A confiança em testemunhas: O papel das diferenças individuais
Introdução
Intuitivamente, entende-se que a confiança (C) com que uma testemunha é capaz
de recordar detalhes de um crime está relacionada com a exatidão (E) da
recordação desses detalhes (Wells, Linday, & Ferguson, 1979). No entanto, a
investigação revela que esta relação é complexa (Bornstein & Zickafoose,
1999). Neste estudo procurou-se investigar o papel das diferenças individuais
na relação confiança-exatidão (C-E) na memória de testemunhas e com questões de
conhecimento geral. Na primeira parte deste artigo começaremos por referir-nos
aos estudos já existentes sobre a relação entre confiança e exatidão, depois
abordaremos as diferenças entre questões de conhecimento geral e testemunho e
terminaremos referindo o efeito das variáveis individuais na relação C-E.
Relação entre a confiança e a exatidão das respostas
A literatura tem apresentado resultados contraditórios na procura da relação
confiança-exatidão no testemunho. Os dados da investigação são díspares e vão
desde afirmar que a relação C-E é baixa ou inexistente (Brown, 2003; Perfect,
2004, Exp. 1; Wells & Murray, 1984) até forte e positiva (Luna &
Martin-Luengo, 2012). A investigação sobre a relação C-E em testemunhas tem-se
focado no reconhecimento de faces e apresenta resultados fortes (Sauer, Brewer,
Zweck, & Weber, 2010), modestos (Brewer & Wells, 2006) ou fracos
(Perfect, 2004). Não obstante, em tarefas mais complexas e mais próximas do
procedimento de entrevista policial - evocação guiada - os
resultados são consistentes e a confiança é um bom preditor da exatidão da
resposta (Luna & Martin-Luengo, 2012). Os mesmos métodos aplicados ao
conhecimento geral tem demonstrado consistentemente uma relação C-E muito forte
(Bornstein & Zickafoose, 1999; Luna & Martin-Luengo, 2012; Pallier et
al., 2002; Perfect, 2004). Nos últimos anos, a maioria dos estudos que
investigam a relação C-E tem utilizado calibrações (Bornstein & Zickafoose,
1999; Brewer & Wells, 2006; Luna & Martin-Luengo, 2012; Sauer et al.,
2010). A calibração refere-se à medida na qual os julgamentos de confiança
correspondem à probabilidade objetiva de uma resposta ser correta, por exemplo,
um indivíduo que responda corretamente a 70% de um conjunto de questões deverá
ter uma confiança média nas suas respostas de 70% (Lichtenstein, Fischhoff,
& Phillips, 1982). A calibração apresenta várias vantagens sobre a
correlação, na medida em que é mais sensível à deteção da sobreconfiança (maior
confiança na resposta do que probabilidade de acerto) e da subconfiança (menor
confiança na resposta do que probabilidade de acerto), assim como é mais
informativa ao poder ser representada de forma gráfica, o que leva a uma fácil
compreensão da relação entre confiança e exatidão (Luna & Martin-Luengo,
2012). Ao analisar a calibração pode-se ainda verificar quanto um dado nível de
confiança é bom preditor da exatidão da resposta.
Respostas a perguntas de conhecimento geral vs. testemunho
Por que razão há diferenças entre a confiança nas respostas a questões de
testemunho e a confiança nas respostas a perguntas de conhecimento geral?
Alguns autores afirmam que a diferença de confiança na resposta a questões de
conhecimento geral e de testemunho advém da falta de conhecimento dos
participantes sobre a sua capacidade de testemunhar (Perfect, 2004). Assim,
pode-se argumentar que dado que o testemunho não é acompanhado de feedback, não
permite o ajuste dos níveis de confiança da testemunha, limitando a maior parte
das pessoas de conhecerem a sua própria memória (Perfect, 2004). Assim, toa-se
compreensível que não haja um conhecimento aprofundado sobre a capacidade para
testemunhar, o que dificulta a atribuição de julgamentos de confiança. Em
contrapartida, conversas na nossa vida diária oferecem muitas ocasiões para
trocar informações de temática geral e saber quando uma determinada resposta é
correta ou não. Noutras palavras, as conversas diárias tornam-se fontes de
aprendizagem e treino, fornecendo autoavaliação acerca do nível de conhecimento
geral (Perfect, 2004).
Para além das diferenças na avaliação da confiança referidas, ainda há uma
outra pergunta relevante sobre a relação C-E: existe variabilidade
intraindividual na relação C-E? Nesta linha, a investigação sugere a existência
de um traço de confiança pelo qual os julgamentos de confiança resultariam da
utilização do mesmo mecanismo (Kleitman & Stankov, 2001). Desta forma,
prevê-se que o mecanismo subjacente aos julgamentos de confiança seja o mesmo
para qualquer contexto ou tarefa, esperando-se estabilidade nos julgamentos de
confiança no tempo e no contexto. De facto, Jonsson e Allwood (2003) apoiaram a
perspectiva da estabilidade individual dos julgamentos de confiança, uma vez
que, das três variáveis utilizadas nos seus estudos (conhecimento para
palavras, inteligência cristalizada e a aptidão espacial), apenas a primeira
não mostrou estabilidade nos julgamentos de confiança. Da mesma forma,
Bornstein e Zickafoose (1999) mostraram que participantes capazes de
monitorizar os seus julgamentos de confiança em tarefas de memória do
testemunho são também capazes de o fazer em tarefas de conhecimento geral. Da
mesma forma, a investigação tem indicado que o viés de atribuição de confiança
a uma resposta é estável e influenciado por algumas características do
participante (e.g., Kleitman & Stankov, 2001; Pallier et al., 2002), ou
seja, há participantes com maior tendência para apresentar sobreconfiança e
outros com tendência para a subconfiança (Crawford & Stankov, 1996). Estas
investigações suportam a ideia de que a confiança pode ser definida em termos
de um traço psicológico. Assim, torna-se relevante verificar que variáveis
individuais se encontram relacionadas com este traço da confiança para poder
identificar testemunhas com uma relação C-E alta ou baixa.
Variáveis individuais na relação C-E
A influência de algumas variáveis individuais na relação C-E tem vindo a ser
estudada com diversas variáveis. A relação C-E tem sido estudada em relação a
dois grandes constructos psicológicos: a inteligência e a personalidade. Quanto
à personalidade a investigação revela que esta não prediz os julgamentos de
confiança (Pallier et al., 2002). No que diz respeito à inteligência, a
investigação mostra que a relação é muito fraca. Pallier e colaboradores (2002)
verificaram que a inteligência parece estar relacionada com a metamemória ao
encontrarem uma relação positiva entre os julgamentos de confiança e a
inteligência. Na mesma linha de investigação, Jonsson e Allwood (2003) oferecem
suporte à relação entre inteligência e metamemória. Apesar de a relação ser
fraca, os autores verificaram que há uma melhor calibração para a inteligência
cristalizada do que para a fluída.
A idade é outra das variáveis estudadas e os resultados mostram que
participantes mais velhos tendem a ser mais sobreconfiantes (Crawford &
Stankov, 1996). Também foram estudadas diferenças de sexo e quanto a estas
parece que indivíduos do sexo masculino têm maior tendência para a
sobreconfiança (Stankov & Lee, 2008). Concluindo, nem a inteligência, nem a
personalidade afetam os julgamentos de confiança, pelo que a chave para os
compreender encontra-se na zona que Stankov (1999, p. 316) enominou como a
"terra de ninguém entre a personalidade e as habilidades". É deste
mote que parte esta investigação ao procurar o efeito de três diferenças
individuais que não foram ainda testadas - autoestima, tipo de tomada de
decisão e impulsividade -, nos julgamentos de confiança atribuídos a
questões de conhecimento geral e de testemunho.
A autoestima foi escolhida por ser uma variável individual abrangente e de
elevado impacto na definição da pessoa enquanto indivíduo (Santos & Maia,
2003). A autoestima implica o recurso a capacidades metacognitivas, uma vez que
requer que o indivíduo conheça as suas próprias capacidades e fraquezas
(Borkowski, Carr, Rellinger, & Pressley, 2013). A autoestima é considerada
uma autoavaliação com uma componente predominantemente afetiva, manifestada
numa atitude de aprovação/desaprovação em relação ao próprio (Rosenberg, 1965).
Como tal, colocamos a hipótese que os indivíduos com elevada autoestima
apresentam maior sobreconfiança, ou seja, apresentam mais confiança do que
exatidão. Uma vez que uma elevada autoestima se encontra também associada a um
sentimento de aprovação do próprio, espera-se que indivíduos com elevada
autoestima sejam mais confiantes na generalidade.
Outra das diferenças individuais investigadas neste estudo é o tipo de tomada
de decisão. O tipo de tomada de decisão envolve a ativação de um conjunto de
mecanismos durante uma decisão (Kahneman, 2003). Assim, torna-se interessante
verificar se esta variável influencia a relação C-E. De acordo com a teoria do
processamento dual (Kahneman, 2003), existem dois tipos de processamento
cognitivo: o sistema 1 e o sistema 2. O sistema 1 é intuitivo, automático e
dirigido emocionalmente e, por isso, difícil de modificar. O sistema 2 é mais
lento e monitorizado de forma deliberada, considerando-se as respostas
providenciadas pela utilização do sistema 2 como mais racionais (Kahneman,
2003). Segundo a investigação, participantes que utilizam predominante -mente o
sistema 2 tem uma predisposição para estabelecer julgamentos de confiança mais
realistas do que os participantes que utilizam o sistema 1 (Mata, Ferreira,
& Sherman, 2013). Esta ideia vai ao encontro do efeito de Dunning-Kruger,
onde indivíduos com mais competências numa dada tarefa desenvolvem mais
competências metacognitivas o que ajuda no reconhecimento das suas capacidades/
limitações (Kruger & Dunning, 1999). Assim, espera-se que os participantes
que utilizem o sistema 2, e, por conseguinte indivíduos mais racionais,
apresentem uma calibração muito próxima da teórica e melhor, ou seja, mais
próxima de zero, do que os que utilizam o sistema 1. Da mesma forma, esperamos
que indivíduos que utilizam o sistema 1 apresentem uma maior tendência para a
sobreconfiança.
A última característica individual que decidimos estudar na relação C-E foi a
impulsividade. A impulsividade é um constructo multifacetado que pode ser
definido como uma inibição comportamental deficitária ou uma debilidade no
processo de tomada de decisão (Moeller, Barratt, Dougherty, Schmitz, &
Swann, 2001). Pode também ser descrita em termos de tendência para agir sem
deliberação adequada ou como predisposição para agir rapidamente, sem
planeamento, não tendo em conta as possíveis consequências (Moeller et al.,
2001). Desta forma, a impulsividade pode afectar na relação C-E ao limitar a
mobilização de recursos metacognitivos. Assim, hipotetizamos que indivíduos com
elevada impulsividade reflitam menos sobre as suas respostas, apresentando uma
pior calibração do que o grupo de baixa impulsividade.
Resumindo, este estudo procurou perceber qual a influência variáveis acima
mencionadas na relação C-E. Para alcançar este objetivo, apresentou-se um vídeo
de um assalto. Depois os participantes responderam a questões sobre o vídeo e
julgaram a sua confiança nas respostas. Os participantes realizaram o mesmo
procedimento em questões de conhecimento geral e responderam ainda às escalas
das variáveis referidas.
Método
Amostra
Setenta e seis estudantes (13 do sexo masculino e 63 do sexo feminino) da
Escola de Psicologia da Universidade do Minho, com idades compreendidas entre
os 17 e os 46 anos (M=21,54; DP=4,69) participaram na experiência.
Materiais
Nesta experiência foram utilizadas questões de conhecimento geral, selecionadas
a partir de um estudo piloto, e questões sobre um vídeo de um crime. Foram
também utilizados três instrumentos: a Rosenberg Self-Esteem Scale (RSES;
Rosenberg, 1965), a Barratt Impulssiveness Scale (BIS; Patton, Stanford, &
Barratt, 1995) e o Cognitive Reflection Test (CRT; Frederick, 2005).
As questões de conhecimento geral foram criadas com base numa versão online do
jogo Trivial Pursuit, pesquisa na internet e no conhecimento geral dos
investigadores (e.g., "Que descobridor introduziu o porco na
América?" Resposta: Colombo). Assim, foram selecionadas 40 questões com
diferentes níveis de dificuldade distribuídos de forma o mais equilibrada
possível.
As questões de testemunho foram as adotadas no estudo de Luna e Martin-Luengo
(2012), tendo sido feita a adaptação e tradução das mesmas para Português
Europeu. Estas questões foram desenvolvidas a partir de um excerto de 3 minutos
do filme 'The Stick-Up' (Herrington, 2002). Este excerto mostra
como dois seguranças retiram dinheiro de uma carrinha de valores e o depositam
no cofre de um banco. Entretanto, um ladrão que se encontra dentro de um carro,
corta a eletricidade do banco, entra no banco disfarçado e, após ameaçar as
pessoas que se encontram no local, foge com o dinheiro.
A autoestima foi avaliada com recurso à Rosenberg Self-Esteem Scale (RSES;
Rosenberg, 1965) adaptada para a população portuguesa por Santos e Maia (2003).
Esta escala inclui 10 itens e foi desenhada para obter uma medida
unidimensional de autoestima global e permite o cálculo de um valor de
autoestima total. Quanto mais elevada a pontuação na escala, maior o nível de
autoestima global do indivíduo.
O tipo de resolução de problemas foi avaliado através do Cognitive Reflection
Test (CRT; Frederick, 2005), adaptado para português por Mendonça (2012). O CRT
mede a capacidade ou disposição para evitar emitir uma resposta intuitiva mas
errada em detrimento de uma resposta racional e correta. Este teste consiste em
três questões de raciocínio lógico, sem apresentação de alternativas,
desenhadas para induzir uma resposta intuitiva e permite-nos distinguir entre
os dois tipos de processamento cognitivo: o sistema 1 e o sistema 2 (e.g.,
"Um taco e uma bola juntos custam 110 cêntimos. O taco custa 100 cêntimos
mais que a bola. Quanto custa a bola?"; Resposta intuitiva mas incorreta:
10 cêntimos; Resposta correta: 5 cêntimos). A cotação do CRT prevê um ponto
para cada resposta correta. A investigação mostra que responder corretamente a
pelo menos uma questão do CRT ativa os processos do sistema 2 nas tarefas
subsequentes (Pinillos et al., 2011).
A impulsividade foi medida através da Barrat Impulsiveness Scale (BIS; Patton,
Stanford, & Barratt, 1995) adaptada à população portuguesa por Cruz e
Barbosa (2012). A BIS inclui 30 itens é uma medida muito utilizada para a
quantificação da impulsividade (e.g., Giorgetta et al., 2014; Gullo &
Potenza, 2014). Quanto mais elevada a pontuação na escala, maior impulsividade.
Planeamento
Neste estudo, foram manipuladas as variáveis autoestima (baixa vs.elevada),
impulsividade (baixa vs.elevada) e a tomada de decisão (sistema 1 vs.sistema 2)
sob um plano intersujeitos. A variável independente conteúdo das questões
(conhecimento geral vs.testemunho) foi manipulada a partir de um plano
intrasujeitos. Os grupos de baixa e elevada autoestima foram definidos a partir
do método de grupos contrastantes. Assim, foram colocados no grupo de baixa
autoestima os 25 participantes (um terço da amostra) com menor pontuação na
escala de autoestima e no grupo de elevada autoestima os 25 participantes com a
pontuação mais elevada. A definição dos grupos de impulsividade foi feita
seguindo o mesmo método. Quanto à variável tipo de tomada de decisão,
consideraram-se como utilizadores do sistema 1 os participantes que responderam
erradamente a todas as questões do CRT e como utilizadores do sistema 2 os
participantes que responderam corretamente a pelo menos uma das questões de CRT
(Pinillos, Smith, Nair, Marchetto, & Mun, 2011).
As variáveis dependentes analisadas foram a exatidão das respostas, a confiança
média, a calibração e a sobreconfiança. Definiu-se como exatidão a proporção de
respostas corretas dadas por cada participante. A confiança média foi definida
como a média aritmética da confiança dos participantes nas suas respostas. A
calibração pode ser analisada graficamente, através de curvas de calibração,
mas também através do índice de calibração (C). O índice de calibração consiste
numa fórmula matemática desenvolvida por Lichtenstein, Fischhoff e Phillips
(1982) que permite quantificar a diferença entre a curva de calibração de cada
participante e a curva de calibração teórica. Dado que o índice de calibração
não permite distinguir os participantes quanto à sobreconfiança e subconfiança,
recorreu-se a outra medida, o índice O/U1, que consiste na diferença entre a
média de confiança e a proporção de respostas corretas, para cada participante.
Assim, um valor de O/U positivo indica a presença de sobreconfiança e um valor
negativo indica a existência de subconfiança. Um resultado de 0, que é o valor
ideal, indica que não existe tendência nem para a sobreconfiança, nem para a
subconfiança (Brewer & Wells, 2006).
Procedimento
O procedimento foi administrado individualmente, apresentado num computador com
recurso à funcionalidade formulário do Googledocs. Os participantes eram
voluntários e receberam créditos escolares pela sua participação.
O procedimento iniciou-se pela apresentação do vídeo sobre o qual incidiram as
questões do testemunho. Após a visualização do vídeo, foi apresentado aos
participantes uma tarefa distratora, neste caso um exercício de sudoku, com a
duração de quatro minutos. O intuito desta tarefa foi permitir a consolidação
das memórias para que a resposta às perguntas sobre o vídeo seja feita com
recurso à memória de longo prazo. Em seguida os participantes responderam às
quarenta questões de evocação guiada sobre o vídeo (e.g., "Qual a cor do
casaco dos polícias?"), sendo que para cada uma destas avaliaram a sua
confiança na resposta, utilizando para isso uma escala tipo Likert de 11
pontos, de zero ("nenhuma confiança") a dez ("confiança
total"). O julgamento de confiança foi feito imediatamente após a
resposta a cada questão. Posteriormente, os participantes responderam às
questões de conhecimento geral, nos mesmos termos das questões anteriores. Após
a resposta a estes dois grupos de questões, foram administradas aos
participantes as escalas de autoestima e de impulsividade, sendo estas
contrabalanceadas. Uma vez que a literatura indica que o CRT pode provocar
alterações no padrão de resposta dos participantes, foi necessário controlar
esta variável através de contrabalanceamento. Para tal optamos por dividir a
amostra e metade respondeu ao CRT no início do procedimento, enquanto que a
outra metade respondeu ao CRT no final do procedimento. No total, o
procedimento teve uma duração aproximada de 45 minutos.
Resultados
Foram conduzidas várias análises com o intuito de compreender a relação entre
as variáveis estudadas e a relação C-E. Começamos por apresentar as análises da
exatidão para todas as variáveis e depois apresentamos as análises para cada
uma das variáveis individuais estudadas. Não foi realizada uma ANOVA com todas
as variáveis consideradas porque os grupos contrastantes não se sobrepõem, ou
seja, os participantes do grupo com baixa autoestima são diferentes dos
participantes do grupo com baixa impulsividade e do grupo identificado como
utilizador do Sistema 2. Esta não sobreposição faz com que a ANOVA não pudesse
recorrer a um efetivo amostral suficiente em cada uma das células (2 x 2 x 2)
e, como consequência, seria pouco informativa. Todas as análises foram
efetuadas com o apoio do programa IBM SPSS (versão 20). Não foi encontrada
qualquer influência da ordem do procedimento (contrabalanceamentos do CRT e das
escalas de autoestima e impulsividade) nos dados recolhidos e, assim sendo,
decidimos agrupar os dados.
Exatidão
Para ser legítimo levar a cabo a comparação entre as médias de confiança das
questões de testemunho e de conhecimento geral é necessário que os dois tipos
de questão tenham o mesmo grau de exatidão, uma vez que diferenças na
dificuldade se encontram associadas a diferenças metacognitivas (Bornstein
& Zickafoose, 1999). Uma análise prévia mostrou diferenças na exatidão dos
dois tipos de questões, tendo as questões de testemunho uma exatidão maior (MT
=0,56; DPT
=0,11) do que as questões de conhecimento geral (MCG
=0,40; DPCG
=0,10), t(75)=10,03, p<0,001, d=1,12. Para igualar a exatidão, foram retiradas
9 questões de conhecimento geral e 4 sobre o testemunho. Para selecionar as
questões a eliminar aplicou-se a seguinte regra: eliminar as questões de
conhecimento geral com exatidão inferior a 0,11 e as questões de testemunho com
exatidão superior a (1 - 0,11). Esta regra foi aplicada por permitir a
equivalência da exatidão nos dois tipos respostas eliminando o menor número de
questões possível. Após esta eliminação não foram encontradas diferenças entre
a exatidão da resposta às questões de testemunho e de conhecimento geral (MT
=0,52; DPT
=0,12; e MCG
=0,51; DPCG
=0,12), t(75)=1,07, p=0,29, d=0,07. Também não foram encontradas diferenças na
exatidão em função da autoestima ou da impulsividade. No entanto, os
participantes que utilizam o sistema 2 apresentam uma exatidão superior do que
os participantes que utilizam o sistema 1, F(1,74)=5,21, p=0,03, η²=0,07.
Conteúdo das questões
Nas próximas secções apresentamos os valores de confiança como proporções entre
0 e 1 para facilitar a sua interpretação. Os participantes mostraram-se mais
confiantes a responder às questões do testemunho (M=0,55; DP=0,17) do que às
questões do conhecimento geral (M=0,40; DP=0,16), t(75)=9,13, p<0,001, d=1,00.
Ao nível da calibração, segundo o material utilizado, não foram encontradas
diferenças estatisticamente significativas no índice C entre as questões de
testemunho e as questões de conhecimento geral, t(75)=0,79, p=0,43, d=0,08.
Ao nível da sobreconfiança (O/U), os participantes apresentam uma maior
tendência para a subconfiança nas questões de conhecimento geral (M=-0,11;
DP=0,14) do que nas respostas às questões de testemunho (M=0,03; DP=0,14), t
(75)=9,82, p<0,001, d=1,13. De salientar que o valor de sobreconfiança
apresentado nas questões de testemunho não é diferente de 0, t(75)=1,83,
p=0,07, d=0,21.
Autoestima
No geral, os participantes mostraram valores similares em todas as variáveis
dependentes consideradas (cf. Tabela_1). A não ser que seja de outra forma
indicado, as análises desta secção são ANOVAs 2 conteúdo das questões
(testemunho vs.conhecimento geral) x 2 autoestima (baixa vs.elevada).
Ao nível da confiança média, foram encontradas diferenças significativas em
função do conteúdo, sendo a confiança nas respostas às questões do testemunho
significativamente maior do que nas questões de conhecimento geral, F
(1,48)=40,59, p<0,001, η²=0,46. No entanto, não foram encontradas diferenças
significativas em função da autoestima (baixa vs.elevada), F(1,48)=0,45,
p=0,51, η²=0,01, nem na interação entre material e autoestima, F(1,48)=1,71,
p=0,20, η²=0,03. Este resultado refuta a hipótese de que os indivíduos com
elevada autoestima são mais confiantes nas suas respostas do que indivíduos com
baixa autoestima.
Ao nível da calibração não foram encontradas diferenças significativas em
função do material utilizado, F(1,48)=0,001, p=0,98, η²<0,001, nem em função do
grupo de autoestima, F(1,48)=0,001, p=0,98, η²<0,001. A interação também não
revelou diferenças significativas, F(1,48)=0,01, p=0,92, η²<0,001.
Ao nível da sobreconfiança (O/U) os participantes mostraram mais subconfiança
nas questões de conhecimento geral do que nas questões de testemunho, F
(1,48)=68,76, p<0,001, η²=0,59. Não foram encontradas diferenças significativas
em função da autoestima, F(1,48)=0,79, p=0,38, η²=0,02, refutando a nossa
hipótese de que os indivíduos com elevada autoestima apresentam uma maior
sobreconfiança. Na interação entre o conteúdo das questões e a autoestima
verificaram-se diferenças marginalmente significativas, F(1,48)=3,51, p=0,07,
η²=0,07. A interação entre conteúdo das questões e autoestima indica que há uma
tendência para a sobreconfiança quando ao grupo de elevada autoestima se
encontram associadas as respostas a questões de testemunho.
Tipo de tomada de decisão
Os participantes mostraram dados descritivos semelhantes em todas as variáveis
dependentes estudadas (cf. Tabela_2). As análises que se apresentam em seguida
são ANOVAs 2 conteúdo das questões (testemunho vs.conhecimento geral) x 2
tomada de decisão (sistema 1 vs.sistema 2).
Ao nível da confiança média, o seu valor foi maior nas questões de testemunho
do que nas questões de conhecimento geral, F(1,74)=59,03, p<0,001, η²=0,44, e
também maior nos participantes que utilizam o sistema 2 do que nos
participantes que utilizam o sistema 1, F(1,74)=4,16, p=0,05, η²=0,05. A
interação não revelou diferenças significativas, F(1,74)=0,48, p=0,49,
η²=0,006.
Quanto à calibração, não foram encontradas diferenças significativas em função
do material utilizado, F(1,74)=0,13, p=0,72, η²=0,002, nem em função da tomada
de decisão, F(1,74)=0,935, p=0,34, η²=0,01. A interação não revelou diferenças
significativas, F(1,74)=0,52, p=0,47, η²=0,01. Desta forma, refuta-se a
hipótese de que a calibração de participantes que utilizam o sistema 2 é melhor
do que a de participantes que utilizam o sistema 1. Relativamente à hipótese de
que indivíduos que utilizam predominantemente o sistema 2 apresentam uma
calibração da C-E próxima da teórica, esta foi também refutada, uma vez que os
valores da calibração (C) do grupo que utiliza o sistema 2 são
significativamente diferentes de 0 tanto para as questões do testemunho, t
(19)=5,36, p<0,001, d=1,20, como para o conhecimento geral, t(19)=5,86,
p<0,001, d=1,25.
Quanto à sobreconfiança, as questões do testemunho são enviesadas no sentido da
sobreconfiança, enquanto que as questões do conhecimento geral são enviesadas
no sentido da subconfiança, F(1,74)=85,50, p<0,001, η²=0,54. Não foram
encontradas diferenças significativas em função da tomada de decisão, F
(1,74)=0,41, p=0,52, η²=0,01. Também não foram encontradas diferenças na
interação, F(1,74)=1,48, p=0,23, η²=0,02. Refuta-se, assim, a hipótese de que
indivíduos que utilizam o sistema 1 apresentam uma maior tendência para a
sobreconfiança.
Impulsividade
Os participantes evidenciaram similaridades em todas as variáveis dependentes,
estudadas (cf. Tabela_3). As análises que se apresentam em seguida são ANOVAs 2
conteúdo das questões (testemunho vs.conhecimento geral) x 2 impulsividade
(baixa vs.elevada).
Ao nível da confiança média, a confiança nas questões do testemunho foi
significativamente maior do que no conhecimento geral, F(1,48)=63,85, p<0,001,
η²=0,57. No entanto, não foram encontradas diferenças significativas em função
da impulsividade (baixa vs.elevada), F(1,48)=0,00, p=0,99, η²<0,001, nem na
interação entre material e impulsividade, F(1,48)=1,55, p=0,22, η²=0,03.
Quanto à calibração, não foram encontradas diferenças significativas em função
do conteúdo das questões, F(1,48)=0,19, p=0,66, η²=0,004, nem em função da
impulsividade, F(1,48)=0,10, p=0,76, η²=0,002. A interação também não revelou
diferenças significativas, F(1,48)=0,44, p=0,51, η²=0,01. Refuta-se, assim, a
hipótese de que os participantes do grupo de elevada impulsividade mostrariam
pior calibração do que os participantes do grupo de baixa impulsividade.
A análise da sobreconfiança revelou que há diferenças significativas em função
do conteúdo das questões, sendo que as questões do conhecimento geral tendem a
ser enviesadas no sentido da subconfiança, F(1,48)=59,63, p<0,001, η²=0,55. No
entanto, não foram encontradas diferenças significativas em função da
impulsividade, F(1,48)=0,57, p=0,46, η²=0,01, nem ao nível da interação, F
(1,48)=3,10, p=0,09, η²=0,06.
Discussão
Neste estudo procurou-se verificar se a autoestima, a tomada de decisão e a
impulsividade influenciam a relação C-E em perguntas de conhecimento geral ou
sobre um crime. Neste estudo foram identificados três resultados principais. Em
primeiro lugar, foram encontradas diferenças em função do conteúdo das
questões, sendo evidente uma maior confiança na resposta a questões de
testemunho, bem como uma maior tendência para a subconfiança nas questões de
conhecimento geral. Em segundo lugar, indivíduos que utilizam predominantemente
o sistema 2 para tomar as suas decisões, e, por isso, mais racionais,
apresentam uma maior exatidão e confiança nas respostas tanto nas questões de
testemunho, como nas questões de conhecimento geral. Assim, os resultados
sugerem que o estilo de tomada de decisão influencia a exatidão e a confiança
sem afetar a relação entre estas duas variáveis. Em terceiro lugar, não há
diferenças na calibração, nem na sobreconfiança, em função da autoestima,
impulsividade ou sistema de tomada de decisão, pelo que se conclui que estas
diferenças individuais não influenciam a relação C-E.
A investigação tem mostrado de forma repetida que na resposta a questões de
conhecimento geral os participantes evidenciam uma calibração da relação C-
E melhor do que na resposta a questões de testemunho (Bornstein &
Zickafoose, 1999; Luna & Martin-Luengo, 2012; Pallier et al., 2002;
Perfect, 2004). Da mesma forma, a existência de uma tendência para a
sobreconfiança na resposta a questões de testemunho tem sido descrita de forma
recorrente na literatura (Bornstein & Zickafoose, 1999; Luna & Martin-
Luengo, 2012). Ao contrário destes estudos, na presente investigação não foram
encontradas diferenças na calibração dos participantes em função do conteúdo
das questões. Também não foi verificada a tendência para a sobreconfiança (O/U)
no testemunho, tal como vem descrita na literatura. Mais concretamente, no
presente estudo não foi identificada qualquer tendência de julgamento de
confiança no testemunho, mas sim uma tendência para a subconfiança na resposta
a questões de conhecimento geral.
Segundo a abordagem do traço de confiança, onde se afirma que a confiança é um
traço metacognitivo estável e guiado por viés pessoal (Kleitman & Stankov,
2001), os participantes deveriam julgar a confiança de forma consistente e
independentemente do conteúdo das questões, utilizando um mesmo mecanismo para
tecer todos os julgamentos de confiança. Assim, participantes que são capazes
de monitorizar as suas respostas na atribuição de julgamentos de confiança em
questões de conhecimento geral, deveriam ser igualmente capazes de o fazer ao
julgar a confiança em questões de testemunho (Bornstein & Zickafoose,
1999). Da mesma forma, seria expectável uma consistência na sobreconfiança e
subconfiança, independentemente do conteúdo das questões, o que não foi
observado, uma vez que apenas na resposta a questões de conhecimento geral se
verificou subconfiança.
Vários estudos têm seguido a hipótese do traço de confiança, tentando
identificar uma ou mais diferenças individuais que possam interferir com a
relação C-E (e.g., Crawford & Stankov, 1996; Jonsson & Allwood, 2003;
Pallier et al., 2002; Stankov & Lee, 2008). No entanto, a investigação tem
mostrado dificuldades em encontrar diferenças individuais que influenciem
aquela relação e têm sido mais frequentes os estudos que se referem a variáveis
que não tem influência na relação do que o contrário. O presente estudo vai no
mesmo sentido já que também permitiu verificar que as diferenças individuais ao
nível da autoestima, impulsividade e tomada de decisão não influenciam a
complexa relação C-E.
Importa, contudo, salientar que, ao nível da tomada de decisão, os dados
mostram que participantes que utilizam o sistema 2 mostram maior exatidão e
confiança do que os participantes que utilizam o sistema 1. Segundo Mata,
Ferreira e Sherman (2013), os participantes que utilizam o sistema 2 tecem
julgamentos de confiança mais realistas do que os participantes que utilizam o
sistema 1. No entanto, e uma vez que não foram encontradas diferenças na
calibração e sobreconfiança, não nos é permitido chegar a esta mesma conclusão.
Embora o tipo de tomada de decisão não influencie a relação C-E, este resultado
não deixa de ser relevante, na medida em que permite verificar que os
participantes que utilizam o sistema 2 recordam mais informação correta do que
os participantes que utilizam o sistema 1. Desta forma, os resultados deste
estudo são congruentes com o modelo de processamento dual (Kahneman, 2003), uma
vez que os participantes que utilizam predominantemente o sistema 2, ao serem
racionais, recordam mais informação correta. É, também, relevante verificar que
participantes racionais, embora apresentam uma maior exatidão e uma maior
confiança, estas são maiores na mesma proporção, continuando a verificar-se os
mesmos vieses de confiança encontrados nos participantes mais intuitivos.
Comparando os resultados dos estudos que evidenciam o papel da inteligência na
relação C-E (Jonsson & Allwood, 2003; Pallier et al., 2002), este estudo
contraria resultados anteriores que mostram que participantes com competência
numa tarefa desenvolvem competências meta -cognitivas sobre a mesma,
permitindo-lhes identificar com maior facilidade as suas capacidades e
limitações, fenómeno conhecido como efeito de Dunning-Kruger (Kruger &
Dunning, 1999). Ainda assim, devemos salientar a relevância deste efeito no
estudo da metamemória, pelo que talvez fosse relevante em futura investigação
sobre julgamentos de confiança controlar a habilidade dos participantes nas
tarefas.
O resultado evidenciado de que a exatidão e confiança dos participantes que
utilizam predominantemente o sistema 2 é superior à exatidão e confiança dos
participantes que utilizam o sistema 1 reveste-se ainda de uma relevância
prática. Verificando-se as referidas diferenças de exatidão, esta informação é
relevante para os técnicos envolvidos no processo de inquirição de testemunhas,
uma vez que permite distinguir testemunhas com maior probabilidade de evocar
informação correta, de testemunhas com menor probabilidade de o conseguir.
Assim, uma das formas de distinguir informação correta de incorreta num
depoimento pode passar pelo tipo de tomada de decisão adotado pela testemunha,
pelo que a investigação desta temática é relevante. A identificação do tipo de
tomada de decisão é de fácil acesso quando se recorre ao CRT. Este teste
apresenta vantagens de cariz prático, tais como a rapidez de aplicação e
simplicidade da sua cotação. Assim, com 3 questões apenas é possível aceder ao
tipo de tomada de decisão de uma testemunha e auxiliar os técnicos na
identificação de informação correta.
Uma limitação deste estudo prende-se com as diferenças entre sistema 1 e
sistema 2. Foram encontradas diferenças entre os dois sistemas na exatidão e na
confiança, mas não na calibração e sobreconfiança. O índice de calibração e a
sobreconfiança são medidas muito utilizadas na investigação como forma de
aferir a relação C-E. No entanto, e devido a uma condição inerente ao próprio
cálculo dos índices (que se baseiam na diferença entre confiança e exatidão),
estes tornam-se pouco sensíveis à variação de exatidão, quando acompanhada por
uma variação em igual proporção de confiança. Assim, embora o índice de
calibração e a sobreconfiança indiciem que o sistema utilizado não provoca
diferenças na confiança e exatidão, estas diferenças são encontradas ao
analisar as médias de confiança e exatidão, o que indica que o tipo de tomada
de decisão pode alterar a confiança e a exatidão na mesma medida, não
interferindo na relação.
Em suma, a investigação evidencia a complexidade da relação C-E, não sendo
evidente que diferenças individuais influenciem esta relação. A compreensão
desta relação é fundamental para auxiliar os profissionais que trabalham em
contexto judicial a utilizar a confiança das testemunhas com precisão,
minimizando a probabilidade de erros decorrentes de testemunhos com elevada
confiança e baixa exatidão. Também relevante para o contexto judicial seria
identificar diferenças individuais que tornam as testemunhas mais exatas,
permitindo desta forma distinguir testemunhos com maior probabilidade de
estarem corretos de testemunhos que podem evidenciar mais erros. Assim, é
importante a investigação que se centre na procura destas diferenças
individuais, prestando assim um auxílio fulcral à maior eficácia do sistema
judicial.