqueles que já participaram num
MusicaEB referem ter gostado de aparecer na televisão e a importância de fazer
bem o playback. Os que não participaram dividem-se entre o sentimento de
rejeição e a noção de que, ao participar nos ensaios, também contribuíram para
o evento. Aqueles que vão participar pela primeira vez mostram-se preocupados
com o público. Por fim, os que participaram nas gravações queixam-se do número
de repetições que tiveram de fazer.
Ao falar de crianças do 1.º Ciclo, a perspetiva dos pais e encarregados de
educação não pode ser desconsiderada. Responderam a um questionário 226 pais e
encarregados de educação. A maioria possui um nível académico baixo (55,9%) e
mais de 40% afirma raramente participar em eventos culturais. No entanto, 80,5%
referem participar regularmente nos eventos em que os seus filhos estão
envolvidos, e 98,7% apoiariam a escolha, pelo seu filho, de uma carreira
musical.
Conclusão
O estudo de caso realizado ao longo de três anos na RAM permite-nos descrever
um projeto com potencialidades e fragilidades ao nível curricular.
Seguindo novamente o percurso indicado pelos lugares comuns do currículo de
Schwab (1973), começamos por considerar o contexto. Sendo a Madeira uma região
insular e ultraperiférica, sujeita aos efeitos da globalização educacional (e
não só), os contributos para a regionalização do currículo, no sentido da
afirmação de uma identidade regional e da preservação da herança cultural, são
dignos de nota. A Educação Musical tem impulsionado esse desígnio, nomeadamente
a recolha e edição de música tradicional madeirense ou o ensino dos cordofones
tradicionais madeirenses.
Ao nível do conteúdo e do processo de desenvolvimento curricular, que
analisámos conjuntamente, encontramos um cenário mais problemático. Se, por um
lado, existe um sistema eficaz que garante o acesso de todas as crianças do 1.º
CEB a aulas curriculares de Expressão Musical e Dramática num modelo de
monodocência coadjuvada, a colaboração entre professores de apoio e titular
poderia ser melhorada. Ainda que num contexto curricular obrigatório e
avaliado, com a presença obrigatória dos professores titulares, as aulas de
Expressão Musical e Dramática parecem ser da responsabilidade exclusiva dos
professores de apoio, com reduzido apoio dos colegas titulares de turma e,
consequentemente, reduzida transversalidade dos conteúdos de Educação Artística
com as restantes áreas curriculares.
A organização curricular é fortemente centralizada no GCEA, desconcentrada
através dos coordenadores concelhios, que reúnem quinzenalmente quer com o
gabinete, quer com os professores, assumindo funções de supervisão (incluindo
assistência a aulas) dos professores de apoio e assegurando a comunicação nos
dois sentidos. Embora eficaz, este controlo muito próximo das práticas
docentes, a par de um currículo centralmente definido e da adoção de um manual
quase obrigatório da autoria do Gabinete, deixa uma margem autonómica de
adaptação curricular muito reduzida aos professores. As orientações
curriculares, organizadas por objetivos gerais, conteúdos e competências de
natureza específica, parecem ser menos relevantes para esta centralização do
que as práticas supervisivas implementadas. A par das atividades curriculares,
desenvolvem-se várias atividades de complemento curricular, facultativas, e
claramente distintas daquelas, que contribuem para o aprofundamento dos
conhecimentos e das práticas artísticas das crianças, permitindo-lhes envolver-
se em momentos de performance musical. Não se verifica, a este nível, a
ambiguidade curricular que se regista no continente português.
Em relação aos conteúdos, a análise dos manuais e a observação de aulas revelou
uma centração na performance musical, em detrimento da audição e da composição.
Este facto é ainda reforçado pela colonização que parece existir das aulas de
Expressão Musical e Dramática pela preparação de produtos finais ' animação de
festas, encontros de modalidades e, em particular, o MusicaEB, cuja preparação
se inicia em Janeiro, ocupando grande parte do ano letivo. Verifica-se, assim,
um certo desequilíbrio face aos objetivos e competências que norteiam o
currículo da Expressão Musical no 1.º CEB, com ênfase na performance e nos
produtos finais.
No que respeita aos professores, verifica-se, numa nota muito positiva, o
investimento na sua profissionalidade, oferecendo-lhes boas condições laborais,
bons horários, participação no Conselho Escolar a par dos colegas titulares de
turma e amplas oportunidades de formação contínua. Negativamente, regista-se a
insuficiente articulação com os professores titulares de turma e a já referida
falta de autonomia profissional. Os resultados confirmaram a insuficiente
preparação dos professores titulares de turma para fazer frente às exigências
do currículo nacional no que concerne à Educação Artística.
Por fim, relativamente às crianças, verifica-se um agrado generalizado pelas
atividades, incluindo o MusicaEB, embora com reservas quanto a este evento por
parte daquelas que nunca participaram, algumas das quais sentindo-se excluídas,
e daquelas que participaram na gravação, que consideraram esta atividade
repetitiva. Temos reservas acerca das virtudes pedagógicas deste evento, que
perspetivamos mais como um momento de prestação de contas perante a comunidade
e o Governo Regional do que como um momento formativo. A Educação Musical e
Dramática poderá estar a ter um impacto positivo também sobre os pais, na
medida em que participam nos eventos em que os seus filhos estão envolvidos e
mostram estar disponíveis para apoiar uma carreira musical por parte destes. O
aprofundamento do estudo do impacto do programa a este nível, de forma
longitudinal, poderá ser uma perspetiva de trabalho interessante para estudos
futuros.
Salvaguardadas todas as diferenças contextuais, será interessante refletir
sobre os elementos deste projeto que poderão iluminar o currículo da Expressão
Musical no 1.º CEB no continente. Destacam-se, a este nível, as condições
profissionais e a formação contínua oferecidas aos professores de apoio, a
aposta num modelo de monodocência coadjuvada e a separação clara entre a
Educação Musical integrada no currículo (obrigatória) e as atividades de
enriquecimento curricular, que não substituem a primeira mas antes a
complementam (facultativas). No que toca ao projeto proporcionado pelo GCEA, a
forte ênfase nos produtos e na performance apresentam-se como pontos a
melhorar, na medida em que descuram outras dimensões previstas no currículo
nacional para a Educação Musical.