Análise fatorial confirmatória do questionário O Papel do Pai numa amostra de
pais e mães portuguesas
As atitudes e crenças que os pais têm acerca do seu papel na família e, em
particular, na educação e desenvolvimento da criança têm sido objeto de
interesse, nos últimos anos, por parte dos investigadores na área da
parentalidade (e.g., Lamb, 2010). Em Portugal, estas têm ganho particular
relevo, mais recentemente, sob o focos dos média mas, também, com trabalhos
realizados em áreas diversas desde a sociologia da família à psicologia do
desenvolvimento.
As mudanças ocorridas na estrutura tradicional da família, com percentagens
cada vez mais elevadas de mães activas no mercado de trabalho (remunerado),
famílias monoparentais ou reconstituídas, o aumento da idade média ao casamento
ou do nascimento do primeiro filho (Instituto Nacional de Estatística, 2013),
assim como, mudanças na visão dos papéis de género, conduziram ao surgimento de
novas expetativas acerca dos papéis a desempenhar por mães e pais nas esferas
familiar e laboral. De uma visão mais tradicional, do pai como suporte
financeiro ou elemento disciplinador, e da mãe como cuidadora e responsável
pela família tem-se vindo, progressivamente, a adotar uma visão mais
igualitária destes papéis (e.g., Cabrera, Tamis-LeMonda, Bradley, Hofferth,
& Lamb, 2000; Lamb, 2010; Monteiro et al., 2010; Pleck & Pleck, 2010).
O modo como os pais percecionam, e a importância que atribuem aos papéis que
desempenham, pode ser, contudo, diversa. A análise destas perceções é
importante, uma vez que o modo como os homens compreendem e organizam o seu
papel, enquanto pais, terá impacto no nível do seu envolvimento e na natureza
das interações com os filhos (e.g., Lamb, Pleck, Charnov, & Levine, 1985;
Palkovitz 1984; Parke, 2002). Segundo Beitel e Parke (1998), as crenças dos
pais sobre as diferenças de género (com raiz na biologia), a sua perceção de
competência e até que ponto valorizavam o seu papel de pai são preditores do
envolvimento com os filhos, nos primeiros meses de vida. No estudo de McBride,
Schoppe, Ho e Rane (2004), homens com uma visão menos tradicional do papel de
pai (i.e., que ia para além do suporte financeiro) indicavam demostrar mais
afetos e ter níveis mais elevados de monitorização das crianças. McBride e Rane
(1997) verificaram, ainda, que as perceções e atitudes dos pais acerca do seu
papel e da sua importância para o desenvolvimento das crianças, em idade pré-
escolar, se encontravam positivamente associadas com o seu envolvimento
(interação, acessibilidade e responsabilidade).
O papel do pai poderá ser melhor compreendido numa abordagem sistémica da
família, onde a parentalidade é vista como multideterminada (e.g., Belsky,
1984; Lamb et al., 1985). Há, assim, que considerar (entre outros) as crenças,
atitudes e comportamentos maternos face à importância e papel do pai. Diversos
autores (e.g., Schoppe-Sullivan, Brown, Cannon, Mangelsdorf, & Sokolowski,
2008) sugerem que as mães podem funcionar como reguladoras dos papéis
desempenhados pelos pais no seio da família, restringindo ou favorecendo a
participação e envolvimento dos mesmos. Neste sentido, McBride et al. (2005)
consideram as crenças maternas acerca do papel do pai como um potencial
mecanismo de gatekeeping, indicando que os níveis de envolvimento do pai com os
filhos são moderados pelas crenças maternas acerca do papel do pai. Palkovitz
(1984), assim como, McBride e Rane (1997) verificaram que, para além das
perceções e atitudes paternas acerca do seu papel, o modo como a mãe concebe o
papel do pai surge como o melhor preditor do envolvimento e interação com a
criança.
The Role of the Father Questionnaire (Palkovitz, 1984)
O Questionário sobre o Papel do Pai (QPP) avalia as atitudes parentais face ao
papel do pai, nomeadamente, até que ponto este é considerado importante para o
desenvolvimento da criança. Na versão original, os 15 itens que o compõem estão
organizados apenas numa dimensão. Valores mais elevados refletem atitudes de
que os pais são capazes e que devem estar envolvidos, assim como, são capazes
de serem sensíveis e disponíveis nas interações com os filhos. Estudos que
utilizam esta medida indicam níveis de fiabilidade aceitáveis, assim como a sua
validade preditiva ao obterem associações com o envolvimento do pai (e.g.,
McBride & Rane, 1997; Palkovitz, 1984). Originalmente construída para pais
com bebés, o QPP foi revisto para pais com crianças em idade pré-escolar (e.g.,
McBride & Rane, 1997), onde apenas a palavra bebé (infant)foi substituída
por criança pequena (young child), sendo reportados nível de consistência
interna aceitáveis (alfas de .77 para os pais e .79 para as mães). Em Portugal,
Lima (2001) utilizou o QPP numa amostra de 50 mães e pais portugueses, com
crianças em idade pré-escolar, não indicando a realização de análises fatoriais
do questionário. O alfa de Cronbachpara os pais foi de .65 e de .58 para as
mães; tendo o item 12 sido eliminado por apresentar variância nula no caso das
respostas dos pais.
Os objetivos do presente estudo foram: (1) Realizar uma análise fatorial
confirmatória no sentido de avaliar a qualidade do ajustamento do modelo de
medida do Questionário sobre o Papel do Pai, quer para os questionários dos
pais, quer para os questionários das mães; (2) Analisar a existência de
associações e diferenças nas atitudes de ambas as figuras parentais face ao
papel do pai em função das caraterísticas sociodemográficas: idade,
habilitações literárias, e emprego/número de horas que mães/pais trabalham,
assim como da idade e sexo das crianças.
Método
Participantes
200 famílias nucleares portuguesas participaram no estudo. Os pais tinham
idades compreendidas entre os 21 e os 62 anos (M=35.43, DP=5.24) e as mães
entre 19 e 47 anos (M=33.92, DP=4.70). As habilitações literárias dos pais
variavam entre os 4 e os 21 anos de escolaridade (M=10.81, DP=3.6) e das mães
entre os 4 e os 19 anos de escolaridade (M=12.70, DP=3.77). 168 pais e 149 mães
trabalhavam a tempo inteiro e 6 pais e 10 mães a tempo parcial (em média 41.51
e 38.59 horas/semanais respetivamente). As crianças tinham idades compreendidas
entre os 24 e 61 meses (M=42.30, DP=9.56), sendo 85 do sexo feminino e 155 do
masculino. Destes, 113 tinham irmãos. As crianças passavam em média 8.25
(DP=1.34) horas por dia na escola. As famílias habitavam no distrito de Lisboa,
tendo sido recrutadas para o estudo através das escolas que as crianças
frequentam. Trata-se de uma amostra de conveniência.
Instrumentos
Dados sociodemográficos
A Ficha de Identificação(Veríssimo, não publicada) visa recolher informação
relativa aos dados sociodemográficos da família.
Papel do Pai
The Role of the Father(Palkovitz, 1984) é um questionário de 15 itens que visa
analisar as atitudes parentais, nomeadamente, até que ponto a figura parental
crê que o papel do pai é importante para o desenvolvimento da criança. É
respondido numa escala de 5 pontos: (5) Concordo Fortemente; (3) Não Concordo,
Nem Discordo; (1) Discordo Fortemente. Por exemplo: "É essencial para o
bem-estar das crianças que os pais passem tempo a interagir e a brincar com os
(as) seus(suas) filhos(as)"; "Um pai deverá estar tão fortemente
envolvido, quanto a mãe, nos cuidados ao seu(a) filho(a)"; "As mães
são, naturalmente, cuidadoras mais sensíveis do que os pais". Os itens 2,
5 e 6 deverão ser invertidos.
Os valores totais (soma dos itens) variam entre 15 e 75, sendo que valores
elevados refletem atitudes de que os pais se devem envolver nos cuidados ao seu
filho(a), de que são capazes e devem demonstrar sensibilidade, e que este
envolvimento tem impacto no desenvolvimento da criança. Valores reduzidos
indicam que não faz parte do papel do pai estar envolvido com o(a) seu filho
(a), ou que este não tem uma influência positiva no desenvolvimento da criança.
Neste estudo, a versão de Palkovitz (1984) foi adaptada para crianças em idade
pré-escolar, na qual a única alteração foi a substituição da palavra
"bebé" por "criança pequena".
Procedimento
No seguimento da autorização necessária do autor da escala Rob Palkovitz,
procedeu-se à tradução do instrumento "The Role of the Father" (O
Papel do Pai- QPP) para Português, obedecendo aos critérios referenciados
para as traduções por Brislin (1980), designado de "abordagem por
comité", uma metodologia para a adaptação transcultural de questionários
psicológicos. Uma primeira versão foi depois aplicada a um pequeno grupo de
pais, de forma a garantir que todos os itens eram compreensíveis.
Após as autorizações necessárias das escolas e os consentimentos informados dos
participantes, os questionários foram entregues em momentos distintos a mães e
pais e respondidos de modo independente pelos mesmos. A ficha sociodemográfica
foi preenchida apenas pela mãe. Refira-se que esta recolha de dados decorreu no
contexto de um projeto mais amplo, a decorrer no ISPA-IU, que analisa o
desenvolvimento sócio-emocional das crianças considerando, o contexto familiar
e escolar.
Resultados
A estrutura fatorial do QPPfoi avaliada, numa amostra de 200 pais e mães,
através de uma análise fatorial confirmatória com o software AMOS (v.21, SPSS
Inc, Chicago, IL).
A existência de outliersfoi avaliada pela distância quadrada de Mahalanobis(D2)
e a normalidade das variáveis pelos coeficientes de assimetria (sk) e curtose
(ku) nas suas formas uni e multivariada. A qualidade de ajustamento global do
modelo fatorial foi avaliada de acordo com os seguintes índices: o teste do
Qui-quadrado de ajustamento (χ2
/df), o Comparative Fit Index(CFI) e o Root Mean Square Error of Approximation
(RMSEA, P[rmsea≤0.05]). A qualidade do ajustamento local foi avaliada pelos
pesos fatoriais e pela fiabilidade individual dos itens. O ajustamento do
modelo foi feito a partir dos índices de modificação (superiores a 11; p<.001)
produzidos pelo AMOS e com base em considerações teóricas. Finalmente, a
fiabilidade compósita (FC) enquanto indicador da fiabilidade de constructo foi
avaliada como descrito em Fornell e Larcker (1981). A análise preliminar
revelou que nenhuma variável apresentou valores de Sk e Ku indicadores de
violações severas à distribuição Normal (|Sk|>3 e |Ku|>10, ver Marôco, 2010).
Seguidamente, o modelo unifatorial do QPP, segundo Palkovitz (1984), foi
ajustado a uma amostra de 200 questionários de pais e 200 questionários de
mães. O modelo inicial para o pai revelou uma qualidade de ajustamento
moderado; o modelo para a mãe revelou uma qualidade de ajustamento pobre. Os
índices dos modelos podem ser analisados na Tabela_1.
De modo a melhorar o ajustamento do modelo inicial foram removidos os itens com
fracas propriedades psicométricas, especificamente os que demonstraram pesos
fatoriais estandardizados menores que |.10|, dando origem aos modelos
simplificados (ver Tabela_1).
Foram removidos os itens 4 ("As responsabilidades da paternidade nunca se
sobrepõem às alegrias que daí advêm"), 10 ("As mães são,
naturalmente, cuidadoras mais sensíveis do que os pais"), e 13 ("É
importante responder, de modo rápido, a uma criança pequena, cada vez que ela
chora"). Como se pode verificar, na Tabela_1, os modelos simplificados
demonstraram melhor ajustamento, tanto para o pai, como para a mãe. No entanto,
enquanto o modelo para o pai atingiu bons índices de ajustamento, o modelo para
a mãe não os atingiu.
Assim foi especificado um novo modelo para as mães, composto por dois fatores,
dividindo os itens respeitantes a uma "atitude tradicional face ao papel
do pai" num fator e os itens respeitantes a uma "atitude
moderna" noutro fator. Verificou-se que o item 10 tinha um peso fatorial
estandardizado de λ=.38 no fator "Atitude Tradicional", pelo que
foi incluído neste modelo. Por outro lado, o item 15 ("Considerando todos
os aspetos da paternidade, ser pai é uma experiência extremamente
gratificante") demonstrou um índice de modificação superior a .11 para a
inclusão nos dois fatores, pelo que o eliminámos. Este modelo de 2 fatores para
a mãe demonstrou um bom ajustamento. Para efeitos comparativos foi, também,
calculado para o pai um modelo de dois fatores, homólogo ao da mãe, que veio a
demonstrar um ajustamento muito pobre (ver Tabela_1).
Os pesos fatoriais estandardizados e a variância explicada dos itens dos
modelos com melhores índices de ajustamento, bem como as fiabilidades
compósitas de cada fator, para o pai e para a mãe, são apresentados nas Tabela
2 e 3.
De seguida foram realizadas análises de modo a testar a existência de
associações e diferenças nas atitudes face ao papel do pai em função das
caraterísticas sociodemográficas: idade, habilitações literárias, emprego de
mães/pais, assim como, sexo e idade das crianças. Obtiveram-se correlações
positivas e significativas entre as respostas do pai ao QPP e a idade dos pais
(r=.14; p<.05) e das mães (r=.22; p<.05). Encontrou-se, ainda, uma correlação
positiva e significativa entre as respostas das mães ao QPP, na dimensão
"Atitude Moderna" e a idade da criança (r=.17; p<.05). Não foram
encontradas associações significativas com as habilitações literárias, número
de horas de trabalho de mães/pais, nem diferenças significativas em função do
sexo da criança.
Discussão
O presente estudo teve como objetivo analisar as crenças e atitudes de pais e
mães acerca do papel do paitestando, numa amostra de famílias bi-parentais
portuguesas, com crianças em idade pré-escolar, um instrumento amplamente
utilizado pela investigação (anglo-saxónica) na área da parentalidade. Para
isso, foi realizada uma análise fatorial confirmatória, no contexto dos modelos
de equações estruturais, sendo este o primeiro estudo sobre este instrumento
que reporta o recurso a esta abordagem.
Os resultados obtidos permitem suportar a estrutura unifatorial do QPP
(Palkovitz, 1984) para as respostas do pai, com índices de ajustamento que
sustentam a boa qualidade do modelo e, ainda, com valores que reforçam a sua
fiabilidade. Contudo, 3 itens (4, 10, 13) da escala original foram retirados
por apresentarem fracas propriedades psicométricas. Para as respostas dadas
pelas mães, apenas um modelo bifatorial se mostrou adequado aos dados. Estes
resultados sugerem que as atitudes e crenças sobre a parentalidade de pais e
mães poderão ter estruturas diferentes. Nesta amostra, as mães portuguesas
distinguem atitudes face ao papel do pai consideradas "modernas"
(e.g., a importância do pai no desenvolvimento da criança), das
"tradicionais" (e.g., as mães são cuidadoras mais sensíveis do que
os pais) baseadas nos estereótipos de género. Assim, os diferentes resultados
obtidos nos dois membros do casal demostram que a estrutura fatorial não pode
ser replicada diretamente no género masculino e feminino.
Na análise das variáveis sociodemográficas, salientam-se as associações
positivas e significativas entre as respostas do pai ao QPP e a idade de pais e
mães, indo ao encontro da ideia de que pais que vivenciam uma paternidade mais
tardia parecem estar mais disponíveis psicologicamente, mais envolvidos, e
tendem a sentir-se mais gratificados no seu papel de pai (Palkovitz, 2002).
Os dados reforçam, ainda, a importância de se analisar tanto as crenças e
atitudes dos pais, como as das mães, sobre o papel do homem na área dos
cuidados e educação da criança (McBrian et al., 2005; Monteiro et al., 2010;
Schoppe-Sullivan et al., 2008). Em particular, quando se procura compreender a
diversidade no tipo, quantidade e qualidade de envolvimento e do seu impacto no
desenvolvimento de crianças e jovens (e.g., Lamb & Lewis, 2010; Torres,
Veríssimo, Monteiro, Santos, & Pessoa e Costa, 2013).
Este é um dos diversos instrumentos na área da parentalidade que visa
contribuir de um modo rigoroso para a análise e compreensão do que é ser pai.
No entanto, os resultados reportados deverão ser replicados numa amostra de
dimensão superior e com caraterísticas socioeconómicas e geográficas mais
heterogéneas, no sentido de se confirmar a estrutura encontrada para o QPP,
respondido por pais e mães.Apesar dos enormes progressos realizados no estudo
da paternidade (ver Lamb, 2010) muito do que continuamos a saber provém da
investigação desenvolvida com base no modelo materno, ou de outros contextos
socioculturais distintos do nosso país. Este estudo procurou ser um contributo
no sentido de preencher essa lacuna.