O impacto dos estilos educativos parentais e do desenvolvimento vocacional no
rendimento escolar de adolescentes
O impacto dos estilos educativos parentais e do desenvolvimento vocacional no
rendimento escolar de adolescentes
Ana Prata; Maria Barbosa-Ducharne; Carlos Gonçalves; Orlanda Cruz*
*Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, Universidade do Porto
Correspondência
ABSTRACT
Understanding the complexity of school failure and school dropout has been one
of the main concerns of research in recent decades, being not only the object
of general interest, but also providing the substance for critics regarding a
school of masses. The present research focuses on the analysis of family and
individual predictors of adolescents' school achievement. Participants
were 222 adolescents aged between 14 and 16 years, attending the 9th grade.
Data collection was made on higher/secondary schools with a Portuguese version
of the Parenting Scales and the Vocational Exploration and Investment
Questionnaire. Results indicated three main predictors of school achievement
amongst teenagers namely, mothers' school years, parental monitoring and
vocational investment. Results are discussed from a psychosocial standpoint and
implications for psychological intervention are drawn.
Key-words:Parenting practices, School achievement, Vocational development.
O insucesso escolar e o abandono precoce da escola são, direta e indiretamente,
o resultado de uma sociedade que, no desenho das suas políticas sociais e
educativas, não tem realizado os investimentos adequados e necessários para
esbater o fenómeno de discriminação oriunda dos contextos mais vulneráveis do
ponto de vista social, cultural e económico. Com a globalização, as sociedades
que não conseguem travar este fenómeno, tornam-se cada vez menos competitivas e
menos influentes. Por conseguinte, há que investir na educação de forma a
reduzir o insucesso e consequente abandono escolar, tornando a sociedade mais
instruída e qualificada. Para que isso seja possível, importa perceber quais os
fatores determinantes e geradores de in/sucesso e abandono escolar.
A presente investigação encontra-se inserida num estudo longitudinal iniciado
em 2007, e que pretende estudar o percurso escolar de alunos entre o 7º e o 11º
anos de escolaridade, analisando decisões e projetos vocacionais e
identificando os determinantes do sucesso e insucesso escolar e/ou do abandono
da escola. No presente estudo pretende-se identificar as variáveis preditores
do rendimento escolar dos alunos, no 9º ano de escolaridade.
À luz do modelo bioecológico (Bronfenbrenner, 2001/2005), os fatores intra-
individuais e os fatores inter-individuais (que se referem ao ambiente
envolvente, mais ou menos próximo), facilitam ou inibem os comportamentos do
sujeito, em particular, o seu desempenho escolar (Sallis & Owen, 1997). No
entanto, este modelo postula que a influência destes fatores não se exerce de
forma linear e independente, mas através da integração dos seus efeitos de
interação (Canavarro, 2007). Por outro lado, o contexto em que o
desenvolvimento ocorre é conceptualizado como um sistema de sistemas,
progressivamente mais afastados do sujeito em desenvolvimento, mas exercendo a
sua influência - os micro, meso e exossistemas - os quais operam
num determinado contexto macrossistémico, sensível às mudanças associadas ao
tempo. É também neste contexto macrossocial que se torna pertinente, quer do
ponto de vista da investigação quer pela sua relevância na agenda social,
analisar os constrangimentos complexos com que se confrontam os adolescentes da
atualidade para realizarem uma das tarefas mais decisivas e centralizadoras da
sua identidade: a escolha de um projeto vocacional. As grandes transformações
verificadas no mundo do trabalho, consequência de fenómenos macrossociais, como
a escassez e a precaridade do emprego, o desemprego estrutural, a não
correspondência entre formação e trabalho e, especialmente, a tomada de
consciência de que a incerteza é provavelmente a única certeza razoável quanto
à evolução futura do mundo do trabalho, tornam ainda mais premente e desafiante
esta tarefa desenvolvimentista de realização pessoal num mundo turbulento e
inseguro (Gonçalves, 2008).
O desenvolvimento vocacional pode ser abordado a partir de diversos pontos de
vista. Contudo assume-se que a perspetiva ecológico-desenvolvimentista e
construtivista se apresenta como o modelo capaz de avançar as respostas mais
viáveis e plausíveis aos desafios da contemporanei dade, anteriormente
referidos: a incerteza e a turbulência face ao futuro (Gonçalves, 2008). Assim,
à luz desta perspetiva, o desenvolvimento vocacional poderá ser percecionado
como um processo de construções e reconstruções de significados e
representações, que o self estabelece na relação com os diversos contextos em
que se insere (Vondracek & Fouad, 1994). Neste sentido, o desenvolvimento
vocacional é visto como um processo interativo onde o indivíduo tanto
influencia como é influenciado pelas características sociais, culturais e
físicas do seu ambiente (Whiston & Keller, 2004). Isto é, face aos
questionamentos do mundo atual torna-se cada vez mais óbvio que os projetos
vocacionais não se descobrem, mas são construídos nos contornos das
oportunidades que os contextos histórico-sociais viabilizam ou impossibilitam
(Gonçalves, 2008).
O desenvolvimento vocacional é concetualizado como uma dimensão através da qual
o desenvolvimento psicológico global se pode concretizar (Gonçalves, 2008). Os
dois processos psicológicos estruturantes e ativadores do desenvolvimento
vocacional são: a exploração e o investimento. Estes processos psicológicos
estruturantes permitem compreender de forma mais adequada o desenvolvimento
vocacional, porque é mediante a exploração, através da relação que o sujeito
estabelece com os segmentos da realidade física e social, que o sujeito
transforma e reconstrói os seus investimentos vocacionais atuais atribuindo-
lhes novos significados (Campos & Coimbra, 1991).
A perspetiva de Erikson (1968) de que os processos psicológicos de exploração e
investimento são responsáveis pelo desenvolvimento profissional/vocacional, no
sentido daquilo "que sou" e do "que acredito", foi
operacionalizada por Marcia (1966, 1980, 1986), através de um modelo de quatro
formas, estilos e momentos de aquisição da identidade, designado por Modelo dos
Estatutos de Identidade: a Identidade Realizada, a Identidade Outorgada, a
Identidade Moratória e a Identidade Difusão (Costa, 1991). Cada estatuto é
definido mediante a presença ou ausência dos processos psicológicos centrais de
exploração e investimento, concretizados nos vários estatutos com que os
adolescentes se confrontam face à escolha vocacional.
Os estudantes que construíram uma forte identidade obtêm melhores resultados
escolares, levando a cabo tarefas mais orientadas e concebendo o próprio
trabalho e esforço como importante e determinantes para o seu futuro (Cross
& Allen, 1970; Was, Al-Harthy, Stack-Oden, & Isaacson, 2009).
Para além da influência do desenvolvimento vocacional na edificação de projetos
futuros e no rendimento escolar dos adolescentes, também as práticas e estilos
educativos e parentais se têm revelado preponderantes no desempenho escolar dos
filhos. Neste sentido, os estilos educativos parentais e as dimensões
comportamentais que os definem, têm surgido de forma consistente, como
determinantes fundamentais do desenvolvimento e adaptação da criança e do
adolescente (Barbosa-Ducharne, Cruz, Marinho, & Grande, 2006; Cruz, 2005;
Slicker, 1998; Steinberg, Elman, & Mounts, 1989).
Originalmente proposto por Baumrind (1973), o conceito de estilo educativo
parental refere-se à forma como os pais lidam com questões como a hierarquia, o
poder e o apoio emocional na relação que estabelecem com os filhos,
influenciando de modo significativo diferentes áreas do seu desenvolvimento
psicossocial, nomeadamente o seu ajustamento social e o seu rendimento escolar.
De acordo com a abordagem tipológica, existem quatro estilos educativos:
autorizado, autoritário, permissivo e negligente. Duas dimensões da atuação
parental - a Aceitação/responsividade e a Monitorização/exigência -
têm sido identificadas como determinantes na definição do ambiente educativo no
qual as crianças crescem (Maccoby & Martin, 1983). Estes autores consideram
a aceitação/responsividade inserida no domínio afetivo-emocional, designando-
a como a sensibilidade que os pais revelam face às necessidades e interesses
dos filhos, reportando-se a atitudes compreensivas que os pais têm para com os
filhos, visando através do apoio emocional e da bidirecionalidade na
comunicação, favorecer o desenvolvimento da autonomia e da auto afirmação dos
jovens (Costa, Teixeira, & Gomes, 2000; Palos, Ocampo, Casarín, Ochoa,
& Rivera, 2012). Já a monitorização/exigência é entendida por Maccoby e
Martin (1983), como o controlo exercido pelos pais no sentido de fazer cumprir
as regras e os limites ditados pelas normas sociais e morais. Esta dimensão
inclui todas as atitudes dos pais que buscam de alguma forma regular o
comportamento dos filhos (Costa, Teixeira, & Gomes, 2000; Lopes, Calvo,
& Caro, 2008).
A dimensão aceitação/responsividade parental tem sido associada ao
desenvolvimento do autoconceito positivo, autoconfiança e bem-estar. Por seu
turno a monitorização/exigência parece evidenciar uma associação com a
regulação do comportamento da criança ou do adolescente, podendo assim reduzir
comportamentos desviantes (Justo & Lipp, 2010; Lamborn, Mounts, Steinberg,
& Dornbusch, 1991).
Pais que demonstram elevada aceitação, envolvimento e grande rigor e
supervisão, promovem níveis elevados de maturidade psicossocial e competência
escolar (Dornbusch, Ritter, Leiderman, Roberts, & Fraleigh, 1987; Strage
& Brandt, 1999). Os pais influenciam o rendimento escolar dos filhos
através do seu envolvimento nas actividades escolares, como por exemplo, ajudar
os filhos com os trabalhos de casa, estar presente nas reuniões com os
directores de turma e, também, através de encorajamentos específicos,
explícitos e implícitos, que mantenham e promovam o desempenho escolar
(Steinberg, Lamborn, Dornbusch, & Darling, 1992). A associação entre
envolvimento escolar dos pais e o sucesso escolar dos filhos pode ser explicado
pelo facto dos alunos mais acompanhados serem mais incentivados, mas também
porque o acompanhamento dos filhos garante o aproveitamento necessário ao
progresso escolar. Assim, o investimento escolar surge positivamente associado
a um conjunto de dinâmicas familiares, nomeadamente a supervisão (Cia, Pamplin,
& Williams, 2008), a autodisciplina em relação ao trabalho escolar, e a
ênfase dos pais na obediência e na autonomia dos filhos (Diogo, 2008).
A nível individual, o desenvolvimento vocacional, e a nível familiar, as
práticas educativas parentais, surgem como determinantes importantes no
percurso escolar dos alunos. É, porém, necessário ter em conta que cada um
destes determinantes, quer individual, quer familiar, não intervém isoladamente
mas sempre em interação. Neste sentido, o objetivo geral desta investigação é a
identificação do impacto diferenciado das práticas educativas parentais e do
desenvolvimento vocacional dos adolescentes do 9º ano de escolaridade, no seu
rendimento escolar. Mais especifica mente pretende-se: (1) identificar
comportamentos de exploração e investimento vocacional dos adolescentes; (2)
identificar a perceção que os adolescentes têm dos comportamentos parentais de
aceitação/responsividade e monitorização/exigência (3) identificar o impacto do
desenvolvimento vocacional e das práticas educativas parentais no rendimento
escolar.
MÉTODO
Participantes
Participaram neste estudo 222 adolescentes com idades compreendidas entre os 14
e os 16 anos (M=14.24; DP=0.51), 129 dos quais do sexo feminino (58.1%) e 93 do
sexo masculino (41.9%). Todos se encontram a frequentar o 9ºano de
escolaridade. Os pais estudaram em média 10.93 anos (DP=5.18) e as mães 11.44
anos (DP=5.35).
Instrumentos e procedimento
Foi utilizado um questionário sociodemográfico para recolher dados
demográficos, académicos e socioeconómicos e culturais, relativos ao
adolescente (idade, género, percurso escolar, prosseguimento de estudos e
interesses profissionais) e à família (estado civil dos pais, situação
profissional e escolaridade). A avaliação do rendimento escolar dos
participantes foi feita a partir da consulta das pautas de cada período letivo,
cedidas pela direção das Escolas. Foi calculada a média das classificações nas
disciplinas frequentadas.
O Questionário de Estilos Educativos Parentais (QEEP, Barbosa-Ducharne et al.,
2006; Cruz, Raposo, Ducharne, Almeida, Teixeira, & Fernandes, 2011),
adaptado das Parenting Scales(Lamborn, Mounts, Steinberg, & Dornbuch,1991)
foi utilizado com o objetivo de avaliar a perceção que os adolescentes têm dos
comportamentos parentais. O QEEP é constituído por 19 itens organizado em duas
subescalas - Aceitação/responsividade e Monitorização/exigência - e
permite a identificação dos quatro estilos educativos parentais propostos por
Baumrind (1973). As respostas obtidas a cada item são cotadas numa escala tipo
Likertentre 1 e 4, em que 1 significa nada e 4 muito. Os valores de alfa
obtidos foram de 0.81 para a Aceitação/responsividade e de 0.84 para a
Monitorização/exigência. Para cada dimensão foi calculada a média da pontuação
dos itens correspondentes.
A Escala de Exploração e Investimento Vocacional foi construída a partir da
reformulação da Commitment to Career Choice Scale(Blustein, Ellis, &
Devenis, 1989). Este instrumento é constituído por 42 itens, agrupados em cinco
dimensões ou fatores, avaliando diferentes processos do desenvolvimento
vocacional - Exploração Vocacional, Investimento Vocacional, Difusão,
Outorgado Tendência a Excluir Escolhas e Outorgado em Relação aos
Significativos.As respostas obtidas a cada item, discriminam o grau de
intensidade de desacordo e acordo, através de uma escala tipo Likertentre 1
(discordo sempre) e 6 (concordo sempre). No presente estudo, os valores de alfa
para cada sub-escala foram os seguintes: Exploração - 0.85, Investimento
- 0.80, Difusão - 0.74, Outorgado Tendência a Excluir Escolhas
- 0.73 e Outorgado em relação aos significativos - 0.56. Refira-se
que a pontuação de cada subescala constituiu a média da pontuação dos itens
correspondentes. Neste estudo serão apenas utilizadas as dimensões de
Exploração e Investimento.
O rendimento escolar foi operacionalizado a partir das notas obtidas pelos
adolescentes tendo sido considerada a média das notas obtidas em todas as
disciplinas.
RESULTADOS
A Tabela_1 apresenta as estatísticas descritivas relativas ao rendimento
escolar e às dimensões do desenvolvimento vocacional (exploração e
investimento) e da atuação parental (aceitação e monitorização).
Os resultados indicam que os participantes apresentam níveis mais altos de
investimento do que de exploração vocacional e que percecionam os pais como
manifestando níveis elevados de aceitação e monitorização. Os valores
encontrados não se diferenciam em função do sexo dos adolescentes.
A Tabela_2 revela uma correlação positiva de valor moderado entre as dimensões
aceitação e monitorização parental, sendo que os pais mais calorosos também
tendem a procurar saber mais acerca do que os seus filhos fazem, onde estão e
com quem, quando não estão em casa. Constata-se ainda uma correlação negativa
de valor moderado entre as dimensões exploração e investimento vocacional,
sugerindo que, à medida que o nível de investimento aumenta, o nível de
exploração tende a diminuir. Verificou-se, ainda, que o investimento vocacional
se correlaciona positivamente com a aceitação parental e com a monitorização
parental, sendo ambas as correlações de valor baixo.
O rendimento escolar dos adolescentes evidencia uma correlação positiva média
com o investimento vocacional e uma correlação fraca positiva com a
monitorização parental.
Tendo em vista identificar os preditores do rendimento escolar, foi construído
um modelo de regressão (Tabela_3). A fim de controlar a variância explicada
pela escolaridade das mães, esta variável foi incluída no primeiro passo. Em
passos sucessivos foram incluídas a monitorização parental e o investimento
vocacional.
Os dados da Tabela_3 confirmam o papel da monitorização parental e do
investimento vocacional como preditores do rendimento escolar dos adolescentes.
DISCUSSÃO
Os participantes deste estudo são alunos do 9º ano de escolaridade e encontram-
se numa etapa do desenvolvimento vocacional de forte questionamento face à
escolha de um curso do ensino secundário. Trata-se de uma tarefa emocionalmente
exigente, do ponto de vista pessoal e social, implicando a realização de
atividades de exploração vocacional, que poderão ser reduzidas ou até
interrompidas (tendência à exclusão de escolhas ou outorgado), para evitar o
confronto com as situações de desconforto e ansiedade despoletadas ao longo do
processo de exploração (Blustein & Philips, 1990).
Face à importância que se vem atribuindo à formação no espaço europeu nas
últimas décadas, como um instrumento inquestionável para a inclusão pessoal e
social e como fator determinante para o desenvolvimento do capital humano, tem-
se registado em Portugal, um decréscimo das taxas de analfabetismo e de
abandono escolar pelo investimento nas várias modalidades de formação. A
criação dos Centros Novas Oportunidades na educação e formação de adultos que
abandonaram precocemente a escola por falta de oportunidades ou para as
garantirem às gerações mais novas (filhos e netos), o alargamento e
diversificação da oferta de cursos profissionalizantes e a extensão do ensino
obrigatório até aos 12 anos de escolaridade, são medidas que vêm sendo
implementadas com vista a combater o insucesso escolar, o abandono escolar e
aumentar o capital humano dos cidadãos para os transformar em cidadãos críticos
e participativos (Imaginário & Castro, 2011).
Assumindo a problemática do in/sucesso e abandono escolar precoce como uma
preocupação prioritária, pelo seu impacto negativo no desenvolvimento pessoal,
social, económico, político e cultural do nosso País, várias investigações têm
sido desenvolvidas com o intuito de melhor compreender este fenómeno,
procurando construir soluções políticas e sociais para reduzir estes efeitos.
Neste sentido, no âmbito deste estudo, entendemos que seria relevante e uma
mais-valia para a compreensão do mesmo, explorar os determinantes micro e
macrossociais que estão subjacentes ao insucesso escolar e ao abandono escolar
precoce.
Dos resultados obtidos, no âmbito deste estudo, destaca-se, como principal
preditor do rendimento escolar dos adolescentes, a escolaridade materna, facto
que corrobora o que tem vindo a ser defendido na literatura vigente, estando
esta questão fortemente relacionada com o nível sociocultural de origem do
aluno; ou seja, o insucesso escolar não atinge de igual modo todas as classes e
grupos sociais. Não é irrelevante viver em ghettosde exclusão social ou viver
em zonas privilegiadas onde se pode aceder às oportunidades de maior
viabilização de sucesso, pertencer a uma classe social ou a outra. O sucesso e
o acesso às melhores oportunidades estão principalmente determinados pelo
contexto social de pertença e não por determinantes intra-individuais
(Gonçalves, 2008).
Os resultados deste estudo revelam ainda que os níveis de monitorização
parental e de investimento vocacional podem predizer os níveis de rendimento
escolar dos adolescentes. Relativamente à monitorização, estes resultados vêm
corroborar os dados da literatura (Cia et al., 2008). Quanto ao investimento
vocacional, este verifica-se quando o indivíduo faz escolhas relativamente
firmes de elementos de identidade e ações dirigidas para as implementar,
havendo uma preparação para o desempenho de papéis futuros, de acordo com
objetivos e valores definidos a priori, fornecendo um mecanismo de integração
do passado com o futuro (Costa, 1991). O investimento supõe mobilizar o sujeito
para realizar ações concretas de exploração nas várias dimensões da vida e para
envolver-se ativamente na consecução de objetivos. Neste caso específico,
investir nos resultados escolares implica compreendê-los, antecipadamente, como
preditores de oportunidades de acesso a cursos/formações e profissões mais
apetecíveis do ponto de vista dos interesses pessoais e do estatuto social dos
mesmos.
Neste estudo a monitorização parental e o investimento vocacional indiciam
constituir-se como determinantes para o rendimento escolar dos adolescentes,
sendo importante ter em conta que não atuam isoladamente, mas cumulativamente.
Neste sentido, estes resultados corroboram a perspetiva ecológico-
desenvolvimentista, reforçando a importância que uma multiplicidade de fatores
intra-individuais, inter-individuais e macrossistémicos exerce sobre o
rendimento escolar.
Na contemporaneidade, face ao cenário a que assistimos, marcado pela incerteza
e pela imprevisibilidade que o futuro descarrega no presente, em que as
relações entre formações, profissões e trabalho têm um carácter cada vez mais
descontínuo, incerto, precário e temporário, torna-se premente o
desenvolvimento de intervenções que permitam e promovam condições para a
exploração reconstrutiva do investimento vocacional dos adolescentes, jovens e
adultos, constituindo-se como autênticas oportunidades para a inclusão social e
empoderamento dos sujeitos para se assumirem como cidadãos críticos,
participativos e autores das suas próprias vidas na relação com os outros
(Monteiro & Gonçalves, 2011). A comunidade escolar deverá assumir um papel
decisivo neste processo para que os Serviços de Psicologia e Orientação se
convertam em espaços para o questionamento e o desenvolvimento pessoal e social
e não para a adaptação e acomodação constituindo-se em indústrias de
programascontribuindo para a proletarização do Ser (sujeito psicológico)
reduzindo-o a um objeto de consumo, legitimando uma cultura desindividuante,
produtora de produtos tóxicos e descartáveis, subordinando-se aos desejos
insaciáveis do hiperconsumo de uma ordem economicista e tecnicizante dominantes
(Stiegler, 2004).
Um das implicações deste estudo para a intervenção é a necessidade de se
continuar a investir na intervenção na consultoria parental para capacitar os
significativos em competências parentais, de forma a melhorar o nível de
informação dos pais, a aumentar a sua mestria no acesso aos recursos da
comunidade, a implicá-los nas atividades escolares dos filhos, desenvolvendo
uma forma de relação mais responsável no seio da família e, consequentemente,
melhorando o bemestar individual dos seus componentes.