Parceria família-creche na transição do bebé para a creche
Introdução
Em Portugal, tal como em vários países da União Europeia, o número de crianças
pequenas com ambos os pais a trabalhar a tempo inteiro é bastante elevado (mais
de 60%; Organization for Economic Co-operation and Development [OECD], 2011),
pelo que se torna essencial debater questões relativas aos cuidados e educação
de crianças entre os 0 e os 6 anos (OECD, 2011). Com as mudanças sociais e
políticas que decorreram em Portugal nas últimas décadas, e considerando o
facto de nem todas as famílias poderem contar com a rede de apoio familiar para
cuidar dos seus bebés, o número de famílias que recorre aos serviços das
creches tem vindo a aumentar nos últimos anos (Comité Português para a UNICEF,
2013). Em 2012, as creches e amas dos centros urbanos do país apresentavam uma
taxa de ocupação acima dos 80% (Equipa de Estudos e Políticas, 2013). Esta
procura das creches por parte das famílias é acompanhada pelo aumento da taxa
de cobertura das respostas sociais para a primeira infância (creche e ama) que,
sendo de 46.2%, em Portugal continental, em 2013, reflete um aumento da taxa de
cobertura das creches de cerca de 66% na última década (Equipa de Estudos e
Políticas, 2014). Com base nestes dados, e considerando que um dos objetivos da
creche é colaborar com a família na partilha de cuidados e responsabilidades no
processo evolutivo das crianças (Portaria n.º 262/2011, de 31 de agosto),
importa destacar que é fundamental que os pais e os profissionais das creches
encontrem formas eficazes de cooperar no processo de educação das crianças
(Drugli & Undheim, 2012; National Association for the Education of Young
Children [NAEYC], 2009; Portugal, 2012; Powell, 2003).
De entre as dimensões que compõem a complexidade do contexto de creche, a
literatura tem realçado a importância da qualidade da relação família-creche na
promoção do desenvolvimento e da adaptação da criança (Bronfenbrenner, 2005;
Drugli & Undheim, 2012; Owen, Klausli, Mata-Otero, & Caughy, 2008). A
comunicação família-creche pode ser particularmente relevante no momento da
transição do contexto familiar para o contexto de creche (Peixoto et al.,
2014), uma vez que este é um período em que as famílias, as crianças e os
profissionais se deparam com desafios muito exigentes. Por exemplo, este pode
ser um momento de grande exigência para os profissionais das creches (Daniel
& Shapiro, 1996), considerando que, muitas vezes, estes desenvolvem as suas
funções em condições de trabalho pouco estáveis (e.g., alta taxa de
rotatividade do pessoal) e a sua formação em educação e desenvolvimento é
variável e/ou reduzida (e.g., a legislação portuguesa - Portaria n.º 262/
2011, 31 de agosto - não requer que haja um profissional com formação
superior em educação de infância a trabalhar nas salas de berçário). Já ao
nível do bebé, a entrada na creche, pela primeira vez, implica o
estabelecimento de relações com adultos até aí desconhecidos, bem como a
adaptação a espaços e rotinas diferentes, isto numa fase em as crianças ainda
estão a construir relações de vinculação com os principais prestadores de
cuidados no contexto familiar (Daniel & Shapiro, 1996). Para as famílias, e
particularmente no caso de Portugal, em que o nível de qualidade das creches
parecem ser, de acordo com os estudos conhecidos, consideravelmente baixo
(Barros & Aguiar, 2010; Pessanha, Aguiar, & Bairrão, 2007), este é
também um período crítico. De facto, a literatura refere que as famílias
esperam das creches um serviço de elevada qualidade, a garantia do bem-estar do
bebé, bem como a existência de um diálogo aberto e contínuo com os
profissionais da creche (Daniel & Shapiro, 1996).
É amplamente aceite que parcerias efetivas entre pais e educadores, ou entre
famílias e escolas, contribuem para a promoção do desenvolvimento e de
aprendizagens significativas (Giovacco-Johnson, 2009; NAEYC, 2009). Ademais, a
pertinência de investigar esta temática fundamenta-se nos princípios do
enquadramento conceptual apresentado por Bronfenbrenner (1979), cujo contributo
na área da educação e desenvolvimento é irrevogável. Na sua perspetiva
bioecológica do desenvolvimento, Bronfenbrenner e Morris (1998) destacam o
papel que os diferentes contextos/microssistemas nos quais a criança interage
desempenham no desenvolvimento e na aprendizagem, salientando que, para além do
impacto de cada contexto, as transações entre os diferentes contextos (por
exemplo, entre o contexto familiar e a creche) são de extrema importância.
Acrescentam ainda que estas relações entre contextos, denominadas relações
mesossistémicas, podem potenciar o desenvolvimento se forem robustas, apoiantes
e caracte rizadas por uma comunicação bidirecional. Tendo por base este quadro
teórico, a investigação tem privilegiado o estudo dos microssistemas das
crianças em idades precoces, demonstrando que uma qualidade mais elevada, quer
a nível do ambiente familiar, quer a nível da creche, está associada a
resultados desenvolvimentais positivos (Burchinal, Peisner-Feinberg, Bryant,
& Clifford, 2000; Howes & Olenick, 1986; Pinto, Pessanha, & Aguiar,
2013).
Considerando dois dos contextos de desenvolvimento primordiais das crianças
pequenas, isto é, o contexto familiar e o contexto de creche, bem como as
transações entre eles, Dunst, Trivette e Snyder (2000) descrevem as relações de
parceria entre educadores e famílias como experiências participativas que
potenciam o empoderamento de todos os envolvidos. A "parceria" é
definida, por estes autores como um trabalho conjunto entre famílias e
profissionais para alcançar um objetivo comum. A literatura destaca o
envolvimento parental como um importante indicador da colaboração e parceria
família-creche (e.g., Swartz & Easterbrooks, 2014; Zellman & Perlman,
2006), sendo vários os estudos que destacam a relevância desta dimensão da
parceria para o desenvolvimento e aprendizagem das crianças (e.g., Gaunt &
Scott, 2014). No âmbito de uma parceria efetiva, famílias e profissionais
partilham processos de tomada de decisão e responsabilidades, numa relação de
confiança e respeito, criando ligações entre as experiências da criança no
ambiente familiar e no contexto de creche (Leavit, 1995; Owen, Ware, &
Barfoot, 2000). Estas componentes da definição de parceria implicam uma
disposição para a ação, tanto por parte dos pais como dos educadores que, ao
procurar partilhar informação sobre o comportamento e experiências da criança,
contribuem para um maior conhecimento e compreensão mútua sobre a mesma (Dunst
& Dempsey, 2007; Owen et al., 2000). Realçando a importância destas
parcerias, a literatura refere que este maior conhecimento influencia
positivamente a qualidade dos cuidados que são prestados à criança, quer pelos
pais, quer pelos profissionais (Elicker, Noppe, Noppe, & Fortner-Wood,
1997; Owen et al., 2000).
Sendo amplamente aceite o caráter mútuo e recíproco das interações entre
fatores dos contextos e o desenvolvimento e/ou comportamento dos indivíduos
(Bronfenbrenner & Morris, 1998), é importante considerar que as relações
entre os contextos de desenvolvimento das crianças (nomeadamente entre a creche
e família) são influenciadas não só pelas características destes contextos, mas
também pelas características das pessoas que os constituem. Neste sentido, tem
sido identificada na literatura uma variedade de características do ambiente
familiar, dos pais e das próprias crianças como estando associadas ao tipo de
relações e parcerias estabelecidas entre as famílias e a creche. Bradley (2010)
refere que famílias caracterizadas por maior "caos familiar" (p.
137), que pode resultar de vivência de experiências traumáticas ou adversidade
crónica, tendem a ter relações "menos produtivas" (p. 138) com os
cuidadores dos seus filhos. Shpancer (1998) enumera também, na sua revisão,
várias características das famílias que podem influenciar o envolvimento dos
pais na educação dos seus filhos em contexto de creche, como, por exemplo, o
nível socioeconómico da família, as habilitações literárias dos pais e o número
de elementos do agregado familiar. Relativamente às características das
crianças que podem influenciar a parceria família-creche, num estudo com
crianças com menos de 3 anos, Pirchio, Taeschner e Volpe (2011) encontraram
associações positivas entre a qualidade das relações de parceria e o
temperamento das crianças, nomeadamente características descritas como sendo
típicas de crianças com temperamento fácil (por exemplo, emocionalidade
positiva e disposição social positiva). No que diz respeito a outras
características das crianças, a literatura nem sempre é conclusiva. Por
exemplo, Swartz e Easterbrooks (2014) relatam que a idade não está associada à
comunicação entre famílias e educadores, enquanto outros estudos referem que
pais e educadores comunicam mais quando as crianças são mais novas (e.g.,
Endsley & Minish, 1989).
Importa ainda destacar que a existência de comunicação entre pais e os
prestadores de cuidados foi identificada como uma variável característica dos
contextos de educação e cuidados de elevada qualidade, tendo Ghazvini e
Readdick (1994) encontrado uma associação positiva entre a qualidade da creche
e a quantidade de comunicação bidirecional entre as famílias e os prestadores
de cuidados.
A NAEYC (2009) reforça igualmente a relevância desta dimensão, incluindo nas
suas orientações uma secção específica dedicada ao estabelecimento de relações
de reciprocidade entre os profissionais de educação e as famílias, bem como ao
papel que estas relações podem desempenhar na educação e no desenvolvimento das
crianças. Nas suas várias publicações, sublinha ainda que, quanto mais novas as
crianças, maior é a necessidade de os profissionais de educação e as famílias
estabelecerem relações de parceria, de modo a partilharem mais informação que,
por sua vez, lhes permitirá adequar as suas práticas, garantindo um melhor
ajustamento e continuidade entre os contextos. Em Portugal, também a Segurança
Social, através do Manual de Processos-Chave para a Creche (Segurança Social,
2010) evidencia valorizar a dimensão da parceria creche-família, reforçando que
as creches devem promover relações de proximidade e autênticas parcerias com as
famílias das crianças que acolhem.
Apesar de toda a importância dada na literatura à parceria família-creche,
existe ainda pouco conhecimento sobre a forma como estas parcerias se processam
entre as famílias e os cuidadores de crianças em contexto de creche (Drugli
& Undheim, 2012; Owen et al., 2000; Shpancer et al., 2002), especialmente
quando o foco são crianças com menos de 12 meses de idade. O estudo das
influências das relações família-cuidadores no desenvolvimento e adaptação dos
bebés é também escasso. Assim, com este estudo, pretende-se contribuir para uma
melhor compreensão das relações família-creche em idades precoces, tendo como
objetivos (a) descrever as atitudes e a probabilidade de comportamentos de
parceria, tal como relatadas por educadoras e mães de bebés durante o primeiro
mês em que os bebés frequentam o contexto de creche, e (b) explorar relações
entre os relatos das mães e os das educadoras relativamente às suas atitudes e
à probabilidade de ocorrência de comportamentos de parceria, bem como
associações entre esses relatos e características dos contextos familiar e de
creche. Considerando a revisão da literatura, formularam-se as seguintes
hipóteses: (i) as mães dos bebés e as educadoras a trabalhar em salas de
berçário valorizam as parcerias família-creche e revelam disponibilidade para
se envolverem em comportamentos de parceria; (ii) existe uma relação positiva
entre a formação das educadoras e os relatos destas acerca da parceria família-
creche; e (iii) mães com um ambiente familiar de melhor qualidade e com um
nível de escolaridade mais elevado relatam atitudes e comportamentos mais
positivos face à parceria família-escola.
Método
Participantes
Participaram na presente investigação mães e educadoras1 de 90 bebés que
iniciaram a frequência do berçário entre setembro de 2013 e março de 2014. Os
berçários foram selecionados aleatoriamente, de acordo com o processo que se
descreve de seguida.
Todas as creches da grande área metropolitana do Porto (listadas no site da
Segurança Social), com salas de berçário, foram ordenadas aleatoriamente e
contactadas no final do ano letivo 2012-2013, até que 90 instituições com bebés
inscritos para iniciar a frequência do berçário entre setembro de 2013 e março
de 2014 aceitassem participar. De igual modo, foi pedido que, em cada creche,
fosse selecionada, de forma aleatória, uma família para integrar o projeto,
sendo que essa família deveria: ter pré-inscrito o seu filho para iniciar a
frequência do berçário quando a criança tivesse entre os 4 e os 9 meses de
idade, dado que, no âmbito do projeto alargado no qual este estudo se insere,
importava assegurar que os bebés não transitariam para a sala de 1-2 anos
durante esse ano letivo. Na grande maioria das instituições contactadas existia
apenas uma família que cumpria este requisito.
A Comissão Nacional de Proteção de Dados aprovou todos os procedimentos de
confidencialidade e de segurança previstos. Todos os métodos de recolha de
dados foram explicitados aos diretores das instituições, aos educadores da sala
de berçário e às famílias participantes, e foram obtidos os seus consentimentos
informados para a realização do estudo.
No que se refere às características das famílias que participaram neste estudo,
o rendimento familiar médio era de 1622.40€ (DP=670.77), as mães participantes
tinham uma idade média de 30 anos (DP=3.98) e tinham, em média, 14.33 anos de
escolaridade (DP=3.55). Mais especificamente, mais de metade das mães
participantes tinha um curso superior (59%) e apenas 3% tinha uma escolaridade
inferior ao 3.º ciclo do ensino básico, isto é, menos de 9 anos de escolaridade
completos. Os bebés participantes no estudo distribuíam-se equitativamente em
termos de género (45 eram do género feminino e 45 do género masculino), e
tinham idades compreendidas entre os 4 e os 10 meses (M=6.0, DP=1.34). Cerca de
42% dos bebés eram filhos únicos.
Relativamente às educadoras, estas apresentavam uma grande variabilidade em
termos de características como a idade (M=42.53, DP=9.97), anos de escolaridade
completos (M=11.10, DP=3.64) e experiência em contexto de creche (M=8.36,
DP=6.50). De salientar que apenas 13 (14.4%) profissionais tinham frequentado o
ensino superior, tendo concluído um curso superior na área da educação de
infância. No entanto, em cerca de 44% das instituições que não tinham uma
educadora com formação na área como responsável da sala, existia um
profissional com formação superior com funções de supervisão do berçário, dando
apoio às profissionais sem formação superior que desempenhavam funções na sala.
Todos os profissionais participantes eram do género feminino.
No que concerne às características das instituições/salas, alguns dados
considerados relevantes, tais como tipo de instituição e rácio criança-adulto,
foram também recolhidos. Destaca-se a elevada variabilidade encontrada nos
rácios criança-adulto observados, existindo salas com rácios de 1:1, e outras
com rácios bastante superiores, com o máximo de 8:1 (M=3.38, DP=1.49). A média
de crianças por grupo era de 6.38 (DP=2.34) e de profissionais por sala era de
2 (DP=0.60). Apenas oito das instituições que participaram no estudo eram
privadas com fins lucrativos, sendo as restantes Instituições Particulares de
Solidariedade Social (IPSS).
Instrumentos
Escala de Parceria Educadores - Pais(CPPS; Ware, Barfoot, Rusher, &
Owen, 1995, 2013). A CPPS foi traduzida e adaptada para português por Barros,
Pessanha, Pinto e Cadima (2013), após autorização dos autores para utilização
da mesma. Este processo incluiu várias fases: tradução inicial, revisão da
tradução, elaboração de uma retroversão e breve estudo piloto. O recurso à
retroversão teve como finalidade, tal como sugerido na literatura (e.g.,
Sireci, Yang, Harter, & Ehrlich, 2006), assegurar a qualidade da tradução e
garantir uma maior fidedignidade da versão portuguesa. O estudo piloto foi
realizado com educadoras com experiência em contexto de berçário e com mães de
crianças que frequentavam salas de creche. Este processo permitiu analisar a
adequação/compreensão dos itens e das instruções do questionário e serviu para
que fossem efetuadas pequenas alterações na formulação dos itens, de forma a
garantir um melhor ajuste do questionário aos potenciais participantes.
Esta escala consiste num questionário composto por duas partes. A primeira
parte, baseada em Timberlawn Research Foundation (1993), inclui 19 itens, com
os quais se pretende recolher dados quanto às atitudes e crenças relativas à
parceria entre as famílias e os profissionais das creches (e.g., item 8
"Para satisfazer as necessidades de uma criança, os educadores devem
efetivamente conversar e trabalhar com a família"; item 18 "O
conhecimento do educador/pais acerca da criança ajuda os pais/educadores a
compreenderem-na melhor"). Cada item é cotado numa escala de 5 pontos, em
que 1 significa discordo totalmente e 5 significa concordo totalmente. A
segunda parte permite recolher informação sobre a probabilidade de ocorrência
de comportamentos que contribuem para uma melhor parceria entre as famílias e
as creches (e.g., item 23 "Elogiar um pai/mãe pela sua competência em
lidar com o filho?; item 33 "Discutir os problemas da criança com o pai/
mãe?"), e é composta por 16 itens igualmente cotados numa escala de 5
pontos (1=altamente improvável; 5=altamente provável). Esta escala inclui duas
versões: uma para pais e outra para educadores/cuidadores.
Os autores da escala propõem o cálculo de um fator para a parte do questionário
relativa às atitudes (com um total de 15 itens na versão para educadores e 14
itens na versão para pais), e de três fatores para a segunda parte do
questionário, nomeadamente: Partilhar Informação, Procurar Informação e
Relações entre Adultos (Owen, Ware, & Barfoot, 2000). De salientar que,
nesta proposta dos autores, os itens que compõem cada um dos três fatores são
diferentes nas versões dos questionários para pais e educadores. No entanto,
esta estrutura de organização dos itens encontrada pelos autores parece não se
adequar aos dados deste estudo em particular, como indicado pelos valores de
alfa entre .11 e .77. Para além disso, tendo em conta que este estudo pretende
comparar atitudes e comportamentos de educadoras com atitudes e comportamentos
de mães, consideramos que as dimensões das duas versões deverão ser
constituídas pelos mesmos itens. Assim, tendo em conta que os itens das partes
1 e 2 do questionário procuram avaliar as variáveis latentes Atitudes e
Comportamentos, respetivamente, procedeu-se ao cálculo da consistência interna
para cada uma destas partes. Relativamente à primeira parte, foi criada uma
variável compósita com base no cálculo da média dos 13 itens e denominada
Atitudes. Para a segunda parte do questionário foi calculada apenas uma
variável denominada Probabilidade de Comportamentos, com base na média de 14
dos 15 itens do questionário. As mesmas dimensões foram utilizadas para ambas
as versões do questionário - pais e educadores -, e os valores de
consistência interna foram de .75 e .65, respetivamente, nas Atitudes, e de .70
e 80, na Probabilidade de Comportamentos.
Questionário de Características Estruturais - Berçário (QCE-B; Barros,
Pessanha, Pinto, & Cadima, 2013). Este questionário foi elaborado para
recolher informação de caráter estrutural sobre as salas de berçário e os
profissionais que lá trabalham (e.g., número de crianças da sala, número de
adultos da sala, anos de escolaridade dos profissionais da sala).
Questionário sobre características sociodemográficas da família (Pessanha,
Barros, Pinto, & Cadima, 2013). Este questionário permite recolher
informação sobre características da família (e.g., elementos do agregado
familiar, rendimento familiar, anos de escolaridade).
The Home Observation for Measurement of the Environment Inventory (HOME;
Bradley & Caldwell, 1984, 1997). Para avaliar a qualidade do ambiente
familiar, foi utilizada a versão portuguesa da HOME para crianças entre os 0 e
os 2 anos de idade. Este instrumento é composto por 45 itens dicotómicos
(0=não; 1=sim), organizados em seis subescalas que procuram medir: (a) a
responsividade verbal e emocional dos pais, (b) a aceitação dos comportamentos
da criança, (c) a organização do ambiente físico e do tempo da criança, (d) a
disponibilização de materiais de aprendizagem adequados, (e) o envolvimento dos
pais com a criança, e (f) a oportunidade para experimentar variedade na
estimulação diária. Neste estudo, foi utilizada a pontuação global, obtida
através da soma de todos os itens (α=.69).
Infant Behavior Questionnaire - Revised (IBQ-R; Rothbart & Gartstein,
2013). Para avaliar o temperamento do bebé, recorreu-se ao IBQ-R. Este é um
questionário vastamente utilizado e vários estudos têm apresentado bons
indicadores de validade, adequação e consistência interna (e.g., Clark, Hyde,
Essex, & Klein, 1997; Klein, Putnam, & Linhares, 2009; Rothbart, 1981).
Neste estudo, foram utilizados dados relativos aos três fatores propostos por
Gartstein e Rothbart (2003): Extroversão (α=.96), Afetividade Negativa (α=.85)
e Regulação (α=.78).
Procedimentos
Recolha de dados. Todos os dados foram recolhidos no primeiro mês de frequência
do berçário por parte do bebé, mais precisamente entre a segunda e a quarta
semana de frequência, com exceção dos dados relativos à qualidade do ambiente
familiar e ao temperamento das crianças que foram recolhidos, em contexto
familiar, antes do bebé começar a frequentar a creche.
As educadoras e as mães preencheram a CPPS autonomamente, e individualmente, no
contexto de creche. No entanto, um investigador esteve sempre presente para
esclarecer as dúvidas dos respondentes ao longo do preenchimento do
questionário. Os questionários sociodemográficos foram preenchidos recorrendo a
entrevistas.
Todos os dados foram recolhidos entre junho de 2013 e março de 2014 por
psicólogas com formação e treino prévios na utilização dos instrumentos.
Análise de dados. Considerando os objetivos do presente estudo, o processo de
análise de dados passou pelo recurso a estatística descritiva e inferencial
(análises de correlação e de diferenças de médias). Foram utilizadas as
convenções propostas por Cohen (1992) para interpretar os resultados,
considerando-se pequeno um r de .10 (associação fraca), médio um rde .30
(associação moderada) e grande um r de .50 (associação forte), e tendo como
referência o nível de significância de .05 (cf. Field, 2005).
Resultados
De acordo com os dados obtidos, ambos os grupos de participantes revelaram
valorizar uma relação de parceria entre a creche e a família, na qual pais e
profissionais partilhem informação relevante sobre o bebé. Numa escala de 1 a
5, em que 5 representa elevada concordância com atitudes de colaboração e
parceria entre pais e educadores, as médias das respostas das mães e das
educadoras estão acima de 4 (M=4.59 e M=4.49, respetivamente), revelando um
elevado nível de concordância com estas atitudes (ver Quadro_1).
Análises descritivas ao nível dos itens permitiram verificar que 73.3% das mães
discordam da afirmação de que os pais devem colaborar na planificação das
rotinas e atividades da sala dos seus bebés. Por outro lado, com uma
percentagem de 99% de respostas no pólo positivo da escala (concordo ou
concordo totalmente) estão os itens referentes aos seguintes aspetos: (a)
importância do acordo entre pais e educadores sobre as formas de lidar com um
problema de comportamento da criança, (b) valorização do facto de os educadores
conhecerem os pais das crianças ao seu cuidado, e (c) importância de os pais
saberem o que os seus filhos fizeram durante o dia na creche. De forma
semelhante aos resultados encontrados para os relatos das mães, o item mais
valorizado pelas educadoras, com 100% das respostas a situarem-se no concordoou
concordo totalmente, refere-se ao facto de que "O educador deve conhecer
os pais das crianças que estão ao seu cuidado". Também as duas atitudes
mais valorizadas pelas mães (importância do acordo entre pais e educadores
sobre aspetos relativos à educação das crianças e dos pais e educadores se
conhecerem) foram altamente valorizadas pelas educadoras. Por fim, e tal como
para os relatos das mães, também os relatos das educadoras refletem uma
desvalorização do papel dos pais na planificação das rotinas e atividades dos
bebés na creche, com 80% das educadoras participantes a discordarem e/ou
discordarem totalmente da afirmação que traduz a ideia desta colaboração.
No que concerne aos relatos de probabilidade de comportamentos que contribuem
para uma parceria efetiva, mães e educadoras apresentaram valores médios
próximos do nível 4, tal como se verificou para as atitudes. Revelavam, assim,
a sua disposição para atuar no sentido de desenvolverem parcerias
caracterizadas por uma comunicação bidirecional frequente, pela participação em
atividades conjuntas e pela partilha de responsabilidades na educação e
desenvolvimento das crianças (M=3.84 e M=4.23, respetivamente). É de destacar
que as respostas das educadoras, relativamente à probabilidade dos seus
comportamentos de parceria com famílias de bebés, apresentavam uma maior
variabilidade do que os relatos das mães (DP=0.56 e DP=0.42, respetivamente).
Assim, 7.8% das educadoras descreviam como improvável apresentarem os
comportamentos de parceria listados (M<3.00), embora uma elevada percentagem
das suas respostas (43.30%) se situe no nível 4, isto é, provável. Na versão
respondida pelas mães não se registaram respostas no nível improvável. O valor
mínimo obtido na dimensão Probabilidade de Comportamentos nos questionários das
mães foi de 3, indicando como provável desenvolverem os comportamentos de
parceria listados na CPPS. Tal como nos relatos das educadoras, embora com uma
percentagem superior, a grande maioria das mães (i.e., 75.6%) situava as suas
respostas no nível 4.
Relativamente aos Comportamentos mais e menos prováveis, todas as mães referiam
como provável, ou altamente provável, questionarem a educadora relativamente ao
comportamento do seu bebé durante o dia na creche. Contrariamente, partilhar
informações sobre si com os educadores dos seus filhos parecia ser o
comportamento de parceria menos provável, com 27.8% das mães a indicar como
improvável e/ou altamente improvável que este comportamento ocorresse, e 40% a
referir que poderia acontecer ou não, dependendo das situações. No mesmo
sentido, também este comportamento era relatado pelas educadoras como pouco
provável, com 41% a situar as suas respostas no improvável e/ou altamente
improvável. Os comportamentos mais provavelmente desenvolvidos pelas educadoras
eram relativos a itens da CPPS que se referiam à partilha de informação com os
pais sobre as novas competências dos bebés e sobre os seus dias mais difíceis.
Apesar de ambos os grupos valorizarem atitudes positivas relativamente à
parceria e manifestarem elevada probabilidade de desenvolverem comportamentos
que contribuíssem para uma parceria efetiva (ver Quadro_1), verificou-se que as
mães indicaram atitudes significativamente mais favoráveis ao desenvolvimento
de relações de parceria, quando comparadas com as educadoras, t(88)=-2.62,
p=.01, d=0.31, bem como maior probabilidade de desenvolverem comportamentos
promotores de relações de parceria, t(88)=-5.49, p<.001, d=1.34. De realçar
que, embora tenham sido encontradas diferenças estatisticamente significativas,
quer entre atitudes reportadas por mães e por educadoras, quer entre os seus
relatos da probabilidade de desenvolverem comportamentos de parceria, a
magnitude do efeito é consideravelmente superior no caso da probabilidade dos
comportamentos.
Foram calculadas correlações entre as dimensões Atitudes e Probabilidade de
Comportamentos relatadas por mães e por educadoras. É possível verificar que
existe uma associação positiva, de grande magnitude, entre as atitudes e a
probabilidade de comportamentos das mães, e uma associação moderada entre as
atitudes e a probabilidade de comportamentos das educadoras (Quadro_2).
Adicionalmente, encontrou-se uma associação positiva, embora de pequena
magnitude, entre as atitudes das mães e as atitudes e probabilidade de
comportamentos relatadas por educadoras.
De modo a melhor se compreenderem as atitudes e a probabilidade de ocorrência
de comportamentos de parceria, relatadas por mães e pelas educadoras, foram
ainda calculadas correlações entre os relatos das participantes e
características das famílias e das creches.
Neste estudo, apresentam-se as relações encontradas entre os relatos das
educadoras e: (a) as suas características sociodemográficas (e.g., idade, anos
de escolaridade), (b) variáveis relativas à qualidade dos seus contextos de
trabalho (e.g., rácio criança-adulto, educador com formação superior disponível
na creche para apoio/supervisão dos profissionais da sala de berçário), (c)
variáveis relativas às famílias (qualidade do ambiente familiar e educação
materna), e (d) características da criança (temperamento, género e idade). Como
se pode verificar no Quadro_3, as atitudes de parceria das educadoras
apresentam associações positivas com os anos de escolaridade formal e
associações negativas com a idade, anos de experiência em creche e rácio
criança-adulto. Assim, os resultados parecem indicar que educadoras mais
velhas, educadoras com mais anos de experiência em creche, educadoras com menos
anos de escolaridade e educadoras com mais crianças na sua sala reportam
atitudes menos positivas face ao estabelecimento de parcerias com as famílias
das crianças que frequentam os berçários. Um padrão semelhante é encontrado
para as respostas relativas aos comportamentos. Verifica-se ainda que o facto
de existir uma educadora com formação superior na creche e que, de alguma
forma, presta apoio à sala de berçário (através da planificação conjunta com as
profissionais da sala, da supervisão do trabalho ou da presença a tempo parcial
ou a tempo inteiro nas salas) está associado a uma maior probabilidade de
comportamentos favoráveis ao estabelecimento de parcerias, tal como relatadas
pelas educadoras que estão em trabalho direto com as crianças. Não foram
encontradas associações entre as variáveis da família (qualidade do ambiente
familiar e educação materna) e da criança (temperamento, idade e género) e os
relatos das educadoras sobre as atitudes e a probabilidade de comportamentos de
parceria.
As correlações entre os relatos das mães (Probabilidade de Comportamentos e
Atitudes) e as características das famílias são apresentadas no Quadro_3. Foram
exploradas relações com a escolaridade materna, o rendimento familiar e a
qualidade do ambiente familiar. Verifica-se que a qualidade do ambiente
familiar (M=32.46, DP=4.20) está positivamente associada às atitudes das mães
face à parceria, embora a correlação seja de pequena magnitude. De entre as
variáveis familiares que foram consideradas neste estudo, esta é a única
variável da família que apresenta associação com as atitudes relatadas,
indicando que mães com ambientes familiares de melhor qualidade tendem a
relatar atitudes mais favoráveis ao estabelecimento de parcerias. Já no que diz
respeito à probabilidade de ocorrência de comportamentos de parceria, pode
constatar-se que existe uma associação positiva com a escolaridade materna,
indicando que as mães com nível educativo mais elevado manifestavam maior
disponibilidade para desenvolver comportamentos promotores de relações de
parceria com as educadoras dos seus bebés. No que concerne às correlações entre
as atitudes e probabilidades de parceria relatadas por mães e as
características da creche e educadora, apenas se encontrou uma correlação
moderada entre a probabilidade de comportamentos de parceria relatada pelas
mães e o facto de na creche existir um educador com formação em educação de
infância que dá apoio ou supervisiona os profissionais da sala de berçário.
Quanto às relações com as características das crianças, verificou-se uma
correlação positiva fraca, entre atitudes das mães e a dimensão Regulação,
indicando que as mães de crianças caracterizadas como Reguladas em termos de
temperamento tendiam a relatar atitudes mais favoráveis ao estabelecimento de
parcerias.
Discussão
Sendo consensual na literatura a importância das relações entre famílias e
educadores para o desenvolvimento e adaptação das crianças (e.g.,
Bronfenbrenner, 2005; Drugli & Undheim, 2012; Owen et al., 2008), é
igualmente reconhecido que o conhecimento efetivo sobre a forma como estas
parcerias se operacionalizam, particularmente no caso de crianças com menos de
12 meses, é limitado. Assim, o estudo aqui apresentado teve como objetivo
descrever as atitudes e a probabilidade de ocorrência de comportamentos de
parceria entre educadoras e mães de bebés, durante o primeiro mês de frequência
da creche.
Os resultados descritivos encontrados neste estudo parecem apontar para o
acordo entre mães e educadoras no que concerne à importância de uma relação de
parceria creche-família, desde que a criança começa a frequentar o berçário,
isto é, desde as idades mais precoces e desde as primeiras experiências neste
novo contexto. Leavit (1995) tinha já relatado resultados que documentam a
valorização da comunicação e parceria, por parte das mães. A literatura refere
ainda que a maior parte dos profissionais é consensual na atribuição de elevada
importância ao envolvimento dos pais na educação dos seus filhos (e.g., NAYEC,
2009). Não obstante, os resultados indicam diferenças entre os relatos de mães
e educadoras sobre as atitudes e a probabilidade de se envolverem em
comportamentos de parceria, tendo-se verificado que as mães reportavam atitudes
e comportamentos significativamente mais positivos do que as educadoras. Owen e
colaboradores (2000) tinham encontrado resultados semelhantes em relação aos
relatos dos comportamentos de parceria entre mães e educadoras. Também Cantin,
Plante, Coutu e Brunson (2012) descrevem que os pais relatavam níveis mais
elevados de colaboração do que os educadores. Importa tentar compreender quais
os fatores que poderão estar associados às atitudes/comportamentos relatados
por cada grupo de participantes. Para os relatos das educadoras, destacamos que
as atitudes e a probabilidade de manifestar comportamentos de parceria estão
positivamente associados ao seu nível de escolaridade. Este resultado parece ir
ao encontro de outros descritos na literatura, sendo que os anos de
escolaridade dos educadores têm também vindo a ser referidos como uma variável
positivamente associada a cuidados de maior qualidade na creche (e.g., National
Institute on Child Health and Human Development [NICHD] Early Childhood
Research Network, 2000; Phillips, Mekos, Scarr, McCartney, & Abbott-Shim,
2000) e a interações mais responsivas e sensíveis entre os educadores e as
crianças (e.g., Burchinal, Cryer, Clifford, & Howes, 2002). Estes
resultados parecem corroborar a necessidade de um maior investimento na
formação dos profissionais que trabalham nos berçários, sendo este tema
particularmente importante no caso de Portugal, onde a legislação em vigor
- Portaria n.º 262/2011, 31 de agosto - não define a necessidade de
um educador com formação superior em educação de infância para o trabalho nas
salas de berçário. Considerando a literatura existente, bem como os resultados
encontrados neste estudo, importa enfatizar que aumentar o nível de formação
dos profissionais com base em contratação de pessoal com mais formação parece
constituir um fator importante quando se pretende disponibilizar serviços de
maior qualidade e mais adequados às necessidades das famílias e dos bebés.
Para além destes resultados relativos ao nível de formação, neste estudo foram
encontradas associações negativas entre (a) as atitudes e a probabilidade de
ocorrência de comportamentos de parceria das educadoras e (b) a sua idade e o
número de anos de experiência em creche. Este resultado parece ser indicador da
necessidade de investir também na supervisão e/ou na formação em serviço dos
educadores, já que os anos de experiência em creche parecem, de alguma forma,
estar a contribuir para atitudes mais negativas e menor investimento nas
relações com as famílias. Burchinal e colaboradores (2002) destacaram os
benefícios da frequência de "workshops" por parte dos educadores
durante a sua prática profissional, notando, no entanto, que estes não seriam
suficientes para substituir uma formação inicial adequada. Os autores referem
mesmo que a promoção da qualificação dos profissionais deveria ser uma medida
básica quando se pretende melhorar a qualidade dos cuidados e educação
prestados nas creches.
De acordo com os resultados obtidos no presente estudo, um outro fator que
parece estar a contribuir negativamente para o relato dos educadores face às
atitudes e probabilidade de manifestar comportamentos de parceria é o rácio
criança-adulto. Não é novidade que o rácio criança-adulto é uma variável de
extrema importância, quando falamos em qualidade dos contextos de creche, e são
vários os estudos que destacam as relações entre estas variáveis (e.g.,
Phillipsen, Burchinal, Howes, & Cryer, 1997). Assim, importa referir que as
recomendações internacionais relativas aos rácios para as salas de berçário são
variáveis. Por exemplo, a NAEYC (2009) recomenda rácios, para salas de
berçário, de 4:1 (definindo oito como o número máximo de bebés por sala). Já a
American Academy of Pediatric, numa posição conjunta com a American Public
Health Association (2002), afirma que os rácios para salas de bebés não devem
ser superiores a 3:1 (definindo seis como o número máximo de bebés por sala).
Estas entidades acrescentam ainda que rácios baixos são particularmente
importantes para crianças entre os 0 e os 24 meses. Em Portugal, a legislação
define um rácio de 5:1, com um máximo de 10 crianças em salas com crianças que
ainda não adquiriram a marcha (Portaria n.º 262/2011, 31 de agosto). Sendo este
rácio superior ao recomendado internacionalmente, destacamos que, neste estudo,
foram mesmo registados rácios superiores ao definido na legislação portuguesa,
nas salas de berçário observadas (e.g., 8:1). Face ao nível de exigência e
disponibilidade necessárias para que os educadores se envolvam na criação e
manutenção de parcerias de elevada qualidade com as famílias, comunicando de
forma regular e personalizada com os pais, consideramos que uma melhor
regulação dos rácios poderia revelar-se uma estratégia eficaz para melhorar a
qualidade das parcerias creche-família. Para além disto, alterações a este
nível poderão contribuir, globalmente, para uma melhoria da qualidade geral dos
serviços e dos cuidados prestados pelas creches em Portugal. Esta melhoria é
especialmente relevante, considerando os níveis baixos de qualidade em creche
que são relatados em vários estudos (Barros & Aguiar, 2010; Pessanha,
Aguiar, & Bairrão, 2007).
Adicionalmente, considerando os resultados relativos aos relatos das mães,
importa destacar que, tal como já foi referido, estes revelam elevada
valorização das parcerias família-creche em termos de atitudes positivas e
elevada probabilidade de manifestar comportamentos inerentes a parcerias de
elevada qualidade. Estes resultados são coincidentes com outros já relatados na
literatura, que referem que os pais tendem a valorizar as relações de parceria
com os cuidadores dos seus filhos (e.g., Leavit, 1995). No entanto, esta
valorização e avaliação positivas das parcerias pelas mães podem não ser
indicadoras da qualidade efetiva da parceria. Por exemplo, Galinsky, Howes,
Kontos e Shinn (1994, como citados em Leavit, 1995) concluíram que os pais
tendem a avaliar a comunicação com os cuidadores dos seus filhos apenas com
base na segurança da criança e não em outros indicadores de qualidade. Para
além disso, os relatos recolhidos durante este estudo correspondem a atitudes e
à probabilidade de ocorrência de comportamentos de parceria e não à efetiva
concretização dessas práticas de comunicação e partilha entre pais e
profissionais.
Apesar de vários estudos indicarem que diversas variáveis do ambiente familiar
(e.g., nível socioeconómico, número de elementos do agregado familiar, ordem na
fratria) estão relacionadas com o envolvimento parental na creche (e.g.,
Shpancer, 2002), este estudo encontrou apenas associações positivas entre a
parceria mãe-educadora, relatada pelas mães, e (a) a qualidade do ambiente
familiar e (b) o nível de escolaridade materno. Assim, foram as mães de nível
educativo mais elevado, e mães com ambiente familiar de qualidade mais elevada,
que revelaram atitudes mais positivas em relação à parceria família-creche e
que indicaram como mais prováveis os comportamentos de parceria. Se, por um
lado, podemos colocar a hipótese de serem estas as mães que melhor conhecem o
que socialmente se considera desejável, respondendo nesse sentido, por outro
lado, a possibilidade de estas mães estarem mais sensíveis à importância da
continuidade das práticas entre os dois microssistemas (i.e., família e creche)
pode também constituir uma explicação para estes resultados. Deste modo, as
crianças que vivem num ambiente familiar mais favorável ao seu desenvolvimento
parecem ser também aquelas cujos pais e profissionais da creche tendem a
cooperar de forma mais efetiva. Assim, é importante reforçar a implementação da
cooperação pais-profissionais, especialmente em famílias de meios
socioeconómicos mais desfavorecidos, nos quais as mães tendem a ter menos anos
de escolaridade e o ambiente familiar tende a ser de menor qualidade a nível de
condições de desenvolvimento e aprendizagem.
Importa ainda referir algumas limitações deste estudo e deixar algumas
reflexões para estudos futuros que procurem contribuir para um maior
conhecimento sobre as influências mesossistémicas no desenvolvimento das
crianças, bem como aprofundar a forma como estas relações entre os contextos se
constroem e fortalecem.
Relativamente às limitações do estudo, é importante destacar a questão da
representatividade da amostra. Embora se tenha partido, inicialmente, de um
conjunto alargado de participantes, selecionados aleatoriamente, as famílias
participantes acabaram por ser bastante homogéneas em termos de condições
sociodemográficas. A elevada percentagem de mães com nível de ensino superior,
na nossa amostra, poderá indicar algum enviesamento da mesma. Este facto pode
dever-se ao elevado número de critérios de seleção dos participantes, e, em
especial ao facto de se requerer que as famílias tivessem planeado com
antecedência a entrada dos seus bebés para a creche. Podemos colocar a hipótese
que em famílias de baixo nível socioeconómico este tipo de planificação será
menos provável, o que baixou a representatividade destas famílias no presente
estudo. Poderá ainda dar-se o caso de serem, de facto. as mães com formação
académica mais elevada e, portanto, as famílias com estatuto socioeconómico
mais elevado, que procuram mais as salas de berçário em serviços de creche
pouco tempo após o nascimento dos seus filhos. Também as instituições
participantes, tal como foi referido, não são representativas da população de
creches da grande área metropolitana do Porto, uma vez que a maior parte das
creches participantes neste estudo eram particulares sem fins lucrativos. Seria
importante incluir, em estudos futuros, famílias com um nível sociocultural
mais diversificado, assim como mais creches particulares com fins lucrativos.
De referir ainda que o recurso a uma medida de auto-relato, a CPPS, pode também
ter condicionado os resultados obtidos. Estamos conscientes de que os
resultados encontrados, nomeadamente relativos aos relatos sobre a
probabilidade de manifestar comportamentos de parceria, podem, de alguma forma,
refletir um efeito de desejabilidade social. Pais e profissionais podem ter
tido uma tendência para relatarem atitudes de parceria muito positivas, bem
como para sobrevalorizar a probabilidade de manifestar comportamentos de
parceria, mesmo que esta desejabilidade não se traduza, obrigatoriamente, no
seu envolvimento efetivo nas situações listadas na CPPS. Assim, consideramos
que o recurso adicional a uma medida de observação direta poderia contribuir
com informação relevante para um conhecimento mais real das atitudes e
ocorrência de comportamentos de parceria entre as famílias e as creches. Um
outro ponto que consideramos merecedor de atenção em investigações futuras
prende-se com a necessidade de perceber a forma como evoluem as relações
família-creche, por exemplo, através de estudos sobre a sua estabilidade ao
longo do tempo, ou de investigação, de carácter observacional, que forneça
evidência sobre as estratégias utilizadas pelos profissionais das creches e/ou
pelas famílias para criarem e manterem parcerias. Destacamos igualmente a
necessidade de mais investigação, com crianças com menos de 12 meses de idade,
sobre: (a) a relação entre a qualidade dos contextos de educação, a qualidade
dos contextos familiares e as parcerias efetivamente desenvolvidas entre
família-creche, (b) o contributo das relações família-creche para o bem-estar e
para o desenvolvimento dos bebés que frequentam o contexto de creche, (c) o
efeito de intervenções com o objetivo de promover relações de parceria de
qualidade entre pais e profissionais de creche.
Por fim, salientamos que este estudo contribuiu para um conhecimento mais
aprofundado sobre o que pensam os pais e educadores de bebés sobre as relações
de parceria família-creche durante o primeiro mês dos bebés na creche.
Globalmente, verificamos que ambos valorizavam a comunicação frequente e outros
comportamentos de parceria, estando disponíveis para se envolverem ativamente,
e acreditam que a partilha e a continuidade família-creche contribuem para um
maior bem-estar das crianças em ambos os contextos. As atitudes relatadas por
pais e profissionais parecem estar alinhadas com as práticas recomendadas
internacionalmente, podendo estes resultados indicar que os participantes
manifestaram interesse relativamente a criarem e manterem verdadeiras parcerias
e colaborações ativas entre as creches e as famílias, logo a partir das salas
de berçário.