Validação do Inventário Feminino de Vivências do Processo de Separação e
Divórcio (IFVPSD)
Validação do Inventário Feminino de Vivências do Processo de Separação e
Divórcio (IFVPSD)
M. Graça Pereira*; José Cunha Machado**; Henrique Pinto***
*Escola de Psicologia, Universidade do Minho;
**Instituto de Ciências Sociais, Universidade do Minho;
***Instituto de Reinserção Social de Braga
Correspondência
ABSTRACT
The divorce has contributed to a change in family structure associated to a
decline in the quality of the marital relationship with implications for
personal, interpersonal and social life that has been increasing in the last
years. Participants were 165 women separated and divorced, with at least one
child of the marriage, with current ages between 24 and 55 that answered the
Inventory of Women's Experiences in the Process of Separation or Divorce
(IWEPSD). The factor analysis revealed five dimensions: dysfunctionality,
marital conflict, emotionality, social support and adaptation. The marital
dysfunctionality is focused the marital crisis and conflict during the
marriage; conflict brings us to the relationship with the former spouse;
emotionality is focused on the feelings experienced in the process of
separation; social support emphasizes the role of family and friends during the
process of separation and divorce and finally, the adaptation dimension brings
us to the process of adaptation to the separation process. The internal
consistency for the five dimensions showed alphas between .72 and .82 which
explained 49.25% of the total variance. Thus, the inventory of women's
experiences of the process of separation or divorce meets the necessary
conditions to be used as a screening tool to identify women with difficulties
in the adaptation process to separation and divorce.
Key-words:Divorce, Questionnaire, Separation, Women.
INTRODUÇÃO
O divórcio contribuiu nas últimas décadas, nos países desenvolvidos, para uma
mudança da estrutura familiar que afecta cada vez mais famílias (Teachman,
Tedrow, & Hall, 2006). Segundo Cummings e Davies (1994), aproximadamente
40% das crianças nascidas nos finais dos anos 70 e início dos anos 80
experienciaram o divórcio dos seus pais. Sensivelmente metade das crianças no
mundo Ocidental, com menos de 18 anos de idade, viva no seio de famílias
divorciadas (Amato, 2000).
Entre outras, duas ordens de razões fundamentais são avançadas para este
crescimento das taxas de divórcio, uma de natureza jurídica, outra relacionada
com a forma de viver a conjugalidade (De Putte & Matthijs, 2001; Emery,
1994; Guttmann, 1993; Torres, 1996). As alterações jurídicas passaram a
consignar o divórcio na base das incompatibilidades pessoais e não apenas por
violação reiterada dos deveres conjugais como motivo de separação, isto é,
foram eliminadas as barreiras jurídicas à separação e ao divórcio, tornando
mais fácil o divórcio por mútuo consentimento (De Oliveira, 2002; Théry, 1996).
Por outro lado, as pessoas divorciam-se mais que no passado, porque casam de
uma forma diferente, com valores que enfatizam mais a relação interpessoal, do
que a dimensão institucional do casamento (Amato, 2007; Cherlin, 2004). Nesta
perspectiva, o casamento teria evoluído de uma dimensão instrumental de
sobrevivência, para uma dimensão afectivo-relacional moderna, perdendo o seu
sentido de perenidade e tornando-se mais vulnerável à dissolução. De facto, a
sociedade moderna, incentiva a selecção do parceiro conjugal na base dos
afectos e não da sobrevivência. Mas, o sentimento é mais efémero do que a
sobrevivência, pelo que o casamento baseado no amor, é mais vulnerável do que o
baseado nas necessidades económicas (Huston, Caughlin, Houts, Smith, &
George 2001; Mitterauer & Sieder, 1983).
Em Portugal, segundo os dados do Instituto Nacional de Estatística (INE, 2007),
o rácio casamento/divórcio tem vindo a aumentar de forma gradual e sustentada
(numero de divórcios por 100 casamentos). Em 1999, um em cada quatro casamentos
terminou em divórcio. As estatísticas demográficas mostram uma aceleração da
percentagem de divórcios que passou de 12,6%, em 1989, para 30% em 2000, 46, 4%
em 2005 e 68.9% em 2010.
Segundo Wallerstein e Blakeslee (1990) e Mikusko (2008), o divórcio quase nunca
é uma decisão mútua, e quando numa família há filhos a experiência é única. Em
alguns aspectos, é o mais parecido à morte de um ente querido, ambas as
experiências implicam alterações vitais, tanto internas, quanto externas. Ambas
as experiências implicam perda e dor, ambas implicam, como consequência,
mudanças perduráveis na vida quotidiana e ao nível das relações íntimas. No
entanto, o divórcio é diferente, na medida em que contém em si uma opção (pelo
menos para uma das partes), com a promessa de um resultado positivo. O divórcio
é uma crise especial porque, simultaneamente, cria novas soluções e novos
problemas (Wegscheider-Cruse, 1999) alterando as rotinas familiares, papéis,
circunstâncias económicas e as relações familiares obrigando a uma
restruturação familiar (Baum, 2007; Greeff & Van Der Merwe, 2004). Os
sentimentos de perda e sofrimento combinam-se com amor e ódio. Surgem os ciúmes
sexuais, reforçados pelo sentimento de traição particularmente quando o ex-
esposo(a) volta a casar (Portnoy, 2006). Quando ocorre a separação de um
matrimónio que durou muitos anos, a própria identidade da pessoa pode ver-se
ameaçada do ponto de vista da saúde física e psicológica como está bem
documentado na literatura (Christian-Herman, O'Leary, & Avery-Leaf,
2001; Cutright & Fernquist, 2005; Portnoy, 2006; Sweeney & Horwitz,
2001). Nem todos os adultos lidam mal com a separação marital. Alguns conseguem
lidar bem com a transição (Amato, 2010; Mancini, Bonanno, & Clark, 2011)
mas para outros, a separação marital está associada a um decréscimo no bem
estar psicológico (Lucas, 2005) e no aumento de riscos para a saúde física
(Sbarra, Law, & Portley, 2011.
Emery (1994) refere que o sofrimento da perda no divórcio é muito semelhante ao
experien ciado com a morte de alguém que nos é querido, com apenas uma
excepção: nada é definitivo no divórcio. Para muitos ex-cônjuges, bem como para
muitas crianças, a possibilidade de reconci liação mantém-se de pé, mesmo após
terem decorrido vários anos. Este aspecto significa, que a experiência de
sofrimento no divórcio é mais provável que se venha a repetir, prolongar e,
eventualmente, a não resolver-se.
O divórcio engendra um conjunto de perdas sucessivas: a perda dos sonhos, dos
objectivos por atingir, da fé, da confiança e segurança. Paralelamente, para
muitos dos casais que se separam, o processo de ruptura parece conhecer certo
desfasamento, isto é, os sentimentos vivenciados por cada um dos ex-cônjuges,
poderão não coincidir no tempo (Wegscheider-Cruse, 1999).
No processo de divórcio, predominam o papel de alguns afectos, nomeadamente, o
amor, a raiva e a tristeza, sendo frequentes as oscilações de cada uma destas
emoções contraditórias (Emery, 1994). Todavia, estes sentimentos parecem ser
experienciados de forma diferente pela parte que primeiro toma a decisão de
ruptura do casamento e pelo cônjuge que o segue, tanto no que se refere às
consequências interpessoais dos conflitos, no sentimento de desgosto e
confiança (Rosenstock, Rosenstock, & Weiner, 1988) como ao nível do
conflito de identidade e na redefinição de novos papéis no pós divórcio
(Erickson, 1991; Kitching, 2008).
A relação de amor entre os elementos do casal altera-se radicalmente com o
divórcio. O que parece menos óbvio, é que as novas fronteiras de intimidade não
são automaticamente definidas com a separação conjugal ou com o divórcio. A
decisão de divórcio é tipicamente acompanhada por muita ambivalência e
incerteza, mesmo da parte do indivíduo que iniciou a acção (Gilbert, Pinel,
Wilson, Blumberg, & Wheatley, 1998) pelo que a redefinição de novas
fronteiras leva, muitas vezes, anos a completar.
As mudanças familiares após o divórcio podem também variar desde a amizade a
constantes batalhas sobre qualquer assunto relacionado com os filhos (Krumrei,
Coit, Martin, Fogo, & Mahoney, 2007) já que o divórcio não termina a
relação mas transforma-a noutro tipo de relação que persiste findo o casamento.
O facto de muitas separações e divórcios não resultarem de acordos comuns
contribui para perceber como é difícil, para os divorciados, renegociar as
regras de intimidade entre os ex-cônjuges particularmente nas situações de
divórcio litigioso o que causa erosão na relação posterior entre os filhos e os
pais (Elrod, 2001; Elrod & Ramsey, 2001).
Antes do divórcio, habitualmente, um dos cônjuges abandona primeiro o
casamento. Neste caso, uma das partes quer que a relação termine, enquanto a
outra quer que a relação continue; portanto, cada uma das partes pretende
diferentes delimitações de intimidade para o futuro relacionamento.
Habitualmente, o que primeiro decide abandonar a relação estará menos envolvido
no relacionamento que o outro (Emery, 1994). O cônjuge abandonado, normalmente,
teve pouco tempo para se preparar para o fim do casamento e, mesmo no caso de
ter tido algum tempo, este é utilizado para reparar a relação e não para lidar
com o sentimento de perda. Consequentemente, a intenção do cônjuge que tomou a
decisão de separação, pode ser interpretada pelo abandonado, no sentido do
primeiro ainda o continuar a amar, não estando disposto a aceitar a sua
proposta. O resultado destes diferentes sentimentos e desejos é que nenhuma das
partes está inclinada a concordar, ou satisfeita com as delimitações de
intimidade que a outra lhe desenha (Erickson, 1991) e este aspecto tem
implicações na adaptação ao divórcio. De facto, de acordo com Amato e Previti
(2003), os indivíduos que desejam o divórcio mais que os seus cônjuges
apresentam melhor ajustamento ao divórcio, mais satisfação com a vida e menor
vinculação ao parceiro e, por sua vez, aqueles que inicializam oficialmente o
divórcio (abandonadores) apresentam mais ajustamento ao divórcio.
Parte do problema que os ex-cônjuges têm na redefinição da vivência da
emocionalidade pode ser entendido em termos das diferentes experiências de
sofrimento relacionadas com o divórcio. As diferenças, entre aquele que
primeiro abandona a relação e o que a abandona depois, dizem respeito mais à
intensidade do que à variedade e tonalidade dos sentimentos (Emery, 1994; Gray
& Silver, 1990). Em geral, a intensidade dos sentimentos daquele que
primeiro tomou a decisão é menos intensa, porque a sua dor inicia-se antes da
separação (Wallerstein & Blakeslee, 1990). A dor ou sofrimento do que
decide abandonar é semelhante à experienciada na sequência de uma doença
crónica na fase terminal pelo contrário, aquele que é abandonado experiência
uma dor semelhante à da morte súbita e inesperada de um ente próximo (Emery,
1994; Théry, 1996). Assim, o apoio social torna-se fundamental e, muitas vezes
devido ao divórcio, a rede social dos parceiros quebra-se e os laços com os
amigos mútuos e família dissipam-se (Garner, 2008) particularmente para os
homens (Coley, 2006; Warshak, 2000).
O nível de educação mais elevado parece ser protector do casamento. De facto a
literatura revela que os casais com um nível de escolaridade mais baixo
divorciam-se mais (Bumpass, Castro Marim, & Sweet, 1991; South, 1995).
Contudo, outros estudos não encontraram uma relação entre nível socioeconómico
do marido e o risco do divórcio (Bracher, Santow, Morgan, & Trussel, 1993).
O divórcio acontece com mais frequência nos casais com nível de escolariedade
baixo contudo a idade com que se casaram parece ser um mediador na relação
entre educação e dissolução marital (Kiernan & Mueller, 1998).
Em suma, o divórcio afeta um grande número de adultos, De facto, o número de
pessoas afectadas negativamente pelo divórcio é maior que o número de pessoas
afectadas pelo consume do tabaco que desenvolvem cancro (Wallerstein, 2005). O
Centro de Controlo de Doenças dos Estados Unidos (2007) revelou que 400.000
Americanos morrem cada ano devido ao consumo de tabaco que corresponde a menos
de 1% comparado com os 10% de adultos e crianças que experienciam problemas
graves devido ao divórcio.
O presente estudo teve por objectivo a criação de um questionário que avaliasse
as vivências do processo de separação e divórcio por parte das mulheres com
filhos no sentido de rastrear no futuro as mulheres com dificuldades para
poderem ser referenciadas para programas de intervenção psicológica, e desta
forma minorar o impacto do divórcio nelas e seus filhos.
MÉTODO
Participantes
Participaram nesta investigação 165 mulheres separadas e divorciadas, com pelo
menos um filho do casamento, com idades actuais compreendidas entre os 24 e os
55 anos (mediana=38, média=38.8, desvio padrão=8.1). As idades do casamento
estão compreendidas entre os 16 e os 35 anos (média=22.8, desvio padrão=4).
Em termos de escolaridade, 46.6% das mulheres têm como grau de escolaridade
máximo o 9º ano, 30.7% tem escolaridade compreendida entre o 10º ano e o 12º
ano completo e 22.7% tem o bacharelato ou licenciatura. As mulheres têm entre 1
e 5 filhos, sendo que 93.3% tem 1 ou 2 filhos. Apenas 2.5% eram reformadas e
4.3% estavam desempregadas, As restantes encontravam-se no activo. Na altura da
separação, 66.9% residiam em zona urbana e 33.1% em zona rural.
Da totalidade da amostra, 71.9% mulheres são divorciadas e 28.1% estão
separadas de facto. No que respeita aos fundamentos do divórcio judicial, 33.8%
seguiram a via do divórcio litigioso e 66.2% seguiram a via do divórcio por
mútuo consentimento. No que se refere à culpa na separação, 36.8% das mulheres
consideram que a culpa da separação é exclusivamente do excônjuge e em 39.3%
consideram que a culpa é de ambos.
Instrumento
As participantes preencheram um questionário constituído por uma série de
afirmações relativas ao casamento, separação e divórcio. Para cada afirmação
são propostas cinco possibilidades de resposta, numa escala tipo de Likert de 5
pontos: 1="discordo totalmente", 2="discordo",
3="nem concordo nem discordo", 4="concordo" e
5="concordo totalmente".
O presente questionário foi elaborado a partir de narrativas de mulheres
separadas e divorciadas tendo os dados sido tratados através do
softwareinformático NUD*IST. Foram realizadas entrevistas não estruturadas, com
apenas duas perguntas abertas: 1 - "Gostaria que me falasse do seu
processo de separação"; 2 - "Como viveu o processo em termos
emocionais". Através de um processo de categorização emergente foram
identificadas categorias, subcategorias e tópicos, que deram origem à
construção do Inventário Feminino de Vivências do Processo de Separação e
Divórcio (IFVPSD). Os itens foram formulados a partir das categorias,
subcategorias e tópicos da categorização emergente (Pinto & Pereira, 2005).
Procedimento
As mulheres foram identificadas através do Tribunal de Família e de Menores de
Braga e das equipas do Instituto de Reinserção Social do Núcleo de Braga. A
participação foi voluntária. As mulheres foram convidadas a participar quando
se deslocavam ao tribunal de menores ou ao instituto.
Análise de dados
Para estudar a validade de conteúdo, procedeu-se a realização duma analise
factorial exploratória tendo-se procedido previamente à realização do teste de
esfericidade de Bartlett (sig≤.001) e a medida de adequação da amostra de
Kaiser-Meyer-Olkin com o objectivo de aferir da adequabilidade da amostra à
análise factorial. Apresentam-se as saturações para cada item que compõe a
escala e os valores próprios e a variância explicada por cada factor após a
rotação pelo método ortogonal de Varimax bem como a média, o desvio padrão e o
alfa da Cronbach para cada escala e as correlações entre cada item e o total da
escala.
Posteriormente para analisar as diferenças nas cinco dimensões do questionário
ao nível da escolaridade, perceção da culpa na separação e tipo de divórcio,
foram realizadas Manovas dados os pressupostos, nos três casos, para a
utilização de testes paramétricos estarem cumpridos.
RESULTADOS
Pelo teste de esfericidade de Bartlett (sig≤.001) e pela medida de adequação da
amostra de Kaiser-Meyer-Olkin (KMO .753) concluiu-se pela existência de
correlações significativas entre as variáveis em análise e, concomitantemente,
pela adequação da amostra à análise factorial. Com base no scree plot, foram,
considerados apenas 5 factores, com uma explicação da variância superior a 8% e
com valores próprios superiores a 2.5, explicando 49.25% da variância total.
Neste contexto, o primeiro factor explica 11.08%, o segundo factor explica
10.62%, o terceiro factor explica 10.53%, o quarto factor explica 8.92% e o
quinto factor explica 8.10% da variância. Assim, o primeiro factor, constituído
por 6 itens, com uma explicação de 11.08% da variância apresenta um alfa de
Cronbach de .82 (Tabela_1) remete-nos para a crise conjugal e conflitualidade
durante o casamento, bem como para o desejo e previsibilidade da separação.
Este factor centra-se na crise relacional e no conflito anterior ao processo de
separação, pelo que denominamos esta dimensão de disfuncionalidade conjugal.
Assim, valores elevados neste factor remetem-nos para um mau relacionamento
conjugal. Neste sentido, os itens 4 e 5 são cotados de forma inversa (Tabela
1).
O segundo factor explica 10.62% e apresenta um alfa de Cronbach de .81 (Tabela
2) e remete para o relacionamento com o ex-cônjuge, quer nos aspectos
referentes ao relacionamento com o ex-cônjuge de uma forma directa, quer
através do relacionamento do ex-cônjuge com os filhos.
Como podemos observar, o segundo factor inclui itens relativos ao
relacionamento com o excônjuge ao longo do processo de separação, mas também
após a separação. Inclui constructos relacionados com a conjugalidade e com a
parentalidade. Valores elevados apontam para uma conflitualidade mais elevada.
Neste sentido, os itens 16, 17 e 28 são invertidos (Tabela_2).
O terceiro factor explica 10.53% da variância e tem um alfa de Cronbach de .72
(Tabela_3). Este factor centra-se nos sentimentos vivenciados no processo de
separação: sentimentos de tonalidades afectivas negativas, como solidão,
tristeza, raiva, desespero, frustração, bem como nos conflitos de identidade e
processo de luto resultantes do processo de separação.
Este factor mede as vivências emocionais, o que significa que valores elevados
neste factor apontam para vivências emocionais mais negativas (Tabela_3).
O quarto factor explica 8.92% da variância e tem uma fidelidade de .79 (Tabela
4) e centra-se na falta de apoio e suporte dos familiares e amigos. Denominamos
este factor de apoio social. Valores elevados nesta dimensão apontam para
reduzido apoio social por parte de familiares e amigos. Neste sentido, os itens
9 e 15 são cotados de forma inversa (Tabela_4).
O quinto factor tem uma explicação de 8.10% da variância e possui um alfa de
Cronbach de .74 (Tabela_5), que embora mais baixo que nos anteriores factores,
se situa em valores considerados aceitáveis (Almeida & Freire, 1997).
O quinto factor remete-nos para a adaptação à separação, e para a forma como as
mulheres separadas e divorciadas superaram as dificuldades inerentes à
separação. Assim esta dimensão aponta para a recuperação pós separação, isto é
para a adaptação à separação. Valores elevados nesta dimensão apontam no
sentido de uma má adaptação à separação. Neste sentido, o item 26 é cotado de
forma inversa (Tabela_5)
Diferenças nas Dimensões do IFVPSD em função do Nível de Escolaridade
No nível de escolaridade mais baixa, até ao 9º ano, a disfuncionalidade
conjugal e emocionalidade negativa são mais elevadas (Tabela_6). Os testes de
Scheffé revelaram que as diferenças significativas só se situam entre o grupo
de ensino básico e o grupo de ensino secundário ao nível emocionalidade
negativa (p=.020) e ao nível da disfuncionalidade conjugal mas, neste caso,
apenas para um nível de significância de 10% (p=.087).
Diferenças nas Dimensões do IFVPSD em função Tipo de Divórcio Judicial
Verificaram-se diferenças nas dimensões disfuncionalidade conjugal e conflito
entre o divórcio litigioso versus mútuo consentimento com ambas dimensões a
apresentarem resultados superiores no divórcio litigioso (Tabela_7).
Diferenças nas dimensões do IFVPSD em função da Perceção da Culpa na Separação
As mulheres que atribuem, a "culpa" da separação exclusivamente ao
marido vivenciam de forma mais negativa o processo de separação do que aquelas
que repartem as culpas da separação com o ex-cônjuge. Os testes de Scheffé
revelaram que a diferença se situa entre a culpa atribuída ao ex-marido
versusatribuída a ambos (p=.018).
DISCUSSÃO
As mulheres com escolaridade mais baixa apresentam mais disfuncionalidade
conjugal e conflito. Estes resultados estão provavelmente associados ao facto
de serem mais vítimas de maus tratos enquanto que as mulheres de escolaridade
elevada percepcionam mais frequentemente como motivos de separação as
incompatibilidades pessoais, como verificamos nos resultados do questionário
demográfico, o que explica em particular, ao nível da disfuncionalidade. Para
um nível de conflitualidade mais elevado contribui esta ligação contínua à
disfuncionalidade, mas também o facto de no presente estudo, existir maior
representatividade das mulheres de escolaridade baixa no divórcio litigioso. De
facto, a literatura, refere que as mulheres de escolaridade mais baixa
percepcionam a ruptura do seu casamento devida a motivos de separação ligados à
sobrevivência, enquanto nas mulheres de escolaridade mais elevada valorizam
mais a insuficiente qualidade da relação, i. é, a dimensão afectivo-relacional
(Ambert, 2009).
Os resultados obtidos apontam para a existência de diferenças ao nível da
conflituosidade no divórcio litigioso e por mútuo consentimento, como seria de
esperar. A percentagem de divórcios litigiosos em Portugal tem vindo a
decrescer, embora muitos dos divórcios, iniciados através de um processo
litigioso sejam depois convertidos em divórcios por mútuo consentimento. Os
divórcios litigiosos decorrem num prazo mais alargado e em tribunal, sendo
necessário fazer prova da violação culposa e reiterada de um, ou mais dos
deveres conjugais, com testemunhas e com todo o ritual judiciário (De Oliveira,
2002). Segundo o autor, a política legislativa relativamente ao divórcio
conheceu alterações significativas nas últimas décadas. A alteração legislativa
mais importante, tem a ver com a introdução do divórcio sem culpa ou divórcio
por mútuo consentimento. O divórcio por mútuo consentimento não requer que uma
das partes seja declarada culpada e pode ser obtido quando ambos os cônjuges
estão de acordo que a continuação do casamento é incompatível. Nesta
perspectiva, o divórcio por mútuo consentimento parte do princípio, como refere
Guttmann (1993), que as diferenças de personalidade irreconciliáveis provocaram
a ruptura do casamento.
De facto, o divórcio por mútuo consentimento baseia-se no facto de não ser
necessário declarar a culpa, isto é, ambos os cônjuges aceitam que o casamento
falhou devido a incompatibilidades pessoais. Ao invés, o divórcio litigioso é
um divórcio sanção e assenta numa violação reiterada de um ou mais dos deveres
conjugais (De Oliveira, 2002).
Por outro lado, as mulheres que seguem a via do divórcio litigioso fazem-no
habitualmente porque não conseguem resolver algumas divergências no processo de
separação por via consensual, e daí ser natural, que as mulheres que seguem a
via do divórcio litigioso tenham um nível mais elevado de disfuncionalidade
conjugal. Acresce, também, que o ritual dos tribunais, com a necessária
atribuição da culpa a um dos cônjuges, acaba por dificultar um entendimento pós
divórcio agravando a conflitualidade. Neste contexto, se o ritual judiciário do
divórcio litigioso tende a agravar o conflito, a determinação da culpa, acaba
por ditar que um dos cônjuges sai vencedor e outro perdedor, o que tenderá a
exacerbá-lo e a vincar as emoções negativas (Tesler & Thompson, 2008).
Assim, da análise dos resultados, conclui-se que as mulheres que recorrem ao
divórcio litigioso eram também as mulheres que já apresentavam maior
conflitualidade relacional.
Em termos de culpa, as mulheres, habitualmente, culpam o ex-cônjuge em
exclusividade da separação, ou a ambos, mas raramente se culpam unicamente a si
próprias. Na nossa amostra, das 96 mulheres nenhuma se culpa a si própria em
exclusivo. Assim, também se verifica que as mulheres que atribuem, a
"culpa" da separação exclusivamente ao marido vivenciam de forma
mais negativa o processo de separação do que aquelas que repartem as culpas da
separação com o ex-cônjuge. Parece, pois, que as mulheres ao partilharem a
responsabilidade da separação assumem-na internamente, o que contribuirá para
ajudar a reorganizar e recuperar emocionalmente após o divórcio e a perdoar
(Enright & Fitzgibbons, 2000). Ao invés, a atribuição da responsabi lidade
ao ex-cônjuge, a projecção da culpa no "outro", não ajuda a
reorganizar internamente os sentimentos e emoções e poderá contribuir para
tornar as emoções negativas mais vincadas e prolongadas enfatizando sentimentos
de vingança e rejeição muitas vezes associados ao desejo de ter algum controlo
na situação e restaurar a dignidade perdida (Fitness, 2001). A atribuição da
responsabilidade ao ex-cônjuge poderá contribuir para tornar as emoções
negativas mais vincadas e prolongadas. Investigações futuras são necessárias
para testar esta hipótese.
Por outro lado, quando as mulheres assumem que a culpa é dos dois cônjuges,
provavelmente o casamento estava baseado numa dimensão afectiva-relacional e a
sua ruptura deve-se, em grande medida, a características de incompatibilidade
pessoal. Investigação futura deveria testar esta hipótese tendo em consideração
a relação entre atribuição de culpa e motivos do divórcio em ambos os cônjuges.
Este estudo apresenta algumas limitações em relação à sua validade externa,
nomeadamente a amostra ter sido recolhida só numa região do país, com
especificidades próprias, especialmente no que se refere à ambiência religiosa
que, como vimos é um importante aspecto a ter em consideração na análise da
problemática da separação e divórcio.
Investigações futuras devem avaliar se a duração do casamento funciona como um
factor moderador entre cada uma das dimensões avaliadas e o ajustamento a
monoparentalidade, por um lado, e de que forma estas vivências do processo de
separação e divórcio contribuem para o ajustamento dos filhos e para o
ajustamento a uma nova reconstrução familiar.