Comportamentos extra-diádicos nas relações de namoro: Diferenças de sexo na
prevalência e correlatos
INTRODUÇÃO
Numa relação amorosa, alguns comportamentos, como por exemplo as relações
sexuais, são considerados aceitáveis apenas para as duas pessoas envolvidas
nessa relação (Luo, Cartun, & Snider, 2010). Os indivíduos envolvidos numa
relação amorosa possuem, em geral, uma compreensão implícita do grau em que o
seu envolvimento em determinados comportamentos interpessoais é esperado como
sendo exclusivo ao parceiro (Wiederman & Hurd, 1999). Assim, quando um
indivíduo se envolve em tais comportamentos exclusivos com alguém fora da
relação primária, esses comportamentos são denominados de comportamentos
extra-diádicos' (CED; Luo et al., 2010, p. 155).
Nesta área, a investigação tem-se focado essencialmente nos CED dos indivíduos
casados ou a cohabitar. A literatura sobre os CED durante o namoro é mais
limitada, sobretudo devido às dificuldades em definir relação de namoro
(Hansen, 1987; McAnulty & Brineman, 2007). Para McAnulty e Brineman, estas
relações normalmente não possuem um compromisso formal para a exclusividade
sexual e emocional, que caracteriza o casamento, portanto a violação desta
exclusividade pode ser mais difícil de definir. Embora a investigação no âmbito
das relações de namoro seja relativamente recente, é durante este período que
as pessoas podem, pela primeira vez, violar as expectativas de exclusividade.
Nesta linha, os CED observados durante o namoro podem ter implicações
subsequentes nas expectativas sobre o casamento e no comportamento (Wiederman
& Hurd, 1999).
Em estudos prévios, enquanto durante o casamento a prevalência dos CED, nos
homens, variou entre os 21% e os 52% e, nas mulheres, entre os 12% e os 29%
(Kontula & Haavio-Mannila, 1995; Lewin, 2000; Træen & Stigum, 1998;
Wiederman, 1997a), durante o namoro a prevalência destes comportamentos parece
ser mais elevada (Luo et al., 2010; Wierderman, 1997a; Wiederman & Hurd,
1999), tendo alguns estudos encontrado uma prevalência superior a 70% (Allen
& Baucom, 2006; Yarab, Sensibaugh, & Allgeier, 1998). Estes valores
elevados têm sido, sobretudo, associados aos níveis mais baixos de compromisso
que caraterizam as relações de namoro, comparativamente às relações conjugais
(Edin, Kefalas, & Reed, 2004).
Algumas limitações da investigação nesta área justificam o presente estudo.
Primeiro, a maioria dos estudos não apresenta uma definição operacional clara
dos CED (Luo et al., 2010), usando terminologia vaga como comportamento
romântico ou sexual (Allen & Baucom, 2006, p. 309). Segundo, existe um
maior foco nos comportamentos sexuais (e.g., Atkins, Baucom, & Jacobson,
2001; Mark, Janssen, & Milhausen, 2011), apesar da relevância em se
considerar um espectro mais amplo de comportamentos, tanto sexuais como
emocionais (e.g., Roscoe, Cavanaugh, & Kennedy, 1988; Whitty, 2003;
Wiederman & Hurd, 1999; Yarab et al., 1998). Terceiro, poucos estudos têm
analisado o envolvimento extra-diádico online(Merkle & Richardson, 2000;
Whitty, 2003), apesar do número de relações românticas onlineestar a aumentar e
os indivíduos descreverem, frequentemente, estas relações como íntimas e tão
autênticas como qualquer relação presencial (Merkle & Richardson). Por
último, a investigação baseia-se, maioritariamente, em indivíduos casados,
sobretudo atendendo às potenciais consequências da infidelidade, em particular
o divórcio (Amato & Rogers, 1997; Betzig, 1989).
Dado o potencial impacto negativo que os CED podem ter na estabilidade de uma
relação (e.g., término da relação; Harris, 2002) e no bem-estar individual
(e.g., confiança pessoal e sexual diminuída; Charny & Parnass, 1995),
vários estudos têm tentado perceber quais os fatores que colocam os indivíduos
em risco de CED. Globalmente, os fatores mais estudados centram-se em variáveis
sociodemográficas, intrapessoais e interpessoais.
Variáveis sociodemográficas
O sexo é a variável mais estudada no contexto da infidelidade, quer
relativamente à definição, quer à incidência e prevalência destes
comportamentos (Mark et al., 2011). No contexto das relações de namoro, têm
sido reportadas taxas de prevalência mais elevadas para os homens do que para
as mulheres (e.g., Allen & Baucom, 2004; Hansen, 1987; Wiederman &
Hurd, 1999). Porém, estas taxas parecem declinar à medida que o contacto se
torna mais íntimo fisicamente (McAnulty & Brineman, 2007). Também na
modalidade online, as diferenças de sexo parecem assumir especial relevância.
Vários estudos sugerem que o sexo masculino é o que mais tende a envolver-se em
relações românticas mediadas pelo computador (e.g., Cooper, Delmonico, &
Burg, 2000;Wysocki, 1998). As diferenças de sexo parecem, no entanto, ser
atenuadas quando a infidelidade é definida como abrangendo uma maior
diversidade de comportamentos, em vez de apenas a relação sexual (Brand,
Markey, Mills, & Hodges, 2007). Numa revisão da literatura, Allen et al.
(2005) mostraram que as diferenças de sexo estão a diminuir nas coortes
sucessivamente mais jovens, ou seja, o intervalo entre os homens e mulheres,
no que concerne à taxa de infidelidade, tem estreitado (e.g., Wiederman,
1997a).
A existência de dois tipos de infidelidade é um aspeto consensual: a sexual
(i.e., envolvimento numa relação sexual com outra pessoa para além do parceiro)
e a emocional(i.e., apaixonar-se por outra pessoa que não o parceiro primário;
Miller & Maner, 2008). Também neste âmbito, se encontram evidências sobre
as diferenças de sexo, sugerindo-se que os homens, mais provavelmente que as
mulheres, têm casos apenas sexuais e as mulheres, mais que os homens, apenas
emocionais (Glass & Wright, 1985).
Outra variável relevante diz respeito à religiosidade (Allen et al., 2005;
Atkins et al., 2001; Mattingly, Wilson, Clark, Bequette, & Weidler, 2010;
Treas & Giesen, 2000). A infidelidade tem sido, de forma consistente, mais
reportada por indivíduos que não têm afiliação religiosa comparativamente aos
que têm (Burdette, Ellison, Sherkat, & Gore, 2007; Forste & Tanfer,
1996), ainda que outros tenham reportado resultados contraditórios. Por
exemplo, Hansen (1987) mostrou que a religiosidade (definida como a importância
da religião para o indivíduo e a frequência de idas à igreja) não se encontrava
correlacionada com a infidelidade para os homens, mas encontrava-se
negativamente associada para as mulheres. Por sua vez, Liu (2000) referiu que
tal correlação existe apenas para os homens, mas não para as mulheres. Já nos
estudos de Mark et al. (2011) e de Wiederman e Hurd (1999), a religiosidade não
se associou ao envolvimento extra-diádico.
Também a educação tem recebido atenção na literatura sobre os CED. Embora um
nível de educação elevado se encontre associado a atitudes mais liberais em
relação à sexualidade e a atitudes de aceitação face à infidelidade (Forste
& Tanfer, 1996), a relação entre a educação e a infidelidade real é menos
clara (Allen et al., 2005). Enquanto alguns estudos encontraram maior
probabilidade de infidelidade entre os indivíduos com educação superior (e.g.,
Atkins et al., 2001; Buunk, 1980), outros encontraram resultados contrários
(e.g., Choi, Catania, & Dolcini, 1994) ou nenhuma associação significativa
(e.g., Træen, Holmen, & Stigum, 2007).
História relacional: Experiências anteriores e duração da relação
Em relação à história relacional prévia, McAlister, Pachana e Jackson (2005)
verificaram que os participantes numa relação de namoro exclusiva que tinham
experienciado intimidade sexual com um maior número de parceiros sexuais,
também reportaram uma maior inclinação extra-diádica para ter sexo e beijar. Em
outros estudos (Træen et al., 2007; Treas & Giesen, 2000), um maior número
de parceiros sexuais prévio mostrou-se um preditor significativo da ocorrência
de relações sexuais extra-diádicas. Para alguns indivíduos, o número de
parceiros sexuais pode estar associado à idade de início da atividade sexual.
Por exemplo, para Grello, Welsh e Harper (2006) aqueles que têm a primeira
relação sexual mais precocemente envolvem-se com maior facilidade em relações
sexuais com parceiros casuais. Porém, no estudo de McAlister et al., a idade do
primeiro encontro sexual não se correlacionou com o envolvimento extra-diádico.
A investigação no contexto das relações de namoro não tem avaliado
especificamente a duração da relação como preditor dos CED (McAlister et al.,
2005). Um estudo de Hicks e Leitenberg (2001) revelou que as fantasias sobre o
envolvimento sexual extra-diádico se associaram positivamente à duração da
relação. Este resultado está na linha do documentado em estudos com indivíduos
casados ou a coabitar, cujas relações mais longas se associaram com uma maior
probabilidade de infidelidade (Træen et al., 2007; Træen & Stigum, 1998).
No contexto do namoro, do nosso conhecimento, apenas o estudo de McAlister et
al. estudou esta variável, porém, esta não se revelou um preditor significativo
da inclinação extra-diádica nem para beijar nem para ter sexo. Na análise por
sexo, entre as mulheres, as relações primárias mais longas parecem ter uma
maior associação à infidelidade do que as relações mais curtas, observando-se
este resultado para as mulheres casadas, a coabitar e a namorar (Forste &
Tanfer, 1996). Hansen (1987) não encontrou esta associação entre as mulheres a
namorar. Por sua vez, para os homens a namorar, quanto mais longo o tempo de
namoro, maior a probabilidade de se envolverem em atividades sexuais com outra
pessoa.
Também a história relacional dos pais tem sido alvo de atenção, havendo
evidência de um risco aumentado de envolvimento extra-diádico para os
indivíduos cujos pais se envolveram em infidelidade (Amato & Rogers, 1997;
Platt, Nalbone, Casanova, & Wetchler, 2008). Num estudo recente (Havlicek,
Husarova, Rezacova, & Klapilova, 2011), os autores verificaram que entre os
homens, a existência de história prévia de infidelidade do pai se associou a
maior infidelidade e intenções neste sentido, ao passo que entre as mulheres
não se observou qualquer associação com significação estatística.
Em relação à história prévia de infidelidade, ainda que poucos estudos se
tenham debruçado sobre esta variável, tem sido referido que os indivíduos com
comportamentos prévios de infidelidade aprovam mais facilmente as relações
extra-diádicas do que aqueles que não os tiveram (Thompson, 1984; Wiederman,
1997a). O estudo de Banfield e McCabe (2001) mostrou que o envolvimento extra-
diádico passado foi um forte preditor do envolvimento extra-diádico futuro.
Wiederman e Hurd (1999) também encontraram que os participantes que se tinham
envolvido em CED sexuais uma vez tinham maior probabilidade de se envolver
novamente.
Variáveis interpessoais
Entre as variáveis interpessoais, a satisfação relacional e a satisfação sexual
têm recebido especial atenção no contexto dos CED (Havlicek et al., 2011). Em
diversos estudos, uma reduzida satisfação relacional e sexual com o parceiro
primário mostrou-se associada a maior motivação para o envolvimento em CED
(Banfield & McCabe, 2001; Buss & Schackelford, 1997; Træen &
Stigum, 1998; Treas & Giesen, 2000). A baixa satisfação com a relação, para
além de ser um dos motivos mais citados para a ocorrência de CED (Roscoe et
al., 1988), tem também sido consistentemente apontada como preditora do
envolvimento extra-diádico (McAlister et al., 2005). Considerando o sexo dos
participantes, tem sido referido que enquanto a associação entre os CED e a
satisfação relacional parece ser particularmente importante para as mulheres
(Glass & Wright, 1985), a insatisfação sexual parece estar mais relacionada
com os CED nos homens (Liu, 2000; Mark et al., 2011).
O presente estudo
Face ao exposto, este estudo tem como principal objetivo avaliar a prevalência
dos CED e possíveis correlatos (sociodemográficos, relativos à história
relacional e interpessoais) do envolvimento extra-diádico durante a relação de
namoro, nas modalidades offline(i.e., CED presenciais) e online(i.e., CED
mediados pelo computador), averiguando ainda as diferenças de sexo, quer na
ocorrência destes comportamentos quer nos seus correlatos.
MÉTODO
Participantes
A amostra final do presente estudo foi composta por 494 participantes. Em
termos de critérios de inclusão, definiu-se que os participantes tinham de ter
a idade mínima de 18 anos, ser heterossexuais e estar numa relação de namoro
exclusiva há pelo menos três meses. No total, responderam 1158 participantes ao
protocolo de avaliação. Foram excluídos das análises 205 participantes que
referiram não namorar, cinco participantes com idade inferior a 18 anos, seis
participantes que reportaram outra orientação sexual, 82 participantes que
reportaram ter uma relação aberta e 366 participantes que não preencheram
completamente a bateria de avaliação.
A amostra foi composta por 156 homens e 338 mulheres com uma idade média de
23.38 anos (DP=3.41; amplitude: 18-43 anos). A maioria dos participantes
frequentava o ensino superior e residia no meio urbano. No momento da
participação no estudo, os homens namoravam, em média, há cerca de 31 meses e
as mulheres há cerca de 37 meses. O Quadro_1 sumaria as características
sociodemográficas da amostra.
A análise comparativa das variáveis demográficas revelou que os homens e as
mulheres se distinguiam significativamente em termos de habilitações
literárias, no tempo de namoro, na prática religiosa, bem como na importância
da religião na vida e na tomada de decisões. Concretamente, os homens
apresentavam menores habilitações, namoravam há menos tempo, referiram não ser
praticantes da sua religião, bem como reportavam menor importância da religião
na vida e na tomada de decisões. Não foram encontradas diferenças
significativas entre os homens e as mulheres em termos de idade, da residência
e da religião.
Instrumentos
No presente estudo foi utilizado uma bateria de avaliação constituída por uma
ficha de dados sociodemográficos e de questões relativas à história sexual,
relacional e familiar, e pelos dois instrumentos de auto-resposta que
descrevemos em seguida.
Inventário de Comportamentos Extra-Diádicos (ICED), no original Extradyadic
Behaviors Inventory(Luo, Cartun, & Snider, 2010). O ICED consiste num
inventário de auto-resposta, que inclui 23 itens para avaliar os CED na
modalidade presencial ou cara-a-cara (offline) e 13 itens para avaliar os CED
mediados pelo computador (online). Os sujeitos devem reportar a frequência com
que se envolveram em cada um dos comportamentos descritos, com alguém do sexo
oposto, durante a sua relação atual. Neste questionário foi adotada a escala de
cinco pontos de Wiederman e Hurd (1999): 1 ' Não tive este comportamento porque
não quis; 2 ' Não tive este comportamento porque não houve oportunidade; 3 '
Tive este comportamento apenas uma vez; 4 ' Tive este comportamento mais do que
uma vez com a mesma pessoa; e 5 ' Tive este comportamento com diferentes
pessoas. Os estudos da versão Portuguesa encontram-se em curso.
Medida Global da Satisfação Relacional e Sexual (Lawrance & Byers, 1998).
Na Medida Global da Satisfação Relacional (MGSR) é solicitado aos participantes
para classificarem o seu relacionamento respondendo à questão: Em geral, como
descreveria a sua satisfação global com o(a) seu(sua) companheiro(a)?. Os
indivíduos avaliam o seu relacionamento através de cinco escalas bipolares de
sete pontos, com 1 indicando insatisfação e 7 indicando satisfação. Na Medida
Global de Satisfação Sexual (MGSS), os participantes são solicitados a
responder à questão Na globalidade, como descreveria a sua relação sexual com
o(a) seu(sua) companheiro(a)?, devendo classificar o seu relacionamento,
também de acordo com a escala acima mencionada. No presente estudo, o valor do
alfa de Cronbach da MGRS foi de .92 para os sexos masculino e feminino. A
consistência interna da MGSS foi de .91 para o sexo masculino e de .94 para o
sexo feminino.
Procedimentos
Os participantes desta investigação foram recrutados através de dois métodos:
em contexto comunitário (n=174) e através de um questionário online(n=320).
Relativamente ao primeiro método, procedeu-se a um contacto com os indivíduos
em diferentes espaços exteriores das faculdades da Universidade de Coimbra
(UC). A confidencialidade dos dados e garantia do anonimato das respostas aos
questionários encontrava-se descrita no consentimento informado e foi também
reforçada verbalmente pelo investigador. A todos os participantes foi entregue
um envelope, no qual deveriam colocar os questionários após preenchimento e
depois selar. Foi, igualmente, explicado aos participantes que não necessitavam
de preencher o questionário online, uma vez respondido em suporte papel.
Simultaneamente, procedeu-se à recolha de dados através de um questionário
online, alojado no siteda Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da
UC. Foi ainda criada uma página na rede social Facebook relativa a este estudo,
onde se encontravam explicados os objetivos do estudo, os critérios de
inclusão, assim como o papel dos participantes e dos investigadores. Na mesma
página era divulgado o linkque direcionava para o endereço onde constava o
protocolo de avaliação.
Análises estatísticas
O tratamento estatístico dos dados foi realizado com softwareIBM SPSS v. 20.0.
Recorremos ao teste do Qui-Quadrado para comparação de dados categoriais e ao
teste tde Student para comparação, por sexo, nas variáveis de natureza
contínua. Para a associação das variáveis contínuas recorremos aos coeficientes
de correlação de Pearson. Por fim, e separadamente para o sexo masculino e
feminino, recorremos à análise da Regressão Linear Múltipla (método enter) para
identificar que variáveis em estudo se associavam aos CED. Nesta análise no
primeiro passo incluíram-se as variáveis sociodemográficas e relativas à
história relacional e sexual dos participantes com um valor de p<.20 nas
análises univariadas; no segundo passo incluíram-se os resultados das medidas
globais de satisfação relacional e sexual. A magnitude dos efeitos foi
analisada através do dde Cohen (variáveis contínuas) e o Vde Cramer (variáveis
categoriais), adotando as convenções seguintes: efeito pequeno: dde Cohen=.20,
Vde Cramer=.01; efeito médio: dde Cohen=.50, Vde Cramer=.03; efeito grande: dde
Cohen=.80, Vde Cramer=.05 (Cohen, 1992).
RESULTADOS
Caracterização da história sexual e relacional
No Quadro_2 encontram-se os dados relativos à história sexual e relacional. Foi
possível observar a existência de diferenças entre os sexos no que respeita ao
número de namoros ao longo da vida, número de namoros nos últimos dois anos e
número de parceiros sexuais nos últimos dois anos. Enquanto a maioria dos
homens teve três ou mais namoros ao longo da vida (44.3%), a maioria das
mulheres teve entre um e dois namoros (55%). Em relação ao número de parceiros
sexuais nos últimos dois anos, a maioria dos homens (62.2%) e das mulheres
(68%) não tiveram nenhum parceiro sexual, porém, mais homens do que mulheres
tiveram quatro ou mais parceiros sexuais nos últimos dois anos. Em relação à
idade de início da vida sexual nãos e observaram diferenças significativas
entre homens e mulheres.
Relativamente à história prévia de infidelidade por parte do parceiro,
observaram-se diferenças entre homens e mulheres. A maioria dos homens (69.5%)
e mulheres (60.1%) afirmaram que o parceiro não foi infiel. Já em relação à
infidelidade do próprio participante em relações anteriores, não se observaram
diferenças significativas entre os sexos. Quanto à história prévia de
infidelidade parental, não se verificaram diferenças significativas entre os
grupos. A maioria dos homens (88.1%; 68.2%) e das mulheres (91.8%; 74.2%)
afirmaram que a mãe e o pai, respetivamente, não foram infiéis, porém, em ambos
os grupos a resposta de suspeita/certeza quanto à infidelidade foi mais elevada
relativamente ao pai.
Prevalência de comportamentos extra-diádicos
Os Quadros_3 e 4 mostram a percentagem de homens e mulheres que se envolveram
em cada CED, nas modalidades offlinee online, respetivamente. De modo a
simplificar a apresentação dos resultados, as cinco categorias iniciais foram
agrupadas em três categorias principais: nunca ocorreram CED na relação atual
(categorias 1 e 2); ocorreram CED apenas uma vez (categoria 3); e ocorreram CED
várias vezes (categorias 4 e 5).
Relativamente aos CED presenciais, podemos observar uma grande variabilidade na
taxa de incidência dos CED (cf. Quadro_3). Nos homens, a taxa de incidência
variou entre 7% (sexo anal) e 42.3% (queixas sobre o parceiro/relação). Nas
mulheres, a taxa variou entre 1.5% (masturbou-se na presença da outra pessoa) e
40.5% (queixas sobre o parceiro/relação). A análise comparativa revelou a
existência de diferenças significativas em 16 dos 23 CED offline. No total,
35.6% dos homens e 43.5% das mulheres referiram nunca se terem envolvido em
nenhum dos CED presenciais durante a atual relação, c2=2.13, p=.145, Vde
Cramer=.07.
Em relação aos CED online, a percentagem no sexo masculino variou entre 5.7%
(teve um parceiro de reserva) e 34.6% (queixas sobre o parceiro/relação).
Para as mulheres, a percentagem variou entre 0.6% (visitou um sitede encontros)
e 27.2% (queixas sobre o parceiro/relação). A análise comparativa revelou a
existência de diferenças significativas em 8 dos 13 CED (cf. Quadro_4). No
cômputo geral, 53.8% e 60.7% dos homens e mulheres, respetivamente, referiram
nunca se terem envolvido em nenhum dos CED onlinedurante a atual relação,
c2=2.04, p=.154, Vde Cramer=.06.
Associação entre variáveis em estudo e os CED
Entre os homens, as variáveis idade, religiosidade, educação, idade de início
da vida sexual e duração da relação atual não se correlacionaram
significativamente com o total de CED offlinee online. Em relação às medidas de
satisfação, verificou-se que a satisfação relacional apresentou uma correlação
significativa com os CED offline(r=-.41, p<.001) e online(r=-.47, p<.001) e que
a satisfação sexual apresentou uma correlação significativa com os CED offline
(r=-.23, p<.01) e online(r=-.25, p<.01).
No que respeita à história relacional e sexual, os homens que tiveram alguma
parceira sexual nos últimos dois anos (excluindo a relação atual) revelaram um
resultado médio significativamente mais elevado na modalidade offline(M=13.54,
DP=18.98), t(79.210)=-2.93, p<.01, do que os que não tiveram nenhuma parceira
(M=5.67, DP=10.32), não sendo significativa a diferença nos CED online. Os
homens que mencionaram ter sido infiéis à(s) sua(s) parceira(s), em relações
anteriores, apresentaram um resultado médio de CED significativamente mais
elevado, do que aqueles que não mencionaram ter sido, tanto na modalidade
offline (M=16.45, DP=20.03 vs. M=5.82, DP=10.76), t(53.511)=-3.33, p<.01, como
na online (M=7.48, DP=10.08 vs. M=2.48, DP=5.25), t(52.878)=-2.98, p<.01).
Não foram encontradas diferenças significativas no que respeita à residência,
religião, número de namoros ao longo da vida, infidelidade por parte da(s)
parceira(s), em relações anteriores, e infidelidade da mãe e do pai, em ambas
as modalidades.
No sexo feminino, as variáveis idade, educação, religiosidade, idade de início
da vida sexual e duração da relação atual não se correlacionaram
significativamente com o total de CED tanto offlinecomo online. Em relação às
medidas de satisfação, observou-se que a satisfação relacional apresentou uma
correlação estatisticamente significativa com os CED offline(r=-.17, p<.01) e
online(r=-.27, p<.001) e que a satisfação sexual apresentou uma correlação
significativa apenas com os CED online(r=-.15, p<.01).
Relativamente à história relacional e sexual, as mulheres que tiveram três ou
mais namoros ao longo da sua vida (excluindo a relação atual) revelaram um
resultado médio significativamente mais elevado na modalidade offline(M=6.08,
DP=11.72), t(142.411)=-2.00, p<.05, do que aquelas que tiveram apenas um ou
dois namoros (M=3.65, DP=6.85), não sendo significativa a diferença em relação
aos CED online. As mulheres que tiveram algum parceiro sexual nos últimos dois
anos (excluindo a relação atual) apresentaram um resultado médio
significativamente mais elevado na modalidade offline(M=6.97, DP=12.96), t
(125.274)=-2.88, p<.01, do que as que não tiveram nenhum parceiro (M=3.23,
DP=5.48), não sendo significativa a diferença nos CED online. As mulheres que
referiram ter sido infiéis em relações anteriores apresentaram um resultado
médio de CED significativamente mais elevado, do que aquelas que não referiam
ter sido, tanto na modalidades offline(M=8.49, DP=13.71 vs. M=3.32, DP=6.39), t
(83.687)=-3.17, p<.01, como na online(M=3.32, DP=5.08 vs. M=1.49, DP=2.94), t
(89.095)=-2.98, p<.01.
Em ambas as modalidades de CED, não foram encontradas diferenças significativas
entre os grupos relativamente à residência, à religião, à infidelidade por
parte do(s) parceiro(s) em relações anteriores, e à infidelidade da mãe e do
pai.
Análises multivariadas: Modelos de regressão múltipla
Os resultados relativos aos correlatos dos CED, separadamente para o sexo
masculino e feminino, encontram-se nos Quadros_5 e 6, respetivamente.
No sexo masculino, quanto ao envolvimento em CED offline, verificou-se que as
variáveis número de parceiros nos últimos dois anos e história prévia de
infidelidade foram variáveis significativas, explicando 14.4% da variância.
Quando adicionadas as variáveis de satisfação relacional e sexual, apenas a
história prévia de infidelidade se manteve significativa e a satisfação
relacional explicou 12.1% da variância adicional. No total, já ter sido infiel
a uma parceira e uma menor satisfação com a atual relação encontraram-se
associadas a maior envolvimento em CED offline, explicando 26.6% da variância
total (cf. Quadro_5).
Relativamente ao envolvimento em CED online, observou-se que apenas a história
prévia de infidelidade se mostrou significativa, explicando 11.6% da variância.
Quando adicionadas os indicadores de satisfação relacional e sexual, a história
prévia de infidelidade manteve-se significativa e as variáveis religião,
infidelidade do pai e satisfação com a relação mostraram-se estatisticamente
significativas, explicando 21.5% da variância adicional. No total, já ter sido
infiel a uma parceira, pertencer à religião Católica, história de infidelidade
paterna e menor satisfação com a relação atual mostraram-se associadas a maior
envolvimento em CED online, explicando 33.1% da variância (cf. Quadro_5).
No sexo feminino, verificou-se que o número de parceiros nos últimos dois anos
e a história prévia de infidelidade foram variáveis significativas, explicando
7.5% da variância do envolvimento em CED offline. Quando acrescentadas as
variáveis satisfação relacional e satisfação sexual, as variáveis parceiros e
história prévia mantiveram-se significativas. A satisfação relacional apenas
foi marginalmente significativa (p=.059). No total, um maior número de
parceiros nos últimos dois anos e já ter sido infiel a um parceiro em relações
anteriores encontraram-se associados a um maior envolvimento em CED offline,
explicando 9.6% da variância total (cf. Quadro_6).
Relativamente aos CED online, observou-se que apenas a história prévia de
infidelidade foi uma variável significativa, explicando 6.8% da variância.
Quando adicionadas as variáveis de satisfação, a história prévia de
infidelidade manteve-se significativa e a satisfação relacional explicou 5.3%
da variância adicional. No total, já ter sido infiel a um parceiro e uma menor
satisfação com a relação atual mostraram-se associadas a maior envolvimento em
CED online, explicando 12.1% da variância.
DISCUSSÃO
O presente estudo tem como objetivos avaliar a prevalência dos CED e estudar os
seus possíveis correlatos sociodemográficos, relativos à história relacional e
interpessoais, nas modalidades offlinee online, durante a relação de namoro.
Dado que a investigação no contexto das relações de namoro é relativamente
recente e mais limitada, o presente estudo oferece um importante contributo
para uma abordagem mais compreensiva do envolvimento extra-diádico no contexto
de namoro.
Quanto à taxa de prevalência dos CED, as taxas encontradas aproximam-se das
referidas por outros estudos em contexto de namoro (e.g., Hansen, 1987). Porém,
as taxas de CED offline(63.5% nos homens e 56.5% nas mulheres) e online(46.2%
nos homens e 39.3% entre as mulheres), comparativamente às obtidas no estudo de
Luo et al. (2010), são relativamente mais baixas. Por sua vez, tendo como
referencial os estudos com indivíduos casados ou em coabitação (e.g., Kontula
& Haavio-Mannila, 1995; Lewin, 2000), as taxas de prevalência observadas
neste estudo são mais elevadas, podendo refletir o menor grau de compromisso
que caracteriza as relações de namoro (McAnulty & Brineman, 2007).
Relativamente às taxas de incidência dos CED específicos, verifica-se uma
grande variabilidade, o que poderá estar relacionado com o instrumento
utilizado, em si, bastante compreensivo deste construto. Porém, é importante
que na interpretação dos resultados relativos à prevalência dos CED, e de
acordo com o apontado pelos autores deste instrumento (Luo et al., 2010), se
tenha em consideração a definição do conceito, o espaço temporal em que
decorrem e as idiossincrasias da amostra. Nesta linha, é importante também ter
em atenção que, como referem McAnulty e Brineman (2007), definições mais amplas
tendem a alcançar estimativas mais elevadas. Neste estudo, e consistente com
estudos prévios em contexto de namoro (e.g., Wiederman & Hurd, 1999), as
taxas de CED parecem declinar à medida que o contacto se torna fisicamente mais
íntimo.
Relativamente às diferenças de sexo, observa-se que apesar de os homens
reportarem um total de CED maior do que as mulheres, tanto na modalidade
offlinecomo na online, as diferenças de sexo dos resultados globais não são
significativas,o que é consistente, por exemplo, com os resultados obtidos por
Brand et al. (2007) e Thompson (1984). Tal como a literatura tem evidenciado
(e.g., Wiederman, 1997a), nos últimos anos as diferenças de sexo parecem estar
a diminuir. Por um lado, devido à grande diversidade e especificidade de
comportamentos (tanto sexuais como não-sexuais) incluídos no nosso estudo. Por
outro, devido aos possíveis efeitos relacionados com atitudes mais liberais
face à sexualidade resultantes das mudanças sociais mais recentes (Havlicek et
al., 2011).
Apesar das diferenças de sexo nos resultados totais não serem significativas, a
análise isolada de cada comportamento, permite verificar que os homens
apresentam percentagens mais elevadas que as mulheres. Por exemplo, quando
observamos alguns CED sexuais na modalidade presencial (e.g., recebeu
estimulação genital; sexo vaginal), verifica-se que os homens apresentam
valores significativamente mais elevados que as mulheres, dado que é
consistente com a literatura (e.g., Glass & Wright, 1985). Na modalidade
offline, uma possível explicação para esta observação pode estar relacionada
com os riscos associados à atividade sexual (que envolve um contacto genital).
Os homens podem ter maior controlo sobre os riscos associados a uma gravidez
indesejada e a doenças sexualmente transmissíveis, uma vez que podem optar
unilateralmente pelo uso do preservativo. Já as mulheres podem não se sentir
confortáveis em abordar este aspeto com o parceiro sexual extra-diádico, uma
vez que uso do preservativo necessita, normalmente, da cooperação dos homens
(McAlister et al., 2005). Por sua vez, e consistente com outros estudos (Brand
et al., 2007), nos CED em que não existe qualquer envolvimento sexual (e.g.,
queixas sobre o parceiro/relação; passou tempo com alguém) as diferenças
entre os sexos não se mostram significativas. Na modalidade online, porém, as
diferenças de sexo necessitam de maior exploração futura, porque apesar de
alguns estudos (e.g., Cooper et al., 2000; Wysocki, 1998) sugerirem que os
homens são os que mais tendem a envolver-se em relações românticas mediadas
pelo computador, do nosso conhecimento, apenas o estudo de Luo et al. (2010)
apresentou taxas de CED onlinepara homens e mulheres.
No nosso estudo verificou-se que, entre os homens, a história de infidelidade
prévia, em ambas as modalidades, pertencer à religião Católica e a história de
infidelidade paterna, na modalidade online, encontram-se associadas ao
envolvimento extra-diádico. Já entre as mulheres, foram significativas a
história de infidelidade prévia, em ambas as modalidades, e o número de
parceiros sexuais, na modalidade offline. Tal como referido na literatura
(Banfield & McCabe, 2001; Wiederman, 1997a; Wiederman & Hurd,1999), a
história de infidelidade prévia associa-se de forma significativa aos CED. Este
padrão de comportamento repetitivo, para alguns indivíduos, pode refletir um
baixo compromisso com a relação; um efeito limite(threshold effect, McAnulty
& Brineman, 2007, p. 101), isto é, uma vez que a pessoa já pisou a linha,
qualquer transgressão subsequente parece menos séria; ou outras características
individuais, como a permissividade sexual (McAnulty & Brineman, 2007). Por
sua vez, e consistente com os nossos resultados, também o número de parceiros
sexuais tem sido associado ao envolvimento em CED (McAlister et al., 2005;
Træen et al., 2007; Wiederman, 1997b); porém, no nosso estudo, a relação entre
o número de parceiros sexuais e o envolvimento em CED parece ser especialmente
evidente entre as mulheres, ainda que estas, comparativamente aos homens,
reportem menos parceiros sexuais. Do nosso conhecimento, os estudos prévios não
fizeram uma separação por sexo ao analisar esta associação, portanto é possível
que o padrão de associação seja diferente consoante o sexo.
No que concerne ao envolvimento em CED online, entre os homens, pertencer à
religião Católica é um preditor significativo, constituindo um resultado
contrário ao que tem sido observado em estudos anteriores (e.g., Burdette et
al., 2007; Forste & Tanfer, 1996), nos quais o envolvimento extra-diádico é
mais reportado por indivíduos que não têm uma afiliação religiosa (embora estes
estudos tivessem apenas considerado os comportamentos numa modalidade
presencial). Face a este resultado, é possível que os indivíduos que pertencem
à religião Católica, pela exposição contínua a mensagens que condenam o
envolvimento extra-diádico, sejam levados a procurar um local (o ciberespaço)
que, pela liberdade que proporciona, permite, por exemplo, obter gratificação
sexual de forma mais fácil e anónima (Underwood & Findlay, 2004).
Quanto à história relacional dos pais, apenas a infidelidade do pai se
relaciona com o envolvimento em CED para os homens (i.e., filhos). Entre as
mulheres (i.e., filhas) não se observou qualquer associação significativa, tal
como em outros estudos que analisaram estas variáveis (Havlicek et al., 2011;
Platt et al., 2008). Estes últimos interpretaram este resultado sugerindo que
os filhos veêm o pai com um modelo para o seu comportamento no futuro. Mahl
(2001) refere que alguns marcadores de ajustamento negativos (e.g., relações
mais curtas) se encontram associados às crenças que muitos filhos de pais
divorciados têm sobre as relações românticas. Estas explicações sugerem a
possibilidade de transmissão geracional destes comportamentos. Outra explicação
possível relaciona-se com a heritabilidade da tendência face ao envolvimento
extra-diádico (i.e., nível de sociosexualidade; Havlicek et al., 2011). Esta
explicação genética é suportada por um estudo de gémeos, que mostra um
componente genético relativamente elevado para a sociosexualidade (Bailey,
Dunne, & Martin, 2000). Com efeito, tanto aspetos genéticos como
desenvolvimentais e socioculturais podem ter um papel importante na explicação
deste resultado, porém, é fundamental mais investigação, nomeadamente de
natureza longitudinal.
Entre os homens verifica-se que a satisfação relacional é um preditor
significativo do envolvimento em CED, em ambas as modalidades, ao passo que nas
mulheres é apenas preditora dos CED na modalidade online. Apesar deste
resultado demonstrar a relevância desta variável nas relações de namoro, tal
como outros estudos já tinham revelado (Drigotas, Safstrom, & Gentilia,
1999; McAlister et al., 2005), era esperado que a satisfação com a relação
fosse um preditor significativo de CED presencias para as mulheres. Também a
variância explicada pela satisfação relacional foi menor nas mulheres que nos
homens. Estes dados remetem para o estudo de outras variáveis que possam estar
explicar o envolvimento em CED nas mulheres, como por exemplo o compromisso com
a relação ou a qualidade das alternativas (Banfield & McCabe, 2001;
Drigotas et al., 1999; McAlister et al., 2005).
A associação entre a satisfação relacional e o envolvimento em CED onlineé, no
entanto, coerente com os resultados do estudo de Underwood e Findlay (2004),
que mostrou que a maioria dos participantes relatou maior satisfação com o seu
parceiro extra-diádico onlinedo que com a sua relação primária presencial. Os
autores sugeriram que tanto homens como mulheres se sentiam insatisfeitos
sexualmente, porém, era na modalidade onlineque se sentiam mais compreendidos e
disponíveis para falar sobre qualquer assunto e para partilhar sentimentos. Por
outras palavras, as características da Internet, como o anonimato, parecem
potenciar uma oportunidade para o desenvolvimento da intimidade, que talvez não
seja percebida como estando em falta na relação primária presencial (Whitty,
2003), mas que provavelmente se associa à satisfação relacional e sexual do
casal.
Entre as variáveis sociodemográficas, não foi encontrada uma associação entre a
religiosidade e o envolvimento em CED. Porém, este resultado acaba por ser
consistente com os encontrados nos estudos de Wiederman e Hurd (1999) e de Mark
et al. (2011). De facto, apesar da maioria dos participantes pertencer à
religião Católica, a maioria também é não praticante e não reportou uma
importância da religião na vida e na tomada de decisões determinante, o que
pode ser relevante para explicar este resultado. Já a educação não surge
associada ao envolvimento em CED. Contudo, refira-se que a amostra deste estudo
é muito homogénea a este nível, a grande maioria dos participantes frequenta o
ensino superior, o que pode atenuar a potencial relação entre as variáveis.
Por sua vez, a idade de início da atividade sexual e a duração da relação de
namoro não se correlacionaram significativamente com o envolvimento em CED;
estes resultados são consistentes com os do estudo de McAlister et al. (2005),
também realizado no contexto de namoro, e no qual os autores também
hipotetizaram a existência de uma associação.
Quanto à satisfação sexual, a associação com o envolvimento em CED foi
significativa apenas nos modelos univariados, o que é coerente com o estudo de
Mark et al. (2011). Neste estudo, a satisfação sexual correlaciona-se
negativamente com o envolvimento extra-diádico entre os homens, em ambas as
modalidades, e entre as mulheres apenas na modalidade online. Este resultado é
consistente com a literatura, que sugere que a satisfação sexual parece ser
mais relevante para o sexo masculino, do que para o feminino (e.g., Liu, 2000;
Banfield & McCabe, 2001), mas menos relevante que a satisfação relacional
(Mark et al., 2011).
Em síntese, este estudo possibilita uma avaliação compreensiva das taxas de
prevalência e das variáveis associadas com a ocorrência de CED nas relações de
namoro, temas escassamente estudados, sobretudo em Portugal. Como Buss e
Schackelford (1997) já tinham sugerido, as variáveis demográficas não parecem
ser as melhores preditoras dos CED. Já as variáveis relativas à história
relacional e as interpessoais são variáveis relevantes na explicação do
envolvimento extra-diádico. Um dos principais contributos deste estudo tem a
ver com a inclusão da modalidade online, sendo que nesta modalidade os
indivíduos parecem sentir-se abertos para partilhar sentimentos e disponíveis
para obter gratificação sexual, assumindo assim um papel importante na
compreensão destes comportamentos.
Este estudo ultrapassa algumas das limitações apontadas na investigação
realizada neste âmbito, principalmente pela adoção de uma conceptualização e
medida dos CED que inclui indicadores comportamentais específicos e não-
ambíguos, o que, por sua vez, reduz a ambiguidade nas respostas. A recolha da
amostra em contexto comunitário e via Internet são outro ponto forte deste
estudo, pois a investigação sugere que a desejabilidade social é reduzida nos
estudos em que a amostra é online, especialmente para questões sexuais mais
sensíveis, em comparação com investigações que utilizam os tradicionais
questionários de papel e caneta (Pealer, Weiler, Pigg, Miller, & Dorman,
2001; Turner et al.,1998).
Contudo, apresenta também limitações, que importam mencionar por implicarem
prudência na interpretação dos resultados. Primeiro, trata-se de uma amostra de
conveniência, assim, a taxa de prevalência reportada no presente estudo,
provavelmente, não garante representatividade na população. Segundo, o formato
de auto-resposta dos instrumentos utilizados no estudo pode levar a respostas
distorcidas por parte dos participantes. Dada a natureza sensível deste tópico,
é possível que os participantes não sejam completamente verdadeiros nas suas
respostas, ou seja, os resultados podem estar influenciados pela desejabilidade
social. Como referem Blow e Hartnett (2005), enquanto alguns participantes
podem sobre-reportar, outros podem sub-reportar a sua realidade. A este
propósito, Whisman e Snyder (2007), ao comparar a taxa de CED baseada numa
auto-entrevista assistida pelo computador e a obtida partir de uma entrevista
cara-a-cara, verificaram uma redução significativa na taxa de comportamentos
quando eram usadas entrevistas cara-a-cara, sugerindo que o método particular
com que se avalia os CED tem um grande impacto na sua taxa. Neste sentido, é
possível, como referido, que a recolha via questionário onlinepossa ter, de
algum modo, possibilitado resultados mais fiáveis.
Do ponto de vista da investigação futura, seria importante uma maior ênfase na
análise dos CED na modalidade online, bem como no estudo de um conjunto mais
amplo de variáveis (e.g., interpessoais, personalidade). A investigação que
permita avaliar padrões de envolvimento extra-diádico ao longo do tempo também
é importante, pois, tal como defendem McAnulty e Brineman (2007), poderá ser a
melhor forma de compreender o curso do tempo das causas e dos efeitos destes
comportamentos.