Padrões de consumo de álcool em estudantes da Universidade de Aveiro: Relação
com comportamentos de risco e stress
INTRODUÇÃO
O consumo excessivo de álcool entre estudantes universitários é foco de grandes
preocupações há várias décadas (O'Malley & Johnston, 2002; Pedersen
& von Soest, 2013; Rosenbluth, Nathan, & Lawson, 1978; Straus &
Bacon, 1953; Wechsler, Dowdall, Davenport, & Castillo, 1995; Wechsler,
Dowdall, Maenner, Gledhill-Hoyt, & Lee, 1998). Vários estudos
epidemiológicos, sobretudo americanos, demonstram que o álcool é a substância
mais consumida pelos jovens universitários, especialmente pelos estudantes do
sexo masculino, embora as estudantes também apresentem padrões de consumo
significativos (e.g., Calvário, Lizardo, Loureiro, & Santos, 1997;
O'Malley & Johnston, 2002). A cerveja é indiscutivelmente a bebida
que os jovens mais ingerem, seguindo-se as bebidas espirituosas e depois o
vinho (Hibell et al., 2009). As consequências do consumo excessivo de álcool
são variadas e refletem-se em diversas áreas, nomeadamente na saúde física, na
saúde emocional e comportamental, bem como na esfera social do indivíduo. As
consequências mais apontadas na literatura dizem respeito a: problemas do foro
médico (e.g., o elevado consumo de álcool aumenta o risco de se desenvolver
obesidade, cancro ou doenças cardiovasculares), problemas do foro cognitivo
(e.g., o elevado consumo de álcool está associado a declínios das capacidades
cognitivas como memória, atenção e funções executivas), bem como alterações
comportamentais e emocionais (e.g., o elevado consumo de álcool aumenta o risco
de desenvolvimento de comportamentos agressivos) (Chen, Rosner, Hankinson,
Colditz, & Willett, 2011; Hingson, Heeren, Winter, & Wechsler, 2005;
Hingson, Heeren, Zakocs, Kopstein, & Wechsler, 2002; Smith, 2007; Wechsler
et al., 1998). Adicionalmente, o consumo excessivo de álcool expõe os jovens a
comportamentos de risco, como por exemplo, a condução sob o efeito de álcool ou
relações sexuais sem proteção (Bartholow, Henry, Lust, Saults, & Wood,
2012; Eckardt et al., 1998; Heinz, Beck, Meyer-Lindenberg, Sterzer, &
Heinz, 2011; Wechsler et al., 1998).
Uma das preocupações dos investigadores e da comunidade em geral tem sido a
procura dos motivos que levam os universitários a apresentarem consumos
excessivos de álcool. É a partir do conhecimento dessas relações motivacionais
que podemos apostar mais eficazmente em programas de prevenção neste grupo
concreto. São vários os motivos apontados como causadores dos episódios de
ingestão excessiva de álcool, podendo ser agrupados em motivos emocionais e
motivos sociais (Read, Wood, Kahler, Maddock, & Palfai, 2003). Se
explorarmos um pouco mais estes tipos de motivos, encontramos facilmente na
literatura que os estudantes do ensino superior que consomem álcool
excessivamente, o fazem devido a: (a) terem a crença que o álcool é um bom
estimulador emocional, isto é, induz estados emocionais positivos (Stewart,
Zeitlin, & Samoluk, 1996); (b) terem a crença que o álcool os ajuda a
tornar as situações sociais mais agradáveis (MacLatchy-Gaudet & Stewart,
2001); (c) terem a crença que o álcool alivia estados emocionais negativos,
funcionando como uma estratégia de coping, ainda que seja uma estratégia mal-
adaptativa (Cooper, Russell, Skinner, Frone, & Mudar, 1992; Kassel,
Jackson, & Unrod, 2000). De facto, um dos motivos comumente associados a
episódios de ingestão excessiva de álcool diz respeito ao stress sentido pelos
consumidores no seu dia-a-dia ou em situações vividas num passado recente. Na
literatura podemos verificar que o consumo de álcool está relacionado com a
perceção de stress que os indivíduos têm diariamente; os estudos salientam este
aspeto quer na comunidade em geral (e.g., Aldridge-Gerry et al., 2011), quer na
comunidade académica (Armeli, Conner, Cullum, & Tennen, 2010). O consumo de
álcool nestas situações funciona habitualmente como uma estratégia de coping,
i.e., perante o stress, o consumidor bebe com o objetivo de fuga/alheamento dos
problemas e das emoções negativas (Sher & Rutledge, 2007; Vaughan, Corbin,
& Fromme, 2009).
É sobretudo nas festas académicas que o maior consumo de álcool se verifica.
Efetivamente, estas são momentos de celebração entre os estudantes
universitários e o álcool encontra-se intimamente relacionado com a sua
cultura, onde impera um pensamento coletivo "tenho que beber como os
outros para festejar" (Harford, Wechsler, & Seibring, 2002). Acresce
ainda o facto das bebidas alcóolicas serem relativamente baratas e das próprias
festas estarem associadas a marcas de bebidas (Musse, 2008). Nestas ocasiões, é
onde podemos frequentemente registar maiores episódios de binge drinking
(Reifman & Watson, 2003). Os episódios de binge drinkingsão caraterizados
pelo consumo consecutivo de cinco ou mais doses de álcool numa única ocasião,
num curto espaço de tempo (Ham & Hope, 2003; Wechsler et al., 1995, 1998;
Wechsler, Kuh, & Davenport, 2009). Entre universitários, observa-se a ampla
ocorrência destes episódios, o que torna esta população ainda mais vulnerável
aos efeitos nefastos dos elevados consumos de álcool (Sheffield, Darkes, Del
Boca, & Goldman, 2005; Wechsler et al., 2009).
O consumo de álcool observa-se em várias faixas etárias, mas está muito
associado aos jovens, sobretudo aos universitários (Maldonado-Devincci,
Badanich, & Kirstein, 2010; Wicki, Kuntsche, & Gmel, 2010). A entrada
na faculdade é uma fase de transição e normalmente desencadeadora de elevado
stress (Pierceall & Keim, 2007); é igualmente uma fase onde se registam
frequentemente consumos de álcool excessivos, o que nos levou a estudar nesta
investigação a relação entre as duas variáveis (stress e consumo de álcool)
(Borsari, Murphy, & Barnett, 2007; Sher & Rutledge, 2007). De facto, ao
ingressarem na universidade, muitos jovens adultos vivenciam novas etapas das
suas vidas: estão distantes da família de origem pela primeira vez, moram com
outros estudantes, ou experimentam a ausência de supervisão de adultos mais
velhos, habitualmente os pais (Windle, 2003). Com a entrada no ensino superior,
observam-se ainda as seguintes situações desencadeadoras de stress: problemas
pessoais como homesickness(saudades de casa), solidão, timidez, limitações nas
competências sociais e tomadas de decisão e perturbações emocionais; os
problemas académicos, tais como as dificuldades de relacionamento com
professores e colegas, competências de estudo, rendimento escolar, medo de
falhar nos exames; os problemas financeiros e de gestão da casa, com maior
ênfase na acomodação e hábitos alimentares, para além dos problemas
relacionados com a segurança (Pereira, 1997). Apesar de algumas caraterísticas
pessoais contribuírem para o consumo excessivo de álcool, são sobretudo as
influências socioambientais que parecem melhor explicar esses comportamentos,
ou seja, uma situação na qual o álcool está amplamente disponível (como é o
caso das festas académicas) é mais favorecedora do que um ambiente no qual a
oferta não acontece dessa forma. As idas frequentes a bares e festas académicas
que caraterizam parte da vida académica aumentam a probabilidade de consumo de
álcool, tabaco e até outras drogas (Dierker et al., 2006; Mesquita, Bucaretchi,
Castel, & Andrade, 1995). Portanto, o uso de álcool entre universitários
pode ser favorecido de forma indireta, uma vez que os estudantes se influenciam
mutuamente por modelagem, imitação ou reforço do comportamento de beber. O
indivíduo pode perceber e interpretar o padrão de consumo de álcool dos outros
como um reforço ao seu próprio comportamento e então, passar a comportar-se de
acordo com essa perceção (Bot, Engels, & Knibbe, 2005; Chassin, Pitts,
& Prost, 2002; Ham & Hope, 2003; Oostveen, Knibbe, & De Vries,
1996). A modelagem social parece intensificar-se num ambiente novo, no qual o
indivíduo tem menos experiência (e.g., um caloiro numa festa académica tem
maior probabilidade de imitar os comportamentos dos outros para se sentir
integrado) (Bot et al., 2005; Read et al., 2003; Wood, Read, Palfai, &
Stevenson, 2001). Além das consequências negativas dos episódios de binge
drinking, acresce o risco destes contribuírem para o desenvolvimento de
dependência à medida que a frequência da intoxicação episódica aumenta
(Wechsler, Molnar, Davenport, & Baer, 1999), especialmente quando há a
ocorrência repetida desses episódios (Shakeshaft, Bowman, & Sanson-Fisher,
1998). A frequência de episódios de bingeé por isso um dos aspetos que mais
preocupa os investigadores e a sociedade em geral, uma vez que é muito
recorrente entre universitários (Ham & Hope, 2003).
Tal como já foi mencionado anteriormente, o consumo excessivo de álcool
acarreta consequências negativas para os consumidores, estimulando comumente
outros comportamentos, nomeadamente o comportamento de fumar (Nichter, Nichter,
Carkoglu, & Lloyd-Richardson, 2010). Adicionalmente, pode ser também um
problema de saúde e até um problema de segurança pública. O consumo de álcool é
o fator mais associado a acidentes de trânsito, pois dificulta as tomadas de
decisão, bem como as capacidades psicomotoras dos condutores e os seus tempos
de reação (Beck et al., 2010). Conduzir sob o efeito do álcool é um grave
problema de segurança; em Portugal, os acidentes de viação são a principal
causa de morte nos jovens (Lages, 2007). Diversos estudos (e.g., Redhwan &
Karim, 2010) têm demonstrado que o fator humano (erro humano na perceção devido
principalmente a excesso de velocidade e ao consumo de álcool) é o primeiro
responsável por 64-95% dos acidentes. O consumo de álcool aumenta não só o
risco de acidente, bem como da sua gravidade, aumentando igualmente a
probabilidade de ocorrência de mortos. Os jovens, especialmente do sexo
masculino, são o grupo com maior envolvimento em acidentes de trânsito fatais
(Andrade & Mello-Jorge, 2001; Marín-León & Vizzotto, 2003). Para além
dos acidentes de viação, o consumo de álcool está na base de comportamentos
sexuais de risco. Ao negligenciarem a prática da contraceção e de prevenção às
doenças sexualmente transmissíveis, os jovens podem expor-se não só às doenças
sexualmente transmissíveis, bem como a uma gravidez não planeada. São
particularmente os episódios de bingeque se encontram intimamente relacionados
com comportamentos de risco (Randolph, Torres, Gore-Felton, Lloyd, &
McGarvey, 2009; Scott-Sheldon, Carey, & Carey, 2010).
O consumo excessivo de álcool é uma problemática corrente nos universitários,
um pouco por todo o mundo, contudo a verdadeira prevalência do consumo de
álcool em estudantes do ensino superior em Portugal ainda permanece
desconhecida. Todavia, gostaríamos de destacar dois estudos que nos revelam
alguns dados portugueses acerca deste tema. Num deles, comparou-se os consumos
de álcool de estudantes universitários de 21 países; Portugal ocupou o 14º
lugar no que toca ao maior número de estudantes universitários que consome
álcool (Dantzer, Wardle, Fuller, Pampalone, & Steptoe, 2006). Também
Galhardo e Marques (2004) concluíram que os estudantes universitários
apresentam taxas de consumo de álcool significativas. Neste estudo, realizado a
estudantes do ensino superior de Coimbra, constatou-se que 71.6% dos estudantes
consome álcool e os restantes 28.4% são abstémios. Concluiu-se ainda que cerca
de 30.7% bebe álcool 1 ou 2 vezes por mês, 27.2% 2 vezes por semana e 26.7% só
ao fim de semana.
Tendo em conta a literatura supracitada, com o nosso estudo pretendemos
apresentar dados da prevalência do consumo de álcool em estudantes da
Universidade de Aveiro e contribuir para o conhecimento dos hábitos dos jovens
universitários portugueses. Pretendemos também verificar se os maiores consumos
estão associados ao sexo masculino; verificar se os maiores consumos de álcool
estão associados aos estudantes deslocados da sua área de residência; registar
alguns comportamentos de risco dos estudantes universitários; verificar os
níveis de stress percecionados pelos participantes; apresentar dados
correlacionais entre os comportamentos de risco e os consumos de álcool, bem
como entre estes e os níveis de stress.
MÉTODO
Participantes
A amostra foi constituída por 760 estudantes da Universidade de Aveiro (UA),
sendo 370 do sexo masculino (48.7%) e 390 do sexo feminino (51.3%), com idades
compreendidas entre os 18 e os 35 anos (M=21.46, DP=3.11). Recrutados
aleatoriamente de vários cursos e graus de ensino da UA, 621 (82%) eram alunos
de licenciaturas, 95 (12%) de mestrados e 44 (6%) de doutoramentos. Quanto à
deslocação, cerca de 460 participantes (60%) tiveram que se deslocar da sua
residência familiar para estudar na UA, enquanto que 300 (cerca de 40%) não
estavam deslocados (viviam nos arredores da UA).
Instrumentos
Nesta investigação foi utilizada uma bateria de instrumentos de autorresposta:
Questionário Sociodemográfico, Questionário de Comportamentos de Risco em
Estudantes Universitários e Inventário do Stress em Estudantes Universitários.
O Questionário Sociodemográfico, elaborado para uma investigação mais alargada
sobre saúde mental e comportamentos de risco em estudantes universitários do
qual fez parte este estudo, consistiu na recolha de informações como a idade, o
sexo e o grau de ensino dos participantes. As informações recolhidas com este
instrumento foram utilizadas essencialmente na descrição da nossa amostra.
O Questionário de Comportamentos de Risco em Estudantes Universitários -
QCREU (Santos, Pereira, & Veiga, 2007) é composto por 24 itens, com opções
de resposta numa escala do tipo Likert [e.g., Durante os últimos 30 dias, em
quantos dias fumou cigarros? (a) 0 dias; (b) 1 dia; (c) 2 a 4 dias; (d) 2 a 3
dias por semana; (e) 4 ou mais dias por semana]. Este instrumento tem como
objetivo caraterizar os comportamentos de risco dos estudantes universitários
que resultam do consumo de determinadas substâncias, nomeadamente tabaco,
álcool, marijuana e tranquilizantes. Além dessas informações, o questionário
também apresenta outras questões relativas, por exemplo, aos parceiros e
relações sexuais, assim como à segurança na condução. Com este instrumento são
assim avaliadas seis categorias de comportamentos: (1) uso de tabaco; (2)
consumo de álcool e outras drogas; (3) comportamentos sexuais de risco; (4)
hábitos alimentares; (5) inatividade física; condução de risco. De acordo com
os objetivos delineados neste estudo, foram tidos em conta apenas os itens
relativos ao consumo de álcool, assim como os itens relativos a problemas
ligados a esse consumo: comportamentos sexuais de risco e condução sob o efeito
de álcool, embora os participantes preenchessem o questionário na sua
totalidade.
O último instrumento disse respeito ao Inventário do Stress em Estudantes
Universitários - ISEU (Pereira et al., 2004). Nesta investigação foi
utilizada a sua versão reduzida, constituída por 24 itens. As respostas são
também do tipo Likert e apresentam-se numa escala de 1 (discordo totalmente) a
5 (concordo totalmente) (e.g., Habitualmente ando muito stressado(a): 1 -
discordo totalmente; 2 - discordo; 3 - não concordo nem discordo; 4
- concordo; 5 - concordo totalmente). O presente inventário procura
identificar as várias causas de stress, estando organizadas em quatro fatores:
(1) ansiedade em situações de avaliação; (2) auto-estima e bem-estar; (3)
ansiedade social; (4) problemas socioeconómicos. Os estudos psicométricos de
Pereira et al. (2004) revelam uma elevada consistência interna, com um valor
alfa de Cronbach de 0.90.
Procedimento
A bateria de instrumentos de autorresposta foi aplicada durante as atividades
letivas da UA (antes ou logo após as aulas) e com o devido consentimento dos
docentes que estavam a lecionar. A aplicação dos questionários, que teve
duração aproximada de 15 minutos, foi realizada pelos investigadores
responsáveis, que antes do preenchimento do questionário informaram os
estudantes acerca da confidencialidade de todo o processo de investigação. A
participação dos estudantes ocorreu de forma voluntária.
A análise dos dados foi efetuada através do programa IBM SPSS Statistics 21.0,
recorrendo-se à análise descritiva das variáveis. Na análise dos dados adotou-
se um intervalo de confiança de 95%.
RESULTADOS
Padrões de consumo de álcool
Relativamente ao consumo de álcool pelos estudantes universitários da UA,
constatámos que 72% dos estudantes inquiridos afirma ter consumido pelo menos
uma bebida alcoólica nos últimos 30 dias, enquanto 42% afirma ter consumido
cinco ou mais bebidas alcoólicas em apenas algumas horas, nos 30 dias
anteriores à data de participação no estudo. Na Figura_1 apresentamos a
distribuição de respostas às duas questões do QCREU: "durante os últimos
30 dias, em quantos dias bebeu pelo menos uma bebida alcoólica?" e
"durante os últimos 30 dias, em quantos dias bebeu cinco ou mais bebidas
alcoólicas seguidas, em apenas algumas horas?".
Adicionalmente, regista-se que uma percentagem significativa afirma não ir a
festas ou não consumir álcool (27.4%), 24.3% dos estudantes afirma consumir
habitualmente 3 a 4 copos/bebidas nas festas académicas, 20.3% afirma consumir
1-2 copos/bebidas, 15.3% 5-8 copos/bebidas e 12.8% afirma consumir mais de 8
copos/bebidas nas festas académicas.
À questão "durante os últimos 30 dias, em quantos dias bebeu pelo menos
uma bebida alcoólica?", verifica-se que foram os estudantes do sexo
masculino os que consumiram com maior frequência, isto é, num maior número de
dias (M=2.95, DP=1.18), quando comparados com estudantes do sexo feminino
(M=2.13, DP=1.09), sendo esta diferença estatisticamente significativa, t
(743.95)=9.98, p<.001, d=0.722. À questão "durante os últimos 30 dias, em
quantos dias bebeu 5 (4 se for mulher) ou mais bebidas alcoólicas seguidas, ou
seja, em apenas algumas horas?", verificou-se que são igualmente os
estudantes do sexo masculino que responderam beber 5 ou mais bebidas num maior
número de dias (M=2.08, DP=1.11), quando comparados com estudantes do sexo
feminino (M=1.47, DP=0.88), sendo esta diferença estatisticamente
significativa, t(757)=8.39, p<.001, d=0.609. São também os universitários
masculinos que consomem maior número de bebidas em festas académicas (M=3.21,
DP=1.37), quando comparados com as estudantes (M=2.14, DP=1.13), sendo esta
diferença estatisticamente significativa t(758)=11.83, p<.001, d=0.852.
Uma outra análise que efetuámos teve em conta os estudantes deslocados, isto é,
aqueles que habitam fora da sua área de residência familiar, e os não
deslocados. À questão "durante os últimos 30 dias, em quantos dias bebeu
pelo menos uma bebida alcoólica?", verifica-se que são os estudantes
deslocados da sua residência familiar que consomem com maior frequência nos 30
dias anteriores ao preenchimento do questionário (M=2.71, DP=1.22) em relação
aos não deslocados da sua residência familiar (M=2.24, DP=1.14), sendo uma
diferença estatisticamente significativa, t(668.72)=5.44, p<.001, d=0.398.
Também se verifica que são os estudantes deslocados que apresentam com maior
frequência consumos de pelo menos 5 bebidas num única ocasião (M=1.95 dias,
DP=1.14), em relação aos não deslocados (M=1.48 dias, DP=0.81), sendo esta
diferença estatisticamente significativa, t(753)=6.19, p<.001, d=0.475.
Verifica-se adicionalmente que são os estudantes deslocados que consomem maior
número de bebidas alcoólicas em festas académicas (M=2.94, DP=1.32), em relação
aos não deslocados (M=2.24, DP=1.32), sendo esta diferença estatisticamente
significativa, t(754)=639.54, p<.001, d=0.530.
Ao analisarmos os tipos de bebidas alcoólicas mais apreciados pelos estudantes
da UA quer habitualmente, quer em contexto de festas académicas, verificámos
que é a cerveja o tipo de bebida preferido (42.9% dos estudantes afirma
consumir habitualmente e 44.7% em festas académicas), seguindo-se as bebidas
espirituosas (19.2% e 13.4% dos estudantes, respetivamente) e depois os shots
(5.7% e 8.7% dos estudantes, respetivamente). O vinho é a bebida menos
consumida pelos estudantes quer habitualmente, quer no contexto específico das
festas académicas (5.9% e 2.1% dos estudantes, respetivamente).
Consumo de álcool e comportamentos de risco
Conforme foi mencionado na nossa revisão de literatura, o consumo de álcool
está associado a alguns comportamentos de risco, nomeadamente comportamentos
que põem em causa a segurança rodoviária e a segurança das relações sexuais. À
questão "durante os últimos 12 meses teve relações sexuais depois de ter
consumido álcool, que não ocorriam caso não tivesse bebido?", verificámos
inequivocamente que a maioria dos estudantes (90.5%) afirma nunca ter passado
por essa experiência. Regista-se ainda que 76.2% dos inquiridos afirma ter sido
conduzido por alguém sob o efeito de álcool, 9.9% dos inquiridos afirma ter
sido conduzido uma única vez por alguém alcoolizado, 8.3% 2 ou 3 vezes, 1.8% 4
ou 5 vezes e 3.6% afirma ter sido transportado 6 ou mais vezes por alguém sob o
efeito de álcool, no mês anterior à participação no estudo. 85.9% dos
inquiridos afirma ter conduzido sob o efeito do álcool durante os 30 dias
anteriores à participação no estudo, 5.7% afirma não ter conduzido sob efeito
de álcool uma vez, 5.4% 2 ou 3 vezes, 0.5% 4 ou 5 vezes e 1.7% dos inquiridos
afirma ter conduzido 6 ou mais vezes sob efeito de álcool.
Ainda no que concerne à exploração da relação entre álcool e os comportamentos
de risco, criámos o grupo dos estudantes binge drinkers(os que responderam mais
do que 1 dia à questão do QCREU: 1) "durante os últimos 30 dias, em
quantos dias bebeu pelo menos uma bebida alcoólica?" e pelo menos 1 dia à
questão: 2) "durante os últimos 30 dias, em quantos dias bebeu 5 ou mais
bebidas alcoólicas seguidas?") e o grupo dos abstémicos/consumidores
ligeiros (os que não consomem ou consomem raramente), i.e., os que responderam
no máximo 1 dia à questão 1) e 0 dias à questão 2). Constata-se que são os
binge drinkersque apresentam comportamentos de risco com maior frequência (cf.
Tabela_1).
Níveis de stress e relação com o consumo de álcool
Tendo em conta os dados normativos do ISEU (Pereira et al., 2004), os
estudantes universitários de Aveiro apresentam níveis moderados de stress
(M=69.60, DP=15.89) (intervalo normativo do nível de stress médio: 59.67
- 80.63; Pereira et al., 2004), sendo que cerca de 29% do stress é devido
a ansiedade aos momentos de avaliação, cerca de 25% é devido a auto-estima e
bem-estar, cerca de 24% devido a ansiedade social e cerca de 22% devido às
condições socioeconómicas.
Para testarmos a relação entre os níveis de stress, o consumo de álcool e os
comportamentos de risco associados ao tabaco, realizámos um teste de correlação
de Pearson. Podemos constatar que o consumo de bebidas alcoólicas encontra-se
positivamente correlacionada com o ato de fumar. Podemos ainda verificar que os
níveis de stress percecionados pelos estudantes se encontram negativamente
correlacionados com o consumo de álcool. Todos os dados correlacionais podem
ser consultados na Tabela_2.
Uma vez que encontrámos correlações significativas entre os níveis de stress e
o consumo de álcool, analisámos quais os fatores do ISEU mais associados ao
consumo de álcool. Verificámos que todos os fatores que compõem o ISEU se
encontram negativamente correlacionados com as questões sobre consumo de álcool
do QCREU (cf. Tabela_3).
Através do teste t-student, verificámos que são os estudantes binge drinkersque
apresentam menores níveis de stress (M=67.23, DP=15.17), quando comparados com
os consumidores ligeiros/abstémicos (M=71.23, DP=16.23), sendo esta diferença
estatisticamente significativa, t(709.95)=3.48, p=.001, d=-0.255
DISCUSSÃO
Nos países industrializados, uma parte muito significativa dos jovens ingressa
na universidade para seguir os seus cursos superiores. Esta fase é
habitualmente acompanhada por mudança de casa, estabelecimento de novas
relações pessoais, novas relações sociais e, por conseguinte, novos
comportamentos. Associado aos estudantes universitários está habitualmente o
consumo de álcool, bem como os comportamentos de risco (e.g., Pedersen &
von Soest, 2013; Wechsler et al., 1998). Deste modo, é essencial perceber-se a
prevalência do consumo de álcool nos estudantes portugueses, os comportamentos
associados e as suas causas. Com este estudo, pretendeu-se contribuir para o
aprofundamento de alguns destes aspetos.
Os resultados do nosso estudo indicam que o consumo de álcool continua a ser
uma prática corrente nos jovens universitários, especificamente nos estudantes
de Aveiro e particularmente nas festas académicas. Estes resultados vão ao
encontro de vários estudos internacionais feitos nesta área (e.g., Musse, 2008;
Reifman & Watson, 2003), que salientam que o álcool é a substância mais
consumida nas festas académicas, encontrando-se intimamente ligado à cultura
destas, cujo consumo, mesmo que excessivo, é considerado normativo (Harford et
al., 2002; Windle, 2003). As razões que parecem estar mais relacionadas com os
padrões de consumo de álcool nos jovens universitários prendem-se com a saída
de casa dos pais, com as idas em grupo aos bares e com os processos de
modelagem, imitação e reforços subjacentes (Bot et al., 2005; Chassin et al.,
2002; Ham & Hope, 2003). Segundo os resultados do nosso estudo, podemos
ainda afirmar que são os estudantes do sexo masculino os que mais consomem
álcool, quer em quantidade, quer em frequência, o que corrobora estudos
americanos (e.g., O'Malley & Johnston, 2002), assim como estudos
portugueses (e.g., Calvário et al., 1997). Verificámos ainda que são os
estudantes deslocados, aqueles que apresentam maiores consumos de álcool, o que
vai ao encontro de estudos como de Cooper et al. (1992) e de Pereira et al.
(2004), que referem que uma das razões para os estudantes universitários
consumirem álcool, tem a ver com as saudades que têm de casa (homesickness),
para além da ansiedade e stress subjacente às novas responsabilidades
académicas e pessoais. Podemos ainda concluir que a cerveja continua a ser a
bebida preferida dos estudantes, possivelmente porque é uma bebida
relativamente barata e porque as festas académicas estão fortemente associadas
a marcas de cerveja. Este facto torna o seu consumo num comportamento
caraterístico das festas académicas (Hibell et al., 2009; Musse, 2008).
Conforme verificámos na literatura, os consumos de álcool estão associados a
comportamentos de risco. No nosso estudo, apurámos que a ocorrência de
comportamentos de risco, especifi -camente condução sob o efeito de álcool ou
ter relações sexuais depois de consumir álcool, é pouco significativa. Estes
resultados sugerem que os estudantes universitários de Aveiro, apesar de
apresentarem consumos de álcool relevantes, afirmam não ter habitualmente
comportamentos de risco depois desses consumos, o que pode significar uma maior
consciencialização da gravidade de tais comportamentos. Os nossos dados refutam
uma variedade de estudos nesta área (e.g., Beck et al., 2010; Randolph et al.,
2009; Redhwan & Karim, 2010). Contudo, pode-se concluir que o consumo de
álcool, nos estudantes da nossa amostra, está muito associado ao consumo de
tabaco.
Um dos objetivos desta investigação, para além dos outros já discutidos
anteriormente, foi o de analisar os níveis de stress que os estudantes da
Universidade de Aveiro apresentam. Verificámos que apresentam níveis médios, de
acordo com os dados normativos de Pereira et al. (2004). O stress percecionado
por eles, diz respeito sobretudo à ansiedade em momentos de avaliação,
seguindo-se problemas de auto-estima e bem-estar. Estes dados corroboram a
ideia de que a vida académica é uma fase com novas responsabilidades. Esta
situação, associada à mudança de casa e estabelecimento de novas relações
sociais pode conduzir muitos estudantes ao consumo de álcool, particularmente
em episódios de binge drinking(Reifman & Watson, 2003; Windle, 2003). Um
outro aspeto que é importante ser referido tem a ver com as correlações
negativas encontradas entre os níveis de stress e os consumos de álcool dos
estudantes. De facto, o consumo de álcool pode ser uma estratégia de copingde
evitamento, situação que pode ser confirmada pelos nossos resultados: quem
consome mais álcool perceciona menos stress. Estes comportamentos, contudo,
podem-se traduzir em estratégias de copingdesadequadas, i.e., os jovens ingerem
bebidas alcoólicas para se inserirem nos seus novos meios e desta forma
facilitar a sua adaptação (Vaughan et al., 2009). Porém, esses episódios de
ingestão excessiva de álcool têm consequências negativas para a saúde física e
psicológica do consumidor, portanto é uma estratégia de copinginadequada (Chen
et al., 2011; Heinz et al., 2011; Vaughan et al., 2009).
No âmbito das limitações encontradas no presente estudo, é importante referir o
facto dos dados apenas terem sido recolhidos a participantes que frequentam a
Universidade de Aveiro. Nesse sentido, os resultados não podem ser
generalizados aos estudantes universitários portugueses. No entanto, ajudam-nos
a compreender a realidade quanto à temática em questão e chamam particular
atenção para o seguinte: os jovens universitários portugueses continuam a
apresentar consumos excessivos de álcool. Podemos também referir que o stress
parece estar associado a esses consumos, havendo possivelmente outros motivos
(Read et al., 2003). Seria crucial apostar-se em investigações futuras que
abordassem outros motivos que levam os estudantes a consumir álcool,
nomeadamente motivos emocionais, como sintomatologia depressiva ou ansiedade
social (Ralston, Palfai, & Rinck, 2013; Terlecki, Buckner, Larimer, &
Copeland, 2011). Um outro aspeto a ter em atenção em estudos deste tipo é
verificar a ocorrência ou não de festas académicas nos 30 dias anteriores ao
preenchimento do questionário. Um dado positivo verificado neste estudo diz
respeito ao facto de não registarmos significância de comportamentos de risco.
Sugere-se então a realização de outras pesquisas noutras instituições do ensino
superior em Portugal, a fim de podermos conhecer os padrões de consumo de
álcool dos universitários portugueses, causas e consequências. Parece-nos
importante verificarmos em primeiro lugar a prevalência da problemática, depois
as causas/motivos e também os efeitos destes comportamentos. O nosso estudo
veio chamar a atenção para a complexidade do problema e veio contribuir para
que se conheça melhor a realidade portuguesa, à semelhança do que acontece
noutros países, cujo investimento em estudos deste tipo é notório (e.g.,
Wechsler et al., 1998; Wicki et al., 2010). Parece-nos ainda importante
salientar que no presente estudo apenas foi avaliada a perceção que o sujeito
tem dos seus consumos, dos seus comportamentos de risco e do seu stress. De
facto, quando falamos sobre, por exemplo, ter relações sexuais após um episódio
de consumo de álcool ou conduzir sob o efeito de álcool, estas são situações
socialmente reprováveis (Aberg, 1993; Reinarman, 1988). Este facto pode levar a
que os estudantes respondam de forma congruente com o que é socialmente mais
aceite, ao invés de espelharem o que realmente acontece. Neste sentido, a
interpretação dos resultados deverá ser efetuada com algum cuidado, situação
comum em estudos baseados em questionários de autorresposta (Podsakoff,
MacKenzie, Lee, & Podsakoff, 2003).